Profª Isabel Cristina Simonato



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Profª Isabel Cristina Simonato






A REVOLUÇÃO CUBANA DE 1959
A revolução ocorrida em Cuba em 1959 foi além das reformas populistas1 promovidas por alguns governos latino-americanos, como Vargas no Brasil, Perón na Argentina e Cárdenas no México. Os revolucionários cubanos apresentaram-se como transformadores das estruturas sociais, econômicas e políticas do país. Não se tratava apenas de mais uma ampla mobilização das massas contra o predomínio das oligarquias agrárias e do atendimento das aspirações dos trabalhadores, mas sim de uma revolução social de orientação socialista.
CUBA

A independência de Cuba só foi conseguida no final do século XIX. Entretanto, a emancipação foi acompanhada do “direito de intervenção” por parte dos Estados Unidos. Isto porque foi incluída na Constituição do novo país a Emenda Platt, que dava aos norte-americanos o direito de intervir nos assuntos internos de Cuba e que negava à ilha sua soberania.

Durante as três primeiras décadas do século XX, foi intensa a penetração norte-americana na economia cubana. Segundo Hector Bruit, “em 1905 havia em Cuba 13 mil colonos norte-americanos proprietários de terras avaliadas em 50 milhões de dólares. A penetração norte-americana na economia açucareira cubana se deu por meio de empréstimos hipotecários, que ao não serem saldados colocavam a usina nas mãos do banco credor. Foi esse o caso do National City Bank e do Chase National Bank, de Nova York, que já em 1927 controlavam 12 grandes engenhos dos 75 de propriedade norte-americana. Estes respondiam por 73% da produção de açúcar cubano”.

Em 1934, dentro de uma proposta de revisão da política externa norte-americana, foi revogada a Emenda Platt. Os Estados Unidos estavam, naquele momento, substituindo a política de intervenções pela “Política da Boa Vizinhança”. Os investimentos na ilha e nas demais regiões na América Latina seriam protegidos por “dirigentes de confiança”, que controlariam as forças armadas locais. Assim, compreende-se melhor a subida ao poder de Fulgêncio Batista, que instaurou uma sangrenta ditadura, durante as duas vezes que governou o país entre 1934 e 1958.

Cuba era o país do latifúndio. Havia uma forte concentração da propriedade e cerca de 40% dos trabalhadores estavam empregados na agricultura. Os operários, em sua quase totalidade, trabalhavam nas usinas de açúcar. Ao lado dos investimentos norte-americanos no setor de serviços, havia o elevado índice de mortalidade infantil, a fome, a miséria, a prostituição, o subemprego e a corrupção.

Seis anos antes da revolução, Fidel Castro proferiu um discurso ante o Tribunal de Execução de Santiago de Cuba, na época da ditadura de Batista, defendendo-se da acusação de ter comandado o assalto ao Quartel Moncada. O discurso ficou conhecido com o título de “a História me absolverá”. É impressionante a descrição que ele fez da mortalidade infantil em Cuba:


“De tanta miséria só é possível livrar-se com a morte. Para isso, sim, o Estado ajuda: a morrer. Noventa por cento das crianças do campo são devoradas pelos parasitas, que nelas se infiltram da terra pelas unhas dos pés descalços. A sociedade comove-se diante da notícia do rapto ou assassinato de uma criatura, mas permanece criminosamente indiferente diante do assassinato em massa de milhares e milhares de crianças que morrem todos os anos por falta de recursos, agonizando nos estertores do sofrimento. Seus olhos inocentes – onde se observa o brilho da morte – parecem olhar para o infinito como se pedissem perdão para o egoísmo humano e para que não caia sobre os homens a maldição de Deus. E quando um pai de família trabalha quatro meses no ano, como pode comprar roupas e medicamentos para seus filhos? Crescerão raquíticos; aos trinta não terão um dente são na boca, a terão ouvido dez milhões de discursos e, finalmente, morrerão de miséria e decepção. O acesso aos hospitais do Estado, sempre repletos, só é possível mediante a recomendação de um político influente que exigirá do desgraçado seu voto e o de toda a sua família para que Cuba continue sempre igual ou pior.”
Os guerrilheiros cubanos contaram com o apoio dos camponeses, estudantes e trabalhadores. Em 1958 começou a funcionar a Rádio Rebelde, que transmitia do território livre cubano (região de Sierra Maestra) para todo o país. Apesar da forte repressão da ditadura, os guerrilheiros empreenderam uma grande ofensiva em meados de 1958. Fidel Castro, Raul Castro, Camilo Cienfuegos e Ernesto “Che” Guevara lideraram três frentes. No dia primeiro de janeiro de 1959 as tropas fiéis ao governo se renderam.

No fragmento do discurso abaixo, Fidel Castro comenta a razão pela qual foi feita a Revolução Cubana.


Fidel Castro, Cuba livre

“O povo de Cuba condena energicamente o imperialismo da América do Norte por sua dominação grosseira e criminosa, que dura há mais de um século, de todos os povos da América Latina, que mais de uma vez viram ser invadido o solo do México, da Nicarágua, do Haiti, de Santo Domingo e de Cuba; povos estes que perderam, para um imperialismo ganancioso, terras amplas e ricas como o Texas, áreas tão vitalmente estratégicas como o Canal do Panamá, e mesmo, como no caso de Porto Rico, países inteiros foram transformados em territórios de ocupação. Essa dominação, construída sobre superioridade militar, sobre tratados injustos e sobre a colaboração vergonhosa de governos traidores, há mais de cem anos fez da nossa América – a América que Bolívar, Hidalgo, Juarez, San Martin, O’Higgins, Tiradentes, Sucre e Martí desejavam ver livre – uma zona de exploração, um quintal do império financeiro e político dos Estados Unidos, um suprimento de reserva de votos em organizações internacionais... Nesta luta por uma América Latina livre, contra a voz submissa dos que ocupam o poder como usurpadores, levanta-se agora como força invisível a voz genuína do povo, uma voz que ecoa das profundezas das minas de carvão e de estanho, das fábricas e dos engenhos de açúcar, das terras feudais onde (...) os herdeiros de Zapata e de Sandino levantam as armas da liberdade; uma voz que se ouve em poetas e romancistas, em estudantes, em mulheres e crianças, nos velhos e desamparados. A esta voz dos nossos irmãos, a Assembleia do Povo responde: estamos prontos! Cuba não faltará!”

(Discurso de Fidel Castro de 2 de setembro de 1960 conhecido como “A Primeira Declaração de Havana”.)


Em um primeiro momento, o novo governo foi composto por membros do exército rebelde e da burguesia. Os preços passaram a sofrer um rígido controle e as tarifas públicas foram reduzidas. Em 1960, o socialismo se instalou com a transferência da maioria dos meios de produção para o Estado. Várias empresas norte-americanas foram nacionalizadas e foi realizada a reforma agrária. No ano seguinte, os Estados Unidos tentaram invadir a ilha, mas foram derrotados. A seguir, Cuba enfrentou o bloqueio econômico norte-americano (as importações e as exportações foram canceladas).

O governo revolucionário deu prioridade à educação e à saúde. O analfabetismo foi erradicado e o atendimento médico foi totalmente estatizado. Segundo Héctor Bruit, em março de 1960, o Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA) havia expropriado cerca de 3/5 do território cubano e tornado exploráveis 100 mil hectares de novas terras, ocupadas com o cultivo de arroz, algodão, feijão e amendoim.

Com o início da “segunda guerra fria” (década de 1960), Cuba se tornou o alvo predileto dos ataques de propaganda dos Estados Unidos. O desaparecimento da União Soviética determinou o fim dos subsídios e dos recursos financeiros que a antiga potência socialista fornecia a Cuba, trazendo sérias dificuldades à ilha (desabastecimento, escassez de combustíveis e energia elétrica, fechamento de fábricas, falta de peças de reposição, entre outras). Não deixe de ler o artigo “Os anos de declínio” de Jo Thomas, postado no blog no texto “CUBA APÓS O FIM DA URSS”.
“Haja o que houver, continuaremos lutando pelo socialismo e pelo comunismo. Não creio que ficaremos sozinhos, mas mesmo que fiquemos e formos os últimos, não desanimaremos nem um pouco, nem um instante. (...) Nosso partido jamais deixará de se chamar Partido Comunista de Cuba. (...) Existem dois tipos de comunistas: os bons e os maus, segundo a definição do imperialismo, e estamos entre os maus. Somos maus porque somos incorrigíveis, porque não nos colocamos a jogar com o capitalismo.”

(Fidel Castro, Estado de Minas, 31.10.1989.)


A CRISE DOS MÍSSEIS EM CUBA (1962)

Diante das ameaças dos Estados Unidos, o governo cubano sentia-se acuado. O desembarque na Baía dos Porcos ocorreu em 17 de abril de 1961, um dia após Fidel declarar que a revolução era socialista e proclamar sua crença no marxismo-leninismo. Com isso, buscava o apoio político e a proteção militar da União Soviética.

O governo de Kruchev – o então premier soviético – não negou o pedido de ajuda. O projeto soviético era o de montar 16 lançadores de mísseis balísticos de médio alcance equipados com ogivas nucleares em Cuba. Os mísseis poderiam atingir a parte sul dos Estados Unidos em poucos minutos. Também planejou levar para a ilha aviões de caça, bombardeios, submarinos, soldados etc. Ogivas nucleares foram desembarcadas discretamente em Cuba.

Em 14 de outubro de 1962, aviões de espionagem norte-americanos fotografaram as bases militares e as rampas de lançamento de mísseis na ilha. Logo a seguir tomou-se conhecimento de que cargueiros soviéticos estavam a caminho de Cuba com os mísseis.

O mundo parou diante da ameaça de uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética. Enquanto milhões de pessoas no mundo esperavam a catástrofe atômica, John Kennedy e Nikita Kruchev negociaram em segredo um acordo: os Estados Unidos se comprometiam a não invadir Cuba ou apoiar qualquer agressão de grupos anticastristas à ilha. Além disso, os EUA se dispuseram a examinar a possibilidade de retirada de bases militares norte-americanas na Turquia. A contrapartida era que os soviéticos retirariam os mísseis da ilha. O governo de Cuba permaneceu fora das discussões.

Os sucessivos governos norte-americanos cumpriram o acordo de não invadir a ilha, mas mantiveram o embargo econômico, enquanto a CIA continuou a planejar formas de desestabilizar o governo cubano, principalmente assassinar Fidel Castro. Por pressão dos norte-americanos, a Organização dos Estados Americanos –OEA – suspendeu Cuba como membro da instituição.

Os planos de industrialização não puderam ser viabilizados e o governo cubano continuou investindo na produção agrícola, sobretudo o açúcar, comprada pelo bloco socialista por valores acima dos preços de mercado. Cuba manteve a economia exportadora de um produto primário, tornando-se consumidora de produtos soviéticos, incluindo o petróleo. Em 1964, Nilita Kruchev, em visita a Cuba, estabeleceu acordos comerciais com o governo de Fidel Castro, comprometendo-se a comprar a produção de açúcar da ilha. Em 1965, a compra foi de 2,1 toneladas; em 1966, de 3 milhões de toneladas; em 1967, de 4 milhões de toneladas; e nos anos seguintes, de 5 milhões. Cuba, dessa maneira, continuou com a economia baseada na produção e exportação de açúcar.

Blog: belsimonato.wordpress.com



E.E.E.M. “Emílio Nemer” – Castelo/ ES

1 Reformas implementadas em alguns países latino-americanos, que foram responsáveis pela modernização da economia e por algum avanço social, caso das leis trabalhistas criadas no período getulista no Brasil.





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