Prof. Dr. Antônio Felipe Paulino de Figueiredo Wouk. M. Sc.; Dr. Sci



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“QUALIDADE DO FILME LACRIMAL DE CÃES SUBMETIDOS À EXTRAÇÃO EXTRA-CAPSULAR BILATERAL DO CRISTALINO E TRATADOS COM DUAS FORMULAÇÕES DE ÔMEGA TRÊS VIA ORAL (NOTA PRÉVIA)”.

Prof. Dr. Antônio Felipe Paulino de Figueiredo Wouk. M.Sc.; Dr.Sci..

Professor Titular e Livre-Docente da Universidade Federal do Paraná e da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Membro Titular do Colégio Brasileiro de Oftalmologia Veterinária e do Colégio Latino-americano de Oftalmologia Veterinária.




INTRODUÇÃO
O emprego de ácidos graxos ômega três é bastante difundido em medicações dermatológicas tópicas como promotor da cicatrização e como nutracêutico com diferentes indicações, particularmente em cardiologia como hipocolesterolemiante.

Mais recentemente, muitos dos seus efeitos até então pouco conhecidos foram comprovados e entre estes estão incluídos os efeitos sobre o filme lacrimal. Sabe-se que particularmente no olho os ácidos graxos ômega três possuem efeitos imunossupressivos e antiinflamatórios, que melhoram a expressão e a adesão dos microvilos dos epitélios oculares, que promovem uma maior fluidez das secreções oriundas das glândulas tarsais (Meibomio), que promovem a função das células caliciformes da conjuntiva (Glândulas de Henley) e assim globalmente melhoram a qualidade do filme lacrimal e evitam a rápida evaporação da lágrima.

Em cães, é uma constante o quadro de olho seco após a cirurgia da catarata, principalmente quando a técnica empregada é a Extração Extra-capsular do Cristalino (EECC) quando uma extensão maior de córnea é incisada. Esta técnica segue sendo a mais empregada em Medicina Veterinária por questões econômicas e não é diferente a situação em Medicina. Em alguns casos, como nas luxações do cristalino, ela é a técnica eleita por alguns cirurgiões como sendo mais segura que a facoemulsificação.

Em relação à luxação do cristalino, os cães da raça Cocker Spaniel são predispostos assim como ao olho seco senil.

Tome-se um paciente com córnea seca, corte os nervos corneanos, produza inflamação e adicione um distúrbio da superfície ocular por suturas e medicamentos, tem-se assim a situação ideal para o desenvolvimento de uma epiteliopatia neurotrófica. É o que acontece após a EECC. Em conseqüência da epiteliopatia neurotrófica induzida ocorre uma instabilidade do filme lacrimal o que gera um círculo vicioso inflamatório que é mediado pelas Interleucinas do tipo um (IL1), agregado ao déficit de mucina na lágrima (falhas no RNA mensageiro parecem ser a causa) e ao hipoandrogenismo dos machos velhos.

Diante deste quadro, decidiu-se estudar a Síndrome do Olho Seco após Cirurgia da Catarata do ponto de vista de um novo paradigma terapêutico que é o emprego dos ácidos graxos essenciais ômega três em cães idosos predispostos ao olho seco e submetidos a EECC por luxação ou sub-luxação anterior do cristalino.



DELINEAMENTO EXPERIMENTAL
Ao longo de 14 meses, foram selecionados da casuística de dois serviços de oftalmologia universitários (Universidade Federal do Paraná e Pontifícia Universidade católica do Paraná-Brasil), 14 cães da raça Cocker Spaniel (vinte e oito olhos), machos e fêmeas, com mais de cinco anos de idade (variação de5 a 8 anos), portadores de sub-luxação ou luxação anterior do cristalino, sem glaucoma secundário e sem olho seco clínico.

Os dois olhos foram submetidos ao mesmo tempo à Extração Extra-Capsular do Cristalino mediante incisão córneo-corneana de forma clássica.

Ao acaso, sete pacientes (cinco machos e duas fêmeas) foram tratados com um comprimido de Gerioox® (Labyes) que contem 14 mg de Ácido Eicosapentaenóico (EPA) e 21 mg de Ácido Docosahexaenóico (DHA), alem de conter Vit A, Vit C, Cálcio e Antioxidantes.

Um segundo grupo de sete cães foi tratado com três cápsulas de Ômega 3 de Óleo de Peixe (Phytomare) que contem em cada cápsula 87 mg de EPA e 54 mg de DHA.

Nos dois grupos a medicação foi feita uma vez ao dia, pela manhã, após a alimentação, a partir do quinto dia de pós-operatório e por um período de 60 dias.

A avaliação oftálmica e do filme lacrimal foi feita no período pré-operatório imediato (T0) e no quinto (T5), décimo quinto (T15), trigésimo (T30), quadragésimo quinto (T45), sexagésimo (T60) e nonagésimo (T90) dias de pós-operatório. Para este fim empregou-se oftalmoscópio direto, lâmpada de fenda, teste de Schirmer 1 (TS1) e o “Break Up Time” (BUT) com fluoresceína.

Um terceiro grupo controle com quatro animais se encontra em fase final de obtenção. Neste os animais receberam durante o pós-operatório apenas antibióticos ( tobramicina por 15 dias) e corticóides tópicos (prednisona por 30 dias). Estas medicações também fizeram parte do pós-operatório do grupo Gerioox e ômega 3.

RESULTADOS
Serão apresentadas as Médias Aritméticas com o respectivo Desvio Padrão dos resultados dos testes de Schirmer 1 (TS1) e BUT nos diferentes tempos e por tratamento realizado, sendo que o grupo tratado com Gerioox® será identificado pela letra “G” e grupo tratado com Ômega 3 de Óleo de Peixe com as letras “OMG”. Não serão apresentados os dados do grupo controle porque ainda não concluído.
T0
BUT= 18,0 ± 6,0

TS1= 15,0 ± 4,0

_______________________

T5
BUT= 11,0 ± 4,0

TS1= 10,0 ± 2,0

T10 G
BUT= 11,0 ± 2,0

TS1= 11,0 ± 2,0
T10 OMG
BUT= 11,0± 3,0

TS1= 10,5 ± 2,0

________________________

T15 G
BUT= 13,0± 3,0

TS1= 12,0± 1,5
T15 OMG
BUT= 12,0± 2,5

TS1= 11,0± 1,5

________________________

T30 G
BUT= 19,0± 2,0

TS1= 17,0± 3,0
T30 OMG
BUT= 13,0± 3,0

TS1= 12,0± 2,5

________________________

T45 G
BUT= 19,0± 3,0

TS1= 18,0± 2,0
T45 OMG
BUT= 13,0± 3,0

TS1= 14,0± 2,0

________________________

T60 G
BUT= 19,5± 2,0

TS1= 19,0± 2,0
T60 OMG
BUT= 15,0± 2,0

TS1= 15,5± 2,0


T90 G
BUT= 20,0±1,0

TS1= 19,0± 1,5
T90 OMG
BUT= 18,0±1,0

TS1= 16,5±2,0


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DISCUSSÃO E CONCLUSÃO
Os resultados evidenciaram a instalação da epiteliopatia corneana neurotrófica após a EECC pelas drásticas reduções dos valores do BUT e do TS1.

Contribuem para tanto o fato de tratar-se neste estudo de uma raça predisposta ao olho seco, pacientes de meia idade e uma maioria de machos onde se pode inferir algum grau de hipoandrogenismo, todos fatores que contribuem para uma diminuição da quantidade e da qualidade da lágrima. Efetivamente com a incisão em córnea clara para a EECC boa parte dos nervos corneana é cortada e eles são importantes na auto-regulação das lágrimas porque proporcionam a sensação do reflexo que sinaliza a sua produção. A inflamação da cirurgia da catarata prejudica a produção e a estabilidade do filme lacrimal. As suturas e os colírios produzem a ruptura iatrogênica do filme lacrimal. A recuperação desta epiteliopatia neurotrófica induzida pode levar meses.

A doença do olho seco é acompanhada por vários graus de inflamação da superfície ocular. Esta inflamação contribui para o olho seco; o olho seco ocasiona respostas imuno-inflamatórias que agravam a condição, criando-se assim um círculo vicioso. Um exemplo disto é que Interleucinas do tipo 1 (IL-1) são reguladas no fluido lacrimal de pacientes com olho seco por disfunção das glândulas tarsais (Meibomio-secreção lacrimal lipídica).

Este conjunto de fatos mostra que o teste aqui realizado foi crítico do ponto de vista da quantidade e qualidade da lágrima.

Após o início do tratamento com omega 3 de óleo de peixe e com Gerioox, foi possível perceber uma evolução diferenciada dos parâmteros de quantidade (teste de Schirmer 1) e qualidade da lágrima (BUT).

Houve sem dúvida uma melhora mais rápida destes parâmetros quando do uso do Gerioox. A literatura refere que pacientes humanos com olho seco, tratados com óleo de linhaça, uma outra fonte de omega 3, 80% deles tem a sua condição em muito melhorada, dois meses após o início do tratamento. Tal fato aqui se confirmou e de uma forma mais marcante para o grupo Gerioox, ocorrendo uma pequena melhora adicional ao longo do mês seguinte.

A despeito dos dados do grupo controle negativo para omega 3 no pós-operatório não estarem completos, nossa experiência clínica anterior com pós-operatórios de cirurgia da catarata sem o seu emprego nos autoriza a dizer que a córnea se mostra mais umedecida quando da incorporação desta molécula.

Sendo assim, penso que estudos prospectivos formais são necessários para definitivamente determinar a utilidade da suplementação nutricional e de omega 3.

Como metabolicamente pode haver respostas diferenciadas às diferentes fontes de Omega 3 estas tem de ser pesquisadas, como aqui foi feito, a fim de apontar eventuais diferenças, estabelecer a dosagem ideal e mostrar os eventuais efeitos colaterais.

Como no presente estudo uma forma farmacêutica contendo menos Omega 3 (Gerioox) do que a outra fórmula testada (óleo de peixe) mas possuindo adicionalmente Vit A, Cálcio, Antioxidantes, Vit C e Vit E revelou resultados superiores de TS1 e de BUT durante todo o pós-operatório, cabe uma investigação mais detalhada dos benefícios desta formulação complexa em particular.

Para encerrar, considerada a experiência pessoal de muitos anos em cirurgia da catarata em cães, penso que estes pacientes devem ser consideradas para a terapia de suplementação de ácidos graxos essências (Omega 3) assim como de outros nutrientes em associação como é o caso do Gerioox.

BIBLIOGRAFIA:


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Prof. Tit. Dr. Antônio Felipe Paulino de Figueiredo Wouk.

Curitiba (Paraná-Brasil), 15 de agosto de 2006.




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