Primeiras Experiências Brasileiras com hdtv



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Primeiras Experiências Brasileiras com HDTV

Profº Esp. Wagner da Rosa coordenador da TV Feevale profº do Centro Universitário Feevale e FABICO/UFRGS e Profª Esp. Letícia Vieira Braga Profª Centro Universitário Feevale.


leticiabraga@feevale.br

Ao descrever a evolução da televisão de alta definição - HDTV, High Definition Television - e pontuar as primeiras experiências brasileiras com sistemas de alta definição segue-se pelo caminho da vivência, observação, compreensão e narração, identificando que, ao longo da história, o conceito de alta definição tem sido empregado associado à idéia de melhor qualidade possível em função da tecnologia desenvolvida até o momento. Discutir as transformações que essa nova tecnologia propõe exige pensar também outras mudanças proporcionadas pelas formas tecnológicas contemporâneas: era das imagens compostas pelos novos processos eletrônicos, imagens digitais, de síntese, que levam à convergência de meios, em uma mistura de internet com TV interativa e de alta definição.



Palavras-chave: HDTV; televisão; internet; interatividade.


Texto Completo



  1. Histórico da Televisão de Alta Definição

O conceito está associado à melhor qualidade possível em função da tecnologia desenvolvida até o momento. Já em 1935, quando o sistema de televisão existente era de 30 linhas e 12 quadros por segundo, David Sarnoff, da RCA, propôs um sistema de televisão com 343 linhas e 30 quadros por segundo, que foi considerado de alta definição. Em seguida a Inglaterra propôs um sistema de 405 linhas de resolução mas, logo depois, na Feira Mundial de Nova York, em 1939, foi anunciada a utilização de 525 linhas. Quando apareceu a tecnologia do sistema a cores, este foi anunciado como ‘o sistema de cor de alta definição’ e, posteriormente na Europa, chamou-se de televisão de alta definição um sistema de resolução de 625 linhas. De tudo isso se deduz que, o termo ‘alta definição’ tem sido empregado como sinônimo da melhor qualidade obtida em função do estado de desenvolvimento tecnológico. (MORENO e GARRIDO, 1999: on-line).

Foi depois do advento da televisão a cores, no final da década de 60, que o Japão começou a definir o próximo passo evolutivo para a televisão. Em 1972, a meta estabelecida foi a de ir em busca da melhoria na qualidade da imagem, criando uma televisão de alta definição que se aproximasse do cinema.

Em 1986, grupos de estudos estabelecidos por organizações internacionais, com representantes de países europeus, dos Estados Unidos e do Japão, realizaram as primeiras experiências em conjunto para desenvolver uma televisão de alta definição A idéia era criar um padrão e transmissão da ‘TV do futuro’, a high-definition television - HDTV. Ficou convencionado que um sistema de televisão de alta definição requereria uma resolução aproximadamente igual à de um filme de 35mm, a qual corresponde a pelo menos o dobro da resolução horizontal e vertical dos sistemas de televisão tradicional. Assim, para apresentar uma definição equivalente à do filme de 35mm, a imagem eletrônica deve conter entre 1200 a 1500 linhas de varredura.1

Como o sistema conhecido até então era o analógico, depois de 14 anos de investigação, a rede pública japonesa NHK, aliada a técnicos de empresas japonesas como a Sony, desenvolveu o Hi-Vision, uma tentativa analógica de televisão de alta definição. Esse primeiro sistema de HDTV, lançado no início dos anos 70, já contava com uma tela larga de 3:5, com 1125 linhas e varrido de imagem de 60 HZ, conseguindo obter a qualidade cinematográfica de um filme de 35 mm.

Como suas pesquisas começaram a mostrar resultados, os fabricantes europeus, com medo de que se estabelecesse uma dominação oriental sobre a produção de aparelhos de TV, também resolveram criar seu próprio sistema analógico de High Definition Television, o HD-Mac. Entrando na disputa, os americanos se aliaram aos japoneses, numa tentativa de transformar o Hi-Vision em padrão mundial. Mas, no começo dos anos 90, resolveram desistir da parceria e criar sua própria fórmula, desvinculando-se dos japoneses. (PATERNOSTRO, 1999:54-6).

Nessa mesma época, especialistas franceses e americanos começaram a pensar em utilizar a informática no sistema de transmissão e recepção de tevê. Mas, a compressão digital ainda estava em um estágio embrionário e as pesquisas continuaram a insistir na criação de um modelo analógico. Enquanto os fabricantes de equipamentos de tevê continuavam apegados ao sistema analógico, as companhias de tecnologia digital apostavam na possibilidade de transformar imagens em bits. Esse processo se mostrou definitivo e, de fato, a entrada do sistema digital no mercado marca um novo estágio na história da televisão.

Dada a importância dos sistemas analógico e digital, aqui pontuados, torna-se imprescindível alguns esclarecimentos. Como o próprio nome expressa, a codificação analógica produz uma relação entre cada valor luminoso da imagem e uma quantidade correspondente de eletricidade. A imagem, convertida ganha as propriedades da energia elétrica, podendo ser enviada de um lugar a outro, por cabos ou por ondas eletromagnéticas, bem como ser registrada em fitas de compostos metálicos. Mas, ao circular, o sinal analógico acaba perdendo definição. “Essa perda é perfeitamente visível nas copiagens de fitas; quanto mais se multiplicam as gerações sucessivas de cópias, mais a imagem se deteriora em relação à master ou original, granulando, sofrendo distorções, saturando as cores e perdendo os detalhes mais finos.” (MACHADO, 1997:30).

Tudo isso muda com o digital. Na codificação digital, é atribuído um valor numérico para cada ponto de luz da imagem, de forma que estes bits matemáticos possam ser processados na memória de um computador, sofrendo qualquer tipo de manipulação, copiado quantas vezes for preciso, sem qualquer degeneração ou perda de definição.

Como muitas outras tecnologias recentes, o sistema digital tem sua origem em pesquisas da área espacial e militar. Os satélites que pesquisavam outros países e planetas, sofriam interferência devido à grande distância e ruídos da atmosfera. Tornou-se necessário conseguir um meio de que as informações enviadas pelos satélites através de ondas eletromagnéticas chegassem a estações receptoras sem muitas deformações. Para isso foi projetado um modelo numérico binário (que admite apenas duas possibilidades: ligado ou desligado, positivo ou negativo, 1 ou 0). Uma vez codificada a informação sob a forma de números binários, ela passa a ser tratada como uma matriz de algorítimos, ou seja, como um conjunto de dados, preservando o sinal de ruídos. (MACHADO, 1997:158).

Chamada de digital, essa técnica foi posteriormente utilizada no tratamento da imagem eletrônica, transformando bits em imagem perfeita, sem fantasmas ou chuviscos na recepção, fato que possibilitou a criação de um sistema de alta definição. Assim, alguns pesquisadores começaram a perceber que para criar a HDTV era preciso abandonar o sistema analógico e partir para o digital. Em 1990, a companhia General Instruments de San Diego, Califórnia, propôs um sistema terrestre de alta definição completamente digital e em 1993, a Comunidade Européia trocou seu projeto de HDTV analógica pela tecnologia digital.

No final dos anos 90, passaram a disputar mercado o sistema americano, que adotou a norma ATSC: United States Advanced Television Systems Committee; o sistema europeu, DVBT: Digital Video Broadcasting Terrestrial e o padrão japonês, ISDBT: (Integrated Services Digital Broadcasting - Terrestrial).


  1. Características da HDTV

Cabe aqui ressaltar que há uma diferença entre televisão digital e televisão de alta definição – HDTV -, pois embora empregados como sinônimos, são dois sistemas diferentes. Um sistema digital significa a utilização de imagens digitalizadas – bits. Foi essa capacidade da televisão digital, de transformar bits em imagem, que possibilitou a criação de um sistema de alta definição. Pelo fato de ser um sistema digital, a HDTV conta com o recurso de digitalização das imagens, isto é, compressão das imagens, transformando-as em dados digitalizados (bits), o que permite uma correção eficiente e simultânea de erros e defeitos no sinal, apresentando uma imagem perfeita. HDTV refere-se, então, ao produto/sistema que tem como atributo e desempenhos mínimos uma resolução vertical de 720P2, 1080l3; capaz de apresentar uma imagem de 16:9, que utiliza sistema de imagens digital e recebe, reproduz e alimenta sistemas de áudio Dolby Digital. (MORENO e GARRIDO, 1999: on-line).

Com relação às diferenças entre a HDTV e a televisão analógica, a característica mais marcante da HDTV é sua resolução de imagem. Enquanto o televisor analógico comum tem cerca de 400 linhas ativas de resolução, a HDTV conta com uma resolução de 1080 linhas entrelaçadas. Além da qualidade superior de imagem, a HDTV apresenta uma grande qualidade de áudio digital, pois recebe, reproduz e alimenta Dolby Digital, possuindo 6 canais em lugar de 2, do sistema estéreo ou um canal do sistema convencional. Outro ponto importante a ressaltar é a proporção da tela da HDTV, de 16:9, possibilitando imagens com 2 milhões, 73 mil e 600 pixels4, o que supera a medida de 4:3 da TV convencional com 150 mil pixels. (PATERNOSTRO, 1999:51).



  1. Primeiras experiências no Brasil

A Rede Globo e a Rede Record realizaram a primeira transmissão experimental de HDTV no Brasil em junho de 1998, com diferença de algumas horas. A Record transmitiu, no dia 6 de junho, em circuito fechado, para um público exclusivo reunido no Memorial da América Latina em São Paulo, um vídeo totalmente produzido em sistema digital – desde a captação, edição e transmissão de imagens de sua torre do bairro da Barra Funda. (PATERNOSTRO, 1999:56).

No dia seguinte, 7 de junho de 1998, a Globo realizou sua transmissão, em circuito aberto, para milhões de telespectadores. Nessa ocasião, poucos dias antes do início da Copa do Mundo de Futebol na França, o programa dominical da emissora, o ‘Fantástico’, foi apresentado direto de Paris, pelo jornalista Pedro Bial, com sinal gerado pelo IBC – International Broadcast Center – totalmente em HDTV. Em casa, os telespectadores, com suas tevês analógicas, só puderam perceber a diferença no formato da imagem que, por ser e 16:9, era mais largo do que o convencional, já em um shopping center na cidade de São Paulo, onde estavam colocados aparelhos televisores digitais, as diferenças do sinal puderam ser notadas. Essa transmissão, além de ser a primeira em sistema aberto no Brasil, também recebeu o mérito de ser a primeira transmissão intercontinental ao vivo. Ainda durante a Copa do Mundo de Futebol, a Globo realizou uma série de transmissões em HDTV. (PATERNOSTRO, 1999:56-7). Desde então, a Rede Globo tem efetuado várias transmissões em HDTV, e em cada grande evento, como o Carnaval, novos testes são realizados.

Apesar de estar em fase de experiências e testes para adotar essa nova tecnologia, o Brasil ainda não decidiu qual sistema adotar.5 A Agência Nacional de Telecomunicações, Anatel, está discutindo uma legislação nacional para adequar essa nova tecnologia e estudando qual o modelo mais adequado para o país (ATSC, DVB-T e ISDB-T)6, surgindo propostas, inclusive, do desenvolvimento de um modelo próprio (SBTVD, Sistema Brasileiro de Televisão Digital)7.


  1. As primeiras experiências

Seguindo pelo caminho da vivência, observação, compreensão, narração, pretende-se, com este artigo, conhecer melhor as idéias e posições de profissionais brasileiros ligados aos primeiros experimentos em HDTV no país. A proposta não é de abranger a todos que trabalham com TV, dado que é muito grande e disperso o universo, mas de saber como essa tecnologia começou a ser recebida e utilizada por esses profissionais.

Optou-se por utilizar os recursos da pesquisa qualitativa, utilizando como técnica a entrevista não-estruturada, com base em um roteiro com tópicos sobre o assunto, sem perguntas prévias definidas. A captação das informações se baseou nos depoimentos obtidos em novembro de 1999, gravados via telefone e depois transcritos. Foram entrevistados profissionais da Rede Globo e da Rede Record, no Brasil e da emissora América 2 na Argentina; além de profissionais que integraram o grupo de estudos que analisou o começo da implantação da HDTV no Brasil, no final da década de 90. As informações obtidas serviram como subsídio para compor um quadro de características que ajudam a identificar como foi o início da HDTV no Brasil.

Visto como um processo de transição que ocorreria até 2001, a implantação da TV de alta definição era considerada pelos entrevistados como um fator determinante de uma grande modificação nas estruturas da televisão. Para o Diretor Geral de Engenharia da Rede Globo, engenheiro Nelson Faria Júnior, o advento da HDTV é um processo irreversível. Esta idéia também foi enfatizada pelo Gerente Geral de Expansão e Rede da TV Record, Engenheiro Wander Castro, que aponta o fim da televisão convencional: “essa televisão não vai prestar para nada. Essa televisão que nós temos simplesmente vamos jogar fora.”

Observa-se a preocupação pela escolha do sistema de alta definição que o país deve escolher. Toda a proposta de implantação da HDTV parece estar atrelada a essa decisão. Segundo o engenheiro Nelson Faria Júnior “assim que o Brasil definir o modelo de transmissão, a intenção é de que, na seqüência, se comece a transmitir em high definition.” Percebe-se, também, a preocupação do governo e emissoras brasileiras em escolher um sistema de alta definição que se configure na melhor alternativa para o país. Através dos depoimentos pode-se observar a pressão por parte de cada um dos três sistemas disponíveis -, americano, europeu e japonês - para que o Brasil escolha o seu modelo. Conforme aponta o Eng. Wander Castro, “os próprios americanos vêem vender que o sistema americano é melhor, e existem várias pessoas dizendo que o sistema DVB é melhor. Agora apareceu um sistema japonês que diz: olha, o que tem de ruim no ATSC eu joguei fora, o que tem de ruim no DVB eu joguei fora. O meu é o melhor de todos.” Apesar de toda essa “bagunça tecnológica” a que se referia o Eng. Wander Castro, o Engenheiro Eduardo Bicudo, Coordenador Executivo do Laboratório do Grupo de Estudos sobre High Definition no Brasil – Abert/Set, garantia que os testes estavam sendo realizados de “forma muito série e isenta, totalmente isenta, para gente, é indiferente se vai ser A, B ou C o sistema a ser adotado.”

Os testes tiveram como finalidade analisar como se comporta a transmissão de um canal digital, buscando definir qual o melhor sistema: o americano, o europeu ou o japonês. Segundo Bicudo, “o que se está analisando é a transmissão de um canal digital, a gente precisa analisar como é que eles se comportam, quando trabalham, por exemplo, um sinal analógico e um digital, um ao lado do outro. Um canal analógico e um canal digital, porque durante dez ou doze anos vão ter que conviver juntos, porque é a fase de transição do sistema.”

O estudo brasileiro reveste-se de grande importância porque, segundo Bicudo, até então não haviam sido feitos testes comparativos entre os diferentes sistemas “com a profundidade e da maneira como nós estamos fazendo” Mesmo na Argentina - onde em princípio foi adotado o sistema americano - o exemplo brasileiro, de testar antes de decidir, foi reconhecido como ideal. Segundo o gerente de Engenharia da emissora argentina América 2, engenheiro Miguel Diaz apesar da escolha do sistema americano “hoy por día se siegue discutiendo, yo en lo personal, creo que no se habian, todavia, seguido las suficientes cantidad de pasos como para adoptar un estandard [...] creo que el camino que está siguiendo Brasil es el camino correcto que nos hubiera gustado seguir acá, que es simplesmente evaluar en pruebas y ensayos y adoptar el sistema que mas convenga.” Ele ressalta, no entanto, que isso não quer dizer que pense que o modelo escolhido não funcione, mas que ao adotar arbritariamente um sistema, sem ter tomado uma resolução conjunta com os outros países do Mercosul, se perde a integração, quando, justamente, o que pesou na decisão decisão argentina, foi a idéia de que, ao escolher o modelo americano, evitariam a antiga situação de incompatibilidade de sinais apresentada pela tevê colorida, que necessitava a criação de produtos em Pal-B “porque todos los productos a nivel de usuário eran dedicados a nosostros, por lo tanto, no eran producidos en gran escala, los costos eran más altos que los estanderds que se manejavam y eso hizo que la llegada al usuário de la televisión color demorara más”.

Apesar de não haver nenhum compromisso entre os países do Mercosul, de chegar a um sistema comum, segundo o Eng. Nelson Faria, em um primeiro momento “houve uma tentativa das emissoras do Brasil, e se conversou com algumas emissoras da Argentina, de se tentar realmente definir por um padrão. Mas a nossa impressão é que houve uma pressão política, do governo mesmo da Argentina, e eles tomaram uma decisão sem praticamente fazer avaliação ou fazer testes comparativos entre os sistemas existentes” Entretanto, o ideal, para o engenheiro da Rede Globo, seria que o “Brasil e outros países do Mercosul adotassem o mesmo sistema, que seria o bom, seria o ideal, mas...”

Percebe-se, também, nas emissoras pesquisadas, a preocupação em capacitar os profissionais da área de produção, informando-os das peculiaridades que envolvem esse novo sistema. Tanto a Globo quanto a Record referenciam estar realizando palestras e workshops para os profissionais da empresa. A Globo, inclusive, enviou alguns de seus profissionais aos Estados Unidos, para acompanhar de perto o que está sendo desenvolvido. Entretanto, para o Eng. Faria, da Rede Globo, apesar da sua emissora poder ser considerada “na América do Sul, a empresa com mais experiência nesse ponto” – a Globo ainda está passando por um processo de evolução, pois “na realidade a gente não está sendo ainda muito detalhista na parte de treinamento, ainda...”

O gerente de expansão da Rede Record afirma que mais do que investir em estúdios e equipamentos, vai ser necessário “um investimento muito forte em treinamento, porque as próprias pessoas que hoje trabalham em televisão, vão ter que aprender.” Segundo o Diretor de América 2, Eng. Díaz, a parte técnica é facilmente ajustável, “uno mejor, uno peor, no hay ninguna duda que vá a andar” pois, desenvolver a parte técnica, de transmissão ou equipamentos exige apenas uma questão “de dólares, nada más.” Analisando as primeiras experiências feitas nos Estados Unidos, onde os resultados apresentados foram frustrantes, porque apenas se via um estiramento da imagem na tela de alta definição, o Eng. Díaz reflete: “se dieron cuenta que a la tecnologia le tenian que poner imaginación.”

O diretor do seriado Mulher8, da Rede Globo, José Alvarenga Júnior, (ele próprio um dos profissionais que a Globo enviou para os Estados Unidos) parece ser, um exemplo da ‘imaginación’ proposta pelo Eng. da America 2. Alvarenga relata: “Temos aberto a câmera para tentar alterar alguns parâmetros. Sempre em cima de uma visão cinematográfica, em relação aos contrastes, em relação aos tons de pele” Segundo ele, é essa criatividade utilizada pela televisão do terceiro mundo, acabou por levar estes países a saber utilizar a HDTV mais adequadamente do que os Estados Unidos. Lá, eles buscavam a textura de cinema através da finalização, enquanto que aqui, essa busca começou já no processo de captação da imagem. Porém, para os americanos, “é impossível, inimaginável, você ter uma câmera de U$ 500.000,oo e você abrir essa câmera e mudar os parâmetros que foram criados durante anos”. Entretanto, a solução americana, de resolver o problema durante a edição, não obteve bons resultados, pois, “faltam instrumentos, eles chamam até faltam ‘brinquedos’ para eles poderem chegar nisso. [...] agora eles acham que descobriram que a saída é na captação. E isso, de repente, é onde a gente entra, o terceiro mundo. Porque nós já estamos abrindo as câmeras há muito tempo.” Segundo ele, nos Estados Unidos, os diretores de televisão “estão tomando surras, em HDTV, composição, pelo diâmetro, pela perspectiva, porque não têm a prática do cinema” Assim, devido à engenhosidade brasileira, aqui se está gerando “um produto em primeira mão, na captação, muito mais interessante do que o do americano. É uma loucura, é como se você tivesse uma Ferrari, e desse para o teu mecânico da esquina e ele dissesse; oh, eu vou abrir o motor da tua Ferrari e vou fazer essa Ferrari andar mais. Pra um italiano não via fazer sentido nunca isso. Mas para o terceiro mundo, para gente que não têm recurso, que não tem dinheiro para comprar negativo, a gente teve que fazer isso.” Ele ainda analisa que, para quem vem do cinema fica mais fácil obter resultados com HDTV, contudo, mesmo as dificuldades encontradas pelo pessoal de cinema podem ser solucionadas, através da prática, cuidando dos conceitos estéticos. “A gente que veio do cinema, quando pegou HDTV foi mais fácil. Você tem que tomar cuidado com as bordas, tem que compor pra todos os lados, tem que compor pra tevê convencional da pessoa que não tem o HD.”

Alvarenga comenta ainda que os produtos em HDTV precisam de mais tempo de luz, maior elaboração visual e uma boa concepção na movimentação e mecânica de imagem. “Porque se você não fizer desse jeito, não seguir certas regras, ele não funciona, o HDTV.” Segundo ele, o grande desafio é que, na “televisão, pela sua velocidade, pela pressa que é inerente, a técnica muitas vezes fica num plano melhor. Com HDTV isso é impossível. Isso vai ser um diferencial para todo o técnico.” No entanto, não é um desafio impossível, como atesta sua própria experiência, pois, ainda que os prazos do seriado Mulher “tenham sido os mesmos a gente não perdeu prazo nem grana, não se gastou nada a mais e nada a menos, mas houve um cuidado maior na elaboração do programa.”

Distingue-se também a preocupação quanto a busca de uma textura de cinema para o sistema HDTV, porque a idéia de criar uma TV de alta definição foi chegar a um resultado televisivo que se aproximasse do cinema. No entanto, mesmo procurando se aproximar do cinema, o HDTV continua a ser um vídeo. Segundo Alvarenda: “um vídeo diferente, com maior brilho, com maior relação de contraste, mas é um vídeo.”

Um outro fator importante de ser analisado é o fato de que estão sendo realizadas pesquisas tanto no sentido de criar uma linguagem de HDTV para ser utilizada pela própria televisão, quanto para gravar em HDTV e usá-la para fazer cinema. “Isso é o George Lucas, lá na Lucas Film. Ele vai gerar o próximo filme dele já em HDTV. Aí eu perguntei pra turma da Sony, lá: mas vem cá, é cinema? Não é cinema, ainda não é cinema. Você vai ter uma cara de vídeo, um vídeo que vai pra tela”, comenta Alvarenga.

Por fim, observa-se que embora a tecnologia da HDTV seja um processo já em andamento, irreversível e inovador, no Brasil ainda continua em estudo, tendo seu futuro indefinido. Se o foco das primeiras pesquisas estava na busca do melhor sistema, com ênfase na qualidade de transmissão e recepção, posteriormente a ênfase passou a ser a orientação do governo pela busca de um modelo nacional, preocupando-se com a inclusão digital. Com o governo de Luís Inácio Lula da Silva, o então ministro das Comunicações, Miro Teixeira, teve como uma de suas primeiras ações a criação de comitês para estudar as políticas para o setor, pensando na criação de um modelo próprio, nacional, visando a democratização da informação.

Quer parecer, entretanto, que o foco tenha que ser novamente corrigido, pois discutir as transformações que essa nova tecnologia propõe exige pensar também outras mudanças proporcionadas pelas formas tecnológicas contemporâneas que levam à convergência de meios, em uma mistura de internet com TV interativa e de alta definição.

Referências Bibliográficas

ANATEL. Agência Nacional de Telecomunicações. Disponível em Acesso em 05 dez 2004.

MACHADO, Arlindo. A arte do vídeo. 3ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1997.

MACIEL, Pedro. Jornalismo de televisão. Porto Alegre: Sagra, 1995.

MORENO, C. e GARRIDO, J. Televisión digital para el nuevo siglo. http://148.204.188.122/ revista/No. 15/8ACAD15.htm, 17/06/99.

PATERNOSTRO, Vera íris. O texto na TV: manual de telejornalismo. Rio de Janeiro: Campus, 1999.

SANTOS, Rudi. Manual do vídeo. 3ª ed. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995.

SOCIEDADE Brasileira de Engenharia de Televisão e Telecomunicações. Disponível em . Acesso em 10 fev 2005.




1 A formação da imagem sobre a tela da TV é viabilizada pela projeção de um feixe de elétrons, produzido por um canhão eletrônico. A conjugação dos movimentos causados no feixe eletrônico dentro canhão é conhecida pelo nome de varredura.. O número de linhas de varredura é um fator determinante da definição de uma imagem eletrônica: quanto maior o número de linhas de varredura, maior o poder de captar detalhes. (SANTOS, 1995:111).

2 P representa varredura progressiva.

3 l representa varredura entrelaçada.

4 Abreviatura de picture element, é a unidade mínima que constitui uma imagem de televisão. No sistema a cores é constituída de três cores básicas: o azul, o verde e o vermelho.

5 A Resolução n.º 69, de 23 de novembro de 1998, publicada no Diário Oficial da União de 25 de novembro de 1998, estabeleceu as condições e as datas limites para a realização de experiências com sistemas de transmissão digital de televisão. Essas datas foram, posteriormente prorrogadas. Em Consultas Públicas n.º 216, de 17 de fevereiro de 2000, e n.º 237, de 2 de junho de 2000 são apresentados os Relatórios dos Testes de campo e de laboratório em Sistemas de Televisão Digital, desenvolvido e coordenado pelo Grupo Técnico ABERT/SET de Televisão Digital., realizados na cidade de São Paulo, no período de outubro de 1999 a maio de 2000; em Consulta Pública n.º 291, de 12 de abril de 2001, constam os relatos da Análise dos Testes de Campo e de Laboratório de Sistemas de Televisão Digital, divulgada pela Anatel em abril de 2001, juntamente com o Relatório Integrador dos Aspectos Técnicos e Mercadológicos daTelevisão Digital.

6 No relatório final (segunda parte) do Teste em Sistemas de Televisão Digital – elaborado por Abert/set em 11 de maio de 2000, o grupo conclui que:

“· O sistema ATSC não atende tecnicamente às necessidades mínimas para a preservação do serviço de radiodifusão de sons e imagens no Brasil, principalmente devido a sua baixa robustez a multipercursos e a sua baixa flexibilidade, se comparado com os sistemas DVB-T e ISDB-T.

· Os sistemas DVB-T e ISDB-T têm condições de atender tanto às exigências de melhorar ou, pelo menos, replicar a recepção dos atuais canais analógicos, permitindo o transporte de sinais de HDTV (“payload” superior a 18 Mbps), além de agregar novas aplicações para os radiodifusores brasileiros.

· O sistema ISDB-T é significativamente superior ao DVB-T no que tange à imunidade ao ruído impulsivo, bem como ao desempenho para recepção portátil ou móvel, importante para assegurar a competitividade do serviço de radiodifusão de sons e imagens no futuro, além de oferecer maior flexibilidade de aplicações.

· Apesar da superioridade técnica e de flexibilidade do sistema ISDB-T, há necessidade de serem considerados outros aspectos , tais como, o impacto que a adoção de cada sistema terá sobre a indústria nacional, as condições e facilidades de implementação de cada sistema, os prazos para sua disponibilidade comercial, o preço dos receptores para o consumidor, a expectativa de queda desses preços, de modo a possibilitar o acesso mais rápido a todas as camadas da população.

O Grupo ABERT/SET está, no momento, realizando várias análises referentes a esses aspectos e irá oferecê-las à ANATEL, até o final do mês de maio, como uma contribuição adicional neste processo tão importante para o nosso país, que é a seleção do sistema digital a ser empregado no serviço de radiodifusão de sons e imagens. As 17 empresas autorizadas a realizar os testes nos sistemas de televisão digital esperam que o trabalho ora complementado possa contribuir com a ANATEL nesse esforço que ela vem desenvolvendo de forma tão competente e transparente.”



7 Decreto nº 4.901,de 26 de novembro de 2003, que institui o Sistema Brasileiro de Televisão Digital - SBTVD, que tem por finalidade alcançar, entre outros, os seguintes objetivos: I-promover a inclusão social, a diversidade cultural do País e a língua pátria por meio do acesso à tecnologia digital, visando à democratização da informação; II-propiciar a criação de rede universal de educação à distância; III-estimular a pesquisa e o desenvolvimento e propiciar a expansão de tecnologias brasileiras e da indústria nacional relacionadas à tecnologia de informação e comunicação; IV-planejar o processo de transição da televisão analógica para a digital, de modo a garantir a gradual adesão de usuários a custos compatíveis com sua renda; V-viabilizar a transição do sistema analógico para o digital, possibilitando às concessionárias do serviço de radiodifusão de sons e imagens, se necessário, o uso de faixa adicional de radiofreqüência, observada a legislação específica; VI-estimular a evolução das atuais exploradoras de serviço de televisão analógica, bem assim o ingresso de novas empresas, propiciando a expansão do setor e possibilitando o desenvolvimento de inúmeros serviços decorrentes da tecnologia digital, conforme legislação específica; VII-estabelecer ações e modelos de negócios para a televisão digital adequados à realidade econômica e empresarial do País; VIII-aperfeiçoar o uso do espectro de radiofreqüências; IX-contribuir para a convergência tecnológica e empresarial dos serviços de comunicações; X-aprimorar a qualidade de áudio, vídeo e serviços, consideradas as atuais condições do parque instalado de receptores no Brasil; e XI-incentivar a indústria regional e local na produção de instrumentos e serviços digitais.

8 O seriado mulher foi uma das primeiras experiências da rede Globo com captação em HDTV.

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3o-encontro-2005-1 -> Capítulo 1 – Jornalismo Digital
3o-encontro-2005-1 -> A rádio itatiaia e a acobertura da doença e morte de tancredo neves
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