Pragmáticas comunicativas na feira do Guamá, Belém1



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Pragmáticas comunicativas na feira do Guamá, Belém



Pragmáticas comunicativas na feira do Guamá, Belém1

Fábio Rodrigo de Moraes Xavier2

Fábio Fonseca de Castro3

Resumo

O presente artigo objetiva refletir sobre a pragmática comunicativa existente no espaço da feira do Guamá, localizada em Belém-PA. Procuramos observar a movimentação espacial e as práticas de interação comunicativa dos sujeitos ali presentes, em relação às dinâmicas de ocupação do espaço e à disposição dos produtos ali vendidos. Discute-se a estruturação organizacional em sua dinâmica intersubjetiva e, a partir dessa perspectiva, observa-se o desenvolvimento da ideia de lugar e a identificação que as pessoas desenvolvem com esse espaço.



Palavras Chaves: Intersubjetividade, Comunicação, Interação e Feira.

Abstract

This article aims to reflect on the communicative pragmatic present on Guamá market, located in Belém-PA. We seek to observe the spatial movement and the communicative interaction practices present overthere in relation to the space occupation dynamics and to the disposal of products sold there. We discusses the organizational structure in its intersubjective dynamics and, from this perspective, we comment the development of the idea of place and identity that people develops with this space.



Key Words: Intersubjectivity, Communication, Interaction, Market.

A feira municipal do Guamá localiza-se no cruzamento entre a rua Barão de Igarapé-Miry e a avenida José Bonifácio, no bairro do Guamá, em Belém, capital paraense. Possui grande movimentação e influência na economia local, bem como e na estruturação social do bairro e dos bairros limítrofes. Trata-se de um espaço convencional de comercialização de produtos, dedicado à venda de frutas e legumes, carnes e pescados, farinhas, ervas medicinais tradicionais, e produtos industrializados convencionais – não se diferenciando, particularmente, das demais feiras de Belém (Cf. Castro, 2013).

O objetivo deste artigo é compreender as interações sociais quotidianamente presentes nesse espaço em sua pragmática comunicativa. Maffesoli (2008) compreende a prática social estruturada na localidade, usual nos processos de interação, usando Schtuz (2012) para interpretar a recorrência das práticas sociais como processos de tipificação. Com Schutz (2012), entendemos o processo comunicativo como tipificação de estruturas sociais – e, recorrendo a Simmel (1983), especificando enquanto formas e conteúdos dessa tipificação.

A feira, dessa maneira, pode ser visto como um espaço social preenchido por formas (Cf. Castro, 2013) – ou melhor, estruturas comunicativas tipificadas que permitem a reprodução de conteúdos, igualmente tipificados, nos quais se assenta a vida social. Como coloca Schutz, “o mundo social no qual o homem nasce e no qual ele precisa encontrar seu caminho é experienciado por ele como uma estreita rede de relações sociais, de sistemas de signos e símbolos” (Schutz, 2012: p. 92). Nessa colocação, podemos perceber na ideia dos sistemas sociais que, em sua tipificação, permitem a reprodução social, ou melhor, a intersubjetividade.

Nós propomos com o artigo, a entender a movimentação que acontece na feira e a perceber as variadas articulações, organizações e tipificações presentes no local de maneira a perceber o processo intersubjetivo enquanto pragmática comunicativa.

Com esse propósito, procuramos abordar duas dimensões da vida quotidiana na feira do Guamá a fim de demonstrar essa pragmática comunicativa: a própria movimentação geral da feira, com a disposição dos produtos e a presença de estruturas estéticas, ou melhor, de formas de gosto, disposições de sentir em comum, presentes na feira.. Compreendemos que essas formas sociais (Schutz, 2008) constituem estruturas comunicacionais, intersubjetividades, que agenciam a vida social.

Método

A pragmática das interações sociais não se dá sem uma perspectiva espacial. Essa perspectiva espacial está presente também na ideia de percepção interacional de Goffman (1971), que assinala a influência do lugar, do espaço, dos usos e práticas comuns ao uso desse espaço, na produção dos diferentes sentidos e formas de influências recíprocas entre as pessoas que os frequenta.

O espaço da feira serve de base para o olhar e a estruturação da intersubjetividade, ou seja, do processo de interação social. Backhaus (1998) explica que o processo intersubjetivo e a interação social são dinâmicos e estruturadores da vida social. Esta ideia também se faz presente em Maffesoli (2008), que afirma que o processo pragmático comunicativo é um tecido intersubjetivo. Os sujeitos sociais presentes no espaço da feira reproduzem essa lógica, como em toda a vida social, mas uma feira são espaços particularmente sensíveis para que percebamos a dinâmica intersubjetiva presente na vida social, porque neles as finalidades da compra, da venda e também da simples interação, do estar por estar, do estar presente, se fazem particularmente claras. Segundo Castro (2013),

a interação se processa também no espaço intersubjetivo, que vai provocá-la. Ela é mais forte quando os elementos pertinentes ao campo da identificação, assim como seu processo, são mais latentes, por exemplo, entre os açougueiros, entre os peixeiros, entre os verdureiros; pois além do espaço coletivo da feira, eles têm também algo mais em comum, que é a própria experiência do fazer a mesma coisa, do lidar com os mesmos elementos – a carne, o peixe, as frutas; eles possuem o mesmo conhecimento sobre seus produtos; eles partilham as mesmas experiências, uns em relação à carne, outros em relação ao peixe, e assim sucessivamente, com a farinha, com as verduras; o todo se encontra em benefício da própria feira, ou seja, daquela vivência coletiva... (Castro, 2013: 102)

Encontramos também Essa perspectiva na obra de Simmel (1983) quando este autor define a sociedade como o processo fundamental da interação, evitando pensar, nela, enquanto um complexo que preexiste ao fenômeno interativo:

O que faz com que a “sociedade”, em qualquer dos sentidos válidos da palavra, seja sociedade, são evidentemente as diversas maneiras de interação a que nos referimos. Um aglomerado de homens não constitui uma sociedade só porque exista em cada um deles em separado um conteúdo vital objetivamente determinado ou que o mova subjetivamente. Somente quando a vida desses conteúdos adquire a forma da influência recíproca, só quando se produz a ação de uns sobre os outros - imediatamente ou por intermédio de um terceiro - é que a nova coexistência social,(...) se converte numa sociedade. (Simmel, 1983, p.61).

Transpondo a perspectiva de Simmel para o espaço da feira, pode-se perceber como formas sociais de influência recíproca, repetidas no continuum da vida quotidiana, se constituem como estruturas que viabilizam a produção e a reprodução de conteúdos interativos. Vemos aí, também, a perspectiva de Schutz (2008) sobre os processos de tipificação, ou seja, a maneira como a sociedade produz, intersubjetivamente, estruturas que permitem a produção e a reprodução de conteúdos (C.f. Castro, 2013: 37) e, ainda, a perspectiva de Goffman, quando sugere que “uma forma ou modo de interação através do qual, ou sob cujo formato, este conteúdo obtém realidade social” (Goffman apud Smith, 2004, p. 57).

A movimentação da feira inicia cedo, com o descarregamento de diversos produtos e com o alvoroço dos feirantes no processo de organização da feira. Neste contexto, as perspectivas individuais vão se acomodando às estruturas tipificantes disponíveis, reproduzindo seus modos de ser e de estar, seus modos de falar e de dizer. Os feirantes, já nesse primeiro momento do dia, procuram, pragmaticamente, se adequar ao processo intersubjetivo, condição para fazerem negócios e para serem aceitos no macro-ambiente que é a feira. Trata-se do processo, indicado por Maldonado, de “compreensão das dinâmicas fundamentais da constituição individual como processos” (Maldonado, 2001: p.17). As negociações e as construções de máscaras (Goffman, 1971), que permitem aos feirantes e aos fregueses da feira ocuparem seu papeis sociais e serem “autorizados” a circularem por esse espaço constituem, efetivamente, formas (Simmel, 1983), por meio das quais, pragmaticamente, se adéquam aos padrões de regularidades, tipificações (Schutz, 2008), que, intersubjetivamente, conformam essa constituição individual como processo (Maldonado, 2011). Processo de quê? De estar junto, de participar de um ser coletivo que é a própria razão de ser da sociedade.

Essa perspectiva indica a necessidade de pensar a vida social como algo que se desenvolve para além dos processos de individualidade. O indivíduo, com efeito, não se reproduz senão intersubjetivamente. Dessa maneira, a feira não pode ser reduzida, simplesmente, à sua dimensão econômica: enquanto troca, ou enquanto estratégia de construção, numa arena de disputas, do interesse individual. O indivíduo não é sem os outros. Na sua dimensão intersubjetiva, o indivíduo possui, também, dimensões morais, éticas, estéticas e políticas que, em fim, impactam sobre a maneira como articula seu interesse pessoal e, portanto, se posiciona na feira.

Resultados

A movimentação da feira

Tanto na feira como no seu entorno, importante notar a sonoridade do ambiente assim como o cheiro, que no decorrer das horas as pessoas ali começam a falar cada vez mais e todo o tipo de aroma expande-se pelo ar. Assim, “tudo o que se apresenta nos indivíduos (os loci concretos e imediatos da realidade histórica) – impulso, interesse, propósito, inclinação, estado físico, movimento – tudo o que se apresenta neles de modo a engendrar ou mediar efeitos sobre os outros, ou receber tais efeitos” (Goffman apud Smith, 2004, p. 57). Dessa maneira, a sociedade daquele espaço engendra a própria prática, e o contingente da compra, a comunicação e a própria intersubjetividade, promovem o processo de interações.

Dentro da feira, é possível visualizar todo o tipo de informação, desde os valores dos produtos até as placas grandes que ficam no teto. Cada placa informa o setor em que cada mercadoria se localiza, como por exemplo, peixe, carne, ervas. Cada produto possui uma área específica e barracas relacionadas. É grande a quantidade de pessoas que adentram por diversos setores e saem com diversos produtos do local. A Feira tem diversas entradas. Ele é aberto nas laterais da Av. José Bonifácio e da passagem Mucajá. É possível notar uma ação econômica de natureza racional: “Um intercâmbio de interesses mensuráveis pelo dinheiro (o meio de troca mais impessoal e abstrato da vida humana), mais a economia vê-se autonomizada como esfera cultural, regulando-se por suas próprias leis” (Nobre, 2005: p.26). Portanto, não é a economia que regula o processo de interação, ele é apenas mais um elemento.

Dentro desta expectativa é percebido que no setor do peixe, os feirantes se comunicam com grande intensidade (Castro, 2013). Isto ocorre pelo fato de que na hora do tratamento do produto, o peixeiro puxa conversa com o freguês, e também com o seu parceiro de profissão para pedir algo. Quando não estão vendendo, conversam sobre temas diversos, dentre os quais o principal é o futebol. Algumas vezes gritam “Leão!”, “Papão!” com referência aos dois principais times da capital paraense, Remo e Paysandu. Observamos que neste processo é percebido a ideia de que “O “lugar” é específico, concreto, conhecido, familiar, delimitado: o ponto de práticas sócias específicas que nos moldaram e nos formaram e com as quais nossas identidades estão estreitamente ligadas [...]” (Hall, 2003: p.72).

A partir da reflexão colocada acima, entendemos que a ideia de vivência de Maffesoli (1998) pode ser evocada para compreendermos a relação entre o local, a comunicação e a vivência na conformação da socialidade, ou, melhor, de uma dada forma social.

O próprio da vivência é pôr a ênfase sobre a dimensão comunitária da vida social; vindo a mística sublinhar aquilo que une iniciados entre si, aquilo que conforta, de modo misterioso, o vinculo, ao mesmo tempo tênue e sólido, que faz com que essa comunidade seja causa e efeito de um sentimento de pertença que não tem grande coisa a ver com as diversas racionalizações (Maffesoli, 1998: p. 176).

A comunicação entre o feirante e o freguês não tem muita familiaridade, porém alguns vendedores propõem a conversar. Tendo desta maneira influência na reciprocidade entre o feirante e freguês em uma expectativa de troca “É uma síntese imediata dada pelo pensamento simbólico que, na troca como em qualquer outra forma de comunicação, supera a contradição que lhe é inerente de perceber as coisas” (LEVI-STRAUS 2003, p.40-41). Dentro deste aspecto é possível perceber uma aproximação entre alguns sujeitos no espaço e que evoca uma relação de amizade, e que aquilo poderia ser negativo para a economia dos partícipes da troca, acaba por ser algo prazeroso, e que influência no processo de venda.

É importante notar que o espaço propriamente da farinha fica no outro da rua, em frente da feira da carne4, na perpendicular, de esquina com a R. Barão de Igarapé-Miry e Av. José Bonifácio. Existe toda uma variedade de barracas com produtos variados, de roupas a utensílios domésticos de pequeno porte. Neste outro espaço - que também faz parte da feira do Guamá, que é formado pelo prédio mais antigo, hoje conhecido como o prédio da farinha, pois abarca o maior número de vendedores de farinha – o produto é visto em grande quantidade, apresentado tradicionalmente em sacas, da forma em que é comprado do produtor e atravessador: farinha de mandioca, farinha de tapioca, goma, tucupi. (dei parágrafo aqui, antes era ponto em seguida)

Também podemos observar como o produto é arrumado nas diferentes barracas, variando de acordo com sua natureza, características e cores. Podemos usar como exemplo o setor de refeição. A área de refeição possui dois momentos. O primeiro é o do café, no qual é feito a tapioca, uma iguaria feita da goma da mandioca, que, passada por um processo artesanal torna-se uma farinha finíssima branca, que é peneirada e colocada na frigideira, garnida segundo o desejo do freguês, geralmente manteiga, e passada ao freguês enrolada em um guardanapo de papel. Também o pão com ovo esquentado ali na frigideira, sempre tendo como acompanhamento o café, é muito solicitado pelos frequentadores da feira. Ao meio-dia, é servido variados tipos de comida como carne, frango, peixe, feijão, arroz, feitos ali mesmo na barraca. Algumas servem o açaí acompanhado de farinha de mandioca ou de tapioca, ou ainda com algum prato salgado, especialmente o peixe frito. Observando as barracas de refeições, notamos que é predominante o trabalho feito por mulheres, acompanhadas de suas filhas e/ou netas.

No espaço da feira, podemos observar que há um abrigo para a produção e venda do açaí, onde os frequentadores da feira podem adquirir polpa da fruta o local fechado c om vidros e climatizado. Entre o feirante, vendedor de açaí, e o freguês há uma pequena abertura na vidraça, com espaço suficiente para o movimento da venda do produto. Na barraca trabalha um jovem casal. Ali, como em outros espaços da feira, podemos encontrar a divisão do trabalho pautada pelo gênero, idade ou outra variante. Segundo Schutz,

Em todos os lugares encontramos divisões por sexo, por idade, e algumas divisões do trabalho condicionadas por aquelas; e organizações do parentesco mais ou menos rígidas que dividem o mundo social em zonas de distância social variável, que vão desde a família nuclear até ao estrangeiro5 (Schutz, 2012: p. 91).

Partindo desse paradigma, podemos observar que no setor das ervas, legumes e verduras, podemos observar uma, digamos, hegemonia feminina, maduras, no espaço, pois este é possui quantidades consideráveis de mulheres mais velhas, a maioria das quais se faz acompanhar por suas filhas ou netas. Outra característica que podemos observar nessas barracas administradas por mulheres é o arranjo dos enfeites e adornos. Nas de verduras e legumes podemos observar os arranjos feitos com pimentinhas, cheiro verde no meio, três pimentinhas ao redor, sugerindo uma flor ou um buquê, ou mesmo, algo místico. É importante observar que quem fazia em sua maioria o processo de arrumação e organização desses produtos, eram as feirantes mais velhas, evidenciando desta forma uma espécie de dominância que é passada de geração em geração, “Por toda parte encontramos hierarquias de superioridade e subordinação, de líder e seguidores, daqueles que comandam e daqueles que obedecem. Por toda parte também encontramos um modo de vida que é aceito e que regulamenta relações” (Schutz, 2012: p. 91).

Dentro deste contexto são perceptíveis as articulações e formas de organização viventes dentro dos grupos dos feirantes. A intersubjetividade presente na constatação da movimentação da prática social, e o lugar e a comunicação em que são fatores de influência para com a estruturação espacial entre os sujeitos. O lugar é o espaço de identificação entre alguns indivíduos que reelaboram a estruturação racional e espacial do local e o movimento efetivo da feira: “a feira é o local privilegiado, pois os modelos de socialidades ali presentes são mais perenes e fluidos, estabelecidos numa temporalidade do instante, no momento, e, portanto, formam-se de maneira pontual” (Castro, 2013: 34) Todo um fluxo que colabora para o aspecto das diferentes expectativas que existem nas relações e que se desenvolve para a elaboração entre variados indivíduos lá estão.

Colaborando para a própria construção social existente naquele espaço, e que se desenvolve na feira, observamos uma forma que se amolda ao conteúdo ali estruturado, gerando diferentes ideias de sentido evocando variadas representações naquele espaço. A prática construída promove influências e estruturação de interação que é concebida na movimentação do conjunto de conteúdos e formas presentes na feira e que a conformam como tal



A disposição dos produtos e sua dimensão estética

É importante perceber que a apresentação dos produtos ofertados na feira está em relação com a publicidade e a prática social estabelecida no lugar.

O trabalho que o publicitário tem de dramatizar o valor de seu produto não é diferente do trabalho que uma sociedade tem de embeber suas situações sociais com cerimoniais e com sinais rituais facilitando a orientação dos participantes uns com os outros. Ambos devem usar os limitados recursos “visuais” disponíveis nas situações sociais para contar uma história; ambos devem transformar acontecimentos de outra forma opacos em uma forma facilmente legível (Goffman apud Becker, 1999: p.110).

Dentro desta ideia é importante notar a manifestação da maneira das disposições das coisas, a cultura material nele presente, que compõe a feira do Guamá “pode-se mesmo dizer que uma sociedade não existe senão enquanto se manifesta exteriormente. É somente assim que ela toma forma. (Maffesoli, 1998: p. 123). A cultura material seria, no nosso entendimento, aquilo que propicia a expressividade da forma social ou da socialidade. Apesar do aspecto econômico presente na feira e já evidenciado aqui, observamos que vivência, a experiência de mundo, seu um “universo simbólico6”, engendrando interações frequentes e contínuas que geram uma determinada forma de estar junto que caracteriza certo conhecimento, uma certa forma social, uma percepção de mundo, portanto um processo comunicativo vivente na prática espacial da feira.

O sistema de conhecimento então adquirido- incoerente, inconsistente e apenas parcialmente claro- assume para os membros do grupo de aparência de suficientes coerências, clareza e consistência, conferindo a todos uma possibilidade razoável de compreender e de ser compreendido (Schutz, 2012: p. 93)

Dentro desta ideia, a disposição dos produtos na feira possibilita certa forma de interação e de comunicação. Aspectos da cultura material como adornamentos, enfeites e adereços, cheiros, cores, higiene, os produtos intactos, a disposição dos produtos e da cultura material que o cerca, assim como a comunicação dos feirantes, são de relevância para que a interação seja efetivada. A partir dessa expectativa, a disposição dos objetos presentes na feira passa pela construção de sentido que passa pela venda propriamente dita, mas que não se limita a ela “O conhecimento vinculado a um padrão cultural carrega em si mesmo sua evidência – ou melhor, é tido como certo” (Schutz, 2012: p. 93), colaborando para de que maneira os produtos existentes possibilitem o desenvolvimento de sua expressividade no quotidiano da feira.

A partir dessas observações notamos que o setor de frutas que fica entre os setores de legumes e de verduras. Próximo da área das verduras, entre esta e a parede, encontra-se o da carne, que, assim como as demais forma um corredor com os produtos pendurados ou em cima de suporte de ferro à frente da barraca. A comunicação neste setor não é tão intensa como no setor do peixe, no entanto é onde fica mais evidente a infraestrutura de suportes frigoríficos, como a possibilidade de uso do cartão de crédito de forma mais extensiva entre os feirantes. Ao final da feira todo tipo de osso é jogado na parte de fora, em um tonel de plástico, espaço mais próximo e adequado para a retirada do entulho.

Quando ao espaço voltado para os legumes e verduras, assim como para a carne, a aparência de certa racionalidade, de certa uma normatividade na disposição dos produtos, essa presença de “Regras que se afirmam como meios conscientes; todas objetivam o cosmo cultural pela combinação entre racionalidade formal e racionalidade instrumental. A normativa e o caráter mundano da vida, com as exigências da cotidianidade” (Nobre, 2005: pp. 35-36) de evidenciam através da cultura material presente na feira e da interação entre esses elementos que lá estão.

A partir desse entendimento, é possível pensar a feira na evocação de certa organização racional onde a economia sofre influência de aspectos das práticas de interações deste espaço. Segundo Castro (2013)

Essas relações ocorrem nos momentos das trocas, sobretudo das trocas simbólicas privilegiadas pelo estar-junto - do riso, da fala, das posturas corporais, das expressões, dentre outras tantas possíveis a ser abordadas – e, acredito, mais intensas do que as relações econômicas estabelecidas determinam, num a priori, no local (Castro, 2013: PP. 34-35).

É importante observar que no inicio do corredor da carne, de quem entra pela Av. Barão de Igarapé-Miry, existe um altar com uma santa. Neste altar há o qual possui um suporte para colocar velas e flores, esse pequeno espaço, voltado à religiosidade, é permeado por uma estética do sentir de caráter religioso e, ao mesmo tempo, banal. Percebemos ai, talvez, aquilo que Maffesoli refere como uma “... ambição dessa nova arte de viver [como] ... é um tipo de contemplação daquilo que é, uma estetização da existência” (Maffesoli, 1998: p. 171). Esse pequeno aparato promove uma produção de sentido que se expressa como algo ‘natural’ dali daquele lugar, daquela feira do Guamá.

Pela coloração negra, observada nos suportes onde são colocadas as velas, pudemos notar que o pequeno promontório é bastante utilizado. As pessoas chegam, colocam seus lumes ficam por um tempo, talvez em oração, e partem para suas atividades costumeiras7. Uns entram na feira, outras apenas a transitam naquele momento.. A expressividade do local é bem peculiar, com resquícios de atividades de crenças. Assim, podemos intuir que ali está presente - apesar de não estar diretamente vinculado à função de compra e venda, ou de troca -, a religiosidade. A religiosidade enquanto experiência quotidiana e banal, na feira, assimilada de maneira natural, contra o racional normativo localizado ao lado do setor de carne.

Exprime, na longa duração, aquilo que de diversas maneiras se pode chamar de espontaneidade vital, o vitalismo ou “elã vital” (Bergson). Coisas das quais é de bom tom desconfiar, mas cuja fecundidade própria não se pode, todavia, negar. É essa sabedoria popular que está na base da resistência frente a todos os poderes, mas igualmente ela estrutura o essencial dos fenômenos e das situações que constituem a existência de cada um e da sociedade como um todo (Maffesoli, 1998: p. 173).

Essa sabedoria popular da qual fala Maffesoli, pode ser percebida no acondicionamento dos produtos, nas embalagens, na maneira de embalar, na rodada do saco para fechá-lo com um nós, nos envolvimentos das folhagens para entrega-las ao freguês, no manuseio dos instrumentos como balança, cutelo, facão e outros, ou seja, na presença dos elementos que compõe a cultura material da feira (Castro, 2103). Como exemplo podemos nos referir ao tratamento dado ao caranguejo na hora da venda, na forma como o feirante o coloca dentro de um tanque, como o acondiciona deixando-os vivos até o momento da venda, na forma como o pega, por trás, assim evitando ser atingido pelas suas grandes unhas; o cuidado que ele deve ter para que o caranguejo não perca as patas e não morra antes de ser vendido. Depois de vendidos o feirando coloca-os enfileirados amarrados com uma corda de plástico, e ainda é perceptível observar todo o movimento do animal, ainda levado vivo pelo freguês comprador. Importante notar que a forma como o caranguejo é condicionado, armazenado ali, tem toda uma estratégia e que é passada de geração em geração e que sabedoria colocada em prática acaba por ser algo natural, por ser praticada quotidianamente por aqueles que detêm a prática, o manuseio cultural da coisa. Então é notado o próprio desenvolvimento do algo banal, dentro da cotidianidade percebendo desta forma que as pessoas que passam por ali a cada dia não percebem toda esta expressividade que existe na venda do animal, no qual é a própria arte da vida daqueles feirantes.

L’art qui va s’observer dans le dépassement du fonctionnalisme architectural ou dans celui de l’objet usuel. Un cadre de cie á la reclame du design ménager, tout entend devenir oeuvre de création, tout peut se comprendre comme léxpression dúne expérience esthétique première. Dès lors, l’arte ne saurait être réduit à la seule prodution artistique, j’entends celle des artites, mais devient um fait existentiel8 (Maffesoli, 1990 : p. 12)

Desta maneira podemos perceber na comunicação entre os sujeitos e a disposição dos produtos, da cultura material, ali existente. Dessa maneira na área do pescado, por exemplo, os produtos ficam na parte da frente no suporte de azulejo ou pendurados em ferros em forma de S. Em alguns momentos o peixeiro joga água em cima do peixe para que o mesmo tenha aparência de ser fresco, neste momento na disposição do produto é perceptível à expressividade de um fator existencial, a vida, o frescor, o viço.

Na venda de farinha e de outros produtos como linguiça, charque, conservas, feijão, arroz, os produtos são dispostos em fileiras, em sacos plásticos, encima de balcões ou em sacas abertas, a exemplo da farinha, feijão e arroz. A linguiça, assim como produtos similares são, muitas vezes ou disposto em S ou colocados encima de algum suporte como balcão ou bancada, enrolados em si formando uma espécie de pequeno tonel.

As barracas possuem o cheiro específico dos produtos que comercializam, portanto, assim que adentramos nos respectivos setores percebemos imediatamente a mudança de odor. Alguns aromas são mais fortes que outros, como o do peixe, o do charque, da carne. Juntamente com o odor é interessante perceber as diferentes cores do local, o que contribui para o agenciamento de um estar-junto fruto de “Um ambiente que proporciona possibilidades mútuas de monitoramento, (um ambiente) em que o indivíduo se encontra acessível aos sentidos nus de todos os presentes e estes estão lhe estão acessíveis de forma semelhante” (Goffman, 1998: pp. 13-14). No qual ali é produzido e faz com que a feira tenha a carga representativa que propõe toda uma expectativa comunicativa e funciona como motor para as práticas ali existentes, desenvolvendo dinâmicas essências para a cultura da sociedade amazônica.

A relação entre os sujeitos no espaço da feira propõe novas compreensões, interações, e, desta maneira é o limiar que promove novos aspectos para a estruturação da venda. É no processo interativo, na sua dinâmica, que encontramos os elementos que contribuem para processos de aproximações, de incremento de trocas que constrói processos de estruturações na vida social.

Discussão

Pudemos constatar que no espaço da feira do Guamá a relação dos sujeitos frequentadores da feira, possui diversas construções que colaboram para a reverberação das práticas comunicativas que possibilitam o desenvolvimento da expansão da consciência social. Levando-se em consideração a diversidade que é possibilitada pelas diferentes pessoas e pela cultura material presente na feira – seja na forma de produto, seja na forma de instrumentos de trabalho ou outro - é possível perceber diferentes representações no local que interagem, formam e constituem expressividades que colaboram para o aspecto constitutivo deste local. O aspecto lógico ou econômico possui toda uma justificativa para a movimentação da localidade, todavia não se pode deixar de lado a própria expressividade que ali existe estruturando toda a vida social no cotidiano da feira.

No primeiro ponto do artigo é possível perceber o aspecto de comunidade que ali é evocado, quando percebemos a ideia de forma e conteúdo, vitais para a própria dinâmica da construção da realidade social da feira. Dentro deste contexto, o entendimento do movimento presente é fator de grande relevância, já que possibilita nossa reflexão a partir da interação entre os sujeitos, a cultura material lá existente, e a própria percepção interacional, o que possibilita o desenvolvimento do espaço enquanto uma feira, Pois a feira é percebida enquanto tal, a partir da a construção do lugar entre os sujeitos que o vivem, que o experiência a partir de processos de identificação elaborados entre aqueles que o frequentam, o que podemos compreender como intersubjetividade. A partir dessa ideia é possível perceber toda uma relação de trocas, mas não limitada a trocas de produtos ou mercadorias, ou mesmo trocas econômicas, mas sim, trocas de sensibilidades que influência na interação, portanto, influenciam na troca e na venda, um dos elementos que compõe a feira.

No segundo ponto do artigo, No qual se configura nas relações simbólicas que estão presentes no local e que propõe expressividade de existências. No qual é encontrado a banalidade da arte em toda sua expressividade no mundo da vida da feira colaborando desta maneira para toda condição de algo como uma expressão cultural.

Assim, a presente pesquisa pretende colaborar para a compreensão das expectativas presente nas interações banais que se realizam quotidianamente conformando as práticas sociais comunicativas em uma feira.

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1 Trabalho desenvolvido com o apoio do Programa PIBIC/UFPA.

2 Graduando do curso de Comunicação da Universidade Federal do Pará. Bolsista PIBIC/CNPq. E-mail: fabioxavier30@yahoo.com.

3 Docente do Programa de Pós-graduação Comunicação, Cultura e Amazônia e da Faculdade de Comunicação, Instituto de Letras e Comunicação, Universidade Federal do Pará. E-mail: fabio.fonsecadecastro@gmail.com

4 Observar que é tradicionalmente conhecido como mercado da carne, descrito na primeira parte deste trabalho, o mercado que fica na esquina da passagem Mucajá com a av. José Bonifácio. Nele encontramos uma variedade de produtos como peixe, enlatados, verdura, legumes, frutos e diversos outros, sendo a carne somente mais um desses produtos. O nome foi dado apenas para diferenciá-lo do prédio que fica em frente, na perpendicular, mais antigo, que englobava todo a feira do Guamá e que hoje é chamado de mercado da farinha. Ambos fazem parte da feira do Guamá (Cf. Castro, 2013)

5 O estrangeiro seria aquele que não faz parte da estrutura familiar ou determinado grupo social.

6 “É preciso compreender como sendo a soma de interações que constituem, essencialmente, a vida social.” (MAFESSOLI, 1998, p.123).

7 Pudemos observar, de maneira mais expressiva, talvez porque se localize próximo dos açougueiros, que muitos deles vão e fazem preces para ter melhor venda.

8 “A arte que vai se observar na superação do funcionalismo arquitetural ou daquele objeto usual. Um tipo de vida a um anúncio doméstico, tudo pretende se tornar obra de criação, tudo pode se compreender como a expressão de uma experiência estética primeira. Portanto, a arte não poderia ser reduzida somente à produção artística, eu digo aquelas de artista, mas se torna um fato existencial”

Relatório de Bolsa de Iniciação Científica





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