Porto Alegre, 23 de junho de 2003



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Capítulo 17



FÍGADO

1) HISTOLOGIA

O Fígado é a maior glândula do corpo e o segundo maior órgão, depois do tegumento. Possui funções endócrina e exócrina, sendo considerado, portanto, uma glândula mista. Encontra-se situado na cavidade abdominal, abaixo do diafragma. Recebe a maior parte do seu sangue (aproximadamente 70%) da veia porta e uma porção menor da artéria hepática.





  1. LÓBULO HEPÁTICO: Massa poliédrica de tecido hepático, delimitado por uma linha imaginária unindo os espaços Porta em torno de uma veia centro-lobular. No lóbulo, as células hepáticas ou hepatócitos dispõem-se em placas orientadas radialmente, dispostas em uma só camada, a partir da veia centro-lobular.




  1. ESPAÇO PORTA: Em algumas regiões, os lóbulos ficam separados por vaso e tecido conjuntivo. São as regiões que ocupam os cantos do s poliedros. Estes espaços costumam conter:

  • um ramo da veia porta;

  • um ramo da artéria hepática;

  • um ducto biliar ( com epitálio cúbico simples)




  1. HEPATÓCITOS: células poligonais, dispostas em cordões celulares, medindo 20-30m de diâmetro, de citoplasma granuloso, basófilo, com um núcleo central, arredondado, de cromatina frouxa, com 1 ou 2 nucléolos bem evidentes. Suas superfícies estão em contato:

  • com a parede dos capilares sinusóides através do espaço de Disse;

  • com a parede de outro hepatócito adjacente, mas limitando com essa célula um espaço virtual, tubular: o canalículo biliar .




  1. CANALÍCULOS BILIARES são, portanto, espaços tubulares formados por hepatócitos adjacentes. Não têm paredes próprias: sua parede é formada pela membrana dos hepatócitos. Recebem a bile produzida pelos hepatócitos.

5) ESPAÇO DISSE: estreito espaço que separa a perede dos capilares sinusóides dos hepatócitos.




  1. CAPILARES SINUSÓIDES: Formam uma extensa rede entre placas adjacentes de hepatócitos. Apresenta-se envolto por um delicado arcabouço de fibras reticulares. Os sinusóides hepáticos são capilares de paredes revestidas por 2 tipos celulares:

  • células endoteliais;

  • células de Kuppfer ( são macrófagos, pertencendo ao sistema mononuclear fagocitário).

O
s sinusóides hepáticos são os capilares mais permeáveis do corpo graças aos poros de até 1m entre as células endoteliais.



FORMAÇÕES CONJUNTIVAS:

O fígado possui muito pouco tecido conjuntivo. A superfície externa é revestida por uma delgada cápsula de tecido conjuntivo ( Cápsula de Glisson). Os únicos tecidos conjuntivos dentro dos lóbulos hepáticos são as fibras reticulares e colágenas que se situam em torno dos sinusóides; fora do lóbulo, está presente nos espaços porta.


FUNÇÕES
O hepatócito é uma célula de grande versatilidade funcional. Tem funções glandulares endócrinas e exócrinas. As principais atividades do hepatócito são:

  1. SÍNTESE PROTEICA: Praticamente todas as proteínas plasmática, à exceção das gamaglobulinas, são formadas pelas células hepáticas, como albumina, protrombina, fibrinogênio e lipoproteínas. O hepatócito elimina-as na corrente circulatória. O fígado tem função endócrina graças a produção de insulina like growth factor (IGF-1 e IGF-2). Em presença de hepatopatia crônica (p.ex., cirrose), as proteínas plasmáticas, como albumina, podem cair para níveis muito baixos, causando edema generalizado e ascite.




  1. SECREÇÃO DA BILE: função exócrina do hepatócito. São 2 os componentes principais da bile: os ácidos biliares e a bilirrubina. 90% dos ácidos biliares provêm de reabsorção intestinal, chegando ao fígado pela veia porta e são transportados pela célula hepática para os canalículos biliares. Os restantes 10% são sintetizados no hepatócito. A Bilirrubina é produzida pela digestão da hemoglobina pelas células do sistema mononuclear fagocitário, é captada pelo hepatócito e conjugada com o ácido glicurônico.




  1. ACÚMULO DE METABÓLITOS: Os lipídios e glicídios, importantes reservas energéticas, são acumuladas na célula hepática sob a forma de gorduras neutras e glicogênio. O fígado também serve de armazenamento de várias vitaminas, principalmente a vitamina A




  1. O Fígado, através da gliconeogênese, transforma compostos não glicídicos (aminoácidos, ácido lático e glicerol) em glicose. É também a principal sede do processo de desaminação de aminoácidos.Esse processo gera amônia, subsância neurotóxica. O fígado, então, transforma essa amônia em uréia, sendo posterirmente excretada.




  1. DESINTOXICAÇÃO E NEUTRALIZAÇÃO: Muitas moléculas tóxicas, como certos fármacos (sulfonamidas, penicilina,ampicilina, eritromicina), hormônios (praticamente todos os esteróides,como estrogênio, cortisol e aldosterona), e outras substâncias são neutralizadas pelas células hepáticas através de processos de oxidação, acetilação, metilação e conjugação.


2) PATOLOGIAS RELACIONADAS:


  • Cirrose Hepática: É uma degeneração difusa, progressiva e crônica do tecido hepático com destruição dos hepatócitos e com regeneração e formação de um tecido cicatricial fibroso, extenso e denso.

Etiologia:

1. ALCOÓLICO - principal agente etiológico em pacientes adultos. De 5 a 10 anos de ingestão superior a 80g de etanol / dia.

2. VIRAIS - hepatite por vírus B e vírus C.

3.METABÓLICOS - erros congênitos do metabolismo: galactosemia, tirosinemia, doença de Wilson, hemocromatose. Esteato-hepatite não alcoólica.

4. INDUZIDA POR FÁRMACO - metotrexato, isoniazida, oxifenisatina, alfa-metildopa.

5. AUTO IMUNE - conseqüente à evolução de hepatite, colangite auto-imune.

6. BILIARES - cirrose biliar primária e cirrose biliar secundária com processo final de doenças crônicas como a colangite, colangite esclerosante e obstrução das vias biliares.

7. CRIPTOGÊNICAS - 10 A 20% de etiologia indeterminada


Curiosidade

O alcoolismo crônico causa lesões progressivamente mais graves no fígado: a esteatose, a hepatite alcoólica e finalmente a cirrose. O metabolismo do álcool etílico gera aldeído acético,substância altamente tóxica ao fígado. O aldeído faz com que as células estreladas do fígado transformam-se em miofibroblastos, secretando colágeno para o espaço de Disse. A presença de tecido fibroso neste local faz com que os sinusóides hepáticos se capilarizem, tendo como conseqüência a Hipertensão Portal, resultando em um quadro de ascite ( acúmulo de líquido na cavidade peritoneal), esplenomegalia e varizes esofágicas.

A Cirrose hepática alcoólica é uma lesão irreversível.

Uma complicação temível é o desenvolvimento de hepatocarcinoma.



  • Esteatose: O acúmulo de gordura no interior dos hepatócitos é um mecanismo natural, utilizado para estocar energia. O fígado mantém dois grandes estoques de energia: a gordura e o glicogênio Quando permanecemos em jejum e o nível de glicose no sangue diminui, o fígado transforma o glicogênio em glicose para manter a glicemia do organismo. Se a falta de comida persistir, a gordura começa a ser utilizada, mas este processo é mais demorado.


Fisiopatogenia: A esteatose consiste no acúmulo EXCESSIVO de triglicerideos nos hepatócitos. A esteatose hepática tem várias causas, como alcoolismo ( diminui a B oxidação de ácidos graxos) e obesidade, havendo um acumulo excessivo de gordura. A principio, isso não acarretaria maiores problemas. Mas, por algum mecanismo ainda desconhecido, o organismo desencadeia uma inflamação contra os hepatócitos, que são gradualmente destruídos. Dependendo da intensidade desta destruição, isso pode superar a capacidade de regeneração e levar a perda de hepatócitos, que são substituídos por fibrose ( cicatriz ). Com a progressão da fibrose, e possível que se desenvolva cirrose franca com todas as suas complicações.


  • Icterícia Obstrutiva: Causada por obstrução dos ductos biliares por cálculos biliares ou câncer, ou por lesão dos hepatócitos, como ocorre na hepatite. A formação da bilirrubina e a conjugação desta pelo fígado estão quase normais, mas a bilirrubina conjugada não consegue passar para o intestino, retornando para o sangue, em decorrência da ruptura dos canalículos biliares congestionados e esvaziamento direto da bile na linfa que deixa o fígado. Na icterícia obstrutiva, o nível de bilirrubina conjugada no sangue aumenta de tal forma que a maior parte da bilirrubina no plasma encontra-se mais sob a forma conjugada do que sob a forma livre.


Curiosidade
A gliconeogênese tem uma grande importância, porque é fonte de glicose, principalmente quando nossas reservas de glicogênio começam a acabar.

O metabolismo do álcool etílico compromete a gliconeogênese a partir do ácido lático ( transformação de ácido lático em glicose). Isso gera 2 problemas:

1º) Hipoglicemia, acompanhado de desenvolvimento de acidose lática. Para evitá-la, a pessoa elimina ácido lático na urina, e passa a reter ácido úrico ( para que haja equilíbrio elétrico).

2º)Hiperuricemia


3) visualização microscópica:




Aula Prática

FÍGADO

Lóbulo Hepático


  • Placas de hepatócitos

  • Veias centrolobulares

  • Capilares sinusóides

  • Células endoteliais

  • Células de Kupffer

  • Canalículos Bilíferos

  • Espaço de Disse ou perisinusional

Espaço Porta


  • Ramo da artéria Hepática

  • Ramo da veia Porta

  • Ducto biliar

  • Linfático, nervo

VESÍCULA BILIAR
1) HISTOLOGIA

É um órgão oco, com forma de pêra, preso à superfície inferior do fígado e que desemboca por meio do ducto cístico no colédoco. A parede da vesícula biliar apresenta-se constituída pelas seguintes camadas:




  1. TÚNICA MUCOSA:

  • Epitélio cilíndrico simples com microvilosidades. Essas células reabsorvem NaCl ativamente e, em conseqüência, água e eletrólitos. Dessa forma, esse epitélio retira 4-5% da água da bile.

  • Lâmina própria de tecido conjuntivo frouxo




  1. TÚNICA MUSCULAR:

Delgada e composta por fibras musculares lisas dispostas em várias direções. Os espaços entre os grupos de fibras musculares lisas são preenchidos com tecido conjuntivo frouxo.
3) TÚNICA ADVENTÍCIA E TÚNICA SEROSA:

A superfície da vesícula voltada para a cavidade abdominal é recoberta pelo folheto visceral do peritôneo. O outro lado, em contato com a superfície inferior do fígado, apresenta Túnica Adventícia.






Vesícula Biliar

  1. Visualização microscópica




Aula prática



Vesícula biliar (lamina 86A)
Túnica Mucosa

Túnica Muscular

- Músculo liso plexiforme


Túnica serosa

- Na região superior em contato com o fígado é adventícia.

  • Tecido conjuntivo frouxo

  • Peritônio


FUNÇÕES DA VESÍCULA BILIAR




  • Reservatório de bile, com uma capacidade de cerca de 50ml

  • Concentração da bile de 5 a 10 vezes, através de absorção seletiva de água e sais inorgânicos pela mucosa.


3) PATOLOGIAS RELACIONADAS
Dor da vesícula e ductos biliares: é causada por distensão e por espasmo do músculo liso de sua parede. A dor costuma ser muito forte e em cólicas, localizando-se no epigástrio.

Cálculos Biliares: A grande maioria dos cálculos biliares são formados na vesícula biliar; somente alguns se originam nos ductos biliares.Os cálculos podem ser de 2 tipos:


  • Cálculos pigmentares: formam-se por ação bacteriana, que faz com que haja a desconjugação da bilirrubina direta na vesícula, quando deveria ser desconjugada no intestino. Assim, a bilirrubina torna-se menos hidrossolúvel e precipita.

  • Cálculos Mistos: são os cálculos mais comuns, formados por cálcio e colesterol. A bile só é uma mistura homogênea em determinadas composições: muito agente tensoativo e pouco colesterol. Toda a vez que se alterar essa composição, pouco agente tensoativo e/ou muito colesterol, a bile se torna heterogênea.

Os cálculos são formados de colesterol, cálcio, bilirrubinato e carbonato de cálcio. Muitos cálculos são formados de misturas dessas substâncias. Dois fatores são importantes na formação dos cálculos:

  1. Composição anormal da bile (excesso de colesterol e insuficiência de sais biliares e lecitina para mantê-la em suspensão)

  2. Estase causada por obstrução biliar.

Colecistite: ou inflamação da vesícula biliar é uma complicação comum de cálculos biliares. A obstrução das vias biliares por um cálculo, a concentração excessiva da bile e a conseqüente irritação da membrana mucosa da vesícula biliar causam inflamação química da parede da vesícula biliar.






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