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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ

centro de ciências biológicas e da saúde

curso de especialização em psicologia analítica



MARIA DANÚZIA CARVALHO PROENÇA


SONHOS, RELIGIÃO E PSICOLOGIA ANALÍTICA

Curitiba / PR
2008


MARIA DANÚZIA CARVALHO PROENÇA

SONHOS, RELIGIÃO E PSICOLOGIA ANALÍTICA

Monografia apresentada ao curso de Especialização em Psicologia Analítica da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Campus Prado Velho, como requisito à obtenção do título de especialista.

Orientador: Prof. Nélio Pereira da Silva, CRP 08 / 0016



Curitiba / PR
2008


MARIA DANÚZIA CARVALHO PROENÇA

SONHOS, RELIGIÃO E PSICOLOGIA ANALÍTICA

Monografia apresentada ao curso de Especialização em Psicologia Analítica da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Campus Prado Velho, como requisito à obtenção do título de especialista.



COMISSÃO ORGANIZADORA

Prof.


Pontifícia Universidade Católica do Paraná

Prof.


Pontifícia Universidade Católica do Paraná

Prof.


Pontifícia Universidade Católica do Paraná

Curitiba / PR
2008


RESUMO
Analisar o sonho, principal agente do sono, buscando melhor compreender os motivos que fizeram com que o mesmo fosse relegado a segundo plano, ao esquecimento, ou pior ainda, passasse a ser encarado trabalho de charlatão interpretar o significado do que foi sonhado, essa é a proposta do presente estudo. Fazendo uma modesta revisão de literatura sobre os sonhos, encontramos em vários períodos da história e em culturas completamente diferentes entre si, o tema “sonho” aparecer com encantamento, mas também como uma incógnita. Constatamos que as mesmas perguntas repetem-se ao longo dos séculos: Qual a finalidade do sonho, existe por capricho ou necessidade, são enviados por deuses ou demônios, podemos acreditar neles ou não? Diversos estudos foram e outros estão sendo realizados buscando uma resposta satisfatória, e nesta busca observamos o afastamento dos povos do ocidente em relação ao onírico, mais especificamente entre os cristãos, que foram encorajados pela igreja a não valorizar os sonhos. Surge então uma nova ciência, a psicologia, e com ela ressurge a proposta de resgatar esta preciosa fonte de informações que nos é entregue enquanto dormimos, e que ao longo de nossas vidas, enquanto caminhantes da jornada terrena nos auxiliará promovendo nosso auto-conhecimento, rumo à individuação.
Palavras-chave: sono, sonho, religião, psicologia, auto-conhecimento.

ABSTRACT
To analyse the dream, the main agent of sleep, searching to better understand the reasons that made it be placed at the second flat, to oblivion, or worse, to be considered as charlatan work to interpret the meaning of what was dreamed, this is the proposal of this study. Making a modest review of literature about dreams, we’ve found in many periods of the history and in completely different cultures the theme "dream" appearing as enchantment, but also as a mystery. We’ve verified that the same questions are repeted over the centuries: What is the reason of the dream, there is a need or it’s just a whim, are sent by gods or demons, can we believe in them or not? Several studies have been made and others are still being to find a satisfactory answer, and in this search we observed the removal of the western people in relation to dreams, especially among Christians, that were encouraged by the church to not valorize the dreams. Appear then a new science, psychology, and with it reappear the proposal to redeem this valuable source of information that is given to us while we sleep, and that throughout our lives, while walkers of the day it will help us promoting our self-knowledge, toward individualization.

Keywords: sleep, dream, religion, psychology, self-knowledge.

SUMÁRIO

  1. INTRODUÇÃO.................................................................................06

  2. SONHOS E RELIGIÃO....................................................................21

  3. SONHOS E PSICOLOGIA ANALÍTICA..........................................38

  4. CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................47

REFERÊNCIAS.....................................................................................49


  1. INTRODUÇÃO

Sonhar

Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;


É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.

Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,


Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.

É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,


Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.

Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:


Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo
.

Helena Kolody
“Há quinhentos anos, um grupo de corajosos exploradores cruzou o oceano em busca de um novo continente, uma terra misteriosa, oculta por um mar nunca explorado do qual não existia mapa algum. Nesses tempos muitos eram aqueles que consideravam tais viagens uma perda de tempo e de recursos. De fato, a civilização até então tinha evoluído durante séculos sem este tipo de exploração.

Contra todos os prognósticos, este grupo de exploradores arriscou-se a prosseguir, atraídos pelo desconhecido, por uma intensa vontade de descobrir. Abandonaram a comodidade dos seus lares para embarcar numa viagem além dos horizontes conhecidos. Enfrentando os seus medos e as suas dúvidas, assim como os da sociedade, mantiveram-se firmes no seu objetivo até que finalmente alcançaram a sua meta, a sua descoberta.

Atualmente encontramo-nos perante um idêntico tipo de exploração: temos um oceano de energia por explorar à espera de ser conquistado por quem possua a visão e o valor suficientes para ir mais além dos seus horizontes físicos. Como no passado, a visão do explorador deve superar a fronteira física. Da mesma forma que anteriormente, o explorador deve possuir o impulso e tomar a decisão de viajar para além dos limites conhecidos pela sociedade e pela ciência. Deve viajar sozinho, longe das massas que se agarram com tudo o que podem à segurança da terra firme.

Hoje, assim como no passado, um único motivo impulsiona os exploradores: a necessidade de descobrir por si mesmos, porque aceitar algo que não seja um conhecimento em primeira mão será render-se às idéias e às suposições de quem só conhece a terra sólida.

Neste momento, cada um de nós tem a oportunidade de ir mais além das fronteiras do universo físico e de se converter num explorador. Todos podemos compartilhar esta fantástica aventura."  (Traduzido do prefácio de “Adventures Beyond the Body” de William Buhlman) Site 1

Este breve estudo propõe a tentativa de compreender o lugar ocupado pelo sonho na atualidade, fazendo um paralelo com a religião, que sempre o valorizou desde as mais remotas eras e agora o desconhece, e a sua importância para a psicologia analítica, visto que o sonho têm papel relevante para a análise e para o auto-conhecimento do paciente.

Hall nos auxilia nesta busca por compreender os sonhos fazendo uma ligação entre duas realidades inseparáveis:

“Em todas as religiões e em todas as civilizações antigas, os sonhos têm sido considerados uma importante via de ligação entre o mundo cotidiano e outro mundo – o mundo espiritual, o mundo dos deuses, o reino arquetípico; em linguagem moderna, o inconsciente.” (2003, p. 119)

Todos os fenômenos que são vivos e dinâmicos e não se enquadram às fórmulas tradicionais já estabelecidas, encontram-se enredados em mistérios e situações inexplicáveis, assim também ocorre com os sonhos, eles não podem mais ser interpretados como fantasias nem permanecer reduzidos às fórmulas e explicações mecanicistas que guiaram a velha ciência. A rapidez com que está se desenvolvendo a área científica necessita com urgência de um novo paradigma, e a academia lentamente está aceitando a probabilidade do imponderável, que nem tudo pode ser explicado racionalmente e que a dinâmica e o mistério da vida está por ser descoberto.

Utilizando o saber de Edinger, e sua definição sobre a importância atribuída à psicologia, nos diz que uma nova era está iniciando, e que convenções e convicções estão sendo colocadas à prova e remodeladas:


“A descoberta da psicologia profunda no século XX é, na minha opinião, pelo menos tão importante quanto, e igual em grandeza à descoberta da física nuclear. Vejam o que aconteceu. Por milhares de anos, a humanidade possui o conceito de alma, de psique, de uma consciência elementar de que a subjetividade humana é um fator muito importante, mas a humanidade estava tão próxima a essa realidade que não conseguia tratá-la de maneira empírica ou científica. A imagem que gosto de usar é de um peixe nadando numa lagoa. Existe uma anedota agradável, uma anedota oriental, que chegou a mim certa vez. O mestre Zen pergunta ao aprendiz: “Quem descobriu a água? O aprendiz não sabe, então o mestre responde: “Bom, eu também não sei, mas sei quem não descobriu: o peixe.” Como vocês podem ver, os seres humanos estão exatamente na mesma posição em relação à psique. Eles vivem dentro dela... E foi isso que abriu as portas para o estudo científico da psique. Essa é realmente uma enorme revolução copernica que ainda mal começou a penetrar na consciência coletiva” (2004, p. 14 - 15)


Whitmont reforça este alerta ao dito mundo moderno, onde prevalece o racional, o método exato, pleno de saber científico, ao dizer que:

“Na nossa época, este racionalismo extrovertido chegou a tal extremo que já se comentou que “não apenas o mundo ocidental mas a humanidade como um todo corre o rico de perder sua alma para as coisas externas da vida. Nossas forças extrovertidas do intelecto estão preocupadas com a alimentação adequada, com os cuidados higiênicos das regiões subdesenvolvidas do mundo, assim como com a elevação do nosso padrão de vida, que as funções irracionais, o coração e a alma, estão cada vez mais ameaçados de atrofia”. Alguns dos resultados desta ênfase unilateral são as neuroses individuais e de massa que encontramos atualmente, com o perigo sempre presente de erupções explosivas. Os vícios do álcool, dos narcóticos e das “drogas para expansão da mente” também expressam uma busca de experiências emocionais que se perderam no decorrer da nossa extrema intelectualização. Mas não é apenas o vício do álcool e das drogas; o “vício do trabalho”, a “doença do gerente”, a necessidade compulsiva de sempre se ter algo para fazer a fim de parecer ocupado, também indicam a incapacidade do homem moderno de encontrar sentido na vida.” (2002, p.17)

A importância dos sonhos que se perdera com o passar do tempo, e a absorção de dogmas religiosos incentivando seu abandono, fez com que eles passassem a ser desencorajados de ser interpretados e até mesmo de serem reconhecidos como algo de valor pessoal, os sonhos passaram a ser vistos como manifestações simplórias e desprovidas de qualquer sentido de lógica, porém, no início do século XX, um médico já então reconhecido por seu trabalho publicou um livro sobre sonhos, e como narra o professor, psicólogo e padre episcopaliano Kelsey:


“Sigmund Freud publicou A Interpretação dos Sonhos em 1900. Aí se mapeava um modo de explorar a relação do sonho com o inconsciente humano. É difícil dar a real dimensão da importância de seu trabalho, mesmo sabendo que o próprio Freud tinha consciência disso, pois enfatizara mais de uma vez que a publicação de seu livro fora sincronizada para coincidir com o início de uma nova era. Claro que ele não foi o primeiro a falar na existência do inconsciente, e na importância dos sonhos a partir do ponto de vista científico. Mas foi o primeiro a relacionar essa duas dimensões e a realizar um estudo empírico de fôlego sobre o assunto, escrevendo com clareza e, na verdade, com força tão convincente que suas opiniões não poderiam ser ignoradas...Entretanto, Freud encontrou pouco mais que desprezo entre os próprios colegas de profissão. Só depois de oito anos é que se esgotou a primeira edição de seiscentos exemplares de A Interpretação dos Sonhos. Embora fosse difícil ignorar o que dizia, suas idéias eram ridicularizadas, e por muito tempo esse tipo de riso se constituiu em boa defesa contra a sua contribuição.” (1996 , p. 270, 271)


Para falar sobre os sonhos e sua relevância temos que falar primeiramente sobre o sono, e diferentemente do que muitos ainda pensam, o sono não é um estado passivo, inerte, “uma quase morte”, nosso cérebro continua a pleno vapor trabalhando neste período em que nosso corpo físico descansa.

No ano de 1937, Alfred Loomis, fisiologista na universidade de Princeton, estudou imagens de um indivíduo dormindo num aparelho novo, o eletrencefalograma (EEG), e descobriu que o cérebro não descansava, ele permanecia ativo. Loomis detectou uma intensa atividade elétrica noturna no cérebro de seus pacientes, comparou-o a um dínamo e concluiu que o sono se desenvolve em fases com freqüência elétrica diferente em cada uma delas. Mais tarde isso permitiria distinguir as cinco etapas do sono conhecidas atualmente.

Somente agora, transcorridos 70 anos da descoberta, é que os cientistas começaram a fazer uso das conclusões de Loomi para procurar entender a correlação do sono, o caminho do aprendizado e a sua fixação na memória. Sabemos que continuamos aprendendo durante o sono, separando o que é bom e permanecerá em nossa memória e o que não é bom nem importante será descartado.

O sono é um processo biológico, e durante o período que dormimos ocorre uma abolição da consciência vígil, as respostas dadas ao meio ambiente são reduzidas ao mínimo, porém acompanhadas por mudanças em diversas funções no nosso organismo, e é exatamente neste momento que o sonho tem um papel importante.

Através de estudos e acompanhamento de cientistas, sabemos que a grande maioria dos seres humanos dorme em média 1/3 do tempo que vive, assim sendo, uma pessoa com setenta anos, passou em média vinte anos dormindo, e desses vinte anos, cinco deles foram ocupados pelos sonhos, portanto, o sono e os sonhos não devem somente fazer parte do ciclo básico corporal como respirar por exemplo, em que não precisamos pensar para que o processo aconteça, mas certamente eles devem atender a uma necessidade biológica fundamental para promover o equilíbrio mental e corporal de todo o complexo organismo humano.

Está comprovado que a privação do sono, e em particular dos sonhos podem provocar efeitos físicos e mentais danosos, encontramos na literatura médica relatos de métodos usados como tortura em época de guerra para desestabilizar o inimigo, sem feri-lo visivelmente, “não deixar o prisioneiro dormir nem sonhar”.

A falta de sono a curto prazo acarreta: Fácil irritabilidade, bruscas alterações de humor, perda da memória de fatos recentes, maior cansaço e sonolência durante o dia, menor criatividade, a capacidade de planejar e executar tarefas corriqueiras fica comprometida, o raciocínio fica lento e surge dificuldade de concentração.

E a falta de sono a longo prazo proporciona: O sistema imunológico fica mais sensível a alterações externas, tendência a obesidade, menor vigor físico, envelhecimento precoce, redução do tônus muscular, possibilidade de desenvolver diabetes, doenças cardiovasculares e gastrointestinais e perda gradual da memória.

Kelsey exemplifica que a privação do sono e conseqüentemente dos sonhos pode ser o gatilho para desencadear processos patológicos, pois ambos estão intimamente associados:

“O organismo humano tem necessidade de sonhar. De início, esta necessidade baseia-se em certos mecanismos fisiológicos. Mas, a certa altura do início do processo, como observa Fischer, “os mecanismos fisiológicos cedem o comando ao processo psicológico do sonhar, emergindo, daí, uma nova função, ou seja, a regulação da descarga dos processos das pulsões instintivas através da realização alucinatória do desejo, em oposição à descarga fisiológica através de padrões motores.” Em suma, o animal humano começa a sonhar o seu caminho no sentido de tornar-se um ser humano. (1996, p.304)

Para um indivíduo normal, se ocorrer a privação total do sono ele não sobreviverá, porém se a privação for prolongada sua vida será prejudicada por diversos distúrbios que irão surgindo ao longo do tempo e agravados na mesma proporção.

Estudos comprovam que aproximadamente 25 % da população adulta possui algum distúrbio do sono, que pode ser distribuído da seguinte forma:

A hipersônia (51 %) é o aumento do número de horas de sono em aproximadamente 25% do padrão de sono considerado normal para a idade do indivíduo, é um sintoma que freqüentemente indica a possibilidade de uma lesão grave.

A insônia (31 %) é a dificuldade que surge para iniciar ou manter o sono durante a noite e na manhã seguinte aparece a sensação de sono não reparador. Quase 1/3 dos adultos apresenta insônia durante a vida, e a metade destes necessitam de cuidados médicos.

As parassônias (15 %) são disfunções associadas ao sono, a estágios do sono ou a despertares parciais, fazem parte o sonambulismo, o terror noturno, e a enurese. Também podemos citar outras disfunções relacionadas ao sono ( 3%) como Crises epilépticas, Bruxismo, Refluxo gastroesofágico, etc.

Como observamos, o sono humano pode ser afetado negativamente por diversos fatores tanto internos como externos, e as fases deste período de sono são divididos em estágios de alternância sono-vigília, que atuam como verdadeiros relógio neuronais cíclicos, que determinam o momento do sujeito sonhar.

A evolução do sono ocorre gradualmente, passando por quatro estágios: Estágio 1- Sono Lento, inicia com uma sensação de sonolência.

Estágio 2- Sincronizado ou Sono NREM (não-REM), evolução para um sono leve.

Estágio 3 - Sono Paradoxal, passagem para um sono profundo.

Estágio 4 - Dessincronizado ou Sono REM (do inglês Rapid Eye Movements), momento em que ocorrem os sonhos.

Todas as fases do sono possuem determinada importância, seja para o crescimento e desenvolvimento do corpo e/ou do cérebro humano. Durante os estágios 3 e 4 do Sono Profundo, ocorre uma grande liberação do Hormônio do Crescimento (GH) e de outros hormônios e aminoácidos importantes para todo o organismo, estão associados a reparos teciduais e a recuperação física, estão relacionados também aos processos sintéticos cerebrais e na recuperação psicológica do indivíduo, porém observamos que na pessoa idosa ocorre uma diminuição deste estágio de sono profundo, reduzindo inclusive o número total de horas que dorme à noite, é um processo inverso do que ocorre com recém-nascidos, que dormem mais da metade das 24 horas do dia.

De acordo com os achados bibliográficos históricos, talvez o mais completo e antigo tratado sobre o sono e os sonhos venha da antigüidade clássica, a “Onirocrítica” de Artemidoro de Daldis, que viveu em Éfeso, no século II d.C. na Ásia Menor. A obra é composta por cinco livros e permaneceu desaparecida por longo tempo, foi reeditada no final do século XV, graças ao mecenas Lourenço, o Magnífico, e cuja versão existem publicações modernas a partir de 1970 (ver Ed. Akal, 1999). Este é o único texto do gênero que nos chegou na íntegra e que resume e sintetiza várias outras obras do gênero da antigüidade.

Artemidoro de Daldis redigiu um tratado de interpretação dos sonhos baseado diretamente na observação do povo com que convivia, sempre frisando, com extrema atualidade, que os mesmos símbolos surgidos em sonhos têm significado diferente de pessoa para pessoa, e que deveriam ser adequados às diversas situações vividas pelo sonhador, seja ele um escravo ou um nobre.

O oneirocrítico da antigüidade tinha como função determinar se a partir das produções oníricas, os acontecimentos que ocorreriam seriam favoráveis ou não, essa interpretação dos sonhos era muito importante não somente para o povo, mas para os monarcas também, fato este que originou uma classe intermediária de profissionais respeitados, eles transmitiam sua arte de interpretação de pai para filho.

Analisando o sono e os sonhos encontraremos centenas de relatos sobre descobertas científicas, invenções que promoveram mudanças na vida do homem, previsões iluminadas, antecipação ou comunicado de catástrofes, porém, o que existe em comum entre todas é que foram recebidas através de sonhos, e como bem disse Friedrich Nietzsche "todos somos artistas em nossos sonhos”.

Kelsey narra com precisão exemplos de momentos da história em que o sonhos se fizeram presente e trouxeram através de seus sonhadores grandes obras literárias, que influenciaram e continuam influenciando gerações:

“Desde o renascimento até nossos dias, a literatura está repleta de sonhos, que são considerados ora o reflexo de um estado de personalidade, ora uma instrução do além, ou de um nível mais profundo de nosso ser. Dante, Chaucer, Shakespeare, Rabelais, Milton, Tolstói, Goethe e Dickens são apenas alguns dos que basearam incidentes e até histórias inteiras em sonhos. O Médico e o Monstro deve-se a um sonho de Stevenson; Mary Shelley escreveu Frankenstein sob a mesma inspiração. A influência dos conteúdos oníricos e do inconsciente sobre o teatro moderno é assunto de obra interessante, de autoria de W. David Siever, Freud on Broadway. Em Demian Hesse escreve sobre os sonhos como uma parte integrante e profunda da história de sua própria vida.” (1996 ,p. 452)



O inventor Elias Howe (1819-1867) projetou a máquina de costura por meio de um sonho. Sabemos que uma agulha de costura comum tem abertura para passagem do fio na extremidade oposta à ponta, mas Howe, ao tentar automatizar o processo, não conseguia que essas agulhas funcionassem. Certa noite, sonhou com uma tribo que o ameaçava com lanças que tinham um orifício na ponta da lança, despertou e percebeu que se colocasse o orifício perto da extremidade da agulha obteria o resultado almejado. Feito isto, a máquina funcionou e com o passar do tempo a produção de roupas em escala industrial foi alcançada.

Wolfgang Amadeus Mozart revelou que muitas das suas composições musicais lhe ocorriam em sonhos, e que ao acordar ou mesmo durante a noite, levantava, as transcrevia e voltava a dormir.

O químico Friedrich August Kekulé von Stradonitz, em 1865, foi o responsável pela descoberta do anel hexagonal da estrutura molecular do benzeno, e propagou sem receio de ter seu nome abalado por amadorismo, que após muito estudo sua descoberta foi baseada em figuras de um sonho, e aceito por toda comunidade científica. Em suas próprias palavras: "Os átomos saracoteavam diante de mim (...). Os olhos de minha mente, aguçados pelas repetidas visões desse tipo, distinguiam agora estruturas maiores, de conformação múltipla; fileiras longas, às vezes mais cerradas, tudo girava e se contorcia como uma cobra. Mas veja! O que é aquilo? Uma das cobras agarrou a própria cauda e se pôs a girar, dançando diante dos meus olhos. Como se fosse atingido por um raio, eu acordei (...) Passei o resto da noite trabalhando nas conseqüências da hipótese."

Os sonhos influenciaram os quadros de Salvador Dali, assim como a leitura dos trabalhos psicológicos de Freud, na sua tentativa de interpretar os sonhos, e é desta fase uma de suas pinturas mais conhecidas “A persistência da Memória”, em que aparecem alguns relógios derretendo. Pablo Picasso e outros tantos pintores surrealistas e abstratos, também elegeram os sonhos como fonte inspiradora de suas mais belas obras.

Figura 1- Quadro de Salvador Dali



O grande poema ‘Kubla Khan’ escrito no verão de 1797, foi inspirado no Livro das Maravilhas, de Marco Polo. O poeta Samuel Taylor Coleridge lia determinada passagem deste livro que relatava a construção do célebre palácio do Imperador chinês Kubla Khan (1215-1294) na cidade de Shang-tu (Xanadu), e adormece. Ao acordar começa a transcrever freneticamente o texto recebido em sonho, o poema descreve detalhadamente a cidade de Xanadu como um lugar mágico e misterioso, a capital do império de Kublai Khan, um rico poema de aproximadamente 300 versos, porém Coleridge foi interrompido por uma visita que durou aproximadamente uma hora, ao voltar a escrever deu-se conta que tinha esquecido muito sobre o sonho, e o que nos foi legado por Coleridge é um conjunto de cinqüenta versos, que foi suficiente para torná-lo famoso.

No ano de 1922, Igor Stravinsky sonhou que estava sentado numa sala, descontente com oito músicos que tocavam uma flauta, uma clarineta, dois trompetes, dois trombones e dois fagotes, uma peça que quanto mais ele ouvia mais o desagradava. Ao acordar, Stravinski imediatamente anotou a melodia que havia escutado no sonho e desta forma surgiu o famoso Octeto” para instrumentos de sopro, tocada por orquestras do mundo inteiro.

O psicólogo Otto Loewi no ano de 1929, estudando as sinapses, descobriu a transmissão química dos impulsos nervosos, e atribuiu sua descoberta a um sonho, em que observando as imagens surgidas concluiu que a maioria das drogas que agiam no sistema nervoso funcionavam afetando as sinapses liberando pequenas quantidades de uma substância química: a acetilcolina. A substância era liberada na sinapse pelo neurônio que trazia a informação (pré-sináptico), e captada por receptores localizados no neurônio que a recebiam (pós-sináptico).

Os sonhos também foram a base para as poesias eloqüentes de T. S. Elliot, e para os famosos romances de Gabriel Garcia Marques, onde os personagens e as tramas desenvolvidas, iniciaram-se por vezes em sonho e com a força da escrita ganharam vida, chegando alguns a tornar-se Best-Sellers.

Esses casos não são únicos nem raros, se pesquisarmos o valor atribuído aos sonhos no decorrer da História e nas mais diversas culturas, ficaremos realmente surpresos, a “oniromancia” é usada desde os primórdios da humanidade, bruxos, sacerdotes e sacerdotisas, pagãos e xamãs, todos buscavam a interpretação ou previsão do futuro pelos sonhos. A oniromancia sempre teve grande credibilidade, no antigo Egito foi encontrado um papiro da época Raméssida, que foi escrito por volta de 2000 a 1785 a.C., que contêm uma lista de significados proféticos para os símbolos oníricos, a “Chave dos Sonhos”.

Nas religiões judaico-cristãs a oniromancia é parte integrante da Torá e da Bíblia. No Islamismo acredita-se que os sonhos bons são inspirados por Alá e podem trazer mensagens divinatórias, ao passo que os pesadelos são consideradas armadilhas de satã e devem ser exorcizados.

Algumas culturas acreditavam que tanto o mundo dos sonhos como o mundo real eram verdadeiros e tinham o mesmo valor, aqui não estamos falando somente de tribos ou sociedades isoladas, mas também das grandes civilizações da Idade Média e de culturas contemporâneas nossas que têm a mesma convicção.     

Mas afinal, o que são os sonhos?

Podemos obter várias respostas para esta pergunta, a primeira delas pode ser clínica, e de forma simplificada tentar explicar que através de estimulação física do córtex sensorial surgem locais em nossa mente, com imagens dos nossos pensamentos, sentimentos, emoções, intuições e sensações, tanto bons como ruins, sem podermos optar por um ou outro livremente, eles aparecem, tomam forma, e vão embora da mesma forma que vieram.

A ciência ao falar sobre o sono diz que é um processo fisiológico, que a natureza desenvolveu durante o processo da evolução para o crescimento e desenvolvimento do cérebro e dos próprios seres vivos, visando aumentar as nossas defesas e poupar energia, e os sonhos são uma descarga emocional da vivência diária.

Já a medicina, fala que o sono serve para restaurar os processos químicos e físicos extenuados pela consciência durante as atividades do dia, em que temos que aprender e fixar dados na memória, e que o sono e os sonhos principalmente, nos auxiliam a apagar e descarregar emoções negativas para que possamos manter nossa saúde mental.

Também podemos recorrer à mitologia grega para tentar entender de onde vêm os sonhos, e de imediato descobrimos que existe uma grande confusão em relação a figura de Morfeu, que tem como pai Hypnos e como mãe a Noite.

Morfeu é na realidade o deus dos “sonhos”, e seu pai Hypnos, que é o responsável por fazer as pessoas dormir, é o deus do sono. Hypnos misteriosamente penetrava no organismo dos homens e fazia repousar seu corpo, esquecer a fadiga, e descansar a mente. Hypnos era representado sob a figura de uma criança, ao fundo de uma gruta silenciosa e impenetrável à luz do dia, segurava com as mãos um dente e uma cornucópia. Hypnos / Sono era irmão gêmeo de Tânatos / a morte, daí podemos entender a antiga correlação existente de que a pessoa que dorme e sonha, enxerga além da morte, e é capaz de entrar em contato com os antepassados e os deuses.



Figura 2 – Hypnos e Tânatos – 1874 (Sono e Morte)

Hypnos teve três filhos, chamados de Oneiroi, que personificavam os sonhos dos humanos. Eles dormiam dispersos sobre papoulas, e como sabemos, a papoula ou ópio é uma planta de onde é obtido a morfina. Morfeu é considerado o filho mais importante, “o que molda-se, toma forma humana” é o deus grego dos sonhos divinos. O segundo filho é Icelus ”frightening”, é o deus dos pesadelos, chamado de Phobetor “phobia”, surge nos sonhos humanos em forma de animal ou de monstro. O terceiro é Fantasos ”apparition”, este deus dos sonhos aparece como algo que faz parte da natureza, e também toma a forma de objetos inanimados.

E como não poderia faltar, a religião também fala sobre os sonhos. Sabemos que a “intercessão divina” nos processos de cura, seja cura do corpo, mente ou alma, acompanha o homem desde seu primeiros passos na terra, porém existe uma diversidade tão grande de religiões e crenças, que acabamos por não compreender nem encontrar uma resposta única que satisfaça nossa forma de compreender essas mensagens enviadas em sonhos, as curas realizadas e as premonições concretizadas, as visões antecipatórias ou a narração de fatos ocorridos a distância com extrema precisão, sem a presença do indivíduo no exato momento do fato ocorrido.

Atualmente, voltou-se a acreditar como nossos antepassados bíblicos acreditavam, que o sono e os sonhos são fundamentais não somente para o físico, mas também para a mente humana obter a tão almejada paz de espírito.

William Shakespeare escreveu que “o sono desembaraça a seda enredada das preocupações, é o bálsamo que alivia as dores do trabalho e o principal alimentador do festim da vida”.

Sanford nos esclarece que os sonhos possuem uma textura diferenciada, e que não devem encarados como uma continuidade lógica e racional, eles não podem ser vistos com olhos materialistas pois são feitos de outro material, nosso inconsciente utiliza-se de outros sentidos e diversos meios para nos enviar mensagens que parecem num primeiro momento desprovidas de qualquer senso de lógica:

"O comportamento humano não é racional e a humanidade se comporta em todo o mundo como se fosse possessa. Para o homem primitivo tudo isso era sinal óbvio da realidade do mundo espiritual que lhe aparecia nos sonhos. (...) Persistimos em nosso materialismo racionalista, sob a ilusão de que somos racionais e os outros não. Se há distúrbios em nossos sentimentos e em nossa afetividade, atribuímos a causa ao que os outros nos fazem e continuamos pensando que só tem sentido o que nos parece lógico e racional, que só é real o que vemos, ouvimos, cheiramos, tocamos e provamos. Os sonhos tem sentido, mas um sentido que não é lógico. São muito reais, mas sua realidade não é apreendida por nenhum dos sentidos do nosso corpo." (1988, p. 14) 

Existem tantos tipos de sonhos que se torna óbvio a dificuldade que encontramos para fazer sua interpretação, eles são modos encontrados para comunicar e fazer a ligação entre o consciente e o inconsciente, a integração do corpo e da alma.

Os sonhos podem ser classificados de diversas maneiras, modalidades, temas, a variedade é imensa e depende até mesmo de região para região a sua variabilidade, tantas, que a seguir temos um pequeno esquema destas variações, deixando claro que eles podem variar infinitamente dentro de um mesmo tema:



  • Os Sonhos proféticos são entendidos como um aviso sobre determinado acontecimento relevante, a Bíblia traz diversos sonhos proféticos que foram importantes para definir rumos e atitudes de um povo.

  • Os Sonhos iniciatórios ocorrem em indivíduos que congregam alguma crença e/ou religião e encontram-se encarregados de mostrar ou guiar outros homens para uma nova visão de mundo, menos concreta.

  • Os sonhos telepáticos atualmente estão sendo estudados com seriedade, principalmente por instituições militares, pois têm interesse em transmissões sem aparelhos. Nestes sonhos as comunicações são enviadas através de pensamentos e sentimentos de pessoas ou até mesmo por grupos que se encontram a distância do sujeito que sonhou.

  • Os sonhos visionários têm maior ocorrência entre os místicos orientais, e eles relatam que estes sonhos a nossa civilização ocidental atrofiou ou paralisou com o passar do tempo, nosso materialismo excedeu o volume mínimo necessário de recolhimento e introspecção, a algum tempo deixamos de entrar em contato com nossos pensamentos e desejos reais.

  • Os sonhos pressentimentos fazem com que o sujeito que sonhou escolha uma possibilidade entre diversas outras opções disponíveis e acerte na mesma. Os jogos de azar são um exemplo deste tipo de sonho.

  • Os sonhos mitológicos reproduzem algum arquétipo da humanidade e refletem uma busca fundamental e universal, o herói salvador, símbolo de nobreza e garra - Airton Sena; o príncipe que busca um grande amor e por não encontrar uma mulher que seja ideal quer várias ao mesmo tempo - Dom Juan; a grande mãe protetora - Madre Teresa; a donzela que aguarda indefinidamente seu príncipe encantado – Cinderela; o homem que não amadurece psicologicamente nem assume responsabilidades compatíveis com sua idade cronológica - Peter Pan, o Puer Aeternus; todos são exemplos de sonhos recorrentes em todas as idades e classes sociais, representados no mundo inteiro, adequando-se sempre a época vigente.

Jung falou sobre um outro tipo de sonho, o sonho recorrente, muitos indivíduos relatam ter a repetição de determinado sonho durante grande período de sua vida, e não entendem o motivo dele repetir sempre à mesma temática, às vezes com pequenas alterações, mas o conteúdo permanece o mesmo:

“Osonho recorrente é um fenômeno digno de apreciação. Há casos em que as pessoas sonham o mesmo sonho, desde a infância até a idade adulta. Este tipo de sonho é em geral uma tentativa de compensação para algum defeito particular que existe na atitude do sonhador em relação à vida; ou pode datar de um traumatismo que tenha deixado alguma marca. Pode também ser a antecipação de algum acontecimento importante que está por acontecer.” (2002 , p. 53)

Edinger cita Jung em Ego e Arquétipo (1992) ao defender a importância do simbólico em nossas vidas tão agitadas, acredita que o homem moderno pode acabar somente passando pela vida, sem se dar conta que está num ir e vir sem um sentido verdadeiro e profundo, e acabar não aproveitando as possibilidades e oportunidades a que temos direito:

“O homem necessita de uma vida simbólica. Mas não temos vida simbólica. Acaso vocês dispõem de um canto em algum lugar de suas casas onde realizam ritos, como acontece na Índia? Mesmo as casas mais simples daquele país têm pelo menos um canto fechado por uma cortina no qual os membros da família podem viver a vida simbólica, podem fazer seus novos votos ou meditar. Nós não temos isso... Não temos tempo, nem lugar... Só a vida simbólica pode exprimir a necessidade do espírito - a necessidade diária do espírito, não se esqueçam! E como não dispõem disso, as pessoas jamais podem libertar-se desse moinho - dessa vida angustiante, esmagadora e banal em que as pessoas são "nada senão.”






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