Plantas medicinais: uma exemplo rico de tema gerador nas práticas de alfabetização e letramento



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PLANTAS MEDICINAIS: UM EXEMPLO RICO DE TEMA GERADOR NAS PRÁTICAS DE ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
Formação de Professores para a Educação de Pessoas Jovens e Adultas.

Priscila Silva Oliveira - Unesp - Assis

Kátia Regina Coutinho - Unesp - Assis
Com a crescente utilização das plantas medicinais, aumentou-se a preocupação com seu uso, visto que a medicina tradicional, popularmente chamada de “caseira” não apresenta, na maioria das vezes, critérios rigorosos tanto na forma de utilização e preparo, quanto no que se refere à dosagem e contra-indicações.

A utilização da medicina tradicional é foco de diversos estudos em praticamente todo o mundo. A eficácia, segurança do uso e controle da qualidade de algumas destas plantas foram confirmadas e outras continuam em estudo por meio de testes farmacológicos, toxicológicos e químicos. Os estudos também prevêem o manejo sustentável incluindo muitas vezes uma fonte de renda alternativa para as comunidades locais. O estudo das relações estabelecidas entre os povos e as plantas por eles utilizadas é realizado pela área da ciência conhecida como etnobotânica.


Ao considerarmos as características culturais do nosso país, principalmente no aspecto do rico conhecimento de plantas medicinais existente nas diversas regiões, verificamos que este é o momento da realização do maior número possível de estudos etnofarmacológicos para que o conhecimento tradicional seja devidamente resgatado, preservado e utilizado como subsídio de pesquisas com plantas medicinais.” ( Di Stasi, et. al.,1989).
O conhecimento das comunidades locais tem contribuído para a investigação etnobotânica da flora brasileira e no resgate do conhecimento sobre a forma de uso e manejo dessas plantas e nas suas implicações na conservação de seus ecossistemas.

O conhecimento é inerente à atividade humana. O ser humano tem curiosidade natural para o conhecimento” (Mizukami, 1986)

Considerando o vasto patrimônio cultural e natural da região Nordeste do país, resolvemos colocar as plantas medicinais em debate na Capacitação Inicial do Módulo XVIII para os municípios de Formosa da Serra Negra -MA e Marcos Parente -PI, atendidos pela UNESP no Programa de Alfabetização Solidária.

O Programa Alfabetização Solidária é um programa de alfabetização de jovens e adultos, gerenciado por uma organização não-governamental sem fins lucrativos e de utilidade pública.

Seu objetivo é reduzir os elevados índices de analfabetismo e, principalmente, desencadear um movimento de educação de jovens e adultos. De acordo com o IBGE, existem no Brasil cerca de 15 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais.
O Programa foi criado em 1997, pelo Conselho da Comunidade Solidária.
De janeiro de 1997 até hoje, o Programa atendeu 4,9 milhões de alunos, entre jovens e adultos, em mais de 2000 municípios do Nordeste e Centro-Oeste brasileiros e também nos grandes centros e capitais brasileiras. Durante esses oito anos, mais de 200 mil pessoas já foram capacitadas como professores alfabetizadores. O Programa é uma ONG gerenciada por uma coordenação nacional, responsável pela articulação de parcerias com diversos setores da sociedade: empresas, instituições e organizações, Instituições de Ensino Superior, pessoas físicas, prefeituras e Ministério da Educação (MEC).A escolha dos municípios atendidos no Norte e Nordeste é feita de acordo com os índices de analfabetismo registrados no ranking do censo do IBGE. As Instituições de Ensino Superior como a UNESP, são responsáveis pelo desenvolvimento do projeto pedagógico e, entre outras atividades, pelos cursos de capacitação e aperfeiçoamento dos alfabetizadores.
Com a palestra “Plantas Medicinais, Aromáticas e Condimentares: uma troca de receitas e experiências,” pretendeu-se, numa conversa informal, mostrar aos participantes o imenso conhecimento que estes têm a respeito e como o tema pode gerar diversas interações e atividades pedagógicas. O diálogo teve também como objetivos:

- Levar informações adicionais ilustrando e abordando os mais variados aspectos, tais como o nome popular, o nome científico, indicações terapêuticas, propriedades farmacológicas, as partes da planta consideradas medicinais, modos de uso e contra-indicações;

- Conhecer como os participantes utilizam os recursos terapêuticos naturais.

Durante a apresentação fizemos o levantamento e registro do conhecimento que os participantes (alfabetizadores, monitores e coordenadores municipais) têm a respeito das plantas medicinais através da seguinte dinâmica: cada participante, ao se apresentar, dizia um nome de uma planta que considerava medicinal1, a parte utilizada desta planta, a forma de utilização e as indicações terapêuticas2.



Na tabela 1, relacionamos algumas das espécies citadas por nome popular e principais usos:

Nome popular

Nome científico

Principais usos

Alecrim

Rosmarinus officinalis

Cicatrização de feridas

Algodão

Gossypium sp.

Inflamações

Amora

Morus alba

Dor de dente e prisão de ventre

Babosa

Aloe Vera


Contra vermes

Capim santo

Cymbopogon densiflorus


Calmante e diurético

Confrei

Symphytum officinale


Cicatrização e inflamações

Erva- de- santa- Maria

Chenepodium ambrosiodes


Diurético e para o fígado

Gengibre

Zingiber officinale


Bronquite, tosse

Jatobá

Hymenacea stigonacarpa


Bronquite, tosse

Juá

Zizyphus joazeiro


Cicatrizante e expectorante

Mastruz

Coronopus didymus


Vermes

Melissa

Melissa officinalis


Cólica e calmante

Picão

Bidens pilosa

Icterícia, fígado, bexiga


Poejo

Mentha pulegium


Tosse, bronquite

Quebra-pedra

Phyllanthus niruri


Diurético

Romã

Punica granatum


Dor de garganta

Umburana

Amburana cearensis


Cólicas intestinais

Vick

Mentha arvensis


Gripe

Nossos objetivos foram superados pois todos os participantes se identificaram com o tema e se sentiram à vontade para expor suas idéias e questionamentos. Todos manifestaram interesse de conhecer mais sobre plantas medicinais e fazer melhor aproveitamento desse recurso.

Houve discussão e trocas de experiências (e também de receitas de chás, Xaropes, etc.). Um dos alfabetizadores levantou a hipótese de trabalhar o tema em sala de aula.

(...)A grande maioria dos nossos alunos são pessoas de idade, e eles sabem muito de plantas, eles vão gostar de falar e aprender a ler e escrever o que sabem.” (Cloves Santos Rodrigues, alfabetizador, Março de 2005)


Assim, constatamos o tema como importante elo entre os municípios capacitados e a Universidade no que se refere ao resgate e valorização do conhecimento popular sobre o uso de plantas medicinais e como uma ferramenta para as práticas de alfabetização e letramento.
O conhecimento pertinente deve enfrentar a complexidade. ‘Complexus’ significa que foi tecido junto, de fato há complexidade quando elementos diferentes são inseparáveis constitutivos do todo (...)Por isso a complexidade é a união, entre a unidade e a multiplicidade(...)Em conseqüência, a educação deve promover a “inteligência geral” apta a referir-se ao complexo, ao contexto, de modo multidimensional e dentro da concepção global.(Mourin, 2001)
Práticas como esta permitem questionar o conhecimento científico como única forma de saber, mas, acima de tudo, possibilitam a ação conjunta (respeitando a pluralidade e a diversidade cultural) das comunidades locais e comunidade científica, articulando os aportes de diferentes saberes e fazeres, para proporcionar a compreensão da natureza em toda sua complexidade.

Contudo, a despeito de suas limitações, a educação contém o potencial de estimular as sensibilidades, despertar consciências e exercitar ações libertadoras, humanizadoras e cidadãs capazes de promover a vida e as relações dos indivíduos consigo mesmos, com seus semelhantes em sociedade e com o meio envolvente”.(Ministério do Meio Ambiente, 2004)

Futuras capacitações merecem retomar a temática das plantas medicinais não só pelo patrimônio natural e cultural, riquíssimos da região nordeste do país, como também para a continuidade do trabalho de orientações para um maior aproveitamento dos recursos terapêuticos de origem natural, alertando a população sobre os problemas oriundos do uso indiscriminado de plantas medicinais e das plantas com efeitos tóxicos comprovados, além da necessidade do resgate do conhecimento popular, desenvolvimento de tecnologias de manejo dessas plantas com uso sustentável, e na importância do desenvolvimento, nos educandos, de uma consciência crítica para preservação de seus ecossistemas.

Bibliografia


Di Stasi, L.C.; Guimarães-Santos, E.M.; Santos, C.M. e Hiruma, C.A. Plantas Medicinais na Amazônia. Ed. UNESP, FUNDUNESP, São Paulo, 1989.

Di Stasi, L.C.(Org) Plantas Medicinais: Arte e Ciência, um guia para uma pesquisa interdisciplinar. Fundação Editora Unesp, São Paulo, SP, 230p, 1996.

Identidades da educação ambiental brasileira/ Ministério do Meio Ambiente. Diretoria de Educação Ambiental; Philippe Pomier Layrargues (coord.). - Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2004.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.

MIZUKAMI, Maria das Graças Nicoletti. Ensino: as abordagens do processo. SP: EPU, 1986. (Coleção temas básicos da educação e ensino).

MORIN, E. Os sete sabores necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2001.

PROGRAMA DE ALFABETIZAÇÃO SOLIDÁRIA. Disponível em: www.alfabetizacao.org.br. Acesso em 18 de maio de 2005.



1 Esta não poderia ser repetida pelos demais.


2 Os outros participantes complementavam as informações

: ~crepa -> Textos CREPA -> trabalhos apresentados por eixo tematico -> Formacao de prof para eja -> comunicacao oral
trabalhos apresentados por eixo tematico -> EducaçÃo e diversidade cultural: refletindo sobre as diferentes presenças na escola
trabalhos apresentados por eixo tematico -> Os assentamentos rurais de reforma agrária: novos espaços educativos em meio à poeira
trabalhos apresentados por eixo tematico -> Utilização de quadras-adivinhas referentes às letras do alfabeto como procedimento para fixação da escrita ortográfica
comunicacao oral -> Com vistas a contribuir com subsídios para o Projeto Temático “Formação do Professor: Processos de retextualização e práticas
trabalhos apresentados por eixo tematico -> Processo de alfabetizaçÃO: o que fazem os alfabetizandos adultos com a leitura e a escrita da palavra
comunicacao oral -> Programa responsabilidade social




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