Paris à noite livros di hoje valérie Tasso paris à noite



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A CONFISSÃO DE MIMI
A Mimi telefonou-me para casa do Édouard no dia que Yamal e eu tínhamos planeado para seguir o Pipo.
Ao telefone, Mimi parecia fora de si, mas sem aquele ímpeto da outra noite. Simplesmente, uma vez mais, misturara tranquilizantes com álcool e articulava com dificuldade as palavras. Disse que tinha uma coisa importante a dizer-me. Também se perguntava por que razão eu não lhe telefonara durante aqueles dois dias. Queria saber se fazia tenções de passar lá por casa a buscar as minhas coisas.
Édouard instalara-me num dos quartos de visitas. Tinha tentado meter-se na cama comigo mas apetecia-me tudo menos isso. Só tinha na cabeça a Mimi e o Pipo, de quem não tivera mais notícias.
Estranhamente, Mimi parecia disposta a confessar-me uma coisa. Talvez o Pipo tivesse telefonado quando eu não estava. Talvez a Mimi não lhe tivesse dito que eu estava fora e ainda menos que havíamos discutido. Se havia uma coisa que a caracterizava era a discrição.
Esperei até ao final da tarde para encontrá-la. Assim não tinha que ficar demasiado tempo a sós com ela; o bastante para pegar nas minhas coisas, meter-me num táxi rumo ao apartamento do Édouard e, depois, acorrer ao encontro com Yamal.
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Posteriormente, pensava passar mais três dias em Paris para tentar recuperar a inscrição das aulas de japonês a que não assistira e visitar de dia uma cidade que apenas conhecia na sombra.


Pedi ao taxista que me esperasse. Ainda tinha as chaves, de maneira que não toquei à campainha e subi directamente. A casa estava silenciosa. Dirigi-me ao quarto e fui dar com a Mimi adormecida, de costas, com as pernas encolhidas em posição fetal. O corpo dela adivinhava-se sob os lençóis brancos que caíam suavemente, como um gesso delicado que procura a forma como molde. Um ombro nu despontava e pensei que era a coisa mais sexy que alguma vez tinha visto. Era somente um ombro, mas estava nele toda a sensualidade: numa pele brilhante e lisa com o osso proeminente da omoplata. Ainda tinha a capacidade de estremecer, mas para não me afundar de novo nas areias movediças da pele dela, resisti. Cheguei mesmo a pensar que a Mimi tivesse encenado tudo aquilo para que eu voltasse a cair rendida a seus pés.
Sem mudar de posição, abriu os olhos como se tivesse farejado a minha presença. Eu havia provocado uma variação atmosférica no quarto como uma corrente de ar.
- Pensei que não fosses aparecer - disse com um sorriso cândido.
- Não posso demorar-me. Tenho um encontro - expliquei, fingindo frieza, apesar do nó que se me formara na garganta.
- Com o Pipo?
- Não, com ele não.
- Melhor. - Desviou os olhos.
- Já sei que não podes com ele. De qualquer forma, há dias que o não vejo. Desapareceu literalmente do mapa. ,,,. ..,
- É normal.
- Porquê normal?
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Parecia saber qualquer coisa a esse respeito. ”


- Telefonou para cá enquanto eu estava em casa do Édouard?
-Não.
Mais uma vez parecia não querer dar informações. Mas, desta vez, eu estava enganada.
- Não telefonou. Vi-o, pura e simplesmente.
- Ah, sim? Quando? Veio cá a casa? Andava à minha procura?
- Vi-o todas as noites, Vai. Desde que voltou a trabalhar. Não queria acreditar no que ouvia. A Mimi voltava a ser cruel comigo usando desta vez o meu ponto fraco. . , (
- Como? Não sejas má comigo. Não pensava que fosses tão rancorosa, Mimi.
- Desta vez estou a dizer-te a verdade! Vi-o todas as noites desde que voltou a trabalhar. Vem buscar-me à praça da Concórdia. Paga-me e leva-me para casa dele mas não fazemos nada. Tu sabes que eu não gosto de homens e dele ainda menos do que dos outros. Desde o primeiro momento. Mas começo a pensar que é verdade o que se costuma dizer: «deseja-se sempre mais o que não se pode ter». Está literalmente gamado em mim.
- Não é verdade, Mimi. Estás outra vez a mentir, como sempre, desde a noite em que te apanhámos.
- Estou a dizer-te que é verdade, Vai. Acredita! Abre os olhos. Desde que me descobriram a trabalhar ali, vem todas as noites ter comigo. ;
- E por que não mo disseste antes?
- Para não te magoar.
- E ele não tinha medo que mo dissesses?
- Acho que sabe o tipo de amizade existente entre nós. Sabia perfeitamente que não ia denunciá-lo. Não por ele, mas por ti, Vai.
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- Mas ele continuou sempre a perguntar se tu já tinhas confessado o que fazias. Insistia e continuava a insistir...


- A melhor maneira de esconder uma coisa é falar dela, Vai. Revi mentalmente todos os momentos que havia partilhado com o Pipo. Sei que não lhe era indiferente. Que quando tínhamos estado naqueles locais, o olhar dele não mentia. Por que me havia levado com ele? Peguei nas minhas coisas ao mesmo tempo que Mimi parecia ficar desolada pelo que acabara de me confessar.
- Ele disse-me uma vez que lhe agradavas, Mimi. Devia ter imaginado. Não te preocupes comigo. Preciso apenas de ficar só e de reflectir. Talvez fale com ele. Mas não tenho nenhuma raiva contra ti. Gosto muito de ti, simplesmente.
Quando acabei de arrumar a minha mala, pedi-lhe para fazer uma chamada. Queria desmarcar o encontro com o Yamal. Já não precisava de executar nenhum plano. Agora sabia o que precisava saber.
- Yamal? A combinação fica sem efeito.
Yamal disse-me que se era verdade tinha de ficar com o dinheiro que eu lhe adiantara. Pelo incómodo.
- Sim, sim. Não te preocupes. Ouve?
Fez-se silêncio. .,, .....
- Continuas a andar com a tua namorada? Não sou ciumenta, sabes? ,
Achava piada que uma mulher tentasse seduzi-lo e desatou a rir. Interroguei-me por que era eu capaz de ser tão empreendedora com o Yamal, e com o Pipo, em contrapartida, não. Por que conseguia ter tanta lata com uns e ser tão metida para dentro com outros?
Tinha de ver o Pipo uma última vez. Uma única vez, antes de partir.
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A CONFISSÃO DE PIPO
Sentei-me ao balcão do bar Chez Jojo. Pipo prometera que viria, se bem que um bocadinho mais tarde do que de costume. Mas eu ia esperar por ele, esperaria o tempo que fosse preciso.
Quando apareceu à entrada, franziu a cara violentamente, quase de maneira teatral. Sentia-me como se aquela noite fosse ser a noite da resolução de um crime, como nos livros do Simenon. De facto, era para isso que ali estava. Beijou-me na face, perguntou-me como estava e, sem que lhe tivesse pedido coisa alguma, pôs-se a contar-me mais um episódio com a Isabelle.
A bofetada tinha soado como um raio em cima de uma antena. Chegara sem aviso, e tinha sido mais dolorosa a sensação de surpresa do que a pancada em si.
- És minha, só minha! Não podes desaparecer à noite assim, porque sim. Percebeste? - gritou Pipo.
- Por que não? - perguntou Isabelle, agarrando o queixo com as mãos, num esgar de dor.
- Porque eu digo, percebeste?
Isabelle recostou-se no pequeno sofá da sala e pôs-se a chorar silenciosamente, cuspindo de vez em quando um fio de sangue que as gengivas doridas deixavam brotar como uma esponja demasiado porosa.
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- Porra! Olha que o me obrigaste a fazer - censurou Pipo, muito irritado.


Começou a andar freneticamente de um lado para o outro por toda a casa, dando murros nas paredes. Isabelle tapava a cabeça com as almofadas, cheia de medo que ele lhe batesse mais. Pipo estava fora de si e ela queria desaparecer da superfície da Terra.
- Não há direito, não há direito, não há direito - repetia Pipo sem cessar.
Aproximara-se de Isabelle, que tremia como varas verdes, protegendo a cabeça com os braços.
- Estás a perceber? NÃO HÁ DIREITO QUE ME FAÇAS UMA COISA DESTAS!
Pipo dirigiu-se à cozinha. Isabelle pôs-se de pé com dificuldade a fim de se estender na cama. Quando Pipo reapareceu com um saco cheio de cubos de gelo com a intenção de lho colocar na cara, ela explodiu em soluços.
- Juro-te que não volta a acontecer. Eu prometo - implorava Pipo, afastando a mão de Isabelle com suavidade para verificar o estado do rosto dela. - Mas, acima de tudo, tens de me prometer uma coisa.
- Promete-me que nunca mais voltas a sair à noite sem me prevenires.
- Por que nãããão! - gemeu Isabelle ao sentir o gelo na boca dorida.
Pipo empalidecera ao relatar aquele episódio. Eu, fiquei sem fala. Mas prosseguiu.
- Um dia a mão escapou-me da pior maneira,
- Que queres dizer? - perguntei, assustada.
’- Um dia caiu e bateu com a nuca... Deram-me quatro anos.
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Tinha os olhos lacrimejantes. Eu não fiz mais do que mergulhar os meus no whisky.


- Nunca me perdoei. Nunca. Desde então, sinto-me incapaz de voltar a ter uma relação com uma mulher. Por isso percorro Paris em busca de uma virilidade perdida. Talvez porque penso que me possa... que me possa ajudar. Não sei. Quando vi a tua amiga Mimi, tão parecida com ela, com a cabeleira negra e comprida, pensei que... talvez... talvez conseguisse arrumar o assunto.
Custava-lhe exprimir os sentimentos.
- Talvez eu te possa ajudar. Estás doente, Pipo.
- Sim, eu sei. Mas a minha doença é minha.
- Eu não queria nada de ti, Pipo. Mas, de certa forma, fizeste-me participar da tua vida... e do teu problema. - Movia os dedos em volta do copo para não denunciar a minha mão a tremer. - E, inevitavelmente, agora faço parte, ainda que em ínfima medida, dele... do teu problema. Por alguma razão recorreste a mim, não foi?
- Para mim, eras simplesmente um instrumento, Vai. Um martelo que, pensei, podia dar uma martelada a um cravo saído há já demasiado tempo. O acidente de automóvel, lembras-te?
- Como é que podia não me lembrar?! Fui ver-te ao hospital.
Não parecia estar a ouvir.
- O acidente de automóvel... foi uma tentativa para pôr termo à vida. E sabes uma coisa? Naquela madrugada, antes da ambulância chegar... pois... eu vi-a. Ela estava ali, a olhar para mim. E sorria-me. Sim, sim. Já sei que vais dizer que estou maluco!, mas asseguro-te que a vi. E a seguir apareceu a Mimi...
Um ligeiro sorriso sublinhou a frase e um trejeito de quem diz «lamento» ficou-lhe gravado no rosto.
- Apareceu a Mimi... e a partir de então só queria estar com
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ela. Pensei que tanta coincidência não podia ser... logo a seguir ao acidente... estás a perceber? Tinha de ser algum sinal, não vês?


O horizonte tingiu-se de cinza, através das janelas do bar, assinalando o fim do dia e o princípio de uma longa e tumultuosa noite. De mais uma noite mas não de uma noite qualquer.
Todas as noites, Pipo esperava, ardentemente, Isabelle, com as suas meias brilhantes e os saltos altíssimos, a malinha acetinada Gucci na mão e a sua eterna mudez. Via-a todas as noites na praça da Concórdia, sorrindo aos condutores que abrandavam, sem conseguir suportar que ela fosse com outro.
Abandonei o bar com uma enorme tristeza, com um peso infinito no corpo. A partir daquelas férias parisienses todas as pequenas infâmias suportadas durante o dia se viriam a converter em grandes agonias durante a noite.
Pedi-lhe que me deixasse à entrada da estação de Austerlitz e que entregasse uma carta a Mimi. Nela lhe dizia que gostava dela mas, principalmente, contava-lhe o que descobrira sobre o passado de Pipo.
Havia três pessoas no meu compartimento.
Marie, divorciada, dois filhos, enojada logo no dia seguinte ao casamento com as infidelidades do marido. Apesar disso, parecia confiar ainda no amor e lia uma Antologia do Prazer. Sentada com as costas muito direitas e levantando-se aos solavancos, de vez em quando endireitava a saia de pregas escocesa e antiquada. Tinha ar de professora de Filosofia. Os olhos cansados denunciavam o drama da ruptura recente e espelhavam ainda o adeus traumático aos filhos que haviam permanecido a cargo da mãe para que ela pudesse ir de férias até Espanha para esquecer.
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Brigitte, francesa, casada com um espanhol, dona de casa e com família em Paris, regressava ao lar conjugal. Folheava as páginas de uma revista feminina, interessada na rubrica de maquilhagem especial de Verão. Um rímel ligeiramente azulado impregnava-lhe as pestanas. Usava uns jeans muito justos Moschino, de corte sóbrio, com a marca bem à vista. Dois anéis de ouro branco apertavam-lhe os dedos gorduchos. E pouco mais.


Sylvie, estudante do último ano de Medicina, farta de tantas autópsias - presença obrigatória -, consultava um guia de Barcelona, enquanto chupava a ponta da esferográfica dobrando sem piedade as páginas interessantes do livro colorido.
A roupa de Sylvie cheirava a formol. Um cadáver, para um futuro médico, deve ser coisa normal. É realmente possível ver a morte de forma tão familiar que esta já não nos surpreenda?
Levantei-me e saí do compartimento a fim de fumar um cigarro. Uma solidão insustentável apoderara-se de mim e uma sensação claustrofóbica fez-me sentir uns minutos de ansiedade. Nem Marie, nem Brigitte, nem Sylvie, com os lábios enegrecidos à Mortícia Adams, ergueram os olhos. Era invisível, como o havia sido tantas vezes durante o último mês. Pipo contagiara toda a gente.
Colei o nariz à janela húmida e suja. Estava fria. A paisagem pôs-se a desfilar a uma velocidade média mas suficiente para criar uma massa compacta moldada por cores escuras que esboçavam um quadro impressionista sem forma digna de nota. A vegetação de cimento dos subúrbios parisienses, e algumas fachadas de velhas fábricas atrás das estações com comboios de dois andares, imortalizaram-se na moldura da janela de um Talgo Paris-Barcelona às oito e quarenta e dois.
«Habibi», ouvi-me pronunciar, e pela primeira vez, soou-me bem. Procurei na memória o equivalente desta palavra em
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japonês mas não encontrei. A situação era sumamente cómica e desatei a rir como uma louca, enchendo a janela de saliva ao aspirar o agá. Fora para Paris para estudar japonês e voltava para casa com uma palavra árabe, uma só palavra, aprendida, essa sim, com grande esforço.


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