Paris à noite livros di hoje valérie Tasso paris à noite



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Pus-me a contar as pessoas que conhecia. Quatro ao todo. Três eram, mais ou menos, de confiança: o Pipo, a Mimi, o Édouard. E a quarta podia sê-lo.


Apesar de praticamente não o conhecer, tinha sido a primeira pessoa a receber-me na capital. Tínhamos trocado algumas palavras, havia até entre ambos um princípio de cumplicidade, não se podia negar. Parecia-me, além disso, uma pessoa idónea para este tipo de encargo. Era a impressão que tinha, apesar de Édouard, quando lhe participei, não estar de acordo.
- Não sabe nada de ti, nem tu dele! - retorquiu, encolhendo os ombros como se quisesse dissuadir-me de pensar naquela hipótese ridícula.
- Ainda melhor, Édouard. Pensa bem.
- Não sei. Como é que vais convencê-lo a fazer uma coisa dessas?
- Muito fácil: com dinheiro.
- O quê?
Abriu os grandes olhos verdes, incrédulo, como uma personagem de desenhos animados.
- Sim, claro. Não lhe vou pedir que faça isso sem lhe dar nada em troca. Tu próprio acabaste de dizê-lo: não me conhece de parte nenhuma. Andar a passear durante a noite a vigiar um desconhecido, para ficar de bem comigo: não acredito que ninguém faça isso de borla. Ouve lá! Não há nada de mal nisto, ou há? Se eu estivesse no lugar dele, aceitava. A vida aqui, em Paris, é caríssima, e não acredito que o ordenado dele seja uma maravilha.
- Se tu o dizes…
- Acho que é boa ideia, e de certeza que até me vai agradecer. Dá-me a sensação que deve conhecer esta cidade muito bem à noite.
Édouard ficou pensativo. Eu não queria convencê-lo de coisa
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alguma. Só fazê-lo participar da minha ideia. Bebia o copo calado, observando a fauna parisiense que nos rodeava.


- Ouve, pensaste numa coisa importante, Vai? Como vai essa pessoa trair outra da mesma nacionalidade?
- Não se conhecem e o dinheiro pode tudo, sabes?
Não quis deixar que o Édouard me acompanhasse a casa. As despedidas homem-mulher diante de uma porta acabam sempre com um «deixa-me subir dez minutos por favor». Nessa noite não me apetecia. Tinha a desculpa perfeita: se a Mimi nos visse, o depois de amanhã seria impossível de executar.
- Ah! E muda o teu nome por favor. Chama-te como quiseres, mas não Édouard. Falei-lhe de ti e não quero que suspeite de alguma coisa.
- Está bem, não te preocupes. Quando é que vais ver o outro, ao certo?
- Amanhã mesmo irei falar com ele. Depois conto-te. Às oito e meia em tua casa, de acordo?
- Combinado - disse, e mandou parar um táxi.
Édouard abriu-me a porta de trás e deu-me um beijo na boca muito ao de leve. ; ;>!’
Mimi não fizera a cama, como quase sempre. Quando me enfiei nos lençóis, o cheiro dela continuava presente, colado a este canto da casa como se tivesse acendido uma vela perfumada de yling-yJing umas quantas horas antes. Imaginei a Mimi abraçada entre dois homens como uma Sandwich, como se a mulher fosse uma fatia de carne entre duas fatias de pão, pronta a ser comida, inerte. Imaginei a Mimi, transpirada, de rabo empinado, a pedir aos gritos que não esperassem mais para a possuírem. Uma autêntica desfloração binária, executada segundo todas as regras, com erecções de 90 graus de pénis talhados em bisel. Uma luz macilenta invadia o quarto e ela bri-
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lhava, prisioneira de dois corpos suados, tensos e arquejantes, imortalizada no centro de uma cama, eterna. Era um deleite vê-la assim, de barriga para baixo, mordendo os lençóis para refrear o grito. A cabeleira dispersa em cima da cama como uma cascata de lã negra ondulada com ritmo, enquanto o seu corpo miudinho parecia desmembrar-se sob as arremetidas daqueles animais ululantes. Uma sandwich saqueadora de uma pureza que se ia desfazendo a pouco e pouco.


Apercebi-me de que estava a tentar «heterossexualizar» a Mimi, não com um, mas com dois homens, como se a sexualidade dela me metesse medo, como se ela pudesse ameaçar a minha.
Chegou por volta das seis da manhã. Vi as horas e ouvi-a soluçar. Tresandava a álcool e a esse desodorizante barato de patchouli que se põe em locais nocturnos para que não se cheire a suor. Nada a ver com o odor que encontrara ao chegar a casa.
Tentou afogar os soluços numa almofada, quando se meteu na cama, mas todo o seu corpo tremia fazendo estremecer o colchão. :
- Se ao menos falasses comigo... - murmurei. !” Engoliu a saliva e tentou assoar-se. Por fim, virou-se bruscamente para mim.
- Não estás a dormir?
- Como vês, não.
- Estás à coca a ver a que horas acabo, não é?
Percebi que não estava disposta, uma vez mais, a falar calmamente comigo; e estava a começar a ser grosseira. Eu queria tentar mais uma vez, uma última vez, antes de pôr em prática o plano que tinha elaborado, mas não havia maneira.
- De maneira nenhuma, Mimi! Não conseguia dormir. Sabes que tenho imensa dificuldade em adormecer.
Pôs-se a balbuciar palavras com violência e aproximei-me
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dela no intuito de abraçá-la, mas repeliu-me. Começou a gritar, a insultar-me, bebera demais, todo o amor em relação a mim se transformava em crueldade. A fronteira entre o amor e a violência é, às vezes, tão estreita como ténue... Quando fazíamos amor, sentira mais de uma vez a violência dos seus gestos sublimes, nas suas carícias ansiosas, nos seus beijos ávidos. Tinha sido violenta quando na outra noite eu a repelira, mas de tanto insistir acabou impondo à força o seu corpo entre as minhas pernas. Por fim, acedi. O amor e a violência conviviam. Um beijo apaixonado era sempre um beijo feroz; e, senão, basta ver os filmes de amor dos anos cinquenta. Todavia, apesar da fúria, naquela noite Mimi repeliu-me. «Filha da puta», gritava ela, furiosa na penumbra, e eu embalava-a como a um bebé esfomeado que não pára de chorar.


«Filha da puta», insistia, e dava-me murros suaves contendo os gestos porque, no fundo, não queria magoar-me,
- Sossega... - murmurava eu.
A zanga cedeu e adormeceu nos meus braços. Ainda hoje recordo o sabor amargo, mas maravilhoso, da descida aos infernos da Mimi naquelas noites de embriaguez.
Era uma manhã de domingo.
Domingo de bairros que acordam ao cheiro de uns croissants amanteigados e de um café fumegante, de frangos assados e estaladiços a girar no espeto da sua gaiola de vidro.
Domingo chilreante de desenhos animados cuspidos pelos televisores de famílias repletas de filhos insuportáveis aos berros. Famílias à beira da catástrofe, do suicídio colectivo com gás butano.
Domingo de suicídios solitários. De solteiros depressivos, de morte silenciosa e subtil como pó de comprimidos desfeitos em colheres, em mesinhas de cabeceira.
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Domingo de ressaca quando se repete o champanhe e a sopa espessa de cebola.


Domingo de tartes de maçã metidas no forno ou cheias de glacé por avozinhas comodamente abandonadas em apartamentos em ruínas.
Um domingo normal e corrente.
Mas Mimi não se levantava.
Andei um bocado, de um lado para o outro, dentro de casa, fazendo barulho de propósito para ver se ela acordava. , Mas Mimi não se levantava.
Abri e fechei portas. Abri gavetas e armários, pouco faltou para levantar as persianas não fosse eu uma noctívaga que odiava ver que o sol desbotava as cortinas,
Mas Mimi não se levantava.
Telefonei ao Édouard para saber como estava e falei em voz alta de propósito, deixando cair um livro que estava em cima da cómoda... Mas nada... Fumei, tossi, cuspi no lavatório, limpei o esmalte com uma esponja...
Mas Mimi não se levantava.
- Mimi, estás bem? - perguntei enfim, sacudindo-a pelos ombros.
Fez uma tentativa para esboçar um sorriso mas em vão.
- Mimi, por favor, diz qualquer coisa. Tomaste comprimidos para dormir?
Levantou a mão com dificuldade, não conseguia articular palavra. O meu coração deu um salto e pus-me à procura, desesperada, na gaveta da mesa-de-cabeceira, da caixa de Stilnox que ela guardava sempre ali. Estava quase cheia. Não parecia um caso alarmante mas provavelmente teria misturado os soníferos com álcool.
- Mimi, Mimi... Quantos Stilnox tomaste?
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Fez-me um sinal com a mão que não entendi.


- Que queres dizer? Quantos? Um?
Mexeu a cabeça de lado num gesto negativo.
- Dois, então? Assentiu.
- Vou fazer-te um café com sal para te passar a ressaca, a ver se consegues pôr-te de pé.
Preparei-lhe esse café asqueroso que ela bebeu sem uma palavra.
- Não havia por trás disto nenhuma má intenção da tua parte, pois não, Mimi?
- Não, nenhuma. Não devia ter misturado álcool com comprimidos para dormir, foi isso - tranquilizou-me, aclarando a garganta.
Sabia que não queria morrer. Queria somente chamar a minha atenção. Ao ver a sua cara cheia de ternura e de inocência, o meu sonho da Sandwich converteu-se numa recordação longínqua. Aquele episódio era também sinal de que tinha de concretizar o meu plano já, sem mais demora.
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PLANO B
Certas estações de metro parecem verdadeiros urinóis públicos sempre sujos. Nas grandes cidades, são símbolo do peso da miséria das pessoas que passam a vida a embriagar-se e depois, de bexiga cheia, se despejam como lhes dá na real gana pelos corredores. Os bêbados das pequenas cidades acabam sempre por emigrar para as grandes, não só para poderem continuar a beber sem que ninguém diga nada, mas também para poderem mijar anonimamente. Porque também têm a sua dignidade, os bêbados. ”
Blanche era uma dessas estações, um cruzamento entre a alegria da festa no bairro mais famoso da capital, e a tristeza dos vagabundos que pediam esmola a turistas de bermudas cor de caqui e peúgas brancas. Nunca tinha visto tanta concorrência entre vagabundos bêbados em nenhuma outra cidade. Os fins de festa estavam sempre carregados de tristeza, de maneira que, de certa forma, um mundo e outro se completavam.
Já era tarde e os últimos a sair do trabalhho para apanhar o metro eram os que procuravam uma promoção, executivos tímidos, futuros chefes de secção, facilmente reconhecíveis. Lêem revistas em inglês tipo Business Week e os seus rostos reflectem tudo menos humanidade.
Por que apanham o metro? Para disfarçar. Para se conven-
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cerem de que não perderam o contacto com a realidade. Para debitarem ao subordinado de serviço o típico discurso de que tiveram que lutar muito nesta vida para conseguirem ser o que são agora, que começaram do zero (ou desde o menos um, se apanharem o metro), que sabem o que é uma pessoa sentir-se um zé-ninguém...


Um vagabundo com os copos não passa, afinal, de um executivo que não saiu do metro. Devíamos prestar mais atenção aos bêbados. São o caso perfeito de ex-filhos-da-puta convertidos ao humanismo da rua. A cidade de Paris está cheia deles.
Dirigi-me ao meu destino em passo apressado, já que estava atrasada. Queria falar com ele antes que mudasse de turno. Talvez aceitasse beber qualquer coisa e pudéssemos conversar mais sossegados.
- Está tudo cheio - disse-me quando empurrei a porta da pensão.
- Olá, Yamal. Como estás?
; - Bem, obrigado. Mas se vens à procura de quarto, não tenho nada livre até à semana que vem.
- Não vim por causa disso. Vim falar contigo, se é que podes agora.
Yamal viu as horas, verificou que o relógio da parede pendurado em frente da recepção estava a funcionar e sacudiu energicamente a cabeça.
- É que hoje estou de turno do dia e vou sair daqui a pouco

- desculpou-se.


- Se tiveres dez minutos depois do trabalho talvez possamos tomar um café aqui perto. Há um bar aberto ali à esquina, em frente à estação de metro.
Pareceu reflectir e observou-me de forma esquiva.
- Só dez minutos? É que depois fiquei de…
- Sim, só dez minutos. Prometo - assegurei-lhe. - Espero por ti no bar, está bem?
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Aceitou com ar surpreendido. Os movimentos dele eram lentos; devia perguntar a si próprio qual era a minha...


Saí agradecendo e dirigi-me ao tal bar, ao mesmo tempo que uns rapazes me assobiavam propondo-me que fosse com eles não sei onde.
Ao fim de uns vinte minutos apareceu o corpo gracioso de Yamal com um saco de plástico de supermercado na mão. Trazia um cigarro na boca, o cabelo brilhante de gel e tinha um ar desgraçado na maneira de andar.
- bom. Que te traz por cá? Como vão as aulas de japonês?
- Ah! Não te esqueceste? - disse, sorrindo. - E se te disser que não fui a nenhuma desde que aqui estou…
-Ah! - redarguiu, e pediu uma cerveja ao empregado ao mesmo tempo que apagava o cigarro.
- Olha, Yamal, tenho uma coisa a pedir-te.
Não olhava para mim; tinha os olhos cravados no cinzeiro.
- Tens carro? - perguntei-lhe à queima-roupa.
- Tenho. É um carro velho mas funciona. Quase não o utilizo em Paris porque é sempre um problema para uma pessoa se deslocar nele. Porquê?
- E conheces bem a cidade?
- Sim, claro.
- E ganhas muito dinheiro como recepcionista?
- E o que é que isso te interessa? - desfechou com maus modos.
Dada a resposta, não devia ganhar uma fortuna, senão faria alarde dela.
- Olha... queria pedir-te que me fizesses uma coisa. Eu pago.
Yamal abriu os olhos e mudou curiosamente de tom.
- De que se trata?
Tirei a agenda da carteira e comecei à procura do cartão que deixara entre as páginas do mês de Junho.
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- Aqui tens - estendi-lhe o cartão de Pipo. - Este tipo é um taxista de dia que conheci assim que cheguei a Paris. Gostaria que o seguisses numa noite em que estejas livre,


- É o teu namorado? - perguntou enquanto lia o nome e o telefone indicados no cartão.
- bom, mais ou menos.
- É traficante? Tem problemas com a polícia...? Ah! Já sei! Infidelidades. É isso, não é? Põe-te os palitos com outra? - desatou a rir como um miúdo.
- Para te dizer a verdade, ainda não sei. Se calhar põe. É isso que gostaria de averiguar.
- Pipo... que nome é este?
Deixou o cartão em cima da mesa. Acrescentou:
- Por que não lhe pões os palitos a ele? Se quiseres, apresento-me como candidato…
Ergueu os olhos com ar de chico-esperto.
- Quanto?
- Seiscentos francos - anunciou, sem hesitar, como se tivesse pensado nisso antes.
Pareceu-me razoável. Estava até disposta a chegar aos mil francos se fosse preciso. Mas não aceitei logo. Talvez tivesse intenção de subir o preço.
- Parece-me caro, Yamal. Só te estou a pedir que o sigas durante umas horas, mais nada.
com os muçulmanos regatear é um jogo que não se deve nunca desperdiçar. - Vou-te dar quinhentos francos. Nem mais um cêntimo, Yamal. Mais os gastos que possa ocasionar a deslocação por Paris nesse dia.
- Quinhentos e cinquenta - exigiu com um ar espertalhão nos olhos. O jogo agradava-lhe e divertia-se como um garoto, porque se lhe acendera um brilho no olhar. - Vá lá, é um trabalho nocturno. As empresas pagam sempre o dobro à noite, não é verdade?
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- Talvez haja outra maneira de resolver o assunto... insinuei, cruzando as pernas de lado de forma a que ele as visse.


- Tenho namorada, menina.
- E depois? Não acabaste de me dizer que não te importavas de te candidatar?
Fiquei surpreendida ao verificar como me sentia desesperada por não ter conseguido ir para a cama com o Pipo. Estava a bricar com o Yamal mas não para regatear; não tinha nada a ver com dinheiro. Queria ir para a cama com ele. Ir para a cama para me vingar do Pipo e depois ordenar a Yamal que o seguisse e, quando tudo estivesse terminado, confessar ao Pipo que aquele magrebino, que havia descoberto as suas manigâncias, era meu amante. Queria mostrar-lhe que eu também tinha segredos. Passou-me mesmo pela cabeça organizar um encontro com os dois e acabar na cama com ambos, naquela tal sandwich que oferecera à Mimi em sonhos. Empalada pelos dois. Era assim que queria ver-me. Atada a dois náufragos alienados que finalmente cediam. Êxtases matemáticos em orifícios totalmente tapados,
- Então, que fazemos? - inquiriu Yamal.
- Aceito - concedi diante do ar de gozo dele por pensar que me havia vencido.
Expliquei-lhe como devia proceder. Primeiro, aconselhava-o a telefonar ao Pipo para que o levasse a um sítio qualquer, como se fosse um cliente, e ver como ele era. Talvez pudessem até falar do seu país. Ao fim e ao cabo, ambos eram argelinos. De facto, Yamal fazia-me lembrar muito o Pipo, curiosamente pelo sotaque meridional e a forma exótica de gesticular. Mas, ao contrário de Pipo, não era capaz de sustentar o meu olhar. O Yamal era menos insolente.
Depois poderia passar pelo bar Chez Jojo, onde Pipo costumava ir beber um copo por volta das nove antes de ir jantar. Podia esperar por ele no carro e segui-lo quando ele saísse.
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- Que te parece? - perguntei. - Simples, não?


- Está bem. - Estendeu-me a palma da mão. - E a massa?
- Dou-te metade hoje. A outra metade, quando tiver obtido a informação que te pedi.
Dobrei um guardanapo de papel, depositei duzentos e setenta e cinco francos dentro e anotei o meu número de telefone.
- Aqui tens. Mas antes de fazeres seja o que for, espera pelo meu telefonema de aviso. Dir-te-ei quando, OK?
Sacudiu a cabeça afirmativamente.
- Até quando é que trabalhas durante o dia?
- Toda a semana. Na próxima, trabalho à noite. Alterno uma sim e uma não. Teria que ser esta semana. Senão, só daqui a quinze dias.
Não se tratava de adiar mais o assunto. A minha angústia quando chegava a noite intensificava-se, crescia como o desejo que se sente em relação a um amante quando sabemos que nunca chegaremos a possuí-lo. É nesses momentos que se pensa na morte, porque se sente que essa sensação nunca mais nos vai abandonar. Há dias que passam mas que são todos iguais. Nada muda. Está-se parado e por detrás do nosso olhar de estoicismo esconde-se uma alma a sangrar. Mas eu queria acabar com essa sensação de uma vez para sempre. E o mais depressa possível.
, -Yamal? :
- Sim?
- Se mudares de ideias, em relação ao outro... já sabes... Telefona-me!
Riu. E despedi-me dele, prometendo pôr-me em contacto com ele durante a semana. ;
Quando cheguei a casa, fui encontrar uma Mimi eufórica, acabada de regressar das compras e que me havia trazido uma
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prenda embrulhada num papel vermelho vivo com um laço prateado. Disse-me que não conseguira resistir à tentação de comprá-la e que esperava que eu gostasse.


- Só faço anos em Janeiro, Mimi.
- Gosto de oferecer presentes fora das datas estabelecidas explicou. - Assim têm outro sentido. São mais apreciados, não achas? Vá, abre lá.
Fixou-me, divertida, enquanto ia arrancando com os dentes o papel de fantasia de uma caixa que dizia Making sex even better. Continha dois vibradores prateados e um par de bolas chinesas que me deixaram boquiaberta. Nunca ninguém me tinha dado uma prenda semelhante.
- E esta? - perguntei, incrédula.
- Não gostas, Vai? É para ti; bom, para nós duas, um brinquedo erótico,
- Pretendes prender-me a ti com jogos sexuais, Mimi? É isso?
Não respondeu. Era evidente que eu não tinha achado graça nenhuma à prenda. Para preencher o silêncio que se instalara entre ambas, anunciou-me que ia vestir-se para ir trabalhar. Em vez disso, fechou-se no quarto e telefonou a alguém.
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NO CAIS DO SENA...
A Mimi tinha qualquer coisa de bruxa. Decifrava as minhas emoções. Percebia as minhas intenções. Farejava as rupturas nas vidas dos outros. Pressentia o sofrimento. Adivinhava que qualquer coisa me preocupava e disfarçava os seus sentimentos sob um rosto impassível, acompanhado de um sorrizinho cansado e às vezes enfastiado.
Naquele dia, fechou-se no quarto e pôs-se a falar ao telefone para desabafar.
- Acho que o homem lhe está a fazer perder a cabeça. Não entendo. Não percebo por que se juntou com ele, nem sequer é bonito nem particularmente inteligente... Pois, pois, já sei que nunca gostei de homens, mas no caso dela, ainda menos... Sim, já sei! Mas, vê lá tu, o imbecil leva-a a todos os sítios depravados da cidade, e tu bem sabes que são muitos, não...? Não, claro, sítios destes é o que não falta em Paris... bom, até agora aguentou-se bem, até que a leve a sítios piores, sabes a que me refiro, não...? Vais ver como tenho razão... Não, olha, até me dá arrepios, que queres que te diga?... Pois, e é que tem mesmo pinta disso. Há dias, a Cécile... lembras-te da Cécile?... Pois houve um tipo que a levou aos cais das margens do Sena... É como te digo! Nunca estás a par de nada! Lembras-te do filme Noites Selvagens’?... Precisamente a mesma coisa. Entre a ponte de Bercy
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e a de Austerlitz, como no filme... É o que te digo!... Claro, o que é que havia de acontecer, francamente?... Só lá vão os tarados, puros e duros... Não acabaste de dizer que viste o filme?... Pois lá, no escuro, contra os pilares de betão da ponte... Não, ela só tinha ido lá com ele, ele queria que ela visse como era, em todos os sentidos... Sim, são sobretudo homens... com pinta de fascistas, de cabelo curto, com botas da tropa e isso tudo. Estás a ver o panorama, não estás? É vício puro. E tu já sabes como são os argelinos. São tarados, gostam da pesada. Foram nados e criados nos arredores onde se deixaram manipular desde pequeninos por mariconços executivos... a troco de cinco francos... Não sou racista! Não sejas idiota, racista, eu?! Não, o que quero dizer é que é a maneira que têm de vigarizar, desde pequeninos... O filme explica muito bem... Não, comigo não é a mesma coisa. Não vou com qualquer um... A única coisa que pretendo é protegê-la... Já sei! Mas não liga nenhuma... E nas caves dos prédios das cidades-dormitório?... Umas vezes consentem, outras violam-nas... O que é que a polícia há-de fazer?! Nem sequer se atrevem a pôr lá os pés!


Mimi falava muito alto. Penso que sabia que estava a ouvi-la. E a nitidez das palavras ditas ao(à) interlocutor(a) anónimo(a) constrangia-me.
- Não, ir com um tipo é de somenos... Claro!... A única coisa que quero é protegê-la... Já sei que é maior e vacinada, mas em Paris, se não conheces, estás perdida... Sim. Ali há de tudo... Claro, com certeza! E é a mim que dizes isso?! Pronto, pronto!... OK. Não te preocupes... Até depois, que tenho de ir trabalhar... Sim, um beijo.
Desligou. Quando abriu a porta do quarto, fingi que saía da casa de banho. Os nossos olhares cruzaram-se e apoderou-se de nós um pesado silêncio.
Tinha sido terrivelmente injusta com ela. Não havia nenhu-
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ma espécie de malícia naquela prenda, apenas vontade de me alegrar e de ser simpática. Creio que, no fundo, o que eu temia era que os meus sentimentos em relação a ela evoluíssem num sentido em que nunca tinha pensado. Podia ser uma das estratégias dela para que não voltasse a perguntar-lhe nada sobre as suas actividades. Já tinha pensado nisso. com um presente daqueles queria, sobretudo, desconcertar-me.


Com o tempo, ao recordar o episódio, percebi que se tratava de um jogo que eu não entendera e que a minha reacção de nojo em relação a tudo aquilo na altura se devia ao medo que tinha de uma única pessoa. De mim mesma.
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O DIA D
Tudo parecia organizado na perfeição. Enquanto me aproximava da casa de Édouard, revia mentalmente o que diria à Mimi quando a visse.
Édouard vivia num bairro perto da Ópera de Paris, num edifício com painel electrónico de códigos secretos intermináveis, amplas varandas, rampas de mármore e escadas largas. Vivia num sítio que estava em conformidade com o seu estatuto de jovem médico brilhante. Abrira a porta sem perguntar quem era porque estava à minha espera no seu apartamento de tectos altos e arabescos de estuque, com lareira na sala e chão encerado impecavelmente. Não havia nada que destoasse; a não ser, talvez, a minha cara cor de tristeza inédita.
- Estás pronto? ”’!*”- !
- Sim. Vou para lá agora. Faz como em tua casa. No frigorífico há de tudo.
-Tens a fotografia dela? Ah! Quando chegarem, escondo-me e só apareço quando lhe deres o dinheiro. Em flagrante. E não te esqueças de lhe dar outro nome e...
- Não te preocupes tanto, Vai! Já sei quem é, já conheço a cara dela. Far-me-ei passar por um tipo chamado Charles e só lhe pago quando ela estiver cá em casa. Ficas mais sossegada?
Pedi desculpa. Estava muito nervosa.
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- E alegra essa cara. Já te trago a rapariga.


Édouard compôs o nó da gravata diante de um espelho em forma de sol e com moldura de madeira. Vestiu o casaco e tive vontade de beijá-lo. Para me dar forças enquanto esperava o regresso dele com a Mimi. Mas Édouard despediu-se de mim dando duas voltas à chave.
Quanto tempo se iriam demorar? Nem eu fazia ideia. Entretive-me a visitar as várias divisões do apartamento para passar o tempo. Estava decorado com muito gosto e um toque minimalista. Grandes janelas que davam para a rua inundavam de luz todo o andar, dado que as plantas que ali se encontravam transbordavam de vida.
Absorta na visão zen daquele local, adormeci no sofá. /
Fora obrigada a chegar àquele extremo por a Mimi ser tão casmurra; e ali estava ela a fitar-me, desafiadora, no meio da sala, a boca vermelha como uma guloseima apetitosa e os olhos negros de raiva. Perante a infâmia das minhas palavras de censura, que cortavam o ambiente, Mimi, sem saber como, reconstruía o silêncio que se havia instalado entre esse triângulo que formávamos, ela, o Édouard e eu. Permanecia impassível. Pobre Édouard: fingia não entender bem a situação, assumindo um ar descontraído. Só lhe faltava assobiar.
: - Repito-te que não me interessa o que fazes! O que me dói é que não tenhas querido reconhecê-lo, pelo menos perante mim que sou tua amiga. Por que me mentiste tão descaradamente?
Perante o seu pestanejar pensei que ia abrir a boca, mas não se dignou fazê-lo. Em vez disso, deixou-se cair no sofá, a meu lado, remexendo na carteira e extraindo o eterno maço de cigarros de mentol. Édouard, que não suportava tabaco, não se atreveu a dizer nada. Limitou-se a entreabrir uma janela. Pelo
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menos o barulho da rua iria atenuar o mal-estar que reinava na sala.


Mimi dava grandes passas no cigarro, apontando a boca para o tecto, com ar de superioridade. Parecia um preso no corredor da morte que, sabendo-se condenado, desfrutava dos últimos instantes antes da execução. Na verdade, quem se sentia condenada era eu, resignada, num ponto de não retorno, perante a imutável atitude da minha amiga.
Em cima da mesa de vidro permaneciam os quatro mil francos que Édouard desembolsara para fingir o pagamento a Mimi. Aquelas notas, para mim, eram um insulto, pareciam-me uma insolência tal que tive de conter-me para não as atirar pela janela fora. Também resisti a pregar um par de estalos à Mimi para que reagisse. Não existe nada pior do que a indiferença. Ela continuava a fumar, inacessível, tentando parecer calma, apesar do ritmo irregular do peito que se erguia a cada respiração, impertinente, no seu top de cetim preto. Mesmo assim parecia furiosa.
Decidiu, ao fim de um bocado, que já aguentara o suficiente. Apagou com violência o cigarro num prato de cristal e, decidida, pôs-se de pé. Édouard virou-se novamente para a janela para evitar ter de despedir-se dela. No fundo, envergonhava-se do que fizera, e dos três era quem, seguramente, pior se sentia. Pensei que ela ia sair pela porta fora, sem mais, mas fez-me uma pergunta inesperada.
- Ficas aqui ou vens comigo para casa?
Como se não tivesse acontecido nada. Disse-o com tanta suavidade que fui incapaz de responder de imediato. Pouco depois, dei-lhe a entender que preferia passar a noite em casa do Édouard. Não me via capaz de partilhar a cama com ela depois do sucedido. Anotei o número de telefone do meu amigo no maço de cigarros vazio e dei-lho para que pudesse contactar
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comigo em caso de necessidade. Pegou nele calada e, enquanto lia, disse:


- Não achas que a situação tem piada?
Percebi logo onde queria chegar. Não lhe chegavam as noites violadas? Por que se empenhava em autodestruir-se daquela maneira?
Despiu o top preto com tanta facilidade que pensei que a noite parisiense já havia acabado de prevertê-la por completo. Assim, rígida, no meio da sala, o olhar ágil dela pousou nas costas de Édouard que continuava abstraído à janela. Eu seguia o desenrolar dos acontecimentos com uma cara atónita. A fera que a Mimi tinha no seu interior havia despertado de modo felino.
Fazer as pazes na cama» é uma expressão típica francesa que é muito gráfica. Digamos que se apaziguaram as tensões quando fomos os três para a cama.
É que as coisas tinham de ficar arrumadas. Definitivamente. Foi a sua forma particular de confessar a verdade e de mostrar como procedia com os outros. Começava a entendê-la. As suas mãos adejaram quando me despiu. Ocorreu-me que talvez quisesse punir-se pela sua incoerência sexual. Exibicionismo? Podia ser. Voyeurismo? Pelo modo como olhava para mim, também. Aproximou o corpo do meu, sentou-se de lado e pousou a cabeça no meu peito enquanto eu lhe acariciava suavemente o cabelo. Mas os meus gestos, mais do que sexuais, eram de consolação e maternais. Édouard uniu-se a nós quando já só o silêncio se fazia ouvir. A situação podia parecer embaraçosa mas, quando o sexual se desencadeia, o círculo vicioso arrasta-nos para o seu epicentro e apaga todo o tipo de preconceitos. A ânsia sexual aguenta tudo, inclusive a timidez mais doentia.
A Mimi beijou-me e logo a seguir pegou no braço de
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Édouard para o aproximar de mim enquanto ele, incompreensivelmente, se retraía. O que ele queria era ver-nos às duas. Atrevida, Mimi voltou a insistir, desta vez com maior agressividade, e o Édouard, num acto de heroísmo, começou a fazer amor comigo. Mimi tinha dado a entender, isso sim, que não consentia ter qualquer contacto com o Édouard. Nem por sombras. Estava disposta apenas a oferecer uma parte da sua nudez. Um pequeno fragmento. O resto, o essencial, entregava-mo a mim. Sentou-se em cima da minha cara, oferecendo-me o seu sexo sedoso. Mas tinha simpatizado com o Édouard porque não se importou nada de lhe dar a ver as curvas do seu corpo. Entretanto, ele empreendera a sua tarefa como um «missionário» tímido face à vergonha que lhe provocava o estar com duas mulheres experientes. Mimi foi generosa com ele, explicava-lhe aquilo de que eu gostava e ele obedecia a todas as instruções. Deixava-me proceder sentindo o Édouard e olhando-a a ela. Mimi dominava com toda a segurança a situação e comandava-a com tanta elegância e firmeza que conseguiu que gozássemos como se estivéssemos hipnotizados.


- Nunca pensei que pudesses sentir-te tão solta com um homem ao lado. E muito menos tão generosa – desabafei.
- Tu não gostas de homens? - perguntou Mimi em jeito de resposta.
- Sim. Claro que sim!
- Pois, então... fi-lo por ti.
Ainda hoje me pergunto se se tratava de mais uma estratégia elaborada para ficar na dela ou se agiu assim por mim. Na verdade, não tinha importância. Aquele prazer a quatro mãos, voltá-lo-ia a sentir hoje, por mais calculado que fosse. Aquelas curvas orgásmicas voltaria a traçá-las... Mas os momentos privilegiados não se repetem. A Mimi aumentava em transgressão e eu, sem me dar conta, também. Que interesse tem a vida se não
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se romper com o estabelecido quando tudo é virtuosamente monótono? Reconheço que me fascina tudo quanto não consigo entender. E que naquela noite não me achava capaz de encontrar qualquer explicação para o sucedido.


- Que vais fazer dos dias de férias que ainda te restam? Queres vir amanhã buscar as tuas coisas?
Nem eu própria sabia o que queria.
- É melhor irmos descansar, Mimi. Amanhã falamos disto com mais calma, se quiseres. E os sapatos de salto alto deslizaram magicamente até à porta.
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