Paris à noite livros di hoje valérie Tasso paris à noite



Baixar 460.33 Kb.
Página6/8
Encontro02.07.2019
Tamanho460.33 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8

O BOSQUE DE BOLONHA
Pipo entrou a vinte à hora no Bosque de Bolonha e logo a seguir teve de abrandar para dez. O Bosque é como uma ferida supurante, mas, diante desse buraco aberto, a rotina nocturna torna-se suavemente exótica.
E eis que o Verão contribuía para o desencadeamento das paixões. Conduzíamos muito devagar porque o Bosque era o lugar mais solicitado a altas horas da noite. Um verdadeiro caos. Um desfile de carros curiosos em busca de uma coisa concreta deambulava pelas alamedas sem qualquer ruído; somente uns motores que ronronavam como gatos. De vez em quando, havia umas travagens ligeiras porque uma negra impressionante com botas altas de verniz decidia atravessar de um lado para o outro, abrindo a tanga para mostrar um sexo que pendia de um corpo inchado de silicone, caso houvesse qualquer dúvida sobre o género dela, provocando os automóveis e deitando de fora a língua felina, fazendo-a girar como se fosse um pequeno moinho de vento.
A noite servia de cortina entre nós e o espectáculo. As janelas opacas do Mercedes protegiam-me daquela actividade sem precedentes no templo ao ar livre do vício.
- A maioria são travestis brasileiros - explicou-me Pipo, procurando que o pé não carregasse demasiado no acelerador.
111

Calculava minuciosamente a distância em relação ao carro da frente,


- Todas estas raparigas tão bonitas? Não pode ser! ! Vi como se formava uma fila de carne humana do lado direito da estrada. Cada metro quadrado gozava da presença de raparigas espectaculares, umas mais do que outras, ligeiramente vestidas ou simplesmente sem nada, todas, isso sim, com sapatos altíssimos. Forçando o olhar na direcção das árvores, avistei umas sombras.
- Esse é o espectáculo de fachada. Lá atrás estão os voyeurs explicou-me apontando para as árvores. - Vêm só ver, não se metem com ninguém. Também, escondidos por ali, estão os chulos a vigiar se as raparigas trabalham. Os verdadeiramente perigosos são esses.
Vários carros pararam obrigando-nos a fazer o mesmo. Após rápida negociação sobre o tipo de serviço e honorários, alguns fecharam os vidros seguindo o seu caminho. Outros deixaram entrar uma rapariga para desaparecerem em seguida num dos caminhos do bosque.
- Gosto deste sítio - confessou-me Pipo. - O travesti está preso entre dois mundos. Sofre muito, sabes? O momento mais doloroso é quando volta para casa ao amanhecer e tira a maquilhagem, se é que lhe resta alguma coisa da noite toda, e tem a visão de si próprio, completamente desprovido da sua máscara de Carnaval. O travesti é a pessoa mais triste que já conheci. Se o visses em casa, dava-te cá uma destas ternuras e uma vontade de o consolares…
- Que aconteceu? Viste alguma vez um assim?
Pipo não respondeu.
- E por que não se operam de uma vez e se tornam mulheres? Que tenham um pénis parece-me uma coisa ridícula. Têm um corpo tão feminino…
112

- Cortá-lo seria como cortar os bilhetes de entrada no meio. É o que os torna atraentes. Sem esquecer que muitos deles não querem ficar sem pénis porque gostam.


- Então, porque dizes que são pessoas tristes?
- Porque, apesar de gozarem da liberdade de escolha, continuam presos entre dois mundos. Quando não me sinto bem, venho até aqui.
Uma loura montada sobre verdadeiras andas sentou-se de repente sobre o capô do nosso carro. Pipo fez sinais de luz, ela olhou para mim, sustentou o olhar, ergueu-se com um saltinho ágil e deu meia volta, mostrando-nos o traseiro com ar depreciativo e fazendo um manguito.
- Tristes e agressivos, não achas? – exclamei.
Pipo olhou pelo retrovisor e virou à esquerda. Enveredámos por outra parte do bosque, mas o espectáculo continuava a ser o mesmo.
- Há muita concorrência. Por isso são agressivos. E também muita violência. Aqui, frequentemente, acabam à facada.
- E, por que é que te lembraste de me trazer aqui? Não tens medo que nos aconteça alguma?
- Não nos acontece nada se não nos metermos com ninguém, não te preocupes. Trouxe-te aqui para veres a verdadeira miséria.
- Que filantropo te tornaste de repente!
- Exactamente. Como tu comigo.
Enquanto reflectia na resposta dele, fomos detidos por um travesti no meio do caminho, fazendo sinais com as mãos. Era giríssimo, talvez com as pernas demasiado magras mas tinha um corpo lindíssimo e muito expressivo. Pipo abriu o vidro, sem fazer caso das minhas súplicas para que não o fizesse. Talvez quisesse roubar-nos. Mas Pipo teimava em complicar a vida quando podíamos ter atravessado o bosque tranquilamente. Fez-me sinal com a mão para que ficasse quieta.
113

- És taxista? - perguntou o travesti, sem forçar a voz feminina.


- Sim, porquê? Mas agora não estou a trabalhar.
- Preciso que me leves.
- Não trabalho à noite, lamento. Vim aqui com uma amiga.

- Pipo virou a cabeça para mim, enquanto eu cerrava os dentes e instintivamente apertava a carteira, com medo de ser assaltada. O travesti pousou as mãos contra o vidro meio aberto. Ficou, de repente, com um ar suplicante. Tinha o rosto afilado, muito bonito, e um princípio de barba.


- Por favor! Preciso que me leves daqui para fora. Prometo que não quero nada. Só que me tires daqui do bosque. - Dirigiu-se a mim. - Prometo-vos que não faço nada, a sério. Acreditem. Pago a corrida. Vejam, tenho dinheiro.
Pôs-se à procura nos bolsos e sacou um maço de notas que nos estendeu com as mãos a tremer. Pipo, que passava a vida a dizer que conhecia muito bem a noite, teve uma reacção surpreendente. Voltou-se para a porta de trás e destravou o fecho.
- Sobe - disse, com veemência.
- Mas, que fazes? - perguntei horrorizada.
O travesti não se fez esperar nem cinco segundos. Abriu a porta e murmurou um «obrigada» agradecido, ao mesmo tempo que deslizava como uma gazela no banco de trás. ,
- Nem sequer o conheces - insisti. - E se nos atacar?
- Não te preocupes - tranquilizou-me sem deixar de vigiar o travesti pelo retrovisor.
- Estás completamente chanfrado - acrescentei.
O travesti tirou rapidamente os sapatos de salto alto com cara de alívio e voltou a agradecer a Pipo. Depois, dirigiu-se a mim para me sossegar.
Perdoa o descaramento, a sério. Mas não tenhas medo. Chamo-me Nicole e tu? Bom... na verdade o meu nome é Philippe. ...... ,.
114

- Vai - resmunguei.


- E tu? - Perguntou Nicole/Philippe a Pipo, cravando o olhar no retrovisor.
- Eu sou Pipo. Onde queres que te leve?
- A Barbes, por favor.
Começou a contar-nos muito nervoso uma história que não tinha pés nem cabeça. A única coisa que percebi foi que se tinha metido no bosque para ganhar dinheiro, de forma completamente livre, e que lhe tinham tentado dar uma sova. Tinham-lhe roubado a carteira que levava. Vivia com a mãe, era órfão de pai e ela não sabia nada das actividades nocturnas dele. De dia era um rapaz normal e banal.
- Pensa que trabalho num espectáculo em Pigalle mas nunca me viu assim vestido. Uf! - suspirou -, não aguentava mais estes sapatos.
Já estávamos a chegar.
- Tenho de pedir-te mais um favor - fez saber a Pipo enquanto tirava o rímel com um toalhete de desmaquilhagem tirado da carteira.
- O que é?
- Que número calças?
- Como?
- Sim. Já vais ver., eu só tenho estes sapatos de salto alto.

- Levantou os pés. - A minha mãe está à minha espera como sempre, na cozinha. Se me vê com estes sapatos, dá-lhe uma coisa! Que número calças?


- Quarenta e dois.
- Devem ficar-me bons. Quanto? - e pôs-se a contar as notas.
- Trezentos francos - respondeu Pipo sem pensar. - E o trajecto de Boulogne até aqui incluído.
-Está bem.
115

Estendeu-lhe três notas de cem francos enquanto Pipo começava a desapertar os atacadores. O travesti calçou os sapatos, o rosto relaxou-se de imediato, despediu-se de nós e saiu do carro. A noite parisiense engoliu-lhe o corpo que se dirigia para um prédio de quatro andares. Sem deixar rasto, a não ser o aroma da sua recordação.


- E agora, que fazemos? - perguntei a Pipo que tinha ficado em peúgas sobre os pedais. - Estás ridículo.
- Valeu a pena. Trezentos francos por uns sapatos velhos. Consegui ganhar o que ganho num dia a trabalhar no duro.
;- Acontece com frequência este tipo de coisas?
- À noite tudo é possível, Vai. Bom, vou levar-te a casa. Assim, como deves compreender, não posso fazer mais nada. Conversámos um bocado diante do prédio da Mimi, bebendo de um cantil cheio de whisky que trazia sempre com ele. Falou-me longamente do Bosque de Bolonha. Aquele lugar era como os gavetões do espírito, bonecas russas daquelas que cada vez que as abrimos sai uma mais pequena. As raparigas a vista de todos; atrás, os chulos a vigiar; mais para dentro, os voyeurs que corriam entre os arbustos para se masturbarem; e, finalmente, nós, mais mirones que todos os outros, a apreciar passivamente o espectáculo. Nisso estávamos ambos de acordo. Falámos amplamente de todos esses desejos não expressos que guardamos nos recantos mais escondidos das nossas cabeças. Falei eu disso. Ele, em contrapartida, não quis contar-me nada.
Quando saí meio embriagada do táxi subi depressa a escada do prédio, cujos degraus se transformavam perigosamente em navalhas de barbear afiadas.
Entrei no quarto às apalpadelas, nua e em bicos de pés, com os sapatos na mão, para não fazer barulho. Os lençóis estavam afastados para um lado da cama e o corpo de Mimi surgiu no meio deles, como se estivesse sem vida.
As paredes do quarto moviam-se diante de mim como uma
116

cascata de água fresca, sem forma definida. Estava completamente bêbeda.


Agarrei nos lençóis e puxei-os para mim, para me tapar. Tinha frio. As ondas dos lençóis cobriram-me com um sussurro de linho e de repente o corpo de Mimi liquefez-se e entrou nos poros todos da minha pele, como bichos numa maçã. Uma torrente de chuva inundou a minha boca enquanto engolia com dificuldade. Senti que me estava a afogar e comecei a virar a cabeça em todos os sentidos.
- Não te mexas tanto - murmurou a voz aquosa de Mimi.
Boiava num charco de água doce, a cabeça dela entre as minhas pernas, e aquela sensação despejou-me a cabeça da ressaca impressionante que tinha em cima. A corrente do seu corpo fazia-me sentir bem e a energia e a força dela transportavam-me até às grutas mais inexploradas do meu subconsciente.
- Não sei se está certo fazeres-me sentir isto. Vou desmaiar.
Os seus dentes brancos resplandeciam na obscuridade como a luz que emitem as pérolas, quando se abrem as conchas do mar. Mimi iluminava-me literalmente e cegava todas as minhas resistências em relação ao sexo com ela.
A sua boca depressa se transformou num pequeno caracol marítimo que começou a sugar com gula a minha intimidade.
- Gostaria de ter muitas mãos para poder absorver-te e tocar-te toda - declarou o molusco.
Não era preciso. Os tentáculos dela dançavam sobre a minha cabeça e perdia completamente a noção do espaço físico; os nossos corpos já não pareciam delimitados.
Tive medo, bastante, de perder o controle e de derrubar o meu mundo interior mais solidificado que um crustáceo agarrado a uma rocha.
- Odeio-te pelo que me fazes sentir - disse num sopro. ’
- Mas gostas, não gostas? - perguntou o polvo numa voz distante.
117

Desenharam-se em mim umas marcas sem sentido que, desde então, me ficariam gravadas na pele. Se bem que invisíveis aos olhos, mesmo que se desfizessem como castelos de areia construídos com tanto esmero, iriam ficar incrustadas para sempre.


- É outro dos teus jogos de magia. Fazes com que me sinta uma mulher diferente daquela que sou.
- Não és diferente. És a mesma, a de sempre mas com outras facetas - declarou a bandeirinha do castelo de areia desmoronado.
Permaneci na minha bolha aquática durante um bom bocado, flutuando nesse colchão demasiado macio, enquanto Mimi conseguia o que sempre tem sido para mim um problema: o sono.
Mas os meus dedos começaram de novo a percorrer-lhe com delicadeza o interior da vagina; as paredes eram iguais a um tapete ligeiramente aveludado que amortecia os toques que a minha mão ia dando, sensualmente tragada por esse corpo vampiresco que queria absorver tudo apesar do cansaço,
És insaciável. - Gritou de prazer.
118

CONFUSÕES
Há dias em que é melhor uma pessoa não sair da cama. O dia a seguir à nossa noite de amor foi um deles. Tive uma crise de angústia. Oh, nada de grave! Apenas a sensação de que ia morrer, com um medo atroz de sair à rua até que caísse a noite. A clássica crise de angústia. Mimi preparou-me um caldo quente e pôs-se a ler-me umas passagens de As Flores do Mal de Baudelaire, sentada na beira da cama, e dizia-me: «assim verás o que é a verdadeira angústia e a tua irá desaparecer».
Escutei durante uma hora a sua voz quente mas grave recitar com paixão aqueles versos, adquirindo o tom adequado. De vez em quando, dava-lhe vontade de chorar, parava e engolia a saliva para que lhe passasse a tristeza.
- Adoro, mas como hei-de dizer?... É viscoso. É isso, é viscoso - aduzi, zombando, ao fim de um bocado.
- Em que sentido? - Mimi fechou o livro e subiu-me os lençóis até me tapar o nariz.
- Pois... é que vou sair hoje à noite com o Pipo com o raio desses versos colados à pele. Vai dar nas vistas. Não parei de me sentir angustiada desde que começaste a ler.
- Não é a poesia de Baudelaire que te põe assim, é o teu amiguinho. Por que não ficas aqui comigo esta noite? Vê-se que não pensas noutra coisa a não ser nele. Não estás concen-
119

:trada na leitura. Entram-te as palavras de vez em quando, mas não fixas o sentido. Esse gajo impede-te de ser sensível à poesia.


- Não é verdade, Mimi. Senão, não tinha feito amor contigo. Teria sido incapaz de me abrir para ti, vamos. Mas o Pipo atrai-me. Quero saber o que tem na cabeça. Quero entender de uma vez por todas o que se passa com aquele homem, com a sua vida e em relação a mim.
Mimi fez-me uma festa carinhosa no cabelo.
- Por que será que o Pipo nunca me propôs, nem uma única vez, que fosse para a cama com ele? Não me tocou nem com um dedo. Nem com a mão, Mimi... Ah, sim! Uma vez, mas foi um gesto fraternal...
- Talvez não lhe agrades, simplesmente. Eu, em compensação, gosto de ti, Vai.
Não respondi à última frase.
- Então, por que quer que saia com ele? Não faz sentido. Sabes que tenho razão, Mimi. Nenhum homem te propõe que saias com ele noite após noite se não tiver uma coisa na cabeça. São todos assim, tu própria passas a vida a repetir a mesma coisa.
- Porque este tipo é um tipo esquisito.
- E tu dizes que gostas de mim mas não confias em mim o suficiente para reconheceres que estavas na praça da Concórdia na outra noite. Que será que vos passa pela cabeça a todos? Estão combinados ou quê? Concordaram em dar-me cabo da cabeça, foi isso?
- Tem juízo, Vai. Acalma-te!
- Está bem, vou ter juízo, como tu dizes. Mas não te parece tudo um bocado suspeito?
- Tens é macacos no sótão.
, - Está bem. Pronto! - concluí saltando da cama para me pôr
120

em marcha e ir ter com o Pipo a horas. - Mas continuas a não confessar.


Dentro de uma cabine telefónica, Pipo cuspia a língua dele dando ideia que estava zangado. Parara o táxi de repente, explicando-me que tinha uma chamada urgente a fazer. Saí do carro para fumar um cigarro e pus-me a observá-lo, com ternura, encostada à cabine. A ele não lhe importava. Não falava em francês. Não corria o risco de ser entendido.
O árabe é uma língua lindíssima mas pouco apreciada por ouvidos ocidentais, que a percebem como uma sucessão de sílabas acidentadas e gargarismos exagerados. Como uma tosse cavernosa e seca nada poética. Mas eu gosto imenso.
Depois da chamada, Pipo ensinou-me uma palavra bonita.
- Habibi. Carrega mais no H, assim: RA-BI-BI
- Pus-me a imitar os movimentos da boca dele.
- Como se quisesse sair mas não pudesse. A ver se percebes melhor: como se estivesses a preparar uma escarradela enorme que quisesses lançar o mais longe possível.
- Credo, que nojo! - e continuei a pronunciar o H.
- Rrrr disse, vomitando a letra.
Pipo desatou a rir.
- É assim mesmo. És muito sexy, habibi.
Gostei.
É a primeira vez que és carinhoso comigo,
- Habibi, quero dizer-te uma coisa.
- Sim?
De repente, senti-me pouco à vontade; o tom de voz não me anunciava nada de Bom. Pipo tinha ficado com um ar sério de repente e as rugas que lhe marcavam a testa não anunciavam nada de bom.
- Não leves a mal, mas a partir da semana que vem não vou
121

estar tão disponível como agora. Tenho assuntos a resolver e só posso fazê-lo quando não estiver a trabalhar.


- À noite? Que tipo de assuntos? Posso ajudar-te?
- Não, habibi. São pessoais. Obrigado de qualquer forma por me propores ajuda, mas só eu é que posso resolver as coisas.
, - Então... que significa isso? Não voltamos a ver-nos?
- Sim, claro que voltamos. Mas não como agora.
Caiu-me o tecto em cima da cabeça. Não sabia se havia de desatar a chorar ou de lhe dar uma bofetada por me deixar para trás assim sem mais nem menos, sabendo que eu só ia ficar em Paris durante o Verão e que provavelmente depois nunca mais nos voltaríamos a ver. Por que tinha decidido chamar-me logo agora habibi (meu amor, em árabe) quando estava a tentar pôr-me a milhas? Não fazia sentido. Uma coisa incompreensível passou-me pela cabeça: a decisão dele de resolver assuntos coincidia com a da Mimi de voltar ao trabalho. Ele sabia de fonte segura (por mim, é claro) que ela ia regressar à rua e isso aconteceu no mesmo dia em que ele desapareceu de circulação. Habibi transformou-se numa palavra maldita, numa bomba que nos explode em plena cara.
Não me lembro bem se foi a partir daquela noite que comecei a elaborar uma estratégia para descobrir quem ele era na realidade. A intuição fez-me sentir uma coisa estranha, uma coisa de que suspeitara desde o primeiro momento mas em que não tinha reparado. O segredo de Pipo. O segredo de Paris e da sua noite. E a Mimi no meio.
122

123


O AMOR, SEMPRE (O ENIGMA DE PARIS)
124

Cor 1’amour, on peut l’espérer, est une négociation permanente entre deux puissances qui veulent se contraindre i’une l’autre...

Pierre Mérot, Mammifères
PLANO A
Marquei o número de telefone com um dedo febril e a tremer. Tinha medo da sua reacção mas era a única pessoa que me podia ajudar em Paris. Passara toda a manhã e parte da tarde a pensar na desculpa que lhe ia dar para justificar a minha atitude. Aquele telefonema ia acertar-lhe em cheio mas, no fundo, tinha esperança que fosse capaz de entender.
Aproveitei a Mimi estar fora para lhe telefonar. O telefone fartou-se de tocar até que uma voz séria, inconfundível e muito familiar, respondeu. De súbito, senti o coração na boca.
- Édouard?
- Sim, sou eu. Quem fala?
:O tom de voz voltou a transportar-me ao bar daquele hotel onde nos encontráramos da primeira vez e onde eu cometera aquele crime horrível.
- Olá, Édouard. Sou eu, a Vai.
O silêncio que se estabeleceu no momento em que pronunciei o meu nome não me surpreendeu. Não estava à espera que lhe telefonasse, disso tinha a certeza. Depois de tê-lo deixado pendurado naquela noite estava quase convencida de que era capaz de desligar sem mais aquelas.
- Olá, Vai - disse, como se não tivesse acontecido nada.
Senti-me estúpida.
126

- Desculpa a outra noite - foi a única coisa que me ocorreu dizer-lhe.

Lamentava muito sinceramente.
- Não te preocupes. Eu entendo. Mas, por que não me disseste? Não era preciso saires a correr como uma ladra. Teria percebido. Quando não há química, não há e pronto! Não podemos inventá-la.
- Tens razão, reconheço. Portei-me como uma idiota.
- Não penses mais nisso. Já está esquecido. Telefonaste-me por causa disso?
- Não. Gostava de estar contigo. Hoje ou amanhã à noite. Quando te der mais jeito. Tenho uma coisa para te dizer. De facto... estou com um problema e preciso da tua opinião.
- Que tipo de problema é que tens, Vai? Grave?
- Não, não é grave. Não te preocupes. Explico-te melhor quando nos virmos. É que estou em casa de uma amiga que deve estar a chegar e não posso falar muito.
- OK. Dá-me mais jeito hoje à noite. No Buddha Bar. Sabes onde é?
Disse-lhe que sim.
- Às nove e meia. Se quiseres jantamos lá.
Quem conhece o Buddha Bar sabe que é o sítio fashion da cidade. E que falar, propriamente falar, não é precisamente o que fazem as pessoas que lá vão.
Hesitei entre vestir uma saia ou umas calças. Era como se tivesse intenções de namoriscar com ele. Suponho que queria continuar a agradar-lhe e que, como todas as mulheres, gostava de estabelecer uma relação de sedução ainda que não fosse acontecer nada. Talvez porque acreditasse que, se continuasse a seduzi-lo, ele aceitaria a proposta desonesta que tinha na cabeça já há uns dias. As mulheres usam sempre os homens, cons-
127

cientemente ou não. Não há nada de maquiavélico nisso, fazemo-lo por instinto. Está dentro de nós. Há gerações e gerações. Para sobreviver. Bom, no meu caso, a minha vida não corre perigo. Emocionalmente, não estava apaixonada pelo Pipo, mas qualquer coisa tinha mexido comigo. Não queria meter-me numa relação que se anunciava desastrosa. Intuía que não estava a salvo continuando com o Pipo daquela maneira, de modo que queria cortar cerce, mas sabendo a verdade, por mais que me doesse.


Era a primeira vez que saía à noite em Paris num táxi que não era o Mercedes do Pipo. Tinha apanhado um Peugeot 504, que cheirava a tabaco frio, e o taxista, pouco amável, não me dirigiu a palavra. Passou o trajecto inteiro a chupar uma barra de alcaçuz e entrámos triunfalmente nos Campos Elíseos.
Quando lá cheguei, Édouard já estava à minha espera, sentado numa mesa cuja localização não me agradou nada. À direita, jantava um casal que não trocava nem meia palavra (pelo que ia ficar atento à nossa conversa), e do outro lado, um grupo de sete pessoas encarregava-se de nos recordar que a amizade é o mais nobre e belo dos sentimentos. Os abraços efusivos atraíam a atenção de toda a gente. Pareciam antigos alunos que se encontravam ao cabo de muitos anos a fim de contarem uns aos outros o que fizeram das suas vidas. Édouard observava-os enquanto bebia um copo de vinho branco. A noite prometia.
- Julgo não ter sido boa ideia virmos aqui - disse-lhe, em jeito de saudação. ;.
Levantou-se para me chegar a cadeira e percebi que estava contente por voltar a ver-me.
- Bem, mas este local tem uma vantagem - anunciou, meio a rir. - com a pouca luz que aqui há, talvez nem chegues a lembrar-te da minha operação ao nariz.
Ri. Para não chorar. Ele sempre tivera sentido de humor.
128

- Lamento o que se passou, a sério - insisti tentando olhá-lo nos olhos. - Lamento o teu nariz e o ter-te deixado ali plantado. Verdade.


- Já disseste isso pelo telefone. Esquece. Disse a piada só para quebrar o gelo.
- É que me apanhaste de surpresa. Vendo bem, não te fica mal.
E era verdade. À luz da vela, a perspectiva do seu rosto era outra. Fiquei contente. Sentia-me mais desinibida.
- Obrigada por teres aceitado vir - acrescentei. !
O rosto de Édouard respirava satisfação. Considerava uma vitória pessoal ter-me a seu lado naquela noite. O casal ao lado continuava com as mesmas trombas de aborrecimento, e nós pedimos uma garrafa de vinho branco.
Chegou até mim um cheiro desagradável enquanto Édouard examinava atentamente o menu proposto. Era o rapaz do casal ao lado. Cheirava a suor. Do sítio onde eu estava conseguia senti-lo. Talvez fosse por isso que ela não falava com ele. Uma axila mal lavada pode converter-se num temível objecto de tortura. Desatei a rir inopinadamente perante o olhar atónito de Édouard.
- Ainda não bebemos nada. Que é que tens?
- Nada, nada. - Era evidente que não lhe ia dizer nada em relação ao sovaco do nosso vizinho que, entretanto, me lançava um olhar assassino.
E para desviar a atenção, comecei a contar-lhe o meu encontro com o Pipo, a minha relação com a Mimi, e as minhas suspeitas de que qualquer coisa não batia certo.
- Acho que se passa qualquer coisa com o Pipo. Estás a ver? Há uns tempos que ele deixou de estar disponível à noite.
- Ai, Vai! - Pegou-me na mão e espetou-me um beijo sonoro com os lábios gelados. - Lamento por ti. Não me digas que continuas a sofrer de insónias?
129

- Sim.
- E com a idade, não melhoraste?


- Como médico que és devias saber que a idade não apazigua as doenças psicossomáticas, acentua-as.
Deixou repousar a cabeça entre as mãos, olhando para mim como se eu lhe estivesse a ensinar uma novidade, enquanto o grupo de antigos alunos subia o tom da conversa. Ouviam-se as gargalhadas agudas, e o silêncio do par ao lado, a contrastar, fazia-se mais pesado.
- bom, que queres que faça para ajudar-te?
- Preciso de ti para duas coisas, Édouard. Primeira: pensei que se te fizesses passar por cliente e engatasses a Mimi, talvez pudesses levá-la para tua casa. Eu estaria lá à vossa espera. Quero que me veja, que seja confrontada com o facto e que confesse. Segunda: queria que seguisses o Pipo uma noite destas.
Era pedir muito, reconheço. Estava à espera que o Édouard dissesse que não. Passaram uns minutos antes que começasse a falar. ,
- bom. Vejo que tens ideias claras sobre a maneira de proceder para apanhares os teus amigos com a boca na botija. E agradeço que tenhas pensado em mim para levar a cabo a tua estratégia mas...
- Não conheço mais ninguém em Paris - repliquei sem o deixar acabar a. frase, desculpando-me. - Não quero incomodar-te, mas dou-te a minha palavra que se te telefonei a pedir uma coisa destas é porque realmente não vejo a quem mais poderia recorrer. És a única pessoa que conheço em Paris e és de confiança. Sorriu.
- E é por isso que te atreves a pedir-me essas coisas? Porque sou de confiança?
130

Aproximou o guardanapo dos lábios e limpou-os com ar snob.


- Isso mesmo – redargui.
- Olha, Vai. Vamos fazer uma coisa. Essa de engatar a tua amiga e de levá-la a minha casa, posso fazer. Não há problema. Mas seguir o teu amigo Pipo, lamento, mas não. Não posso andar toda a noite atrás de alguém que nem sequer conheço. Sou médico e no dia seguinte tenho de ter a cabeça em ordem, percebes? Isso não posso fazer.
Tinha razão. Perante o facto, não podia dizer nada.
- Não me tinha lembrado. Tens razão.
E continuei a comer.
- Então, no que diz respeito à minha amiga Mimi, estás de acordo?
- Sim. Foi o que te acabei de dizer. Mas para isso preciso de saber como é ela.
-Aqui a tens.
Édouard pegou na fotografia com uma das mãos, enquanto levava o garfo à boca com a outra, e o vizinho do lado, que estava prestes a bocejar, endireitou-se de repente com grande curiosidade.
- Gira, a tua amiga.
- Sim, mas não é para ti - apressei-me a declarar-lhe. !
- Além disso, é fácil de reconhecer. Tem olhos de chinesa. Não é daqui, pois não?
- Não. É de Madagáscar. Mas vive em França há vários anos. Costuma estar na praça da Concórdia por volta das nove. Todas as noites, mais ou menos, costuma sair de casa às oito e meia. Não creio que possas encontrá-la antes. O ideal era que lá estivesses cedinho, antes que outro cliente a engate, percebes?
- Pensas sempre em tudo?
- Tento. Não julgues que isto seja uma brincadeira, por favor. Para mim, é um caso muito sério.
131

- Diz-me uma coisa. Pura curiosidade da minha parte. Não leves a mal e não respondas se não quiseres.


Era toda ouvidos. .-= ;
- Qual dos dois é que preferes? O Pipo ou a Mimi? Olhava para mim com cara de anjinho.
- Que raio de pergunta é essa? Não gosto de estabelecer escalas de valor nem de fazer um ranking das pessoas de quem gosto ou de quem gostei.
- Mas se tivesses que escolher um deles, com quem é que ficavas? - Como não respondesse, prosseguiu: - Já sei que é uma pergunta um bocado estúpida e que não vais estar nesse tipo de situação. Mas, sinceramente, diz lá, quem é que escolhias?
- Não te sei dizer. São completamente diferentes. Mas de certeza que ficava com a Mimi. Conheço-a há anos e considero-a como uma irmã. A irmã que nunca tive e que sempre quis ter - respondi, com um suspiro.
- No entanto, ela não parece considerar-te assim. Vai para a cama contigo e não te revela os segredos dela.
- As irmãs também têm segredos. Acontece às melhores famílias, não achas?
- E não sentes mais nada senão um amor fraternal em relação a ela? *
- Por que mo perguntas? Porque me deitei com ela? É por isso?
Ficou um bocado incomodado, a retorcer-se na cadeira, à procura da posição adequada. Por fim, acabou por baixar os olhos.
-Talvez.
- É um sentimento muito profundo. Mas amor, o que se chama amor, não creio que seja.
- Talvez ela sinta isso por ti e não te queira desiludir. Não pensaste nisso?
132

Sim, claro que tinha pensado. De facto, todos os meus pensamentos em relação à atitude dela iam nesse sentido. Mas queria que tivesse mais confiança em mim, que não tivesse problemas em confessar-me a verdade. Que sentisse que podia contar comigo fosse para o que fosse.


- Sim. Penso que tem medo da minha reacção; fundamentalmente, tem medo de perder-me. Por isso, não quis contar nada. E é também por causa disso que me sinto obrigada a usar este estratagema, mesmo que seja um bocado violento de mais para ela. Quando tudo estiver terminado, sentir-se-á melhor e agradecer-me-á o que fiz.
Édouard esvaziou de uma só vez o copo de vinho. Devia achar que eu estava loucamente apaixonada pela Mimi ou, pura e simplesmente, louca. Nunca parara para pensar que ninguém tem o direito de se meter na vida dos outros se não tiver sido chamado. E eu estava a querer forçar uma porta trancada, com violência, sem pedir licença. Não me tinha interrogado se estava bem ou mal. Mas pensava que em qualquer forma de amor, o que a um parecia bem, por mais agressivo que fosse, a outra pessoa teria, com o tempo, que acabar por entender. Estava enganada.
- Que fique claro que não quero ser responsável pelo que possa acontecer entre vocês duas. Ela pode levar a mal - encarregou-se de esclarecer Édouard.
Eu continuava na minha, convencida de que aquela maneira de proceder era a melhor que podia haver.
- Quando uma ostra não se abre, tens que fazer força com uma faca especial, não é?
- E por que é que, forçosamente, se tem de abrir uma ostra? Se calhar está muito bem como está. Fechada.
- E quanto ao Pipo, então? É um não definitivo?
- Efectivamente. Lamento.
133

Quem lamentava era eu, que me via incapaz de repegar no assunto. Segui-lo eu, era arriscado. Não era imparcial nesta história. Tinha de arranjar outra pessoa.


- Que te parece se tratarmos da Mimi depois de amanhã à noite?
Édouard não levantou problemas. Penso que no fundo queria fazê-lo quanto antes para tirar esse peso de cima.
- Está bem. Como fazemos?
- Irei a tua casa por volta das oito e meia e depois tu vais para lá. Espero por vocês na tua casa.
-OK.
Insisti para que guardasse a fotografia da Mimi.
- É muito importante que a reconheças, Édouard.
- Não te preocupes. Se estiver lá depois de amanhã, levo-a para casa. Queres mais um copo aqui?
Não tinha grande vontade de andar às voltas por Paris, por isso aceitei.
- Está bem.
Já que aceitara ser meu cúmplice, não podia ir-me embora assim, sem mais nem menos. Mas a minha cabeça não estava no Buddha Bar. Estava sempre a pensar em como agir no caso do Pipo, a quem recorrer, de tal modo que nem reparei que o Édouard tentava seduzir-me novamente até se encontrar com os seus lábios encostados aos meus.
Não o repeli. Deixei-o beijar-me como se fôssemos um parzinho de namorados normal e corriqueiro. A sua língua violadora insistia enquanto me asfixiava a pouco e pouco, na doce sensação de ser desejada.
”Não sei se o beijo teve alguma coisa a ver com o que me passou pela cabeça logo a seguir. Se calhar, quando o oxigénio falta no cérebro durante umas escassas fracções de segundo a mente funciona melhor. E foi assim que encontrei uma possível solução para o caso.


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande