Paris à noite livros di hoje valérie Tasso paris à noite



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Sem perder o eterno sangue frio, começou a dar-me umas satisfações nas quais nem ela acreditava.


- Ontem fui com umas amigas que são prostitutas. E depois? Acompanhei-as. É verdade que estava lá, mas fui apenas acompanhá-las.
- No bar, deixam-te sair em plena noite?
- Claro!
- E tu foste com elas no Jaguar, a fazer-lhes companhia? pespeguei-lhe, sem tirar os olhos do chão.
- Vai, deixemos isso. Não penses que por termos dado uma queca esta noite tens o direito de também te meteres na minha vida.
- Uma queca? Tu chamas àquilo dar uma queca? Foi muito mais do que isso, Mimi. Ou se calhar para ti não foi bonito?
Não respondeu. com a sua indiferença queria magoar-me para que de uma vez por todas deixasse de lhe fazer perguntas acerca das suas actividades nocturnas.
-Tu não gostas de mulheres, pois não? Portanto, o que fizeste ontem comigo foi dar uma queca. Só isso. Uma questão meramente sexual. Isso com um homem ou com uma mulher é o que menos importa. !
Tinha vontade de morrer. Mimi estava a ser cruel comigo e a conversa não avançava. Ela tentava orientar a conversa para outro terreno. Tinha muito jeito; de facto fugia sempre das situações difíceis como uma cobra entre as pedras. A viscosidade dialéctica dela tirava-me do sério, mas resolvi passar por cima das observações sobre a noite que acabáramos de passar. Cerrei os punhos e decidi continuar a fazer perguntas até que se cansasse. Precisava da confissão dela, queria saber por que não me tinha dito nada. !
- É verdade, não gosto de mulheres. Mas ontem foi maravilhoso, pelo menos para mim. E tu? Tu também não gostas de
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homens e no entanto vais para a cama com eles, não? Tanto discurso feminista, tanta violência verbal para com o género masculino, e vai-se a ver, vais para a cama com gajos! Mas sabes o que é pior, Mimi?
Olhou-me fixamente; parecia surpreendida com o meu ataque frontal. ”
- O pior, Mimi, é que não queiras reconhecer, quando sabes perfeitamente que te vimos ontem. Mesmo perante as evidências, negas tudo. Acho de mais.
A água começou a ferver na cafeteira e Mimi apagou o lume. Calei-me enquanto ela deitava o líquido nas chávenas. Uns grumos de café solúvel boiavam à superfície e pôs-se a dissolvê-los para disfarçar. Bebi o café a toda a pressa, queimando-me. Os nervos obrigavam-me a fazer coisas estúpidas. Mimi fez o mesmo, desapareceu a seguir no quarto e daí a pouco, já vestida, pegou nas chaves e saiu sem se despedir.
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A CONFIDÊNCIA
Pipo estava à minha espera na esplanada de um bar nos Campos Elísios. Cheguei atrasada ao encontro e fez-mo notar:
- Estou há mais de meia-hora à tua espera. À próxima vou-me embora e desenvencilhas-te sozinha.
Não disse nada. Ele estava de mau humor. E eu, depois da minha discussão com a Mimi, também não estava para discussões. Chamei o empregado e pedi um whisky com gelo que não fosse JB. Pipo percebeu que acontecera qualquer coisa.
- Já falaste com a tua amiga malgaxe? Já confessou?
- Por que lhe chamas «amiga malgaxe»? A minha amiga tem nome - censurei-o, procurando na carteira um maço de cigarros.
- A tua amiga não é de Madagáscar?
- É.
- E como se chamam os habitantes desse país?
- Malgaxes.
- Então? - disse, e lançou-me à cara o fumo do cigarro que estava a fumar.
Estava a tentar provocar-me, mas afastei o fumo com indiferença,
- Mas dizeres isso de uma pessoa que conheces é de mau gosto. É impessoal. Sei que o fazes de má-fé, Pipo.
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- Não, até parece! Eu é que não gosto dela! Ela é que não pode comigo!


Apagou o cigarro com a ajuda de um filtro que já estava no cinzeiro.
- De facto, não sei porquê. Não percebo. Não fiz mal nenhum à tua amiga malgaxe - insistia de forma provocatória na palavra «malgaxe».
Pus-me a olhar para os turistas que deambulavam pelos Campos Elísios. Havia mais gente nessa noite do que nos outros dias e fiquei agoniada. Paris em Julho era quase tão insuportável como a Cote d’Azur cheia de turistas italianos. Olhando na direcção do Arco do Triunfo via-se avançar uma avalanche de gente. Podia a avenida mais famosa do mundo absorver uma multidão daquelas?
- Além disso, para ser sincero - continuou Pipo - com ela não me importava de... ! ,
- O quê...? - perguntei desesperada.
- Credo! Sabes ao que me refiro, não sabes? É óbvio que a tua amiga é uma boazona. Salta aos olhos.
- Esquece, Pipo. Ia ser muito difícil.
Não fazia tenções de lhe confessar, depois de ter descoberto que ela era prostituta, que era lésbica, e que além disso gostava de mim, e que ele jamais iria para a cama com ela. E que, para pôr mais achas na fogueira, tínhamos ido para a cama uma com a outra.
- Não queres ser a nossa madrinha, é isso? Que tens? Estás com ciúmes ou quê?
- Eu, com ciúmes? - desatei a rir. - O mais possível! com ciúmes, eu? Que disparate!
E era verdade. Não eram ciúmes, talvez um pouco de tristeza por ver que o Pipo queria estar com a Mimi quando a mimi, até agora, nunca mo tinha proposto. Continuava a fazer tenções
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de não lhe revelar coisa alguma sobre a nossa noite. Sentia-me uma cobarde. Duplamente. Tanto com a Mimi como com o Pipo. Mas para quê complicar mais as coisas quando elas já eram em si mesmas bastante complicadas? Mudei de conversa e contei-lhe a discussão que tivera com ela de manhã.


- Por que julgas que se nega a dizer-te a verdade quando é evidente que a apanhámos? - perguntou-me, muito sério.
- A Mimi sempre foi uma rapariga orgulhosa. Penso que tenha vergonha. Percebo. Mas sinto-me mal porque sou amiga dela há muitos anos.
Enquanto bebia, Pipo deixou o mau humor de lado e teve um gesto inesperado. Pegou-me na mão com delicadeza.
- Ainda por cima, és uma amiga como deve ser.
Sorri-lhe. Há já algum tempo que esperava um gesto de ternura da parte dele. Os seus dedos acariciavam-me a palma da mão, e por instinto apertei a dele.
- Queres ficar no centro esta noite ou preferes que te leve a dar uma volta a um sítio muito especial, onde poderás deitar cá para fora toda a raiva que tens dentro de ti?
Ri. Raiva, eu? Onde queria ele levar-me desta vez?
- Ui! - exclamei. - Parece que andaste a pensar muito nas últimas horas e tens tudo programado. Que planeaste desta vez?
A mão dele apertou a minha com mais força; senti a onda de calor da avenida chocar com os nossos corpos. Pipo atraía-me. A noite estava lindíssima e ele muito romântico. As estrelas iluminavam o céu da cidade. O horizonte desenhava-se com nitidez, a linha não tinha dessas camadas cor de ferrugem produzidas pela poluição de Paris. O ar limpo do centro convidava a ficar sentado numa esplanada. Mas vi-o impaciente, com vontade de sair daquele sítio e eu, mais uma vez, empurrada por uma força invisível, quis agradar-lhe.
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O LOUVA-A-DEUS
O templo do sadomasoquismo ficava num dos bairros mais movimentados de Paris, o décimo primeiro, não muito longe do boulevard Voltaire.
A pedido de Pipo, eu pusera um vestido azul-eléctrico justíssimo, leve e sexy. Fazia parte do dress code, como ele dizia; sem isso, não se podia entrar. Até me tinha obrigado a voltar a casa para trocar de roupa porque estava de jeans. O vestuário fazia parte da pequena encenação, num lugar que parecia o teatro dos horrores. Ali, de facto, era muito difícil entrar se nunca nos tivessem visto. Mais do que privado, era um círculo totalmente fechado, mas não alheio a Pipo, que parecia frequentar tais locais com assiduidade. Todavia, não costumava participar. «Sou um mero observador, nada mais», frisou. «Pago para ver sofrer outros, que escolheram isso mesmo. Atenção, eu sou normal. O problema é deles.»
Pipo não parava de justificar a sua atitude. Para mim, observar implicava participar. Aproximar-me desse mundo era querer fazer parte dele, quanto mais não fosse por uns minutos. No fundo, Pipo era um sádico. Mas, por enquanto, não era claro se o sadismo dele era dirigido contra os outros ou contra si próprio.
A proprietária do lugar chamava-se Bela Raposa. com um
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corpete de couro apertadíssimo, recebeu-nos com escassa amabilidade - fazia parte do jogo - e perguntou-nos se tínhamos alguma preferência especial para aquela noite: se vínhamos como par sádico, se um de nós era dominante ou dominado... Na realidade, fez-nos um verdadeiro interrogatório antes da descida aos infernos. Eu mal falava, era ele que tinha a iniciativa.


Vínhamos apenas ver, provavelmente não participamos, estamos ainda em fase de aprendizagem, especialmente ela, explicava Pipo à Bela Raposa, apontando para mim com o dedo como se eu fosse um objecto. ’
A dominadora era uma mulher muito bem feita e, decididamente, orgulhava-se disso. Realçava com altivez o peito, erguendo a cabeça e movendo os sapatos de salto alto que pareciam verdadeiras navalhas de barbear. No pulso direito tinha preso um chicote como se fosse uma pulseira, mais uma jóia a enfeitar um corpo ameaçador enfiado numas meias pretas de rede.
Olhou para mim com ar aborrecido, fazendo fincapé na minha roupa: «Estritamente preto, rigorosamente couro ou látex» era o recomendado. Mesmo assim, deixou-nos entrar.
Pipo despachou-a rapidamente quando se propôs mostrar-nos os diferentes ambientes da casa, alegando que já lá fora uma vez e que conhecia o sítio. , ; »
- Sofrer é ser, no fundo, um pouco mais digno. Afinal, toda a nossa vida consiste nisso! Sabes? Eu entendo esta gente. Quanto mais o tempo passa, mais sofrem. Aqui a crueldade tem de ser consentida, obviamente - argumentou com uma certa indiferença.
Reduzir a existência simplesmente a isso, quando nos faltava mais de metade da vida para viver, parecia-me um bocado triste. Protestei:
- Se aspiras ao sofrimento, hás-de sentir-te sempre um dês-
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graçado. Para se ser feliz é preciso querer sê-lo. Nem que seja um bocadinho, não achas?


Pipo lançou-me um olhar profundo. Tinha nos olhos uma pequena névoa húmida. Parecia ter vontade de chorar.
- Eu quis ser feliz com Isabelle, amei-a com todas as forças. Como eu a amava! Mas não foi possível. Fui o homem mais infeliz do planeta.
Escapou-lhe este comentário e quando lhe perguntei «Por que dizes isso?», não quis responder. Mudou bruscamente de assunto, puxando-me por um braço, para que me decidisse a entrar.
No salão, separado da entrada por um reposteiro escarlate, outra dominadora estilo sado-hard insultava um velhote que viera viver os últimos sopapos da depravação humana. Uma sessão sadomasoquista em regra, explicava-me Pipo, podia ser um bom tratamento contra o Alzheimer, dissuasor pelo menos, como um choque eléctrico. «Encara-o como coisa positiva», acrescentou quando viu a minha cara de nojo. «Ou como uma maneira de acabar por matar o pobre do homem, não te parece?», redargui.
Pensei que a Mimi certamente estaria de acordo comigo.
O lugar era selecto, parecia uma cave abobadada, quartos escondidos, jogos de toda a espécie e com a Cruz de Santo André a presidir ao santuário.
- Sempre me interroguei por que razão o louva-a-deus continua a copular, sabendo de sobra, por instinto, que a fêmea o vai devorar a seguir.
- Queres dizer que não somos a única espécie a praticar o sadismo?
- Pois não. Como vês, há outras.
- Como os louva-a-deus?
- Sim. O que significa que não devemos ser assim tão loucos.
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Se não, seríamos os únicos a fazê-lo. A natureza sempre foi cruel - disse, com um ar abominavelmente indiferente.


- Não seremos os sucedâneos do louva-a-deus? - inquiri com ar de troça.
Era óbvio que Pipo me estava a testar. Ou que me provocava para ver a reacção.
- E das viúvas-negras - concluiu para completar a minha frase. - Repara. ,
Pegou-me no braço e apontou-me uma mulher com um véu negro na cabeça. Tentava atenuar o luto, castigando um jovem escravo sentado numa cadeira de dentista.
- Uma vez por mês há venda de escravos. Sabias que alguns homens de negócios vêm aqui com as secretárias e as vendem por notas de monopólio?
- Pára de gozar comigo, Pipo, por favor!
- A sério. É um jogo, claro. Ninguém obriga ninguém. !
- Essa é forte.
- É tudo quanto há de mais normal!
- Só se for para ti. Não vejo nada de excitante nisso. Por favor, vamos embora, Pipo, peço-te por tudo!
Percorridos uns metros, Pipo surpreendeu-me com um comentário inesperado.
- Por que lutas contra ti própria, Vai?
- O que queres dizer?
- Podias ser uma dominadora de primeira categoria, sabias?
- Que disparate é esse agora? - não percebia onde queria chegar.
- Aqui, neste lugar, vi como olhavas para toda esta gente... Dizem que a melhor defesa é o ataque.
- Talvez a ti te agradasse que eu fosse uma boa virago. Qual é o teu problema? Gostavas que te dominasse? Precisas de uma dominatrix na tua vida, é isso?
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- Vês? Estás a ter um comportamento sádico. Vês como eu tinha razão? - exclamou, irónico.


!Na altura nem sequer me passava pela cabeça, mas uns anos mais tarde penetraria nesse mundo através de puro estímulo cerebral. Acabaria por compreender as verdadeiras motivações de um masoquista e entender que a chave deste tipo de relações reside na figura do humilhado. E que as aparências enganam sempre.
Ao dirigirmo-nos para o táxi, verifiquei que a cara de Pipo mudava de expressão. Olhou para o relógio e anunciou-me que tinha de se ir embora. Mais uma noite sem nenhuma proposta dele. Quando se iria declarar? Era-lhe assim tão indiferente que nem tentava flirtar comigo?
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SOLIDÕES
Quando Pipo me deixou à porta de casa, alegou que já estava muito cansado. Habitualmente insistia em não me deixar ir dormir, mas desta vez não. Despachou-me literalmente do táxi novo que a companhia lhe dera, como se fosse uma cliente, para desaparecer em seguida a toda a velocidade. Provavelmente, não lhe caíra bem o que lhe dissera naquele lugar. Talvez se tivesse apercebido de que, no fundo, ele e eu tínhamos muito pouco a partilhar, por mais curiosos que fôssemos. Sentia-me muito triste e àquelas horas não ia encontrar a Mimi. Apetecia-me falar com alguém, estava mesmo necessitada.
O relógio marcava cinco horas da manhã quando a Mimi acendeu a luz do quarto. Não pude evitar virar-me para lhe ver a cara. Não parecia fazer tenções de se desculpar por me ter acordado; em vez disso, observou-me com insistência, com os olhos inchados. Pensei que fosse desatar a chorar ali mesmo; de facto, a voz saiu alterada quando se dispôs a falar.
- Para mim não foi uma queca ontem à noite. Só disse aquilo para te magoar - declarou.
Sentei-me na cama enquanto ela continuava de pé diante de mim.
- Não foi uma queca, Vai. Foi muito bonito, - disse eu, abeirando-me dela.
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- E... queria que soubesses. É tudo.


Vi-a chorar discretamente. Um minuto, nada mais; era demasiado orgulhosa para soluçar. Aproximei-me um pouco mais e apertei-a contra mim como um bebé. Não fez nenhum gesto para fugir da ratoeira que lhe haviam estendido os meus braços. Ou estendera-ma ela a mim?
- Como foi a noite? - perguntei para desviar o assunto e acabar com a tristeza infinita que escorria das suas pálpebras.
- Apetece-te apanhar um pifo comigo? - propôs de repente, passando os dedos por debaixo dos olhos para secar as lágrimas.
E despindo o top de um lindíssimo conjunto Príncipe de Gales de Verão, dirigiu-se imediatamente à cozinha para ir buscar a garrafa de whisky.
- Sim, vamos a isso! - gritei alegremente do quarto.
Os cubos de gelo soaram como um glaciar que se quebra quando o líquido deslizou no copo. Deitava a bebida com segurança, com uma certa cautela para não entornar nem uma gota em cima dos lençóis. Vi-a sorrir e essa imagem encheu-me de alegria. Brindámos por Paris e por nós. A Mimi não conseguiu evitar acrescentar:
- E que se danem todos!
Era superior a ela. Bebi sem dizer nada. Também não quis perguntar mais nada sobre a sua noite. Vi-a particularmente sensível.
Beijámo-nos. Era maravilhoso. Só o roçar delicado dos lábios dela contra os meus me criava novas sensações. E murmurei-lho. ’


  • Eu sei... - respondeu continuando a roçar a minha boca. De repente o planeta Terra converteu-se num lugar mais acolhedor para viver, de repente o meu corpo possuía terminações nervosas em cada milímetro quadrado, de repente voltava a ter curiosidade.

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- Que me vais fazer? - perguntou, surpreendida, enquanto lhe segurava o cabelo.
Queria verificar uma coisa. Agarrei-lhe a farta cabeleira preta entre os meus dedos, levantei-a num rabo-de-cavalo e passei-lhe a mão por detrás da nuca. Queria sentir o pequeno velo que tanto me chamava a atenção quando me virava para ela na cama. Era como o imaginara, macio como uma pluma, dócil, até acariciando-o a contrapelo, jovem porque não deixava de crescer, agradecido porque o toque que me deixava nos dedos era cada vez mais agradável... Sentia-me numa nuvem de algodão, a milhares de quilómetros, desta vez da Terra, e não queria voltar a descer. Entretanto, a Mimi sorria como um céu aberto.
O álcool, sem dúvida, desinibira-me um pouco e a sua mão glacial no meu mamilo esquerdo nem me surpreendeu muito nem me assustou. Noutra ocasião, teria-lhe tirado, bruscamente, a mão ou teria ido dormir para o sofá. Mas o álcool retirava importância às coisas.
As nossas carícias dançavam em uníssono, na pele, ao mesmo ritmo, numa perfeita sincronia de movimentos. Parecíamos uma só pessoa que conhece o corpo de cor, imitávamo-nos uma à outra, e a nossa respiração sustida e intensa impregnava as paredes de papel do apartamento parisiense.
Dormi um pouco, com as nossas pernas entrelaçadas, e apesar de estar confortavelmente instalada, tive um pesadelo horrível. Acordei encharcada em suor e dirigi-me directamente ao telefone para conversar com Pipo. Precisava vê-lo para lhe contar o meu sonho.
- Hoje à noite? - perguntou. - Não sei, tenho de ver como vou organizar a minha vida.
- Tens sempre as noites livres. Que significa isso de «como vou organizar a minha vida»? Bolas, Pipo!, preciso de falar contigo.
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Mimi passou por detrás de mim e fez-me uma festa no braço para me acalmar, dado que eu estava praticamente aos gritos. <


- Está bem - foi a resposta de Pipo. - já te telefono, quando souber se consigo ficar livre. E desligou.
Não me lembro bem se foi a partir daquela noite que comecei a suspeitar de que qualquer coisa não estava bem, que Pipo andava a esconder-me coisas. Mimi tinha-me tornado ainda mais sensível do que sempre me havia considerado.
Pipo cumpriu a promessa e voltou a ligar para dizer que não nos podíamos ver. Tinha outros compromissos mais urgentes para resolver.
Naquele Verão, influenciada por Mimi, comecei a meter-me nos copos e a lidar com soníferos. O calor do whisky na garganta reconfortava-me o coração e tornava menos brancas as minhas noites solitárias. Nem ouvia o ruído do metro que começava a vibrar debaixo do nosso prédio às seis da manhã. Era todo o meu ser que vibrava como com uma descarga eléctrica, flutuava no vazio toda a minha existência, cheia de álcool, como um sonho esburacado antes de cair no estado etílico. Comecei a escrever a seguir ao telefonema de Pipo, não tinha nada para fazer. Mimi apareceu na soleira da porta e deu uma olhadela ao computador, por cima do meu ombro. Senti o calor dela na minha nuca e virei-me bruscamente carregando numa tecla para fazer desaparecer o texto. Tinha vergonha que pudesse ler uma coisa escrita por mim.
- Deu-te agora para a poesia? - perguntou.
-Que fazes aqui? - mostrei-me admirada. - Não devias estar a trabalhar?
- Hoje, não. - Decidi ficar em casa. Tirei uma semana de férias. E tu? Não ias sair com o Pipo?
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Acendi um cigarro tentando ganhar tempo e dissipar a sua curiosidade. Mas Mimi continuava à espera da minha resposta.


- Anulou o encontro de hoje - respondi, no meio de uma nuvem de fumo azulada.
- Ou seja, deixou-te pendurada. Não?
Não sei como fazia aquilo, mas a Mimi cravava sempre o espinho onde mais doía. Porque, no fundo, talvez tivesse preferido que assim fosse. Que me tivesse deixado pendurada. Mas não: telefonara com bastante antecedência, o que indicava que, desde o princípio, nem sequer considerara a hipótese de ver-me. Deixar-me pendurada levantava a dúvida, como se quisesse ver-me mas no último minuto lhe tivesse surgido um problema e não tivesse sido possível avisar-me. Mas Pipo não me tinha deixado pendurada, mas sim coisa pior: «Tinha outros compromissos”.
Esperara o telefonema durante toda a tarde, transformada em pirómana, fumando compulsivamente numa varanda, de um lado para o outro, cujas grades estavam abrasadas pela minha raiva.
Sozinha, como sempre, tirando com as costas da mão a maquilhagem. Não valia a pena pôr-me bonita. Uma corrente de ar vinda não sei donde tinha-me transportado para um estado de melancolia. Onde estaria o Pipo, nessa noite?
Conversámos um bocado, enquanto beberricávamos. Por volta das onze tocou o telefone. A Mimi foi a única capaz de pôr-se de pé e de atender. Eu tinha a vista completamente turva.
- Ah, olá, Pipo! - disse, mudando imediatamente de expressão.
Fiz-lhe sinal que não energicamente com o dedo e ela assentiu com a cabeça.
- Lamento mas está a dormir. Não me parece que lhe apeteça sair agora. Vamos, dorme que nem um bebé – mentiu, enro-
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lando o dedo no fio do telefone. - É melhor telefonares-lhe amanhã. E desligou.


; Olhei para ela e pus-me a arrotar como uma louca, o que provocou um riso nervoso a Mimi.
- É assim mesmo - disse, dando uma gargalhada. - Bem feito! E estendeu-se em cima da cama. ,; ; -;
- Que queria?
- Queria saber se podia ver-te esta noite. ;,.
- Esta noite? - Deitei-me sobre o cotovelo, com a cabeça apoiada na mão. - Se desmarcou o encontro há bocado!
A minha cara estava muito próxima da dela, sentia a respiração dela na minha face.
- Os homens não sabem o que querem, vês? Deixa lá, deve ter mudado de planos no último minuto.
Olhava para ela e fui invadida por uma ternura muito especial. O Pipo já não tinha tanta importância, sentia-me bem. Querida, desejada, importante para alguém. Pelo menos por uma noite.
Mesmo assim, dormi mal. Penso que me fazia falta ouvir a porta da entrada por volta das seis da manhã e sentir que a Mimi tinha chegado a casa, que sobrevivera uma vez mais ao inferno do luxo oferecido e do sexo comprado no cruzamento da praça da Concórdia com os Campos Elíseos. Não estava habituada a tanta paz, a dormir de um sono, nem ao silêncio quase religioso. O meu espírito começou a divagar.
O Pipo mudara de atitude, eu tinha dado por isso, logo a seguir ao acidente. Ou desde que lhe apresentara a Mimi? Duvidava de uma hipótese e de outra. Mas uma coisa era rigorosamente certa: os dois acontecimentos haviam ocorrido praticamente ao mesmo tempo.
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A cara dele não deu mostras de nada de estranho quando nos encontrámos num bar dos Halles às dez da noite. Havia muito movimento. Uns miúdos de quinze anos passaram diante de nós, com um rádio e gravador de cassetes ao ombro movendo-se ao ritmo do rap.


- Deves estar em plena forma hoje - lançou o Pipo à laia de saudação, um pouco irónico.
- Que queres dizer?
Um empregado, com um bigodinho pintado, trouxe-nos as cervejas.
- Dormir tantas horas, faz-te bem. Estás com a pele mais luminosa.
Já sabia onde queria chegar. Mas não tencionava fazer a mínima alusão ao telefonema dele. Insistiu no assunto.
- A tua amiga malgaxe disse-te que telefonei ontem à noite?
- Sim, claro.
- Era cedo. Mas já estavas a dormir. Pelo menos foi o que ela disse. Ou não quiseste atender? , , :
Fiz-me de parva.
- Fez-me bem não sair ontem. Estava cansadíssima. Fui cedo para a cama. Mas a Mimi deu-me o recado, se é isso que te preocupa.
Sabia que queria fazer conversa sobre o assunto, que estava à espera que lhe fizesse perguntas acerca da noite anterior, mas não entrei no jogo.
- E como está ela? - perguntou, de repente.
- Está boa.
- Já confessou?
- Acaba com isso, Pipo, está bem? - disse tapando os ouvidos porque os miúdos no meio da rua tinham a música cada vez mais alta. Pipo não parecia prestar-lhes a mínima atenção.
- Não voltaram a falar no assunto? Ora, ora!
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- Não, Pipo. Decidi não voltar a falar nisso. Se lhe apetecer falar, fala ela, espontaneamente. Mas eu não vou dizer mais nada. De qualquer forma, resolveu tirar uma semana de férias. Quer descansar, estar em casa e ler.


E vi nos olhos dele uma certa tristeza, que tentou disfarçar, contando-me uma anedota ordinária à qual não achei graça nenhuma.
- Que parva estás hoje! É o que faz teres dormido de mais. Talvez não te faça bem descansar tanto! - exclamou, bebendo a cerveja. - Vamos embora. Arrumei o carro numa ruazinha não longe daqui e vou levar-te a um sítio que te vai fazer acordar esse cérebro paralizado.
Pagou e saímos em silêncio. Voltávamos a entrar na rotina de Paris e nas suas habituais surpresas nocturnas. Não tinham feito falta nenhuma.
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