Paris à noite livros di hoje valérie Tasso paris à noite



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momento, já não se conseguia saber o que mais se tinha espargido.


- É um gang-bang - explicou-me Pipo de repente, a despropósito.
- Um quê?
- Um gang-bang. Uma orgia durante a qual uma única pessoa é possuída por muitos homens, que esperam a sua vez. Chama-se assim. Gang-bang. Há muitos sítios em Paris onde isto se pratica.
- Credo, homem! Até parece que alguém vai disparar.
- Pois é mais ou menos disso que se trata. E desatou a rir.
Não podia negar que aquela cena me excitava, mas não me sentia à vontade, talvez porque mãos desconhecidas me roçavam o corpo, umas amassando-me o traseiro sem aviso prévio, outras surpreendendo-me tocando-me nos seios. Eram mãos que não pertenciam a ninguém; os suspiros que se ouviam à minha volta pareciam sair das paredes,
Ao fim de algum tempo, pedi a Pipo que nos fôssemos embora; aquele espectáculo cansava-me.
- Bolas, pensava que gostavas!
- Sim, ver está bem. Mas já estou a ficar farta. Tantos falos aqui... que queres?! E o cheiro, já estou a ficar agoniada.
- Pois aqui - acrescentou Pipo - corre o rumor de que vem gente muito importante. Ministros e isso tudo.
- E então? Só o povinho é que faz sexo ou quê? A sério que isso te espanta?
- Não, só falei a título de anedota, mais nada. Imaginas-te a dar uma queca com um tipo e ficares logo a saber que é o ministro da Saúde? Ah, ah, ah. Desculpa, dá-me imensa vontade de rir.
E fomo-nos embora porque chamávamos demasiado a aten-
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ção. Pusemo-nos a andar calados até ao táxi depois de Pipo se refazer do ataque de riso. Gostava do riso dele. Era natural, espontâneo. Poucas vezes me sentira tão bem com um homem. Além disso Paris, de noite, parecia mais domesticável do que de dia, talvez por a cidade nos pertencer realmente. Não havia tanto bulício e as coisas eram menos rápidas, a vida subterrânea já não tremia freneticamente debaixo dos nossos pés.


A noite assentava bem a Paris e aos seus edifícios. O preto fica bem a toda a gente. A torre Eiffel deixava de ser durante umas horas um amontoado de chapa oxidada para se transformar num ponto luminoso. O Sena já não dava a ver a porcaria esverdeada à superfície; parecia antes um grande espelho que convidava a que nos víssemos nele. Os palácios de Paris - indubitavelmente de uma fabulosa beleza durante o dia - pareciam transformar-se em cenários de contos orientais.
Até o Beaubourg era quase aceitável, arquitectonicamente falando, enquanto La Défense impunha a sua sombra sobre os distritos limítrofes da cidade. Talvez a felicidade consistisse nisso: sentir que nos pertence uma coisa bonita e que nós pertencemos a essa coisa.
> A torre Montparnasse, uns duzentos metros de vaidade, parecia menos pretensiosa na noite parisiense. Os seus detractores eram seguramente mais indulgentes das dez da noite em diante.
Mas de madrugada, as gárgulas de Notre-Dame pareciam transformar-se em qualquer coisa de diabólico. Como brincava connosco o cérebro quando a imaginação se punha a funcionar! Projectava os nossos medos mais atrozes, dando formas endiabradas a anjos inocentes, esculpidos na pedra das catedrais. Olhando-as fixamente, as gárgulas abriam as asas para dançar em cima de uma cidade, cujas pontes se transformavam de repente nos tentáculos de um polvo gigantesco que apanhava os
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transeuntes nocturnos. A ver se íamos todos acabar em patê de carne humana, sem conservantes nem aditivos, para gárgulas esfomeadas!


A ilha da Cite, apesar de tudo, continuava a flutuar tranquilamente sobre o Sena, isolada para sempre do resto da urbe.
Pipo interrompeu os meus pensamentos com uma frase estúpida.
- Imagina uma grande orgia na televisão, num programa sério, quero dizer, com um prémio no final. ,
- Mas, que estás tu a dizer, Pipo?
- Ia ser divertido, não? Um gigantesco gang-bang televisivo como o que acabámos de ver, chamado Gang-Bang Connection.
Desatou a rir.
- Sim, Gang-Bang Connection soa bem – acrescentou,
- Não tinha interesse nenhum. Banalizar a esse ponto o acto sexual penso que seria matar a excitação e o erotismo,
- Está bem, vais ver como havemos de chegar lá.
Em 1995 ainda não existiam nem os Loft Story na M6, nem o Grande Irmão na TV5, nem o Big Brother soava tão inglês. Para que Aldous Huxley se torcesse de gozo no túmulo.
- Seria muito excitante – prosseguiu.
- Achas? Explicitar dessa maneira é banalizar.
- Porquê? O que é que faltava, em tua opinião?
- A emoção, Pipo. A emoção. Como se pode transmitir emoção praticando sexo em grupo diante de milhões de pessoas, com a cara crispada pela ansiedade, impotentes por estarem rodeadas por dezenas de câmaras.
- A mim, seria isso que me faria tesão.
- Prefiro a literatura masturbatória. É mais criativa.
Fez cara de quem não entendia.


  • Tu é que és mais pervertido do que todos os perversos larguei, dando-lhe uma palmadinha nas costas,

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Agarrou-me pelos ombros, rindo, e entrámos no táxi. Pequenas borboletas revolteavam em redor dos faróis. Também eu me sentia borboleta: por um lado, Pipo atraía-me muito; por outro, tinha medo de me queimar. :


Quando me deixou na pensão, entrei como um foguete, sem me despedir dele. Yamal estava a falar com uma turista inglesa, que havia tirado os sapatos para ficar com um ar mais cool. Mal deu por mim, mas a turista virou-se e lançou-me um sorriso bastante estúpido. Fui para o quarto com o coração acelerado.
O meu quarto cheirava a humidade, sobretudo à noite. Abri a janela e procurei novamente sinais de vida do meu vizinho exibicionista. Era a minha última noite no bairro e queria saber se ia ter coragem de aparecer novamente. ;. .,.,,.-.,,.
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FLAMINGOS COR-DE-ROSA EM PLENO CENTRO DE PARIS
Curiosamente, não tinha dado nome ao meu exibicionista da frente. Parecia um zé-ninguém, um tipo que se podia confundir com a multidão sem chamar a atenção, sem que ninguém se importasse com a sua vida miserável entre as quatro paredes de um apartamento de vinte metros quadrados. O tipo perfeito do terrorista internacional que, um dia, farto da rotina, decide pôr uma bomba na estação de Saint-Michel para logo se afastar tranquilamente, assobiando. Mas a mim aquele zé-ninguém, aquela mancha humana, importava-me.
Era uma e meia da manhã, e pus-me a vigiar a janela dele. Tinha apagado as luzes do quarto para que não pudesse ver que estava alguém à espreita. O meu vizinho apareceu, em tronco nu, curvado porque deslocava qualquer coisa que depositou em cima da cama ou em cima de uma mesa. De onde eu estava, não conseguia ver nada do que havia dentro do quarto dele, apesar de a janela estar completamente aberta, bem como as cortinas, e a luz acesa.
Vestiu de repente a eterna t-shirt de desenhos, viu-se ao espelho pendurado numa das paredes, desapareceu do quarto e, tal como na noite anterior, regressou ao fim de cinco minutos. Parou novamente em frente do espelho, passou uma mão pelo
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lado direito do cabelo, depois pelo esquerdo e, humedecendo previamente os dedos, arranjou umas madeixas colocando-as no lugar com a saliva porque lhe caíam para a testa. Virou-se bruscamente para a janela e pensei que voltara a descobrir-me. Começou a fitar a rua, seguramente para avaliar o calor que estava àquela hora da noite, voltou para dentro, pegou num livro e desapareceu.


Por curiosidade, deixei-me ficar à janela porque pensei que provavelmente fosse sair. E não me enganara. O meu masturbador compulsivo empurrou a porta principal do prédio; tinha uma t-shirt com flamingos cor-de-rosa que agora conseguia distinguir perfeitamente graças à iluminação da rua, e foi andando pelo passeio na direcção da praça de Pigalle.
Decidi ir atrás dele. Nunca me pareceu bem a ideia de seguir uma pessoa porque, de certa forma, é violar a sua intimidade a despropósito. Mas o meu vizinho da frente tinha-me provocado. Estava a pedi-las. Além disso, o sucedido com Pipo havia-me despertado mais os sentidos do que de costume. Mas tinha de despachar-me, porque senão ia perder-lhe o rasto na noite. Peguei na carteira e desci as escadas da pensão a correr. Yamal já não estava junto da turista inglesa; estava absorto em frente da televisão.
No fim do quarteirão, parei, tentando encontrar o meu vizinho no meio dos jovens ruidosos das imediações, que sonhavam passar uma noite de álcool, droga e house music, e dos clientes de uma esplanada de um bar com as mesas de frente para a rua. Não me foi difícil reconhecê-lo à noite. Caminhava tranquilo e divertido, observando à volta as luzes intermitentes das sex-shops que cegavam os transeuntes. Atravessei a rua para me aproximar mais e tê-lo sob controle, se bem que não fosse fácil adaptar-me ao passo dele de forma a não lhe passar à frente. Ando sempre muito depressa. Abrandei, quase lhe agrade-
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cendo por ter entrado enfim numa dessas lojas eróticas. Apertou com força contra o peito o livro que levava, como se tivesse medo que alguém lho arrancasse das mãos, e abriu caminho no local. Uma campainha anunciou a entrada dele e a sua silhueta desapareceu, engolida por um cortinado vermelho da entrada do Eros Centre.


Peguei num maço de cigarros ainda por abrir. Acendi um cigarro onde dava grandes passas que engolia com paciência, porque tinha a firme intenção de esperar por ele, demorasse ele o tempo que demorasse, ainda que isso supusesse aguentar as luzes indiscretas da sex-shop durante horas e suportando estoicamente as solicitudes de uns velhos maduros mal barbeados em busca de carne fresca. Queria ver-lhe a cara, ver-lhe os olhos, só isso. Qualquer coisa me unia àquela mancha translúcida, quanto mais não fosse uma rua entre dois espasmos desencontrados.
Sentei-me na esplanada de um bar em frente da sex-shop para não chamar demasiado a atenção e pedi um copo a um empregado desagradável que seguramente se chamaria Charles (tinha cara de chamar-se Charles), cravando o olhar no cortinado vermelho.
Entrava e saía gente de toda a espécie: pares heterossexuais, gays, quarentões, sexagenários e, de vez em quando, uma ou outra rapariga de saltos altíssimos que devia fazer parte do show em directo, que anunciava o strip-tease mais excitante do momento.
O meu vizinho demorava tanto que decidi ir buscá-lo e trazê-lo pelo pescoço se fosse caso disso. Também não podia resistir à tentação de entrar num lugar daqueles. Pus-me de pé, tirei umas moedas do porta-moedas, deixei-as ao lado do copo em que mal tocara e entrei na sex-shop com passos decididos, aparentando uma grande segurança.
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Pensava que um sítio assim preservaria o anonimato da clientela, mas a luz tão clara do local provocava o efeito contrário. Quanto mais iluminado, melhor, se bem que todos quantos estavam presentes fingissem não ver ninguém. Nenhum sustentava o olhar do outro. Todos partilhavam dos mesmos gostos, mas não havia nem um toque de cumplicidade entre eles. Pelo contrário. Todos tinham o nariz colado a revistas pornográficas ou a vitrines de artigos eróticos. Nem sequer tinham dado pela minha presença; era a única mulher na loja. Do masturbador compulsivo não havia nem rasto... Dei várias voltas por ali, fingi interessar-me por um calendário com posições do Kama Sutra, até que uma silhueta magra e saltitante saiu, quase de forma súbita, de uma cabina de projecção X. Mas eu já sabia quem ele era, com o eterno livro, firmemente agarrado debaixo do braço. Era um tipo comum, não havia nada de interessante que sobressaísse nele. Vezes há que, sem sabermos explicar nem a nós próprios, fixamos e ficamos obcecados por coisas insignificantes. Fiquei desiludida. Não sabia bem porquê, no fim de contas, não tinha a menor vontade de meter conversa com ele, não tinha nada a dizer-lhe, nem sequer o físico me tinha atraído para lhe oferecer sexo em última instância. Era mais do que evidente que a cena da noite anterior nada tinha a ver com ele, mas sim com tudo quanto eu tinha vivido nas últimas horas. Tive de reconhecer que sim, que qualquer coisa tinha tido a ver, mas a excitação dissipara-se assim que a mancha humana se transformara em pessoa física. Qualquer coisa, todavia, me levava a querer partilhar uns momentos da vida dele. Excepto a visão de uns vibradores «multicolores» gigantescos que só podiam servir de adornos, nada me unia a ele. Quem é que podia introduzir tais bestialidades? Não podia partilhar nada, somente roubar-lhe fragmentos da sua existência e reconhecer que eu era, como quase toda a gente, e ainda que me custe reconhecê-lo, uma mirone, uma verdadeira voyeuse.


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Quando o meu vizinho abandonou o local, segui-o de imediato para não lhe perder a pista. Atravessou a rua, evitando uns carros que iam a passar e eu fiz o mesmo. Houve um momento em que pensei que se tivesse apercebido da minha presença ou que pressentisse que estava a ser observado. Que diacho lhe iria eu dizer se ele desse meia volta e me perguntasse o que pretendia?


«Desculpe, mas ontem à noite pôs-se a masturbar-se em frente da minha janela, o que me excitou muito e também tive de masturbar-me. Por isso, decidi ver-lhe a cara depois de ter conhecido previamente o seu honorável membro.»
«Sayonara, senhor ninguém-san. Nunca imaginaria que com um falo assim, o senhor pudesse ter essa cara. Desculpe, foi pura curiosidade da minha parte.»
Enquanto pensava na frase que podia dizer, o desconhecido aproximou-se de um caixote do lixo, deitou fora o livro que o acompanhara até ali, deu meia volta e foi-se embora.
Por que atiraria o livro para o lixo, à noite, logo a seguir a ter saído da sex-shop? Agora, já não era o meu vizinho que me interessava, mas sim as suas leituras. Talvez, fora os nossos espasmos, e o ter-lhe visto o pénis erecto, algo me pudesse unir a ele: os livros.
Enfiar a mão num caixote do lixo não era precisamente o que mais me apetecia na altura, mas tinha de perceber a razão pela qual o meu vizinho anónimo se desfizera do livro. com suma delicadeza para não tocar na porcaria que outros haviam depositado, levantei a tampa de lata e, com muita dificuldade, consegui tirá-lo.
Era um catálogo. - -
Um catálogo de venda por correspondência, com uma página dobrada no sítio onde parara de ler.
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Um mísero catálogo de venda de lingerie feminina a domicílio...


Senti-me terrivelmente defraudada. Aquele tipo masturbava-se com um catálogo de mulheres encafuadas em veneráveis cintas apertadíssimas e soutiens adaptados a peitos que ultrapassavam o tamanho cem, copa C?
Não era pois de espantar que eu não lhe tivesse chamado a atenção. Não era o tipo dele, nem pouco mais ou menos. Era mais lisa do que uma tábua de passar a ferro.
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MIMI
Mimi e eu conhecemo-nos na Universidade de Estrasburgo, no primeiro ano, quando todos pensávamos, convencidos pelos pais, que estudar era o melhor que podíamos fazer. Eu escolhera umas aulas de História Contemporânea como cadeira de opção, porque o professor tinha fama de ser divertido e costumava ilustrar as aulas imitando a tomada da Bastilha, em cima da secretária e gritando como um carroceiro.
Mimi era de Toamasina, antigamente chamada Tamatare, o porto principal de Madagáscar, na costa Leste do país, a nordeste de Antananarivo. A mãe era oriunda de Mayotte, a ilha francesa do arquipélago das Comores, terra do yling-yling e da baunilha, e mudara-se para Toamasina para trabalhar. Ali se casara com um rapaz muito trabalhador, mas de condição humilde. Do casamento tinham nascido cinco filhos, dos quais Mimi era a mais velha.
Se bem que andássemos em cursos diferentes, ela também frequentava as aulas de História Contemporânea. Não porque quisesse aprender muito ou por puro interesse pela história, mas por causa das excentricidades do professor. As mesmas razões que me haviam levado a frequentar as ditas aulas,
Era dessas raparigas que parecem sempre tristes, mas nem por isso menos bonita. Não, não era feia, pelo contrário. Era
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uma morenaça de cabelo compridíssimo e cintura de vespa, sempre com uns jeans desbotados. A sua misteriosa beleza contrastava com a negligência do vestuário, mas ainda assim era das raparigas que mais desejos despertava em toda a universidade. Mas Mimi estava-se nas tintas para os rapazes. Queria ser advogada. Percebi logo que não tinha namorado, não porque a ânsia de estudar a impedisse de ter tempo para sair com alguém. A razão era outra.


Passámos o primeiro ano quase sempre juntas, desenhando o professor a fazer mímica e a lutar com os outros professores, que não conseguiam que os alunos se concentrassem porque ele armava demasiada barraca.
No segundo ano, Mimi deixou o bairro mal afamado em que vivia para se mudar para um muito pior no centro de Paris.
Eu continuei a estudar em Estrasburgo, mas mantivemo-nos em contacto. Um dia anunciou-me que abandonara os estudos porque conseguira um trabalho que lhe ia permitir sustentar a família lá no seu país. ; . .
Escrevíamo-nos todos os meses e eu perguntava-lhe sempre se já tinha arranjado namorado. Paris era uma cidade grande na qual não faltavam oportunidades de arranjar par. Respondia-me sempre a mesma coisa.
- Sabes perfeitamente por que não tenho namorado, portanto deixa de me fazer perguntas estúpidas.
Eu não sabia coisa alguma, nem ela deixava entrever nada, e era pois muito difícil, quase impossível descobrir fosse o que fosse. Mimi podia ser tudo, menos isso. Não era do género, nem pouco mais ou menos. Não era essa a imagem que tinha dela, pronto. O que só prova que os preconceitos não servem para nada.
Enfim, a única vez que me apercebi foi quando passei um
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fim-de-semana em casa dela. Naquele dia soltou-se um pouco, mas perante a minha recusa voltou a meter-se na concha e nunca mais tocámos no assunto. Era mais tabu para ela do que para mim. Fartei-me de lhe perguntar se, considerando-me a sua melhor amiga, não queria falar daquilo. Sem rodeios. Talvez conseguisse que se sentisse melhor. Partilhar coisas íntimas com a pessoa com quem temos a maior confiança até podia ser muito gratificante. Mas negava-se sempre.


- Sabes que eu aceito tudo, Mimi.
- Sim, mas não és precisamente a pessoa com quem devo falar disso. Sabes perfeitamente porquê. Não insistas.
Mimi foi a primeira pessoa que informei da minha chegada em Julho de 1995.
Recebeu-me de rolos na cabeça e com uma asquerosa máscara facial verde de pepino. Atirou-me dois beijos de longe para não me sujar a cara e convidou-me a entrar no apartamento decorado com gosto, e móveis de vime.
Mimi trabalhava à noite, como empregada de um clube de troca de casais e preparava-se para ir trabalhar.
- Que tal Paris?
- Logo no primeiro dia conheci um rapaz.
- Um rapaz? - exclamou, da kitchenette onde preparava o café. - E como foi isso?
- Pura coincidência.
E contei-lhe a anedota do Édouard, cuja existência já conhecia, o encontro com Pipo e a pouca (quase nula) assistência às aulas de japonês.
- É um rapaz um bocado esquisito, mas há qualquer coisa nele que me atrai muito.
- Sim. Estou a ver. Sempre o mesmo. O típico com ar de machão. Não há nenhum homem normal, francamente? - Mexia nervosamente a colher na chávena de café.
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- Agrada-me, mais nada. Não sei se sente alguma atracção por mim. Tem um comportamento esquisito.


- Foste para a cama com ele?
: - Não, não. De maneira nenhuma.
- Que estranho! Os tipos costumam agir assim e fazerem-se de esquisitos depois de terem ido para a cama connosco. Normal. Já não lhes interessa, sabes? Enfim…
Soprou o líquido que estava demasiado quente para ser bebido.
- Nem sequer mo propôs. :,.,,.
Notei que estava a ficar com ciúmes. Para disfarçar enfiou dois dedos na máscara para ver se estava a endurecer.
- É curioso, mas tentou fazer-me descobrir todos os sítios depravados da cidade.
- Que queres dizer com «depravados?”
- Isso mesmo, leva-me a clubes desses, orgias…
- Mas que grande cabrão! Os homens são um nojo. Não vês que anda a usar-te? Na maior parte desses sítios, um homem sozinho não pode entrar. Tem de estar acompanhado. Estou a falar com conhecimento de causa. Estou a perceber por que te leva com ele.
-Talvez se sinta sozinho, não? Contou-me que tinha tido uma namorada durante quatro anos. Não sei o que aconteceu. Não quis contar-me mais nada. Mas parece não haver ninguém na vida dele. ,
- Vá lá saber-se se é verdade o que te contou! .>
E começou com o eterno discurso que eu já sabia de cor.
- Para que servem os homens? A sério, pensa bem. Além de te foderem quando lhes dá na real gana e de te porem os cornos sempre que podem, para que servem?
Ela própria me forneceu a resposta que eu já conhecia. ,- Para nada! São parasitas num mundo que é e será das
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mulheres. São como embrulhos postais armadilhados de que temos de nos desfazer o mais depressa possível.


Acabou o café envolvendo a chávena na mão. Reparei que dois dos seus dedos ainda tinham restos da máscara verde. Encheu as bochechas ao sentir o líquido quente na boca, fez uma careta e acrescentou:
- Não servem para nada, Vai. Um dia hás-de perceber isso. Continuava a fumar cigarros finos de mentol. Pôs um entre os lábios com dificuldade, porque a máscara já lhe endurecera a pele.
- E se te tira o sono ser mãe, até temos a reprodução assistida. Vês como já não nos servem para nada? E além disso, em matéria sexual, nós somos muito melhores.
De ano para ano, o discurso contra o «sexo forte» tinha vindo a tornar-se mais duro. Mas no fundo, não era um pouco assim que gostávamos de ver os homens? Verdugos sempre dos nossos males e, a maior parte das vezes, incapazes de nos fazer gozar. Não éramos nós que tínhamos a culpa, devido à nossa educação, à nossa maneira de agir?
Todos, sempre erectos, ao mínimo estímulo, com o pénis ameaçador e em riste. Todos eles gostavam de furar a nossa ratinha como se fossem brocas. Era verdadeiramente uma imagem patética?
Mimi prosseguia no seu acalorado discurso. Os homens, quando envelheciam, tornavam-se ainda mais nojentos. Em compensação, uma velhinha, que ternura olhar para uma velhinha! Era tranquilizante. Têm sempre um instinto maternal à flor da pele. Até com oitenta anos. Uma avozinha, para os netos, é sempre uma segunda mãe experimentada. Em contrapartida, o homem, aos oitenta, só sabe babar-se asquerosamente diante das batas brancas das enfermeiras.
- Olha para a minha mãe. Trabalha num hospital geriátrico,
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coitada, e sabes? Esses velhos, quando lhes dão banho, ficam todos excitados quando os ensaboam. Sim, sim, é como te digo!


Tinha cada vez mais dificuldade em abrir a boca. - Deviam ser todos objecto de eutanásia a partir de certa idade. Alguma vez viste uma coisa destas numa mulher? Não, não é verdade? É só javardos!
- Também não exageres, Mimi! Essa da eutanásia é um bocado forte! , -
- Ora! Era um grande favor que lhes fazíamos, libertando-os desse corpo que só serve para o vício. Sofrem, sabes, eles sofrem com isso, mas não querem reconhecer. Alguma vez viste uma mulher com dores nos testículos? Não, não é verdade?
- Dores de ovários, sim, Mimi. No fundo, não sei o que seja melhor.
- Mas as nossas dores são diferentes, não têm nada a ver com a cópula. O nosso corpo ovula, e pronto. Eles querem é enfiar e ponto final. Só pensam nisso.
Acabou o café de um gole.
- Vou tirar esta porcaria. Tu, estás em tua casa. Arruma as tuas coisas no quarto. Afasta os bonecos de peluche sem problemas. Tenho centenas em cima da cama. E não esperes por mim hoje à noite, que venho tarde.
Mimi coleccionava bonecos de peluche em vez de homens. Tínhamos que dormir na mesma cama daquele andar minúsculo de casa de bonecas.
Quando me deitei, depois de a Mimi sair para o trabalho, o espaço do quarto abriu-se e converteu-se numa imensa planície escura, sem delimitações físicas, num horizonte sem linha. Não conseguia dormir. Mudar duas vezes de cama em poucos dias era chato e estava, às escuras, de olhos abertos, concentrada no tique-taque de um despertador mecânico que parecia embater nas paredes fazendo eco. Mentalmente, invadira o espaço
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aberto e, ao fim de algum tempo, deixei de conseguir determinar de onde partia a cadência daqueles ponteiros inexoráveis.


Voltei a fixar mentalmente a mesinha de cabeceira onde estava o despertador, à direita da cama. O tiquetaque transformou-se no gorjeio de uns pintarroxos a balançarem-se nos ramos de um álamo branco, ao lado de uma estrada de terra que levava a uma casinha azul, azul-marinho, azul-felicidade. Pipo e eu fazíamos amor, o rosto dele sorria-me, e eu chorava de felicidade. Dizia-me «vou fazer-te gozar outra vez, com a ponta dos dedos», e eu abria-me cada vez mais, e ele carregava um pouco com o indicador, fazendo-o girar de vez em quando, «não te mexas, mexo-me eu por ti», assim até tremer de prazer, e suspirava e dizia-lhe «agora com dois dedos» e vinha-me amplamente e encolhia-me nos braços dele e fazia-lhe festas no cabelo, os pintarroxos calavam-se e os ramos do álamo branco inclinavam-se ligeiramente perante uma aragem de suspiros e de felicidade, e segurava-lhe o sexo com a boca, e ele dizia-me «não, agora não, fazes-me cócegas», e ficava duro na minha boca, e deixava de rir e começava a gemer e eu apertava com força a base da glande com os lábios, de forma intermitente, «assim venho-me num instante», «vem-te», «não, ainda não», «quero eu», «porquê?», «porque te amo».
Abri os olhos húmidos, perturbada com a deslocação de ar produzida pelos lençóis ao caírem do outro lado da cama. Voltei-me e vi a nudez das costas de Mimi, fluorescente, muito branquinha. Amanhecia. Um pequeno velo escuro nascia-lhe na raiz do pescoço, mesmo onde acabava o cabelo que afastara para o lado, numa massa despenteada, achatada contra a almofada.
Via esse tufo suave, podia até acariciá-lo a contrapelo. Fiz uma tentativa para aproximar a minha mão do pescoço dela, não queria acordá-la. O meu braço ficou a poucos centímetros do corpo dela, a sentir a fogueira da sua pele.
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Fechei novamente os olhos. Pipo e eu fazíamos amor diante de um público de lebres selvagens que aspiravam o odor da erva do jardim, algumas davam uns saltinhos assustados com os nossos gemidos repentinos, seguidos de longos silêncios. O céu azul estava baixo, parecia uma prensa, ameaçava esborrachar-nos como vulgares insectos cujos bocadinhos despedaçados iriam parar à erva, ao lado das lebres que mastigariam as nossas patitas esquartejadas.


Os bichinhos engordavam a uma velocidade recorde e devoravam possessos todas as casas que se encontravam no caminho, criando cada vez mais sombras na planície.
Era assim a vida. Momentos de felicidade obscurecidos por desgraças quando se estava no mais alto dos júbilos. Uma lebre gigante que nos esventra com as suas pequenas garras afiadas. Alice no país das desgraças.
Pus-me a pensar em Isabelle, a ex-namorada de Pipo. Tinha a sensação de que, onde quer que fosse com Pipo, por muita felicidade que pudesse viver com ele, íamos ser infelizes. Porque a infelicidade magoa ainda mais quando se é feliz. Não íamos encaixar bem os momentos terríveis. Um estado neutro era melhor. Não conhecendo a euforia da felicidade, o contraponto dos momentos de alegria não podia ser tão horrível.
Talvez fosse preferível ser desgraçada toda a vida. Talvez. Assim, a infelicidade não me apanhava de surpresa.
O corpo de Mimi e o meu estavam estendidos, separados por uns bonecos de peluche e um coelhinho cor-de-rosa que não tinha nem pouco mais ou menos o ar ameaçador das minhas deambulações imaginárias.
Mimi respirava com força e o seu diafragma movia suavemente, de vez em quando, as vértebras proeminentes da suas costas descarnadas e frágeis. Via-lhe a pele delicada, o cabelo sensível. Passava sempre o pente com delicadeza pela farta cabeleira.
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Estremeceu um instante, o meu olhar era como uma carícia roubada. Provavelmente, sonhava. Mas seriam os seus sonhos serenos e plácidos? Ou sofria, como eu, do insuportável que a existência é?


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SEXO NA CIDADE



Lê sexe est peut-être la seule forme, pitoyable ou non, que nous avons trouvé pour dire quelque chose de l’amour.

Pierre Mérot, Mammijères




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