Paris à noite livros di hoje valérie Tasso paris à noite



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PIPO
Pipo tinha nascido em França, de pais argelinos, oriundos de Sidi Bei Abbès, a sul de Orán, numa zona fértil, ocupada pela Legião Estrangeira francesa até 1962. Era baixo, mas com a compleição forte de um moço de fretes; e era sobretudo muito convencido. Nunca conseguia sair de casa sem o eterno perfume exótico, misto de baunilha e canela, e o cabelo impecavelmente penteado e luzidio.
Vivia sozinho num apartamento de três divisões num bairro problemático, a nordeste de Paris, e trabalhava como taxista de dia. A sua vida resumia-se a trabalhar, e depois, a passear por uma Paris proibida, uma Paris só para os olhos dele. [
Pipo era um solitário. Eu também. A minha solidão pesava toneladas, aguentava-a mal. Partilhar coisas com Pipo era romper, talvez de forma ilusória, com uma solidão que já tínhamos há demasiado tempo incrustada nas nossas entranhas. Duas almas solitárias que se unem acentuam um mal, porque uma vê na outra o reflexo da sua própria realidade.
Quando começámos a deambular como espectros abandonados entre a vida e a morte numa Paris selvagem, o nosso destino tornou-se um caminho espinhoso; mas nenhum de nós tinha consciência disso.
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Começou a cair uma chuva miudinha. No Verão era normal, e pus-me a chamar os táxis desesperadamente. Queria afastar-me daquele hotel e daquele bairro quanto antes.


O Mercedes fez uma travagem brusca. E ali o vi, quando saiu do carro com cara de querer passar por cima de quem se atrevera a impedir-lhe a passagem, com vontade de dar uma bronca monumental com os curiosos que tinham parado quando tinham ouvido o chiar dos pneus.
A cara de fúria era aterradora. Usava uns jeans bastante apertados, mocassins pretos, t-shirt branca; à volta do pescoço, um fio de couro prendia um trevo de quatro folhas colado a uma maçã-de-adão proeminente. Tinha o cabelo muito curto e a pele era dourada, os olhos, verdes muito claros, tão incandescentes que absorveram imediatamente os meus quando ergui a vista. Voltei a baixá-la para olhar para o trevo.
- Um trevo de quatro folhas! - exclamei, entusiasmada. Olhou para mim, desconcertado.
- Que raio é que lhe passou pela cabeça para parar um táxi no meio da rua? É doida ou quê?
- Perdão, desculpe - respondi. - bom, é que... olhe... vivo em Espanha e ali estou habituada a mandar parar os táxis no meio da...
- Aqui não estamos em Espanha, estamos em Paris - interrompeu-me com firmeza. - E em Paris, os táxis apanham-se nas praças de táxis, entendido?
Tentava ter um sotaque muito parisiense, mas não conseguia esconder a melodia faiscante, própria de alguém que cresceu no Sul. Ainda assim, tentava ter um ar snob ao falar, coisa que a mim não me acontecia, já que vivia há tantos anos fora da minha terra que considerava que falava um francês perfeito e puro, sem nenhum sotaque regional.
- bom, desculpe – reiterei.
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E acrescentei.


- Então, para apanhar um táxi, que tenho de fazer? A que praça devo dirigir-me? Diga-me você que é daqui.
Sem que esperasse, largou:
- bom, venha daí, entre! -
Abriu-me a porta de trás mas eu, hesitando um pouco, entrei para a frente, para o lado dele.
- Não vai fazer-me mal, pois não? - perguntei-lhe, quando ele arrancou com o táxi.
Lembrei-me de repente da cena do filme da noite anterior, quando o taxista matava uma mulher num parque de estacionamento.
- Que parvoíce é essa? - perguntou friamente. - Sou um argelino nascido em França, não um serial killer - acrescentou, como se esta explicação fosse convincente.
Olhou para mim várias vezes. Os olhos dele brilhavam de raiva. Senti-me estranha.
- bom, vai dizer-me onde quer ir, ou não?
- Como se chama?
- Pipo. Mas, onde quer que a leve? Não tenho a noite toda.
- Trabalha de noite?
- Não, precisamente. Trabalho de dia e o meu dia já acabou. Bom, ou se apeia ou me diz de uma vez por todas onde quer ir.
- Deixe-me na praça Blanche.
- Chiça! Que raio de bairro! Um pouco movimentado à noite, não?
Colocou uma cassete do Freddie Mercury, e pôs-se a entoar a canção.
- Só vou ficar uns dias nesse bairro. Depois vou para casa de uma amiga.
- E que faz aqui? Não parece ser de Paris. Anda à procura de trabalho?
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- Não. Vivo em Barcelona. Estou aqui para fazer um curso de japonês. Vou ficar um mês e depois volto para Espanha.


- Chiça, saiu-me uma intelectual! Era só o que me faltava!
- Não sou nenhuma intelectual. Só estudo japonês.
- E vem de Espanha? - começou a interessar-se. - Há uns anos, fui a Ibiza com uns amigos. Não lhe conto as festas que organizámos. Conhece Ibiza?
- Sim, claro. E o Pipo, conhece Espanha, fora Ibiza?
- Não, nem me interessa. Só estou interessado em Ibiza, para curtir.
- E o seu nome?
Parou num semáforo e olhou para mim.
- Que é que tem o meu nome? ; , - O seu nome não é nome. É um diminutivo, não é? ;
- O meu nome é Pipo, ponto final.
- Um argelino chamado Pipo, esquisito, não? Emendou o tema com um «E quem é que estuda japonês?»
e não voltou a dizer mais nada acerca do assunto. Não parecia ter gostado lá muito do meu comentário.
Deixou-me na pensão, que estava mesmo em frente de La Loca, uma das discotecas mais famosas de Paris. Paguei a corrida e quando lhe ia a agradecer ter-me levado, estendeu-me um cartão.
- Se quiser sair uma noite destas, conheço a cidade melhor do que ninguém. Telefone-me. Estou livre a partir das nove.
Peguei no cartão sem grande convicção e guardei-o no bolso. Achei estranho e interroguei-me a que se deveria a repentina mudança de comportamento.
Como uma fugitiva cheguei à recepção da minha humilde pensão. Não soube onde ir depois de deixar Édouard e o meu passado na casa de banho. Cheguei ali num táxi que percorreu meia cidade sem que me desse conta, em busca de auxílio ou,
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simplesmente, de um pouco de ar. Como quem procura um lar ou um olhar límpido. Tentando reconhecer alguém para me reconhecer a mim mesma,

Yamal dormitava. Ao ver-me pôs-se de pé imediatamente, firme como um militar. Pigarreou, fingindo que estava a trabalhar. Olhei para ele e tive a sensação de que queria entabular conversa comigo, quando até à data tinha sido eu a ter que sacar-lhe as palavras.
A noite de Paris tornava amável qualquer um. ’
Parei na escada e disse-lhe muito séria: «Acabo de matar uma pessoa, não olhe para mim assim.» O rosto dele permaneceu impassível ainda que franzisse ligeiramente o sobrolho. Eu estava decepcionada porque na realidade não tinha morto ninguém. Acabava simplesmente de suicidar a rapariguinha de quinze anos que ainda dormia dentro de mim.
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A MANCHA NEGRA
No quarto, abri as cortinas de um dos lados da janela para tentar ver o carro de Pipo afastar-se na noite parisiense. Mas já lá não estava. Atirei-me para cima da cama, peguei num livro de Yuko Mishima, e pus-me a ler.
Não conseguia concentrar-me. Fechei o livro e coloquei-me novamente diante da janela. E lá estava outra vez a «mancha». Uma silhueta materializada num homem com uma t-shirt com desenhos. Havia menos forrobodó nessa noite, e fixei os olhos naquela sombra; de repente, julguei perceber que tinha dado por mim.
Desapareceu logo e ao fim de uns minutos regressou com uma cadeira na mão, depositando-a em frente da janela e fazendo uma coisa surpreendente. Sentou-se, abriu um frasquinho que trazia na mão e a seguir deitou o líquido num algodão ou numa gaze. Baixou as calças, puxou do membro e começou a masturbar-se com aquele trapito impregnado de um líquido curioso que parecia Betadine.
Não queria acreditar no que estava a ver. Era evidente que me tinha descoberto.
Ao fim de uns minutos, um espasmo fê-lo estremecer porque flectiu levemente as pernas e as costas descaíram para trás.
O espasmo dele atravessou a rua e alcançou o meu, quando
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a excitação me surpreendeu, quando a minha respiração começou a ficar ofegante e as minhas coxas a contraírem-se. O contacto das minhas mãos com o meu sexo era um convite a rebobinar muitas imagens vividas numa única noite: uma tenda de campismo, a casa de banho de um hotel de luxo, uns olhos verdes reflectidos no retrovisor de um táxi, um árabe de olhar inquisidor na recepção de uma pensão, uma mancha negra procedente de um homem que se tinha vindo, sabendo que eu o espreitava...


O meu espasmo também atravessou a rua e alcançou-o.
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ENCONTRO MARCADO
No dia seguinte, desci para o pequeno-almoço rigorosamente vestida de luto para ir à minha primeira aula de japonês. Curiosa contradição para mergulhar no país do Sol Nascente, onde os enterros se celebram de branco.
- Ouve! - interpelou-me Yamal quando me viu. - Era a sério o que me disseste ontem à noite?
Não sabia a que se referia. À noite?
- Não mataste ninguém, pois não?
Tinha decidido tratar-me por tu sem pedir licença, como se ser cúmplice indirecto de um suposto homicídio lhe desse esse direito. Optei por fazer o mesmo.
- Era uma piada, Yamal. Ontem bebi de mais. Não te preocupes,
Olhou para mim, desconfiado.
- Raio de piada! Saíste-me uma rapariga muito esquisita... E despediu-se de mim para deixar o lugar a uma rapariga bonita, de ar febril e tímido, que era a recepcionista de dia.
Acabei rapidamente o café com leite e saí a toque de caixa para a minha primeira aula de japonês. Ia chegar atrasada.
Quando voltei no final do dia, a rapariga bonita da recepção entregou-me um papelinho dobrado. Era uma mensagem.
- Telefonou esta tarde um senhor de nome Pipo. Disse que
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voltava a telefonar. Tive dificuldade em perceber que queria falar com a senhora, porque me disse que não sabia o seu nome, mas adivinhei pela descrição que ele fez.


Estava realmente orgulhosa da sua eficácia profissional.
Não dei tempo para que Pipo voltasse a manifestar-se. Procurei o cartão e marquei o número. ,
- Sou a intelectual, a das aulas de japonês.
- Telefonei-lhe esta tarde. Mas como não me disse como se chamava, tive de dar alguns detalhes de que me lembrava.
- Também não perguntou. Chamo-me Valérie, Vai para os amigos.
Combinámos em frente da minha pensão às oito e meia para ir beber um aperitivo, num barzinho de uns amigos dele. Chegou pontualmente e levou-me ao bar Chez Jojo que frequentava há vários anos. Costumava ir beber um copo ali, depois do trabalho, antes de ir jantar.
Não me pareceu mais amável do que na véspera. Tinha o mesmo ar triste, como se lhe tivessem gravado no rosto uma máscara do Carnaval de Veneza. Quando lhe perguntei o motivo do telefonema e porque havia querido voltar a ver-me, não me deu qualquer resposta concreta. Parecia sempre evasivo, talvez porque quisesse comportar-se como teria gostado que eu me portasse com ele. Ou talvez porque tivesse qualquer coisa a esconder. Porque ele tinha um segredo.
Apesar de não me ter dado qualquer tipo de explicação, penso que o seu primeiro motivo para me levar a passear por Paris inteira foi quando lhe disse que era uma pessoa inquieta e que já quase nada me podia admirar. Confessei-lhe que invejava a capacidade de surpreender os outros que certas pessoas conseguem ter. E Pipo considerou isso um repto pessoal.
Julguei de facto que tivesse sido esse o motivo. Talvez fosse, durante uma fracção de segundo assim o pensei, mas a verda-
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deira razão que o impeliu a levar-me com ele a todas as suas saídas nocturnas era muito diferente.


Naquela noite, no Chez Jojo, quase não abri a boca. Ele falou-me longamente da ex-namorada, Isabelle.
Tinham-se conhecido da maneira mais estúpida e convencional. Nos copos com amigos e a dizer parvoíces às raparigas. Isabelle estava com duas amigas e o normal era que viesse a ser mais uma presa na noite de Pipo.
-Danças?
- Não.
Logo a seguir, vendo que as amigas iam dançar com os amigos de Pipo, rectificou:
- Queria dizer por que não.
Pipo encostou-se a ela; Isabelle respirava o seu perfume a baunilha e canela. Agarrou-a firmemente pela cintura, levantando-lhe sem querer a saia. Notara o elástico das cuequinhas de algodão e tinha-se posto a acariciá-lo com um dedo. A sua intensa respiração no ouvido de Isabelle parecia causar o efeito desejado. Uma vez terminada a música, continuaram no meio da pista e do fumo branco que um DJ de mau gosto havia lançado para anunciar a próxima canção que prometia ter mais ritmo,
- Queres um copo?
- Por que não?
Rapidamente Isabelle se juntou às amigas que riam infantilmente, ao mesmo tempo que Pipo tentava afastar às cotoveladas todos quantos não tinham conseguido uma mesa, como ele, e se tinham refugiado ao balcão.
- Podemos voltar a ver-nos?
- Por que não?
Conversaram um bocado, enquanto os amigos se atracavam
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literalmente às duas amigas. Ele não. Nessa altura, Pipo era mais tímido. Nessa noite tinha sido muito correcto porque tinha gostado muito de Isabelle. Além disso, não falava muito. Era perfeita.


No final da noite, fez de motorista das amigas de Isabelle para ficar bem visto e ao som da música dos Queen - We Are the Champions - deixou-a em casa.
- Posso beijar-te? – perguntou Isabelle.
- Por que não?
Arrancou depois de modo triunfal deixando Isabelle com o sabor dos lábios dele na boca.
Isto ocorrera cinco anos antes.
A princípio, cada um vivia na sua própria casa. Ela num andar, em Evry, nos arredores de Paris, com um yorkshire insuportável que não parava de ladrar sempre que o vizinho regressava bêbado a casa. E ele no apartamento de sempre. Mas em breve a química interveio e Pipo acabou por aceitar o yorkshire.
- E o que lhe aconteceu a ela? - perguntei, interessada na história.
-Já te conto. , ,
Eu queria conhecer Paris toda. Além disso, nunca tinha tido oportunidade de passar muito tempo seguido na capital.
Queria saber o nome de cada um dos transeuntes com quem me cruzava no metro ou na rua. Tentava adivinhar os nomes que podiam ter, até mesmo a sua profissão, pela cara que tinham.
Por isso aceitei sair novamente com Pipo quando me voltou a telefonar.
Curiosamente, ele tinha sido a única pessoa a quem não tinha conseguido dar um nome. Ou talvez o tivesse feito e me tivesse enganado redondamente. Pipo, para mim, podia perfeitamente ter-se chamado Fahrid e ser, por exemplo, pedreiro.
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- A quem raios passa pela cabeça estudar japonês? Não te vai servir para nada. A não ser que queiras ser gueixa.


- O que mais me fascina na sociedade japonesa é aquela arte de fazer hara-kiri. Tu não tinhas tomates para te estripares daquela forma, apesar dos teus ares de guerreiro, pois não, Pipo?
- Como é que sabes? A ver se é verdade que tens os tomates que dizes que tens.
Pipo agradava-me. com ele estava muito bem no meu papel de fêmea tonta, à espera de ser dominada por um tipo armado em machão. Já tinha perdido a mania do meu discurso reivindicativo da igualdade dos sexos e do meu carácter de mulher que dominava sempre qualquer tipo de situação. Num semáforo, Pipo pôs-se a olhar com ar divertido para um tipo que atravessava lentamente a passagem de peões. Parecia ter bebido muito e balançava perigosamente de um lado para o outro. Pipo gritou de repente:
- Olha-me este! Tem cara de se chamar Georges. Aposto que trabalha num escritório das oito às seis, numa estação de Correios. Solteiro e com uma vida chata. Os funcionários têm vidas sem sentido. Por isso se embebedam quando saem do trabalho. Um bocado como os teus japoneses.
Os meus japoneses? Não entendia o que ele queria dizer; de qualquer modo, fiquei sem fala. Os lábios dele à noite, à luz da rua, eram arroxeados, roçando o azul «forense»; eu, ao vê-los, morria de vontade de beijar aquela boca glacial.
-Tu também dás nomes a caras desconhecidas? ?;
Não respondeu. Continuei:
- Sabes que eu também faço isso? É incrível, não é? Faço isso sobretudo no metro, no comboio, quando não tenho nada melhor para fazer. Desde pequena.
Continuou sem me responder. Em vez disso, arrancou
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quando o semáforo ficou verde, virando um pouco o volante para não atropelar o suposto Georges que continuava ainda no meio da passagem, erguendo os braços e insultando-nos. Pipo meteu directamente a terceira e os lábios dele ficaram de repente de um dourado de tons quentes.


Começou a chover. Encostei o nariz ao vidro e pus-me a olhar através das gotas de água a luz difusa dos faróis. Só se ouvia o ruído do limpa-pára-brisas que tinha uma cadência regular, como o ruído das rodas de um comboio.
- Onde estamos?
- Perto do Pont Neuf - disse.
A resposta dele trouxe-me à memória a actriz Juliette Binoche, a protagonista de Os Amantes do Pont Neuf com Denis Lavant. Gosto muito da Juliette Binoche. Vi todos os filmes dela, e comoveu-me imenso a trilogia de Krzystztof Kieslowski. Mas gostei particularmente do primeiro filme, Azul, porque era nesse que ela aparecia. Até comprei a banda sonora.
- De certeza que te lembras como eram os amantes do Pont Neuf?
Ficou pensativo um instante e disse, seguro de se: Eram cegos.
- Isso, cegos. Como eu, de noite em Paris, que me sinto cega e usufruo duplamente do ambiente desta cidade. Pipo, não quero voltar a ver nunca mais.
Tinha ficado subitamente muito romântica e pirosa. Pipo sentiu-se incomodado. Voltei a colar o nariz à janela. O vidro estava húmido e fresco e comecei a vislumbrar silhuetas esquisitas, como fantasmas, que se dirigiam para o Pont Neuf apesar da chuva torrencial que caía.
- Lá estão eles! – sussurrei.
Mas Pipo não tinha muita vontade nem de falar nem de ver.
Virou para uma pequena rua e explicou-me que acabara
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de ter uma ideia. Queria mostrar-me um sítio que me iria surpreender. Ali, as pessoas falavam pouco. E era difícil dar nomes às caras, entre outras coisas porque não tinham rosto.


- O quê?
- Já vais ver.
- Que tipo de lugar é esse? - perguntei, curiosa, e um pouco nervosa.
Mas, em vez de dar-me explicações, perguntou-me de forma autoritária:
- Apetece-te ir ou não? Não me disseste que eras uma mulher que já não se surpreendia com coisa nenhuma?
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GANG-BANG CONNECTION
No murmúrio de vozes que se concentravam à minha volta podia ouvir todas as conversas. Os meus ouvidos moviam-se a uma velocidade recorde, talvez porque era tudo tão novo para mim que queria saber tudo, entender tudo e ver tudo.
- Gosto do rabo que tenho nas mãos.
- Se gemer, é porque gosta, não?
- Continua assim, não pares.
Tive dúvidas de que estas conversas ou estes pensamentos, que não eram meus mas das pessoas à minha volta, fossem certos; mas queria entrar neles.
Pipo parecia estar no seu ambiente; não se tinha cortado no momento de tirar a roupa à entrada daquele sítio escuro e de pôr a mascarilha que lhe estendera a relações públicas, uma mulher com uma mini-saia preta exageradamente «mini». Era o regulamento. Nada de roupa, nada do exterior entrava, absolutamente nada, excepto nós próprios completamente em pelota, com a mascarilha posta. Ninguém se devia reconhecer.
Mas por mais mascarilha que uma pessoa pusesse, um traseiro era único.
Admito que, num primeiro momento, tive certas reticências em abrir o fecho da minha saia mas, quando vi que o Pipo se
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movia como peixe na água, animei-me, talvez mais para lhe agradar a ele do que a mim, e imitei-o.


- Olha para esta, tem as clavículas muito saídas. Isso excita-me mais do que umas boas mamas.
Mesmo não querendo, as frases entravam-me pelos ouvidos dentro, fazendo com que os meus sentidos se abrissem por completo.
No meio de uma enorme sala estava uma mesa redonda com uma toalha vermelha e uma fonte com fruta variada: uvas, maçãs, pêras e uma ou outra fruta tropical. ,; , :.,::
As pessoas deambulavam e de vez em quando pegavam num bago de uva que mordiam com força. A polpa suave do fruto segregava um suco doce, compacto e suave ao paladar. Eu seguia a trajectória daquele bago. Era essa a minha maneira de saborear. Mas desconhecia o prazer que aquelas pessoas sentiam. Talvez o meu «doce» fosse mais doce para elas. Talvez o azedo da polpa fosse menos ácido para aquele homem de tronco forte. E aquela senhora de peito caído e pele de laranja nas nádegas talvez não suportasse comer uvas por terem grainhas demasiado grossas para a sua garganta. A sua boquinha de cu de galinha, porém, abria-se sem dificuldade nem resistência ao pénis que se aproximava dela.
Não me queria separar de Pipo nem um minuto. De facto, estava literalmente colada a ele.
- Este sítio lembra-me as bacanais gregas, o que queres que te diga? - murmurei-lhe ao ouvido.
- Porquê?
- Por causa daquela fruta toda exposta. É um círculo privado, não é?
- Sim, claro.
- E como é que conheces este tipo de lugar?
- Em vinte anos de trabalho como taxista, conhece-se tudo nesta cidade. .....…..
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As pessoas olhavam muito para mim. Sabia que não me podiam ver a cara, mas era evidente que era nova naquele lugar. Sempre considerei que tinha um rabo bonito.


Pipo pegou-me na mão e levou-me para outra divisão situada no final de um corredor comprido com quadros nas paredes, com buracos para mirones, ao melhor estilo de Kubrick.
- Anda, vou mostrar-te uma coisa.
No fim do corredor, a divisão tinha uma luz curiosa, com cortinas de pano branco penduradas do tecto, criando um labirinto de fibra que tínhamos que afastar com as mãos para abrir caminho.
- Vê como ela quer. Ela que abra mais as pernas!
As vozes pareciam indicar que mais qualquer coisa se estava a passar por detrás daquelas cortinas, uma coisa mais forte ainda do que eu podia imaginar. Pipo continuava a segurar-me na mão com firmeza, para evitar que nos separássemos no meio daquele puzzle de panos.
Quando Pipo afastou a última cortina, surgiu um grupo de pessoas a olhar para o centro do quarto. Eu não conseguia ver nada, a não ser traseiros amontoados, cabelos compridos e curtos, corpos pálidos e morenos, peludos e imberbes, carne musculosa ou peles flácidas, mãos que acariciavam os vizinhos e braços caídos ao longo do corpo. Pipo pediu licença para passar porque queria que eu participasse no que estava a acontecer naquele momento.
Sentia como era apalpada à medida que penetrava naquela multidão viciosa e por instinto esquivava-me como podia àquele exército de dedos.
De súbito, senti cócegas no estômago. Era a minha curiosidade insaciável que me empurrava para a frente; não podia fazer marcha atrás, por mais que quisesse. Não podia resistir àquela atracção.
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- É assim todas as sextas-feiras. Como um ritual - explicava-me Pipo ao ouvido, quando comecei a entender o que se passava. - Nos outros dias, este quarto está fechado ao público.


Ergueu-se diante de mim uma cama redonda enorme onde jazia uma mulher com a cara totalmente tapada por uma máscara (era a única que não usava a mascarilha obrigatória), penetrada por um jovem musculoso que, com as mãos debaixo das nádegas dela, a levantava bruscamente. Atrás dele, esperavam com paciência que chegasse a sua vez, de pénis na mão, uns dez homens arquejantes. Todos tinham a cara crispada pela excitação de serem os próximos a possuir aquele corpo desumanizado por aquela máscara de látex preto.
Tinha os mamilos espetados, a mulher, excitada não só pelo prazer que era proporcionado pelo jovem musculoso, mas também por ver que faziam bicha para a possuírem. Tantos pénis erectos para satisfazer a sua fantasia de ser uma mulher-objecto.
- Gostavas de estar no lugar dela? - perguntou-me novamente Pipo ao ouvido.
Sentia-me esquisita. A verdade é que a cena era muito excitante. O meu instinto animal manifestava-se em silêncio, como se estivesse diante de um filme pornográfico. Apertei um pouco mais a mão de Pipo. No fundo, o que ele queria dizer é que gostaria de me ver no lugar daquela mulher-objecto.
- Devo entender que é um «não». Então, continua a olhar e goza. Como eu - murmurou, sem desviar os olhos da cama redonda.
O jovem musculoso tinha-se vindo e havia dado o lugar a um homem fracote, de estômago caído mas cuja cadência parecia mais ritmada,
Os lençóis brancos da cama onde jazia a Bela Adormecida versão porno estavam impregnados de suor ou sémen: naquele


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