Paraíso Perdido John Milton



Baixar 2.93 Mb.
Página1/29
Encontro09.08.2019
Tamanho2.93 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   29

Paraíso Perdido - John Milton

Paraíso Perdido

John Milton (1608-1674)
Tradução

António José de Lima Leitão

(1787-1856)
Versão para eBook

eBooksBrasil


Fonte Digital

Digitalização do livro em papel

Volume XIII

Clássicos Jackson

W. M. Jackson Inc.,Rio, 1956

[Ortografia atualizada para o português do Brasil-Conservou-se a

métrica-Manteve-se o diacrítico do pretérito]
Capa

Satan before the Lord

Corrado Giaquinto (1703-1766)

Musei Vaticani, Vatican

fonte: Web Gallery of Art

www.wga.hu


© 2006 — John Milton

Índice


O Autor

O Tradutor

O PARAÍSO PERDIDO

Canto I


Canto II

Canto III

Canto IV

Canto V


Canto VI

Canto VII

Canto VIII

Canto IX


Canto X

Canto XI


Canto XII

Índice Remissivo

O Autor

John Milton nasceu em Londres em 1608. De 1620 a 1625, freqüentou a Saint



Paul’s School, depois o Christ’s College de Cambridge, laureando-se em 1632.

Tendo desistido de tomar votos, foi viver com seu abastado pai em Horton,

Buckinghamshire, período em que a leitura de Dante, Petrarca, Tasso e outros

clássicos foi de notável importância para seu crescimento cultural.

Mais ainda porque à leitura dos clássicos acrescentou o estudo de matemática,

de música e de composição poética.

Entre 1638 e 1639, viajou pela Itália, França e Suíça. Voltou à Inglaterra

frente à ameaça da guerra civil.

Dedicou-se ao ensino. Em 1642, aos 34 anos, casou-se com Mary Powell, de 17

anos. Ela o abandonou em um mês, retornando dois anos depois. Após a morte da

esposa, com 27 anos, em 1652, Milton voltou a contrair núpcias duas outras

vezes. Destas uniões nasceram 7 filhos. Apesar de tudo (ou por isso mesmo) o

poeta inglês tornou-se um convicto defensor do divórcio, chegando a escrever

uma apologia a ele em 1643.

Seu relacionamento com Hartlib e Comenius levou-o a escrever, em 1644, um

pequeno tratado sobre Educação, pugnando por uma reforma nas universidades

nacionais.

No mesmo ano lançou o mais popular de seus escritos em prosa, Areopagitica, um

Discurso pela Liberdade da Imprensa não Licenciada. Ou, para dizer mais

modernamente, contra o copyright.

Com a morte paterna, em 1646, tendo melhorado de condição econômica, Milton

abandonou o ensino.

Em 1649, apesar sério distúrbio visual que em três anos o levaria à completa

cegueira, Milton aceitou encargos públicos. Dedicou-se à defesa de Cromwell e

do puritanismo, compondo diversos escritos polêmicos.

Em 1658, iniciou a composição de seu Paraíso Perdido e dois anos mais tarde,

com a restauração, perseguido e tendo perdido boa parte de sua fortuna,

retirou-se à vida privada, dedicando-se à compilação de sua obra.

Morreu em Londres, em 1674.

Seu Paraíso Perdido (Lost Paradise), de 1667, é um dos clássicos da literatura

mundial. Inspirada na peça teatral Adamo Caduto, composta em 1647 pelo padre

Serafino della Salandra, foi retomada pelo autor em Paraíso Reconquistado

(Paradise Regained).

Cego e empobrecido, o autor do Areopagitica, por uma destas inexplicáveis

ironias da vida, vendeu o copyright do Paraíso Perdido, em 27 de Abril de

1667, por £10.

O Paraíso Perdido foi originalmente publicado em dez partes. A obra é redigida

em versos não rimados. Uma segunda edição, de 1674, foi reorganizada em doze

partes para assemelhar-se à Eneida de Virgílio e com revisões menores. É a que

ficou como padrão para as edições e traduções posteriores, inclusive esta de

Antônio José de Lima Leitão (na fonte digitalizada estava apenas António José

Lima Leitão, sem o de...), que preservou os decassílabos e os versos brancos.

O poema trata da visão cristã da origem do homem. Da rebelião e queda dos

anjos. Da criação de Adão e Eva. Da tentação por Satã. Da expulsão do Paraíso.

Da promessa da Redenção futura.

O Tradutor

Antônio José de Lima Leitão nasceu em Lagos, em 17.11.1787.

Em 1808, aos 21 anos, foi nomeado Cirurgião ajudante do regimento de

Infantaria de Faro. Transferiu-se depois para a Legião Portuguesa organizada

por Junot, tornando-se Chefe Cirurgião no Alto Comando Imperial de Napoleão.

Aperfeiçoou-se como médico na Escola de Medicina de Paris.

Quando foi declarada a paz em 1814, viajou para o Rio de Janeiro, onde a Corte

o nomeou cirurgião chefe em Moçambique, em 1816 e inspetor agrícola na Índia

Portuguesa em 1819.

Depois, ensinou cirurgia em Lisboa, exerceu o cargo de Presidente do Conselho

para a Saúde Pública. Foi deputado nas Cortes de Lisboa, membro de várias

academias científicas e literárias, tendo sido o introdutor da homeopatia em

Portugal.

Nas letras, traduziu Virgílio, Lucrécio, Boileau, Milton e de outros poetas

antigos e seus contemporâneos.

De sua tradução do Efigênia, de Racine, temos a seguinte notícia: “Traduzida

em verso portuguez, e offerecida como uma prova da mais sincera gratidão. Ao

Ill.mo e Ex.mo Senhor Cypriano Freire, do Consêlho de S.M. o Rey Nosso Senhor,

seu Ministro Plenipotenciario em Londres.”. Impressão Régia, Rio de Janeiro,

1816.

Em 1818, publicou na Bahia o Arte Poética, de Horácio, traduzida em versos,



que foi reedita em Lisboa em 1827, na Typ. de Manuel José da Cruz (31 pp).

Faleceu em 1856, aos 69 anos.

O que acima está são apenas traços de sua profícua vida, como médico, servidor

público, político e escritor.

Sobre ele, José Salgado Abílio escreveu António José de Lima Leitão

(1787-1856): sua obra e seu posicionamento político, Lisboa, Centro de

História da Cultura, 1986, 32 pp., infelizmente, pelo que eu saiba, só

disponível em cola e papel.

Teotonio Simões

inverno de 2006


PARAÍSO PERDIDO


John Milton

ARGUMENTO DO CANTO I

Proposição do assunto do poema: a desobediência do homem, resultando-lhe daqui

a perda do Paraíso em que fora colocado; a Serpente, ou antes Satã dentro da

Serpente, motivou esta desgraça, depois que ele, revoltando-se contra Deus, e

metendo em seu partido muitas legiões de anjos, foi expulso do Céu e arrojado

ao Inferno com toda essa multidão por ordem de Deus. Depois lança-se logo o

poema para o meio do assunto, e mostra Satã com seus anjos dentro do Inferno,

descrito não no centro da criação (porque Céu e Terra devem então supor-se

ainda não feitos), mas nas trevas exteriores mais propriamente chamadas Caos.

Ali Satã, boiando com seu exército num mar de fogo, crestados todos pelos

raios e perdido o tino, afinal torna a si como de um letargo, chama pelo que

era o seu imediato em dignidade e poder, e que ali perto jazia; conferem ambos

acerca de sua miserável queda. Satã brada por todas as suas legiões que até

então se conservavam na mesma confusão e letargo: levantam-se elas; mostra-se

o seu número e ordem de batalha; dizem-se os nomes de seus principais chefes

que correspondem aos ídolos conhecidos depois em Canaã e países adjacentes.

Satã dirige-lhes a palavra, anima-os com a esperança de ainda reconquistarem o

Céu, e ultimamente noticia-lhes que vão ser criados um novo mundo e nova

qualidade de criaturas, atendendo a uma antiga profecia ou rumor em voga pelo

Céu (pois que, segundo a opinião de muitos antigos Padres, existiam os anjos

muito antes da criação visível). Para achar a verdade desta profecia e o que

se há de fazer depois, ele convoca uma plena assembléia. Procedimento de seus

sócios. O Pandemônio, palácio de Satã, ergue-se subitamente construído no

Inferno; os pares infernais ali se assentam em conselho.
CANTO I
Do homem primeiro canta, empírea Musa,

A rebeldia — e o fruto, que, vedado,

Com seu mortal sabor nos trouxe ao Mundo

A morte e todo o mal na perda do Éden,

Até que Homem maior pôde remir-nos

E a dita celestial dar-nos de novo.

Do Orebe ou do Sinai no oculto cimo

Estarás tu, que ali auxílios deste

Ao pastor que primeiro aos escolhidos

Ensinou como do confuso Caos

Se ergueram no princípio o Céu e a Terra?

Ou mais te agrada Sião e a clara Síloe

Que mana ao pé do oráculo do Eterno?

Lá donde estás, invoco o teu socorro

Para este canto meu que hoje aventuro,

Decidido a galgar com vôo inteiro

Muito por cima da montanha Aônia,

De assuntos ocupado que inda o Mundo

Tratados não ouviu em prosa ou verso.

E tu mais que ela, Espírito inefável,

Que aos templos mais magníficos preferes

Morar num coração singelo e justo,

Instrui-me porque nada se te encobre.

Desde o princípio a tudo estás presente:

Qual pomba, abrindo as asas poderosas,

Pairaste sobre a vastidão do Abismo

E com almo portento o fecundaste:

Da minha mente a escuridão dissipa,

Minha fraqueza eleva, ampara, esteia,

Para eu poder, de tal assunto ao nível,

Justificar o proceder do Eterno

E demonstrar a Providência aos homens.

Dize primeiro, tu que observas tudo

No Céu sublime, no profundo Inferno,

Dize primeiro a causa irresistível

Que mover pôde os pais da prole humana,

Em tão próspera sina, ao Céu tão caros,

A apostatar de Deus que o ser lhes dera

E a transgredir a lei que lhes ditara,

Sendo só num objeto restringidos,

No mais senhores do universo Mundo:

Quem lhes urdiu a sedução malvada

Que os lançou em tão feia rebeldia?

O Dragão infernal. Com torpe engano,

Por inveja e vinganças instigado,

Ele iludiu a mãe da humana prole,

Lá depois que seu ímpeto soberbo

O expulsara dos Céus coa imensa turba

Dos rebelados anjos, seus consócios.

Confiado num exército tamanho,

Aspirando no Empíreo a ter assento

De seus iguais acima, destinara

Ombrear com Deus, se Deus se lhe opusesse,

E com tal ambição, com tal insânia,

Do Onipotente contra o Império e trono

Fez audaz e ímpio guerra, deu batalhas.

Mas da altura da abóbada celeste

Deus, coa mão cheia de fulmíneos dardos,

O arrojou de cabeça ao fundo Abismo,

Mar lúgubre de ruínas insondável,

A fim que atormentado ali vivesse

Com grilhões de diamante e intenso fogo

O que ousou desafiar em campo o Eterno.

Pelo espaço que abrange no orbe humano

Nove vezes o dia e nove a noite,

Ele com sua multidão horrenda,

A cair estiveram derrotados

Apesar de imortais, e confundidos

Rolaram nos cachões de um mar de fogo.

Sua condenação, porém, o guarda

Para mais fero horror: e vendo agora

Perdida a glória, perenal a pena,

Este duplo prospecto na alma o punge.

Lança em roda ele então os tristes olhos

Que imensa dor e desalento atestam,

Soberba empedernida, ódio constante:

Eis quando de improviso vê, contempla,

Tão longe como os anjos ver costumam,

A terrível mansão, torva, espantosa,

Prisão de horror que imensa se arredonda

Ardendo como amplíssima fornalha.

Mas luz nenhuma dessas flamas se ergue;

Vertem somente escuridão visível

Que baste a pôr patente o hórrido quadro

Destas regiões de dor, medonhas trevas

Onde o repouso e a paz morar não podem,

Onde a esperança, que preside a tudo,

Nem sequer se lobriga: os desgraçados

Interminável aflição lacera

E de fogo um dilúvio alimentado

De enxofre abrasador, inconsumptível.

A justiça eternal tinha disposto

Para aqueles rebeldes este sítio:

Ali foram nas trevas exteriores

Seu cárcere e recinto colocados,

Longe do excelso Deus, da luz empírea,

Distância tripla da que os homens julgam

Do centro do orbe à abóbada estrelada.

Oh! como esse lugar, onde ora penam,

É diverso do Céu donde caíram!

Logo o monstro descobre a turba vasta

Dos tristes que na queda tem por sócios

Arfando em tempestuosos torvelinos

Do undoso lume que hórrido os flagela.

Próximo dele ali coas vagas luta

O anjo, imediato seu em mando e crimes,

Que foi chamado nas vindouras eras

Belzebu, nome à Palestina grato.

Então o arqu’inimigo, que no Empíreo

Foi chamado Satã desde esse tempo,

O silêncio horroroso enfim quebrando,

Nesta frase arrogante assim lhe fala:

“És tu, arcanjo herói! Mas em que abismo

Te puderam lançar! Como diferes

Do que eras lá da luz nos faustos reinos,

Onde, sobre miríades brilhantes,

Em posto tão subido fulguravas!

Mútua liga, conselhos, planos mútuos,

Esperanças iguais, iguais perigos

Uniram-nos na empresa de alta glória;

Mas agora a desgraça nos ajunta

Deste horrível estrago nos tormentos!

Caídos de que altura e em qual abismo

Nos achamos aqui tão derrotados!

Co’os raios tanto pôde o que é mais forte.

Té’gora quem sabia ou suspeitava

Dessas armas cruéis a valentia?

Mas nem por elas, nem por quanta raiva

Possa infligir-me o Vencedor potente,

Não me arrependo, de tenção não mudo,

Posto mudado estar meu brilho externo.

Rancor extremo tenho imerso n’alma

Pela alta injúria feita a meu heroísmo:

Ele impeliu-me a combater o Eterno,

E trouxe logo às férvidas batalhas

Inúmera aluvião de armados Gênios

Que dele o império aborrecer ousaram,

E, a mim me preferindo, opor quiseram

Nas planícies do Céu, em prélio dúbio,

As forças próprias às opostas forças

Fazendo-lhe tremer o empíreo sólio.

Que tem perder-se da batalha o campo?

Tudo não se perdeu; muito inda resta:

Indômita vontade, ódio constante,

De atras vinganças decidido estudo,

Valor que nunca se submete ou rende

(Nobre incentivo para obter vitória),

Honras são que jamais há-de extorquir-me

Do Eterno a ingente força e inteira raiva.

Perdão de joelhos suplicar-lhe humilde,

Acatar-lhe o poder, cujo alto império

No âmbito inteiro vacilou há pouco

Pelo impulso e terror das minhas armas,

Fora abjecta baixeza, infâmia fora,

Muito piores que este infando estrago.

Já que, segundo ordenam os destinos,

Não pode ser em nós aniquilada

Esta empírea substância e empírea força,

Já que pela experiência desta ruína

Muito ganhado em previsão nós temos,

Condição que na guerra é de alta monta,

Tentar podemos com mais fausto agouro,

Por força ou por ardis, sem fim, sem pausa,

Contra o excelso Inimigo eterna guerra,

Ele agora que, em júbilos nadando,

Nímio se ufana, vencedor soberbo,

Porque dos Céus no sublimado trono

Administra absoluto a tirania!”

Deste modo o anjo apóstata se expressa;

Alta jactância as penas lhe não tolhem:

Mas atroz desespero o rala e punge.

Logo assim lhe responde o ousado sócio:

“Príncipe, chefe dos imensos tronos

Que às batalhas trouxeste em teu comando,

Tu que, por feitos da mais nobre audácia,

Querendo conhecer a quanto avonda

Do Rei dos Céus a grã supremacia,

Em p’rigo lhe puseste o império e a glória,

Vejo, e punge-me assaz, o atroz sucesso

Com que o Céu (seja força, acaso, ou sorte)

Em tão pesada perdição nos lança

Com tamanha vergonha e tanto estrago;

Vejo, e punge-me assaz, que a tal baixeza

Chegasse nosso exército tão forte,

A ponto de sofrer quanto é possível

Que substâncias do Céu e Deuses sofram.

Porém, quanto ao valor e aos brios d’alma,

Invencíveis nós somos; dentro em breve

Recobraremos o vigor antigo,

Inda que extinta jaz a nossa glória,

E aqui a nossa dita se sepulte

Nesta horrível miséria interminável.

Mas, se o Conquistador (que hoje não posso

Deixar de reputá-lo Onipotente,

Pois que com força pôs em plena ruína

Nossas forças, que invictas eu julgava),

Se ele, digo, nos quis deixar quais eram

Nossos grandes espíritos e forças

Para podermos suportar o peso

Dos flagícios cruéis com que nos punge,

Para podermos a medida toda

Encher-lhe da vingança em que se abrasa,

Ou fazer-lhe um serviço mais penoso

Como cativos seus por jus de guerra

(Seja aqui trabalhar em vivo fogo

No doloroso coração do Inferno,

Seja levar-lhe as hórridas mensagens

Pelas mansões do tenebroso Abismo),

Então... aproveitar-nos como podem

Nossos grandes espíritos e forças,

Posto que tais quais eram as sintamos,

Eternas só para castigo eterno?”

O arqu’inimigo prontamente o atalha:

“Degenerado querubim! Faz pejo

Não ter constância na paciência e lidas.

Podes seguro estar que jamais, nunca,

Fazer um bem qualquer nos é possível;

Mas que sempre será da essência nossa

Fazer todos os males que atormentam

A alta vontade do Opressor ovante.

Se acaso intenta a Providência sua

Algum bem extrair dos males nossos,

Busquemos perverter-lhe o fim proposto

Fazendo de tal bem fonte de males.

Muitas empresas destas são possíveis

Que hão de por certo o coração ralar-lhe,

E muitas vezes no estudado plano

Hão de turbar-lhe o entendimento irado.

No entanto vê que o Vencedor lá chama

Para as portas do Céu esses ministros

De seus furores, da vingança sua:

A sulfúrea saraiva que impelida,

Qual tufão torvo, atrás de nós correra,

Acalma-se e minora os ígneos jorros

Que desde os altos Céus nos flagelavam;

O alado raio rubro, ardente, iroso,

Talvez que exausto tendo agora as farpas,

Suspende o seu horríssono estampido

Que através troa do infinito vácuo.

Seja desprezo do Inimigo nosso,

Seja que de furor se creia farto,

Não deixemos fugir tão fausto ensejo.

Vês além essa tétrica planície,

Mansão de ruína e dor, só manifesta

Pelo fusco clarão que hórrido exalam

Estas lívidas chamas truculentas?

Vamo-nos para ali, saíamos fora

Do furor destas ondas abrasadas;

Descansemos ali, se ali descanso

Pode encontrar-se algum: eia! tornemos

A juntar nossas forças profligadas;

Busquemos modo como de hoje em diante

Faremos ao tremendo Imigo nosso

O maior mal que esteja ao nosso alcance,

Como repararemos nossas perdas,

Como suplantaremos nossos danos;

Indaguemos que auxílios nos compete

Ganhar pela esperança, — e, em caso oposto,

Qual a resolução que achar podemos

Do desespero nos terríveis lances.”

Assim falou Satã ao companheiro

Que ali mais perto estava. Sobre as ondas

Alevantava então a fronte enorme,

E dos olhos vertia horrendo lume:

O mais corpo, boiando ao longo, ao largo,

Por essas ígneas águas se estendia

Muitos estádios, sendo no volume

O que a Fábula diz das vastas moles

De Briareu e de Tifon (que ocupa

Junto da antiga Társea um antro ingente),

Filhos da terra que investiram Jove;

Ou como o Leviatã, marinho monstro,

Que Deus fez o maior dos entes vivos

(O qual, dormindo da Noruega em mares,

Ilha o crê o piloto de chalupa

Colhida em vendaval noturno, — e lança,

Como é dos nautas voz, no escâmeo dorso

Da âncora o dente, e a sotavento escapa

Enquanto é noite e pelo dia almeja).

Tão vasto assim, o arqu’inimigo alonga

Seus membros encadeado ao lago ardente,

Donde nunca teria erguido a fronte

Se do grão Deus a permissão suprema

Lhe não desse azo aos infernais desígnios

Para que, à força de contínuas culpas,

Toda a condenação a si chamasse

Enquanto males para os outros busca;

Para que, ardendo em raiva, percebesse

Como sua malícia inteira e astuta

Servia só a patentear do Eterno

A bondade, o favor, o amparo imensos,

Vistos no homem que pérfida enganara,

E no seu próprio coração maldito

Ira, vingança, confusão tresdobres.

Logo a monstruosa corpulência eleva

Vertical sobre o lago; as fluidas chamas,

Lançadas para trás, eis que se inclinam

Em agudos debruns de novo ao centro,

E desabando encapeladas formam

Um vale, todo horror. Abrindo as asas

Dirige para cima um leve vôo,

Equilibrado em ferrugíneos ares

Que sob o peso não usual gemeram;

Depois se foi pousar na seca terra,

Se era terra o que ardia em duro fogo

Como ardia a lagoa em fogo fluido.

Neste comenos se afigura o monstro

Penedo enorme que tufões subtérreos

Expelem do Peloro derrocado

Ou do horríssono bojo do Etna em fúrias,

Cujas entranhas, que abrasadas dentro

Té’li ferviam em cachões de fogo,

Erguem-se agora de tufões pungidas

Furibunda explosão jogando aos ares,

Crestando largo espaço que povoam

De mefítico cheiro e negro fumo;

Tais os malditos pés ali pousaram!

Seu imediato sócio logo o segue,

Gloriando-se ambos por se verem salvos

Do lago Estígio, como deuses que eram,

Sem permissão do onipotente Nume,

Mas pela própria força recobrada.

“Eis a região, o solo, a estância, o clima,

E o lúgubre crepúsculo por que hoje

Os Céus, a empírea luz, trocado havemos!

(O perdido anjo diz). Troque-se embora,

Já que esse, que ficou dos Céus monarca,

O que bem lhe aprouver mandar-nos pode.

É-nos melhor estar mui longe dele:

Se a sublime razão a nós o iguala,

Suprema força o põe de nós acima.

Adeus, felizes campos, onde mora

Nunca interrupta paz, júbilo eterno!

Salve, perene horror! Inferno, salve!

Recebe o novo rei cujo intelecto

Mudar não podem tempos, nem lugares;

Nesse intelecto seu, todo ele existe;

Nesse intelecto seu, ele até pode

Do Inferno Céu fazer, do Céu Inferno.

Que importa onde eu esteja, se eu o mesmo

Sempre serei, — e quanto posso, tudo?...

Tudo... menos o que é esse que os raios

Mais poderoso do que nós fizeram!

Nós ao menos aqui seremos livres,

Deus o Inferno não fez para invejá-lo;

Não quererá daqui lançar-nos fora:

Poderemos aqui reinar seguros.

Reinar é o alvo da ambição mais nobre,

Inda que seja no profundo Inferno:

Reinar no Inferno preferir nos cumpre

À vileza de ser no Céu escravos.

Mas os amigos nossos, que tão fidos

Nosso hórrido infortúnio partilharam,

Não deixemos assim jazer às tontas

No olvido destas ondas inflamadas;

Chamemo-los dali, não para serem

Nesta mansão conosco desditosos,

Mas para uma vez mais, todos reunidos,

Ver o que recobrar no Céu podemos,

Ou minorar de horror nestes abismos.”

Assim falou Satã. E assim lhe torna

O fero Belzebu: “Augusto chefe

Destes vastos exércitos brilhantes




Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   29


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
Universidade estadual
união acórdãos
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande