P. Marcial Maçaneiro scj a oferta do coraçÃO



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P. Marcial Maçaneiro SCJ

 

 



A OFERTA DO CORAÇÃO

 

 



Commissione Generale pro Beatificazione di p. Dehon

Curia Generale SCJ

Roma – 2004

 

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Nota per i lettori

 

 



Ecco un altro fascicolo della serie che conterrà articoli, sussidi, ecc… riguardanti la personalità e la spiritualità di p. Dehon, per dare la possibilità a tutti di una conoscenza più approfondita del nostro p. Fondatore, in vista della sua Beatificazione – a Dio piacendo.

1. P. Mario Panciera scj, P. Dehon e i Dehoniani. Un profeta dei tempi moderni.

2. P. Umberto Chiarello scj, Il Miracolo attribuito a P. Dehon. Iter processuale.

3. P. Egidio Driedonkx scj, El Padre Dehon y el Clero.

4. P. Manuel Joaquim Gomes Barbosa scj, Padre Dehon homem de Igreja.

5. P. Umberto Chiarello, scj Leone Dehon – Apostolo dei nuovi tempi (1843-1925)

6. PP. Tullio Benini scj –, André Perroux scj, Père Dehon, qui êtes-vous ?

7. P. Albert Vander Helst scj, Onze spiritualiteit van Priesters van het H. Hart.

8. P. Juan José Arnaiz Ecker scj: Espiritualidad Dehoniana en la pastoral parroquial.

9. P. Muzio Ventrella scj: Il P. Dehon nomade dell’amore di Dio.

10. P. André Perroux scj: Le Père Dehon et sa famille.

11. P. Eduardo Perales Pons scj: El P. León Dehon y la oración.

12. P. Evaristo Martínez de Alegría scj: La santità e i santi.

13. P. Egidio Driedonkx scj: El Padre Dehon y la formación de los laicos.

14. P. Umberto Chiarello scj: Padre Dehon e la famiglia dehoniana.

15. P. Eduardo Perales Pons scj: El Padre Dehon hombre de oblación.

16. P. Jerzy Bernaciak scj: Sługa boży O. J.L. Dehon świadek wartości, które nie przemijają.

17. P. Egidio Driedonkx scj: El Padre Dehon y las misiones.

18. P. Heiner Wilmer scj: Den Charakter Zuerst Erziehungsmaximen bei Leo Dehon.

19. P. Marcial Maçaneiro scj: A oferta do Coração.

 

 

 



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A OFERTA DO CORAÇÃO

 

A “profissão de imolação” segundo Leon Dehon:

releitura e apreciação crítica

  

Introdução:

“Oferta do coração” (sacrifice du coeur) – assim Padre Dehon sintetizou o “espírito de vítima por amor que confere à Congregação o seu caráter próprio”. abemos o quanto nosso fundador valorizava esta intuição espiritual. Ele partia da contemplação de Jesus Cristo, cuja vida foi inteiramente marcada pela oferta de si mesmo ao Pai. De nossa parte, realizamos nossa vocação unindo-nos a Cristo e participando, assim, de sua oferta pascal: “Eis que venho, ó Deus, para fazer a tua vontade” (Hb 10,7). Esta é a graça de nossa vocação, à qual procuramos responder ao longo da vida. Este é também o núcleo de nosso carisma oblativo, donde brota o apostolado da reparação:

Vivemos a união com Cristo também na disponibilidade e no amor para com todos, em especial para com os humildes e os que sofrem. Realmente, como compreender o amor de Cristo por nós, se não amando como ele, por obras e em verdade?

Contemplando o Coração de Cristo, símbolo privilegiado desse amor, somos fortalecidos em nossa vocação. Somos, com efeito, chamados a inserir-nos nesse movimento de amor redentor, doando-nos aos irmãos com Cristo e como Cristo.

As atuais Constituições falam de “adesão a Cristo”, “união”, “compromisso” e “reparação”. Citam ainda a “disponibilidade e amor para com todos”, “doação total de si”, “solidariedade”, “oferecimento” e “oblação”. Aspectos da vocação dehoniana herdadas do fundador e da primeira geração de religiosos. Uma herança assimilada, apesar da diferença de expressões, se comparada com os termos que Padre Dehon usou na sua época: “espírito de imolação”, “vítima por amor”, “espírito de sacrifício, de reparação, de expiação, de ação de graças e de amor”. A estes valores estaria vinculado cada dehoniano, através da “profissão de imolação”. Esta foi a proposta primitiva do fundador, a fim de preservar o caráter peculiar do novo Instituto, bem como garantir a fidelidade e a fecundidade do carisma recebido. Para uma melhor compreensão desta proposta de Padre Dehon – como veremos neste estudo – vale fazer desde já quatro observações:

a) A “profissão de imolação” se enraiza na cristologia pascal do Novo Testamento, de onde adquire valor evangélico, apostólico e até místico. É esta raiz teológica e bíblica que permite a releitura das fontes dehonianas e o amadurecimento da intuição original, que hoje se exprime adequadamente nas atuais Constituições.

b) Para o fundador, a aceitação desta “profissão de imolação por amor” serve para expressar, de forma clara e consciente, a “intenção específica e original” e a “índole própria do Instituto”. No princípio sugerida como “profissão” (quase um quarto voto no texto de 1885), a “imolação” reaparece no Diretório Espiritual de 1890 como um “propósito”.

c) O “espírito de imolação por amor” se concentra na sua “profissão” voluntária, mas não se reduz a esta: é uma intuição que perpassa toda a proposta espiritual e apostólica do fundador. Ainda que a Igreja e a Congregação renunciem a um voto específico de consagração vitimal (como historicamente aconteceu), permanece a disposição de oferta radical como característica da vocação dehoniana, inspirada expressamente na vida de Jesus Cristo – o bom pastor de Coração transpassado.

d) Esta oferta radical por amor (vivida na união com a oblação de Cristo) não se prende absolutamente à linguagem que a expressa. Os termos – situados numa época e influenciados por autores espirituais como De Bérulle, Olier e Condren – são relativos. Na leitura que hoje fazemos das antigas fontes, devemos considerar sobretudo “a experiência de fé vivida por Padre Dehon”. Ao longo da vida, o fundador integrou o “espírito vitimal” (íntimo e afetivo) no dinamismo de seu apostolado (missionário e efetivo) – o que indica amadurecimento psicológico, espiritual e doutrinal. De fato, a intuição original da “imolação” (Ecce venio) se mantém, à medida que se articula com a experiência da comunhão pessoal, sacramental e eclesial com Jesus Cristo (Sint unum), mostrando toda a sua vitalidade num intenso e criativo trabalho pastoral (Adveniat regnum tuum).

 

1. As Constituições de 1885

Nos albores de nossa fundação, Leon Dehon redigiu um primeiro esboço das Constituições, em que nos apresenta o “fim e o espírito” dos Sacerdotes da Sociedade do Sagrado Coração de Jesus. Retomando a inspiração primitiva dos oblatos (título original de seus religiosos), o fundador escreveu:

Os sacerdotes da Sociedade do Sagrado Coração de Jesus têm por fim promover a maior glória de Deus. Em primeiro lugar, por uma especial devoção ao Sagrado Coração, o qual se esforçam por consolar, reparando as injúrias que Lhe são feitas, e oferecendo-se a Ele como vítimas de seu beneplácito, no espírito de reparação e amor, que é o seu caráter distintivo.

Logo depois, explicitou:

O espírito da Sociedade é, pois, um ardente amor pelo Sagrado Coração e a imitação fiel de suas virtudes, principalmente a humildade, a mansidão e o espírito de imolação; e o zelo infatigável em suscitar-Lhe amigos e reparadores que O consolem com seu amor.

Estamos em 1885. Nosso Instituto entrava em sua primeira primavera, há apenas um ano desde o seu renascimento, em 1884 (quando se superou o consummatum est de 1883). Leon Dehon se dedicava cuidadosamente em cultivar esta “flor brotada entre espinhos”: relia sua inspiração original (de certo modo amadurecido pelas provações passadas) e preparava o 1o. Capítulo Geral, celebrado em setembro de 1886. Era o momento de consolidar a obra: explicitar o carisma, ensaiar um itinerário espiritual, traçar as linhas-mestras para a formação, o governo e o apostolado da nova fundação. Assim nasceram as Constituições de 1885 – às vezes chamadas de Antigas Constituições (AC).

 

2. Trajetória do texto

O texto de 1885 recupera a intuição fundacional da obra, começada em 1878. Cada linha está vivamente marcada pelo olhar e pelos sentimentos de Padre Dehon. O vocabulário expressa o discernimento que o fundador tinha assimilado, naquele momento histórico, em relação à sua experiência de fé e ao projeto de uma obra dedicada ao Coração de Jesus. De 1885 adiante, este texto foi revisto e reformulado: sofreu retoques por ocasião do 2o. Capítulo Geral do instituto, em 1888, e adaptou-se às recomendações da Santa Sé, que só aprovou a fundação definitivamente mais tarde, em 04 de julho de 1906. Contudo, à margem da trajetória oficial da redação, encontramos uma versão do texto de 1885 (com retoques) no Diretório Espiritual de 1890 e no Thesaurus Precum de 1891. Hoje podemos ler estas Antigas Constituições na íntegra, graças à edição preparada pelo Pe. Marcel Denis SCJ em 1972, quando atuava no Centro Geral de Estudos, em Roma.

 

3. Valor carismático

À parte os detalhes históricos e editoriais (ainda que importantes), queremos nos concentrar – como dissemos acima – no tópico das Constituições de 1885 em que Leon Dehon apresenta a “profissão de imolação”, coroando de certo modo a explanação sobre os votos de pobreza, castidade e obediência. Parágrafo breve, mas denso, onde o fundador deposita visivelmente o que ardia em seu coração naquele momento. Tema delicado, de um lado – já que não professamos publicamente nenhum tipo de “quarto voto”. Tema valioso, por outro lado – pois as antigas expressões do autor visavam comunicar o caráter e a radicalidade do carisma fundacional. Hoje não nos expressamos com o mesmo vocabulário, mas guardamos a mesma lógica (fundamentalmente cristocêntrica) e a mesma semântica (fundamentalmente bíblica) quando nos referimos à oblação ou traduzimos nossa vocação específica como profetismo do amor e serviço de reconciliação . Daí o valor carismático destas antigas linhas do fundador: vistas no conjundo das Antigas Constituições, servem como uma “matriz” das leituras e releituras que fazemos hoje, na tentativa de explicitar nossa identidade e ampliar sua compreensão em termos de consagração, espiritualidade e apostolado. O que veremos a seguir – ao reler as linhas originais de Padre Dehon – permanecerá para todos os dehonianos, religiosos ou leigos, como referencial hermenêutico para nossa contínua assimilação do carisma recebido. Reformulamos as letras, preservamos o espírito. Mudamos o vocabulário, mantemos a semântica. Re-interpretamos as expressões, guardamos as fontes.

 

4. A “profissão de imolação”

Vamos, pois, ao texto de 1885. Nestas Constituições, Padre Dehon diz:

É o espírito de imolação por amor que confere à Congregação seu caráter próprio. Isto será eminentemente caro a todos os seus membros, pois é por tal espírito que eles respondem mais diretamente ao desejo expresso por Nosso Senhor à bem-aventurada Margarida Maria; é também por este espírito que eles reproduzem mais inteiramente a característica dominante da vida de Nosso Senhor, que foi sobretudo uma vida de imolação.

Nosso Senhor foi a vítima por excelência, o verdadeiro Cordeiro pascal, o novo Isaac, o pão sagrado do sacrifício. As vítimas da antiga Lei não passavam de figuras. Ele, sim, é a vítima verdadeira: “Pois não quiseste sacrifícios nem holocaustos – diz ele a seu Pai – mas me formaste um corpo. Então eu disse: eis-me aqui, ó Deus, para fazer a tua vontade”. Quia hostias et oblationes et holocausta pro peccato noluisti, tunc dixit: Ecce venio ut faciam, Deus, voluntatem tuam (Hb 10,8-9).

O espírito de vítima por amor é o sacrifício do coração. Por ele a vontade divina reina em todas as coisas, superando os atrativos e as inclinações do nosso coração. Foi assim que Nosso Senhor tudo sacrificou à vontade de seu Pai: Ecce venio ut faciam, Deus, voluntatem tuam. Foi nas chamas de seu amor, no seu divino Coração, que ele consumou este sacrifício, principalmente pela sua paixão e sobre a cruz. Tal é o espírito caractetístico dos Sacerdotes do Coração de Jesus. Sua divisa e sua máxima favorita serão as palavras do divino Mestre: Ecce venio, ut faciam, Deus, voluntatem tuam. Esta palavra – Ecce venio – eles a trarão sempre sobre os lábios, mais ainda no coração.

Lendo com atenção, vemos que Padre Dehon recebe as mensagens de Paray-le-Monial como autênticas, não por causa de Margarida Maria, mas porque ele reconhecia, nas mensagens, a voz de Jesus – mais precisamente daquele Jesus oferente, cujo Coração era dom de puro amor entregue ao Pai. Pelo que conhecemos do itinerário espiritual de Leon Dehon, há nele uma experiência pessoal do amor de Deus que antecede e oferece chaves-de-leitura para os demais relatos místicos. Veja-se o quanto ele recorre às Escrituras como texto iluminador de sua hermenêutica teológica e espiritual, sem jamais considerar outras fontes como suficientes em si mesmas. Bem se percebe o olhar criterioso que Padre Dehon lançava sobre certos textos pretensamente “místicos”, sobretudo depois dos equívocos causados pela Irmã Maria de Santo Inácio e Pe. Tadeu Captier.

De fato, quando Padre Dehon acolhe as mensagens de Gertrudes de Helfta ou de Margarida Maria (citada no texto acima), não faz isso para autenticar estas autoras, mas porque através delas ele ouve a voz, já familiar, do Coração de Jesus. Na sua percepção espiritual, Padre Dehon discernia uma conexão entre o Cristo Bom Pastor revelado no Evangelho, o Cristo manifesto nos mistérios da Encarnação, Redenção e Eucaristia, o Cristo cujos afetos tocaram Santa Gertrudes e, mais recentemente, o Cristo que pedia reparação a Margarida Maria. É como se, providencialmente, o Coração de Jesus fosse revelando-se ao longo dos séculos, sucitando graças específicas para cada época, até chegar o momento das novas fundações, para inaugurar o reinado da justiça e da misericórdia nas almas e na sociedade do nosso tempo. É o que nos diz Padre Dehon, no Diretório Espiritual (DE):

A vida de amor e imolação com o Coração de Jesus é a graça do tempo presente para as almas de vida interior. Nosso Senhor, após as revelações de Paray, conduz pouco a pouco as almas neste sentido. Suscita Institutos que se esforçam por viver esse espírito. Quando esta graça estiver suficientemente difundida, então há de realizar-se o reino do Coração de Jesus nas almas.

Além disso, não lhe basta citar Margarida Maria. É preciso afirmar que a “vida de imolação” é característica do próprio Jesus: é Ele quem responde “eis-me aqui” ao Pai; quem assume a natureza humana, se oferece livremente na paixão, cumpre a redenção universal e envia da parte do Pai o Espírito Consolador. O recurso à Carta aos Hebreus mostra a consistência bíblica da intuição dehoniana: em Hb 10–11 temos uma teologia que relê os antigos sacrifícios como “sombra” ou “figura” da oferta messiânica de Jesus. Somente o Filho responde de modo excelente e fiel à vontade do Pai: “Eis-me aqui (no rolo do livro está escrito a meu respeito): eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade”(Hb 10,7). O Ecce venio é uma expressão de síntese, usada por Padre Dehon para condensar o conjunto da vida de Cristo – da encarnação à sua entrega pascal – vida inteiramente marcada pela comunhão com a vontade do Pai, sob a Unção do Paráclito.

 

5. O primado do amor

Da contemplação de Cristo provém a palavra-mestra para se compreender a “profissão de imolação”: o amor. Não há outro modelo para nossa vida de oferta, senão Jesus Cristo, o Filho dileto que em tudo correspondeu ao amor do Pai. Tocamos, assim, o núcleo evangélico do espírito vitimal: não se trata de um ardor ascético, nem do cancelamento da liberdade pessoal, mas realiza-se por outro movimento – o movimento da comunhão, da união íntima a Cristo – que nos permite ser fiéis na fidelidade d’Ele, ser oblatos na oblação d’Ele. “O seu caminho é também o nosso caminho”.

É no horizonte da comunhão que a obediência se mostra livre e libertadora, fruto – não da mera subordinação – mas da adesão ao Evangelho de Deus: comunhão de vontades, pois se deseja o que Deus deseja. Isto não se alcança de modo voluntarista, pelo mero querer, mas na conversão que nos conduz à crescente acolhida do amor divino em nós. Padre Dehon deixa claro que se trata de uma “imolação por amor”, obra da graça em nós, pela acolhida do Espírito. Pois o “amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado” (Rm 5,5). Assim como o fogo consumia as antigas vítimas, fazendo delas uma oblação agradável a Adonai – é no fogo do Amor Divino que se consome a nossa vida de oblação, tornando-nos oferta viva para a glória do Pai. Esta analogia entre o fogo e o Espírito Santo encontra-se claramente em Hebreus 9,13-14. Seguindo esta sugestão, Leon Dehon estabelece a analogia entre o fogo e o amor de Cristo:

Foi nas chamas de seu amor, no seu divino Coração, que ele (Cristo) consumou este sacrifício, principalmente pela sua paixão e sobre a cruz.

A nós, a graça concede viver em união com a oferta pascal de Jesus, transformando a nossa vida em vida de oblação: eis o carisma que Padre Dehon quis explicitar (e de certo modo garantir) ao propor uma consagração específica pela “profissão de imolação”. Voltando-se aos seus religiosos, ele diz: “Esta palavra – Ecce venio – eles a trarão sempre sobre os lábios, mais ainda no coração”.

Embora o fundador não se descuide quanto à ascese e ao cultivo da penitência, insiste no “coração” como instância de afeto, liberdade e consciência, onde o carisma deve ser assimilado como graça e itinerário vocacional. Coração sempre transpassado, inquieto, provocado pelo Evangelho – à semelhança do Coração de Jesus. Neste sentido, Padre Dehon integra a seu modo a perspectiva sacrifical da Carta aos Hebreus e a perspectiva comunional dos escritos joaninos, especialmente do Quarto Evangelho. Integra também (a meu ver) a mística unitiva de Gertrudes de Helfta à mística reparadora de Margarida Maria. Donde sua famosa síntese: “amor e reparação”.

 

6. A cristologia pascal do “Ecce venio”

Outro detalhe interessante no texto de 1885, é a caracterização de Jesus como “verdadeiro Cordeiro pascal”. Digo não só interessante, mas teologicamente pertinente. O tema bíblico do cordeiro – como sabemos – é composto de várias peças escriturísticas, que juntas formam o protótipo (cristologicamente complexo) do Messias-Servo-Rei.

A narrativa de Êxodo capítulo 12 apresenta o “cordeiro da passagem” (pêssah = páscoa), partilhado numa ceia que marca o momento da libertação, do êxodo dos filhos de Israel. Eles deixam a “terra da estreiteza” (Mitzrahim = Egito, que em hebraico significa “estreiteza”) e peregrinam rumo à “terra da fartura” ou da “largueza”, onde corre leite e mel. A ceia com o cordeiro será o rito-memorial que perpetua a libertação, de geração em geração. É o “cordeiro pascal” – retomado depois pelo Novo Testamento (cf. 1Pd 1,19; 1Cor 5,7).

Em Isaías, entretanto, aparece o “cordeiro-Servo”: justo entre injustos, fiel entre infiéis, o Servo sofre na mão dos ímpios, conduzido qual ovelha preparada para o abate (cf. Is 52,13 – 53,12). Imagem do Messias e de seu sofrimento redentor: “por suas chagas fomos curados”(Is 53,5). A imagem é de cordeiro ou ovelha silenciosa, conduzida ao sacrifício. Portanto, uma vítima emissária, que “carrega sobre si o pecado de muitos” para “justificar a muitos” ao oferecer “sua vida como sacrifício” (cf. Is 53,10-11). Por outro lado, o cordeiro-Servo não termina seu destino como vítima supliciada. Por causa de sua fidelidade, ele recebe o carinho de um filho, a quem Deus concederá a merecida herança e a vitória (cf. Is 53,12). Sua justiça brilha no fato de humilhar-se livremente, pela salvação do seu povo (cf. Is 53,7-8).

No Novo Testamento, o Batista usa o título de “cordeiro de Deus” para indicar Jesus como o Messias redentor (cf. Jo 1,29.36). O “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” é, ao mesmo tempo, a Vítima do sacrifício definitivo (“nenhum osso lhe será quebrado”: Jo 19,36) e o Filho dileto do Pai (“o Eleito de Deus”: Jo 1,34). Eleito, portanto “ungido”. Resta-nos perguntar: ungido para quê?

A resposta – presente em sinais no Evangelho de João – se faz clara no Apocalipse: o cordeiro-Servo é ungido para reinar! Temos, então, a imagem dúplice do cordeiro “imolado”, porém “de pé”. É cordeiro entronizado (cf. Ap 7,17), detentor de todo poder (cf. Ap 17,14). O cordeiro, antes imolado, dá lugar a um jovem carneiro com chifres nascentes, símbolo do poder do Rei-Messias. Então a imolação desemboca na vitória. O cordeiro-Servo, ungido pela afeição do Pai, se torna cordeiro-Rei: ele mesmo conduzirá os remidos às fontes de água viva (cf. Ap 21,6). Nesta cena, o cordeiro se reveste de seu poder régio e pronuncia um Ecce venio definitivo, exercendo o juízo escatológico: “Eis que eu venho em breve, e trago comigo o salário para retribuir a cada um conforme o seu trabalho. Eu sou o alfa e o ômega, o primeiro e o último, o princípio e o fim” (Ap 22,12-13).

Padre Dehon se mostra conhecedor de muitas dessas passagens da Escritura. Contudo, não formulou uma teologia articulada do tema, como sugerimos aqui. Cabe a nós, herdeiros de seu carisma, prosseguir no caminho e concluir a tarefa. Não apenas no que toca à teologia da oblação, mas pela vivência dela. Pergunto-me: quando Leon Dehon caracteriza a “imolação por amor” como alegre, fiel e perseverante (virtudes próprias da nossa vocação), não estaria ele indicando o sentido messiânico-escatológico da oblação? A meu ver, existe uma cristologia pascal subjacente à espiritualidade oblativa. Aliás, pascal e escatológica – tanto quanto sacrifical e reparadora.

Além disso, recordo que a expressão “Ecce venio” (seja na Carta aos Hebreus, seja no Apocalipse) é uma retomada do Salmo 39(40), versículo 8. Embora o Salmo nos permita ouvir aqui a voz do Messias, a expressão hebraica ine’ni (traduzida também como “eis-me aqui”) é fundamentalmente abraâmica: aparece em Gn 22,1 exatamente antes do sacrifício de Isaac. No livro, o sacrifício cruento não se consuma, mas o “eis-me aqui” perdura como afirmação da fé generosa e total do patriarca. Em Hebreus 11,17s o tema retorna (agora depois do sacrifício), de novo como afirmação da fé abraâmica – tipo exemplar de todos os crentes. Portanto, o valor da oferta não está na materialidade do sacrifício, mas na disposição de fé que caracteriza o ofertante. Do mesmo modo, não é a oblação que confere valor a Cristo, mas Cristo que confere valor à oblação. Entedida nesta ótica, a “imolação por amor” proposta por Padre Dehon se distancia da perspectiva negativa (quase nihilista) de alguns autores franceses, para se aproximar da perspectiva bíblico-messiânica que se anuncia em Abraão (figura) e se consuma em Jesus Cristo (realização).

 

7. Indicações práticas

Na continuação, o texto de 1885 apresenta algumas práticas às quais a “profissão de vítima” deveria vincular o religioso:

1o. Oferecer, a cada dia, suas orações, atividades, sofrimentos e toda a sua vida em união com o Coração de Jesus, em espírito de sacrifício, de reparação, de expiação, de ação de graças e de amor.

2o. Renovar este oferecimento antes das principais ações do dia, tais como a oração, a recitação do Ofício Divino e particularmente a Santa Comunhão. Os presbíteros o renovarão ao iniciar cada uma das principais ações de sua vida sacerdotal, tais como a administração dos sacramentos e a pregação, mas sobretudo antes do santo sacrifício da Missa, que eles oferecerão sempre com a intenção e o propósito de reparação e imolação.

3o. Aceitar generosamente todos os sacrifícios que a divina vontade lhes impuser.

4o. Jamais se esquivar, à base de falsos pretextos, aos sacrifícios impostos pela Regra.

Creio que estas indicações trazem o ideal de “imolação” para dentro do nosso cotidiano. O que é altamente positivo, visto que muitas vezes a proposta de um possível “quarto voto” nos parece algo distante, reservado a poucos heróis. Facilmente descartamos os conteúdos essenciais e praticáveis deste tipo de proposta, conhecendo-a pouco ou até transformando-a num tipo de “mito” mal localizado no campo da espiritualidade. Por outro lado, conhecendo melhor a intenção do fundador, vemos que o “espírito vitimal” tem um foco claramente cristocêntico (Ecce venio) e perdura na espiritualidade dehoniana sob a linguagem bíblica da oblação. De tal modo, que o próprio Padre Dehon aceitou a decisão da Igreja e da Congregação quando se preferiu a fórmula clássica dos três votos, renunciando a qualquer tipo de voto especial. Apesar de não professarmos um voto específico de “imolação por amor”, é nesta perspectiva que professamos os três votos clássicos e renovamos diariamente nossa consagração ao recitar o Ato de Oblação. Deste modo, preserva-se o carisma e a intuição original do fundador dos Oblatos do Coração de Jesus, “que quis que seus membros unissem, de maneira explícita, sua vida religiosa e apostólica à oblação reparadora de Cristo ao Pai, pela humanidade”.

 

8. Cultivo

Retomando as orientações práticas, o fundador acrescenta quatro dicas para que seus religiosos cultivem uma vida de oblação, visando a perfeição do caminho vocacional:

1o. Mantendo-se em união habitual com Nosso Senhor segundo os diversos mistérios de sua vida, nas diferentes épocas do Ano Litúrgico.

2o. Correspondendo fielmente a todas as inspirações da graça.

3o. Realizando atos freqüentes e, por assim dizer, contínuos, de louvor, de reparação, de abandono, de confiança, de ação de graças e de amor.

4o. Em não se descartar voluntariamente de algum sacrifício, sob qualquer pretexto que seja.

Mais uma vez, Padre Dehon toca o cotidiano que todos nós provamos: a necessidade da oração contínua, a recordação dos mistérios da vida de Cristo, a travessia do Ano Litúrgico bem celebrado, a renovação consciente de nossa consagração pelo abandono e confiança à Providência Divina, a aceitação das exigências e condições que nossa própria escolha vocacional requer e, merecendo destaque, a acolhida e correspondência das várias moções da graça no dia-a-dia.

 

9. Liberdade e graça

Coloco esta acolhida da graça em destaque, pelo bom-senso e sabedoria espiritual que Padre Dehon assim demonstra: ninguém conquista o estado de vítima (ninguém responde ecce venio, diríamos hoje) por si só, como conseqüência de seus méritos ou resultado de seus esforços individuais. Há um processo lento e eficaz da graça em nós, que opera na recepção e cultivo do carisma. Bem nos alertam as Constituições ao falar da “acolhida do Espírito”. Se temos um munus próprio, um protagonismo pessoal neste processo, é sempre um munus subordinado à graça. Realizamos o que nos é concedido realizar – e por isso mesmo nos aplicamos ao cultivo espiritual: rezamos, nos dedicamos ao apostolado, nos unimos em comunidade, recitamos nos lábios o Ato de Oblação que o carisma semeou nos nossos corações. Permitir que a graça frutifique, aderindo a ela com o afeto, o propósito e as ações, constitui nosso protagonismo, nosso empenho. A autoria do processo, porém, cabe ao Espírito Santo, doador de todos os carismas.

Se vivemos a oblação – com o zelo que nos é possível – é porque o Espírito assim nos concedeu e suscitou em nós a resposta exemplar, semelhante ao que aconteceu com Maria: Ecce ancilla – “Eis aqui os servos e servas do Senhor: cumpra-se em nós a sua Palavra” (cf. Lc 1,38). O próprio “espírito vitimal” ou “espírito de imolação” se caracteriza por esta docilidade à graça. Negativamente, é luta contra o mal, contra o egoísmo e a indiferença, de modo a travar inclusive árduos combates espirituais, sentidos por todos nós em determinados momentos da vida. Positivamente, é acolhida do Espírito, é co-operação com a graça que nos foi dada. Também os bons frutos, as alegrias, a fraternidade comunitária e os resultados do apostolado fazem parte da nossa vida de oblação.

 

10. Voto ou propósito?

No Diretório Espiritual o fundador reescreveu as Constituições de 1885, amadurecendo certas percepções. É nesta segunda redação que ele esclarece:

A nossa profissão de imolação não é um voto. É, antes, um propósito. Há, na sua observância, ao menos uma obrigação de conveniência e de coerência. Descuidando dela, perdemos grandes graças e tornamo-nos infiéis à vocação especial que Nosso Senhor nos inspirou.

Reordenando os elementos, tudo começa com a iniciativa de Deus, que – em Cristo – nos inspirou uma “vocação especial”, ou seja, nos comunicou um carisma. Esta vocação especial se expressa na “profissão de imolação”. Por sua vez, tal profissão não nos obriga institucionalmente como um voto, mas segue vigorosa como um “propósito”. E por que este propósito mantém seu vigor para nós? Porque concentra e explicita o “caráter” e a “virtude” própria da vocação dehoniana:

A obediência por amor será, assim, a nossa virtude mais querida. O nosso lema, a nossa máxima preferida, será a palavra da Vítima divina: Ecce venio – Eis-me aqui, Senhor, para fazer a vossa vontade” (cf. Hb 10,7). Esta será nossa disposição habitual.

Por isto, se de fato desejamos que o “propósito” se torne uma “disposição habitual”, nossa vocação implica “ao menos uma observância” ou “uma obrigação de conveniência e de coerência”: aderimos a tudo o que convém e se mostra coerente com nosso carisma; e renunciamos ao que não convém e se mostra incoerente com o mesmo. É isto que Padre Dehon quer dizer, em poucas e exatas palavras. A ausência de um “voto de imolação” nos libera de uma observância legal. Mas o carisma continua vigoroso e inspirante, exigindo de nossa liberdade uma observância cordial:

Nas palavras: Ecce venio (...) Ecce ancilla, encontram-se toda a nossa vocação, a nossa finalidade, o nosso dever, as nossas promessas.

Portanto, como “discípulos de Padre Dehon, queremos fazer da união com Cristo, no seu amor pelo Pai e pela humanidade, o princípio e o centro de nossa vida”.

 

11. O coração no ritmo da graça

Padre Dehon sugere que a disposição oblativa (ou “espírito vitimal”) deve ser cultivada, até caracterizar a vivência cotidiana da nossa vocação. Assim, o “propósito” vai se tornando “nossa disposição habitual”. De forma discreta, o fundador indica a moção da graça que nos leva à oblação, segundo o carisma recebido. Como a graça atua, para fazer do “propósito” uma “disposição habitual”?

Em primeiro lugar, supõe-se a comunicação ou doação deste carisma – no caso pessoal de Padre Dehon, colhido da vida de Cristo e formulado na expressão Ecce venio da Carta aos Hebreus. É a intuição do carisma: momento que a graça “adentra o coração” (intus-ire = intuir, ir ao interior). Esta comunicação primeira da graça geralmente toca o afeto: se aloja no coração, produzindo gosto ou dileção (dilectio). Os místicos se referem a este momento como “atração” ou “sedução” de Deus. A seguir, o Espírito promove a assimilação inteligente deste afeto: a pessoa adquire, pouco a pouco, consciência do carisma comunicado. É o momento da inteligência: momento de “ler por dentro” (intus-legere) o que a graça depositou no coração. Passa-se, assim, do afeto à inteligência. Então o carisma – intuído e, de certo, modo inteligido – se relança sobre a vontade, inspirando na pessoa o propósito. Este propósito, por sua vez, solicita as virtudes, para estabilizar-se na vivência da pessoa. É quando o cultivo do carisma frutifica, se enraíza e se torna uma disposição habitual. Colocando em ordem os momentos da operação da graça, temos o seguinte:

Momento antecedente: o carisma comunicado (o que de graça recebestes)

1. affectus – o coração se encanta

2. intellectus – a inteligência assimila

3. propositus – a vontade adere

4. virtus – as virtudes se ativam

5. habitus – o amor se exercita



Momento conseqüente: o carisma vivenciado (de graça dai)

Examinando com cuidado as atuais Constituições, acredito que elas indicam estes cinco momentos, sobretudo quando tratam da experiência de fé do fundador para, a seguir, tratar da nossa própria caminhada vocacional:



Momento antecedente: Padre Dehon recebeu a graça (C1)

1. affectus – sensível ao pecado e atraído pelo amor (C 4)

2. intellectus – conhece os males sociais e estuda as causas (C 4); apostolado, solicitude com os desamparados, preocupação de remediar as deficiências da Igreja de seu tempo (C 5)

3. propositus – Padre Dehon quis (que seus religiosos, como ele) unissem sua vida religiosa e apostólica à oblação reparadora de Cristo ao Pai, pela humanidade (C 6).

4. virtus – solicitude, união a Cristo, serviço (C 5 e 6)

5. habitus – que sejam profetas do amor e ministros da reconciliação (C 7)



Momento conseqüente: amor e reparação que seu Coração deseja (C 7)

Não pretendo detalhar aqui o que seria uma intrincada teologia da graça. Gostaria apenas de mostrar a beleza de nossa vocação e a qualidade dos documentos-fonte da Congregação. Com certeza, o Diretório Espiritual e as atuais Constituições mantiveram íntegros os fundamentos do nosso carisma e aquecem o coração de quem os lê com disposição. Além do mais, os cinco momentos descritos são familiares à nossa experiência vocacional. Todos experimentamos este movimento operante da graça, ainda que nem sempre nos apropriemos conscientemente dele, para o sistematizar.

Na verdade, o mesmo aconteceu a Padre Dehon: suas intuições e formulações amadureceram num longo processo de discernimento, até chegar a certa explicitação. O itinerário foi mais vivencial, que intelectual. Os conceitos chegam depois da experiência – e nem sempre conseguem captar ou exprimir o que foi vivido na relação com Deus. Daí o desafio da leitura e releitura continuada das fontes dehonianas. É isto que sentimos, por exemplo, quando pretendemos definir o carisma ou expressões dele, como neste estudo sobre o “espírito de imolação por amor”. Lemos, refletimos, clarificamos. Mas seremos sempre devedores, mais da experiência original, do que do bom serviço dos conceitos.

 

12. Virtudes da nossa vocação

Experimentado nas coisas de Deus, Padre Dehon sabia que o carisma (espírito de imolação por amor) solicitava certas forças ou potências morais (virtus) para se concretizar. É quando ele sugere as chamadas “virtudes próprias” dos oblatos do Coração de Jesus. O Capítulo VII das Constituições de 1885 apresenta 10 (dez):

- amor de Jesus Cristo

- vida interior

- caridade

- humildade

- mortificação

- abnegação

- conformidade com a vontade de Deus

- pureza de intenção

- zelo


- amor à cruz

Na redação posteriormente incluída no Diretório Espiritual, o fundador apresenta nova lista, com 24 (vinte e quatro) virtudes:

- fé viva

- confiança

- puro amor de Deus

- ação de graças

- caridade para com o próximo

- humildade

- simplicidade

- fidelidade

- vigilância

- ordem nas pequenas coisas

- regularidade (exatidão)

- reta intenção

- bom exemplo

- perseverança

- abnegação (desapego, renúncia)

- recolhimento

- fidelidade à graça e zelo pela própria santificação

- mortificação

- abandono e conformidade com a vontade de Deus

- alegria nas provações e amor à cruz

- união a Nosso Senhor e vida interior

- devoção à Eucaristia

- zelo

- amor à Igreja



De certo modo despreocupado com os limites canônicos de uma Regra, Leon Dehon se sente à vontade para incluir novas virtudes à lista, incrementando assim o seu Diretório Espiritual . As virtudes desdobram o carisma da oblação, com uma finalidade exortativa e pedagógica: querem nos animar e conduzir na vivência cotidiana do “espírito de imolação”. Em outras três passagens do mesmo Diretório, nosso fundador retoma as virtudes principais da vocação dehoniana:

a) O espírito de vítima em união com o Coração de Jesus

Caracteriza-se como “vítima” a pessoa que se une ao sacrifício de Nosso Senhor para cumprir os fins ordinários do sacrifício, que são: adorar, agradecer, suplicar e expiar. Quem vive este carisma compensa, com amor ardente, a indiferença e a ingratidão de muitos que não correspondem à bondade de Deus. Há sacerdotes, religiosos e leigos que vivem esta vocação. Há também vítimas especiais chamadas a uma vivência mística, como Santa Margarida Maria. Esta vocação, contudo, só tem sentido e consistência pela união com a oblação de Cristo. Pois há uma única Vítima que, em si mesma, é perfeita diante de Deus: Jesus Cristo. É ele que se digna associar-nos à sua ação reparadora. Entre as disposições da “vítima” estão: a paciência com suas próprias limitações, a generosidade, a reparação, o amor ardente e a aceitação da cruz – como aconselha o Senhor, dando-nos ele mesmo o exemplo (cf. Mt 16,24). Entre os modelos vitimais destacam-se Maria e João, que “carregaram moralmente a cruz e tiveram o coração transpassado com o do Senhor”. Nesta vocação se cumpre de modo excelente o que disse Paulo aos romanos: “Exorto-vos portanto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais os vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual” (Rm 12,1).



b) O apostolado da reparação, em espírito de vítima

A reparação já se anunciava em Santa Teresa de Ávila que, tomada de compaixão pelos que se perdem, dedicou preces e penitências pela salvação do próximo. Depois, temos Santa Margarida Maria, que buscou consolar os sofrimentos místicos do Salvador – que continuava ferido na humanidade e na própria Igreja, que é seu Corpo. Merece menção também Irmã Madalena de Rémusat (francesa). A reparação de amor para com o Sagrado Coração “é uma nova corrente de graça e de devoção”.

Muitas fundações se dedicam à reparação: o Instituto das Vítimas do Sagrado Coração (Marselha), as Filhas do Coração de Jesus (Anversa), as Irmãs da Purificação (Tours), as Irmãs Vítimas do Coração de Jesus (Lyon), as Servas do Coração de Jesus (Estrasburgo) e, por fim, os Sacerdotes do Coração de Jesus – dehonianos. As atitudes próprias da vocação reparadora são: amor, disponibilidade no serviço ao Reino de Deus, generosidade e conversão:

Devemos amar a penitência do coração, a penitência afetiva, e também a dos sentidos, a penitência efetiva. Imponhamo-nos algumas práticas sérias de penitência.

Contudo, devemos evitar as tendências intimistas e doloristas. As atitudes penitenciais não se guiam pelo voluntarismo, mas pela união ao Coração transpassado de Jesus. Ninguém deve buscar o sofrimento! O coroamento da penitência está em confiar na misericórdia divina e manter-se constante no apostolado que o Senhor nos confiou. Padre Dehon é claro em sua opinião:

Segundo nosso parecer, Nosso Senhor nos pede sobretudo o abandono confiante à sua amável e misericordiosa Providência. Prefere escolher ele próprio as nossas penitências. Assim, ele nos eviará, segundo seu bem querer, uma indisposição, ou uma humilhação, decepção, dificuldade ou qualquer outra coisa. Não tenhamos medo! Ele é para nós como uma mãe. Nada nos pedirá acima de nossas forças e muitas vezes suavizará para nós a sua cruz, depois de nos ter mostrado sua austeridade. Além disso, ele quer que em nossas obras sejamos generosos, dedicados, prontos a suportar o cansaço de um apostolado difícil.



c) O pacto de amor

Neste pacto, Padre Dehon não usa as expressões “vítima”, “imolação” ou “oblação”. Esta intuição está absorvida no texto. Parece que houve um amadurecimento, uma assimilação da atitude vitimal na noção de “puro amor” (amor ardente, desinteressado e generoso). Disto resulta uma abordagem positiva da “profissão de imolação”, traduzida como “consagração por puro amor”, “dedicação”, “amor inflamado” e “alegria”:

Meu Jesus, perante vós e perante o vosso Pai celeste, em presença da imaculada virgem Maria, minha mãe, e de São José, meu protetor, faço voto de consagrar-me por puro amor ao vosso sagrado Coração, de dedicar a minha vida e as minhas forças à obra dos Sacerdotes do vosso Coração, aceitando antecipadamente todas as provações e sacrifícios que vos aprouver enviar-me. Faço voto de dar a todas as minhas ações a intenção do puro amor a Jesus e ao seu sagrado Coração. Suplico-vos que animeis o meu coração e o inflameis no vosso amor, a fim de que eu não somente tenha a intenção e o desejo de vos amar, mas também a alegria de sentir – pela ação da vossa santa graça – todos os afetos do meu coração concentrados exclusivamente em vós.

 

13. Virtudes dehonianas, ontem e hoje

O Diretório Espiritual transcreve, com pequenas mudanças, a “profissão de imolação” que se encontrava nas Constituições de 1885. Nesta transcrição Padre Dehon acentua o amor, a confiança filial e a busca contínua da vontade de Deus. A noção de “puro amor” (amor gratuito e desinteressado) ganha mais espaço e aparece, então, a famosa frase: “Um coração para amar, um corpo para sofrer, uma vontade para sacrificar”. O próprio título foi retocado: “profissão de amor e de imolação”. Nesta nova apresentação do “espírito vitimal”, o fundador insiste ainda mais na união com o Coração de Jesus e no Ecce venio.

Lendo atentamente o referido Capítulo V, colhemos uma outra lista de virtudes dehonianas, desta vez com o número simbólico de sete:

- amor

- abandono



- alegria

- coragem

- docilidade à graça

- fidelidade

- generosidade

A meu ver, trata-se de uma abordagem positiva da “profissão de amor e de imolação”. O amor é a virtude mais citada (16 referências). Depois vêm a docilidade à graça (6 referências), a fidelidade (4 referências), a alegria (3 referências), o abandono (também 3), a generosidade (também 3) e a coragem (1 referência). Em tudo transparece a oblação.

Considerando estas virtudes, lembro uma lista recente – elaborada pelos dehonianos reunidos no 1o. Encontro Latino-americano de Jovens Religiosos SCJ celebrado em Jaraguá do Sul, Brasil, de 08 a 18 de abril de 2002. O evento foi marcado pela oração, estudo e diálogo. Muitas riquezas emergiram daquele grupo, que renovou sua adesão ao projeto de Padre Dehon. Emergiram também os desafios da geração atual: superação do individualismo, renovada opção pelos pobres, postura crítica diante da globalização e da cultura de massa, vivência comunitária mais fraterna, amadurecimento da afetividade, aprimoramento pastoral, diálogo com as religiões e culturas, vivência das bem-aventuranças e cultivo da espiritualidade dehoniana – entre outros. Como fruto da oração e da partilha, os religiosos reunidos elencaram 15 virtudes, chamadas “as bem-aventuranças do sint unum”:

- tolerância

- cuidado

- apoio


- respeito

- partilha

- corresponsabilidade

- gratidão

- confiança

- maturidade

- transparência

- doação


- reconciliação

- solidariedade

- encontro

- compreensão

Seria interessante – talvez revelador! – fazer uma comparação desta lista recente (2002) com aquela primeira lista sugerida por Padre Dehon (1885). No encontro latino-americano, ninguém usou as expressões vitimais das Antigas Constituições. Contudo, a disposição de encontro, testemunho e solidariedade que o grupo expressou parece, a meu ver, uma herança viva do que Padre Dehon chamava “profissão de amor e imolação”. Abandonamos o velho vocabulário, mas cultivamos o espírito original – cuidadosamente mantido pelas novas Constituições e pelo zelo de muitos confrades. Isto mostra que a intuição fundacional foi assimilada. Ela perdura e certamente florescerá, sempre que for cultivada.

 

Apreciação crítica:

Em Padre Dehon a vivência antecede a doutrina, de modo que a inteligência da fé é sempre um momento segundo e, mesmo assim, nem sempre didaticamente exposto ou sistematizado. Percebemos um processo de assimilação gradual da própria experiência de fé, onde se conectam suas vivências pessoais, o ensino de Agostinho, a presença da mística medieval (Bernardo de Claraval, Gertrudes de Helfta), as influências tipicamente francesas (De Bérulle, Olier, Condren) e da modernidade ibérica (Inácio de Loyola, Teresa de Ávila), além da proximidade com Margarida Maria Alacoque.

A propósito dos autores espirituais, penso que Padre Dehon demorou muito para ler e assimilar João da Cruz. Sabemos que nosso fundador leu algumas páginas carmelitanas (Teresa de Ávila, Teresa de Lisieux e possivelmente Elisabete da Trindade). Mas os avisos de João da Cruz quanto às “locuções” individuais e “luzes” místicas lhe teriam sido úteis quando se deparou com a Irmã Maria de Santo Inácio, Pe. Tadeu Captier e outros. Superada esta dificuldade, é admirável o bom-senso que Dehon mostra no discernimento posterior. O relevo dado ao amor e à prática dos valores evangélicos demonstra o quanto Padre Dehon se emancipou da estreiteza espiritual que ameaçou os inícios de sua Fundação.

Voltando a João da Cruz – que admitia as locuções místicas, mas aconselhava a jamais fiar-se nelas – acredito que Padre Dehon (se leu, não sei) assinaria com toda convicção este conselho do Doutor Místico, pondo em alerta quem constrói sua vida cristã à base de “luzes” e “vozes angélicas” pouco consistentes:

Aprendam, antes, a cuidar de firmar sua vontade em amor humilde e generoso, na prática sólida das boas obras e da mortificação, imitando a vida do Filho de Deus. É por este caminho – e não pela multiplicidade dos discursos interiores – que se chega a todo o bem espiritual.

O itinerário de Padre Dehon foi dinâmico e ritmado ao compasso de acontecimentos inesperados, sobre os quais ele procurou discernir. O seu “espírito de imolação por amor” não foi vivido neutramente, mas no confronto com as mudanças políticas, a emergência da cultura moderna (urbana e industrial), com as ideologias (marxismo, capitalismo) e regimes (indo da monarquia à democracia), bem como num diálogo fecundo com o magistério pontifício (sobretudo Leão XIII).

Considerando o trajeto posterior às Constituições de 1885, percebemos melhor o amadurecimento de Leon Dehon: ele se distancia oportunamente das “revelações” pretensamente “místicas” de certas personalidades; aprofunda suas intuições à luz da Palavra de Deus; amplia sua percepção política, missionária e eclesial; desenvolve contatos com pontífices e intelectuais; volta-se à causa operária; aprofunda sua espiritualidade eucarística e avança na linha de uma experiência de fé mais trinitária (equilibrando seu evidente cristocentrismo).

A originalidade de Padre Dehon se faz perceber em alguns tópicos importantes. Sua noção de “oblação” relê a perspectiva vitimal que acentuava a destruição da oferenda (imolação em perspectiva negativa: Condren), para valorizar a realização da mesma. A vocação vitimal é entendida como práxis do “puro amor” (amor ardente, desinteressado e generoso: ágape). Este amor tem por modelo, não os ritos sacrificiais do Antigo Testamento (oferta de coisas), mas a oblação pascal de Jesus (oferta de si). Assim como o Filho se realiza na oferta de si mesmo ao Pai, também nós nos realizamos como filhos, unidos à oferta do Filho ao Pai, no Espírito Santo. É a imolação em perspectiva positiva, que solicita nossa liberdade e nosso talentos, para que façamos uma “adesão alegre e total à pessoa de Jesus”.

Daí o aparecimento da coragem, alegria, zelo e dedicação apostólica entre as virtudes oblativas. Além disso, quando Padre Dehon insiste nas virtudes próprias da nossa vocação – incorporando certas expressões voluntaristas do seu tempo – me parece que seja para corrigir o excessivo “afeto” que estacionava a fé nos sentimentos e enfraquecia a prática dos valores evangélicos. Equilibrando esta tendência com um apostolado ativo, o fundador articula as duas coisas: o consolo e a reparação ao amor ofendido de Jesus, de um lado; e a promoção do seu Reino nas ruas, nas escolas e nas fábricas, de outro.



O “espírito vitimal” que Padre Dehon propõe é generosidade radical para com o Reino de Deus: não cancela o sujeito, mas o realiza, fazendo dele um “oblato”, um “reparador”, um “seguidor” e “apóstolo” de Jesus Cristo. Nisto devem ser empenhados todo o zelo, todo o amor, todos os talentos e recursos disponíveis, incluindo o estudo, a atividade educacional, as estratégias pastorais, a atividade missionária e o apostolado editorial. Como ele mesmo sugere: as ciências, tanto quanto as missões; os jornais, tanto quanto os Evangelhos. De tal modo, que a oblação (ecce venio) permeia e se consolida na comunhão fraterna, eclesial, espiritual e solidária (sint unum), para desaguar na ação social, intelectual e evangelizadora (adveniat regnum tuum). Se assim não fosse, seria inadmissível que um homem tão “imolado”, tão “vitimado”, realizasse o que Leon Dehon realizou, em seu variado protagonismo de sacerdote, fundador, religioso, autor, conferencista, advogado, educador e, em boa parte, analista social.




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