Overcharged: the high cost of high finance



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Gerald Epstein and Juan Antonio Montecino – Overcharged:the high cost of high finance – The Roosevelt Institute, July 2016 - http://rooseveltinstitute.org/overcharged-high-cost-high-finance/
Todos ouviram falar da financeirização, mas poucos se dão conta da profundidade da deformação generalizada dos processos econômicos, sociais e ambientais que resultam da migração dos nossos recursos do fomento econômico através de investimentos, para ganhos improdutivos através de aplicações financeiras. Inclusive, os bancos e a mídia chamam tudo de “investimento”, parece mais nobre do que aplicação financeira ou especulação. O Economist até inventou a expressão “speculative investors”. Mas não há como escapar desta realidade simples: quando você compra papéis, que rendem, você não produziu nada. E abrir uma empresa, contratar trabalhadores, produzir e pagar impostos é mais trabalhoso do que por exemplo aplicar na dívida pública. Mas o primeiro estimula a economia, o segundo a trava. Stiglitz resume bem a transformação: “Enquanto antes as finanças constituíam um mecanismo para colocar dinheiro nas empresas, agora funcionam para extrair dinheiro delas.”
Stiglitz foi economista chefe do Clinton, economista chefe do Banco Mundial. Hoje é economista chefe do Rossevelt Institute, que está pesquisando de maneira muito sistemática o que ocorre com esta deformação radical da economia. O próprio Stiglitz publicou um relatório essencial, chamado Rewriting the Rules of the American Economy, que apresenta um diagnóstico e propostas práticas para uma nova agenda econômica. Mas no mesmo instituto, Gerald Epstein e Juan Antonio Montecino publicaram um estudo aprofundado da própria deformação do sistema financeiro americano, demostrando que nas suas diferentes dimensões em vez de financiar a economia, drena os recursos das atividades produtivas e trava o desenvolvimento. Em termos metodológicos, o estudo aproxima-se muito do exercício que estamos desenvolvendo aqui para o Brasil, Resgatando o potencial financeiro do país: http://dowbor.org/2016/08/ladislau-dowbor-resgatando-o-potencial-financeiro-do-pais-versao-atualizada-em-04082016-agosto-2016-47p.html/ . Abaixo, alguns pontos principais do estudo, que está disponível online na íntegra gratuitamente (Creative Commons).

Visão geral da função oficial e da “spectacular failure”: “A healthy financial system is one that channels finance to productive investment, helps families save for and finance big expenses such as higher education and retirement, provides products such as insurance to help reduce risk, creates sufficient amounts of useful liquidity, runs an efficient payments mechanism, and generates financial innovations to do all these useful things more cheaply and effectively. All of these functions are crucial to a stable and productive market economy. But after decades of deregulation, the current U.S. financial system has evolved into a highly speculative system that has failed rather spectacularly at performing these critical tasks.” (1)

Do lado das medidas, é resgatar o sistema de regulação, reestruturar o sistema para que sirva a economia e não delas se sirva apenas, e gerar sistemas alternativos de intermediação financeira: “These excess costs of finance can be reduced and the financial sector can once again play a more productive role in society. To accomplish this, we need three complementary approaches: improved financial regulation, building on what Dodd-Frank has already accomplished; a restructuring of the financial system to better serve the needs of our communities, small businesses, households, and public entities; and public financial alternatives, such as cooperative banks and specialized banks, to level the playing field.” (3)

Os autores aparesentam os principais mecanismos de deformação, que geram enormes custos para a economia real, obrigada a sustentar uma imensa superestrutura especulativa: “We show how the asset management industry charges excessive fees and delivers mediocre returns for households trying to save for retirement; how private equity firms grab excessive levels of payments from pension funds and other investors while often worsening wages and employment opportunities for workers in the companies they buy; how hedge funds underperform; and how predatory lenders exploit some of the most vulnerable people in our society. From this bottom-up perspective, we can see more clearly how the levels of overcharging we identified at the macro level actually come about in practice.” (3)


O resultado prático é que os trilhões de dólares captados pelo sistema de intermediação financeira e os diversos fundos representa em termos líquidos um dreno para a economia. Este sistema, como no Brasil, representa uma produtividade negativa, e gera o que aqui já chamamos de “Bolsa Banqueiro”, sem contrapartida: “That is, finance has operated in recent years as a negative sum game. This means that it costs us more than a dollar to transfer a dollar of wealth to financiers—significantly more. So even if you think our financiers deserve every penny they get, it would be a lot cheaper simply to write them a check every year than to let them continue business as usual.”(4)
Perquenos e médios bancos continuaram as suas atividades de commercial banking, mas 10 gigantes passaram a dominar o sistema financeiro, concentrando-se em outros produtos, essencialmente especulativos. No caso brasileiro esta concentração bancária ocorreu de maneira muito mais drástica. Os 10 gigantes analisados pelos autores concentram-se em “new financial products and practices associated with the financial crisis —including securitization, derivatives trading, and proprietary trading, all financed by very short-term borrowing” (10) A oligopolização é aqui central, apoiada não só na não-transparência dos produtos, como no seu poder político de obter subsídio (o que é na realidade a taxa Selic elevada no Brasil): “Monopoly or oligopolistic power that financial institutions could exercise because of non-transparent financial products, and easy access to massive amounts of capital because of their too-big-to-fail subsidy.” (19)

Segundo os autores, os numerosos bancos menores nos EUA terminam sendo tributários destes gigantes: “The large Wall Street banks sit at the epicenter of the financial system. As a result, virtually all of the major aspects of finance that we have discussed so far—hedge funds, private equity, predatory lending, the mortgage market, and the so-called shadow banking system—are all tied to some extent to the core banks...In the case of financial reform, the power of the financial sector in the political process has been a difficult force to reckon with”. (41)


Este enfoque permite aos autores analisar a produtividade do sistema financeiro: “We should emphasize that in our analysis, we are estimating the NET costs of our financial system: the costs over and above what an efficient financial system would cost society. Financial rents measure how much more customers and tax payers have to pay bankers to get the level of services (benefits) they are receiving. The misallocation costs measure the costs of having a lower economic growth rate than we would have if finance were at the socially optimal size and performing efficiently. These costs are net in the sense that the calculation acknowledges that the financial system creates significant benefits, but that those benefits would be HIGHER if the system were operating at the right scale and in the right way. Finally, the cost of the financial crisis is a net cost in the sense that it measures how much output was lost relative to if we did not have a financial crisis.(14)
Para o Brasil, considerando os custos da crise 2015/2016, da qual o sistema financeiro foi a causa principal, poderíamos igualmente calcular o custo sistêmico. “We must incorporate the costs of financial crises associated with the excessive speculation and destructive economic activities that are now well understood to have been key to the recent economic crisis.” (16) A diferença é que nos EUA se reconhece as raízes da crise financeira de 2008, enquanto aqui se atribui a crise ao ridículo déficit fiscal, portanto ao governo. Na realidade, pouquíssimos entendem a deformação estrutural do sistema financeiro nacional, a começar pelo esvaziamento do artigo 192º da Constituição que o regia.

O conceito de renta financeira (financial rent) é importante, e o próprio conceito de “renta”, diferente de renda, tem de ser introduzido nas nossas análises no Brasil. O fato é que a “renta” como forma de acesso aos recursos sem a contribuição produtiva correspondente ajuda a entender o processo (no Brasil, curiosamente, utilizamos a expressão “rentismo” mas não existe ainda o conceito de “renta”). Em inglês é claramanente diferente o mecanismo que gera a renda (income) e a “renta” (rent). Em francês é igualmente clara a diferença de “revenu” e “rente”, respectivamente. Não há como entender por exemplo os trabalhos do Piketty sem esta distinção. Segundo os autores, “In the case of modern finance, rents come in two basic forms: One form is the excess payments made to bankers—top traders, CEOs, financial engineers, and other highly paid employees of banks and other financial institutions; the other form is excess profits, or returns over and above the long-run sustainable returns that accrue to shareholders as a result of the financial services provided by a firm”. Os ganhos financeiros deste tipo se agigantam a partir dos anos 1990. (17)(19)

Os custos destas atividades rentistas que travam as atividades econômicas em vez de promovê-las, tem de ser pagas pela sociedade: “The cost of finance to society is not only a result of transfers of income and wealth from society as a whole to finance; there are additional costs if finance itself undermines the health of the economy for households and workers.” (22) Uma citação interessante trazida pelos autores é a de James Tobin, ainda em 1984: “We are throwing more and more of our resources, including the cream of our youth, into financial activities remote from the production of goods and services, into activities that generate high private rewards disproportionate to their social productivity.”( 23)

O desvio dos recursos das atividades produtivas para ganhos especulativos trava o conjunto da economia. Os autores mostram a convergência de uma série de outros estudos americanos: “Larger private financial systems might be associated with more "speculative finance," greater trading, and a sector less associated with providing credit to the "real economy." As Stiglitz (2015a) argued, these financial systems might be oriented to extract resources from the real economy rather than putting more resources into the real economy (also see Mason, 2015). This type of financial system might well be oriented toward much shorter-term investments (Haldane, 2011) and employ what William Lazonick calls a strategy of "divest and distribute" rather than "retain and reinvest," meaning more resources are extracted from non-financial companies. This orientation is also likely to lower productivity growth and investment and therefore economic growth.”(23) O texto de Mason mencionado constata que “Finance is no longer an instrument for getting money into productive businesses, but instead for getting money out of them”.(3) http://rooseveltinstitute.org/wp-content/uploads/2015/09/Disgorge-the-Cash.pdf

O novo sistema de intermediação financeira gerou uma massa de advogados, conselheiros, contadores, fundos e semelhantes, todos ávidos em nos servir: “Asset management services have grown from $4 billion in assets managed by 51 firms in 1940 to more than $63 trillion in assets with more than 11,000 advisors and almost 10,000 mutual funds registered with the SEC in 2014.” Não temos os estudos correspondentes da estrutura de intermediação e da guerra política que estes interesses geram contra qualquer tentativa de reduzir os seus lucros. Mas é evidente que quando o governo Dilma tentou reduzir os juros absurdos (tanto sobre a dívida pública como para pessoas jurídicas e pessoas físicas) partiram para a guerra total. O fato é que o mundo financeiro e os rentistas reagiram em bloco, mobilizando amplas camadas de oportunistas políticos. Não à toa, conforme vimos acima, “os autores consideram que “the power of the financial sector in the political process has been a difficult force to reckon with” (41)

As with much of finance, the keys to excessive rents obtained by financial firms and traders are: (1) opaqueness, often deliberately created, by excess complexity, lack of disclosure, and outright misleading information facilitated by light regulation; (2) high market concentration within specific lines of business leading to low competition; (3) government subsidies of various types, including bailouts, tax subsidies, accounting rule enabling, and legal advantages created by legislative, administrative, or legal engineering; (4) withdrawal of public provision that makes a ready market for finance and makes people vulnerable to all of these channels for excess income and returns and 5) weak fiduciary rules that allow conflicts of interest to flourish (35)


A parte de baixo da sociedade é a que sustenta o maior choque desta desorganização: “Households receive false and costly information from advisors who have an incentive to mislead and are able to do so because of a relatively lax legal and regulatory environment.” (36) Isto por sua vez gera o aprofundamento das desigualdades: “Financial practices and incomes have contributed greatly to income and wealth inequality in the U.S. in recent decades. In addition, some financial practices contribute to the creation and maintenance of poverty. Nowhere are these connections between finance, inequality, and poverty more apparent than in the provision of banking

services for poor and financially stretched households.” (40) Aqui, o paralelo com os crediários e os juros extorsivos nos bancos no Brasil é evidente, sendo que no nosso caso, com juros de três dígitos, as dimensões são simplesmente mais escandalosas.


Resumindo a parte propositiva, temos a reforma do próprio sistema financeiro: “Broadly speaking, to address the issues we raise here concerning the enormous costs of our current financial system, we need three broad, complementary approaches: financial regulation, financial reconstruction, and financial alternatives...To achieve these goals, we will likely need a new Glass-Steagall law to eliminate the social safety net for highly speculative financial activity, stricter limits on leverage and bank size to break up the largest and most dangerous financial institutions, and stricter regulation to limit financial pay for highly risky activities.” 42/43
E temos a consequente reformulação dos seus objetivos, para que volte a ser útil (e não mais prejudicial) para a economia e para a sociedade: “Our financial system needs to be restructured so that it better serves the needs of our communities, small business, households, and public entities, such as municipalities and states. Eliminating subsidies for the too-big-to-fail banks will help level the playing field for smaller and more community-oriented financial institutions; however, this is unlikely to populate the financial system with enough institutions to support the needs of our communities. As a result, we are likely to need many more financial alternatives: public banks, cooperative banks, and specialized banks such as green banks and infrastructure banks.” (43)

O texto mencionado do Stiglitz, Rewriting the Rules of the American Economy, pode ser encontrado na íntegra em http://dowbor.org/blog/wp-content/uploads/2015/06/report-stiglitz.pdf
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