Os Gêmeos, o g rafite e a Vida c otidiana



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Os Gêmeos, o grafite e a Vida cotidiana

Sandra C. A. Pelegrini1



Damicele Salgado Gorgatti2

RESUMO: A presente comunicação de pesquisa objetiva apresentar perspectivas de críticas presentes em algumas das obras do grafite paulistano, em especial na produção da dupla de artistas “Os gêmeos”, cujas obras já foram internacionalmente reconhecidas. Nascidos em 1974, os irmãos Otavio e Gustavo Padolfo cresceram no Bairro do Cambuci, na Capital do Estado de São Paulo. Lá tiveram contato com grupos de cultura hip-hop, cuja prática cotidiana envolvia o break e o grafitar. Apesar de pintarem desde muito pequenos, a partir da segunda metade da década de 1980 suas obras adquiriram maior projeção. Em termos metodológicos, a análise de parte dos grafites dos referidos artistas plásticos no contexto de sua produção apontou indícios de propostas estéticas que parecem vinculadas a formação de uma identidade sócio-cultural, perceptível por meio dos estudos de seus traços figurativos e de suas escolhas temáticas. A maior relevância dessa pesquisa diz respeito à desmistificação do grafite como uma complexa forma de expressão e como arte socialmente participativa.

Palavras-chave: grafite, história da arte, pintura.

Os Gêmeos, o grafite e a Vida cotidiana nas grandes cidades


Sandra C. A. Pelegrini

Damicele Salgado Gorgatti
A presente reflexão visa apresentar algumas temáticas abordadas nas obras dos grafiteiros paulistanos “Os gêmeos”, cuja produção vem sendo internacionalmente reconhecida, bem como compreender as críticas que lhes vem sendo feitas por terem exposto algumas obras em espaços considerados estranhos ao grafite, como galerias de arte. Nascidos em 1974, os irmãos Otavio e Gustavo Padolfo cresceram no Bairro do Cambuci, na Capital do Estado de São Paulo. Lá tiveram contato com grupos de cultura hip-hop, cuja prática cotidiana envolvia o break e o grafitar. Apesar de pintarem desde muito pequenos, a partir da segunda metade da década de 1980 suas obras adquiriram maior projeção.

Entendemos que em termos metodológicos, a análise de parte dos grafites dos referidos artistas plásticos deve ser efetuada mediante a atenta observação do contexto no qual produzem e detectar o que embasa as críticas sociais que expôs nos muros das cidades. A princípio podemos afirmar que já detectamos indícios de propostas estéticas que parecem vinculadas a formação de uma identidade sócio-cultural, perceptível por meio dos estudos de seus traços figurativos e de suas escolhas temáticas.

Convém lembrarmos que o crítico de arte Gombrich (1999) chama a atenção para o seguinte fato: do seu ponto de vista não existiriam obras, mas, sim, artistas – o que em outras palavras, significa que nos cabe observar as técnicas e os suportes utilizados pelos pintores, não basta rotulá-los ou vinculá-los a um ou outro movimento.

Além disso, não podemos nos esquecer de que a utilização da imagem como fonte de pesquisa exige do historiador muita acuidade para que não venha a cair nas garras das mais ardilosas armadilhas de análise, ou seja, aquelas que o induzem a atribuir sentidos e significados infundados. Contudo, não podemos deixar de asseverar que as fontes imagéticas podem contribuir muito para a compreensão da história. Ao pesquisador que se dedica ao estudo das imagens cabe investigar as motivações do seu produtor e suas redes de relações sociais, quais os objetivos de seu trabalho e as suas intenções mais secretas (PELEGRINI, 2005).

Martine Joly (1994), por sua vez, propõe que o pesquisador esteja atento aos usos paradoxais que as imagens podem acarretar. Não ao acaso, ela afirma que ao utilizarmos a imagem como fonte de pesquisa histórica, nós devemos atentar para as suas singularidades. Detectarmos o “não-dito” ou o “não revelado”, de modo a percebermos algo que vai além das aparências ou do senso comum e até seja capaz de “manipular [...] nossa ingenuidade” (JOLY, Martine, 1994, p. 10).
As singularidades do grafite
O grafite está, cada vez mais, presente no meio urbano e, desde a segunda metade da década de 1980, mas parece se consolidar como arte a partir da década de 1990 – momento no qual olhares atentos passam a perceber a sua complexidade, seu significado e sentido social e estético.

Entre os grafiteiros que tiveram participação e obtiveram destaque nesse período, podemos citar os irmãos gêmeos e idênticos Otavio e Gustavo Padolfo.




Figura 1 – Fotografia de Os Gêmeos, Otavio e Gustavo Padolfo, mural em New York. Disponível em site: http://www.highsnobiety.com/news/wp-content/uploads/2009/07/os-gemeos-mural-nyc-4-407x540.jpg . Acesso em fev./2011.
As palavras desses grafiteiros, abaixo transcritas, nos oferecem uma idéia do seu comprometimento com a arte:
Acho que estilo e traço, você nasce com ele, você pode aperfeiçoá-lo ou matar toda aquela coisa inocente no seu traço, em busca de um estilo perfeito, nosso estilo hoje é uma mistura de tudo que a gente gosta, desde pequeno levamos a serio desenhar, aprender, e é engraçado que chegamos até aqui para ver que estilo é uma coisa que você nasce com ela (apud FRANCO; PALLAMIN, 2009, p.52).

A procura desses pintores por esta forma de expressão desde cedo, com ideais de questionadores, fez com que participassem efetivamente da efervescência da tensa vida urbana paulista. Ao apresentarem em suas obras uma percepção do mundo em que viviam, construíram imagens representativas do cotidiano das grandes metrópoles, como podemos notar na obra abaixo:


Figura 2: Grafite de Os Gêmeos


O desenvolvimento do conceito de arte, como o do grafite, envolve uma visão de mundo local e, simultaneamente, global, na qual o olhar é direcionado pela escolha de elementos a serem utilizados ou somente apresentados, não tendo necessariamente um comprometimento com a representação direta da realidade, tampouco de suprimi-la, como é possível notar abaixo:

Figura 3: Grafite de Os Gêmeos – São Paulo


É essa percepção que possibilita abertura à fruição, estabelece a principal característica para pensarmos o grafite como arte, como forma de expressão que pode ser apreendida de maneira mais direta ou passar aos seus observadores mensagens subliminares. Contudo, salientamos que o grafite reafirma sua importância enquanto percepção reflexiva pautada pela liberdade de criação.

Figura 4: Grafite de Os Gêmeos


Seria singela a caracterização de arte pela questão de gosto, juízo estético ou escala de significância, pois as especificidades pictóricas de cada estilo de produção artística compartilham licenças poéticas ou as renegam. Para podermos compreender as mudanças da aparência de elementos nas obras de Os Gêmeos, devemos nos permitir a tentativa de superação de convenções culturais e sociais arraigadas, não raro, capazes de nos impor limitações para a apreensão do sentido das obras e da sensibilidade do artista.

Este tipo de produção embora não se comprometa com a representação da verdade, está inserida sempre em um contexto histórico, no qual é possível vasculharmos as suas interfaces políticas, existenciais ou sociais. Porém, é necessário admitirmos que seu engajamento social não implica sua circunscrição em determinados padrões pré-estabelecidos.


Figura 5: Grafite de Os Gêmeos

A arte de Os Gêmeos se utiliza de linguagens múltiplas, não precisando ser direta e/ou claramente direcionada ao desvendamento de realidades presenciadas pelos artistas. A sua consistência crítica advém de um projeto mais amplo de liberdade de expressão e de propostas de reflexão que podem incomodar o observador, acostumado a passar pelas ruas sem se dar conta dos demais transeuntes, das condições de vida daqueles que vivem pelas calçadas e praças.

Figura 6: Pescador de Ilusões - obra de Os Gêmeos que integrou a exposição Vertigem”, no CCBB/ Rio de Janeiro.


Um dos elementos mais interessantes do grafite é a liberdade estilística como ideal básico, pois é fundamental que o grafiteiro crie sua própria marca estética e seja reconhecido por ela. Como bem o disse Roger Chartier “não se cria nada do nada”, os indivíduos ou grupos sempre estão historicamente contextualizados nas questões do seu tempo e são influenciados por elas.

Se os grafites estão, porém sendo engolidos sem discernimento, para a multiplicidade de sabores e sentidos que carregam, da mesma forma que ocorreu com outras vanguardas em relação ao mercado das galerias, cabe discutir as diferenças dos desdobramentos destas produções, pois o grafite continua na rua, apesar deste aspecto comercial a que serve, e parte desses artistas respeita seu nomos engendrador. (FRANCO; PALLAMIN, 2009, p.52).

A perspectiva engendradora que talvez possa definir a originalidade e a irreverência do grafite exposto nas ruas ou nas galerias é a sua forma de adaptação e apropriação de distintos espaços onde possa adquirir visibilidade.

Considerações Finais
Existem obviamente interesses que para continuarem a ser atendidos exigem adaptações na postura dos artistas em geral. O fato de conquistar outros observadores só vem a corroborar com a idéia de que o grafite é uma forma de arte flexível a mudanças e capaz de produzir surpresas, algo que sequer havíamos cogitado.

A mudança no meio que acolhe a obra de arte transforma-se e causa mudanças na criação, mas a essência daqueles que viveram a realidade social do grafite se insere num espectro maior e mais complexo que envolve identidades culturais que continuam interagindo e criando outras maneiras do homem se manifestar e se fazer entender.



REFERêNCIAS

ABBAGNANO, Nicole. Dicionário de filosofia. São Paulo.Martins Fontes.2000.p.366-377

BOSI, E. O tempo vivo da memória. São Paulo: Ateliê., 2004, p.13-48.

CHARTIER, Roger. La História: O La lectura Del tiempo. Espanha: Ed.Gedisa, 2007.

CUMMING, Robert. Para entender a arte. São Paulo:Editora Ática.1996.

FRANCO, Sergio Miguel; PALLAMIN, Vera Maria. Iconografias da Metrópole: Grafiteiros e Pichadores representando o contemporâneo. São Paulo: EDUSP, 2009.

GOMBRICH, E. H. A história da arte. Lisboa, Editora. LTC, 1999.

PELEGRINI, Sandra C. A. e ZANIRATTO, S. H. Dimensões da Imagem. Maringá: EDUEM, 2005.

ORY, Pascal. A história cultural tem uma história. In: Revista de história Regional. Ponta Grossa: Editora da UEPG, 2010, v.15, numero 01.

SANCHEZ, Gabriel Fernandes Barbosa. Presente, Passado e Futuro – memória e expectativa enquanto constituição de sentido na contemporaneidade. In: Revista de teoria da História. Goiás: Editora da Universidade Federal de Goiás. 2009.Ano 01,Numero 02.

SILVA, Renato. Os gêmeos. São Paulo: FAAP, 2009.


1Doutora em História pela USP, Profª-Associada do DHI/ UEM, Pós-doutora em Patrimônio e pesquisadora do NEE/UNICAMP. Coordenadora do Centro de Estudos das Artes e do Patrimônio Cultural (CEAPAC/UEM).

2.Pesquisadora do Centro de Estudos das Artes e do Patrimônio Cultural (CEAPAC/UEM) .



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