Os assentamentos rurais de reforma agrária: novos espaços educativos em meio à poeira



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OS ASSENTAMENTOS RURAIS DE REFORMA AGRÁRIA: NOVOS ESPAÇOS EDUCATIVOS NO CAMPO BRASILEIRO.
Movimentos Culturais e Sociais Como Espaço Educativo.

Juliana Pereira de Araújo
Durante muito tempo, acreditou-se que o meio urbano fosse o único capaz de engendrar o surgimento de movimentos sociais com possibilidades reais de influir na trajetória social de seus atores. A luta pela terra, representante maior dos movimentos sociais no meio rural, embora fosse conhecida desde a década de 50 era tida como frágil e suas conquistas tidas como pequenas davam margem ao entendimento de que ainda havia uma certa inexistência de características mais contundentes que a chancelassem como um movimento social mais concreto no campo nacional.

Muitos trabalhos de cunho educacional e mesmo no sociológico voltavam-se até então à análise dos espaços educativos em profusão nas áreas urbanas, lugar onde historicamente se concentravam os marginalizados e os excluídos de médios e grandes centros urbanos. Escolas em favelas e em bairros dominados pela violência tornaram-se foco da análise de educadores e enquanto isso, a escola rural era vista como espaço educativo em vias de extinção.

Todavia, no final dos anos 70 o campo ressurge como berço profícuo para o surgimento ou ressurgimento da ação organizada dos movimentos sociais. A derrocada do modelo de desenvolvimento concentrador e excludente engendrado no governo militar alimentou a pressão social e as demandas da classe trabalhadora do campo por mudanças estruturais na distribuição de terra.

Até mesmo o estado de São Paulo presenciou ocupações de terra. No espaço territorial tingido linearmente de verde pelo predomínio da monocultura canavieira apareceram os assentamentos rurais de reforma agrária. É nesses assentamentos que se dá a constituição de um novo espaço educativo que se apresenta no lote, no paiol, na igreja, no salão social e também, quando presente, na própria escola.

Neste trabalho pretende-se cotejar algumas idéias que reafirmam os assentamentos rurais, conseqüência do movimento social de luta pela terra, como expoentes de um novo espaço educativo.
Discussão:

Considerando que a luta consubstanciada pelos movimentos sociais é educativa em si mesma, pode-se afirmar que a luta pela terra que origina os assentamentos rurais paulistas é fonte de vivências educativas ímpares em valor e significado. No bojo da luta pela reforma agrária homens e mulheres aprendem diversas coisas como reconhecer e refletir sobre sua situação de explorados, de excluídos e agir com objetivo de transformar tal condição. Aprendem a se expor, a falar com suas palavras miúdas sobre sua luta e sofrimento, aprendem a buscar nas letras, leitura e escrita, alento e instrumento para mostrar sonhos e guardar e planos. A ocupação de um território lhes ensina coisas sobre organização e união e o planejamento/construção de suas barracas de lona preta rememora e cria conhecimentos sobre espaço e geometria, sobre a vida na roça, no campo, talvez enterrados no passado longínquo.

É nesse sentido que se pode afirmar que a luta contida no movimento social cristalizado no assentamento rural é ela mesma fonte e palco de todo um processo educativo. Para mais claramente demonstrar o que aqui se afirma enumerar-se-á a seguir alguns conhecimentos, práticas e saberes que são encontrados e construídos, pelos jovens e adultos responsáveis pela consolidação e continuidade da reforma agrária nos assentamentos rurais.

Considere-se em primeiro lugar o assentamento rural de reforma agrária como um espaço educativo no qual homens e mulheres ensinam e aprendem através da reconstrução de práticas e valores, a pensar. Desde as primeiras reuniões realizadas com o apoio dos sindicatos de trabalhadores rurais e da igreja, estes passaram a priori a pensar. A refletir sobre o papel de cada um na sociedade, nas suas transformações, na busca de solução para as injustiças vividas na vida e no trabalho. Depois passam a convergir idéias, planos e ações, a escutar e falar sem que isso desemboque na anulação do outro, mas sim na confirmação de uma totalidade.

Assuma-se, nesse sentido, que o movimento social que deu origem aos assentamentos rurais traz consigo avanços e rupturas que resultam na aquisição de um saber cumulativo, impresso nas futuras gerações, que é caracterizado pelo persistir, pelo esperar e pelo seguir em frente mesmo contrariando previsões. No compasso dessa espera observa-se que outros saberes foram e são continuamente delineados, retomados. Inclusive aqueles relacionados à leitura do mundo e das palavras escritas, desenhadas e aqueles relacionados à escrita das palavras e do próprio caminho. A palavra terra desloca-se do imaginário para o papel ganhando status de palavra-chave, símbolo de luta e futuro.

A leitura se transforma em necessidade re-significada trazida por agrônomos e veterinários em rótulos de adubo e pesticidas. Torna-se ferramenta bem-vinda na resolução de problemas como o entendimento de instruções técnicas de produtos e de novos projetos propostos. Já a escrita se faz necessária no compartilhamento de idéias na redação da lista de coisas a comprar com o dinheiro do financiamento que às vezes pinga. Além disso, o cotidiano, transformado no assentamento, ao tirar-lhes dos bairros periféricos das cidades-dormitório faz urgente que construam por si só sua morada, que a princípio é no lote de plástico preto, barraco. Conquistar o lote os inquire a construir cerca, paiol e formar o pomar a horta e traçar o desenho da plantação.

Merece destaque também a ocorrência de uma aprendizagem oriunda da revalorização do núcleo familiar. O que teria acontecido com este núcleo nesse espaço educativo rural? Percebe-se que ele foi e é continuamente reorganizado em um movimento que redimensiona relações sociais familiares e de amizade. Neste ínterim famílias reaprendem a conviver mais estreitamente. Mães acostumadas a saírem cedo pro corte da cana reconquistam a chance de acompanhar o crescimento dos filhos e homens redimensionam o valor da mulher no dia-a-dia. Já a escola, ainda instituição das mais legitimadas nos espaços educativos em constituição nestes tempos modernos é nos assentamentos um capítulo à parte.

Se por um lado, ela ainda apresenta os problemas históricos da educação rural (urbanocentrismo, abandono, ausência de docentes qualificados etc), em alguns casos se coloca (e isso cada vez mais é necessário) como aliada inconteste na construção de um projeto de educação do campo, especialmente quando atua e se estabelece em sólidos patamares críticos de atuação. Nela a dimensão do processo educativo pode e deve se ampliar alimentada pela re-significação do campo e da reforma agrária. Nesse sentido como coloca Gohn (1992) nota-se que nos assentamentos rurais, espaços de reapropriação, a escola aparece como lócus para configuração e legitimação de outros saberes e o educativo é cooptado de diferentes fontes.

No ambiente da escola do campo, jovens e adultos dos assentamentos rurais instrumentalizam a continuidade de sua luta, pois são eles mesmos que necessitam cristalizar a reforma agrária e propiciar a consolidação desse projeto. Mas será que o movimento social que origina e alimenta o andamento dos assentamentos também pode ser considerado espaço educativo que influencia e transforma também os docentes que nele atuam? A resposta caminha na direção de um sim.

Ensinar exige como colocou Paulo Freire: pesquisa, criticidade, risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação, além de reflexão crítica sobre a prática e convicção de que a mudança é possível. Exigências essas postas de modo inegável e desafiador ns práticas educativas realizadas nos assentamentos rurais, com a luta e a conquista da terra e com a chegada de seus primeiros docentes.

Comprovando essa idéia ou hipótese serão lançadas a seguir algumas informações obtidas a partir de breve pesquisa junto a escolas de assentamentos na região.

Docentes de escolas rurais localizadas no estado de São Paulo, entrevistados entre os anos de 2002 e 2004 afirmaram que os assentamentos rurais decorrentes dos movimentos sociais de luta pela terra possuem características próprias que lhe conferem a conceituação de serem novos espaços educativos, nos quais pode ou não haver a escola formal em si.

Esses docentes afirmaram também que sua ida para a escola do assentamento provocou alterações em sua maneira de ver a reforma agrária, seus protagonistas e com isso alteraram conseqüentemente atitudes, crenças e estratégias de ação em sala de aula, ou seja, provocou aquilo que Sacristán chama de “correções de rota” (1992). Para muitos deles o trabalho, especialmente na educação de adultos tornou-se pleno de sentido e valor, trouxe outra dimensão à atuação do professor. Isso porque é possível em muitas vezes comprovar avanços e melhorias no cotidiano de vida e trabalho de seus alunos decorrentes da aquisição e construção de conhecimento.
Conclusões

O espaço educativo em nascimento nos assentamentos rurais de reforma agrária é a tradução de um amplo movimento de conquista de dignidade e melhores condições de vida que atinge cada vez mais trabalhadores, excluídos e marginalizados. Diferencia-se do conhecido e não valorizado espaço educativo costumeiramente encontrado no campo, no qual os alunos eram quase sempre pequenos e tradicionais sitiantes e pequenos produtores.

Nesse novo espaço há um dinamismo constante que reinterpreta idealizações de professor e de aluno. É nesse espaço que tem sido possível, mesmo contrariando previsões e expectativas, vivenciar um encontro com professores envolvidos e alunos motivados. Alunos adultos e jovens que prioritariamente reconhecem seu papel de transformador e formulador de uma nova realidade e futuro. Pena ainda serem poucos os que se voltam para a análise do cotidiano neste espaço. Como o surgimento de novos assentamentos não têm se esgotado acredita-se e anseia-se para que ocorra o aumento do reconhecimento e do interesse de todos os educadores pela educação projetada pelos assentamentos rurais de reforma agrária pois ainda há muito o que se descobrir nesse espaço.

Bibliografia

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São Paulo, Brasil: Paz e Terra (Coleção Leitura), 1997.

GOHN, M. G. Movimentos Sociais e Educação. São Paulo, Brasil: Cortez, 1992.



SACRISTÁN,J. G. Consciência e ação sobre a prática como libertação profissional dos professores. In: NÒVOA, A. (org) Profissão professor. Porto: Porto editora, 1995.
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