O veleiro de Cristal



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Décimo Capítulo

Veleiro de Cristal, Veleiro das Estrelas
Entreabriu os olhos e observou espantado o ambiente totalmente branco.

Murmurou fracamente.

— Anna.

As mãos de Anna seguravam a sua mão.



— Estou aqui, Edu.

Aos poucos percebia onde se encontrava. Ah! O hospital, a operação. Um tubo de oxigênio subindo pela sua narina.

— Dói, meu filho? A voz vinha fraca.

— Não dói. Só que sinto cansaço. Sinto um peso no meu peito.

— São as faixas, as gases, as ataduras. É natural que você sinta cansaço. Fez uma operação muito grave. Agora feche os olhos e tente dormir.

Em vez de obedecer seus olhos adquiriram um brilho febril.

— Mamãe veio, Anna?

— Claro que veio. Veio muitas vezes. Ficou aí perto da sua cabeceira três noites. Mas você dormia. O médico não deixou que acordassem você. Agora ela foi até em casa e vai voltar depois. Agora durma.

Ficou passando a mão na sua testa febricitante.

— Mas você promete Anna, que quando Mamãe voltar você me chama...

— Prometo sim. Mas agora durma.
***
Acordou e viu que era dia. Fazia sol lá fora e o céu estava muito azul.

Anna aproximou-se pressurosa. Anna sabia a verdade. Não havia mais esperança, a operação fora até bem sucedida, mas os médicos abanaram a cabeça quando após três dias a febre o assaltava abrasadoramente.

— Pneumonia. Era o que menos desejávamos.

E a febre e os arrepios se sucediam. O peito proibido de tossir gerava gemidos e frases incompreensíveis.

Nada mais havia a fazer. O que era necessário não se tinha negado. Nem mesmo um milagre...

Anna gelada ouvindo a frieza da condenação.

— Anna!

Sua voz adquirira uma força inesperada.



— Anna eu estou bom. Anna eu tenho até vontade de andar.

— Que bom, meu filho. Que bom.

Mas na alma aquilo se assemelhava a uma punhalada cruel. Era o que chamavam da "visita da saúde".

Suspenda o meu travesseiro, Anna. Quero ver tudo.

Girou a manivela da cama. O desespero se apossava dela. Tinha vontade de sair correndo pelo corredor como se fosse louca. E gritaria alucinadamente pedindo socorro ao mundo. Mas conteve-se.

— Anna, quando a gente sair daqui para onde vamos?

— Espere um pouco, querido. Vou lhe trazer um pouquinho de água fresca.

— Mas eu não tenho sede, Anna.

— Mas beba que faz bem.

Queria poupar o tempo. Queria ver se chegava alguém para ajudá-la.

— Anna, Mamãe voltou?

Queria rezar, queria afastar para longe o seu desespero. Por que ela não vinha, pelo menos uma vez? Uma só vez, meu Deus?

Tornou a mentir.

— Ela telefonou há pouco tempo que viria para cá. Ele fez um gesto de tristeza.

— Não faz mal. Mas você não respondeu para onde iria me levar?

Forçou a memória e lembrou-se da casa à beira-mar de um amigo onde por diversas vezes passara temporada.

— Onde vamos? Ora imagine. Antes de você vir para o hospital, não se lembra? Eu saí um dia inteirinho com Nonato. Pois bem, fomos ver uma casa linda. Lá você vai poder se recuperar. E garanto que vai gostar muito.

— Você não me contou nada.

— Como iria contar se era surpresa.

— E como é a casa?

— Você nem imagina. É uma lindeza. A gente viaja o dia inteiro para lá chegar. Sobe-se uma serra e do alto, a gente pára o carro e a casa toda iluminada aparece...

— Eu sei, Anna.

— Como pode saber? Ele riu feliz.

— Essa casa eu conheço bem. Do alto, na noite, essa casa parece um navio iluminado.

Anna sentiu um arrepio horrível passar por todo o seu corpo.

— Mas para mim não é bem um navio, é um Veleiro de Cristal.

Estranho que da primeira vez ela sentira a mesma sensação. Queria dizer alguma coisa mas a voz estava sem poder articular-se. Ele prosseguia na descrição.

— A gente desce um caminho e sai numa praia de pescadores. Tem dois ranchos. A casa por fora não quer dizer nada. É feita de um velho paredão de um antigo depósito parece que de café. Quando se entra pelo jardim a casa fica mais linda. Todas as paredes são de vidro. Da sala de refeição quando as cortinas estão entreabertas pode-se ver o mar de todos os lados.

— A casa fica sentada sobre duas pedras enormes, não é, Anna?

Mal podia balbuciar uma resposta. Nunca falara a Eduardo sobre essa casa. E nunca também ninguém da família estivera lá. E na verdade ele conhecia tudo.

Começou a morrer também. O que aquilo significava? Uma monstruosidade de coincidência? Quem poderia desvendar todos os mistérios e que mistérios havia entre o céu e a terra.

Quer que eu conte o resto, Anna?

Confirmou com a cabeça. Queria fazer o possível para que o rosto não traísse o seu desespero e espanto.

— Pois bem. Existe um jardim entre as pedras. E todas as pedras mineiras vão dos terraços até o mar. Tem uma piscina e um grande tigre chinês de cobre. Não se lembra, Anna?

Sua memória ia visualizando tudo. Sua narrativa não falhava.

A gente sobe uma enorme e larga escadaria. Tem um terraço grande também todo de vidro como se fosse o tombadilho de um navio. Ali vão ter os quartos. Agora na frente, a coisa mais linda da casa é um grande salão também de vidraças enormes de onde se pode ver o mar batendo nas pedras como se fossem as ondas batendo na proa de um navio. Você se lembra bem do que tem na estante? Queria recordar-se mas a brutalidade daquela revelação deixava-a bastante aturdida.



— Ora Anna. Uma coruja empalhada.

Anna tomou-lhe as mãos tremulamente.

— Diga Eduardo, por amor de Deus, como foi que você esteve lá?

— Você se esqueceu. Nós estivemos lá juntinhos. Fomos fazer a viagem no veleiro. Uma viagem de sonhos. Eu fiz camaradagem com o tigre. Ele tinha um nome japonês muito difícil. Então batizei-o de Gabriel. A coruja possuía um nome que não gostava. Um nome da constelação de Órion: Mintaka. Ela preferia chamar-se Maria Jurandir. Um nome um pouco bobo para uma coruja da selva, não?

Parou e começou a respirar com um pouco de dificuldade.

— Anna, estou ficando muito cansado. Por favor comece a baixar a minha cama. Preciso de mais ar.

Anna ligou o oxigênio.

— Vou chamar o enfermeiro. Mas Edu suplicou:

— Por favor, Anna, não adianta. Esse momento é só meu e seu.

— Você cansou-se, falou demais.

— Ainda não acabei, Anna. Chegue-se mais perto de mim. Eu preciso contar tudo para você, porque na vida somente você pode me compreender e me amar. Anna, eu vou fazer uma viagem novamente nesse veleiro. Agora iremos visitar todas as estrelas.

— Quem vai com você?

— Dessa vez Anna você não pode fazer essa viagem comigo. A primeira que fizemos juntos foi a coisa mais bonita do mundo. Gabriel disse que virá me buscar assim que o veleiro estivesse pronto para desatracar. Que lindo a gente viajar pelo céu, não Anna?

As lágrimas começaram a cair devagarzinho dos seus olhos. A sua voz quase desaparecia.

— Mas você vai no meu coração.

Encostou a face na mãozinha febril. As lágrimas escorreram sobre ela.

— Sabe, Anna, já estou sentindo o mar molhando as minhas mãos.

Um soluço mais forte, agitou o seu corpo.

— Anna, Anna, onde é que você está?

— Aqui, querido, bem pertinho de você. Anna está aqui. A dor era tanta que a voz não parecia sua.

— Anna, vai ser bom. Assim não precisaremos mais viver fugindo ou escondidos de tudo.

Ofegava como se o ar se extinguisse do seu peito.

— Anna, Anna. Por favor abra a janela que eu quero ver a noite. Na noite está o meu veleiro de cristal esperando para partir. Adeus, Anna.



A cabeça caiu para o lado e a mão fraca começou a tombar molemente sobre o lençol.






Ultimo Capítulo

O Grito de Anna
De que adiantava enxugar os olhos tão ardidos? Nem sequer podia sentir a sua pequenez tal o tamanho da sua dor. Sentia sim um frio que lhe enregelava os braços. E se pusesse a mão sobre o peito contaria cada pancada seca do seu coração.

Sem saber como, foi se aproximando da janela. Por sobre a sombra das grandes árvores negras o céu oferecia o mundo das estrelas. O mundo das suas estrelas. Antares, Sirius, Canopus, Arturus. Que mundo tão longe, o mundo de Deus!...

A voz dele ressoava aos seus ouvidos.

— Assim não precisaremos mais viver fugindo ou escondidos de todos.

As lágrimas corriam de novo.

— Essa viagem você não vai comigo, Anna. Mas você estará em meu coração por onde quer que eu esteja.

As estrelas reluziam indiferentes.

— Mamãe tornou a vir?

Aí o seu abatimento se multiplicava. Sós, ele e ela. Somente os dois no momento da passagem. Sempre os dois sozinhos. E agora ela ficaria cada vez mais só.

Vergou as pernas e ajoelhou-se apoiando a cabeça na janela como uma criança desprotegida. E seus lábios se entreabriram numa ânsia de desejos e prece.

— Siga, meu filho a sua viagem linda. Siga no seu Veleiro de Cristal, no seu veleiro de estrelas, para um mundo de silêncio e paz!

— Agora eu sei que você está indo, meu filho!

— Acompanhado do seu tigre, do seu sapo, da coruja e de tantos bichinhos como você e que sempre o seu coração amou.

— Que longe você já está. São mais lindas as estrelas quando estão mais próximas?

O peito quase rebentou e novas lágrimas escorriam pelos braços alçando a janela. Foi então que ela repetiu doloridamente a sua condenação.

— Olhe por mim, meu filho. Meus braços morreram de abandono. Meu coração está vazio de amor. Meu querido, meu querido. Em cada estrela que você estiver olhe por mim.

Deitou-se desamparada sem querer olhar para a cama. Sem desejar enxergar o corpo enrijecido e pálido.

Veio uma vontade de sorrir, sorrir da humanidade oca. Daqueles que mais tarde iriam lhe dizer... como se isso consolasse... — "Foi melhor assim. Foi melhor assim." Que saberiam eles do que sentia? Que adiantavam as palavras se nada encontraria mais eco no seu coração, no luto da sua alma?

Melhor era olhar de novo o céu. Que lindo. Quantas estrelas! E o veleiro de cristal, o veleiro de estrelas se afastava cada vez mais na sua ânsia de infinito. Pela última vez juntou as mãos e suplicou: — Querido, quando você atingir a beleza das estrelas, quando você tocar no brilho de todas elas, não se esqueça... Mande uma gota de ternura, um clarão de amor, para que meus braços não afaguem o abandono e o meu coração deixe de caminhar para sempre na desesperança!...

Fim Cotia, 72/73





SOBRE O AUTOR

José Mauro de Vasconcelos tem nas veias sangue de índia e português. Nasceu em Bangu, Rio de Janeiro, a 26 de fevereiro de 1920. Passou a infância em Natal, onde foi criado com muito sol e... água. Aos nove anos de idade aprendeu a nadar, e com prazer ele hoje rememora os dias de contentamento, quando se atirava às águas do Potengi, quase na boca do mar, a fim de treinar para as provas de grande distância. Com freqüência ia mar adentro, protegido por uma canoa porque a barra de Natal está sempre infestada de tubarões. Ganhou vários campeonatos de natação e, como todo garoto, gostava de futebol e de trepar em árvores.

Mas o esporte, não constituía sua única preocupação. Depois do primário, aos 10 anos de idade já cursava o primeiro ano do curso ginasial, que terminou cinco anos mais tarde. Então, gostava dos romances de Graciliano Ramos, Paulo Setúbal e José Lins do Rego.

Depois do ginásio, os estudos de José Mauro como autodidata foram sempre feitos à base de trabalho. Seu primeiro emprego, dos dezesseis aos dezessete anos, foi o de treinador de peso-pluma; recebia 100 cruzeiros (velhos) por luta no Rio de Janeiro, pois aos quinze anos saíra de Natal para ganhar o mundo. No Estado do Rio, trabalhou numa fazenda em Mazomba, perto de Itaguaí, carregando banana. Depois, foi viver como pescador no litoral fluminense, onde não se demorou muito, partindo em seguida para o Recife. Ali, exerceu o cargo de professor primário num núcleo de pescadores.

Da capital pernambucana, José Mauro saiu para começar incessante vaivém, do Norte ao Sul, e vice-versa, permanecendo um pouco em cada lugar, para em seguida enveredar pelo sertão e viver entre os índios.

Dotado de prodigiosa capacidade inata de contar histórias, possuindo fabulosa memória, candente imaginação e com uma volumosa experiência humana, José Mauro de Vasconcelos não quis ser escritor, foi obrigado a sê-lo. Os seus romances, como lavas de um vulcão, foram lançados para fora, porque dentro dele o "eu" estava transbordando de emoções. Ele tinha de escrever e de contar coisas. Sua fenomenal produção literária, iniciada aos 22 anos de idade, ainda não chegou ao meio do caminho, porque ele está em plena ascensão, com inexauríveis reservas, que o levarão a posição ainda mais elevada nas letras nacionais.

Depois de "Banana Brava", romance escrito em 1942, José Mauro produziu "Barro Blanco" (1945), "...Longe da Terra" (1949), "Vazante" (1951), "Arara Vermelha" (1953), "Arraia de Fogo" (1955), "Rosinha, Minha Canoa" (1962), "Doidão" (1963), "O Garanhão das Praias" (1964), "Coração de Vidro" (1964), "As Confissões de Frei Abóbora" (1966), e "O Meu Pé de Laranja Lima" (1968), livros que tiveram grande aceitação, todos eles elaborados à base de suas aventuras nas praias ou na selva. Em 1969 foram lançadas as obras: "Rua Descalça" e "O Palácio Japonês". Em 1970, "Farinha órfã", em 1972, "Chuva Crioula" e, em 1973, "O Veleiro de Cristal".

O autor desses belos romances tem método originalíssimo. De início, escolhe os cenários onde se movimentarão seus personagens. Transporta-se então para o local, onde realiza estudos minuciosos. Para escrever "Arara Vermelha", percorreu cerca de 450 léguas no sertão bruto.

Em seguida, José Mauro dá asas à sua fantasia e, na imaginação, constrói todo o romance, determinando até mesmo as frases da dialogação. Tem uma memória que, durante longo tempo, lhe permite lembrar dos mínimos detalhes do cenário estudado.

"Quando a história está inteiramente feita na imaginação", revela o escritor, "é que começa a escrever. Só trabalho quando tenho a impressão de que o romance está saindo por todos os poros do corpo. Então vai tudo a jato".

Com o seu sistema de ficar dormindo na pontaria até que o livro todo esteja "escrito" na imaginação, conta José Mauro que, ao pôr-se em ação, na fase material de bater à máquina, tanto faz escrever os capítulos, um após outro, como dar saltos; depois de pronto o primeiro passa à conclusão do livro, sem antes ter elaborado o entrecho. "Isso", explica o escritor, "porque todos os capítulos estão já produzidos cerebralmente. Pouco importa escrever a seqüência, como alterar a ordem. No fim dá tudo certinho".

Artista do cinema e da televisão, José Mauro já trabalhou em diversos filmes como "Carteira Modelo 19", que lhe valeu o prêmio Saci como melhor ator coadjuvante, "Fronteiras do Inferno", "Floradas na Serra", "Canto do Mar" do qual escreveu o roteiro, "Na Garganta do Diabo", obtendo o prêmio Governador do Estado como melhor ator, "A Ilha", conseguindo o prêmio de melhor ator pela Prefeitura, e culminando com "Mulheres & Milhões", sendo laureado com o Saci de melhor ator do ano. Dos seus livros, "Vazante", "Arara Vermelha", "O Meu Pé de Laranja Lima", "Rua Descalça" e "As Confissões de Frei Abóbora", foram filmados.

Na televisão, desempenhou numerosos papéis, destacando-se o de Padre Damião. Como ator é também talentoso; suas sóbrias interpretações têm alcançado grande êxito.

Apesar do sucesso no cinema e TV, José Mauro não está satisfeito. Para ele, a melhor coisa do mundo é servir de enfermeiro para os índios.



"Não vejo a hora de meter o peito no mato", diz o escritor, que reside em São Paulo, mas todo ano vai matar as saudades da selva.


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