O veleiro de Cristal



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Sétimo Capítulo

Gabriel, a Lua e o Lago
Edu colocou a cabeça sobre os braços. A cama tão macia e gostosa fazia esquecer a angústia porque passara aquele dia. Até o ardor das pernas desaparecera. Os olhos começavam a pesar anunciando o sono que viria logo.

Bocejou e sorriu lembrando-se da frase de Bolitrô:

— Que você tenha uma noite de lindos sonhos!

Era essa mais ou menos a frase. Mas faltava um pedaço. Fez um esforço de memória. Ah, agora me lembro: — "que você tenha uma bela noite e cheia de lindos sonhos"...

Pensou em Anna. Bolitrô não lhe tinha pedido segredo. Viu os olhos de Anna tão azuis sorrindo bondade. As mãos finas de Anna esquecendo a sua cabeça disforme e passando as mãos em seus cabelos.

Suspirou mais forte e adormeceu.

Se dormira muito não podia calcular. Mas agora estava atento e tinha certeza de que uma pancada de leve batera na sua porta. Escutou mais. Sentou-se feliz. Além da batida uma voz sussurrava do lado de fora.

— Eduardo!... Edu!... Você está dormindo? Conhecia aquela voz inconfundível. Gabriel o estava chamando.

— Entre.

A maçaneta da porta abriu-se e ouviu o caminhar de Gabriel para junto da sua cama.

— Você fechou a porta?

— Encostei só. Não tem perigo. Ninguém vai nos ouvir. Mas Edu começou a ficar desconfiado.

— Então por que você me chamou tão baixinho. Gabriel sorriu compreensivamente.

— Ora, bobinho, eu não queria assustá-lo.

— Se é assim está bem. Mas como você veio até aqui?

— Já deu meia-noite. Depois da última pancada essa casa é obrigada a adormecer. Então começa a magia do nosso desencantar. Passe a mão na minha cabeça.

Edu obedeceu.

— Mas são pêlos macios como se fosse um gato.

— Todo tigre é um gatão.

— E como você conseguiu perder aquela dureza de cobre?

— Não perdi. Aquela dureza ficou lá no outro. Eu sou uma espécie de alma dele.

Edu ainda estava espantado.

— E se Anna acordar?

— Não tem perigo algum. Antes de chegar aqui passei pela porta do seu quarto e fiz um passe mágico. E não se assuste mais porque embaixo no veleiro toda a tripulação dorme. A noite é totalmente nossa.

— Foi por isso que Bolitrô me desejou uma linda noite de sonhos.

— Claro. Mas você está acordado.

— É verdade.

— Agora vamos depressa, amiguinho. Não temos tempo a perder.

— Mas eu não posso.

— Pode sim. Você vai montar no meu dorso e eu vou lhe mostrar a lindeza da noite que tanto lhe prometi.

— Mas eu sozinho não posso colocar meus aparelhos. É muito difícil.

— Eu já lhe dei um toque mágico também. Levante-se. Amedrontado Eduardo não conseguia obedecer.

— Acredite em mim, amigo. Se duvida passe as mãos na sua perna.

Obedeceu e sentiu-se normal, com as pernas recuperadas. Será que saberia andar com aquelas pernas. Gakusha adivinhou os seus pensamentos.

— Experimente sem receio algum.

Desceu da cama e caminhou com o coração aos pulos. Ficou com os olhos cheios d'água. Ajoelhou-se junto de Gabriel e apertou o seu pescoço soluçando.

— Sabe, Gabriel. Tanto eu pedi a Deus que pelo menos uma vez antes de morrer eu gostaria de andar como um menino sadio. E agora, você, Gabriel, faz esse milagre.

— Vamos, vamos, que isso não é tudo. Hoje vai ser uma noite maravilhosa para você.

Saíram sem fazer barulho. Atravessaram o grande corredor envidraçado e a noite apareceu em toda a sua magnitude. A lua clareava o mar e as árvores. Desceram a escada e Edu lembrou-se que na certa Bolitrô se encontrava já adormecido na sua noite de lindos sonhos também.

— Agora use esse quepe de capitão. Você saiu da cama com o corpo quente e eu não quero que pegue um resfriado ou uma pneumonia.

Eduardo segurou o quepe na mão desanimado. Era tão pequeno, não ia caber. Comunicou sua duvida a Gabriel.

— Passe a mão na sua cabeça e veja porque estou lhe o quepe.

Obedeceu e suas mãos seguraram maciamente a sua cabeça. E ela tinha diminuído também. Colocou o quepe com prazer. Estancou um momento e Gabriel o admoestou.

— O que foi agora, Edu?

— Me deu uma vontade estranha, Gabriel. Uma vontade de entrar naquele banheiro e olhar-me no espelho.

— Isso nunca. Você teria que acender a luz. E depois o espelho é o maior inimigo das ilusões e dos sonhos.

Tentou esquecer aquele desejo no coração. Bem que gostaria de se ver perfeito. Refletido no espelho com a sua cabeça normal e suas pernas perfeitas. Pena também que Anna não o visse assim transformado.

Quando chegaram no terraço de fora Gabriel ordenou:

— Agora monte sobre o meu dorso e segure na pequena juba do meu pescoço.

À luz da lua Gabriel parecia ter crescido, se agigantado. Os grandes músculos das pernas e do dorso, estavam em contínuo movimento. Muito mais lindo do que a bela estátua. Suas listras brancas e amareladas se confundiam com outras negras sedosas e com o vermelho queimado do seu pêlo.

Falou com brandura:

— O que você está esperando, Edu? Não quer ir?

— Não é isso. Estava observando você. Você de carne e osso é tão mais imponente do que o tigre de bronze.

Ele riu e apontou.

— Pois eu ou ele está lá. E a luz da lua reflete o corpo de bronze nas águas da piscina. Pode-se dizer que ele é a minha casa.

— Então, estou pronto.

— Segure-se bem. Porque você vai ver uma outra maravilha. Mas tem que esperar pelo menos meia hora até que eu recupere todas as minhas forças, por enquanto é muito cedo para a surpresa.

Caminharam pelos terraços de pedra e procuraram o caminho da serra.

— Foi ali que eu fiquei preso outro dia.

— Proíbo de você pensar em coisas desagradáveis. O que vou lhe mostrar nenhum ser humano conseguiu avistar.

Agora as grandes pedras que circundavam a casa iam ficando maiores à luz da lua. O mar gemia lá embaixo tão de manso que nem parecia o mar bravo quando existia o sol.

— Por que o mar está tão calmo, Gabriel?

— Está dormindo. De manhã e de tarde ele se agita tanto, gasta tanta energia que de noite dorme pesado esquecendo até de olhar as estrelas e a lua.

Chegaram até pertinho de umas pedras rentes ao mar. E as pedras estavam cercadas por uma saia de branca espuma. Dava até para ver as baratinhas e os siris caminhando entre as algas.

Um cheiro de lírio-do-vale enchia a noite de prazer.

— Vamos atravessar um vale cheio desses lírios. Agora segure-se bem que vamos saltar de pedra em pedra.

Os saltos de Gakusha faziam sombras moverem-se sobre a lisura das pedras.

Ai que maravilha, Gabriel! Quando você salta eu sinto todos os seus músculos se movimentarem sob as minhas pernas. Seu coração parece até bater mais violento pelo esforço. Parece que estamos voando e a vida dança em nossa volta.

— Você está se revelando um poetazinho em potencial. Agora vai ser mais difícil a caminhada porque estamos chegando no sopé da serra.

E quando iniciaram a subida, um mundo diferente apareceu. No começo eram túneis de bananeiras selvagens, bananeiras bravas que uniam as suas folhas alongadas. Depois o caminho ficava menor e se transformava numa trilha minúscula. Somente os olhos e a prática de Gabriel podiam fazê-lo andar sem perigo. Não tocavam em nada. Não roçavam sequer nas folhas dos arbustos. As grandes patas de veludo do tigre conheciam palmo a palmo toda aquela pequena selva.

Depois de algum tempo de viagem na escuridão das árvores e das folhagens, tudo se abriu como por milagre. Tinham desembocado na parte arredondada do morro.

Eduardo saltou do dorso de Gabriel e bateu palmas de alegria. Sobre sua cabeça a noite se mostrava varada de estrelas e ainda a lua dominava tudo, redonda, redonda.

— É lindo o céu, não Edu? Mas olhe para baixo, para a terra dos homens para aquele mar adormecido riscado de brilhos de luar. E olhe ali.

Eduardo obedeceu cada vez mais extasiado. A direção onde ele indicava dava até arrepios de beleza. O veleiro apagado parecia balançar dentro d'água e toda a água estava iluminada de lua. Ali dormia Anna, dormia Maria Jurandir, dormia Bolitrô e dormiam também todos os seus mistérios.

— Bem, agora vou fazer o que lhe prometi. Já recuperei todas as minhas forças. Você precisa tornar a montar-me e esquecer de uma coisa que se chama medo. Promete.

— Perto de você não temo nada e nada poderá fazer-me mal.

— Assim, sim. É melhor.

Eduardo obedeceu e montou em Gabriel.

— Para que você não vá se assustar, aviso-o. Nós vamos voar. Essa era a surpresa que eu lhe reservava.

— E você pode?

— Tão bem como se caminhasse. Até cansa menos. Pronto?

— Pronto.

Gabriel correu até a beira da serra e deu um salto. O corpo retesou-se e os músculos dele pareciam de aço. Ficou assim por um segundo até alcançar o equilíbrio perfeito no espaço.

— Pronto. Agora pode falar. Iremos aonde você desejar.

— Circularemos primeiro o veleiro?

— Como você quiser.

A casa adormecida se aproximava rapidamente. E Gabriel desviava-se das árvores e das pedras.

— Que coisa mais linda e mais gostosa, meu Deus. Obrigado por ter-me dado essa oportunidade de ver mais belamente as coisas que você criou.



Rodearam a casa diversas vezes e Edu passou perto da janela de seu quarto. Junto da de Anna, teve vontade de chamar pelo seu nome. Se ela ao menos pudesse estar comigo agora. Amanhã não poderia contar o que acontecera porque jurara segredo a Gabriel. Mas mesmo que pudesse contar os olhos de Anna fingiriam acreditar e acabaria por ouvir: — sonhe o quanto puder, meu filho.

Voaram bem perto dos barcos ancorados dos pescadores. Aproximaram-se dos ranchos e dava até para ver as redes estendidas para secarem com a brisa da noite.

— Gabriel, a gente podia ir um pouco mar adentro?

— Muito não, tá? Porque ainda quero mostrar uma coisa muito linda para você.

Voltaram-se para o mar e ele apenas respirava na sua grandiosidade.

— Bem pertinho dele, Gabriel.

Voavam até sentindo a frialdade do mar e o seu cheiro de maresia.

— Posso me abaixar e tocar com o dedo, com a mão nas suas águas?

— É só você querer.

— Não há perigo?

— Nenhum.

Então Eduardo pode fazer uma coisa linda, uma das coisas mais lindas do mundo.

Enfiava a mão na água, criava rosas branquíssimas de espumas e atirava-as para o alto como se oferecesse flores para a lua.

Já haviam retornado ao ponto de início do vôo. Edu não podia acreditar em tantas maravilhas. Gabriel deitara-se de comprido e levantava as narinas para o alto respirando fortemente. Na certa o esforço do vôo desgastara as suas energias.

— Ainda não acabou o passeio, não?

— Ainda estamos na metade. Temos muita coisa bonita ainda para ver. Só preciso recuperar um pouco de fôlego e continuaremos a subir a serra.

— Vamos tornar a voar? Gabriel sorriu com brandura.

— Você gostou, não foi?

— Nunca pensei que voar fosse tão fácil. Acreditava que para os pássaros e para os anjos isso seria uma coisa comum. Mas a gente...

— É. Porém agora só poderemos atingir o alto da serra caminhando. Voltaremos a sentir o cheiro do mato e os perfumes das flores da noite.

Tornou a respirar mais fortemente e parecia tomar uma decisão.

— Já se sente descansado, Edu?

— Mas eu não me cansei, Gabriel. Você foi quem fez toda a força. Eu apenas engoli beleza todo o tempo.

— Então vamos. Torne a montar e segurar fortemente em meu pescoço.

Era tão macio andar montado no tigre que os olhos fechavam-se de prazer. Sentia toda a caminhada de olhos fechados. Sabia que alcançávamos a maior altitude da serra e que caminhávamos na sombra das grandes árvores. Ali raramente um raio de lua poderia transpor o fechamento da vegetação. Só entreabriu os olhos quando começou a sentir o odor dos lírios-do-vale que na noite parecia se multiplicar.

— Está sentindo, Edu?

— O perfume dos lírios?

— Outra coisa?

— O cheiro da água próxima.

Aí então Gabriel caiu na realidade. O menino não era como ele e não poderia se aperceber dessas coisas. Disfarçou logo o seu engano.

— São as águas do lago. Não vá pensar que é um grande lago. Na verdade é uma pequenina lagoa onde existe a reserva de água do Veleiro. Explicando melhor, não passa de uma grande água cercada por pedras muito bonitas. Eu o chamo de meu lago, porque apesar de pequeno dá para refletir a nudez branca da lua e os brilhos de todas as estrelas.

Saíram da mata e o pequeno lago apareceu. Edu bateu palmas de encantamento.

— Mas é maior do que eu esperava.

— Gentileza sua, meu menino. Vamos para aquela parte mais alta. Dali a gente avista toda a grandiosidade do mar e a paisagem se torna mais bela de qualquer ângulo que se espie.

Sentaram-se lado a lado e a lua refletindo no mar oferecia um panorama inexplicável. Agora dava para ver o vulto encolhido do Veleiro dormindo na noite. Dentro dele, sem desconfiar de nada dormia Anna. O que era bonito mesmo era ver a lua refletida no lago. E as estrelas também a mirarem-se nas águas calmas.

— Sabe o que eu pensava das estrelas antigamente quando havia noite de tempestade, Gabriel?

— Diga.


— Eu tinha um medo danado de que o vento desarrumasse tudo e misturasse as constelações. Assim como se uma estrela saísse do seu lugar e penetrasse noutro desenho do céu. Anna que me explicou que as estrelas não eram aqueles pontos pequenininhos que a gente via. Que eram mundos maiores e mais pesados que o nosso. Por isso se viesse o maior vento do mundo não conseguiria abalá-las.

— Que inocência!...

Ficaram uma porção de tempo parados para absorver em silêncio aquela belezura toda. Entretanto o êxtase foi abalado por um bater de grandes asas. A alegria tomou conta de Edu. Pousada em um galho próximo Dona Maria Jurandir viera também apreciar o esplendor selvagem da noite.

— Ora viva! Que vocês estão fazendo por aqui? Meio contrariado com a intrusão de Mintaka respondeu com certa secura:

— Quis mostrar o lago para Eduardo numa noite de lua.

Dona Maria Jurandir sem dúvida era sempre muito sardônica.

— Que lago, Gakusha?

Gabriel entendeu o veneno mas não se sentia disposto a qualquer discussão.

— Ora, Mintaka... Pelo menos o seu mau humor não vai dizer que a noite não está bela.

Ela deu um muxoxo roufenho e desabafou.

— É uma noite razoável. Nada de maravilhosa, mas dá para encantar.

Gabriel perdeu a paciência.

— Sabe de uma coisa Mintaka. Não estrague a nossa alegria. Nós, nós dois estamos fascinados por esse momento.

— Está bem. Está bem. Vou tratar da minha vida. Não quero prejudicar a felicidade de ninguém. Até logo.

Afastou-se num vôo lindo em forma de círculo. Gabriel resmungou entre dentes.

— Deus do céu! Que desagradável criatura! Edu penalizou-se.

— Ela não tem mau coração. É o seu jeito de ser assim.

— Está certo. Mas nunca vi uma criaturinha com uma vontade constante de estragar os prazeres dos outros.

— Vamos esquecer que ela apareceu aqui. Na realidade a vida é um contínuo encantamento.

Voltaram ao silêncio anterior para melhor escutarem a música da vida e do silêncio. Até o vento parecia agitar-se sem fazer barulho.

Edu deitou-se no chão e apoiou a cabeça nas mãos. A relva macia nem machucava o corpo. Queria naquela posição apreciar mais as estrelas do céu de Anna. As contínuas modificações mostravam que as estrelas viajavam muito. Senão porque elas subiam, depois iam baixando, baixando até desaparecerem. Uma viagem numa estrela deveria ser mais bonita do que em qualquer veleiro. Pena que elas estivessem tão altas. Porque naquela altitude não poderiam tocar na maciez do mar como ele o fizera voando com Gabriel.

Subitamente foi tomado por uma idéia.

— Gabriel quem é você?

— Ora que pergunta.

— Eu gostaria que você me contasse sua história.

— Meu amigo, não é grande coisa. Até que a minha vida não teve assim tamanha importância. Um tigre real não passa de uma figura decorativa.

— Sim, mas eu li histórias, vi fotografias de tigres como você fazendo o terror na selva.

— Pouco conheço de selva e assim mesmo por ouvir contar. Por participar de comentários de outros tigres amigos. O que aprendi sobre caçadas de tigre foi somente por escutar. Os caçadores montados em elefantes, os batedores acuando as feras com os nativos ensurdecendo tudo com os tambores, E os tigres acuados até que chegasse o tiro de misericórdia. Depois os caçadores levavam a caça como troféu. Uma coisa sem a menor conseqüência.

— Tudo isso eu já li, Gabriel. Mas eu queria uma coisa diferente.

— Pois então. Os livros são muito mais sábios que qualquer tigre.

— Não, amigo, eu não quero ofendê-lo. Só estou me interessando por você que em matéria de tigre foi o mais formidável que me apareceu.

Gabriel riu da lisonja.

— Mas o que vou contar para você da minha vida? Ficou se concentrando no passado enquanto a vista percorria o céu iluminado.

— Pensando bem, eu não gosto de mentir. Nunca fui um tigre terrível e violento. Não era de me encolerizar. Nada disso. Portanto só posso lhe contar a verdade a meu respeito. Fui retirado da selva com poucos dias de nascido. Fui criado num palácio com outros tigres reais que também não sabiam fazer nada. Nossa vida era um eterno passeio pelos jardins do palácio. Nem sequer sabíamos caçar. Se isso fosse obrigado a nos acontecer, creio que morreríamos de fome. Nós nascemos só para sermos belos e decorar as festas, as danças, para esparramar a nossa indolência pelos grandes salões. Para escorregarmos as nossas patas pelas escadarias de mármore e tapetes orientais. Éramos tratados como deuses. E como nada nos era recusado não havia com que nos aborrecer. Talvez por isso cada tigre real tinha a capacidade de ter um bom coração.

Parou um pouco a narrativa e olhou meigamente o menino.

— Eu evitei contar-lhe a minha história para não decepcioná-lo. Não foi uma vida de grande aventura e sim de enorme comodidade.

— Mesmo assim, Gabriel, sua vida é uma sensação.

— Pode ser. Mas eu prefiro agora o momento que atravesso. Logo que descobri o desencantar, minha vida melhorou. Se bem que não possa me afastar do outro tigre de bronze. Mas tendo esse meu lago e todo esse céu me quedo satisfeito. Na realidade, isso aqui é muito mais poético do que a vida num palácio chinês ou oriental como queira.

Lambeu as patas caprichando na limpeza delas. Queria retirar qualquer mato ou galhinho que se intrometera nas unhas durante a caminhada.

Os olhos de Edu começaram a se fechar. Queria lutar contra o sono e não adquiria resistência. No alto as estrelas dançavam. Tentava abaixar a vista para as águas do lago e elas ainda dançavam mais. Estava confundindo as constelações. Sorria de leve porque nunca a natureza tinha sido tão amiga e tão bela para ele. Foi fechando as pálpebras devagarzinho e rolou a cabeça para o lado.

Gabriel ao lado observava tudo. A sua luta impotente contra o Sono.

— Durma, meu filho. Felizes os que têm o adormecer tão calmo. Que deste seu dormir até o momento do Grande Sono, a paz esteja sempre em sua alma.











Oitavo Capítulo

Conversas, Simples Conversas
- Não sei como você pode perder tanto tempo conversando com um sapo tão entojado e sem interesse.

— Pode ser. Mas comigo ele se porta como um verdadeiro cavalheiro.

Mintaka silenciou um momento. E Edu pôde observar que os seus momentos de mau humor continuavam mais uma vez.

— Mintaka como é que você pode escutar a minha conversa com Bolitrô? A distância é muito grande.

Por favor, Mintaka, não. Meu nome legalizado é Maria Jurandir.

Edu riu deliciado. Se fosse ele a coruja, preferiria muito mais ter o nome de uma estrela do que uma mulher assassinada com mil e tantas facadas.

— Está bem, Dona Maria Jurandir.

— No mínimo ele contou sobre a sua nobreza. Falou que nasceu em berço de ouro e outras bobagens que tais, não?

— Nada disso. Conversamos coisas sem importância é verdade, mas se a senhora diz que escutou tudo. Não deve ignorar o conteúdo da nossa conversa.

— Também não tem a menor importância. Uma pequena irritação a constrangeu.

— Por acaso, menino, você sabe como nasce um sapo?

— Mais ou menos.

— Não, quero uma resposta mais exata. Edu sentiu-se embaraçado.

— Pois olhe essa aqui, quando morava na selva vi muito nascimento de sapo. E de sapo de todas as espécies. Principalmente os grandões e de raça. Não um sapinho anêmico qualquer como esse janota.

Edu estremeceu de prazer.

— Agora sim, Dona Maria Jurandir. A senhora tocou num assunto que me fascina: a selva. A senhora nasceu mesmo na selva?

Estufou as penas do peito com orgulho.

— É natural. Não sabia?

— Bem. Faz muitos dias que a senhora me promete contar a sua história e depois tira o corpo fora.

— Se eu fosse você não insistia. Minha história é muito boba. Boba demais até.

Mintaka concentrou-se e seus brilhantes olhos pareceram percorrer um passado distante.

— Foi assim. Primeiro é preciso que se corrija um tremendo erro a meu respeito. Eu não sou uma coruja como todos esses ignorantões daqui me chamam. Eu sou da raça dos jacurutus. Daí você vê que a minha estatura suplanta qualquer outra coruja comum. Mas veja bem. Minha plumagem se divide principalmente em dois tons. Sou toda dividida em pedaços pretos e brancos. Antigamente existiam uns frades dominicanos que possuíam um hábito parecido com o meu corpo. Mas isso foi antigamente. Porque com a evolução é difícil a gente distinguir qualquer religioso de outra pessoa.

Pigarreou ainda meio mal humorada. Edu pensava como devia ser difícil uma criatura tão complicada conviver com os outros.

— Tinha acabado a época das grandes chuvas. Os rios enormes começavam a baixar e todo canto foi invadido de praias alvas e brilhantes. A selva depois de tanta chuva esbanjava uma beleza luminosa em todo seu verdor. Desde que as grossas chuvas sumiram. Que os grandes temporais se afastaram no meio dos seus raios e dos seus estrondos, a natureza reviveu música e alegria. Mamãe tinha feito um ninho confortável no topo de uma frondosa mirindiba.

Edu extasiado interrompeu:

— Como é mesmo o nome? — Mirindiba. Uma árvore portentosa da selva.

— De que lugar?

— Ora da selva de Goiás. No braço direito do Rio Araguaia que os brancos batizaram de Javaé.

— Sei.

— Dos três ovos chocados só nasceram dois pintos. Meu irmão e eu. Como você sabe, minha mãe tinha mania dos astros. Por isso me batizou com o horrendo nome de Mintaka e meu irmão com o pavoroso, bárbaro, estúpido nome de Canopus.



Edu ficou perplexo. Canopus feio? Se Anna soubesse disso nunca iria perdoar a língua de Maria Jurandir.

— Já estávamos bastante emplumadinhos quando começaram a chegar as visitas. Todos queriam cumprimentar Mamãe e desejar-lhe felicidades.

Primeiro chegou um jaburu moleque e desajeitado mirou-nos um a um. Não soube esconder a sua decepção.

— Mas não é por nada, falou ele em sua franqueza, mas os seus bichinhos são feios de fazer dó.

Mamãe olhou-nos com um olhar coruja e comentou:

— No começo é assim mesmo. Depois de emplumados ficarão dois lindíssimos jacurutus.

E a semana inteira foi assim. Ouvíamos o batido de asas. Os galhos da mirindiba balançavam com o peso e lá vinham os comentários.

— Horrorosinhos!

— Se a gente visse essas bruxinhas de noite perdia o sono.

— Credo! Abriram a porteira da feiúra.

— Podia bem alugar esses monstrinhos para espantalhos.

— E foi assim nesse clima que crescemos. Depois começaram os vôos de instrução de mamãe. Ela tinha uma paciência incrível com o nosso desajeitamento. Era-nos difícil os primeiros controles das asas e das penas da cauda. Se a gente confundia tudo era cada vácuo, cada trambolhão no espaço que humilhava. Se não fosse a grande paciência de mamãe eu até que desistia.

Pensou uma coisa e interrompeu a sua conversa.

— Dona Maria Jurandir a senhora nunca se casou? Ela ficou espantada.

Que pressa danada, menino. Pois eu ainda nem aprendera a voar. Mas vou já adiantando. Não casei não. Não deu tempo.

Foi a primeira vez que Edu viu a coruja meio emocionada. Estranho, Mintaka devia ser como Anna. Anna nunca tinha casado e se não possuía o gênio rabugento da coruja, em compensação possuía uma dose igual de solidão.

— Onde é que eu fiquei mesmo?

— No pedaço que não deu tempo.

— Ah sei. Mas você embaralhou tudo com as suas perguntas. Nem tem paciência de esperar os acontecimentos normais da vida.

— Porque foi que não deu tempo, Dona Maria Jurandir?

— Por que um dia um caçador...

Ouviram passos no corredor. Anna ou enjoara da novela ou sentira qualquer coisa. Podia até ser saudades suas.

— Lá vem ela.

Maria Jurandir levantou vôo assustada e foi procurar o seu lugar na estante. Antes falou apressada.

— Mais tarde eu acabo de contar o resto.

— Está bem. Muito obrigado. Anna entrou no ambiente.

— Tudo bem, meu filho?

— Tudo.


— Estranho, eu tive a impressão de que ouvi barulho de pássaro voando.

Edu desconversou.

— Aqui?

— Sim. Por aqui. Um ruflar de grandes asas.



— Que é que é ruflar?

Na estante Maria Jurandir devia estar chamando-o de cínico, de espertalhão.

— Ruflar é bater de asas.

— Mas na história que você contou era batida de tambor.

Anna sorriu e passou a mão em suas faces.

— Bobinho. Rufar é de tambores. Ruflar é bater de asas.

Só então ela tomou conhecimento porque subira antes da novela acabar. Precisava falar ao menino. Doía, mas precisava falar a verdade. Pena que ele estava tão feliz, tão contente da vida nessa temporada.

— Edu, é dolorido, mas eu preciso falar uma coisa. Pelo silêncio Anna sabia que ele tinha adivinhado.

— Sobre a viagem, não é?

— Exatamente. Nossos dias foram maravilhosos, não foram?

— Foram sim.

— Mas as coisas boas não demoram muito.

Edu completou a frase resolutamente. Porque se demorasse a tomar uma atitude aquilo iria doer na certa.

— A nossa viagem está chegando ao fim, Anna.



— É isso, querido. Dentro de poucos dias começaremos a arrumar a bagagem, porque o veleiro está chegando ao ponto da nossa partida.







Nono Capítulo

Ao Cair das Velas
— É uma pena dona Maria Jurandir. Amanhã cedo, bem cedinho a gente vai embora.

Os olhos vidrados da coruja dormiam em outros mundos.

— Mas não é uma pena só por isso. Pena porque vou sem poder falar com a senhora. Sem saber o que foi que lhe aconteceu com a chegada do caçador.

E como o silêncio respondia à sua tentativa de dialogo, comentou:

— Garanto que vou sentir saudades da senhora. Que a sua conversa muito embora às vezes triste, era bastante agradável. Hoje é quarta-feira, não é? Eu sei que somente terças, quintas e sábados a senhora pode desencantar. Mas em todo caso vim dizer o meu adeus amigo. O veleiro atracou, amanhã abaixará todas as velas. Todas as velas mestras: o traquete, a vela grande, a gávea e o velacho.

Elas serão enrodilhadas e amarradas com cordas e só sairão daquela posição quando o veleiro reiniciar a viagem. Mas que importa outra viagem se eu não estarei à bordo dele? Ou estarei?

Mexeu-se nas suas muletas e caminhou até a mesa de jogo. Com certa facilidade até, sentou-se numa cadeira para de lá observar a figura impassível do jacurutu. Riu. Sim jacurutu era como gostava de ser chamada. Era como dizia estar legalizada nos papéis. Pobre dona Maria Jurandir. Não fora os olhos redondos, brilhantes e muito abertos, dir-se-ía que estava dormindo.

Edu não ignorava o que estava fazendo. No seu pequeno mundo de poucos acontecimentos gostava de decorar as melhores coisas. Decorar na saudade para depois lembrar-se devagarzinho e com ternura.

— ...porque um caçador...

E o resto? O resto procuraria adivinhar porque jamais na vida tinha certeza de encontrar dona Maria Jurandir.

O resto? Bem ela dissera que não dera tempo. Aquele tempo deveria se referir ao tempo de vida. Então ela fora um jacurutu que morrera bem cedo. Então o caçador deveria na certa ser um turista. O caçador levara-a para a cidade e mandara que a empalhasse de uma maneira que parecesse viva. Era isso. Na certa depois fizera um presente dela a um amigo. Se não fosse isso pelo menos a história estava bem contada.

Tornou a esforçar-se para se levantar. Estava realmente mais forte e decidido. Anna tinha razão. Aquela casa lhe fizera um bem enorme. Postado nas suas muletas arrastou-se para a porta do salão porque de nada adiantava ficar conversando sem eco com o jacurutu.

Foi aí que a tristeza cortou bem fundo os seus pensamentos.

— É a vez dele.



Referia-se a Gakusha ou Gabriel. Com ele sim a coisa iria doer muito. Porque com ele deixava metade de sua alma, dos seus anseios e das suas confissões. Nunca a escadaria lhe pareceu tão longa para descer. A cada muleta colocada procurando o degrau, naquela lentidão cuidadosa parecia estar caminhando sobre a insignificância do próprio corpo.


***
Virou rapidamente a cabeça e deparou com Anna colada ao vidro. Observando os seus olhos, se não fosse de tão longe diria que Anna chorava. Na certa estaria se preocupando com o que viria breve, logo que acabassem a viagem. Preocupava-se com a operação. "Anna querida. Eu nem penso nisso. Não se amedronte que enfrentarei tudo com muita coragem. Nem sei bem o que vão fazer com o meu coração. Sei que descobriram um desvio ou coisa parecida. Se me operarem, pelo menos não me cansarei tanto, não é isso, Anna?"

Amparou-se bem nas muletas e soltou uma das mãos como se quisesse enviar-lhe um beijo. Sorriu e dessa vez, Anna não chorava, sorria.

E agora, meu Deus? A vontade amolecia quando procurava aproximar-se de Gabriel. Talvez fosse melhor voltar. Deixá-lo sem dizer o menor adeus. Talvez assim doesse menos para ambos. Mas isso não passava de uma grande covardia. Afinal Gabriel o acolhera como se fosse um irmão. Mais irmão do que Serginho e Marcelo. O que se tornava cruel era não poder revê-lo na partida num momento de desencantamento. Falaria com o tigre de bronze mas não com o maravilhoso Gakusha. Nem sequer poderia alisar o seu pêlo luzidio. Voltou os pensamentos para Bolitrô. Com ele seria diferente. Ao entardecer poderia conversar com ele, apertar-lhe a mão com amizade. Com Gabriel e Mintaka, não conseguiria mais. Talvez que quando fosse saindo o adeus do coração alcançasse lhes dizer alguma coisa.

Criou coragem e caminhou para junto da estátua. Não teria muitas palavras, porque a emoção iria estragar tudo.

Os olhos ficaram nublados e o seu silêncio permanecia.

— Não fique assim, meu amigo.

— Como posso não ficar? É difícil Gabriel. Amanhã cedo estarei partindo. Hoje à noite você não poderá aparecer no meu quarto porque Anna estará arrumando tudo para nossa viagem.

— Eu sei.

— E isso não é terrível?

— Concordo, mas faz parte dessa coisa chamada vida. Os bons e os maus momentos. Só quero que não se emocione muito. Porque seu coração está bastante forte. Mesmo você. Adquiriu uma cor sadia tão diferente daquele menininho pálido que aqui apareceu pela primeira vez.

— Vou sentir muito a sua falta, Gabriel.

— Eu também. Acredite que as minhas próximas noites vão ficar muito vazias.

— Em compensação vou levar o meu coração cheio de tantos momentos de beleza e fantasia. Gabriel eu tenho que dizer adeus. Não posso demorar-me porque titia virá logo me buscar. Ficarei aqui até o momento que ela apareça. E então não poderemos falar mais.

— Só lhe peço uma coisa. Que nunca se esqueça da gente. Agora o mais importante é uma promessa que você me fará: nunca ter medo de nada, de nada que surgir à sua frente.

— Você se refere a minha operação?

— Principalmente isso. Edu tornou a se emocionar.

— Gabriel, você acha que a minha operação vai dar certo?

— E por que não? Não será coisa de tanto perigo e só o fato de você poder viver se cansando o mínimo já é uma maravilha.

— Não sei.

Silenciaram um instante e Edu perguntou desanimado:

— Gabriel, será que nunca mais vou ver você?

— Um dia a gente se encontrará. Quem sabe se sua tia não trará você de volta mais tarde?

— É duro dizer adeus.

Com dificuldade passou a mão sobre o dorso de Gabriel.

— Sabe de uma coisa, Edu? Um dia eu prometo que irei buscá-lo para uma viagem linda. E o veleiro será diferente porque poderá voar até.

— Você fala seriamente?

— Por que mentir a um amigo?

— Não é porque você está com pena de mim?... com pena porque vou fazer essa operação?...

— Nada disso. Estou lhe falando porque sou seu amigo e mesmo de longe sempre estarei pedindo À Vida por você...

— Ela vem vindo. Adeus Gabriel.

— Adeus, meu filho que a ternura faça ninho no seu coração.

— E a viagem?

— Está prometida. Espere com todas as esperanças e fé na alma.

— Adeus, Gabriel.

— Adeus.










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