O veleiro de Cristal



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Quinto Capítulo

Conversas nas Tardes sem Importância
Das vidraças do tombadilho como ele chamava, Anna acompanhava o seu caminhar desengonçado se encaminhando para a piscina. Não havia dúvida que o menino não se entregava. Procurava fazer tudo sozinho sem incomodar os outros. A pele do seu rosto perdera aquela palidez da cidade e escurecia aos poucos tomando um tom sazonado.

Dera ordem para que sempre deixassem uma cadeira longa nos lugares onde Edu preferia ficar. E ali, na piscina junto do tigre que ele batizara de Gabriel, ele se postava até a noite cobrir o mar. Quando ia buscá-lo para jantar ele parecia despertar de um longo sonho. Agora conseguia com o próprio esforço subir as escadas largas que levavam à sua cadeira de sonho.

Uma sensação opressiva apertou o peito de Anna. Será que ele teria forças, agüentaria a operação? Resolveu banir os pensamentos tristes porque a tarde se alastrava linda e um vento saboroso chegava do lado das praias. Era melhor molhar o jardim do lado da casa, porque o dia fora de muito sol e calor. Mais tarde voltaria junto do menino para tentar ajudá-lo a levantar-se. Até isso ele agora conseguia, agarrando-se fortemente na cadeira e erguendo o corpo com cuidado.
***
— Eu, mesmo com o barulho da chuva, conseguia ouvir você chorando. E para o meu desespero nada podia fazer.

— Eu entendo, Gabriel. Muito obrigado. Você é amigo de verdade.

— Mas por que ela fez você chorar tanto?

— Não foi sua culpa: eu que resolvi contar a minha história. E com muita calma, vencendo todos os momentos de angústia e depressão Edu relatou tudo para Gabriel. Ao acabar, o Tigre se encontrava pensativo e murmurava quase incrédulo.

— Mas quem sabe se sua mãe não tentou telefonar algumas vezes?

— Não acredito não.

— Ora você viu que com o temporal até a luz elétrica falha às vezes.

— Pode ser. Mas se ela quisesse teria telefonado. Ora você não conhece Mamãe. Ela consegue tudo o que quer. A única coisa que falhou na vida dela, fui eu.

— Não repita isso que é muito triste.

— Na verdade não telefonou porque não quis.

— Ela sabe que você está muito bem e que tudo corre às mil maravilhas. Mesmo porque você está acompanhado dessa criatura maravilhosa que é a sua tia Anna.

Eduardo abanou a cabeça desanimado.




— Você não quer é entender. Quer saber de uma coisa? Não faz muito tempo ela esteve na Argentina, em Buenos Aires. E sabe o que ela fazia todas as manhãs? Telefonava para acordar Marcelo e Serginho. Isso todos os dias.

— E você?

— Ora eu. Eu na certa ela achava que estava dormindo.

— Vamos mudar de assunto porque você não pode ficar triste nem aborrecido que faz mal ao coração. Você sabe bem disso.

Calaram-se e vendo que Edu não tinha ânimo de recomeçar o bate-papo arriscou uma observação.

— Você não devia estar sempre tagarelando conversas trágicas com a coruja.

— É o feitio dela.

— Eu sei e foi por isso que passei a evitar a sua companhia.

— Inda bem que eu não contei pra ela a coisa mais triste da minha vida.

— Fez muito bem.

— Mas eu quero contar para você.

— Não faça isso. Já avisei que tudo que dói faz mal ao seu coração.

— Você é meu amigo ou não é?

— Você sabe a verdade.

Pois bem, eu preciso lhe contar. E contar com calma. Porque cada vez que eu for contando, vou me acostumando com a coisa e perdendo a emoção. Você entende? Que de tanto falar da minha vida, a qualquer hora dessas não sofrerei mais.

— Pois se você acha que alivia, ouvirei o que quiser. Eduardo se concentrou em seus pensamentos e foi buscar no seu pequeno passado aquilo que mais o torturava.

Então Eduardo fechou os olhos para não enxergar toda a beleza do mar nem todo o azul do céu. O que iria repetir não possuía sons, músicas ou qualquer sinônimo de beleza.

— Quando em meu coração cresceu a certeza de que não era como os outros, que minha presença causava nojo ou mal-estar, comecei a me retirar dos outros e a me esconder mais comigo mesmo. Perdi a vontade de comer, de sorrir e de viver. Gostava de me afastar me trancando no quarto ou procurando lugares sem luz, me abrigando na sombra, fugindo dos outros e da sua irritação ou piedade...

E Eduardo foi falando baixo como se contasse para si mesmo. E Gabriel escutava entristecido.

Contou como seu novo modo de agir irritava mais os outros. Como o seu silêncio desesperava a todos. Mesmo Anna não compreendia tamanha modificação. Por mais que sua paciência e resignação quisessem compreender não podia explicar o meu desinteresse pelos estudos ou por tudo que me cercava. Falava-me, exortava-me e nada. Chegaram a conclusão que uma tendência à demência me atacava. Papai já nem tinha olhos para reprovar-me. Mamãe continuava cada vez a afastar-me das visitas.

Sabia, pois comentavam sempre, que consultavam a opinião de vários médicos e alguns vieram me falar. O meu desinteresse afundava mais meus pequenos olhos dentro das órbitas e a luz que deveria haver neles tendia sempre a desaparecer.

Um dia Anna me apareceu com os olhos vermelhos de tanto chorar.

— Querido, você precisa tentar melhorar. Os soluços entrecortavam seus suspiros.

— Tente compreender, querido. Se você não faz um esforço, será levado para um internato de meninos excepcionais. E não é o seu caso. Você sabe que não é o seu caso.

Edu silenciou e Gabriel perguntou aflito:

— Você quer me contar mesmo isso, Edu?

— Preciso.

E uma manhã arrumaram tudo que era seu e teve que partir. A seu lado no carro, encontrava-se Anna, encolhida, que só se interrompia, só vencia a sua angústia para levar o lenço fino aos olhos. No começo, pegava-me as mãos e me olhava nos olhos; e se murmurava alguma coisa não passava de um "pobrezinho" ou algo parecido que sua voz trêmula confundia. A emoção confundia agora a fala de Eduardo.

— Por favor, Edu, é melhor parar. Você está trêmulo, pálido e sua testa está porejando muito suor.

— Ah! Gabriel. O lugar que eu estive era horrível e cruel. Todas as crianças eram loucas ou retardadas. Os gestos, os rostos, os olhos, o desequilíbrio a cada fala. Era um inundo de retardados. Um mundo que ria sem motivo. Como se até a dor fosse engraçada. Cada movimento pendia para a loucura ou para a inexpressividade de um mundo nojento e perdido. Ali havia um número de duzentos enfermos. Sessenta, que as mães tinham vergonha deles e só os buscavam já de noite, quando ninguém pudesse verificar os seus infortúnios. Os outros cento e quarenta eram de outras mães que não queriam mais saber da monstruosidade dos seus filhos. Uma tristeza. A manutenção da Sociedade era garantida por um dinheiro insuficiente. Assim no começo do mês a gente tinha carne, batata, feijão e arroz. Os dias se passavam e acabava-se a carne, logo em seguida a batata. E depois dos quinze dias a gente ficava comendo feijão puro com farinha. Até que chegasse a nova verba. Fui ficando cada vez mais minado de tristeza. Não que tratassem mal a gente. Mas tratavam os doentes como se eles fossem bichinhos que não sentissem. Nada faziam de especial por mim, muito embora Anna tivesse trazido recomendações que ela mesma implorara. Ali eu era outro bichinho que não acertava os movimentos e que deixava cair menos a comida, ou virava a vasilha d'água. Pior eram os sorrisos nos rostos disformes. Eram sorrisos doentios, feios, horríveis. De nada adiantava eu dizer que não era como eles. Passavam a mão nos meus cabelos e comentavam qualquer coisa sem importância. De noite dormíamos todos no mesmo ambiente. Alguns sujavam na cama e o cheiro ficava toda a noite grudado pelas paredes. Uns choravam desajeitados, outros riam sem saber do quê e por quê. Eu sentia falta do meu quarto, de minha cama macia cheirando a limpo sempre. Chegava a chorar e pensar em Anna. Onde andaria ela agora? Também fora obrigada a me esquecer? Não me acostumaria nunca a trocar os rostos bonitos dos meus irmãos pelas faces desgovernadas de emoções daqueles meninos.

Gabriel não se conteve e interrompeu a narrativa.

— Mas isso é monstruoso.

— Se era. Ninguém desconfiava que eu era um menino mentalmente mais desenvolvido que os outros. Que minha paralisia desenvolvia com mais intensidade o meu raciocínio. Mas tia Anna veio em meu socorro. Quando me levaram para casa eu estava um trapo. A fraqueza era tanta que meu pescoço quase não sustentava a cabeça. Foi por isso que começou a coisa:

— Que coisa?

— O coração.

— Que tem o seu coração?

— Até aquele momento nada tinha. Mas depois veio um enfraquecimento sei lá, um desvio. Nunca mais pude ter um coração forte. E foi por isso que vim para cá.

— Não entendo.

— É fácil. Vim para cá por dois motivos: primeiro para ficar escondido dos outros. Segundo, porque o ar do mar iria fortificar-me e então eu poderei fazer a operação.

Gabriel estava estupefato e nada dizia.

Edu meneou a cabeça e sorriu meio desanimado.

— Não vai adiantar nada. Foi por isso que aceitei fazer essa viagem. Porque longe não incomodaria ninguém com a minha feia presença. E porque queria pelo menos na vida ser feliz, como eu via nos livros de aventuras. Nos livros que falavam em veleiros e viagens maravilhosas.

— E o que pensa Anna de tudo isso?

— Ela acredita que ficarei bom. A ternura do seu grande coração convenceu de que eu sou tudo na vida dela pra mim é muito, mas para uma criatura como Anna é pedir pouco da vida. Sabe de uma coisa, Gabriel?

— Conte.


— Anna lutou tanto por mim, para que me tirassem de lá que ninguém pode imaginar. Ameaçou até de ir aos jornais, à televisão. Por fim conseguiu. Mas conseguiu o quê? Trazer-me de volta para um lar que ficou cada vez menos meu. Minha feiúra com os maus tratos doíam a vista de qualquer um. Eu estava tão feio que a minha figura fazia até mal ao espelho. Ela, me levou a especialistas. E todos concordaram com a minha operação. Daí Anna começou a sair comigo, a me tratar. Cumprindo a promessa de que pouco me deixaria permanecer em casa. Essa é a última viagem.

— Não será se Deus quiser.

— Ora, Gabriel, você notou uma coisa?

— Diga.


— O meu nervoso passou, já não transpiro na testa nem estou pálido. Isso significa que estou me livrando dos meus pesadelos e de mim mesmo.

— Certamente. Mas eu estava pensando numa coisa todo o tempo em que você me contava a sua história. A diferença de nós, as feras e os homens.

— Por que?

— Nós somos mais rígidos e mais lógicos em certas coisas. Quando nasce uma cria defeituosa nós a destruímos sem que ela sofra. Abreviamos cedo o grande sofrimento que ela teria de suportar mais tarde.

— Correto. Mas eu não gostaria de ter perdido toda essa beleza da vida que os meus olhos me trouxeram até hoje. Apesar de tudo a vida é uma verdadeira beleza.

— Bonito mesmo você vai ver quando eu o levar para passear. Quando a lua estiver enorme e a noite dormir o seu sonho de mansidão.

— E quando vai ser, Gabriel?

— Logo que você fique mais forte. Sua viagem assim terá um aspecto que você nunca poderia imaginar.






Sexto Capítulo

O Cavaleiro Bolitrô
anna suspendeu o corpo e respirou fundo. Com as costas da mão colocou no lugar uma mecha de cabelo que teimava em cair-lhe sobre os olhos. Perdeu-se um momento ia paisagem. No mar calmo e translúcido os homens faziam a pesca do camarão ao longe.

Voltou a olhar a mulher do jardineiro que a ajudava no tratamento do jardim.

— Olhe, Maria. Olhe ali naquela árvore como tem cigarra morta, grudada no tronco.

— É o cemitério delas, Dona Anna. Elas vão ali e cantam. Cantam até rachar as costas. Depois ficam ali até ficarem sequinhas, sequinhas.

— Mundo estranho o nosso.

Parou novamente e preocupou-se com Eduardo. Maria pareceu ler-lhe os pensamentos.

— A senhora gosta muito do menino, não, Dona Anna?

— O pobrezinho tão doente, tão frágil, tão desamparado. Se fosse meu filho não poderia garantir que gostasse mais.

Sentou-se na amurada do jardim, virou as costas para as ondas que lambiam as pedras sem violência, sem mesmo se importar com as baratinhas que caminhavam nas pedras do muro. Sentiu sem saber como, vontade de falar.

— Antigamente eu era uma moça muito bonita. Bonita, rica e caprichosa.

Maria interrompeu sorrindo.

— Mas a senhora ainda é tão bonita, Dona Anna. Assim corada, sem pintura, com esses olhos azuis que parecem saídos do céu...

— Bobagem, Maria. Antigamente sim. Eu nem sabia o que significava tristeza na vida. Gostava de pintar. Fui passar dois anos em Paris. Lá, nem gosto de lembrar, tive a maior desilusão da minha vida.

Calou-se e Maria não perguntou, mas tinha certeza que fora um caso de amor.

— Voltei para o Brasil. Fui morar com a minha família em São Paulo. Pensei que nunca me interessaria por mais nada nessa vida. Foi quando apareceu ele, Edu. Foi ele que recuperou-me inteiramente. Foi esse menino doentinho que me tornou, que me devolveu a chance de ainda encontrar amor pelo próximo. Justamente essa criaturinha tão frágil e tão triste.

Anna tornou a recolocar a mecha rebelde no lugar.



— O que me dói mais, Maria, é a certeza de que esse menino não é uma criança comum. Pouca gente sabe disso. Eu que lido com ele todo tempo posso lhe garantir. Ele é um homenzinho. Pensa como gente grande. Talvez a sua doença tenha desenvolvido demais nele o senso de compreensão. Muitas vezes eu me surpreendo com a maturidade dos seus julgamentos. Ele aprende e apreende as conversas mais difíceis. Mas precisa confiar demais nas pessoas para que se manifeste em toda a sua inteligência. Do contrário se fecha como um caracolzinho e sofre em silêncio sem reclamar contra nada. Até mesmo com as maiores injustiças que fazem contra a sua vida.


— A senhora acha que a operação vai adiantar? Anna suspirou.

— Esperamos que sim. Tenho tentado me esquecer disso. Mas o tempo está passando e a realidade se aproxima a passos curtos.

Tornou a olhar o mar ao longe e os homens continuavam na pescaria dos camarões. Viam-se as redes ser suspensas para dentro do barco e as gaivotas alucinadas gritando em volta deles. Dando mergulho do alto, desaparecendo no mar e logo reaparecendo com a presa.

— Cada vez mais sinto vontade de ficar perto de Edu. Contento-me vendo que ele reage bem, recobrando a confiança perdida. Ele mesmo tenta se ajudar. Já sobe as escadas com mais segurança e consegue passear em todos os cantos da casa e do jardim.

Riu para Maria.

— Sabe como ele chama essa casa? Maria esperou a explicação.

— De navio. De veleiro. Para ele a casa debruçada sobre o mar e as ondas batendo à sua volta fazem parte da sua viagem. Ele não crê em férias. Ou melhor essas suas férias não passam de uma linda viagem de sonhos.

— Os pescadores estão voltando Dona Anna.

— Daqui há pouco vou procurar por ele. Deve estar sonhando em alguma parte.


***
Conseguiu aprumar-se nas muletas e respirou profundamente. Estava se tornando cada vez mais fácil aquele gesto.

— Hoje vou realizar aquela caminhada que há tanto tempo desejo. Vou atravessar aquele pedaço do jardim, o gramado longo e chegarei até aquelas duas grandes árvores que misturaram a raiz por dentro do muro. Experimentou andar e sentiu-se calmo.

— Nem vai ser preciso chamar Anna para que me ajude.

O vento vindo do mar acariciava-lhe os cabelos e o sol bastante quente ainda reinava sobre a sua caminhada lenta.

— Isso, ventinho amigo que vem lá do mar. Obrigado. Nem iria se aproximar de Gakusha porque na certa com sua fala suave iria recriminá-lo.

— Cuidado, Edu. É melhor chamar a sua tia.

Lindo amigo e tão fiel. Mas dessa vez não escutaria o seu conselho. Súbito um sorriso iluminou-lhe a face. E falou em voz alta para os seus sonhos.

— Ainda bem que Gabriel fala como gente. Imagine se ele fizesse como via nos filmes. Morreria de medo. Também se ele falasse linguagem de tigre como iria compreendê-lo.

Pronto. Tinha deixado toda a zona da piscina onde o terreiro era todo calçado de pedras mineiras. Toda a casa era calçada com aquelas pedras. Elas sempre chegavam até a amurada ou até o grande murão que protegia a casa das furiosas ondas de temporal.

Agora, precisava caminhar com mais cuidado, porque a grama macia afundava os bicos de suas muletas. Levantou a vista e deu com as grandes árvores onde os pássaros faziam algazarra. Que lindo muro. Lindo mesmo. Como é que a natureza fazia as raízes viverem bem no meio das pedras do muro?

Andou mais e descobriu uma coisa curiosa. Uma porção de cordas esticadas no chão. Estavam amarradas nas extremidades por paus encravados na terra. E eram muitas e seguiam a mesma direção. Parecia uma escada deitada na areia. Por certo o jardineiro iria fazer alguma mureta ou plantar flores obedecendo uma linha certa. Aquilo iria dificultar a sua chegada ao muro. Mas experimentaria com paciência. Já que tinha resolvido a vir, nada o deteria. Achegou-se à primeira fila. Com dificuldade transpôs uma muleta e uma perna. Depois descobriu que era difícil puxar a outra muleta e a outra perna. Se era difícil ir para frente, para traz na certa se tornaria quase impossível. Ia tentar. Não podia. Ainda bem que era só a primeira fila de corda. Poderia recuar e desistir do passeio. Viria outra vez com Anna. Era melhor. Mesmo porque o vento do mar fresquinho não chegava até aquele ponto e o sol estava esquentando demais as suas costas e cabeça. Não. Melhor seria continuar; porque voltar o corpo não ajudava e os seus braços não teriam forças para tanto. Incrível ficar paralisado por causa de uma cordinha inútil e fina. Controlou-se porque não queria se irritar. Com violência as conseqüências seriam piores. Calma, Edu. Com um pouquinho de paciência a coisa vai. Respirou forte e procurou trazer a muleta à frente. A ponta da muleta com o esforço feito cavara um sulco mais profundo e ajudava a dificultar o seu desejo. "Se eu conseguisse andar para o lado, talvez eu conseguiria chegar até aquela estaca. Talvez eu a derrube empurrando a muleta contra ela. Caindo, a corda fica frouxa e eu poderei pelo menos voltar. Para a direita, embora tentasse, não adiantava. Todos os seus movimentos para a direita se tornavam sempre difíceis."

— Ah! Cordinha, Cordinha! Por que você está fazendo isso comigo? Eu só queria dar um passeiozinho até o muro. Não é proibido nem nada.

Agora os braços estavam molhados de suor e as mãos escorregavam no apoio. Conseguiu chegar até onde se propusera mas com a maldita corda entre suas pernas e suas muletas. Entretanto o esforço da caminhada diminuía a força dos seus braços. Queria empurrar a muleta contra a estaca mas o corpo não atendia à sua vontade. Meus Deus! Que poderei fazer? Mesmo que eu grite o barulho do mar e o vento não deixarão que a minha voz possa fazer alguma coisa. Desanimado, ergueu os olhos para o céu. E o céu azul quase sem nuvens nem se importava com o seu fracasso.

— Voltarei ao centro. Ali a corda é mais baixa. Foi ali que eu me encrenquei. Quem sabe se não é ali o lugar onde poderei escapar?

Mais cansado ainda retornou quase de costas. Agora, sim. O peito até doía de exaustão. E precisava de muita calma. Se caísse se machucaria muito porque as pernas fracas e a carne ficariam uma machucadura só contra os aparelhos ortopédicos.

Veio aparecendo um desespero terrível e quis xingar. Mas xingar duro, feio. A língua se empastava na boca e nenhum palavrão escapava da sua garganta. Mal pôde olhar para o céu e estremunhar a única palavra que conseguia pronunciar.

— Bunda... Bun...da.

Engoliu em pedaços o desespero e tentou se acalmar.

— Pelo menos se pudesse me abaixar como qualquer menino. Era tão fácil.

Uma mísera cordinha o prendia tanto como a maior corrente do mundo.

Tentou controlar-se para tentar um novo movimento de suspensão da perna. Ia indo, ia indo.

Aí soltou um uivo de dor. A corda com o esforço penetrara no aparelho ortopédico. Estava cada vez mais preso. Nada mais podia fazer. Só esperar. O sol esquentava o seu corpo franzino e empapava de suor as suas costas. Os olhos quase ardiam com a claridade. Começou a fungar de mansinho como se naquilo procurasse um pouco de calma. Precisava fingir que não sentia as axilas queimando com o apoio da muleta. Tanto esforço. Tanto desejo de fazer apenas um pequeno passeio que terminava ridiculamente daquela forma. Começou a soluçar. Mesmo que gritar quisesse não acharia mais voz. Precisava poupar-se. Apertar um braço contra o outro para suportar a dor da muleta.

Assim embora se machucasse um pouco evitaria que seu corpo perdesse o equilíbrio. Até chorar ele fazia baixinho para não se cansar. E as lágrimas desciam pelo seu rosto alcançando a gola da camisa.

E foi assim que Anna o encontrou bem tarde.

— Não meu filho, acho melhor não descer mais hoje.

Anna tinha levado o seu corpo dolorido para cima. Dera-lhe um banho e o enchera de talco debaixo do braço. Auscultara o seu coração cheia de medo. Mas ele já se recompusera.

— Estou bem, titia. Eu só queria ter chegado perto daquelas árvores.

— Eu sei, querido. Eu sei. Você não fez nada demais. Qualquer dia desses Anna o levará até lá. Mas hoje, você vai ficar quietinho. Não vou colocar mais os seus aparelhos. Certo?

Eduardo fez uma expressão de tristeza perdida.

— Mas você prometeu.

— O que foi que prometi?

— Que faria todas as minhas vontades e eu não estou pedindo muito. Só quero ficar naquela cadeira de lona sentadinho. Fico lá. Não me mexo. É aquela cadeira perto da escada. Eu gosto de me sentar ali e ver a noite chegar.

Anna ainda não parecia muito convencida.

— Puxa, Anna, eu pensei...

Anna sentiu os olhos se umedecerem.

— Não fale assim que dói.

— Se você não acredita. Tire as minhas muletas de perto de mim e eu não poderei me mexer.

A conversa continuava. Sabia que ia ceder.

— Está bem, querido. Eu vou chamar o jardineiro para carregar você. Subir com o seu peso ainda posso, mas descer as escadas é muito perigoso. Mas não colocarei os aparelhos, está bem?

Edu sorriu aliviado. Mesmo depois de uma noite de descanso os aparelhos doíam muito. Agora então que inchara os membros com a falida caminhada se tornaria pior.

Puxou desajeitadamente o rosto de Anna e o beijou.

— Eu dou muito trabalho para você, não é Anna?

Ela desvencilhou-se dos seus braços e alisou demoradamente os seus cabelos.

— Não meu querido, não é isso.

Os belos olhos azuis de Anna se encheram d'água.

— Não é nada disso. Apenas na vida a gente não vale muito.


***
O sapinho veio saindo do buraco ao lado da grande escada. Os olhos de Edu se extasiaram. Mas era um sapo lindo. Não daqueles coscorudos cheios de montanhas riscadas nas costas. Era um sapo louro, esguio e de grandes olhos verdes. Os olhos pareciam ainda maiores porque usava uns óculos ovais na ponta do nariz. Também na garganta trazia um cachecol enrolado. Um cachecol de lã com cores bastante agradáveis. Azul-claro, branco e amarelo.

Veio saltitando e parou junto à cadeira de Edu, analisando-o.

— Por certo você é o Bolitrô?

— Exatamente meu rapaz. Maria Jurandir já me havia falado a seu respeito. Eu estava para sair e vir conhecê-lo há bastante tempo.

A voz ainda guardava um tom roufenho.

— Mas veja você, a gripe me pegou. E a maldita garganta ardeu o que quis, muito embora Dona Janirana me enchesse de remédios e cuidados.

— Quem é Dona Janirana.

— Uma cobra muito minha amiga. Uma cobra-freira.

— Espere aí Bolitrô que você me confunde. Falou cobra?

— Exatamente.

— Mas cobra não come sapo?

— São lendas. Nem toda cobra come sapo.

— Sei. Mas por que cobra-freira?

— Porque ela vive na clausura. Abandonou as glórias do mundo e resolveu servir à pobreza lá de baixo. É uma santa. Quase nunca sai do seu esconderijo. E das vezes ao entardecer que vem olhar o céu é para desejar em suas preces, o bem dos outros.

— Mas isso é lindo. Poucos homens se ocupam dos outros pelo que eu sei.

— Pois Dona Janirana é diferente dos seus. Vive lá no porão a pensar na tristeza e solidão de todos.

— Mas você falou porão?

— E não é?

— É?

— Pelo que me contou Dona Maria Jurandir você mesmo batizou isso aqui de veleiro. E se é veleiro, aqui em cima é tombadilho e lá embaixo, porão.



— Mas isso é fabuloso.

— Sempre que alguma coisa faz parte de um sonho, é fabuloso.

Edu estava encantado.

— Ainda bem que o senhor veio. Aliás aqui no veleiro, quando chega assim pelas cinco, cinco e meia, seis horas, basta que eu feche os olhos e uma porção de coisa maravilhosa acontece.

— Não é com todo mundo que isso se dá.

— Ainda bem que eu posso ter alguma coisa de diferente dos outros.

O sapinho procurou uma posição melhor para acomodar-se.

— O senhor é Bolitrô de nascença ou alguém o batizou com esse nome?

— Não é bem assim. Minha mãe me chamou de Inocêncio. Mas não gostei do nome. Minha mãe era vidrada num romance que leu chamado Inocência. Eu fiquei Inocêncio até que aconteceu uma coisa. Você conhece o dono dessa casa?

— Nunca ouvi falar dele.

— Pois num tempo atrás o dono era prefeito daqui. E vinha muita gente politicar por aqui. A maioria era para pegar a bóia, podes crer. Bem um dia apareceu um senhor ministro que se chamava Bolitreau. Mas como se escreve em francês. Fiquei tarado pelo nome e resolvi adotá-lo em cartório. Foi aquela dificuldade e acabaram me registrando de Bolitrô em português.

— Quer dizer que você tem o nome de um ministro? Bolitrô adquiriu um ar de desprezo.

— Acho que não. O ministro é que tem nome de sapo. Pense bem.

Eduardo calculou mentalmente e ficou com a opinião do sapo. De fato, muito embora nunca tinha visto a cara do ministro, o sapo tinha mais jeito de Bolitrô.

— Sabe que você tem razão.

— E não sou eu só. Quer saber de um segredo? Mas não vá dizer que eu lhe contei; muita gente aqui no veleiro detesta o nome com que foi batizado.

Abaixou a voz e falou quase num sussurro.

— Dona Maria Jurandir não é o nome dela não.

— Verdade?

— Juro. O nome dela é Mintaka.

— Como é?

— Min-ta-ka.

— Isso é nome em língua de coruja?

— Não, bobo, a mãe dela tinha mania de astronomia. Mintaka é uma das estrelas da constelação de Órion. É uma daquelas que o povo chama de Três Marias.

— Sei sim. Titia Anna também tem uma mania dessas. Conhece tudo quanto é raio de estrela. Uma pena, porque Mintaka é um nome lindíssimo. Quanto a Maria Jurandir, fica meio esquisito para uma coruja.

— Ela leu num jornal. A história de um crime, onde urna mulher com esse nome levou mil setecentas e cinqüenta e duas facadas. Achou lindo e pronto.

— Quantas facadas você falou?

— Mil setecentas e cinqüenta e duas facadas.

— Mas não há corpo que agüente tanta facada.

— Todos nós sabemos. Mas sabemos também como Dona Maria Jurandir é trágica. No máximo a mulher deve ter recebido umas sete, mas de tanto contar e aumentar chegou a esse número.

Edu concordou com a lógica. Olhou novamente para o sapo e ficou analisando todo o seu porte. Era muito simpático o Bolitrô, mas de todos os seres encantados quem levava a palma ainda era Gabriel. Dificilmente encontraria um ser mais fantástico do que o tigre. Lembrou-se de uma coisa.

— Escute, Bolitrô, como é que a gente pode fazer para conhecer Dona Janirana?

— Vai ser difícil. Você não pode entrar no porão. Edu ficou arrepiado com a idéia de andar naquele mundo sombrio, úmido e asfixiante.

— Ela também não sai da sua clausura. Fica por lá a vida inteira. Acho que não vai haver jeito não.

— É uma pena. De onde tirou ela esse nome?

— Isso não sei mesmo.

— Eu mais ou menos tiro as minhas conclusões. Ela é boa assim porque tem o nome de Anna no final. Anna também tem alma de freira. Você sabe Bolitrô, que nunca nunca na vida, Anna brigou comigo ou perdeu a paciência?

— Isso é bonito. Mas difícil de acontecer na espécie humana.

Deu um pigarro e lembrou-se de uma coisa. Enfiou a mão no bolso do velho paletó desbotado e retirou uma caixinha de pastilhas Valda. Abriu-a e ofereceu uma.

— É bom?


— Pra minha laringite é tiro e queda.

— Eu conheço um amigo de minha tia chamado Dr. Marins que é vidrado por essas pastilhas.

— Comigo se dá o mesmo. Agora se me permite vou mariscar um pouco. Debaixo daquela luz acesa, lá perto do nicho, aparecem umas pernilongas divinas. Quando eu melhorar da minha garganta aparecerei muitas vezes mais para conversarmos. Que você tenha uma bela noite e cheia de lindos sonhos.

Saiu aos pulinhos ritmados em direção à sua caçada.

Edu ficou olhando fascinado a sua gentil figurinha. Como era encantador e gentil o cavalheiro Bolitrô.

Fechou os olhos e a voz do sapinho repercutia em seus ouvidos:



— "Que você tenha uma noite de lindos sonhos!"







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