O trabalho finaliza comentando que o trabalho deveria dignificar o homem e pelo menos mantê-lo na ativa não matá-lo



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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DE PRODUÇÃO

ERGONOMIA COGNITIVA

PROFESSORES: FRANCISCO ANTONIO PEREIRA FIALHO

CHRISTIANE COELHO DE S. REINICCH COELHO

ERGONOMIA, ESTRESSE E TRABALHO

Ciro Romélio Rodriguez Añez, ciroanez@eps.ufsc.br

Denise Elizabeth Hey David, dehdavid@eps.ufsc.br

Márcia Lobo, m.lobo@matrix.com.br



Resumo: O presente artigo trata das reações de estresse geradas nas diversas áreas da vida humana, mais especificamente na relação homem/trabalho, enfocando o auxílio da Ergonomia Cognitiva na tentativa de minimizar as conseqüências ocasionadas pelo estresse.

Palavras-Chaves: Estresse, Ergonomia, Trabalho

1. ESTRESSE – HISTÓRICO E FISIOLOGIA
Segundo Lazarus e Lazarus citado por LIPP (1996), as primeiras referências à palavra “stress”, datam do século XIV com o significado de aflição e adversidade, o seu uso era esporádico e não sistemático. De acordo com Speilberg, citado também por LIPP (1996), o vocábulo tem origem do latim. No século XVII passou a ser utilizado em inglês para designar opressão, desconforto e adversidade. Estudos da época realizados na engenharia mostravam que as características das cargas tinham que ser consideradas na escolha do material, para construção de estruturas. A analogia com o ser humano foi rapidamente ventilada, uma vez que as pessoas também conseguem lidar melhor com um tipo de “carga”, que varia com a sua habilidade de suportar uma carga emocional ou não (FRANCHESCHI, 1999).
O termo estresse foi sugerido por Hans Selye em 1936, pois já havia notado dez anos antes, que muitas pessoas, que sofriam de várias doenças reclamavam dos mesmos sintomas, como falta de apetite, pressão alta, desanimo e fadiga. Na época as pesquisas definiram estresse como um “desgaste geral do organismo”. Este desgaste ocorre quando alterações psicofisiológicas, provocadas por situações irritantes ou amedrontantes, confunda ou mesmo faça o indivíduo imensamente feliz. Qualquer situação boa ou má, que exija mudança, é um fator estressor, ou seja, fonte de estresse (LIPP, 1986).
A palavra estresse já havia sido utilizada para designar, o total de forças que agem contra uma resistência nas ciências exatas e, para o organismo, o estresse é uma resposta não específica às solicitações, que lhe são impostas independente da demanda ser física ou psicológica, sendo esta boa ou má. Estas reações não específicas se manifestam através de mudanças no “comportamento” dos órgãos, principalmente das glândulas que são controladas pela hipófise posterior, podendo ser observadas pela hipertrofia das supra-renais, atrofia timo-linfática e ulceração gastroduodenal (ALVES, 1992).
Em 1936 o endocrinologista Hans Selye, do Laboratório de Bioquímica da Universidade de McGill, no Canadá, inspirado pelos fisiologistas Bernard, que em 1879 considerou que o funcionamento do organismo deve ser constante, mesmo que o meio lhe ofereça mudanças, e Cannon que em 1939 considerou que os esforços dos processos fisiológicos, que ocorrem para buscar o equilíbrio interno, deveria ser denominado “homeostase”. Portanto, o stress sugerido por Hans Selye, foi definido, como a quebra da homeostase ou quebra do equilíbrio interno, fixando o significado de estar doente como a síndrome da adaptação geral, que afeta o indivíduo produzindo seu enfraquecimento, fazendo-o adoecer (SELYE, 1959).
O estresse é uma alteração psicofisiológica do organismo, observável através de sintomas físicos e psicológicos, para reagir a uma situação de tensão e opressão. O estresse é um processo e não uma reação única, pois a partir do momento que uma pessoa é submetida a uma fonte de estresse, um longo processo bioquímico se instala, e cujo início se manifesta de maneira bastante semelhante, por sintomas como taquicardia, sudorese excessiva, tensão muscular, boca seca e sensação de estar em alerta (LIPP, 1996).
O ser humano por natureza procura manter o equilíbrio das suas forças internas, com todos os órgãos trabalhando em harmonia. Quando algum evento importante acontece, bom ou mau, mudanças fisiológicas associadas com as reações do estresse são processadas pelo hipotâlamo. Quando o agente estressor excita o hipotalamo, uma cadeia de reações bioquímicas altera o funcionamento de quase todas as partes do corpo. O sistema autônomo se mobiliza para lidar com o estresse. O hipotalamo ativa as glândulas supra-renais que produzem adrenalina e corticoides, se a produção for excessiva ou prolongada podem ocorrer sérios problemas de desgaste orgânico. Quando o estresse é prolongado o sistema imunológico é afetado, pois as células linfáticas do timo, que participam desse sistema, são prejudicadas, assim como as células dos gânglios linfáticos. As células brancas diminuem em número, e o organismo fica sujeito a doenças infeciosas e envelhecimento precoce.
Quando o estresse é severo, provoca aumento do córtex das supra-renais, que produzem corticosteróides em excesso, principalmente cortisona. Para produzirem corticosteróides as glândulas utilizam grandes quantidades de gordura, pois os lipídeos são essenciais à síntese dos hormônios corticosteróides. Quanto maior o estresse, maior a depauperação das glândulas. Isto provoca envelhecimento precoce pois as supra-renais são imprescindíveis para a homeostase do corpo (LIPP, 1986).
A partir da década de 50, os trabalhos e publicações sobre estresse se propagaram, contudo, estas publicações eram de ordem fisiológica, e somente a partir de 1970, estes trabalhos passaram a ter outras abordagens, tais como, os distúrbios somáticos provenientes dos aspectos psicológicos relacionados com os fenômenos biológicos (FRANCESCHI, 1999).
O estresse resulta da interação entre a pessoa e o mundo no qual ela vive. Quando uma pessoa percebe que está em perigo, seu organismo entra em estado de alerta para lutar ou fugir, assim ocorrem várias modificações fisiológicas, que são sinais de bom funcionamento orgânico.
O sangue é retirado da periferia para o interior, isto garante que em uma situação de luta, caso o indivíduo seja ferido, não ocorra a perda muito sangue. Outras atividades do organismo que não estejam ligadas à sobrevivência imediata, podem ficar momentaneamente lentas, como é o caso da digestão. Os músculos são preparados para a ação, provocando tremores, dores musculares, aperto no peito, dificuldade para respirar e tontura. Suamos mais e o corpo fica em estado de alerta. O equilíbrio interno foi quebrado, sendo necessário um esforço para restabelecer o equilíbrio biológico necessário à vida. O retorno ao equilíbrio desgasta o organismo, pois utiliza energia adaptativa. A energia adaptativa de uma pessoa é limitada. Quando o desequilíbrio é crônico, muita energia adaptativa é utilizada gerando envelhecimento, doenças e até a morte (LIPP, 1986).
A “Síndrome da adaptação Geral” está constituída por três estágios, que são: 1) reação de alarme; 2) estágio de resistência e; 3) estágio de esgotamento.
O primeiro estágio do processo ocorre quando o indivíduo se depara com um agente estressor, neste momento o organismo prepara-se para o que Cannon designou, em 1930 como “fuga ou para a luta”. É nesta hora que a há quebra do equilíbrio interno, devido aos momentos de adversidade ou tensão, há aceleração do sistema nervoso simpático e diminuição do parassimpático. Este processo que ocorre no organismo através do sistema autônomo, é muito importante na manutenção da integridade, pois é através dele, ou seja, desta fase de alerta, que o indivíduo irá estar preparado para lidar com situações imediatas, na defesa de seu corpo.
Em situações de curta duração, haverá restauração do equilíbrio, quando a adrenalina for eliminada. Haverá problemas se o agente estressor for de curta duração, e a reação do organismo, excessiva ou não necessária. Neste período a produtividade aumenta, e se a pessoa souber administrar o estresse, poderá usá-lo a seu favor, devido à motivação, entusiasmo e energia que este estágio pode produzir.
O estágio de resistência, ocorre quando o agente estressor é de longa duração e o organismo tenta de forma reparadora restabelecer a homeostase, buscando um equilíbrio para a situação. O problema irá ocorrer se o organismo não tiver energia suficiente para se adaptar ao agente estressor. Nesta fase a pessoa utiliza toda sua energia adaptativa para se reequilibrar. Quando consegue, os sintomas iniciais desaparecem e a pessoa tem a impressão que está melhor. Um sintoma psicológico freqüente é a sensação de desgaste sem causa, e dificuldades com a memória. No nível fisiológico, as supra-renais diminuem a produção de adrenalina e produzem mais corticosteróides. O processo de estresse se finaliza neste estágio, se o agente estressor for eliminado ou se o indivíduo utilizar técnicas de controle para se reequilibrar.
O último estágio, de esgotamento ou exaustão, irá ocorrer se a energia do indivíduo for menor que a resistência do agente estressor, ou se vários agentes estressores atuarem juntos. Há um aumento das estruturas linfáticas e exaustão psicológica, na forma de depressão. Doenças começam a aparecer e em alguns casos pode levar a morte. Na fase de exaustão ou quanto esta está próxima, as doenças ocorrem com mais freqüência, tanto na área psicológica: depressão, ansiedade, impossibilidade de tomar decisões, vontade de fugir de tudo, etc.; quanto na área física: hipertensão arterial, úlceras gástricas, retração de gengivas, psoríase, vitiligo e até diabete. O estresse não é o agente patogênico, mas enfraquece o organismo de tal maneira que essas doenças programadas geneticamente, se manifestam devido à exaustão (LIPP, 1995).
Pode-se dizer que o indivíduo quando reage às mudanças, adaptando-se de forma positiva com relação a seu funcionamento, encontra-se em estresse, só que este é o bom estresse ou o “eustress”. Porém, se as mudanças forem de ordem muito intensa ou demasiadamente prolongadas, poderão causar o mau estresse ou “distress”, pois ultrapassaram os limites que o indivíduo suportaria, falhando a adaptação, levando o organismo desequilibrado a adoecer.
O bom estresse é indispensável para a vida, pois o indivíduo está sempre sujeito à estímulos externos, desde sua concepção até a velhice, sendo que a resposta a pequenos agentes estressores, não somente é benéfica, mas também indispensável ao desenvolvimento das funções do ser.
Dando-se a devida importância à história da humanidade, o homem teve em pouco tempo, violentas alterações no seu jeito de viver. O sedentarismo cada vez mais presente, pelo avanço tecnológico, associado à contenção da agressividade e das emoções, gerou muitas doenças relacionadas ao estresse, por não poder desabafar esta carga de energia acumulada (ALVES, 1992).


2. CATEGORIAS E FONTES DE ESTRESSE

O estresse pode ser classificado em sete categorias, de acordo com classes e formas de mudança:

a) Estresse de perda: envolve todo tipo de perda, sendo muito considerada a morte de uma pessoa querida, separações, divórcios, modificações dos valores de vida, aposentadoria, etc.

b) Estresse de ganho: quando o sucesso pessoal determinar modificações no estilo de vida do indivíduo, tal como promoções, casamento, ganho de um novo membro da família, sucesso pessoal, etc.

c) Ferida narcisista: também pode representar uma perda, pois representa doenças, dificuldades relacionais, repressão severa, disputa de espaços, etc.

d) Estresse de ameaça ou de segurança: são todas as situações de ameaça ou incapacidade de resolver problemas. Segundo Engel e Schmale citados por ALVES (1992), é um dos motivos de aparecimento de doenças funcionais e/ou orgânicas. Está relacionado a perdas súbitas ou esperadas, reais ou simbólicas, associadas ao sentimento de estado de desamparo e sem esperança (helplessness e hopelessness). A síndrome de renúncia e abandono (giving-up e givem-up) estaria associada ao desencadeamento da doença ou a um comportamento suicida.

e) Estresse de decisão: quando deve-se tomar decisões importantes, tanto no lar quanto no trabalho, são eventos que saem da rotina normal e podem gerar estresse.

f) Estresse de estimulação: todo estímulo que seja favorável às necessidades do indivíduo. A super-estimulação e a sub-estimulação são perigosas pois podem acarretar a não adaptação de um indivíduo dentro de uma determinada situação.



g) Estresse de mudança: é o estresse gerado a partir de uma mudança, mesmo que seja mínima, qualquer alteração na vida de um indivíduo tem como resultado estresse.
O mau estresse aparece quando os acontecimentos da vida emocional e orgânica do indivíduo ultrapassam seu limite, seja por intensidade, qualidade ou quantidade. O estresse é uma reação que o organismo manifesta quando colocado em situações embaraçosas, tanto de excitação quanto de opressão e os efeitos vão depender da raça, sexo, idade e situação socioeconômica.
O estresse pode ser originário de fontes externas ou internas. As externas são representadas pelo que nos acontece na vida: pessoas, trabalho, família, acidentes, etc. As causas internas são aquelas que se referem a como pensamos, às crenças e valores que temos e como interpretamos o mundo ao nosso redor.
Há eventos que causam mais estresse do que outros. Se muitos eventos ocorrem num período limitado de tempo, o risco de problemas à saúde aumenta. As pessoas diferem na sua sensibilidade ao estresse dependendo da sua personalidade.
Além das fontes externas de estresse, todos estamos expostos ao estresse gerado internamente, que está relacionado com a nossa personalidade e como reagimos à vida. Nem sempre o perigo ou as ameaças são reais, às vezes imaginamos ou interpretamos uma situação como sendo perigosa ou ameaçadora. Alguém apontado uma arma para uma pessoa é um perigo real, mas se um indivíduo sai a rua com medo de ser seqüestrado, isto pode ser um perigo imaginário. Em ambas situações o organismo vai reagir da mesma maneira, provocando os sintomas do “estado de alerta”. Quando o perigo real é retirado, o organismo volta a seu normal, acabando com os sintomas. Quando o perigo é imaginário, o organismo fica constantemente em “estado de estresse”, diminuindo sua resistência a doenças, podendo assim, como resultado gerar uma úlcera, infarte, ou outra doença qualquer (LIPP, 1986).
“É impossível eliminar o estresse de nossas vidas, ele existe na maioria das situações. Podemos porém, evitar que se torne excessivo através de algumas medidas, que incluem uma mudança na nossa atitude perante eventos corriqueiros e inesperados da vida, um regime alimentar anti-estresse exercícios físicos e relaxamento” (LIPP, 1986).
“Quando algo inevitável ocorrer na sua vida tente dar-lhe a interpretação mais otimista possível. A perda de um namorado pode significar uma chance de encontrar alguém melhor” (LIPP, 1986).
“Não fique se recriminando por erros cometidos nem se agonie com expectativas de que “tudo vai dar errado” mantenha uma visão otimista, porém realista, da vida dos outros de si próprio. Esperar demais de qualquer um, é inevitavelmente, expor-se a uma grande dose de decepção e estresse” (LIPP, 1986).
“Organize a sua vida em termos de prioridades, e faça o mais importante primeiro. O que não der tempo para fazer em um dia provavelmente poderá esperar até o outro” (LIPP, 1986).

3. ERGONOMIA, ESTRESSE E TRABALHO
A ergonomia vem estudando diversos aspectos do comportamento humano no trabalho, e outros fatores que são importantes para o projeto e a organização de sistemas de trabalho. Esses fatores são: o homem com suas características físicas, fisiológicas e psicológicas; a máquina: toda a ajuda material que o homem utiliza no seu trabalho, englobando os equipamentos, ferramentas, mobiliário e instalações; o ambiente: envolve a temperatura, ruídos, vibrações, luz, cores, gases e outros; a informação: refere-se à comunicação que existe entre os elementos de um sistema; a organização: é a conjugação dos elementos citados no sistema produtivo e envolve aspectos como horários, turnos de trabalho e formação de equipes; as conseqüências do trabalho: envolve as questões de controle como inspeção de tarefas, estudo dos erros e acidentes e o gasto energético como a fadiga e o “stress” (IIDA, 1992).
O raciocínio criativo, envolve as estruturas cognitivas dentro de uma situação de trabalho, está relacionado com a sua inventividade ao enfrentar problemas, mas deve possuir excelência, que inclui tudo o que uma pessoa sabe e pode fazer. Para toda ação há necessidade de uma motivação, que pode ser considerada como extrínseca e intrínseca. A extrínseca está relacionada com o dinheiro e é menos importante do que a intrínseca, que é a vontade que a pessoa tem de solucionar um problema que ninguém conseguiu resolver, ou sentir-se especialmente útil à sociedade, como é o caso dos bombeiros. Neste processo todo o gerenciamento da criatividade e muito importante (AMABILE, 1999).
Muitas das atividades, até aquelas consideradas com um componente mental baixo, como o trabalho da agricultura requerem um componente cognitivo intenso e complexo. Toda atividade de trabalho possui pelo menos três aspectos, que são: o físico, o cognitivo e o emocional. Estes estão fortemente ligados e a sobrecarga de qualquer um deles, acarreta a sobrecarga dos outros dois. Pode-se entender esta situação, citando-se o problema da síndrome neurótica das telefonistas, que devido às exigências do trabalho, passam a desenvolver cefaléias, zumbidos, e assobios assim como pensamentos obsessivos com relação ao trabalho, como a repetição de fragmentos estereotipados de discursos, além de alterações no sono e no humor. Outro grupo de trabalhadores submetidos a especial estresse são os atendentes dos guichês destinados a receber reclamações, não para resolver os problemas freqüentemente insolúveis, mas para que alguém esteja lá ouvindo as reclamações e protestos. Tratar dos problemas de saúde mental desses trabalhadores, num plano individual ou técnico, é puramente ilusório, pois essas situações são produto de um aspecto organizacional e social da empresa/serviço. Se não houver períodos suficientemente longos para a recuperação do estresse provocado pela função, estes funcionários estão condenados a adoecer (WISNER, 1994). No caso dos bombeiros, que realizam turnos de 24 horas com intervalos de 48 horas, o estresse provocado pelo trabalho, aparentemente está controlado.
O objetivo prático da ergonomia é a segurança, a satisfação e o bem-estar do trabalhador em seu relacionamento com os sistemas produtivos. Em geral não se aceita a eficiência como sendo o objetivo principal da ergonomia, pois isto poderia significar sacrifício e sofrimento dos trabalhadores.
A preocupação de adaptar os objetos artificiais e o ambiente natural ao homem, sempre esteve presente desde os tempos da produção artesanal não-mecanizada. Contudo a Revolução Industrial tornou mais dramático este problema, pois as primeiras fábricas eram sujas, barulhentas, escuras, perigosas e as jornadas de trabalho chegavam a ter 16 horas diárias, sem férias e em regime de semi-escravidão. Na Europa por volta de 1900, surgem estudos na área da fisiologia do trabalho, na tentativa de transferir para o terreno prático os conhecimentos de fisiologia gerados em laboratórios. Na Inglaterra, durante a I Guerra Mundial (1914-1917), fisiologistas e psicólogos foram chamados para colaborarem, no esforço de aumentar a produção de armamentos, com a criação de Comissão de Saúde dos Trabalhadores na Indústria de Munições, em 1915. Com o fim da guerra, a mesma foi transformada no Instituto de Pesquisa da Fadiga Industrial, que realizou diversas pesquisas sobre este problema. O maior mérito deste instituto foi o de ter introduzido trabalhos interdisciplinares, agregando novos conhecimentos de fisiologia e psicologia ao estudo do trabalho.
Com o surgimento da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), utilizou-se os conhecimentos disponíveis para construir instrumentos bélicos relativamente complexos como, submarinos, aviões, tanques, radares, etc. Estes instrumentos exigiam muitas habilidades do operador, que operavam em condições ambientais bastante desfavoráveis e tensas no campo de batalha. Os erros e acidentes com conseqüências fatais eram freqüentes. Isto fez com que aumentassem as pesquisas para adaptar os instrumentos bélicos às características e capacidades do operador, reduzindo a fadiga e os acidentes (IIDA, 1992). No campo dos bombeiros, também ocorre a utilização de sistemas complexos como ferramentas de corte, roupas anti-chama, escadas especiais, que exigem bastante habilidade do operador e a sua utilização normalmente ocorre em momentos de grande tensão emocional.
No pós-guerra a ergonomia procurou melhorar as condições de vida da população e dos trabalhadores em particular, porém as suas propostas eram recebidas com desconfiança e não raramente eram ridicularizadas, pois era o Departamento de Defesa dos Estados Unidos quem apoiava as pesquisas na área. Daí a conotação militarista adquirida pelo “human factors”, ergonomistas em inglês dos EUA, que persiste até hoje. Muitos conhecimentos foram desenvolvidos para o aperfeiçoamento de aeronaves, submarinos e para a pesquisa espacial. Só recentemente que começou a ser aplicada, em maior grau, na indústria não-bélica (IIDA, 1992).
A natureza psicológica dos laços que unem os indivíduos de uma determinada organização, não pode ser vista apenas como materiais, morais, ideológicas ou sócio-econômicas. A organização modela os impulsos e os sistemas de defesa individuais, que por sua vez criam nela raízes.
O componente cognitivo envolve qualquer ação de trabalho. O emprego da inteligência de cada um dentro da empresa, explica o êxito da indústria japonesa. A inteligência está distribuída por igual em todas as raças humanas e nos diversos meios sociais. Há uma outra forma de inteligência, que não se aprende na escola, que é a inteligência que se desenvolve em situações reais de produção. Uma importante dimensão das pesquisas atuais nas ciências cognitivas, é a descoberta de modos de pensar tão racionais quanto a dos intelectuais, mas construídos com base em experiências de vida diferentes. O homem animal social, possui características fisiológicas e psicológicas que precisamos conhecer melhor, modos relacionais que precisamos aprofundar (WISNER, 1994).
A tendência das organizações é tornar-se fonte de angústia e prazer. Este é um dos aspectos mais notáveis do seu poder, a sua capacidade de influenciar o inconsciente. Essa forma de dominação organizacional, tem seus efeitos numa outra cena que é o próprio subconsciente. Trata-se portanto, de como cada um percebe os mecanismos que estão em operação e os papéis a assumir, para poder achar o seu lugar no sistema social, ou achar a lei que rege o funcionamento do conjunto (MOTTA, 1991).
Assim, a vida organizacional, trazendo um certo grau de alienação, também permite ao indivíduo, de alguma forma, realizar-se. O recalcamento funda uma mentira que sempre tem o efeito de mascarar, sem que essa máscara não possa ser um dia retirara e a verdadeira face redescoberta. É exatamente nisso que o recalcamento difere da repressão.
Quando a organização parece muito grande e poderosa, como é o caso da maior parte das multinacionais, ela assume um papel tanto de fornecedora de satisfação quanto de sanção. Dinheiro, trabalho, “status” e promoções, vêm da organização. Essas organizações geralmente levam a cabo uma política de recursos humanos, baseada na individualização dos problemas, de modo a impedir as reações coletivas. Frente a essa política o indivíduo apresenta-se isolado (MOTTA, 1991).
É assim que os indivíduos tendem a ver como impossível a sua vida psicológica e social, sem a inserção nas organizações. Essa inserção ocorrerá sempre em termos de um papel de “status” razoavelmente formalizado que lhe é atribuído. Isto ocorre na empresa, no exército, na universidade, na administração pública, tanto ou ainda mais do que ocorre na família (MOTTA, 1991).
A organização, no seu cotidiano, está sempre a chamar para a luta, luta que significa provar a própria existência, instaurando desta forma, as regras da luta pela sobrevivência. Tudo será definido de modo a permitir, e mesmo favorecer a expressão do Ego Ideal, e para dar a impressão fantasiosa do Ego Sólido e único. As regras do jogo serão dadas pelas estruturas de trabalho, com suas funções definidas, estabelecendo-se procedimentos que definirão a forma pela qual será lícito para cada um jogar. Sabe-se assim, o que é ser responsável, o que é ter consciência profissional, o que é senso de dever, o que é ser sério e trabalhador. São imagens que permitem a coerência das condutas coletivas, levando de forma secundária, os indivíduos a se comportarem de maneira uniforme, previsível e livre das interrogações próprias e dos demais (MOTTA, 1991).
Configura-se uma situação de duplo aprisionamento. Das estruturas organizativas do próprio trabalho e da própria conduta. Não há alternativa para, o dever de mostrar saber o que disse, fazer o que deve, e ser perseverante nas suas ações. Esse comportamento mascarado, cheio de símbolos, que Victor Thompson chama de “dramaturgia”, na realidade é orientado para a preservação da identidade social e para o bom funcionamento das organizações. Bom funcionamento entendido como produtivo e econômico. A dramaturgia visa ocultar o grande medo da desintegração e as fantasias destrutivas que podem ocorrer (MOTTA, 1991).
Uma das características mais notáveis dos seres vivos, é a diversidade de reações que podem assumir dentro de uma mesma situação. Todo indivíduo chega ao trabalho com seu capital genético, remontando o conjunto da sua história patológica antes do nascimento, as suas marcas in útero, e as marcas acumuladas das agressões físicas e mentais sofridas na vida. Ele traz também seu modo de vida, seus costumes pessoais e étnicos, seus aprendizados. Tudo isso pesa no custo pessoal da situação de trabalho em que é colocado. Os problemas nascem das relações conflituosas entre a história do indivíduo e a história da sociedade. De maneira mais precisa, as dificuldades das relações entre a pessoa e sua necessidade de prazer, e a organização que tende à instituição de um automatismo perfeito, é a adaptar o trabalhador a um modelo de máquina.
Alguns dos aspectos da organização são coativos e particularmente intoleráveis, podendo provocar reações perigosas, próprias de cada pessoa. Assim, é importante conhecer essas reações ao conceber um dispositivo técnico, e seu modo de organização e funcionamento (WISNER, 1994).
CONCLUSÃO
O trabalhador diante de sistemas complexos e perigosos, pode estar exposto a diversos erros políticos, de concepção, ausência de controle, falhas na manutenção, negligência, má qualidade da direção e principalmente, condições de trabalho desfavoráveis, que podem levar à catástrofes, com um custo de vidas muito alto.
Os sistemas complexos e perigosos constituem uma ameaça permanente à vida dos trabalhadores e das populações, à economia da empresa e do país, ao porvir de um ramo industrial ou até ao futuro da humanidade. A prevenção continua muito abaixo das necessidades (WISNER, 1994).
É fundamental levar em consideração a totalidade do ser humano e das circunstâncias que o rodeiam, para entender os processos do estresse. A realidade exterior é constituída a partir de um universo simbólico, que depende de cada sujeito, especificamente da forma como cada um constrói sua concepção de mundo. O corpo tem que se adaptar a uma realidade particular criada pelo próprio indivíduo, pela sua cultura que passa a ser a sua realidade. Desta maneira, não se pode rotular o estresse como bom ou mau, pois é através do estresse que nos adaptamos às situações da vida, o modo como reagimos a essas situações é que faz a diferença.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, Glaúcio Luiz B. Stress – diagnóstico e tratamento. Curitiba: Relisul, 1992.


AMABILE, Teresa M. Como não matar a criatividade. IN HSM Magnagement. Jan-fev, 1999.
BAUK, Douglas Alberto. Stress. IN: Revista Brasileira de Saúde Ocupacional. v. 13 n. 50 jun. 1995.
FRANCESCHI, Andréa Maria. A contribuição da atividade física no controle do stress. Curitiba, 2000. Monografia (Especialização em Ciências do Esporte e Medicina Desportiva) - Pontifícia Universidade Católica do Paraná.
IIDA, Itiro, Ergonomia projeto e produção. São Paulo: Editora Edgar Blucher, 1992.
LIPP, Marilda Emmanuel Novaes. Pesquisas sobre stress no Brasil – Saúde, ocupações e grupos de risco. Campinas: Papirus, 1996.
LIPP, Marilda Novaes e MALAGRIS, Lúcia Novaes. Manejo do estresse. In: RANGÉ, Bernard. Psicoterapia comportamental e cognitiva: pesquisa, prática, aplicações e problemas. Campinas: PSY, 1995.
LIPP, Marilda Novaes. Como enfrentar o stress. São Paulo: Icone; Campinas: Unicamp, 1986.
MOTTA, Fernando C. Prestes. Organizações: vínculo e imagem. Revista de Administração de Empresas. São Paulo, v. 31 n. 3, p. 5-11, jul/set. 1991.
SELYE, Hans, Stress – a tensão da vida. São Paulo: IBRASA, 1959.
SILVA, Francisco Pereira da. O estresse e suas implicações no trabalho policial. Belo Horizonte, 1999.
WISNER, Alain. A inteligência no trabalho: textos selecionados de ergonomia. São Paulo: FUNDACENTRO, 1994.

ANEXO
RECONHEÇA OS SINAIS DO ESTRESSE EM VOCÊ MESMO



Coloque um círculo ao redor da figura sempre que referir algo que você tem sentido na última semana.

Mãos frias

1

Problemas com a memória

6

Boca seca

1

Impossibilidade de trabalhar

6

Pesadelos

4

Nó no estômago

1

Dúvida quanto a si próprio

6

Enxaqueca

5

Mudança de apetite

5

Diarréia

3

Dificuldades sexuais

3

Aumento súbito de motivação

2

Entusiasmo súbito

2

Músculos tensos

1

Vontade de fugir de tudo

4

Problemas dermatológicos

5

Apatia, depressão ou raiva prolongada

4

Insônia

4

Aumento de sudorese

2

Náusea, má digestão

1

Tiques

3

Hipertensão arterial

5

Pensar continuamente num assunto só

4

Tédio

4

Irritabilidade excessiva

6

Taquicardia

1

Angústia ou ansiedade

6

Excesso de gases

5

Tontura

3

Hipersensibilidade emotiva

2

Perda do senso de humor

6

Aperto da mandíbula ou ranger dentes

1

A)

Total de 1 __________ Total de 2 __________ Total A _______



B)

Total de 3 __________ Total de 4 __________ Total B ______­­_

C)

Total de 5 __________ Total de 6 __________ Total C _______



D)

Total de 1, 3 e 5 ______ Total de 2, 4 e 6 _____


Análise dos Resultados





  1. Se a soma de (1, 3, 5) ou de (2, 4,6) forma maior que a soma de A, B ou C, pode estar começando a experimentar um estresse excessivo.

  2. Se a soma de B for maior que A ou C, há indicativos que você já está em fase intermediária do estresse.

  3. Se a soma de C for maior que A ou B, você pode estar já na fase de exaustão.

  4. Se a soma de 1, 3 e 5 for maior que a soma de 2, 4 e 6, significa que seus sintomas se manifestam mais na área somática.

  5. Se a soma de 2, 4, 6 for maior que a soma de 1, 3 e 5, seus sintomas são mais cognitivos ou emocionais do que físicos.





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