O tempo despótico da língua universalizante



Baixar 16.33 Kb.
Encontro19.02.2018
Tamanho16.33 Kb.

Santos, Milton. “O tempo despótico da língua universalizante”. São Paulo: Folha de São Paulo, 05 de novembro de 2000.
O tempo despótico da língua universalizante

MILTON SANTOS


Formas de expressão tão velhas quanto a história, as línguas nasceram da interação com o espaço da vida. Tempo houve em que todas as línguas eram, por assim dizer, "naturais", territorializadas, produtos do ambiente social. Mais tarde, o comércio e as conquistas tanto foram elementos de desagregação quanto de enriquecimento linguístico. Alguns países e nações construíram sua unidade graças ao concurso de línguas transplantadas de outras geografias. Pode-se então falar de desterritorialização. É o caso, por exemplo, do português no Brasil ou do francês no Canadá. Em outros casos, a língua importada impunha-se exatamente como intermediário entre o exterior e o interior e dominava as intersecções que eram as cidades, os núcleos rurais de modernização, os grupos sociais relacionados etc. As mediações se faziam por meio da religião, do ensino e do dinheiro. E a língua da transação buscava igualmente se impor como língua de cultura... moderna. Todavia os domínios linguísticos nunca foram universais, ecumênicos. Nem o latim nem o árabe, apesar do vigor com que se propagaram, conseguiram ocupar a totalidade do mundo habitado. E o sonho de uma língua única, encarnado por uma língua artificial, o esperanto, não logrou concretizar-se. É uma língua natural que, neste fim de século, parece conseguir se impor a um mundo artificializado. Mas então já não se faz necessária a presença de um colonizador. É essa, talvez, a diferença entre os fluxos linguísticos comandados pela Grã-Bretanha em direção a alguns pontos e zonas de diversos continentes e os fluxos mais localizados e precisos provenientes dos Estados Unidos.
Espaços instrumentais

A nova arquitetura do mundo, da qual resulta a globalização a que estamos assistindo, se funda na universalidade de um único sistema técnico. E, nas condições atuais, tudo o que se refere a ações hegemônicas na vida econômica, política e cultural parece se dizer em inglês. Mas, da mesma forma que não existe espaço global, senão apenas espaços de globalização, também não existe língua universal, senão apenas uma língua universalizante. Atualmente os espaços linguísticos hegemônicos estão incluídos nos espaços geográficos e de certo modo os englobam, por sua vez. Mas eles já não se superpõem. Esses novos espaços linguísticos são espaços instrumentais, e não espaços vitais, no sentido próprio: são espaços de organização, e não espaços orgânicos. Os continentes lógicos, fundados nas relações industriais, comerciais e estratégicas do nosso tempo, podem prescindir de território, pelo menos se empregarmos esse termo tal como a modernidade européia o definiu, a saber, uma extensão contínua, marcada pela presença de uma sociedade que o torna coerente. O espaço de pontos, isto é, o não-espaço, eis a base geográfica desse novo império linguístico. Seja como for, convém reconhecer, em primeiro lugar, a importância desses fluxos verticais e dessa ação vertical na vida econômica, nas transações culturais, na modelação dos espíritos, na produção calculada de uma geopolítica planetária fundada na informação. Essas novas verticalidades confundem os espíritos. Mesmo entre os geógrafos, muitos desesperam do próprio objeto de sua pesquisa e não param de repetir, de modo um tanto temerário, que o espaço já não existe. Em verdade, a apreensão das divisões do espaço passa hoje pelo reconhecimento da existência de dois cortes simultâneos e complementares. Designo esses cortes geográficos pelos termos verticalidade e horizontalidade. As verticalidades são formadas por pontos, as horizontalidades por planos. As verticalidades dão-nos o que se denomina espaço dos fluxos, a paisagem eficaz, o reino do cálculo, o domínio da racionalidade cega e triunfante. As horizontalidades dão-nos o espaço banal, o espaço da vida, do cotidiano compartido por todos, o reino em que todas as emoções são permitidas. Mas não existe separação real entre essas duas realidades. Suas racionalidades coexistem e se interpenetram, modificam-se mutuamente, cada qual se afirmando, a cada instante, em função de seus próprios objetivos. Sucederá o mesmo com a confrontação entre a língua tornada vertical e as línguas que permaneceram horizontais? Um filósofo francês, Bernard Stiegler ("La Technique et le Temps", A Técnica e o Tempo, Galilée, 1994), rememorando a lição de André Leroi-Gourhan ("Milieu et Techniques", Meio e Técnicas, Albin Michel, 1945), lembra a relação íntima que no passado existia entre a tecnologia e a etnologia. Evoluindo, então, de comum acordo, elas formavam juntas uma espécie de geografia social.


Delírio de rapidez

A idéia de "meio-associado", tomada de empréstimo a Simondon ("Du Mode d'Existence des Objets Techniques", Do Modo de Existência dos Objetos Técnicos, Aubier, 1958), vem a propósito para compreender melhor ainda esse processo. Hoje, porém, as técnicas não buscam se amoldar a esse "meio-associado", que no entanto foi indispensável para a sua implantação. Elas pretendem instalar-se na indiferença e transformam o seu continente sociogeográfico. À semelhança da informação hegemônica que ela transporta, será que a língua hegemônica desempenha esse papel? Trata-se de mais um episódio daquela busca desesperada de unificação da racionalidade que visa à construção de instrumentos de ação que assegurem a implantação generalizada da fluidez a serviço do pragmatismo. Daí o delírio de rapidez, do qual as rodovias da informação, aparentemente imateriais, são o aspecto concreto.

Trata-se de superpor ao espaço rugoso, vivido, um espaço liso, matematizado, apto para o cálculo, em que a duração suprime a extensão. Como prognosticava Sorel, estamos a um passo de sobrepor à natureza "um laboratório ideal". A utilização prática dessas novas paisagens supõe, todavia, a existência de uma linguagem matemática veiculada por uma língua instrumental, uma língua vertical que ameaça as linguagens territoriais.

O que se diz ser a supressão do espaço pelo tempo nada mais é do que a afirmação de um tempo despótico, medido por um relógio mundial que só funciona plenamente nos espaços desse tempo despótico que designamos por espaços de globalização. Essa temporalização e essa espacialização não existem, contudo, senão para alguns atores da cena mundial.

Que dizer, por exemplo, de Michael Jackson? Segundo seu empresário Marcel Avram, em entrevista à Folha, em 9 de outubro de 1993, o mais moderno dos "pop stars" globalizados "não se lembra da América do Sul. Ele achava que Caracas ficava na Jamaica". No hotel cosmopolita que teria feito nascer nele essa idéia, um dos membros da equipe usava uma "t-shirt" com a seguinte frase: "Meu trabalho é tão secreto que nem sei o que faço". Então, de que metáfora, de que experiência se trata?

O "speaker" da Câmara dos Deputados americana, o republicano Newt Gingrich, em artigo publicado no mundo inteiro (ver "Le Monde" de 2 de março de 1995), fala sem pudor da vocação de seu país para mostrar o caminho à humanidade. Um de seus argumentos se baseia no papel que esse país deve desempenhar na revolução da informação. De que projeto, de que realidade se trata? O fato é que, em passado recente, também a Europa fora vista como preceptora do universo, porque detentora da rapidez.

Mas o espaço-tempo desses atores hegemônicos da cena atual, repousando em pontos isolados da ação, se funda sobretudo na técnica, enquanto os demais pontos assistem a uma recriação não planejada da história. Confundir esse espaço e esse tempo hegemônicos com o tempo e o espaço dos 6 bilhões de homens e mulheres que povoam a Terra é um grave equívoco. Principalmente porque, como dizia Gaston Berger ("Phénoménologie du Temps", Fenomenologia do Tempo, PUF, 1964), nosso mundo novo se caracteriza também pelo fato de que as massas entraram em movimento.

As massas se mobilizam nos lugares, nos espaços de horizontalidade e de emoção, em que produzem a linguagem com a qual elas afrontam o mundo. Nesse caso, a criação territorial de novas coerências horizontais aparece como fundamental. Trata-se de estimular essa criação em todos os domínios, pois só assim o domínio lingüístico não ficará isolado. A música já nos fornece algumas respostas que pertencem mais ao domínio do espontâneo que ao do organizado. O rap, criado no meio urbano dos Estados Unidos como forma de expressão da juventude, se propaga no mundo inteiro e assume localmente uma fisionomia própria, sem perder o seu conteúdo universal. O rap brasileiro é diferente do rap americano, como o é também do rap francês. Algumas celebridades da canção brasileira de renome internacional, como Gilberto Gil e Caetano Veloso, dão espetáculos muito aplaudidos em que a música técnica abre espaço para que as canções se imponham por seu conteúdo melódico e não por sua tecnicidade. Por mais que se procure nos fazer acreditar no contrário, não existe uma racionalidade única, nem uma única forma de pensar e de viver no mundo. A descoberta de novas formas de coexistência é uma tarefa urgente que não pode ser abandonada à mera espontaneidade, porque exige um mínimo de organização.


Saber técnico ou mundial

A história das relações internacionais dos últimos três séculos é também uma história de desvalorização do saber dos outros. Com a globalização totalitária a que assistimos, esse processo se acelera.

No mundo atual, vetores verticais -que incluem a língua vertical - instalam-se como fatores entrópicos que ameaçam todos os equilíbrios estabelecidos porque afetam o meio ambiente, a economia e a cultura.

Um saber vertical -que é saber técnico-, que se pretende saber mundial, tenta se impor aos saberes horizontais autênticos. Isso permite dizer que a famosa distância cultural assim gerada pertence mais ao domínio da fábula que ao da realidade, já que esse saber vertical, tão eficaz, carece de sentido. Na verdade o saber local, horizontalizado, pode ser mais universal que esse saber pretensamente mundial destinado a criar um mundo uniforme e sem objetivo.




: journal
journal -> Medidas de dureza vickers na superfície de blocos de resina fenólica com canais endodônticos simulados
journal -> Relação entre ritmo acentual e escrita nas sessões de chat Resumo
journal -> Título do artigo (Arial 26)
journal -> Inativação dos fatores antinutricionais que compõem o grão de soja e perdas no processo de extrusão Resumo
journal -> Obtenção de hidrolisados de concentrado proteico de soro de leite com atividade inibitória da enzima conversora de angiotensina: Ação das proteases do Bacillus licheniformis e do Aspergillus oryzae
journal -> Será a economia dos eua a próxima bolha a estourar
journal -> Modelo de Formação dos Artigos para o tic'2005
journal -> O desenvolvimento motor e benefícios das crianças de 06 Á 08 anos que praticam karate
journal -> ObtençÃo de hidrolisados protéicos de feijão com baixo teor de fenilalanina
journal -> Considerações sobre as regras fundamentais da sucessão legítima




©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal