O suspeito em fuga



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JACK, O ESTRIPADOR:

O SUSPEITO EM FUGA

LUIZ ROBERTO DA COSTA JÚNIOR



JACK, O ESTRIPADOR:

O SUSPEITO EM FUGA










PARTE

I

Em 1887, a Rainha da Grã-Bretanha e Irlanda havia comemorado o Jubileu de Ouro de seu reinado. Se, por um lado, ela fosse tratada como a Rainha Carestia pelos irlandeses. Por outro lado, a aristocracia se orgulhava de que o sol nunca se punha no Império Britânico, pois havia 11 anos que a Rainha Vitória havia sido coroada Imperatriz da Índia.



A cidade de Londres tinha centros residenciais, comerciais e administrativos no West End. A região de East End, separada pelo rio Tâmisa, era onde ficavam as indústrias navais e têxteis, cortumes, matadouros, havia prostituição e um alto índice de criminalidade. Apenas no distrito de Whitechapel havia mais de 60 bordéis com mais de mil prostitutas. As mulheres “desafortunadas” (que ficavam sem o marido) não tinham quase outra opção, por falta de qualquer perspectiva de trabalho (além de fazer algum pequeno trabalho eventual), entre escolher morrer de fome ou prostituir-se para ao menos ter algum dinheiro para comer. Enquanto isso, migrantes de diversas partes dirigiam-se a Londres em busca de empregos precários e tentar sobreviver em habitações insalúbres.

A Revolução Industrial trouxera prosperidade para a burguesia, mas gerara uma massa desvalida de proletários miseráveis. A migração dos camponeses para as grandes cidades como Londres, Birmingham e Liverpool provocava um aumento dos bolsões de pobreza em cortiços dos bairros industriais. Em decorrência da Guerra de Secessão (1861-1865) nos Estados Unidos, diversas indústrias têxteis britânicas foram à falência por falta de algodão, o que agravava a explosão demográfica e o desemprego nas grandes cidades industriais. A agitação social já se manifestava na imprensa com a infiltração de socialistas. Uma grande manifestação pacífica na Trafalgar Square, convocada para 13 de novembro de 1887, foi violentamente reprimida com elevado número de pessoas mortas, feridas e presas.

Charles Warren (comissário da polícia metropolitana), que defendia a militarização da polícia e a centralização do Criminal Investigation Department (CID), deu a ordem para o massacre do Domingo Sangrento. Em dezembro, ele foi condecorado como Cavaleiro da Rainha. Jornais oposicionistas como o Star e o Pall Mall Gazette começaram uma campanha de ataque: War on Warren.

Sir Charles Warren, com sua farda pomposa cheia de medalhas, procurava defender o governo contra os cidadãos e não proteger os cidadãos contra os criminosos. A polícia focava a sua ação em reprimir as manifestações de irlandeses antigoverno e também a reivindicação por reformas para combater o desemprego. Em Londres, cerca de 15 mil policiais (munidos apenas de cacetete) patrulhavam a pé as ruas da cidade. A proporção era de um policial para cada 4 mil cidadãos tendo o trabalho de patrulhar cerca de 10 quilômetros de ruas. O número de policiais caía em agosto, em cerca de 2 mil, por causa das férias de verão. As ruas de Londres eram iluminadas com lampião a gás. As casas era aquecidas com carvão de baixa qualidade e isso provocava uma densa fumaça preta sobre a cidade. A chuva contribuía para baixar ainda mais uma cortina negra sobre a cidade. As lamacentas ruas de East End eram infestadas de ratos e lixo.

Este é o painel histórico de 1888, quando ocorreu o Outono do Terror: Jack, O Estripador provocou pânico nas ruas de Londres ao matar e mutilar várias prostitutas.

PARTE II

Londres, 1888. O livro Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde do escritor escocês Robert Louis Stevenson (1850–1894) havia sido publicado em 1886. A adaptação para o teatro fazia grande sucesso desde a estreia em 1887. O ator inglês Richard Mansfield (1857-1907) imortalizou-se no duplo papel de médico e monstro no Teatro Lyceum, em Londres, durante a temporada de 1888.

Esta adaptação teatral de O Médico e o Monstro como também o livro O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde (1854-1900), publicado em 1890, revelavam a dualidade da sociedade vitoriana ao mostrar que pessoas respeitáveis socialmente no convívio do dia-a-dia podiam ter um comportamento totalmente diverso do que aparentavam ser. O desenvolvimento de estudos sobre a loucura, a esquizofrênia e a psicose maníaco-depressiva (e modernamente também o distúrbio bipolar) ganharam força sob a égide de O Médico e O Monstro. Esta peça de teatro capturou como nunca o momento histórico de 1888 ao retratar como um assassino poderia conviver socialmente sem muita desconfiança das demais pessoas. A impressionante atuação do ator Richard Mansfield, com sua transformação de médico em monstro, chegou a causar-lhe problemas inclusive de ser acusado de ter cometido os assassinatos em Whitechapel.

Jack, O Estripador provocou pânico nas ruas de Londres ao matar e mutilar várias prostitutas durante o Outono do Terror. O Memorando Macnaghten de 23 de fevereiro de 1894, confidencial e endereçado ao Secretário do Interior, afirma que Jack, O Estripador fez apenas cinco vítimas: Mary Ann Nichols (31/8/1888), Annie Chapman (8/9/1888), Elizabeth Stride e Catherine Eddowes (30/9/1888) e Mary Jane Kelly (9/11/1888). Entretanto, esse Memorando foi devidamente vazado para a imprensa com o único objetivo de combater as matérias do jornal The Sun que indicavam como suspeito um homem que esfaqueou as nádegas de 6 mulheres e que foi internado num manicômio. Essa versão oficial de que Jack, O Estripador fez apenas cinco vítimas foi assinada pelo aristocrata Melville Macnaghten, diretor do CID a partir de 1890, condecorado como Cavaleiro da Rainha em 1908 e que se aposentou em 1913.

Embora, na verdade, tenha ocorrido um total de 11 assassinatos em Whitechapel entre 3 de abril de 1888 e 13 de fevereiro de 1891, há uma disputa entre os estudiosos sobre quais assassinatos podem ou não ser atribuídos a Jack, O Estripador. Então, vamos por partes... Ou seja, analisar apenas os assassinatos ditos canônicos por Sir Melville Macnaghten.

Em 31 de agosto de 1888, a prostituta Mary Ann Nichols, conhecida como Polly Nichols foi morta na travessa de Buck, perto do Cemitério dos Judeus de Whitechapel. Ela era alcoólatra e separada do marido William Nichols com quem tivera cinco filhos. Por volta de 3h40 da madrugada, ela foi encontrada morta em frente ao portão de uma estrebaria por um carreteiro que saía para o trabalho. O médico-cirurgião Llewellyn, que foi chamado ao local, constatou o óbito e que havia dois cortes profundos que seccionaram a traqueia e a goela. Posteriormente, durante a autópsia foi constatada que ela havia sido estripada com o abdome aberto.

O jornal Star deu um grande destaque ao caso e provocou alarde em 1º de setembro ao associar esta morte com a de duas outras prostitutas ocorridas anteriormente (Emma Smith, em 3/4/1888, e Martha Tabram, em 7/8/1888, assassinada com 39 punhaladas), mas no primeiro caso, a vítima fora atacada, roubada e estuprada (por uma gangue de jovens marginais) e morreu de peritonite no Hospital de Londres. Entretanto, a enorme pressão sobre as autoridades policiais fez com que o CID fosse acionado e o inspetor Frederick George Abberline, designado para investigar o caso da morte de Mary Ann Nichols.

Em 8 de setembro de 1888, Annie Chapman (filha de militar e que fora casa com John Chapman com quem tivera três filhos) foi encontrada morta, com a garganta cortada e o abdome aberto com vísceras expostas, por um carroceiro que se preparava para sair para trabalhar por volta das 6 da manhã na Rua Hanbury. Pela marca nos dedos, dois anéis de latão haviam sido arrancados de sua mão esquerda. A garganta havia sido seccionada por dois cortes, de acordo com o médico-cirurgião George Bagster Phillips. Ele constatou durante a autópsia que o útero, a vagina e grande parte da bexiga tinham sido retirados e levados pelo assassino, pois não foram encontrados.

Durante as investigações, a testemunha Elizabeth Long afirmou que caminhava pela rua Hanbury, às 5h30 da manhã em direção ao mercado, quando viu Annie Chapman (conhecida pelos amigos como Dark Annie: Annie Morena) conversando com um homem moreno com roupa escura e que usava chapéu deerstalker marrom (boné rural com duas palas) em frente ao número 29. Pouco depois, do quintal de sua casa no número 27, um carpinteiro chamado Albert Cadosch ouviu vozes, um grito de mulher (Não!) e algo caindo sobre a cerca de 1,67m de altura, mas como não ouviu mais nada, ele saiu para trabalhar.

A equipe liderada pelo investigador Abberline conseguiu identificar o suspeito John Pizer (judeu polonês de 38 anos) que se enquadrava na descrição e que acabou detido. Em seu poder foram encontradas cinco facas que ele alegou usar em seu serviço como sapateiro, daí seu apelido Avental de Couro. Com passagens pela polícia e uma condenação por apunhalar um colega, John Pizer só foi solto porque o álibi para o primeiro crime na madrugada de 31 de agosto era muito sólido: passara a noite num albergue da avenida Holloway e conversara com várias pessoas na rua sobre um incêndio ocorrido nas docas, fato que foi confirmado pelo proprietário do estabelecimento.

A polícia, antes criticada por causa da inércia, passou a ser atacada por causa da falta de critério nas investigações e da arbitrariedade na detenção dos suspeitos. Vários suspeitos foram detidos e depois foram soltos quando os álibis mostraram-se sólidos como no caso de John Pizer. Além dele, vale destacar dois que permaneceram como suspeitos até 30 de setembro: um cabeleireiro alemão chamado Charles Ludwig que foi preso, em flagrante, ao ameaçar uma prostituta com uma faca; o suíço Jacob Isenschmid, que era demente, tinha alucinações e ameaçava explodir a rainha no Palácio de Buckingham com dinamite e acabou internado no Hospício Grove Hall, em Bow. O inspetor Abberline escreveu em seu relatório de 18 de setembro que provavelmente este suspeito seria o assassino. Sua expectativa de ter esclarecido o caso dos assassinatos de Whitechapel se esvairia em decorrência do evento duplo ocorrido em 30 de setembro.

Após o segundo crime de grande repercussão, a opinião pública começou a pressionar ainda mais para uma solução para o caso. O Comitê de Vigilância de Whitechapel foi criado pela associação dos comerciantes do distrito para patrulhar a região a fim de combater o déficit de policiais. Enquanto isso, o comissário Charles Warren que estava incomodado com a descentralização do CID forçou a demissão de James Monro. Isto indispôs grande parte do departamento que ameaçou se demitir juntamente com o diretor do CID. O nomeado para assumir foi Robert Anderson que, em meio a esta grave crise, simplesmente partiu para a Suíça em férias. Esta disputa na cúpula deixou flagrante não só a inércia da polícia como também a falta de liderança que a desmoralizou para resolver os crimes de Whitechapel.

Durante a madrugada de 30 de setembro de 1888 ocorreu o evento duplo quando a sueca Elizabeth Stride (que estava separada do marido John Stride) foi morta na rua Berner com a garganta cortada enquanto Catherine Eddowes foi encontrada, na Praça Mitre à distância de 1,5 Km, com a garganta cortada e várias mutilações na face e no estômago, sendo que o rim esquerdo e o útero foram retirados pelo assassino (sem a mesma precisão cirúrgica do caso Annie Chapman, segundo o Dr. Phillips).

O primeiro crime do evento duplo ocorreu por volta da 1 da manhã. Um vendedor de bijuterias entrava com sua carroça puxada por um pônei no pátio Dutfield na Rua Berner, ao lado do Clube Educacional Internacional de Trabalhadores, para descarregar a mercadoria, mas o animal empacou e ficou muito assustado. Após apear, a fim de verificar o que tinha acontecido, o vendedor de bijuterias encontrou (com a ajuda de outras pessoas e uma vela) o corpo de Elizabeth Stride ainda quente, o que indicava que o assassino tinha acabado de fugir.

O segundo crime do evento duplo ocorreu na Praça Mitre, área que pertence à City (espécie de cidade dentro da cidade de Londres), sob responsabilidade da Polícia Municipal que não se reportava à Secretaria do Interior ou à Polícia Metropolitana. O policial Edward Watkins havia passado à 1h30 pela Praça Mitre e não havia nada, mas ao retornar na ronda seguinte à 1h45 encontrou o corpo de Catherine Eddowes. O médico George William Sequeira foi chamado ao local e confirmou o horário da morte, fato que foi corroborado posteriormente após a chegada do cirurgião da Polícia Municipal dr. Frederick Gordon Brown.

Pouco antes das três da manhã, o pedaço do avental branco ensanguentado de Catherine Eddowes (que havia sido cortado pelo assassino) foi encontrado por um policial no chão da rua Goulston e perto de uma enigmática frase escrita na parede com giz: The Juwes are the men that will not be blamed for nothing. O termo Juwes é de origem maçom e refere-se aos pedreiros Jubelo, Jubela e Jubelum, conhecidos como os Juwes, que assassinaram Hiram Abif, primeiro-grão-mestre maçom e arquiteto do Templo de Salomão. Os três receberam a punição de terem a garganta cortada, sendo as vísceras e o coração jogados sobre o ombro esquerdo.

A rua Goulston, a dez minutos de caminhada da Praça Mitre, pertencia à jurisdição da Polícia Metropolitana e o fato acabou permitindo que o crime fosse investigado por Sir Charles Warren, em pessoa, por volta das cinco da manhã. O fotógrafo Thomas Dutton foi chamado ao local para tirar fotos da evidência, mas o comissário Charles Warren determinou que tanto a inscrição fosse apagada como posteriormente houvesse a destruição das chapas fotográficas enviadas à polícia. Isto permanece extremamente controverso, pois Charles Warren era maçom e ele foi alvo de pesadas críticas, tanto por parte da imprensa como dentro da própria polícia, por causa da destruição de uma evidência numa importante investigação criminal. Motivo que acabou por ajudar a alimentar a famosa teoria conspiratória sobre o envolvimento da família real no crime e o consequente encobrimento da Scotland Yard: o príncipe Albert (neto da rainha Vitória) teria um suposto envolvimento com a prostituta Mary Jane que, juntamente com outras três prostitutas, estaria chantageando-o e, por isso, o médico da família real Sir William Gull teria sido encarregado de eliminá-las. Sir William Gull estaria acompanhado de um cocheiro numa carruagem para dar carona e oferecer uvas envenenadas(!) para depois matar as prostitutas conforme os rituais maçônicos (sendo que a segunda do evento duplo teria sido morta por engano ao ser confundida com Mary Jane) e, além disso, a culpa recairia sobre um advogado suicida chamado Montague John Druitt que foi encontrado afogado no rio Tâmisa no último dia de 1888. A teoria real-maçônica foi exibida pela TV britânica, em 1973, e para algumas pessoas é mais fácil acreditar nela e não que houve incompetência e negligência por parte da polícia.

Durante a investigação do evento duplo, houve vários testemunhos relevantes para a apuração do caso: 1) a testemunha William Marshall descreveu o suspeito como sendo de meia-idade, boné, roupas escuras, bigode sem suíças, fala mansa e educada. O suspeito estava conversando com a vítima na rua Berner às 23h45 da noite de 29 de setembro; 2) o guarda Smith descreveu o suspeito com cerca de 28 anos, 1,70m, aparência respeitável, roupas escuras, de bigode sem suíças e segurava um pacote de cerca de 20 centímetros. O suspeito estava conversando com a vítima por volta de 0h30, da madrugada de 30 de setembro, quando o guarda Smith fazia sua ronda; 3) a testemunha Israel Schwartz descreveu o suspeito como tendo cerca de 30 anos, 1,65m, cabelo castanho, trajando sobretudo escuro, calças escuras e boné de duas palas. Além disso, o imigrante húngaro Israel Schwartz viu o suspeito às 0h45 tentando puxar Elizabeth Stride, na rua Berner, e ao virá-la acabar por jogá-la ao chão. Um segundo homem do outro lado da rua acendia um cachimbo e o primeiro suspeito chamou-lhe de “Lipski” (expressão muito usada na época para insultar os judeus desde que um judeu chamado Lipski fora enforcado pelo assassinato de uma judia em 1887). Tanto a testemunha como o segundo suspeito (descrito como tendo 35 anos, 1,80m, cabelo castanho claro, sobretudo escuro, chapéu preto de aba larga e de cachimbo na mão) correram em direção à ferrovia que ficava próxima ao local, deixando Elizabeth Stride à mercê de seu assassino no quarto de hora seguinte até a uma da manhã de 30 de setembro.

No caso do segundo assassinato do evento duplo, a testemunha Joseph Lawende descreveu o suspeito como sendo um homem de cerca de 30 anos; 1,70m, claro, bigode, paletó de cor cinza e boné cinza de duas palas e um lenço vermelho. O caixeiro-viajante Joseph Lawende saía com dois amigos do Imperial Club, na rua Duke, quando viu Catherine Eddowes conversando com o suspeito na Church Passage, rua coberta que vai dar na Praça Mitre, pouco depois de uma e meia da manhã. Dois dias depois do crime, a vítima Catherine Eddowes foi reconhecida pelo seu companheiro John Kelly, havia sete anos, por causa da descrição das roupas e das características da vítima que tinham sido divulgadas pela imprensa, além da tatuagem T.C., no antebraço esquerdo da vítima, que se referia ao antigo companheiro dela: Thomas Conway com quem ela vivera por duas décadas, sem casar, e com tivera três filhos.

Em 1º de outubro, manifestações no Victoria Park e no Mile End pediam a cabeça de Sir Charles Warren e também do secretário do Interior Henry Matthews, membro do gabinete do primeiro-ministro conservador Lorde Salisbury. O jornal Daily Telegraph, que apoiava o governo, chegou a escrever: “Já estamos fartos do sr. Secretário do Interior Mattews. Ele nada sabe, nada ouviu, e nada pretende fazer com relação a assuntos sobre os quais deveria estar muito bem informado e pronto para agir com energia e presteza. Já está na hora desse ministro ceder seu lugar a alguém com maior competência” (Schmidt, 2009, p.76).

Diante da gravidade do caso, Robert Anderson (diretor do CID) finalmente foi obrigado a retornar de suas férias na Suíça. Ele chegou com uma solução pronta para o caso: as prostitutas que fossem encontradas nas ruas, após a meia-noite, deveriam ser encarceradas para sua própria segurança. Em 09 de outubro, Sir Charles Warren levou dois cães de caça (Barnaby e Burgho), ao Regents Park, para testar como seria a perseguição ao criminoso de Whitechapel (por suas ruas lamacentas e mal cheirosas...) quando da ocorrência de um novo crime. Ambas as ideias não prosperaram por serem totalmente estapafúrdias.

Em 25 de setembro, uma carta forjada pelos jornalistas Tom Bulling e Charles Moore foi enviada à Scotland Yard: estava assinada Jack, O Estripador e foi publicada pelo jornal Daily News em 1º de outubro após a ocorrência do evento duplo. Isto deu tanto uma alcunha para o criminoso como provocou uma enxurrada de cartas falsas (cerca de mil por semana) que tumultuavam a apuração do caso. Entretanto, no dia 16 de outubro, uma carta intitulada “Do Inferno”, recebida por George Lusk (presidente do Comitê de Vigilância de Whitechapel), acompanhada de metade de um rim infectado com a doença de Bright (uma forma de uremia, a mesma que acometia Catherine Eddowes) deixou poucas dúvidas sobre a autenticidade da carta que é atribuída ao verdadeiro assassino.

A paranóia causada pelo evento duplo começou a ter reflexos no comportamento das pessoas: um açogueiro, constantemente acusado de ser o assassino, matou-se cortando a própria garganta; uma costureira enlouqueceu ao sentir-se perseguida pelas ruas e foi internada num hospício; a esposa de um tecelão enforcou-se por não aguentar viver aterrorizada; na Irlanda, uma mulher entrou em estado de choque e morreu quando um homem agitou uma faca diante dela e disse que era Jack, O Estripador. A esposa do reverendo Barnett, vigário da igreja de São Judas, em Whitechapel, organizou um abaixo-assinado (endereçado à Rainha Vitória) com cerca de 5 mil assinaturas de mulheres pedindo o fechamento das casas de má-reputação. A resposta da rainha foi encaminhar o pedido para que o secretário do interior, Henry Matthews, tomasse as providências cabíveis e resolvesse a questão.

Enquanto isso, as investigações prosseguiam e o suspeito Dr. Robert Donston Stephenson chegou a ser interrogado duas vezes. Dr. Stephenson estava internado em decorrência de esgotamento nervoso no Hospital de Londres, em Whitechapel, no período de 26 de julho a 7 de dezembro. Ele se encontrava num local de onde poderia fugir durante a madrugada para cometer todos os cinco assassinatos para depois retornar sem ser descoberto. Ele escreveu para a polícia, após o evento duplo, sobre sua teoria dizendo que o assassino era francês e que na enigmática frase não estava escrito Juwes (o correto em inglês seria Jews, mas sim Juives em francês) e o que os assassinatos envolviam magia negra. Em 1º de dezembro, o Dr. Stephenson escreveu um artigo no jornal Pall Mall Gazette com a mesma versão. Apesar disso, ele apresentou uma outra versão para acusar um próprio médico do hospital, Dr. Morgan Davies, como suspeito de ser Jack, O Estripador porque este descreveu com muita precisão como seria um dos assassinatos. O Dr. Stephenson foi descartado como suspeito por ser mais velho e mais alto do que o suspeito, além do que a sua saúde debilitada por doenças, bebidas e drogas dificilmente permitiria que ele cometesse tais crimes com o vigor necessário principalmente no caso do evento duplo.



Sir Charles Warren estava desgastado no cargo de comissário e sua queda já era dada como certa por causa do desprestígio causado pela não captura do assassino de Whitechapel. Robert Anderson começou a fazer reuniões com o ex-diretor James Monro e com o secretário do Interior Henry Matthews a fim de tratar do futuro do CID, sem comunicar o fato ao comissário Charles Warren. O mês de outubro transcorreu sem nenhum crime, mas também sem uma solução para o caso, pois a polícia não conseguia prender o assassino. Vários suspeitos tinham sido presos e depois soltos quando os álibis foram confirmados ou porque ocorrera um novo crime durante o mês de setembro. A posição de Sir Charles Warren ficou insustentável e ele se demitiu em 8 de novembro.

Na madrugada de 9 de novembro, a irlandesa Mary Jane Kelly foi brutalmente assassinada e trucidada na cama no Beco de Miller, no quarto nº 13, no crime mais brutal e horrendo que ocorreu em Londres no século XIX. Por volta de 10h45 da manhã, o proprietário do Beco de Miller, John McCarthy, enviou seu empregado da loja de velas da rua Dorset, Thomas Bower, para cobrar o aluguel atrasado de Mary Jane, mas ele encontrou a porta fechada e pela janela constatou que ela havia sido morta. A polícia foi avisada por John McCarthy, o inspetor Abberline isolou o Beco de Miller e telegrafou ao comissário Charles Warren para que os dois cães farejadores (Barnaby e Burgho) fossem enviados imediatamente à cena do crime. Isto demonstrou uma total falta de coordenação de trabalho entre o CID e a Scotland Yard, pois os cães já haviam sido devolvidos ao dono, assim como o comissário Charles Warren já havia se demitido no dia anterior. Este ficara sabendo da conspiração que minava a sua autoridade e, por isso, publicou um artigo numa revista, no início de novembro, no qual insistia em que a direção do CID deveria ser subordinada ao comissário da Polícia Metropolitana. Henry Matthews, secretário do Interior, ficara enfurecido com o comissário Charles Warren e chamara-lhe a atenção por divulgar publicamente assuntos internos da polícia e este decidira finalmente demitir-se em 8 de novembro. Dois dias depois, Henry Matthews decidiu reconduzir James Monro ao cargo de comissário da Polícia Metropolitana.

As primeiras suspeitas recaíram sobre Joseph Barnett, ex-companheiro de Mary Jane, que foi interrogado por quatro horas pelo inspetor Abberline. Joseph Barnett era apaixonado pela vítima e tentava sustentar a ambos, mas a perda de seu emprego como limpador de peixes e carregador no mercado, em junho de 1888, levou Mary Jane à prostituição. A hipótese de crime passional, após uma frustrada tentativa de reconciliação na madrugada do crime, foi levantada por Bruce Paley, em 1995, no livro Jack the Ripper: the Simple Truth. Joseph Barnett correspondia à descrição do suspeito e teria tanto o motivo como a oportunidade para matar Mary Jane. Entretanto, várias pessoas próximas a Mary Jane afirmaram que Joseph Barnett era atencioso e dava dinheiro a ela, mesmo eles não estando mais juntos, e que não tinham conhecimento de nenhum ato de violência dele em relação a ela, mesmo estando bêbado. O inspetor Abberline acreditou na inocência de Joseph Bernett e este foi liberado após o interrogatório.

O inquérito para apurar a morte de Mary Jane foi aberto às onze da manhã de 12 de novembro e, muito apressado e mal conduzido, foi encerrado após seis horas e meia de duração no mesmo dia. O assassinato ocorrera em Spitalfields, mas o inquérito foi feito em Shoreditch Town Hall porque o corpo foi levado para o necrotério de Shoreditch. O veredito foi de assassinato premeditado, cometido por pessoas ou pessoas desconhecidas. Às seis da tarde, um operário desempregado chamado George Hutchinson apresentou-se na delegacia de polícia da rua Commercial e, posteriormente, foi interrogado pelo inspetor Abberline. George Hutchinson dava algum dinheiro de vez em quando para Mary Jane e, provavelmente, tinha algum grau envolvimento como amigo ou cliente ocasional. Às duas da manhã de 9 de novembro, George Hutchinson encontrara Mary Jane na rua Commercial e ela pedira dinheiro, mas ele afirmara que não tinha para dar-lhe naquele momento porque acabara de chegar de viagem. Em seu depoimento, a testemunha afirmou que, em seguida, viu um suspeito tocar no ombro de Mary Jane e conversar com ela. Os dois atravessaram a rua Commercial e entraram na rua Dorset, ambos seguidos por George Hutchinson até a entrada do beco de Miller. Posteriormente, Mary Jane entrou na casa nº 13 acompanhada do suspeito, enquanto George Hutchinson esperou 45 minutos por ela, mas desistiu e foi embora às três da manhã. O suspeito foi descrito como tendo cerca de 34 ou 35 anos, 1,67m, pestanas e olhos escuros, bigode com ponta para cima, cabelo escuro, paletó escuro, calças escuras, chapéu de feltro, um lenço vermelho no pescoço, gravata preta com broche de ferradura, luvas marrons e carregava um pacote com cerca de 20 centímetros. Elizabeth Prater, a vizinha de cima de Mary Jane, e Sarah Lewis, que passava à noite com uma amiga no quarto em frente ao de Mary Jane, coincidiram em seus depoimentos ao afirmar terem ouvido um grito abafado por volta de 3h30-3h45 da madrugada, provável horário da morte de Mary Jane.




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