O recém-nascido é pleno de potencialidades e vivencia desde sua vida intra-uterina uma série de transformações que são decisivas para o seu crescimento e desenvolvimento



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4.2 Cenário e sujeitos da pesquisa
Frente ao entendimento da abordagem metodológica, elegeram-se como sujeitos da pesquisa, enfermeiros atuantes em Unidade de Terapia Intensiva Neonatal dos Hospitais Universitários Federais da região sudeste do Brasil. Os critérios de inclusão consistem no participante ser enfermeiro e voluntário da pesquisa.

A priori foi identificado os Hospitais Universitários Federais do Brasil, utilizando como fonte o Portal do Ministério da Educação e Cultura (MEC), nesta busca foram localizados 45 Hospitais Universitários (tabela em anexo), sendo que 16 encontram-se na região sudeste do Brasil (BRASIL, 2011). Destes oito possuem UTIN, constituindo o cenário da pesquisa.


Tabela 1 - Hospitais Universitários da Região Sudeste do Brasil


REGIÃO SUDESTE

Universidade Federal do Espírito Santo
HU ANTONIO DE MORAES

Universidade Federal Fluminense
HU ANTONIO PEDRO

Universidade Federal do Rio de Janeiro


HU CLEMENTINO FRAGA FILHO
HOSPITAL ESCOLA SÃO FRANCISCO DE ASSIS
INST. DE DOENÇAS DO TÓRAX
INST. PUER. PED. MARTAGÃO GESTEIRA
INSTITUTO DE GINECOLOGIA
INSTITUTO DE NEUROLOGIA DEOLINDO COUTO
INSTITUTO DE PSIQUIATRIA
MATERNIDADE ESCOLA

Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
HU GAFFRÉE E GUINLE

Universidade Federal de Juiz de Fora
HOSPITAL UNIVERSITÁRIO

Universidade Federal de Minas Gerais
HOSPITAL DE CLÍNICAS

Universidade Federal do Triangulo Mineiro

HOSPITAL ESCOLA

Universidade Federal de Uberlândia
HOSPITAL DE CLÍNICAS

Universidade Federal de São Paulo
HOSPITAL SÃO PAULO


Vale destacar que a escolha dos hospitais universitários deu-se por acreditar na premissa de que estes são hospitais de referência. Enquanto hospitais escola, na maioria das vezes, dispõem de recursos e incentivos estatal para a realização de pesquisas científicas, o que contribui para que despontem como precursores no desenvolvimento de várias áreas da ciência.

Em consonância com os critérios estabelecidos na metodologia, foi possível entrevistar um enfermeiro de cada unidade selecionada como campo de estudo, totalizando oito participantes. Inicialmente o convite para participar da pesquisa foi direcionado para o gerente da unidade, entretanto, a maioria destes gerentes delegou essa função para os enfermeiros assistenciais da unidade.

O trabalho de campo se apresenta como uma possibilidade de conseguirmos não só uma aproximação com aquilo que desejamos conhecer e estudar, mas também de criar um conhecimento partindo da realidade presente no campo. O trabalho de campo deve estar ligado a uma vontade e uma identificação com o tema a ser estudado, permitindo uma melhor realização da pesquisa proposta (LUDKE; ANDRÉ, 2001).

O campo de pesquisa é concebido como recorte que o pesquisador faz em termos de espaço, representando uma realidade empírica a ser estudada a partir das concepções teóricas que fundamentam o objeto da investigação (MINAYO, 2001).
4.3. Procedimento da pesquisa
Referente ao procedimento, após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, parecer nº. 302/2010 foi realizado um processo de recrutamento dos sujeitos através de contato telefônico em que foi efetuado o convite para participar da pesquisa. Mediante o aceite foi enviado via e-mail ou correio, conforme a preferência do sujeito, um questionário juntamente com o Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE).

Neste termo foram informados aos sujeitos, os objetivos do estudo, procedimentos e que a pesquisa comportava risco mínimo por se tratar de um estudo em que não seria realizada nenhuma intervenção ou modificação intencional nas variáveis fisiológicas, psicológicas ou sociais dos indivíduos que dele participassem.

Para os participantes que não devolveram o questionário no prazo estipulado de 30 dias, foi realizado um novo contato solicitando a aplicação de um formulário via telefone. O instrumento abordou questões referentes ao conceito de humanização e as estratégias empregadas para a efetivação deste conceito.

É oportuno esclarecer que para os sujeitos que optaram em participar da pesquisa via e-mail, foi solicitada a assinatura digital no TCLE, e quando isso não foi possível foi enviado um e-mail contendo informações sobre a pesquisa e o convite para o sujeito participar da mesma, juntamente com o TCLE. Somente após a resposta deste e-mail em que o sujeito declarou que aceitava participar da pesquisa e que estava ciente do TCLE, foi enviado o questionário.

Frente ao exposto é oportuno distinguir questionário de formulário. O primeiro é um instrumento de investigação composta por um número de questões auto-aplicadas, apresentadas por escrito às pessoas. Este instrumento possibilita atingir grande número de pessoas, mesmo que estejam dispersas numa área geográfica muito extensa; implica menores gastos com pessoal, posto que não exige o treinamento dos pesquisadores; garante o anonimato das respostas; permite que as pessoas o respondam no momento em que julgarem mais conveniente; não expõem os pesquisados à influência das opiniões e do aspecto pessoal do entrevistador. Já o formulário é um roteiro de perguntas enunciadas e preenchidas pelo pesquisador, ou orientadas por este (GIL, 2007).

Vale destacar que além da aplicação do questionário e do formulário, para a coleta de dados foi também realizada visita a alguns hospitais que não deram nenhum retorno aos contatos estabelecidos pelos pesquisadores via e-mail e/ou telefônico.



4.4. Análise dos dados
Na busca de atingir os significados manifestos e latentes no material coletado, foi empregada a técnica da Análise Temática, também chamada Análise Categorial. Este tipo de análise comporta um feixe de relações que pode ser graficamente apresentado através de uma palavra, uma frase ou um resumo. Funciona pelo desmembramento do texto em unidades, em categorias, segundo reagrupamentos analógicos (RODRIGUES; LEOPARDI, 2008).

A análise dos depoimentos coletados representa, em qualquer pesquisa, a obtenção de dados precisos da problemática investigada, podendo servir, também, para a descoberta do que está por trás dos conteúdos manifestados (MINAYO, 2001).

Os dados que compõem o material para a análise, não se mostrando diretamente, precisam ser construídos através de categorias representativas, agrupando-se pelas aproximações de conteúdos, em quantidades que permitam uma construção lógica de relação entre o domínio subjetivo e o domínio social.

Fazer uma análise temática consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõem uma comunicação, cuja freqüência signifique alguma coisa para o objetivo analítico visado. Freqüentemente, esta técnica de análise se encaminha para a contagem de freqüência das unidades de significação como definidoras do caráter do discurso; ou ao contrário, qualitativamente, a presença de determinados temas denota os valores de referência e os modelos de comportamento presentes no discurso (MINAYO, 2001).

Operacionalmente, a análise temática desdobra-se em três etapas. A primeira, denominada pré-análise, consiste na seleção dos documentos a serem analisados, na retomada das hipóteses e dos objetivos iniciais da pesquisa, com reformulação frente ao material coletado, e na adequação de indicadores que orientam a interpretação final. A segunda etapa da análise temática é a exploração do material, que consiste, essencialmente, na operação de codificação e realiza-se na transformação dos dados brutos, visando alcançar o núcleo de compreensão do texto. A última etapa do processo de análise temática consiste no tratamento dos resultados obtidos e na interpretação (MINAYO, 2001).

Vale salientar que o pesquisador, sem exageros que imobilizem o seu trabalho, em vez de estimulá-lo, deve estar sempre atento à acuidade e veracidade das informações que vai obtendo, ou melhor, construindo. Que o pesquisador coloque nessa construção toda a sua inteligência, habilidade e técnica, cercando o seu trabalho com o maior cuidado e exigência, para merecer a confiança dos que necessitam dos seus resultados (LUDKE; ANDRÉ, 2001).


4.5 Cuidados Éticos
Por tratar-se de uma pesquisa envolvendo o ser humano de forma direta, é necessário o encaminhamento ao Comitê de Ética em Pesquisas com Seres Humanos, juntamente com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, em que é assumido que os aspectos éticos de pesquisa estarão pautados nas Diretrizes e Normas de Pesquisa em Seres Humanos, do Conselho Nacional de Saúde, contemplando os aspectos mencionados na Resolução CNS 196/96 (BRASIL, 2000).


  1. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A apresentação deste capítulo inicia-se com a caracterização dos sujeitos da pesquisa e a seguir são apresentadas às unidades temáticas elaboradas a partir da análise dos dados.

Dos oito participantes, sete eram do sexo feminino e um do sexo masculino. A idade dos participantes da pesquisa variou de 29 a 47 anos. Referente ao tempo de formação o intervalo foi de 8 a 25 anos, sendo que o tempo de atuação em UTIN variou de 7 a 25 anos, ou seja, praticamente todos atuam em UTIN desde que se formaram. Para preservar o anonimato dos sujeitos a fala destes foi identificada no texto com a letra E seguida de um número identificador.

O número de leitos das unidades em que atuam esses enfermeiros variou de 5 a 60 leitos, sendo 27 a média de leitos das unidades investigadas. E o tempo de existência das UTIN variou de 12 a 40 anos, sendo 14 anos a média de existências das unidades. Uma das participantes não soube informar o tempo de existência da UTIN em que atua.

Os resultados obtidos, após os enfermeiros responderem ao questionário que versou sobre humanização do cuidado neonatal e tecnologias do cuidado empregadas nas unidades para efetivar este conceito encontram-se reunidos nas temáticas emergidas.
5.1. O olhar dos enfermeiros sobre a humanização neonatal
Em relação ao entendimento sobre humanização em unidade de terapia intensiva neonatal, os enfermeiros responderam de uma forma geral que humanizar é buscar acolher a família e inseri-la no cuidado; é adaptar o ambiente às necessidades do recém-nascido; é atender o indivíduo de forma individualizada e integral se colocando no lugar do outro.
Humanizar na unidade neonatal é acolher o recém-nascido e seus pais da melhor forma possível. Sabemos que o ambiente de terapia intensiva é muito estressante tanto para os pais quanto para o RN. (E6)
[...] é buscar o atendimento ao cliente de forma individualizada, tratando das diversas necessidades do cliente, de forma integralizada e inserindo a família no cuidado. (E3)

No que se refere à humanização do cuidado neonatal, sabe-se que acolher e inserir a família neste cuidado é o primordial. Neste sentido, a tônica postulada é propiciar o máximo de contato mãe/filho, o que nos casos de uma internação em UTIN pode ficar prejudicado. Portanto, é indubitável que medidas que favoreçam o estabelecimento desse contato sejam instauradas nessas unidades. Evidentemente, respeitando as condições de saúde do binômio e o desejo da mãe.

A assistência ao recém-nascido passou por intensas transformações que, acompanhadas de novas tecnologias, trouxeram um universo mais amplo ao cuidado nas unidades destinadas a essa clientela. Essas mudanças atingiram também a finalidade do trabalho, realizado na perspectiva da ação terapêutica de saúde ao neonato, no apoio à família e na racionalidade do processo de trabalho.

As transformações foram importantes, pois nesta nova perspectiva do cuidado neonatal há espaço para a família, já que o novo direcionamento permite que o recém-nascido seja visto como parte integrante de um núcleo familiar inserido num determinado contexto.

No que tange a adaptação do ambiente às necessidades do recém-nascido, conforme menção dos sujeitos sabe-se que os fatores ambientais, desde a concepção, parto e nascimento, têm implicações importantes para o crescimento e desenvolvimento do recém-nascido enquanto cidadão (SILVA; CHRISTOFFEL; SOUZA, 2005).
A humanização em UTIN compreende as ações do cuidado ao RN focado no seu desenvolvimento; o acolhimento da família, o controle da dor; a adaptação do ambiente às necessidades do RN, como controle de ruídos, iluminação; etc.(E1)
Oferecer informações claras para os pais sobre seu bebê, tornar o ambiente mais confortável para o bebê, diminuindo barulho, luz, etc. (E7)

As Unidades de Terapia Intensiva Neonatal, apesar de todo o aprimoramento e progresso tecnológico, proporcionam cuidados especializados que podem favorecer o aparecimento de iatrogenias no processo de desenvolvimento dos recém-nascidos (SCOCHI, 2001). Esse cuidado envolve doenças severas, ruídos, luzes, exposição a analgésicos, sedativos e outras drogas, privação da interação materna normal, exposição do recém-nascido imaturo a variadas fontes de estresse e dor em um período quando ele é em nível de desenvolvimento, menos hábil para enfrentá-las (WHITFIELD, 2003).

As condições do ambiente nessas unidades é um fator contribuinte da morbidade neonatal. O estímulo sensorial anormal pode ser uma fonte de estresse grave em um período sensível do recém-nascido e pode interferir no desenvolvimento cerebral. A exposição a fortes níveis de ruído pode gerar, no prematuro, prejuízo sensorioneural, causar estresse e cooperar para o desenvolvimento de distúrbios de linguagem ou auditivos no recém-nascido pré-termo (GLASS, 1999).

Frente ao exposto é salutar que a preocupação com o controle e adaptação do meio, para atender as necessidades do recém-nascido, tenha permeado o discurso dos sujeitos. Uma vez que os fatores ambientais têm significativas implicações no tratamento do recém-nascido.

Atender o indivíduo de forma individualizada e integral num exercício de empatia foi o entendimento de humanização apontado nas falas dos sujeitos. O que se considera essencial para a efetivação de um cuidado em que o recém-nascido não seja visto como objeto do fazer profissional.
[...] é você se colocar no lugar do outro, é tratar da forma que você gostaria de ser tratado, é inovar no sentido de fazer diferente, não no sentido de fazer coisas novas, mas fazer diferente aquelas que já fazemos. (E2)
[...] significa tornar humano, significa colocar-se no lugar do outro [...] é ter atitudes que o profissional teria como se o RN que ele cuida fosse seu filho. Oferecer uma assistência de enfermagem individualizada e integral. (E7)
Nesse sentido, cuidar do recém-nascido resgata a sensibilidade e a intuição do cuidador de perceber o outro em toda a sua integralidade; privilégios que não podem ser delegados aos aparelhos e aos procedimentos técnicos (SÁ NETO; RODRIGUES, 2010).

Essas atitudes corroboram a teoria transpessoal de Jean Watson, visto que não pressupõe uma atitude unilateral dos sujeitos envolvidos, mas uma busca mútua para a descoberta e o aprendizado com o outro, uma visão expandida de si próprio e da outra pessoa, unidade transpessoal de mente, corpo e espírito; cuidar-cuidado que é conscientização intencional para promover a cura e o restabelecimento (WATSON, 2003).

Para Watson quando incluímos cuidado e amor em nosso trabalho e em nossa vida, descobrimos que a enfermagem é mais do que a enfermagem que aprendemos, é mais que somente um trabalho, mas uma vida onde se doa e uma vida onde se recebe, uma vida inteira de crescimento e aprendizagem.

Watson em sua teoria do cuidado humano transpessoal, refere que a enfermeira deve entrar e permanecer no outro, por conectar com o mundo interno do espírito e significados do outro; eles se unem numa procura mútua por significados e integralidade de ser e tornar a medidas potencialmente confortáveis, como controle da dor, um senso de bem-estar, integralidade, ou até mesmo a transcendência espiritual de sofrer, ou seja, a pessoa é vista como um todo e é completa.

Assim humanizar a assistência implica em mudanças na atitude, na filosofia de vida e na percepção de si e do outro como ser humano. Humanizar não é uma técnica ou artifício, é um processo vivencial que permeia toda a atividade das pessoas que assistem o paciente, procurando realizar e oferecer o tratamento que ele merece como pessoa humana, dentro das circunstâncias peculiares que se encontra em cada momento no hospital (SANTOS, 2001).

A questão de entender a humanização como um processo foi também referida nas falas:


A humanização em UTIN é um processo contínuo, pois se colocar no lugar do outro exige mudanças e mudanças para algumas pessoas reflete resistência. (E4)
Neste sentido, é imprescindível o entendimento de que processo implica em constantes mudanças e para isso, segundo a Teoria do Cuidado Humano Transpessoal, requer transformação de si próprio, do meio, do trabalho, incluindo a própria profissão. A pessoa é desafiada a se relocalizar nestas idéias emergentes sendo convidada a um novo relacionamento consigo próprio e com o meio.

Ao discutir essa categoria pode-se aludir que durante muito tempo o cuidado neonatal esteve centrado no modelo biomédico, hospitalocêntrico e nas práticas curativas. O avanço na área propiciou uma reconfiguração deste modelo e atualmente o que se busca é a efetivação de um modelo de cuidado pautado na humanização da assistência.

Este novo modelo deve estar aliado a uma visão humanista contemplando uma atenção em relação ao contexto social, cultural e econômico no qual estão inseridas a mulher, a criança e a família (SILVA; CHRISTOFFEL; SOUZA, 2005).

Ao finalizar esta categoria torna-se relevante ressaltar que a real finalidade dessas unidades, no sentido de humanizar a assistência, deve ser proporcionar ao recém-nascido melhores condições de adaptação à vida extra-uterina, sob o ponto de vista físico, emocional e espiritual; prestar assistência de enfermagem integral ao recém-nascido e sua família, proporcionando ambiente e condições adequadas para que os pais desenvolvam um relacionamento harmonioso com seu filho e sejam estimulados a participarem dos cuidados prestados ao mesmo; reduzir o índice de morbimortalidade neonatal; promover e incentivar o aleitamento materno. Sem deixar de estimular e desenvolver atividades de ensino e pesquisa no âmbito da assistência neonatal.


5.2. Tecnologias do cuidado em enfermagem empregadas nas UTIN

Na presente categoria foi possível conhecer as estratégias de humanização empregadas nas UTIN dos Hospitais Universitários da região sudeste. As estratégias relatadas pelos entrevistados foram basicamente: redução da estimulação ambiental como cuidado com a iluminação e os níveis de ruído; musicoterapia; estímulo do contato pele-a-pele; banho de ofurô; sucção não-nutritiva e uso de fármacos durante procedimentos mais invasivos; escala de avaliação para dor; cateter central de inserção periférica (PICC); método mãe-canguru; aleitamento materno; inserção da família no cuidado, com livre acesso da mãe e visita ampliada da família.

Destaca-se que a diminuição da dor foi uma preocupação constante dos participantes, no sentido de humanizar o cuidado neonatal. Acredita-se que o maior obstáculo para aliviar e tratar a dor neonatal seja a dificuldade para mensurá-la. Assim a capacidade para perceber a manifestação da dor depende de competência técnica, além de sensibilidade aguçada e comprometimento com o bem estar do recém-nascido assistido pelo profissional.

Para uma atuação terapeuticamente efetiva, diante de situações possivelmente dolorosas, não basta saber que o recém-nascido tem maneiras de exprimir a dor. É preciso dispor de instrumentos que decodifiquem sua linguagem, seu modo de se manifestar. Reconhecer sinais e efetivar ações adequadas são metas assistenciais a serem atingidas. Assim a observação das demandas sutis, como as demonstrações de desconforto, contempla o cuidado humanizado (SOUZA, 2011).

Em se tratando da dor no recém-nascido, sabe-se que no ambiente da UTIN, estes são comumente expostos a múltiplos eventos estressantes e dolorosos. Estima-se que o recém-nascido gravemente doente seja submetido a um número de procedimentos que varia entre 50 e 150 por dia (SOUZA, 2011).

Por muitas décadas, os profissionais da saúde, acreditavam que o recém-nascido não sentia dor. Justificavam este posicionamento pela mielinização incompleta, imaturidade do sistema nervoso e ausência da queixa de dor. Associado a isso tinha o grande temor dos efeitos colaterais dos opióides com ênfase na depressão respiratória, o que acarretou, por muito tempo, a falta de qualquer tipo de procedimento analgésico nos neonatos submetidos a procedimentos dolorosos (CHAVES, 2011).

Hoje se sabe que o estímulo doloroso agudo no recém-nascido promove complicações fisiológicas e comportamentais, que aumentam a sua morbidade e mortalidade no período de internação. Assim, sabe-se que o recém-nascido sente dor e este sintoma precisa ser prevenido, quando possível, diagnosticado precocemente e tratado (CHAVES, 2011).

A dor intensa deve ser manejada com agentes farmacológicos, enquanto os desconfortos e a dor de menor intensidade, com medidas não farmacológicas para alívio e prevenção (SOUZA, 2011). Conforme os relatos a seguir:


[...] Na unidade temos um protocolo de dor, usamos uma escala de avaliação de dor. Temos sucção não nutritiva empregada durante a realização de procedimentos, e para procedimentos mais invasivos usamos opióides como Fentanil. (E2)
[...] Ao realizar procedimentos dolorosos, em bebês que não estão sedados oferecemos solução de glicose a 50% diluída em ABD e este suga o dedo do profissional enluvado com esta solução e podemos perceber que ele fica muito mais tranqüilo. (E6)
Algumas intervenções não farmacológicas objetivam prevenir a intensificação de um processo doloroso, a desorganização do neonato, o estresse e a agitação, ou seja, minimizar as repercussões da dor. Podem ser utilizadas individualmente na dor de leve intensidade, mas frente à dor moderada ou severa, deverão ser acrescida por intervenções farmacológicas, prescritas pela equipe médica (SOUZA, 2011).

Algumas intervenções não farmacológicas são possíveis diante da dor, como por exemplo (SOUZA et al., 2011):


- Oferecer sucção não nutritiva durante e após a manipulação, pois isso inibe a excitação e modula o desconforto do recém-nascido;

- Oferecer 1 ml de solução glicosada 25% ao recém-nascido a termo e 0,4 ml ao recém-nascido pré-termo, entre 1 e 2 minutos antes do procedimento doloroso, pois estimula a liberação de endorfina.

- Promover contenção moderada, permitindo movimentos voluntários, posicionando o recém-nascido com equilíbrio entre posturas flexoras e extensoras;

- Falar com o recém-nascido em tom de voz suave, embalar sempre que possível e de preferência envolvendo os pais;

- Executar o procedimento em etapas, permitindo a recuperação fisiológica à dor, para isso é preciso observar o neonato, respeitando seu estado comportamental e interrompendo a intervenção quando necessário;

- Usar o mínimo de adesivos e fixações, trocá-los o mínimo possível, evitando molhá-los. É sugestiva a fixação de eletrodos em braços e coxas, em vez de tórax por ser um local muito manipulado;

- Racionalizar a manipulação do recém-nascido, agrupando cuidados e otimizando a monitorização não invasiva;

-Tornar o ambiente da UTIN mais acolhedor e menos estressante, diminuindo o ruído ambiental e a incidência de luz sobre o berço ou incubadora;

- Estimular o contato com os pais e a participação desses nos cuidados possíveis.

Aqui vale destacar a importância da participação dos pais, pois o toque e o contato físico também acalmam. A presença da mãe, durante e após a manipulação, confortando o bebê, por meio do toque, do contato pele a pele, proporciona o alívio do desconforto físico e emocional provocado pela dor (SOUZA et al., 2011).

O toque físico não é apenas agradável, ele é necessário para o nosso bem-estar, tanto físico quanto emocional. O toque terapêutico, reconhecido como uma ferramenta essencial para a cura constitui agora parte do treinamento dos profissionais de enfermagem, em vários grandes centros médicos. O toque é usado para aliviar a dor, a depressão e a ansiedade. Vários experimentos demonstram que o toque pode: fazer-nos sentir melhor com nós mesmos e com o ambiente à nossa volta, provocar mudanças fisiológicas mensuráveis naquele que toca e é tocado (MONSANTO, 2010).
[...] Implantamos os cuidados integrais e melhoramos os cuidados favorecedores do desenvolvimento, respeitando o manuseio mínimo [...] ainda buscamos melhorar a ambiência e favorecer o contato pele-a-pele. (E3)
[...] Temos a sucção não-nutritiva, propiciamos o contato pele-a-pele, utilizamos escala de dor [...] (E8)
O toque estimula fibras sensitivas superficiais da pele e gera relaxamento muscular e estimulação do sistema límbico (centro do prazer) em nível neurofisiológico, reduzindo o padrão de dor. Por isso, estabelece uma comunicação significativa para o recém-nascido, por ser o tato um componente importante no modo como este se consola, explora seu mundo e inicia contato (CRUZ; SUMAN; SPÍNDOLA, 2007).

Atualmente, outra estratégia muito usada, para diminui a dor e o estresse do recém-nascido é o uso do cateter central de inserção periférica (PICC). Como sua denominação descreve, é um cateter inserido através de uma punção periférica e introduzido até a desembocadura da veia cava em átrio direito (AMORIN; PINTO; SANTOS, 2000).


[...] Em nossa UTIN realizamos a inserção de cateter PICC, que diminui a dor e o estresse [...] (E5)
Este tipo de cateter tem sido utilizado no tratamento de recém-nascidos há quase três décadas, particularmente nos recém-nascidos pré-termos que necessitam de acesso venoso prolongado. Suas vantagens estão relacionadas a inúmeros benefícios que este procedimento traz para o recém-nascido, principalmente, no que tange à diminuição do número de punções, e consequentemente, diminuição do estresse e da dor, pois este dispositivo, em sua maioria, permanece o tempo necessário para o tratamento.

No contexto de humanização do cuidado neonatal, o banho de ofurô foi uma estratégia que, apesar de ser empregada em apenas uma UTIN campo de estudo, vale ser destacada.

Este banho é realizado com o recém-nascido na posição vertical imerso num balde, sendo uma opção diferente para o banho tradicional, porque oferece uma oportunidade de relaxamento, proporcionando também segurança e estímulos vivenciados no útero materno, na posição fetal, além de transmitir limites ao corpo, auxiliando em sua organização sensorial (RICHETTO; SOUZA, 2011).
[...] Dentre as estratégias que utilizamos, a mais nova é o banho de ofurô [...] (E5)
A água quente (37 a 38ºC) é relaxante, simula o ambiente intrauterino e permite melhora nos estados de agitação, insônia, diminuindo inclusive episódios de cólica intestinal. A água no banho de balde esfria lentamente, em razão da menor superfície de contato com o ar. Para segurar o recém-nascido, nos primeiros dias, pode ser utilizada uma mão abaixo dos glúteos, duas mãos na região dorsal ou em cervical, assim o recém-nascido flutua (RICHETTO; SOUZA, 2011).

Este procedimento visa o ganho de apetite, que resulta em aumento do peso, e o relaxamento do recém-nascido, que fica mais tranqüilo e mama melhor. Há também um ganho nas questões afetivas. Por isso, é importante que a mãe acompanhe o banho, que ela fale com o recém-nascido e mantenha contato visual. Tudo isso proporciona maior proximidade entre mãe e recém-nascido.

Os banhos podem ser dados desde o primeiro dia de vida. Com o crescimento do recém-nascido, pode ser necessário um ofurô, propriamente dito, mas o balde de tamanho grande possibilita banho de criança com até cerca de 6-8 meses. O recém-nascido pode usar o ofurô só para relaxar, depois de um banho na banheira tradicional e ser banhado embrulhado (se for para relaxamento) ou nu (quando a higiene também é realizada) (RICHETTO; SOUZA, 2011).

Outra estratégia mencionada e, que também, se mostrou utilizada, apenas por uma instituição, mas que tem um grande valor terapêutico é a musicoterapia. A Musicoterapia, ciência organizada como tal no século XX, estuda os efeitos terapêuticos da música nos seres humanos, como por exemplo: torna mais lenta e profunda a respiração; aumenta a resistência às excitações sensoriais; combate o estresse; permite o domínio das forças afetivas e auxilia no bom funcionamento da fisiologia (TABARRO et al., 2010).


[...] Utilizamos também a Musicoterapia, tem sessões as terças e quartas que são realizadas numa sala separada, é aberta aos pais, familiares, profissionais e bebês que estejam em condições [...] as mães passam pelas sessões utilizando a música como terapia sendo uma oportunidade de expressarem seus sentimentos através da musicoterapia. (E2)
A enfermagem e a musicoterapia possuem interfaces que se relacionam com a visão integral do sujeito e a busca por promover uma assistência holística que atenda aos aspectos físicos, emocionais e sociais deste, estimulando que expresse seus desejos e subjetividades e que exerça seu direito de escolha. Por meio da música suave pode-se alcançar a humanização na assistência, propiciando um ambiente calmo e menos estressante para os recém-nascidos internados.

Os estímulos musicais podem alterar a respiração, circulação sanguínea, digestão, oxigenação e dinamismo nervoso e humoral. Também estimulam a energia muscular, reduzem a fadiga e favorecem o tônus muscular. Podem aumentar a atenção e estimular a memória, baixar o limiar da dor e se constituir como um importante recurso contra o medo e a ansiedade (BERGOLD; ALVIM, 2009).

É praticamente impossível encontrar alguma parte do organismo humano que não reaja à influência da música. Os sons são capazes de afetar o corpo diretamente sobre as células e órgãos, e indiretamente sobre as emoções, que conseqüentemente influenciam os sistemas orgânicos. A música influencia as dimensões física, psíquica, emocional e social, promovendo relaxamento, diminuindo a ansiedade, reduzindo a percepção da dor, alterando os estados de ânimo, promovendo a distração e o conforto (ANDRIOLA; OLIVEIRA, 2006).

Desse modo, verifica-se que a música pode ser utilizada como instrumento terapêutico alternativo, contribuindo na evolução do quadro clínico, no alívio da dor e redução dos traumas ocasionados pela hospitalização tão precoce. A utilização da música como recurso terapêutico pela equipe de saúde na instituição hospitalar constitui-se em um desafio (ANDRIOLA; OLIVEIRA, 2006).

Outra estratégia importante e essencial na humanização do cuidado neonatal é a presença da família do recém-nascido, de preferência com a inserção da mãe no cuidado prestado a esse. A humanização do cuidado ao recém-nascido deve ser uma preocupação constante, e significa principalmente propiciar o máximo de contato mãe/filho, logo após o parto, reduzindo estritamente ao necessário as intervenções médicas.

É importante estabelecer o vínculo materno-filial, sempre que possível, respeitando as condições de saúde do binômio e o desejo da mãe. As separações desnecessárias de mãe e filho podem prejudicar o aleitamento e provavelmente alguns aspectos do cuidado posterior do recém-nascido (TRONCHIN; TOMA, 1996).


A mãe tem livre acesso, procuramos fazer a inclusão da família na unidade, temos a visita ampliada. Os avós e os irmãos podem visitar duas vezes na semana em horário específico, os irmãos após uma intervenção do psicólogo [...] (E2)
[...] vários projetos vêm se desenvolvendo, um deles é a visita ampliada com a permanência da mãe, a visita dos irmãos que tem o direito de vim visitar com o acompanhamento da psicologia [...] (E8)
A filosofia do cuidado centrado na família reconhece a família como uma constante na vida da criança e os profissionais e o serviço de saúde como temporários e flutuantes. Além disso, pressupõem que os profissionais de saúde considerem as potencialidades e a individualidade de cada família, suas

diversidades étnicas, culturais e socioeconômicas, entre outros aspectos (CABRAL; RODRIGUES, 2006).

A maioria das maternidades está fazendo alterações importantes nos sistemas de visitas, permitindo a visita ampliada, tais como permitir à criança mais velha, visitas. Quando o irmão mais velho fica mais envolvido com o recém-nascido durante a permanência no hospital, a volta para casa é freqüentemente menos carregada de ansiedades (KLAUS; KLAUS, 1989).

Essa maneira de cuidar proporciona adequado crescimento e desenvolvimento, além da recuperação do recém-nascido de forma satisfatória, contribuindo para minimizar os efeitos nocivos provocados pela hospitalização, tornando os pais elementos ativos dentro do processo de hospitalização, além de contribuir para a qualidade de sobrevida do recém-nascido (REICHERT; LINS; COLLET, 2007).

Aproveitando a abordagem da família no cuidado ao neonato, não se pode deixar de mencionar um dos principais ganhos na assistência ao neonato internado em UTIN, e que foi uma das estratégias mais citadas pelos participantes da pesquisa utilizada nas UTIN em que trabalham que é o Método Mãe-Canguru.

Este Método Mãe Canguru (MMC) se apresenta como uma abordagem de intervenção complementar à tecnologia neonatal para promover o contato direto do neonato com a mãe, desde o momento em que ambos apresentam condições clínicas para desenvolvê-lo (BRASIL, 2002).

Na proposta brasileira de desenvolvimento do método, ele não substitui as condutas e/ou tratamentos terapêuticos, mas tem contribuído para o processo de recuperação da saúde e a melhoria da qualidade de vida do neonato, promover o aleitamento materno e o vínculo mãe e filho, além de aumentar o potencial de oferta dos leitos neonatais (LAMY et al., 2005).
[...] Empregamos a estratégia mãe canguru nas três etapas; procuramos fazer a inclusão da família na unidade, temos a visita ampliada [...] (E2)
[...] Iniciamos os passos do Canguru, digo, postura Canguru, quando o bebê está estável, independente de estar no tubo orotraqueal ou não [...] Temos poltronas ‘do papai’ para mães e para os pais que desejam fazer o Canguru. (E5)
Todos os neonatos clinicamente estáveis, com peso superior a 1.250g, ao invés de permanecer na incubadora até atingir o peso de 2.000g, podem participar do método, desde que suas condições clínicas permitam. O método consiste na manutenção do neonato no tórax da mãe (contato pele-a-pele), na posição vertical, sustentado por uma faixa que imita a bolsa marsupial do canguru. O neonato é mantido nessa posição pelo tempo em que ambos se sintam confortáveis e tenham prazer em desenvolvê-lo (BRASIL, 2002).

Entre os critérios para participação no MMC destacam-se a disponibilidade materna, as estabilidades clínicas da mãe e do neonato, o peso do neonato, a preparação da equipe para desenvolver o método, e a preparação da instituição para adotá-lo como uma metodologia assistencial.

A implementação do método traz benefícios institucional, materno e para a saúde do neonato, pois todo o processo implica humanização do atendimento, promoção de segurança física, biológica e emocional da mãe e do recém-nascido (CABRAL; MORAES; SANTOS, 2003).

O método propicia o incremento da amamentação, ajuda no desenvolvimento físico e emocional do neonato, reduzindo o estresse e o choro; estabiliza a freqüência cardíaca, a oxigenação e temperatura corporal do neonato, além de transmitir calma e serenidade pela escuta do som cardíaco materno e da voz da mãe (LAMY et al., 2005).

É importante salientar que o leite materno é universalmente aceito como o melhor alimento para os recém-nascidos, tanto de risco como normais, por oferecer vantagens econômicas, imunológicas, nutricionais, endocrinológicas e emocionais (TOMA; MONTEIRO, 2001).

Além disso, o aleitamento materno tem vantagens que não são oferecidas por nenhuma outra técnica. Na área de desenvolvimento alimentar, as habilidades motoras orais parecem estar relacionadas com o tipo de alimentação do recém-nascido, pois é a partir dos reflexos orais e especialmente, da sucção realizada nos primeiros meses de vida, que essas habilidades se aprimoram.


[...] Incentivamos o aleitamento materno exclusivo. Não usamos chuca e nem chupetas, exceto quando há indicações [...] (E5)
A amamentação natural promove o desenvolvimento craniofacial do recém-nascido pelos movimentos adequados da musculatura oral, fechando um circuito fisiológico da sucção, respiração e deglutição corretas e prevenindo assim alterações de hipodesenvolvimento, mal oclusões e problemas articulatórios (LAAN, 1995).

A habilidade de sucção é considerada uma atividade flexora que facilita a alimentação bem sucedida. Para tanto, o recém-nascido deve obter uma postura apropriada e fisiológica. Assim sendo, o tipo de alimentação, natural ou artificial, recebido pelo recém-nascido; a forma como é oferecido, seio materno, mamadeira, sondas naso ou orogástricas; e ainda, a qualidade do contato inicial da mãe durante a alimentação, deve ser levada em consideração (DELGADO; ZORZETTO, 2003).

Em relação aos fatores ambientais da UTIN, um dos graves problemas dessas unidades, é o ambiente repleto de interferências. Apesar de sua importância para os recém-nascidos doentes, essa unidade que deveria zelar pelo bem-estar da criança em todos os seus aspectos, é por excelência um ambiente agressivo, impessoal de difícil adaptação (SOUZA; SILVA; ARAÚJO, 2008).

Esse ambiente é repleto de luzes fortes e constantes, barulho, mudanças de temperatura, interrupção do ciclo do sono, visto que são necessárias repetidas avaliações e procedimentos, acarretando, muitas vezes, desconforto e dor (REICHERT; LINS; COLLET, 2007).

Em algumas unidades, os níveis de ruído e luz são maiores que os permitidos pela Associação Brasileira de Normas e Técnicas (ABNT) e que a exposição dos recém-nascidos a esses estímulos excessivos pode acarretar alterações tanto fisiológicas quanto comportamentais no seu desenvolvimento, especialmente se o neonato for pré-termo (CARVALHO, 2005).

As alterações fisiológicas provocadas no recém-nascido pelo excesso de ruído são: alterações no ritmo cardíaco, vasoconstrição periférica, hipóxia, aumento da pressão intracraniana e da pressão sanguínea, aumento da secreção de adrenalina, maior sensação de dor, dilatação da pupila e o estímulo inadequado das células cocleares, predispondo o neonato de risco à hemorragia craniana intraventricular, alterações no sono e repouso, maior consumo calórico, dificuldade em ganho de peso, traumas e perda auditiva (CARVALHO, 2005).

O ruído intenso é apontado também como responsável por distúrbios comportamentais nos recém-nascidos, influenciando na personalidade e diminuindo a capacidade de enfrentamento, o que leva ao isolamento social (CARVALHO, 2005).

Diante dos efeitos deletérios do estímulo sonoro das unidades campo de estudo, foi mencionado pelos participantes estratégias de controle desses estímulos, como:


[...] Em alguns momentos do dia apagamos as luzes e vigiamos o ruído...temos o ‘Guardião do silêncio’ que é um profissional da unidade (pode ser enfermeiro, técnico de enfermagem, médico, etc) que fica responsável em monitorar o silêncio no setor.(E6)
[...] Para diminuir o ruído temos pessoas que são chamadas de ‘capitão do silêncio’, estes são responsáveis em sinalizar com bolinhas verdes, amarelas e vermelhas o ruído na unidade. O capitão levanta a bolinha vermelha quando a unidade está muito barulhenta, aí os profissionais vão reduzindo o ruído até atingir a bolinha verde. (E8)
Evidenciar essa preocupação é salutar, pois a influência tanto da luz quanto do ruído intensos no padrão sono/repouso do neonato comprometem a manutenção do ciclo circadiano (dia-noite), prejudicando a produção cíclica de hormônios como o cortisol, a melatonina e a gonadotrofina; a regulação da temperatura; a função cardiorrespiratória; a permanência do estágio REM (Rapid Eye Movement ou Movimento Rápido dos Olhos) do sono, momento que ocorre a integração das experiências aprendidas, portanto interfere no desenvolvimento neurológico e cognitivo (ALMEIDA et al., 2007).

Neste mesmo sentido, se encontra os efeitos do estímulo luminoso. A incidência de luz intensa e contínua na incubadora diminui a saturação de oxigênio, podendo causar estresse, apnéia, taquicardia, retinopatia e quando essa iluminação não é proveniente do ambiente e sim da terapêutica, como na fototerapia, o recém-nascido está sujeito ao risco de queimaduras (SOUZA; SILVA; ARAÚJO, 2008). Diante destes riscos, os participantes mostraram preocupação em proteger os recém-nascidos deste estimulo:


[...] Mantemos no mínimo duas vezes por dia as luzes apagadas, silêncio dentro da unidade; mantemos o paninho em cima da incubadora para diminuir a luminosidade [...] (E5)
[...] A gente usa algumas estratégias... como redução da estimulação ambiental, temos um horário que as luzes da unidade são apagadas (das 15 as 18 horas) [...] (E2)
[...] Para diminuir a luminosidade colocamos lençóis em cima da incubadora e adotamos luz beira leito, diminuindo assim a luminosidade central da unidade. (E8)
O controle pupilar do recém-nascido para regulação da quantidade de luz incidida na íris não existe antes da 30ª semana de gestação e entre a 32ª e 34ª semanas esse controle é variável. Além disso, a fina pálpebra se mantém semi-aberta, por isso o controle da intensidade de luz deve ser rigoroso (ALMEIDA et al., 2007).

A introdução de um período de repouso com luzes e ruídos amenizados, representando a noite, possibilita a regulação dos sistemas corporais do neonato, diminui o gasto de energia e acelera o ganho de peso (LAMEGO et al., 2005).

Ao protocolar um momento de silêncio por dia em que não se toca no recém-nascido e a iluminação é reduzida, isso se não houver uma situação emergente ou prioritária, consegue-se que o neonato apresente mais períodos de sono profundo, menos períodos de choro e diminuição dos níveis de estresse. Durante esse período, os sons de alarme dos equipamentos devem ser reduzidos ou desligados. Uma estratégia válida é a designação de “guardiões”, por exemplo, um profissional que fique como responsável pelo monitoramento do silêncio no período designado para tal (LAMEGO et al., 2005).

Finalizando esta categoria em que várias e importantes estratégias de humanização foram discutidas ressalta-se que a transformação do cuidado ao recém-nascido evoluiu em duas vertentes que se complementam: o avanço tecnológico, com equipamentos e drogas cada vez mais sofisticadas e a preocupação com a humanização do cuidado.

Diante desse contexto, o uso de tecnologias para melhorar a sobrevida dos recém-nascidos tem levantado algumas questões polêmicas da bioética. O importante é oferecer um tratamento que seja benéfico a longo prazo, principalmente quanto ao desenvolvimento neuropsicomotor do recém-nascido. O desafio atual para os profissionais é o uso destas tecnologias com muito bom senso, de forma criteriosa, com a finalidade de oferecer qualidade de vida aos neonatos (SÁ NETO; RODRIGUES, 2010).

Quando se fala em tecnologia na atenção ao recém-nascido de risco, geralmente nos referimos aos aparelhos, fios e equipamentos, a um ambiente frio e inóspito, onde as técnicas e os procedimentos invasivos determinam a complexidade do tratamento.

Entretanto esta visão reducionista, por vezes, cria uma barreira muito grande entre o que é humano e o que é artificial. O próprio aspecto de um recém-nascido em uma incubadora, muitas vezes, evidencia equipamentos, podendo transformar o recém-nascido em apenas um detalhe para os olhos de alguns. Assim, a dimensão da tecnologia, como desdobramento da racionalidade científica, passa a ser representada como uma força desumanizante, que despersonaliza e objetifica as formas de cuidar, quando não é utilizada de modo adequado (SÁ NETO; RODRIGUES, 2010).

Na contemporaneidade, esta visão, parece contraditória quando falamos de cuidado humanizado, já que a tecnologia do cuidado é um conjunto de técnicas, ferramentas e saberes científicos que aborda o indivíduo em sua integralidade. Assim, a tecnologia, imprescindível no cuidado neonatal, requer um entendimento de sua amplitude. Neste sentido é primordial que tanto tecnologias duras como tecnologias de conhecimento, permeiem a rotina das unidades, o que conforme depoimento dos participantes, ainda se constitui num desafio para a enfermagem neonatal.


5.3. Propostas de aprimoramento do cuidado em UTIN
Esta categoria aborda as estratégias apontadas como sugestão de humanização do cuidado neonatal em unidade de tratamento intensiva, pelos participantes do estudo, e as dificuldades para a implementação das mesmas. Entre as sugestões destaca-se: manter os pais mais tempo junto do recém-nascido; atender a família em todas as suas necessidades; implantar o Método Mãe Canguru em algumas unidades que ainda não o estabeleceram; diminuir a iluminação e ruído no setor; implantar musicoterapia; instituir protocolos de dor.

Não discutiremos essas estratégias apontadas como sugestão, porque as mesmas já foram discutidas na categoria anterior, não havendo nenhuma estratégia diferente. Esperávamos que surgissem estratégias inovadoras que apesar de ainda não serem empregadas nas unidades campo de estudo, fossem de conhecimento dos enfermeiros e que estes manifestassem a intenção de empregá-las quando possível.

No que tange as sugestões apresentadas, foi mencionado pelos participantes que as mesmas, muitas vezes, não são implementadas por diversos fatores, como: pouco investimento e envolvimento das chefias e direção da instituição; falta de humanização do próprio profissional; dificuldades relacionada a estrutura física; falta de treinamento e de conscientização das equipes quanto à necessidade da atenção humanizada ao recém-nascido.

Em se tratando da falta de investimento e envolvimento das chefias e direção da instituição, é possível perceber que os esforços realizados pelos profissionais de enfermagem no sentido de humanizar o cuidado em UTIN, é uma tarefa difícil, pois demanda atitudes às vezes individuais que vai de encontro a todo um sistema dominante.


[...] podem ser aplicadas todas as estratégias que contemplam o cuidado focado no desenvolvimento do recém-nascido, mas falta investimento e envolvimento das chefias imediatas e direção da instituição. (E1)
[...] vincular a família é difícil por conta da dificuldade financeira como transporte. As dificuldades são questões mais voltadas para estrutura de maneira geral, estrutura física e social. (E2)
A Política Nacional de Humanização possui um eixo de atuação na gestão do trabalho e apresenta algumas estratégias que propõem a participação dos trabalhadores nos processos de discussão, além de preconizar a gestão participativa (SOUZA; FERREIRA, 2010). Estratégias estas que se efetivamente empregadas ajudariam no enfrentamento do desafio imposto nestas situações.

As orientações, que visam favorecer os caminhos para que a proposta da política seja alcançada, contrasta em alguns casos com a pouca participação dos profissionais nas decisões. Por isso, entende-se que algumas das situações de impasses dentro do processo de trabalho podem apontar para uma necessidade de mudanças na organização da rotina, nas quais se conte com a efetiva participação dos trabalhadores em algumas instâncias do gerenciamento institucional para padronizar as ações ou legitimar as rotinas construídas ao longo dos anos (SOUZA; FERREIRA, 2010).

Para tanto, tal ação implica em identificar os problemas de cada situação juntamente com os sujeitos envolvidos no processo, não cabendo tão somente ao gestor a tarefa de pensar e replanejar. São medidas que minimizam conflitos, uma vez que visam diminuir a distância entre o planejamento da gestão e a atividade profissional.

No que tange à participação dos profissionais, a literatura aponta que a disponibilidade de espaços públicos de discussão e administração de conflitos pode representar um fórum estratégico para a politização dos problemas e a construção de intervenções (SOUZA; FERREIRA, 2010).

Os conflitos deveriam ocupar de maneira formal a agenda de gestão, pois o não esclarecimento destes, e a sua consequente não resolução, pode afetar qualquer tipo de assistência, inclusive a que denomina-se como humanizada (CECÍLIO, 2005).

Além dessa interlocução entre gestão e equipe, é imprescindível para um cuidado humanizado, que algumas questões específicas do ambiente das unidades de terapia intensiva sejam consideradas. Um fator de desgaste está no tempo de atuação do profissional, em especial da enfermagem, nestas unidades. Considera-se que, além do desgaste emocional, existe também um desgaste físico importante. Neste sentido um dado preocupante evidenciado em estudos científicos é que devido à sobrecarga de trabalho e superlotação da unidade, muitos profissionais em alguns casos, sequer se afastam do local para pausa ou almoço (SOUZA; FERREIRA, 2010).

Além disso, por ser a UTIN um ambiente fechado onde a entrada das pessoas é restrita, os profissionais de enfermagem, que ali atuam não têm a oportunidade de muita integração com as demais equipes do hospital. Esta conjuntura demanda que estes profissionais também recebam uma atenção que atenda as suas necessidades. Apesar da relevância desta questão, apenas um participante do estudo mencionou esta preocupação:
[...] Temos muito o que fazer ainda com relação a humanização do profissional [...] uma das propostas é implantar a ginástica laboral; realizar reuniões semanais para discussão de rotina; favorecer a questão do descanso; ampliar o vestiário que está deficitário. (E8)
A satisfação no trabalho é algo a ser perseguido cotidianamente e deve estar incluída nas aspirações de cada profissional, bem como, de seus gestores. Portanto, além do preparo técnico é necessário que o profissional receba outros tipos de suporte, o que repercutirá no seu bom desempenho.

Para uma efetiva intervenção é de suma importância que os profissionais estejam preparados, tanto cientificamente quanto emocionalmente. Este preparo demanda que lhe seja oferecido além de capacitações, suportes, em especial suporte emocional, pois homens e mulheres estão constantemente submetidos a pressões e sofrimento no trabalho, já que é sempre necessário um ajuste entre subjetividade e trabalho (DIAS; SANTOS, 2007).

A organização do trabalho da produção de saúde pode produzir no trabalhador o sentimento de impotência profissional. A impotência pode resultar das situações conflituosas que emergem das formas objetivas impostas pelas prescrições e das exigências subjetivas dos aspectos afetivos e relacionais presentes no cotidiano (DIAS; SANTOS, 2007).

Neste sentido, destaca-se a importância dos recursos humanos, na organização do trabalho em saúde. As UTI neonatais de forma geral, funcionam com um déficit de profissionais, sobretudo na enfermagem, o que interfere de forma direta na qualidade da produção de cuidados, provocando uma sobrecarga de trabalho (SOUZA; FERREIRA, 2010). Este déficit foi evidenciado em alguns depoimentos:


[...] contratar mais psicólogos, mais profissionais da enfermagem que está em déficit, porém a diretoria não tem contratado devido a crise. Então, não sei onde vamos chegar. (E6)
[...] é necessário contratar mais funcionários para evitar a sobrecarga de trabalho, infelizmente tivemos até que fechar nossa enfermaria canguru por falta de recursos humanos [...] (E5)
Os elementos relativos à organização do trabalho, como divisão do trabalho, situações adversas das condições e relações de trabalho, carência de recursos humanos ou materiais, escassez de espaço físico, impotência do profissional, podem se constituir como fontes laborais de tensão e provocar sofrimento, o desgaste e o sofrimento podem ser gerados não somente pela atividade que o trabalhador executa, mas também na atividade que ele tem como impedida, ou seja, aquela atividade não realizada. Trata-se do que não se pode fazer, o que se desejaria ou que pensa ou sonha fazer (SOUZA; FERREIRA, 2010).

A limitação de espaço físico se configura como entrave para o profissional, sobretudo quanto se trata do assunto humanização, considerando que podem permanecer por um período de até 24 horas no ambiente de trabalho.

Espaço físico é razão de muitos problemas, a construção de novas sub-especialidades e novas práticas acabam por demandar espaços concretos de funcionamento dentro da instituição. Na UTI neonatal, não é diferente, estudos mostram que há casos em que o espaço físico utilizado pelos profissionais é crítico, chegando até mesmo o local de descanso ser dividido com a copa (SOUZA; FERREIRA, 2010).

No âmbito da estrutura física, cada atividade de trabalho sugere a utilização de um espaço físico específico. Em relação ao ambiente de cuidados humanizado, a atmosfera de integração, segurança e confiabilidade deve ser compartilhada e de forma coletiva, tanto para pacientes como para os profissionais de saúde (SOUZA; FERREIRA, 2010).

Portanto a falta de espaço atinge diretamente a equipe em especial a de enfermagem, bem como, os usuários da unidade e suas famílias, conforme foi demonstrado nos depoimentos:
Por falta de estrutura física ainda não foi implantado o método canguru, por isso promovemos o contato pele a pele a beira leito sempre que possível [...] (E3)
[...] nosso sistema de iluminação não possui luz indireta, por isso utilizamos apenas a cobertura das incubadoras com tecido para diminuir a incidência de luz, quanto a isso solicitaremos avaliação quanto a possibilidade de mudar o sistema de iluminação. (E3)
[...] é difícil manter as mães que não estão em método mãe canguru por um período muito longo porque não tem acomodações para elas. (E2)
Associado as dificuldades estruturais os participantes mencionaram a falta de treinamento e de conscientização das equipes quanto à necessidade da atenção humanizada ao recém-nascido. É importante ressaltar que uma equipe de Enfermagem com uma escuta sensível é tão importante quanto o procedimento técnico, uma vez que nem sempre os conhecimentos técnicos são o suficiente diante das situações de estresse.
[...] é necessário maior treinamento e conscientização da equipe para continuar o cuidado integral, os cuidados favorecedores e manter o manuseio mínimo sempre que possível. (E3)
[...] é preciso retreinamento da equipe quanto à Atenção Humanizada ao recém-nascido de baixo peso [...] (E5)
[...] o principal ainda é todos os profissionais entenderem a importância das ações, uma vez que alguns permanecem com atitudes que não contemplam medidas que vislumbrem estratégias para a humanização da assistência. (E4)
Nem sempre o trato dispensado aos usuários é homogêneo, havendo acentuadas distinções. Ainda que exista uma tensão presente no ambiente, situações de hostilidade são consideradas um desgaste que pode interferir diretamente na relação terapêutica (SOUZA; FERREIRA, 2010).

Neste sentido, é importante todos estarem atentos para o fato de que as propostas de humanização em saúde também envolvem repensar o processo de formação do profissional, ainda centrado, predominantemente, no aprendizado técnico e individualizado, com tentativas muitas vezes isoladas de exercício da criatividade e sensibilidade levando a cristalização dos sentimentos do profissional (REICHERT; LINS; COLLET, 2007).

A humanização não pode ser pensada sem que seja repensada, paralelamente, a educação como prioridade numa agenda de mudanças, pois apesar de já existirem iniciativas neste sentido, de forma geral, a educação no campo da saúde ainda se encontra reduzida à informatização e a instrumentalização em detrimento dos aspectos éticos e humanos que estas ações implicam.

Finalizando esta categoria pode-se aludir que a utilização de tecnologias aplicadas ao cuidado, que abranjam o cliente em sua integralidade constitui-se em um desafio contemporâneo para a Enfermagem. Assim, humanizar a assistência implica em mudanças na atitude, na filosofia de vida e na percepção de si e do outro como ser humano.

Neste sentido, acena-se para a necessidade de um olhar cuidadoso dos gestores em relação à qualidade da produção de cuidados em saúde neonatal e das condições de trabalho atualmente disponíveis para o alcance das metas instituídas pelo Ministério da Saúde, no que concerne à produção de cuidados humanizados (SOUZA; FERREIRA, 2010).

É reconhecido que ainda temos lacunas a vencer na busca da promoção efetiva de uma assistência humanizada, o que torna necessário, seguir ampliando os conhecimentos e incorporando atitudes baseadas em evidências científicas que humanizem o cuidado neonatal.



6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Muitos avanços já ocorreram na assistência neonatal, tecnologias duras foram desenvolvidas num curto espaço de tempo, e hoje se tem UTIN com tecnologia de ponta. Os avanços não ocorreram somente nesse aspecto relacionado aos aparatos tecnológicos, ocorreu também aprimoramento do conhecimento científico a respeito da saúde e desenvolvimento do neonato, bem como, de suas necessidades.

Esses avanços visam à humanização do cuidado neonatal, entretanto, apesar de muito ser falado, ainda estão mais em nível teórico. A assistência prestada ao neonato nas UTIN se mantém intrinsecamente relacionada à tecnologia dura, sendo as tecnologias leve-dura e leve, ainda pouco vislumbradas.

É preciso questionar se somente essa tecnologia, que atende o aspecto biológico do neonato, é suficiente para proporcionar o desenvolvimento deste em sua integralidade, para que na fase adulta ele seja um indivíduo que não carregue marcas de sua internação em uma UTIN enquanto recém-nascido.

Hoje apesar de já se ter tecnologias do cuidado leve-dura e leve com seus benefícios comprovados, as mesmas têm sido utilizadas ainda de forma tímida na assistência prestada aos neonatos. Quando analisamos a prática, vemos que poucos passos foram dados em direção à implantação dessas tecnologias.

Muitas vezes associa-se a humanização do cuidado ao neonato, somente a questão da inserção da família e permanência das mães nas UTIN, ou até mesmo o emprego do Método Mãe Canguru, que sem dúvida é um grande avanço no cuidado neonatal.

É claro que é primordial ao neonato o apego materno filial e o desenvolvimento do Método Mãe Canguru para humanizar a assistência neonatal. Mas junto dessas estratégias primordiais que são recomendadas pelo Ministério da Saúde, se encontram várias outras tecnologias que influenciam de maneira positiva a saúde do neonato, e que não estão sendo utilizadas como poderiam. Demonstrando assim, certa dificuldade das tecnologias leve-dura e leve, empregadas diretamente ao neonato, serem vislumbradas.

Várias dessas tecnologias têm seus benefícios comprovados, como por exemplo a musicoterapia, o banho de ofurô, o momento psiu (momento do silêncio) a rede na incubadora, o momento de apagar as luzes, os black out nas incubadoras para diminuir a luminosidade, o cuidado de não colocar nenhum objeto em cima das incubadoras, ou seja estratégias que não precisam de recursos financeiros altos, e sim a vontade e comprometimento dos profissionais com o bem estar desses neonatos internados em UTIN.

Quando analisamos as tecnologias do cuidado que estão sendo empregadas nas UTIN dos Hospitais Universitários Federais da região Sudeste, referência no ensino e pesquisa, por ser a região mais desenvolvida na área da saúde, percebemos que muito ainda pode ser feito para humanizar a assistência neonatal, pois diante das varias tecnologias do cuidado disponíveis poucas ainda estão sendo empregadas, ou quando são é de forma fragmentada. Tornando imperativa a investigação científica que aborde estas questões, bem como, a divulgação dos resultados.

Isso nos faz refletir, que muito se tem que caminhar para concretizar a assistência que se busca que é uma assistência humanizada, que atenda o neonato em sua integralidade, em suas dimensões sociais, psicológicas e espirituais, assistência na qual não seja valorizado somente os aspectos técnicos e biológicos do sujeito.

Diante desse contexto, podemos aludir que o enfermeiro deve buscar conhecimentos e processo instrucional para encontrar uma maneira de ação que torne o cuidado de enfermagem mais humano. Pois, como agente de mudança, o enfermeiro deve buscar novos horizontes, já que caminhamos bem no desenvolvimento das tecnologias duras que proporcionam a sobrevivência de recém-nascidos que até um tempo atrás eram considerados incompatíveis com a vida, tecnologias que dão dias de vida a esses recém-nascidos. Mas agora o que se espera da assistência atual, é o desenvolvimento de tecnologias que dê vida aos dias desses recém-nascidos.



REFERÊNCIAS

ALMEIDA, A. et al. Luz na Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais: Proposta de Consenso. Porto, 2007. Disponível em:




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