O que é ser nerd? Um estudo de recepção sobre a série televisiva The Big Bang Theory1 what it is to be nerd? A reception study about the tv series The Big Bang Theory



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Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação

XXVI Encontro Anual da Compós, Faculdade Cásper Líbero, São Paulo - SP, 06 a 09 de junho de 2017


O QUE É SER NERD? Um estudo de recepção sobre a série televisiva The Big Bang Theory1

WHAT IT IS TO BE NERD? A reception study about the TV series The Big Bang Theory

Soraya Madeira da Silva2



Resumo: Este artigo apresenta os dados obtidos de uma pesquisa realizada com o objetivo de entender como é a imagem do nerd na sociedade atualmente, compreender a relação do grupo com o consumo, entender a criação de vínculos afetivos entre público e séries e investigar a recepção do público brasileiro da série televisiva americana The Big Bang Theory, cuja trama gira ao redor de quatro personagens nerds. Buscamos verificar se a figura do nerd ainda carrega o teor negativo e depreciativo comumente associado a ele e se os personagens da série de TV são representados de forma realista ou caricaturada. Como metodologia, usamos a pesquisa quantitativa e qualitativa na forma de um questionário composto de perguntas objetivas e subjetivas, aplicado para uma amostra de 600 pessoas.

Palavras-chave: Nerd. Recepção. Séries televisivas.

Abstract: This article presents the data obtained from a research that aimed to understand how is the image of the nerd in society currently, perceive relationship of the group with consumption, understand the creation of affective bonds between audience and series and investigate the reception of the Brazilian audience of the American television series The Big Bang Theory, whose plot revolves around four nerdy characters. We sought to verify whether the stereotype of the nerd still bears the negative and derogatory content commonly associated with it and whether the characters in the TV series are represented realistically or caricatured. As a methodology, we used quantitative and qualitative research in the form of a questionnaire composed of objective and subjective questions, applied to a sample of 600 people.

Keywords: Nerd. Reception. Television series.

1.Introdução


É interessante notar a fluidez com que nossas percepções mudam ao longo do tempo. Opiniões, gostos e ideias se transformam e nosso olhar sobre o mundo e a sociedade ganha novas reflexões. As mudanças são rápidas e muitas vezes requerem um pouco mais de fôlego para acompanhá-las, mas cabe a nós tentar manter o ritmo e, na medida do possível, deixar a mente captar as nuances dessa evolução e a essência do momento.

Essas mudanças proporcionaram a aproximação de áreas como a tecnologia e a comunicação, desconstruindo barreiras geográficas e temporais para possibilitar o encontro de indivíduos virtualmente, mesmo que separados no âmbito físico. Assim, pessoas podem se reunir com base em seus gostos e interesses em comum, e novos grupos sociais surgem através dessa facilitação tecnológica, desenvolvendo novas identidades e tipos de relacionamento. É o caso dos nerds, grupo que é o foco deste trabalho.

Culturalmente conhecidos por seu estereótipo físico fraco, alto intelecto e poucas habilidades sociais, os nerds surgem na sociedade (mesmo que não com este nome, a princípio) e figuram em diversos produtos culturais, como os livros de Jane Austen e Mary Shelley (NUGENT, 2008). Criou-se ao redor do grupo um estigma, que, na visão de Goffman (1988), é uma cicatriz social que leva indivíduos com características semelhantes a se aproximar. Estigma este que foi amplamente difundido pelo mundo em séries televisivas e filmes na forma de pessoas tímidas, pouco atraentes e de personalidade fraca. Hoje, no entanto, os nerds são tema desses mesmos produtos, mas agora como protagonistas, por vezes deixando um pouco mais de lado a visão negativa que normalmente é associada a eles e abraçando um lado pop e descolado, antes desconhecido.

Este trabalho traz novas reflexões a respeito de uma pesquisa3 realizada com o objetivo de investigar a mudança da imagem do nerd atual, sua relação com o consumo, assim como entender a percepção das pessoas (nerds ou não) sobre o seriado americano The Big Bang Theory através de um estudo de recepção. A justificativa deste trabalho está na mudança da percepção entre a imagem midiatizada do nerd há alguns anos e a apresentada hoje, de caráter positivo e glamourizada (NUGENT, 2008). Para isso, foi aplicado um questionário estruturado, com abordagem quantitativa e qualitativa, para uma amostra de 600 pessoas, escolhidas aleatoriamente. Sabemos que esta metodologia pode ajudar a tentar generalizar a ocorrência de um fenômeno, mas é um risco com vários tipos de amostragem (BECKER, 2007). O que buscamos aqui foi deixar o objeto falar por si só.

O questionário foi dividido em oito seções: perfil demográfico, perfil sociocultural, pessoas que não assistem a séries, séries favoritas, hábitos de consumo em relação às séries favoritas, preferências em relação à série The Big Bang Theory, hábitos de consumo em relação à série The Big Bang Theory e seção final. O cruzamento dos dados quantitativos e qualitativos permitiu novos olhares a respeito dos nerds, seus hábitos de consumo e a percepção do público brasileiro sobre a série The Big Bang Theory, como veremos a seguir.

2.Nerds e o Consumo


É bastante comum encontrar fontes que associam o nascimento do grupo dos nerds com a criação de seu próprio nome (FERNANDES, RIOS, 2011; MATOS, 2011; MOURÃO et al., 2013). Essa origem remete à década de 1950, com os trabalhadores dos laboratórios do Northern Electric Research and Development, cuja abreviação é N.E.R.D.. De acordo com Pereira (2008, p. 102), “o nome do tal laboratório passou a ser sinônimo daqueles jovens branquelos de óculos espessos, vidrados num computador e pouco afeitos ao ar livre”. Entretanto, Nugent (2008) constrói uma linha do tempo que indica que o surgimento do grupo é bem anterior a esse período, e apresenta dados que nos ajudam a entender a formação social, cultural e econômica do grupo.

Segundo o autor, a origem do grupo, mesmo que ainda sem sua nomenclatura específica, é contextualizada pela Revolução Industrial. Com o crescimento do uso de tecnologia na produção industrial, o papel do homem foi diminuindo, à medida que o ressentimento pela obsolescência causada pelas máquinas foi aumentando e se transformando em necessidade de exaltar as características que nos fazem humanos (NUGENT, 2008). A partir disso, a sociedade passou a dar cada vez mais valor aos indivíduos que cultuavam o corpo e as emoções, pois, de acordo com esta visão, era isso que separava os humanos das máquinas.

Assim, aqueles que não possuíam a aparência física de acordo com o esperado pela sociedade, que preferiam a lógica e a racionalidade em vez do confronto físico, ou ainda que faziam parte da burguesia industrial, e não da aristocracia, passaram a ser vistos como menos humanos e foram gradativamente excluídos do convívio social. Foi estabelecido, então, o que Goffman (1988) chama de estigma: uma marca, uma cicatriz social que confere atributos depreciativos ao seu portador. A existência do indivíduo estigmatizado é vista como não natural pelas pessoas consideradas normais, causando uma discrepância entre a imagem que o indivíduo desajustado tem de si mesmo e a que a sociedade faz dele, que deixa de “considerá-lo uma criatura comum e total, reduzindo-a a uma pessoa estragada e reprimida” (GOFFMAN, 1988, p. 12).

Observa-se, desta forma, que o surgimento do grupo é anterior à criação ou estabelecimento de seu nome. Além de sua origem da sigla N.E.R.D. dos laboratórios da empresa canadense citada anteriormente, outro possível surgimento da nomenclatura vem dos estudantes do Massachusetts Institute of Technology (MIT) (MATOS, 2011), ainda que o primeiro registro escrito da palavra tenha sido em 1950, no livro chamado If I ran the zoo, escrito por Dr. Seuss, no qual o nerd é um animal diferente dos outros que habitam o zoológico (NUGENT, 2008).

A partir da década de 1980, o termo nerd, apesar de sua origem americana, começa a ganhar o mundo através de produtos culturais como séries televisivas, filmes e livros. Sua representação é geralmente associada a valores simbólicos cômicos e pejorativos, constituindo uma imagem construída pela grande mídia com o objetivo de propagar ideologias dominantes (KELLNER, 2001) e manter o status quo do nerd como sujeito inadequado e repulsivo.

As características do nerd que permeiam o imaginário popular são bem conhecidas, ainda que representem um estereótipo, como os óculos grossos, pele marcada pela acne, trejeitos infantis, expressões sérias e amarguradas, que representam “sintomas universalmente conhecidos” (NUGENT, 2008, p. 12). No âmbito psicológico e comportamental, o nerd é extremamente dedicado aos estudos, possui uma inteligência acima da média e apresenta dificuldades em estabelecer relações sociais (GALVÃO, 2009). Para completar, “sua personalidade é marcada pela timidez, falta de autoconfiança gerando a forma desajeitada de agir, ingenuidade, além de estar sempre indiferente com ao que acontece ao seu redor” (GALVÃO, 2009, p. 2). Esta fragilidade, tanto física quanto psicológica, fez com que os nerds virassem alvos fáceis de práticas de bullying, desde a infância até a vida adulta, agravando seu quadro de rejeição social (NUGENT, 2008).

Os nerds também apresentam comportamentos de consumo distintos. Sem muita dificuldade, é possível fazer uma lista de vários produtos consumidos pelos nerds: quadrinhos, livros, filmes, séries de TV, videogames, action figures4, jogos de tabuleiro, card games, dentre outros. Para Matos (2011) e Mourão et al. (2012), é através do consumo destes produtos e dos laços afetivos que têm por eles que os nerds desenvolvem sua identidade e personalidade, criam uma noção de pertencimento ao grupo, o aumentam e fortalecem. Cabe aqui trazer novamente Goffman (1988) para a discussão, uma vez que este afirma que os estigmatizados procuram seus semelhantes em busca de aceitação, transformando, de acordo com o contexto no qual a pessoa está inserida, o estigma em atributo de normalidade. O consumo, para os nerds, é o que facilita esta transformação.

Esta visão do consumo é próxima da de Kellner (2001), que afirma que a identidade do indivíduo é baseada nos produtos culturais que consome através da mídia. A desterritorialização dos ícones da cultura nerd, que são hoje reconhecidos mundialmente, sugere o que Ortiz (1994) conceitua como cultura-mundo: uma cultura baseada no consumo de bens simbólicos que são os mesmos em qualquer lugar do mundo, o que facilita a sua aquisição, possibilita a criação de estereótipos e formam grupos baseados no compartilhamento de interesses em comum. Isso possibilitou, então, que os nerds surgissem e se agrupassem pelo mundo.

Além da função de reconhecimento como grupo, o consumo de determinados produtos também aponta uma tentativa dos nerds, mesmo que não consciente, de compensar traços que eles não possuem, como o atletismo, a popularidade ou a masculinidade (TOCCI, 2007), assim como também serve como base para a construção de uma parte de sua narrativa pessoal, para além daquela determinada pela sociedade (MATOS, 2011).

É importante perceber, no entanto, que não é apenas o consumo que pode classificar um nerd como tal. Várias pessoas consomem os mesmos produtos, no entanto, não são consideradas nerds. Isso acontece porque o consumo não é só a aquisição dos produtos em si, mas sim o uso que fazemos deles (BAUDRILLARD, 1996). A apropriação destas obras leva à sua ressignificação, tornando o nerd uma espécie de dono daquilo que consome e um conhecedor de todos os seus detalhes. E o número de produtos culturais voltados para o público nerd não para de crescer nos últimos anos.

Fernandes e Rios (2011) apontam que, devido ao alto poder de compra resultante de seu sucesso profissional em áreas de tecnologia, os nerds tiveram suas excentricidades deixadas de lado em virtude da ascensão de seu êxito financeiro. O grupo não só passou a ser visto sob uma aparente nova perspectiva pela sociedade, como começou a assumir mais firmemente sua identidade. Não demorou para que o mercado percebesse o grande potencial consumidor dos nerds, e assim temos anualmente uma enxurrada de produtos voltados para este público.

Esta nova ótica sobre o grupo fez com que até mesmo a palavra nerd fosse substituída em determinadas ocasiões por geek, refletindo uma evolução, agora com uma carga simbólica bem menos negativa. Para Galvão (2009, p. 2) “segundo esta nova definição, o nerd não necessariamente é antissocial e não possui a chamada aparência clássica; alguns podem ter um visual mais moderno, retrô ou até mesmo uma aparência desleixada”. Geek5 é o nerd descolado, nomenclatura que facilita a auto aceitação dos membros do grupo. Tocci (2007) afirma, inclusive, que o fato de assumirem-se como nerds deu a estes indivíduos a possibilidade de escolher alguns estereótipos positivos para manter, como a falta de conformismo, a competitividade e a busca por novidades, e abandonar os traços negativos atribuídos aos nerds, como as personalidades introvertidas e antissociais. Essa nova atmosfera, mais receptiva e atraente, fez também com que pessoas não nerds queiram se declarar como tais (NUGENT, 2008), confirmando seu novo status através do consumo dos produtos mencionados anteriormente. Tamanho sucesso fez com que os nerds deixassem de ser coadjuvantes nas narrativas e passassem a protagonistas de suas próprias histórias. É o caso da série televisiva americana The Big Bang Theory. Antes de explorá-la um pouco mais e ver como ocorre a representação dos nerds no programa, é importante traçar um breve panorama sobre séries de TV e seus personagens.


3.Séries, personagens e The Big Bang Theory


Séries televisivas são programas de televisão baseados da serialidade, ou seja, sua apresentação acontece de forma descontínua e fragmentada (MACHADO, 2014). Narrativas seriadas ou seriados são sinônimos destes produtos culturais. Seus episódios, ou capítulos, são exibidos diária, semanal ou mensalmente, geralmente subdividido em blocos. Para facilitar seu consumo, as séries, em grande parte, contem uma recapitulação dos capítulos anteriores no início de cada episódio (para contextualizar os telespectadores que perderam alguma parte da história) e um cliffhanger (ganho de tensão) no final, para estimular o interesse do telespectador para o próximo capítulo.

Nas últimas décadas, presenciamos o aumento da quantidade de séries nas grades de programação de diversas emissoras. Isso acontece especialmente porque séries são baratas de produzir, conseguem atingir um grande público (que, se fidelizado, atrai mais anunciantes para o programa) e atendem a necessidade de regularidade e familiaridade das pessoas, facilitando sua entrada no cotidiano das pessoas como parte de suas práticas diárias (ESQUENAZI, 2010; JOST, 2012; MACHADO, 2014; JOST, 2007). Esta regularidade também oferece uma espécie de conforto ao indivíduo, pois, saber o que esperar de uma série compensa o fato de não saber o que esperar de sua própria história (ESQUENAZI, 2010).

Assistir séries é um ato que conecta as pessoas, não só em um mesmo ambiente familiar (uma vez que assistir televisão é uma espécie de ritual dentro do lar), mas que também une sujeitos de grupos diferentes, criando grandes comunidades de interpretação (ESQUENAZI, 2010). Assim, observamos o caráter coletivo na recepção de uma série, que leva à formação de grupos que compartilham estratégias de interpretação para consumir, decodificar e ressignificar os textos televisivos, além de participar dos mesmos estilos de vida adquiridos através do programa.

A capacidade das séries de gerar familiaridade é responsável pela criação de vínculos afetivos entre elas e o público. Cada telespectador faz suas próprias conexões entre sua vida e a dos personagens da trama, gerando um fenômeno que mistura sua história pessoal com a história da série (JOST, 2012). Neste mesmo universo, os seriados apresentam personagens com falhas e imperfeições, que conferem a eles mais humanidade e, mesmo “em desvantagem” em relação aos heróis de outras eras da TV, esses conseguem pequenas vitórias, proporcionando uma espécie de compensação simbólica em relação às derrotas cotidianas do telespectador. A relação afetiva com as séries nos indica a importância de vê-las e estudá-las como “sintomas de nossas aspirações e por aquilo que elas dizem sobre nós” (JOST, 2012, p. 70).

No entanto, baixo custo de produção e criação de vínculos e familiaridade não são suficientes para uma série ser sucesso de público. Isso depende do poder de gerar ganho simbólico para quem a assiste, o que confere ao seriado um grande valor cultural (JOST, 2012). É importante lembrar que esse sucesso é uma via de mão dupla: mesmo gerando valor para o público, este é capaz de provocar mudanças na programação, uma vez que as grandes emissoras buscam as preferências do público para adequar os programas aos seus gostos (TONDATO; ABRÃO; MACEDO, 2013; THOMPSON, 2001). O que nos leva de volta ao nerd.

O nerd é uma figura que aparece em várias séries ao longo das últimas décadas. Alguns têm o visual, outros têm o comportamento ou o estilo de vida, ou apresentam o pacote completo, tanto em séries de drama, de comédia ou até mesmo animações. Alguns personagens são classificados como nerds dentro da própria história, outros não. Exemplos deles são: Sr. Spock, de Jornada nas Estrelas, cujo comportamento é baseado na lógica e no raciocínio; Velma, de Scooby Doo, com seu visual com óculos grossos e comportamento lógico; Ross Geller, de Friends, que é apaixonado por dinossauros e quebra-cabeças e adora corrigir os outros; Maurice Moss, de The IT Crowd, um técnico de informática que é o estereótipo do nerd personificado: visual padrão, não tem habilidades sociais, compreende tudo de maneira literal, não tem muitos amigos e possui familiaridade com números (interessante notar que Moss é um dos poucos personagens nerds representados por atores negros (FIG. 1).



FIGURA 1 – Da esquerda para a direita: Spock, Velma, Ross e Maurice

FONTE – Elaborado pela autora.

No geral, as sitcoms, comédias de situação, têm sua estrutura baseada na repetição de piadas e na tipificação dos personagens (ESQUENAZI, 2010). Isso acontece porque, comumente, este tipo de série é imóvel, ou seja, não evolui, e a falta de progressão da história ou dos personagens torna a leitura destes textos televisivos mais fácil e agradável. A repetição dos gestos e ritmos dos personagens cria uma cumplicidade entre eles e o público, que passa a levar esses trejeitos para a vida real e se comporta como seus personagens favoritos. Com isso em mente, parece-nos que as sitcoms são mais propícias a representar o nerd em seu estereótipo, principalmente porque sua estrutura base não permite a profundidade ou evolução desses personagens.

No entanto, ao analisarmos a trama da sitcom americana The Big Bang Theory, a estereotipificação dos nerds foi questionada durante a pesquisa. A série (doravante chamada de TBBT) foi criada em 2007 pela emissora CBS e conta a história de cinco personagens principais: Leonard, Sheldon, Howard e Raj, quatro cientistas nerds, que convivem com Penny, sua vizinha, uma garota americana comum (FIG. 2). Segundo o site da CBS, essa é a definição oficial da série:

Leonard e Sheldon são físicos brilhantes – gênios no laboratório, mas socialmente desafiados em qualquer lugar. Surge a vizinha bonita e com esperteza adquirida na rua, Penny, que tenta ensinar-lhes algumas coisas sobre a vida. [...] Em seu tempo livre, Leonard e Sheldon curtem jogos de role-playing de fantasia com seu crescente universo de amigos, incluindo seus colegas cientistas Koothrappali, Wolowitz e a adorável esposa microbiologista de Wolowitz, Bernadette. (CBS, 2017)6



FIGURA 2 – Da esquerda para a direita: Leonard, Penny, Amy, Sheldon, Bernadette, Howard e Raj.

FONTE – CBS, 2017.

Os personagens são a alma, o principal elemento dos roteiros audiovisuais (FIELD, 2001; SEGER, 2006; RODRIGUES, 2014; DAVIS, 2001). São eles que nos envolvem com suas atitudes, comportamentos, visões de mundo e ilusões. O interesse da audiência é despertado pelos paradoxos e lacunas entre o que os personagens acham que são e o que vemos na tela, o que torna a audiência ativa na trama e faz com que esta se identifique com o que vê nas cenas (DAVIS, 2001).

Em TBBT, os personagens possuem histórias de vida similares ao que vimos anteriormente sobre os nerds: marcadas pelo bullying e pela rejeição. Estas cicatrizes são profundas e mostram que os personagens se apegam ao passado, ao mesmo tempo em que suas profissões apontam para o futuro e são sua fonte adulta de autoestima (HIME, 2014). Na série, os personagens estão quase sempre juntos, compartilhando interesses em comum e fortalecendo a amizade. A cada interação entre eles, descobrimos mais de suas personalidades, e suas fraquezas e ansiedades criam uma conexão com quem assiste à série, pois o que “se constata, em conversas com adolescentes fãs do programa é que, na verdade, se identificam com os personagens, já que vivem ansiedades e dúvidas parecidas com as deles” (FLORES; ROCHA FILHO; SAMUEL, 2014, p. 61).

Com o passar da trama, novos personagens foram introduzidos de forma permanente na série, como o dono da loja de quadrinhos, Stuart Bloom, a microbiologista Bernadette Rostenkowski , esposa de Howard, e a neurocientista Amy Farrah Fowler, namorada de Sheldon. Leonard e Penny casaram, Howard e Bernadette tiveram um bebê e estes amadurecimentos deram um novo rumo à história, que deixou de ser centrada na vida dos cinco personagens iniciais e passou a observar as relações deles com seus respectivos pares, todos em um grupo maior. E é essa interação um dos principais motivos de sucesso da série, que possui uma audiência de 19,36 milhões7 de pessoas nos Estados Unidos. A convivência dos personagens com suas fragilidades e inseguranças se refletem no público:

Em conjunto, os personagens compõem um quadro em miniatura dos principais aspectos da vida contemporânea, o que justifica o sucesso da série: o trabalho, as relações frágeis, as ilusões, a sexualidade, a infância estendida, as neuroses, as fobias, a alta tecnologia e o profundo autodesconhecimento. Cada um dos apaixonados pela série se vê projetado nas atitudes dos personagens, aqui e ali, e esse é o segredo de sucesso de qualquer sitcom. (FLORES; ROCHA FILHO; SAMUEL, 2014, p. 64-65).

Essa evolução do grupo dos nerds como um todo, da série e dos personagens foi o que nos fez questionar a estereotipificação do nerd em TBBT. Ao longo das nove temporadas (atualmente, a décima está sendo exibida), vemos que os personagens amadureceram, construíram relacionamentos mais duradouros, deixaram um pouco os trejeitos infantis de lado e abraçaram a maturidade com mais segurança. Daí a pergunta: os personagens da série representam estereótipos do nerd ou não? Outra dúvida que levantamos foi a respeito do envolvimento afetivo do público com os personagens das séries. Se o que difere o nerd de uma pessoa não nerd é o envolvimento afetivo com os produtos que consomem, isso indicaria, possivelmente, que os não nerds têm menos vínculos emocionais com os personagens de suas séries favoritas? A pesquisa, então, ofereceu novos dados para confirmarmos ou não se essas hipóteses eram verdadeiras. Vamos então, apresentar primeiro os dados sobre a série e a a recepção do público, para, em seguida, ver o que os respondentes sentem em relação a serem nerds ou serem vistos como tais pelos outros.


4.Dados da pesquisa


Perguntamos para os respondentes quais são suas séries favoritas, para mapear se elas são imóveis ou evolutivas (ESQUENAZI, 2010). Já que as evolutivas permitem mais desenvolvimento dos personagens, nos parece que essas seriam mais capazes de gerar vínculos afetivos do que as imóveis, como as sitcoms. Pedimos também que os respondentes as ordenassem, de acordo com sua preferência, do primeiro ao quinto lugar (o quarto e o quinto eram opcionais). As séries mais citadas foram Game of Thrones (fantasia), Friends (sitcom), Grey’s Anatomy (drama), Breaking Bad (drama), How I Met Your Mother (sitcom), The Walking Dead (drama) e Sense 8 (ficção científica) (FIG. 3).

FIGURA 3 – Séries favoritas dos respondentes.

FONTE – Tabulado pela autora.

Dentre essas, apenas três estão encerradas: Friends (2004), Breaking Bad (2013) e How I Met Your Mother (2014). Este dado nos revela uma alta afetividade com essas séries, que permanecem como favoritas do público da amostra mesmo depois de encerradas. Outro dado interessante é o número de citações de Game of Thrones, uma série do gênero de fantasia, bastante relacionado com o universo nerd. Ao considerarmos que a maior parte da amostra não se considera nerd (como veremos a seguir), percebemos que há o compartilhamento de interesses pelos mesmos produtos culturais. Além disso, entre as mais citadas, duas são sitcoms, dado relevante para nossa hipótese.

Perguntamos também aos respondentes quais eram os seus personagens favoritos (FIG. 4) em suas séries preferidas. Os cinco mais citados foram: Walter White (Breaking Bad) com 23 citações; Tyrion Lannister (Game of Thrones) com 22 citações; Chandler Bing (Friends) com 17 citações; Meredith Grey (Grey's Anatomy) com 14 citações; Daenerys (Game of Thrones) e Ted Mosby (How I Met Your Mother) com 12 indicações cada. O que estes dados nos mostram de mais interessante é que os personagens citados pelos respondentes, com exceção de Daenerys, também foram classificados como nerds por eles, em um outro momento da pesquisa. Mesmo com características possivelmente estereotipadas, principalmente nos personagens de sitcom, eles entram na preferência do público. Ou seja, um traço (comportamento, aparência etc) que seria responsável por causar “repulsa” pelos personagens , de acordo com a visão negativa socialmente presente sobre os nerds, na verdade, para os respondentes, não os impede de escolher esses personagens como seus favoritos.

FIGURA 4 – Personagens favoritos dos respondentes.FONTE – Tabulado pela autora.

Perguntamos também se as pessoas se identificavam com algum personagem de sua série favorita e por quais motivos isso acontecia ou não. 322 pessoas marcaram que se identificavam com o personagem, mas apenas 209 responderam os motivos (FIG. 5).

FIGURA 5 – Respondentes que se identificam com personagens.

FONTE – Tabulado pela autora.

Elas disseram se identificar, principalmente, pela semelhança em alguns aspectos da vida, como força, determinação, independência, coragem, timidez, fragilidade, inocência, estilo de vida, profissão, sexualidade e gostos pessoais, para elencar os mais citados. Os defeitos dos personagens também foram apontados como elementos que criam a conexão entre eles e as pessoas, como manias, insegurança, necessidade de controlar os outros, decepções de vida, frieza, dentre outros. Muitos apontam até que sabem que seus personagens favoritos não são os melhores da série, mas são aqueles que trazem algo que os toca.

Dexter. Por muito tempo sentia que existia uma diferença entre a pessoa que eu era e a que eu demonstrava ser para minha família, pois minha mãe era muito preconceituosa e eu temia lhe dizer que era gay. (RESPONDENTE 194, MULHER, 26 A 30 ANOS, CONSIDERA-SE NERD)

Michael Scott - Ele é um bom sujeito, no fundo quer o bem das pessoas ao seu redor. Mas diante de um mundo complexo, cada vez mais diversificado e dinâmico em relação à valores, acaba sofrendo gafes, agindo de forma equivocada ou sendo idiota. Acho que cada um de nós se sente um pouco assim em dias atuais, seja por um motivo ou por outro. Acho que no fim das contas, o sentimento humano fala mais alto. (RESPONDENTE 332, HOMEM, 18 A 25 ANOS, NÃO SE CONSIDERA NERD)

Minha personagem preferida é a que eu mais gosto justamente por ser a personagem por quem sinto mais empatia (Lady Mary). Não é a melhor personagem, pois esta seria Lady Sybil, que não possui nenhum defeito e é, literalmente, o que todas as pessoas deveriam ser: gentil, inteligente, solidária, afetuosa e ainda é bonita. Lady Mary, por outro lado, é uma personagem que, assim como todas as pessoas na vida real, possui inúmeros defeitos. Entretanto, mesmo cometendo erros e assumindo posturas um tanto egoístas, é evidente que ela possui um bom coração e se importa com os demais. (RESPONDENTE 386, MULHER, 18 A 25 ANOS, NÃO SE CONSIDERA NERD)

Estes dados confirmam o que Esquenazi (2010) fala sobre o vínculo afetivo entre as pessoas e personagens. A obra do autor não é um estudo de recepção, então resultados assim são importantes para ratificar suas conclusões. Percebemos também que, nerds ou não, todos são suscetíveis ao desenvolvimento do vínculo entre história/personagem e indivíduo. Não é preciso ser nerd, ou seja, ter dedicação extrema para alguma obra, para se conectar a ela. Nossa hipótese, então, foi refutada, já que tanto nerds quanto não nerds são capazes de se identificar e se envolver afetivamente com um mesmo tipo de produto cultural.

Restava ainda saber a percepção dos respondentes sobre TBBT, para verificarmos se a hipótese de que a série havia ficado menos estereotipada em relação à imagem dos nerds era verdadeira. Perguntamos então se os personagens da série eram nerds (FIG. 6) e, para efeito de comparação, se os nerds da vida real eram como os retratados pela série. Apenas os respondentes que indicaram que acompanham a série ou que assistiam, mas deixaram de acompanhar, puderam responder essas perguntas, por isso o número da amostra é menor.

FIGURA 6 – Opinião dos respondentes sobre os personagens principais.

FONTE – Tabulado pela autora.

Ao pedirmos para os respondentes justificarem sua escolha, as pessoas que assinalaram “Não” citaram que os personagens são apenas estereótipos, caricaturas do que seriam os nerds da vida real, dado que vai de encontro à hipótese inicial da pesquisa. Entre os que responderam “Não sei”, não há um consenso entre as respostas; uma, no entanto, indica a polissemia da palavra nerd: “O termo é muito abrangente” (RESPONDENTE 363, HOMEM, 26 A 30 ANOS, RESPONDEU NÃO SEI). Outra faz referência à riqueza, o que nos remete ao sucesso financeiro associado aos nerds, visto anteriormente: “Eles até que podem ser nerds, mas se eles são essa Coca-cola toda (pelo menos o Sheldon) porque ele não é rico e tem que dividir apartamento com gente que ele menospreza (na verdade, ele menospreza todo mundo)?” (RESPONDENTE 573, HOMEM, 26 A 30 ANOS, RESPONDEU NÃO SEI).

Entre os que responderam “Sim”, as principais justificativas da escolha foram em relação à profissão dos personagens, à maneira como sempre procuram mais informação e conhecimento sobre os assuntos que gostam, ao comportamento antissocial que eles demonstram, à sua aparência ou à forma como se referem a eles mesmos como nerds. Muitos afirmaram que os personagens são estereotipados, diante de sua própria definição sobre o que é ser nerd ou geek.

Eles são nerds por: 1) eles próprios se identificam como tal. 2) os produtos culturais consumidos pelos personagens são característicos de membros da Cultura nerd. 3) eles partilham dos estereótipos associados a cultura nerd . (RESPONDENTE 45, MULHER, 18 A 25 ANOS, RESPONDEU SIM)

Eles entendem tudo do mundo geek e nerd. Claro que, não necessariamente um nerd é um geek, mas acho que ser geek ajuda a aflorar o lado nerd. Eles são físicos, engenheiros espaciais, eles com certeza sabem de muita coisa que não é todo mundo que sabe. (RESPONDENTE 168, MULHER, 18 A 25 ANOS, RESPONDEU SIM)

Ser nerd é ir a fundo em determinado assunto. Não necessariamente cultura pop. Ser nerd é ir além, conhecer tudo sobre determinado tema. Os 4 se encaixam nesse modelo. (RESPONDENTE 390, HOMEM, 26 A 30 ANOS, RESPONDEU SIM)

Porque cabem na minha definição de nerd que é ser um apaixonado honesto consigo mesmo e para o mundo sobre o que você é e o que você gosta, sem relação com desempenho acadêmico, embora as características citadas corriqueiramente façam com que este desempenho seja bom. (RESPONDENTE 355, HOMEM, 36 A 40 ANOS, RESPONDEU SIM)

Cada um é uma espécie de esteriótipo nerd montado para que as pessoas riam DOS nerds e não COM os nerds. TBBT no final das contas é como Two and a Half Men, uma série feita para se rir de esteriótipos e não se sentir mal pois acha que está rindo com o personagem. Mas não tinha como ser diferente já que ambas as séries são do Chuck Lorre. (RESPONDENTE 232, HOMEM, 18 A 25 ANOS, RESPONDEU SIM)

Entretanto, quando perguntados se os nerds da vida real são como os personagens, as respostas divergem. A maioria disse que não, mas a diferença entre as porcentagens não é tão grande como na resposta anterior (FIG. 7).

FIGURA 7 – Opinião dos respondentes sobre os nerds da “vida real”.

FONTE – Tabulado pela autora.

Em suas respostas subjetivas, os respondentes descrevem que os personagens são estereotipados, muito exagerados, generalizados e parecem caricaturas, tudo para deixar a série mais cômica. O mais interessante, no entanto, é que alguns respondentes colocam que os nerds da vida real não têm tantos problemas sociais, além de se dividirem em diversos tipos de nerds, não apenas ligados aos estudos ou à ciência. Alguns ainda apontam que houve uma apropriação dos trejeitos e estilo de vida dos personagens pelos telespectadores da série. Entre os que acham que os nerds da vida real são como os da série, justificaram por conhecerem muitos como eles em seu cotidiano.

Eles são estereotipados na série. Acho que os nerds da vida real tendem a ser mais sociáveis com outras tribos, apesar de terem muito espaço para consumir produtos das culturas de nicho. (RESPONDENTE 171, MULHER, 18 A 25 ANOS, RESPONDEU NÃO)

Há uma variação gigante dos fatores colocados na série. Ser nerd nem sempre tem conexão com ser inteligente, por exemplo. Não acho possível minimizar tanto. (RESPONDENTE 73, MULHER, 26 A 30 ANOS, RESPONDEU NÃO)

Os "nerds" reais tem mais vida social, formam grupos baseados em interesses comuns e se relacionam bem. Não tem essa ideia de "perdedores" ou isolados. (RESPONDENTE 145, MULHER, 31 A 35 ANOS, RESPONDEU NÃO)

A série precisa se ancorar em estereótipos, que pelo menos para a realidade brasileira não se aplicam com tanta precisão. Não necessariamente são especialistas em engenharia e dominam cálculos. Muitos são de humanas e fazem miçangas. (RESPONDENTE 286, MASCULINO, 31 A 35 ANOS, RESPONDEU NÃO)

Talvez se pareçam, mas acredito que a série contribuiu para que muitos se considerassem nerds e assumissem os mesmos comportamentos dos personagens. (RESPONDENTE 62, MULHER, 18 A 25 ANOS, RESPONDEU NÃO)

A série é baseada na cultura nerd e baseada nos costumes delas. (RESPONDENTE 350, HOMEM, 18 A 25 ANOS)

Acredito que para ser realizada uma serie que aborda como tema principal o cotidiano de quatro nerds, é preciso uma pesquisa aprofundada, para conseguirem retratar com o máximo de realidade possível. (RESPONDENTE 466, MULHER, 18 A 25 ANOS, RESPONDEU SIM)

A série é baseada na cultura nerd e baseada nos costumes delas. (RESPONDENTE 350, HOMEM, 18 A 25 ANOS, RESPONDEU SIM)

Tenho alguns amigos que acabam falando numa "certa língua" que eu não entendo, talvez eles não se vistam tanto como os personagens da série se vestem, mas com certeza eles fazem questão de mostrar do que gostam, tipo o Sheldon com as blusas de super heróis. (RESPONDENTE 168, MULHER, 18 A 25 ANOS, RESPONDEU SIM)

Com a pluralidade de respostas, fica a pergunta: o que significa ser nerd para os respondentes? Foi isso o que veio em seguida no questionário, em sua última seção. Na pesquisa realizada, pedimos para que cada um dos 600 participantes respondessem se eles próprios se consideravam nerds e se eram considerados nerds pelos outros. O objetivo dessas questões era verificar se os hábitos de consumo de produtos culturais dos nerds eram realmente diferentes dos não nerds, já que ambos podem consumir os mesmos itens, além de obter detalhes sobre a percepção de sua identidade e da imagem que os outros fazem desses indivíduos a partir das questões subjetivas. Como respostas, 419 pessoas disseram que não se consideravam nerds, enquanto 181 pessoas se afirmavam como pertencentes ao grupo. Entretanto, quando a pergunta se volta para a percepção dos outros acerca de sua imagem, os números mudam: 327 pessoas responderam que não são consideradas nerds pelos outros, e 273 pessoas disseram que sim, outras pessoas acham que elas são nerds (FIG. 8 e FIG. 9).



FIGURA 8 – Respondentes se classificam como nerds ou não.

FONTE – Tabulado pela autora.

FIGURA 9 – Respondentes são considerados nerds ou não pelos outros.

FONTE – Tabulado pela autora.

Em relação ao estereótipo construído sobre a imagem do nerd, cuja hipótese inicial era de que a carga negativa do grupo foi aliviada devido ao crescimento do poder de compra e status do grupo, pudemos tirar algumas conclusões. Uma delas foi que a imagem do nerd ainda é muito associada a um bom desempenho nos estudos, fator que serve como diferenciador entre quem se acha nerd e quem não se considera assim. Muitos respondentes que marcaram Não têm um possível cuidado de dizer que são estudiosos, mas não são nerds, indicando que a imagem do nerd ainda carrega um valor simbólico negativo. Ou seja, não tem problema ter algumas coisas em comum com os nerds, mas ser chamado de um não é algo bom.

Gosto bastante de estudar, me faz muito bem. Sou muito curioso, consumidor de muita coisa ligada a cultura e tudo o mais. (RESPONDENTE 126, HOMEM, 18 A 25 ANOS, CONSIDERA-SE NERD)

As pessoas acham que ser nerd é gostar de star wars. Nerd é gostar de estudar e eu não gosto. (RESPONDENTE 33, MULHER, 26 A 30 ANOS, NÃO SE CONSIDERA NERD)

Sou inteligente e tiro excelentes notas na faculdade. Mas não sou nerd. (RESPONDENTE 74, MULHER, 18 A 25 ANOS, NÃO SE CONSIDERA NERD)

Estudos muito mas não faço só isso da vida. (RESPONDENTE 273, MULHER, 18 A 25 ANOS, NÃO SE CONSIDERA NERD)

Sou MT estudiosa, mas não me considero nerd pois na minha opiniao o nerd só estuda, não sabe fazer outra coisa da vida. (RESPONDENTE 372, MULHER, 18 A 25 ANOS, NÃO SE CONSIDERA NERD)

Alguns dos respondentes também fizeram correlações entre nerds, comportamento e estilo de vida, como isolamento, falta de habilidades sociais e aparência. A respeito deste último quesito, algo que chamou a atenção foi que, para muitos, o uso de óculos é suficiente para classificar alguém como nerd, confirmando que a imagem construída pela mídia ainda é presente no imaginário popular, ou seja, mesmo que o nerd tenha adquirido novas características nos últimos anos, o estereótipo popularmente conhecido continua forte. Além disso, algo novo foi detectado nos resultados da pesquisa: a ideia de que ser nerd pode ser um estado temporário; hoje o indivíduo pode ser nerd, amanhã, não mais. O interessante a respeito dessa conclusão é que a maioria dos produtos culturais que retratam o nerd mostram suas características peculiares como algo definitivo, não passageiro. Os respondentes, então, nos indicam que sua percepção sobre isso é diferente da construção midiática.

Apesar de consumir mídias parecidas, acredito que o estilo de vida é bem diferente. (RESPONDENTE 410, HOMEM, 26 A 30 ANOS, NÃO SE CONSIDERA NERD)

Priorizo outras coisas como sair com amigos, namorar, praticar atividades físicas. (RESPONDENTE 426, MULHER, 26 A 30 ANOS, NÃO SE CONSIDERA NERD)

Acredito não ter o mesmo esteriótipo, já que não tenho tendencias depreciativas, e me considero socializável. (RESPONDENTE 466, MULHER, 18 A 25 ANOS, NÃO SE CONSIDERA NERD)

Porque nerd é um estereótipo de pessoas não-sociáveis, que só sabem jogar video game, que não saem de casa com frequência. (RESPONDENTE 550, MULHER, 18 A 25 ANOS, NÃO SE CONSIDERA NERD)

Não manjo das tecnologias, não sei programar, não leio quadrinhos, nunca fui lá muito estudiosa, não uso óculos... (RESPONDENTE 297, MULHER, 18 A 25 ANOS, NÃO SE CONSIDERA NERD)

Uso óculos, tenho um padrão de vestimentas muitas vezes mal julgado, gosto muito de assistir séries e filmes e costumo dar respostas lógicas, em conversas. (RESPONDENTE 370, MULHER, 31 A 35 ANOS, CONSIDERA-SE NERD)

Por usar óculos. (RESPONDENTE 464, MULHER, 18 A 25 ANOS, CONSIDERA-SE NERD)

Já fui mais estidiosa e mais desajustada socialmente. (RESPONDENTE 100, MULHER, 31 A 35 ANOS, NÃO SE CONSIDERA NERD)

Na época da escola até tinha algumas características, como ser muito apegado aos estudos, mas hoje não acho que tenha muitas características frequentemente associadas a nerds. (RESPONDENTE 182, HOMEM, 18 A 25 ANOS, NÃO SE CONSIDERA NERD)

Ao cruzarmos os dados das perguntas “Você se considera nerd?” e “Você é considerado nerd pelos outros?” com a seção de hábitos de consumo do questionário, constatamos que o índice cultural dos não nerds é bem elevado, pois 95,2% consomem filmes; 90,7% consomem séries; 75,9% consomem livros; 20% consomem videogames; 16,3% consomem quadrinhos; 12,2% consomem jogos de tabuleiro; e 3,8% consomem figuras de ação. Interessante notar como há consumo de vários produtos classificados como pertencentes à cultura nerd, como quadrinhos e figuras de ação. No entanto, quando comparamos estes dados com os obtidos dos respondentes que se classificam como nerds, obtemos os seguintes resultados: 94,5% consomem filmes; 96,7% consomem séries; 84% consomem livros; 44,8% consomem videogames; 41,4% consomem quadrinhos; 26% consomem jogos de tabuleiro; e 18,2% consomem figuras de ação.

Com exceção do consumo de filmes, que é quase igual nos dois grupos (embora levemente menor para os nerds, algo inesperado), todos os outros índices de consumo dos nerds são maiores que o do grupo anterior, nos indicando um grau ainda mais alto de consumo de produtos culturais. Os consumidores nerds de videogames, quadrinhos, jogos de tabuleiro e figuras de ação são mais que o dobro do que o grupo anterior, ao compararmos as respectivas porcentagens. Importante salientar que a seção de perguntas sobre os hábitos culturais veio antes da seção sobre a auto afirmação como nerd, ou seja, não houve uma influência de marcar mais ou menos itens devido à resposta sobre ser nerd ou não, já que esta só apareceu depois. Assim, podemos comprovar a conexão direta entre os nerds e o elevado consumo destes produtos, que é ratificada, inclusive, pelo teor das respostas subjetivas da pesquisa, na qual perguntamos por que as pessoas se consideram nerds ou não, e por que acha que os outros as consideram como nerds ou não. As pessoas que não se consideram nerds até assumem que gostam dos mesmos produtos culturais, a diferença está na intensidade com que os consomem. Os nerds, por sua vez, se classificam assim justamente por se dedicarem mais a determinadas obras.

Acredito que ser nerd está ligado a dois aspectos, o intelectual e o cultural. Em relação ao lado intelectual, estou longe de ser nerd. Sobre os produtos geralmente vinculados à cultura nerd, como séries, videogames e quadrinhos, até gosto de alguns, mas de forma mais descompromissada. Não acho que faço parte do grupo. (RESPONDENTE 01, MULHER, 18 A 25 ANOS, NÃO SE CONSIDERA NERD)

Penso que um "nerd" tende a focar seus gostos e interesses em conteúdos específicos e mais pontuais, como a ficção-científica, os quadrinhos, os games, as narrativas medievais, etc. Há uma dedicação que se concentra em determinados produtos culturais. Embora eu tenha interesse por esse tipo de material, este faz parte, de modo bem balanceado, de interesses mais amplos dentro das artes, da literatura, do cinema, da música... Tampouco me vejo envolvido com uma "identidade nerd", no sentido de ter esta ou aquela camiseta de um filme ou um personagem, ou de passar horas e horas conversando apenas sobre tais assuntos e seu amplo universo, como alguns de meus amigos têm disposição para fazer. (RESPONDENTE 285, HOMEM, 31 A 35 ANOS, NÃO SE CONSIDERA NERD)

Porque me interesso e consumo bastante produtos do universo nerd, costumo discutir sobre com os amigos e acompanhar notícias envolvendo esse universo. (RESPONDENTE 04, HOMEM, 26 A 30 ANOS, CONSIDERA-SE NERD)

Acredito que essa definição está diretamente ligada ao interesse investigativo pelos temas, enxergando sempre uma imagem interessante sobre os mais diversos assuntos. Consumir esse tipo de conteúdo faz parte desse universo, mas não necessariamente determina quem são ou quem não são esses nerds. (RESPONDENTE 57, HOMEM, 26 A 30 ANOS, CONSIDERA-SE NERD)

Me aprofundo no conhecimento a respeito da cultura pop e universo científico de forma desnecessário, pelo prazer do conhecimento. (RESPONDENTE 111, HOMEM, 31 A 35 ANOS, CONSIDERA-SE NERD)

Estas respostas confirmam o que vimos anteriormente sobre o consumo e o uso e apropriação dos produtos culturais. Os nerds realmente se aproximam e ressignificam os produtos que gostam, tornando-os seus, enquanto os não nerds os apreciam, mas segundo eles mesmos, não se aprofundam tanto. Mas, ao analisarmos a seção anterior sobre o vínculo afetivo das pessoas com suas séries favoritas, percebemos que, mesmo sem a obsessão pela história, personagens, atores ou outros elementos, ainda há o desenvolvimento de laços emocionais com os produtos, o que mostra que não é preciso saber cada detalhe da obra e sua produção para se conectar afetivamente com ela.

É possível perceber, pelo teor das respostas, que a visão dos respondentes sobre os nerds e a representação do grupo na série The Big Bang Theory é cheia de nuances e passível de discussões, levando-nos a crer que colocar o nerd em um conceito definitivo é, de certa forma, impossível. A missão de analisar e escolher algumas das respostas de 600 pessoas é outra tarefa igualmente difícil, mas que procuramos fazer para enriquecer os debates sobre a recepção de séries no Brasil, produtos culturais que, principalmente graças à internet, chegam a um público cada vez maior.

As hipóteses que permearam o início da pesquisa foram sendo refutadas aos poucos, já que comprovamos que o envolvimento afetivo com séries e seus personagens acontece com qualquer tipo de público, não só o nerd, e que a visão que tínhamos sobre a perda de estereotipificação dos personagens foi negada pelo público. Concluímos também que a figura universalmente conhecida do nerd, construída através da mídia e replicada em The Big Bang Theory, não é a mesma que as pessoas têm dos nerds da vida real. Esta, apesar de ser mais aceitável e orgânica do que já foi há alguns anos, ainda contém uma carga negativa e preconceituosa para alguns.

O fato de os respondentes terem questionado tanto a história e os personagens da série indica que existe um ruído entre produção e consumo, tanto da apropriação dos produtores da série para viabilizar sua veiculação, até a recepção brasileira da série pelo público. Se, de um ponto de vista mercadológico, isto pode parecer ruim, do ponto de vista social e comunicacional, esse ruído indica que os telespectadores da série não naturalizam seu conteúdo, mas geram problematizações e apresentam críticas a respeito do que assistem. Essa pluralidade de opiniões, diante de um mundo onde receptores podem se tornar produtores com o auxílio da internet, é necessária para buscar representatividade nos meios de comunicação de massa. Através da discussão dos padrões inseridos nas grandes produções, é possível buscar sua quebra e inserção de novos valores nessas mídias.

Por fim, percebemos que ser nerd, na atualidade, é algo em constante mudança. É um grupo que se conecta através do consumo de produtos culturais, mas que apresenta comportamentos que vão se adequando à nova realidade social na qual estamos inseridos. É abraçar as novidades, mas sem deixar as velhas ideologias irem embora. Se aprendemos algo com nossa pesquisa, é que ser nerd é mais que uma classificação: é um estado de espírito.
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1Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho Recepção: processos de interpretação, uso e consumo midiáticos do XXVI Encontro Anual da Compós, Faculdade Cásper Líbero, São Paulo - SP, 06 a 09 de junho de 2017

2Universidade Federal do Ceará, mestra em Comunicação, sorayamadeira1@gmail.com.

3A pesquisa Is nerd the new sexy? Um estudo sobre a recepção da série televisiva The Big Bang Theory foi desenvolvida por Soraya Madeira da Silva no Mestrado em Comunicação da Universidade Federal do Ceará, sob orientação do prof. Ricardo Jorge de Lucena Lucas.

4Action figures ou figuras de ação são modelos em miniatura de personagens de filmes, histórias em quadrinhos, seriados televisivos etc. São geralmente bem detalhados e podem mudar de posição, ao contrário de estátuas, daí a origem de seu nome.

5Para as finalidades deste trabalho, nerd e geek serão usados como sinônimos.

6Texto original: Leonard and Sheldon are brilliant physicists – geniuses in the laboratory, but socially challenged everywhere else. Enter beautiful, street-smart neighbor, Penny, who aims to teach them a thing or two about life. [...] In their free time, Leonard and Sheldon enjoy fantasy role-playing games with their ever-expanding universe of friends, including fellow scientists Koothrappali, Wolowitz and Wolowitz’s adorable microbiologist wife, Bernadette [...].

7Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/The_Big_Bang_Theory#U.S._standard_ratings. Acesso em 15/02/2017).


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