O presente ensaio parte de um questionamento aparentemente



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O OLHAR VERTICAL COMO MODALIDADE DE LEITURA DE FOTOGRAFIA

Amarildo Carnicel - pesquisador do Centro de Memória (Unicamp), mestre em Multimeios (IA-Unicamp) e aluno do Programa de Doutorado da Faculdade de Educacão-Unicamp. Professor do Programa de Pós-graduação do Laboratório de Jornalismo Científico (Labjor-Unicamp), do curso de Jornalismo da PUC-Campinas e das Faculdades Hoyler.
Resumo: O presente artigo parte de um questionamento, aparentemente, simples. Por que, diante de uma coleção ou de um álbum de fotografias, há imagens que provocam algum tipo de inquietação? Faço essa pergunta a partir da observação de um universo de 250 fotografias produzidas por mim enquanto fotógrafo e pesquisador em projeto sobre memória e vida urbana. Para organizar essa análise, estabeleço categorias de fotografias (“Foto Negociada”, “Foto Consentida”, “Foto Não-consentida”, “Foto Predatória” e “Foto Denúncia”) e trabalho em três dimensões: aquele que faz a foto, aquele que observa a foto e aquele que analisa a foto. Portanto, procuro compreender as imagens a partir de três análises: · Enquanto fotógrafo: na escolha do que fotografar e na angulação encontrada; · Enquanto observador: ao mergulhar nas camadas da imagem, apontando elementos/detalhes que somente são possíveis a partir das informações fornecidas pelo fotógrafo; · Enquanto pesquisador: na leitura e na categorização das imagens, embora a análise se dê a partir de teorias e propostas desenvolvidas por diferentes pensadores da fotografia. Nessa análise, busquei detalhes que “falam”, que oferecem informações que permitem tornar visível o invisível.

O presente trabalho parte de um questionamento aparentemente simples. Por que, diante de uma coleção ou de um álbum de fotografias, algumas imagens provocam algum tipo de inquietação? Seria o cenário que compõe o quadrilátero? Seria a expressão ou o olhar do fotografado? Seriam as informações, como um todo, sobre a superfície lisa? Ou, simplesmente, – o que convenhamos não ser fácil alcançar – a beleza plástica da imagem?

Faço esses questionamentos a partir da observação de um universo de 250 fotografias produzidas por mim como fotógrafo e pesquisador vinculado ao projeto “Persistências e Mudanças no Viver Urbano Campineiro: Cambuí e Vila Industrial”1 que visava registrar, por meio de imagens fixas, o cotidiano de dois bairros com características bastante diferentes no contexto sociocultural e urbano de Campinas. De um lado, a Vila Industrial, bairro proletário cuja origem está na ferrovia que corta a cidade e que, apesar da evolução urbana, não tem vivenciado em larga escala o processo de migração de seus antigos moradores, mantendo, assim, costumes e características de décadas atrás. De outro, o Cambuí, região nobre da cidade que, enquanto alvo de especulação imobiliária, “expulsou” antigos moradores que permutaram casarões centenários por apartamentos ou salas comerciais em edifícios ou trocaram a agitação do bairro pela tranqüilidade e segurança oferecidas pelos diversos condomínios horizontais localizados nos arredores de Campinas.2

Sempre que observo esta coleção de fotografias, noto que um conjunto de cinco imagens (apresentado ao longo deste trabalho), por alguma razão, me convida a uma observação mais atenta. Numa matemática simples, elas representam apenas dois por cento da coleção, mas as considero muito significativas a partir das informações nelas contidas, algumas de modo explícito, outras que me levam a refletir sobre aquilo que não está estampado sobre o papel, mas que pode ser observado quando se procura fazer uma leitura verticalizada do presente objeto de estudo. Segundo o antropólogo visual Etienne Samain, em palestra promovida pelo Instituto Itaú Cultural, em Campinas,3 a fotografia pode ser observada sob duas formas: na horizontal ou na vertical. Ele compara a leitura horizontal ao ato de assistir a um filme em que as imagens “passam”. Na observação horizontal, é como se estivéssemos olhando superficialmente as imagens em uma exposição fotográfica. Fotos que não nos sensibilizam “passam” rapidamente diante de nossos olhos, nos tornando “viajantes e navegadores.”4 Algumas fotos, entretanto, nos convidam a uma leitura vertical.5 Podem nos deixar inertes, provocando um olhar mais atento, de cima para baixo, como se penetrássemos em suas camadas, nos tornando “analistas e arqueólogos.”6 A leitura vertical não é fácil de ser feita – requer paciência, persistência. Ou, como prefere Vilém Flusser, os planos definem o deciframento de imagens. “Quem quiser `aprofundar´ o significado e restituir as dimensões abstraídas, deve permitir à sua vista vaguear pela superfície da imagem. Tal vaguear pela superfície é chamado de scanning”.7 Significa que não enxergamos as coisas ou captamos as informações numa primeira observação. Quanto mais observamos, mais nos revela a fotografia. O olhar torna-se mais agudo, mais apurado, o que permite desenvolver uma teoria sobre essa imagem.

As cinco imagens que me convidaram ao mergulho em suas camadas retratam aspectos do cotidiano da Vila Industrial. Para organizar essa análise, divido as fotografias em cinco categorias e as rotulo como “Foto Negociada” (imagem 1), “Foto Consentida” (imagem 2), “Foto Não-consentida” (imagem 3), “Foto Predatória” (imagem 4) e “Foto Denúncia” (imagem 5), cujas leituras serão apresentadas no decorrer deste artigo. As cinco imagens que “mexem” comigo não são necessariamente as que “tocam” outro observador. Considerando a ambigüidade do sentido da foto, cada pessoa a vê sob diferentes ângulos. Assim, torna-se lugar-comum afirmar que tão subjetiva quanto a produção das imagens é a forma como procuro enxergar categorias ou rotular essas imagens. Subjetivo porque esse rótulo não se configura apenas enquanto observo o produto final, mas também a partir de minhas percepções e sensações do momento do registro fotográfico.

As imagens não são exatamente o que se vê, o que se pensa que é real – são tão polissêmicas quanto as palavras. Elas têm, sim, “significados evidentes, perceptíveis a um primeiro olhar, que lhe conferem uma comunicação instantânea, imediata.”8 Todavia, o que procuro é ir além dessa comunicação instantânea e do imediatismo da fotografia. Pretendo analisar o significado dessas imagens no contexto social em que foram produzidas, o condicionamento social que as determinou e assim ampliar a gama de informações que elas podem proporcionar e as interpretações que podem permitir. Almejo tornar visível o invisível.

Na busca desses elementos torna-se de vital importância nesse processo minha participação como agente responsável pela produção das fotografias. É a observação do presente (análise da fotografia) que remete a um passado não muito distante (o ato do registro fotográfico) que permite reconstituir na memória os instantes que antecederam à imortalização daquele momento. O relato do fotógrafo pode elevar o status da imagem ao patamar de documento histórico – ocorrência pouco comum quando da análise de fotos antigas, quase sempre desprovidas de depoimentos verbais do fotógrafo, dos retratados, de descendentes ou de colecionadores – portanto, descontextualizadas do momento em que foram realizadas.

Ao observar o encontro entre o fotógrafo e o fotografado dentro do contexto sociocultural e urbano da Vila Industrial, faz-se necessário reconstruir a relação entre os dois elementos na visão do ensaísta Roland Barthes. Segundo ele, ao se analisar uma foto, três aspectos devem ser considerados: o “operator” (fotógrafo), o “spectator” (espectador) e o “spectrum” (fotografado).9 Assim, ao sair captando imagens, levo em consideração dois aspectos:

 quanto à minha postura: devo ser percebido pelo fotografado e, assim, dar-lhe a oportunidade de reagir à minha presença?

 quanto à reação das pessoas que observarão a imagem: toda fotografia é feita para ser observada.

Susan Sontag afirma que “embora a máquina fotográfica seja um posto de observação, o ato de fotografar significa mais do que mera observação passiva.”10 Como se pode observar, o desempenho do fotógrafo como agente que promove recortes na história é mais importante do que a qualidade ou os recursos do equipamento fotográfico. No ato do registro fotográfico o foco está sempre no olho do fotógrafo e não na reprodução final (qualquer fotografia, mesmo desfocada, foi dotada de foco inicial, ou seja, do olho do fotógrafo). Essa afirmação, no entanto, não abre mão da qualidade técnica mínima da fotografia, proporcionando condições para uma observação mais detalhada.

Definindo o enquadramento supostamente ideal, revelo a constante preocupação de incluir no foco o elemento humano. Sendo assim, acabo por invadir a privacidade do fotografado e, sem premeditar qualquer ato, acabo imprimindo ao instante registrado certa dose de agressividade. Essa agressividade é imposta pela simples presença da câmara. Afinal, posso capturá-lo em situações ou ângulos em que jamais possa se enxergar. Aproprio-me desse momento, embora pertença somente a ele. Esse ato indevido de apropriação assusta-o. Afinal, ele – ou o momento dele – passa a pertencer a um desconhecido, no caso, o fotógrafo.



Interpretando as imagens

Percorrendo praças, estação de trem, calçadas e becos, desnudo o movimento urbano e, algumas vezes, documento o ócio, o ritual familiar, as mazelas da sociedade. Enquanto fotografo, elimino as fronteiras da inibição e intervenho.. Afinal, a simples presença da câmara fotográfica constitui uma intervenção. Documentar o instante é intervir. Entretanto, não compete ao fotógrafo criar um fato ou modificar uma situação – o que desvirtualizaria o assunto e abriria mão dos princípios que norteiam o presente trabalho.



As fotos não podem ser trabalhadas, analisadas como um todo. Devem ser classificadas a partir dos momentos por elas revelados. Assim, procuro interpretar a primeira das cinco imagens por mim selecionadas. Chamo de “Foto Negociada” a que mostra um casal de noivos numa praça pública (imagem 1). Procuro analisá-la sem perder de vista que, no ritual de registros de família, a fotografia de casamento, quase sempre apresentada em álbuns ou num porta-retrato disposto sobre uma mesa ou estante, é o momento de esplendor e glorificação das pessoas estampadas na imagem.

Imagem 1 – Foto Negociada






Descrevendo a imagem: um casal de noivos simula um beijo apaixonado para um fotógrafo na Praça do Teatro Castro Mendes. Uma palmeira e um coreto “ilustram” o pano de fundo. Toda a cena é refletida num espelho d`água a partir do posicionamento estratégico do fotógrafo. À direita da imagem, outro noivo – um dos cinco que se revezavam nos cenários da praça naquela tarde – aguarda a parceira que posa sozinha para outro fotógrafo. Mais ao fundo, na calçada ao pé do coreto, crianças bastante familiarizadas com essas cenas – afinal, isso se repete semanalmente –, andam de bicicleta, circulando entre noivos e fotógrafos.

Essa iniciativa dos noivos me causou inquietação. O que impulsiona o casal, ao deixar o local da cerimônia, a realizar uma seqüência de fotos em praça pública? O que para algumas pessoas é motivo de vergonha, para esses fotografados é motivo não só de alegria, como também de orgulho. O comportamento, na verdade, revela uma prova de relação de identidade e de pertencimento entre o bairro e a classe operária. O casal, e tampouco o fotógrafo, suponho, não se dão conta disso. Os noivos são estimulados pelo profissional que garante que o álbum ficará mais bonito e “diferente/criativo” se forem incluídas imagens que fogem do lugar-comum (diante de altar, ao lado dos padrinhos e de familiares ou colocando as alianças). “O exame de posições e planos das fotos põem à mostra a interdependência entre fotógrafo, fotografados e as condições técnicas da fotografia – aspecto habitualmente ignorado nos estudos que têm por objeto a imagem fotográfica por si mesma.”11 É a foto “negociada”, em que o casal quer ser fotografado – portanto, está pagando para isso – e acata todas as sugestões (uma espécie de ordem) do fotógrafo que idealiza a composição perfeita entre o homem e a natureza, apoiada no domínio da técnica que permite o equilíbrio de luz, cor, contraste, brilho e reflexo – a imagem refletida no espelho d’água é a determinante para a criação do cenário. Trata-se da reprodução de um fato a partir da construção de uma cena.

A foto “negociada”, mais do que todas as outras, é produzida para ser observada. E essa observação pode levar a diferentes interpretações a partir da forma como ela é apresentada, devendo considerar, por exemplo, o suporte que constituirá o posto de observação. Fotos de casamento, prática muito difundida, geográfica e socialmente, não raro, são apresentadas em álbuns, simples ou sofisticados, mas que têm a função de reescrever nas páginas do tempo a memória que será preservada por um membro da família, o guardião de imagens. Ao procurar transportar a imagem que tenho em mãos para uma das páginas do álbum de casamento, ponho-me na posição do spectator de Barthes que está folheando a coleção, e também na posição do fotografado, o spectrum, que está com um olho na foto e o outro no observador. Para ambos, conforme assinala Miriam Moreira Leite, “a fotografia é utilizada para reforçar a integração do grupo familiar, reafirmar o sentimento que este tinha de si e de sua unidade. Tanto o ato de tirar retratos como o de contemplá-los assumem o valor de um ritual de culto doméstico em que a família pode ser vista, ao mesmo tempo, como sujeito e objeto”12, e este ritual como fator constituidor do próprio grupo.

Há décadas, a cena composta de noivos, pajens e damas-de-honra desfilando pelas calçadas da Praça do Teatro Castro Mendes se repete, sempre nas tardes de sábado. É uma espécie de “rolo compressor” em que o fotógrafo que está “montando” a cena deve agir rápido, porque atrás tem outro fotógrafo e seus “noivos” para a composição do mesmo cenário para a foto “diferente / criativa”. A tarde vai e a noite avança impiedosamente, o que compromete as condições de luz para a composição da imagem idealizada. Nesse exercício de briga contra o relógio, o fotógrafo deve coordenar as ações dos noivos e de seus acompanhantes com um olho no visor da câmara e outro no movimento das crianças que circulam com bicicletas atrapalhando sua concentração e a dos fotografados. Conforme assinala Leite, “a semelhança e a regularidade de retratos de família feitos em lugares e épocas diversos revelam que eles se impuseram como forma estereotipada tanto nos temas de sua predileção como no ritmo da prática, na estética implícita, no significado que lhes é atribuído e na satisfação psicológica que propiciam”13. É a negociação explícita entre o fotógrafo e os noivos. Enquanto o profissional está vendendo um produto, fazendo um negócio, os contratantes, no caso os noivos, estão em busca de uma satisfação social e psicológica. Mais: os noivos vislumbram naquele instante congelado uma forma de proteção contra o tempo (as pessoas envelhecem, se separam, morrem...mas a imagem permanece), de comunicação com os outros (a foto, insisto, é produzida para ser vista), de expressão de sentimento (“veja como estávamos felizes”) e de prestígio social (disponibilização de recursos materiais para criar o ritual do casamento e para que um profissional registrasse todas as etapas daquele fato social). É a foto negociada revelando papéis sociais, marcas de posição social nos cenários que lhe são compatíveis.

A segunda e a terceira imagens, as quais rotulo como “Foto Consentida” (imagem 2) e “Foto Não-consentida” (imagem 3), por terem como foco pessoas idosas (somente nesse aspecto se assemelham: enquanto um “fugiu” do registro o outro fez “pose” para o fotógrafo), para melhor compreensão desta proposta, devem ser analisadas conjuntamente.


Imagem 2 – Foto Não- consentida