O patriarcado e a Situação das Mulheres



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O Patriarcado e a Situação das Mulheres
Silvia Camurça

De uma maneira ou de outra cada uma de nós, mulheres, enfrenta muitos problemas ao longo de nossas vidas. Alguns são problemas pessoais, outros são problemas que, embora sejam vividos individualmente, são, na verdade, problemas coletivos, vividos por muitas pessoas. Grande parte dos problemas coletivos vividos pelas mulheres são resultado da injustiça, da desigualdade social, das relações de dominação, das relações de exploração e, muito importante no caso de nós mulheres, da opressão. A opressão explica aquele sentimento que nos faz sentir menor que os outros.


Faz tempo que nós, as mulheres, compreendemos que os problemas que nos são comuns são causados pela dominação, a exploração e a opressão a que somos submetidas. Estes problemas de uma maneira ou de outra são enfrentados pela grande maioria das mulheres. Pensando e debatendo para conhecer estes problemas foi que o feminismo compreendeu a situação das mulheres e o sistema que estrutura e sustenta esta dominaçâo, o PATRIARCADO.
A palavra Patriarcado teve vários significados ao longo do tempo. Foi criada no século passado para denominar certos tipos de sistemas de poder. Patriarcado foi e é usado para denominar o regime de organização de uma família onde o pai tem todo o poder sobre todas as pessoas da família: mulher, filhos, parentes e outros moradores do grupo doméstico. A família patriarcal não é democrática, somente o pai tem a lei, o poder e a liberdade, os outros somente têm deveres e obrigações para com o pai.
Patriarcado foi e é adotado também para denominar o sistema de poder onde os donos de grandes extensões de terras (latifundiários, usineiros, coronéis) que dominam tudo e todos que vivem sobre suas terras: os outros homens, as mulheres, as famílias, as crianças, os animais, tudo o que se produz e decidem sobre tudo o que se faz ou é proibido fazer em suas terras.
No pensamento feminista moderno, Patriarcado é entendido como o sistema social de dominação sobre as mulheres. O sistema patriarcal estruturou-se ao longo do tempo pela dominação dos homens sobre as mulheres nos grupos domésticos e nas comundades e hoje organiza a dinâmica das relações de gênero e os instrumentos de dominação que atuam em toda a sociedade. Esta dinâmica se faz através das leis e costumes, da economia, das formas de organização social e de toda as dimensões da vida política e cultural.
No sistema patriarcal os homens têm maior poder que as mulheres, os homens ocupam os principais postos de comando e decisão das instituições e organizações nas diferentes dimensões da vida política, econômica e social e, além disto, tudo que é associado ao masculino adquire mais valor do que aquilo que é associado ao feminino. Por isto todos os homens beneficiam-se deste sistema, mesmo que individualmente haja quem evite ou tente não explorar, não oprimir e nem dominar as mulheres que lhe são próximas.
Sobre o Patriarcado é importante dizer ainda que este é um dos mais antigos sistemas de dominação conhecido. Sua permanência no tempo explica-se pela capacidade de associar-se com outras formas de dominação. Nós compreendemos que hoje, no Brasil, vivemos sob formas de dominação que são patriarcais, capitalistas e racistas.


  1. Instrumentos de dominação

No patriarcado há quatro principais instrumentos de dominação das mulheres. Vejamos cada um deles em separado, embora saibamos que na prática atuam de forma integrada.


Interdição à participação política das mulheres
Durante muito tempo as mulheres não puderam votar, nem ser candidatas a nada: nem a vereadora, nem a prefeita, muito menos senadora. Durante muito tempo as mulheres rurais não puderam ser sindicalizadas, tiveram de lutar muito para conseguir este direito. As índias não podiam ser caciques e nem curandeiras. A política e os espaços de poder nas comunidades, nos partidos e nos movimentos foi, por muito tempo, um lugar reservado pelos homens para os homens e cujo acesso era controlado pelos homens.
No patriarcado o único poder permitido às mulheres é o poder no espaço doméstico e, mesmo assim, somente quando o chefe da família não estiver em casa. A participação políica e o poder de decidir os rumos da comunidade, do município e do país, foi um direito negado, proibido para nós as mulheres. Esta situação só começa a mudar pela luta feminista. Mas ainda hoje, quando o direito a participação é reconhecido para as mulheres, ele é negado na prática pelos muitos obstáculos que estão colocados para nós mulheres, ou pelo menos para a grande maioria de nós.
Nos sistemas de dominação, o controle dos espaços de poder são instrumentos de exclusão dos grupos dominados que tornam-se por isto minorias políticas. É isto que o patriarcado faz com as mulheres, sendo metade da população, pela dominação tornamo-nos minoria política, sem poder para decidir sobre as mudanças, as regras e leis que regem nossas vidas. Em toda parte, os sistemas políticos segue ainda funcionando de forma que o poder político é exercido principalmente pelas pessoas dos grupos e classes dominantes. No Brasil o poder está com os homens, as pessoas brancas e os grupos proprietários com maior poder econômico.
Organização e manutenção da divisão do trabalho
Sabemos que homens e mulheres da classe trabalhadora são explorados, pois precisam trabalhar para outros como forma de garantir os meios para sua sobrevivência, trabalhar 'alugado' como usa-se dizer. Esta é uma forma de divisão do trabalho entre a classe de empregadores, proprietários dos meios de produção (terras, empresas), e a classe de não-proprietários, pessoas que não possuem nada ou possuem muito pouco além de sua força e capacidade de trabalhar. A isso chamamos divisão social do trabalho.
No caso das mulheres estas relações de exploração no mundo do trabalho são agravadas pela imposição das tarefas de cuidados e trabalhos domésticos como responsabilidades próprias e exclusivas das mulheres, eximindo os homens. Na teoria feminista um conceito foi criado para denominar esta situação: divisão sexual do trabalho. A divisão sexual do trabalho entre homens e mulheres é um instrumento de dominação e de exploração das mulheres.
É um instrumento de dominação porque quando as mulheres fazem apenas o trabalho doméstico, para sua própria família, perdem autonomia econômica, tornam-se dependentes, portanto, devedoras e subordinadas àqueles que garantem as condições de sua sobrevivência, em geral, homens, sejam maridos, filhos, cunhados ou genros.
É um instrumento de exploração porque quando as mulheres decidem conquistar autonomia econômica são submetidas à dupla jornada de trabalho, ou seja, permanecem obrigadas à fazer uma jornada de trabalho para a família e passam a ter outra jornada de trabalho, realizada para ganhar dinheiro. Além disto, há o sexismo no mercado de trabalho: os patrões pagam menores salários às mulheres, colocam-nas nos postos mais precários e elas são a maioria nos trabalhos informais.
Muitos mecanismos, legais, materiais e simbólicos, atuam para manter esta divisão de trabalho e a dependência econômica das mulheres: negar as mulheres o direito a posse da terra; negar às mulheres direito a herança; discriminar as mulheres que trabalham fora de casa como mulheres que abandonam filhos, casa e marido; identificar o trabalho doméstico como coisa da natureza da mulher, como uma atividade que não cansa, ao contrário somente traz prazer; pagar salário mais baixo às mulheres; em tempos de crise demitir primeiro as mulheres.
A divisão sexual do trabalho é tão antiga que tornou-se ‘natural’. A dupla jornada de trabalho das mulheres não é percebida como um problema social e nào torna-se uma questão a ser resolvida com prioridade pelas políticas públicas. O desemprego das mulheres também não é facilmente percebido como problema social e, além disto, o sexismo praticado pelos empregadores nào é visto como forma de exploração, fonte de lucro, é tratado apenas como mais uma discriminaçào. Sabe-se, entretanto, que grande parte dos lucros das transacionais na América Latina são auferidos nas costas das mulheres que, obrigadas pelas condiçoes sociais em que vivemos, submetem-se ao trabalho informal, com mais baixos salários e por longas jornadas, às vezes 10 a 14 horas por dia.
A divisão do trabalho no patriarcado capitalista e racista beneficia aos homens, brancos e proprietários. Por conta da divisão sexual do trabalho, nós mulheres somos quem mais trabalha e quem menos tem direitos. Começamos a trabalhar muito cedo e nunca paramos de trabalhar, mesmo quando já estamos bem idosas. Às vezes deixamos de trabalhar ‘fora’ por conta de demandas dentro de casa. Na maioria das vezes fazemos dupla jornada, e sofremos mais com stress, esgotamento e cansaço físico. Ficamos sem tempo, sem condições e sem disposição para outras ativdades: diversão, estudo e participação política.

Expropriação do corpo das mulheres
Nós mulheres somos impedidas de ter controle sobre nosso corpo de várias maneiras. Havia, e ainda há uma crença de que o nosso corpo é um lugar dos homens, um corpo para os homens fazerem seus filhos e terem seu prazer. No patriarcado a norma é a heterosexualidade sobre controle e para usufruto dos homens.
Na norma heteroxesual ficou gravado a regra de que as mulheres devem ter relação sexual com os homens mesmo sem desejar, ter quantos filhos os homens desejarem, pois vivemos para os homens e fazemos sexo para ter filhos. Por isto somos punidas quando fazemos aborto. Mas nós mulheres sempre fomos contra isto. Brigamos pelo direito de ter relação quando queremos e dizer não quando não queremos. E sabemos muitas maneiras de interromper a gravidez, mesmo sendo perseguidas e acusadas por isto.
Hoje em dia, novas formas de expropriação de nosso corpo surgiram. São exemplos a medicina estética, que manipula nosso corpo e lucra com isto (plásticas, silicones, produtos de beleza) e a medicina da reprodução, que desenvolve tecnologias de reprodução biológica (inseminação artificial, por exemplo) e contraceptivos hormonais, muito dos quais prejudiciais ao funcionamento do nosso organismo (como os hormonais na forma de injeções). O corpo feminino é medicalizado e os laboratórios farmacêuticos também lucram muito com isso tudo, assim como os institutos de pesquisas a ele associados.

Junto com estas novas formas de expropriação de nosso corpo, antigas formas permanecem e se agravaram. A prostituição de mulheres é hoje organizada numa rede internacional de tráfico e exploração, que explora mulheres moradoras de regiões empobrecidas. Cresce a exibição do corpo das mulheres como mecanismo para atrair lucros (nos shows, revistas, propagandas e nas músicas que exploram e deploram a sexualidade feminina).


A expropriação do corpo das mulheres se faz assim de diversas formas: pelo controle de nossa sexualidade, pela negação do direito a auto-determinação reprodutiva, pela imposição da maternidade obrigatória quando a gravidez não é desejo da mulher, pela mercantilização da imagem das mulheres, pela exploração sexual das mulheres.
Esta expropriação se faz pela lei, pelos costumes, pela instituião do casamento, pela exploração financeira e material das mulheres, pela Igreja, pelas empresas. Nosso corpo é manipulado, violentado, nosso desejo negado, nossa decisão impedida. Por estes mecanismos somos dominadas, oprimidas e exploradas.

Uso da violência contra as mulheres
A violência contra as mulheres é uma prática tão antiga quanto o patriarcado. É um instrumento de dominação dos homens. Pela violência e o terror os homens impõe seu domínio quando nenhum outro mecanismo funciona ou para garantir que funcionem. Há violência doméstica e familiar. Violência sexual, dentro e fora de casa, dentro e fora da família. Há violência institucional, praticada pelas instituições do Estado (sistema carcerário, escolas, hospitais, exército) e também por agentes econômicos, legais e ilegais, muitas vezes atuando de forma associada.

Os homens se sentem donos das mulheres de suas famílias, e muitas vezes batem, maltratam, perseguem, humilham e aterrorizam as mulheres quando elas não fazem o que eles querem ou do jeito que eles querem. Há violência dos irmãos sobre as irmâs, do pai sobre as filhas, às vezes combinada com violência sexual. E há ainda a violência psicológica, que machuca tanto e tão profundamente como as outras formas de violência. São as humilhações, as piadas, os xigamentos, a desvalorização, a ridicularização das mulheres, sempre que fazemos alguma coisa diferente do que acham que uma mulher deve fazer.


A violência contra as mulheres é algo tão comum, que parece ser apenas um problema de caráter dos homens violentos. Mas, no patriarcado, a violência é instrumento do sistema, e não apenas uma questão da relação de poder pessoal. Como os outros mecanismos aqui apresentados, o uso da violência é parte estruturadora e mantenedora de todo o sistema. Que sendo sistema, funciona quando todas as partes integram-se e se reforçam.
A violência, física ou psicológica, material e simbólica, é um instrumento central para a opressão das mulheres. A violência física porque pune e ameaça. E a violêmcia simbólica porque planta dentro de nós o medo, a inferioridade, a submissão, a obediência, transformando cada mulher em opressora de si mesma e das outras mulheres.



  1. Auto-organização das mulheres

Só com organização enfrentamos o patriarcado. Está é a conclusão que mais cedo ou mais tarde muitas mulheres chegam, depois de refletir e discutir umas com as outras sobre as formas de dominação que vivenciamos.


Em decorrência desta certeza nasceu o feminismo, o movimento das mulheres, feito por mulheres, dirigido por mulheres, organizado por mulheres contra os mecanismos de dominação do patriarcado. O movimento que defende a autonomia das mulheres e a auto-organização das mulheres.
A auto-organização das mulheres significa organizar-se a partir de seus próprios interesses e sob o comando das próprias mulheres. Este tipo de organização é fundamental para a tomada de consciência sobre a experiência comum de ser mulher, para fortalecer a luta das mulheres por autonomia e liberdade e para acolher novas companheiras que chegam ao movimento.
É no processo de auto-organização, nos pequenos grupos e coletivos, que compreendemos a subordinação e nos engajamos na luta feminista. A reflexão sobre a experiência comum de ser mulher levada nos espaços de auto-organziação das mulheres implica em conversar sobre o que acontece ‘comigo’ para entender o que acontece ‘com a gente’, para então desenvolver o sentido de ‘nós mulheres’ conscientes de nossa força de oprimidas (C. Delphy).
A autonomia das mulheres é outra face da auto-organziação. A luta coletiva das mulheres não se faz sem esta outra luta, a luta de cada mulher individualmente por sua própria autonomia. No processo de auto-organização, dada a singularidade e profundidade da forma de opressão que vivemos, nós mulheres compreendemos o quanto é necessário articular o coletivo, a auto-organziação das mulheres, e o ‘florescer’ individual, o tornar-se autônoma. No feminismo aprendemos que é preciso lutar para transformar o mundo enquanto transformamos a nós mesmas.






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