O mundo de Sofia 14 Dois círculos culturais



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O mundo de Sofia
De Jostein Gaarder
Cia. das Letras, São Paulo, 1998
Tradução de João Azenha Jr.

Capítulo 14 (Excerto)
Dois círculos culturais

(…)


Vimos como os filósofos do helenismo reinterpretaram as idéias dos antigos filósofos gregos. Vimos, também, que alguns quiseram até transformar esses filósofos em verdadeiros fundadores de religiões. Por pouco Plotino não chegou a declarar Platão o redentor da humanidade.

Mas, como sabemos, bem no meio deste período de que estamos tratando nasceu outro redentor. E desta vez fora do círculo cultural greco-romano. Estou me referindo a Jesus de Nazaré. Neste capítulo, veremos como o cristianismo pouco a pouco foi se infiltrando no mundo greco-romano (…).

Jesus era judeu e os judeus pertencem ao círculo cultural semita. Os gregos e os romanos pertencem ao círculo cultural indo-europeu. Podemos constatar, então, que a civilização européia tem duas raízes. Antes de estudarmos mais em detalhe como o cristianismo aos poucos foi se mesclando com a cultura greco-romana, vamos dar uma olhada mais de perto nessas duas raízes.

OS INDO-EUROPEUS

(Páginas 167-169.)

Chamamos de indo-europeus todos os países e culturas nos quais são faladas as línguas indo-européias. A elas pertencem todas as línguas européias, à exceção das línguas fino-úgricas (o lapão, o finlandês, o estoniano e o húngaro), além da língua falada nos Países Bascos. A maioria das línguas indianas e iranianas também pertence à mesma família das línguas indo-européias.

Os indo-europeus primitivos viveram há mais ou menos quatro mil anos, provavelmente nas proximidades do mar Negro e do mar Cáspio. Dali, saíram em grandes levas para o sudeste – rumo ao Irã e à Índia -; para o sudoeste – Grécia, Itália e Espanha -; para o oeste, atravessando a Europa central até a Inglaterra e a França; para noroeste, rumo à Escandinávia; e para o norte, rumo ao Leste Europeu e à Rússia. Por toda a parte, os indo-europeus mesclaram-se às culturas pré-indo-européias, sendo que a religião e a língua dos indo-europeus foi o elemento que acabou predominando nesta fusão.

Tanto os antigos livros sagrados da Índia, os Vedas, quanto os escritos da filosofia grega e mesmo a mitologia de Snorre Sturlas-son foram escritas em línguas de uma mesma família. Mas não são apenas as línguas que se parecem. Às línguas aparentadas pertencem também pensamentos aparentados. Por esta razão é que em geral falamos de um círculo cultural indo-europeu.

A cultura dos indo-europeus era marcada sobretudo pela crença em muitos e diferentes deuses. Chamamos a isto de politeísmo. Em toda esta extensa área de influência indo-européia encontramos nomes de deuses e diferentes termos e expressões religiosos. Vou citar alguns exemplos:

Os antigos indianos adoravam o deus celestial Dyaus. Em grego este deus se chama Zeus; em latim, Júpiter (na verdade iov-pater, ou seja, “Pai Celestial”); e em norueguês antigo, Tyr. Os nomes Dyaus, Zeus, Iov e Tyr são, portanto, variantes da mesma palavra.

Talvez você saiba que os viquingues, no Norte da Europa, adoravam deuses que chamavam de asen. Em toda a área de influência indo-européia também encontramos uma palavra para designar “deuses”. Em sânscrito, os deuses se chamam asura; em iraniano, ahura. Outra palavra para deus em sânscrito é deva; em iraniano, daeva; em latim, deus; e em norueguês antigo, tivurr.

Também podemos constatar uma nítida afinidade entre alguns mitos em todo este círculo indo-europeu. Quando Snorre conta sobre os antigos deuses nórdicos, alguns mitos lembram mitos indianos que já haviam sido contados dois ou três mil anos antes. É claro que os mitos de Snorre são marcados pelo cenário natural nórdico, enquanto os indianos se desenvolvem sob o pano de fundo da natureza da Índia. Mas muitos desses mitos possuem um núcleo que aponta para uma origem comum. Um desses núcleos pode ser constatado de forma evidente nos mitos das poções da imortalidade e na luta dos deuses contra os monstros do caos.

Mas também nas formas de pensar podemos ver claras ligações entre as culturas indo-européias. Um ponto comum típico é o fato de elas conceberem o mundo como um imenso palco, no qual se desenrola o drama da luta incessante entre as forças do bem e do mal. Por esta razão, os indo-europeus sempre tentaram “predizer” o que iria acontecer com o mundo.

Podemos muito bem dizer que não é por acaso que a filosofia grega surgiu exatamente neste espaço cultural indo-europeu. As mitologias grega, indiana e nórdica apresentam princípios claros de um tipo de observação filosófica, ou “especulativa”, do mundo.

Os indo-europeus tentavam “entender” o desenrolar da história do mundo. Prova disto é que podemos encontrar em todo o espaço cultural indo-europeu uma palavra determinada que, em cada cultura, significa “compreensão” e “conhecimento”. Em sânscrito esta palavra é vidya, palavra idêntica à palavra grega ide, que – como você já sabe – foi de grande importância para a filosofia de Platão. Do latim conhecemos a palavra video, que para os romanos significava simplesmente “ver”. (Somente nos nossos dias é que o verbo “ver” foi quase equiparado ao ato de grudar os olhos na tela da televisão.) No inglês temos palavras como wise e wisdom (“sabedoria”); em alemão, Weise (“sábio”) e Wissen (“saber”, “conhecimento”). Em norueguês temos a palavra viten. A palavra norueguesa viten tem, portanto, a mesma raiz da palavra indiana vidya, da grega ide e da latina video.

De um modo muito geral, podemos dizer que a visão era o principal sentido para os indo-europeus. Entre os indianos e gregos, iranianos e germânicos, a literatura era marcada por grandes visões cósmicas. (E aqui aparece de novo a palavra “visão”, que vem do verbo latino video.) Além disso, eram comuns nas culturas indo-européias as representações dos deuses e das passagens descritas nos mitos em quadros e esculturas.

Por fim, os indo-europeus tinham uma visão cíclica da história. Isto significa que, para eles, a história se desenrolava “em círculos”, da mesma forma como temos a alternância das estações do ano. Não há, portanto, um verdadeiro começo para a história, assim como também não haverá um fim. O que encontramos freqüentemente são referências a mundos que surgem e desaparecem, numa alternância infinita entre nascimento e morte.

As duas grandes religiões orientais – o hinduísmo e o budismo – são de origem indo-européia. O mesmo vale para a filosofia grega. Por esta razão, podemos ver muitos e evidentes paralelos entre o hinduísmo e o budismo, de um lado, e a filosofia grega, de outro. Ainda hoje o hinduísmo e o budismo são fortemente marcados pela reflexão filosófica.

Não raro se enfatiza no hinduísmo e no budismo o fato de que o elemento divino está presente em tudo (panteísmo) e de que o homem pode chegar a uma unidade com Deus por meio do conhecimento religioso. (Você ainda se lembra de Plotino, Sofia?) Na maioria das vezes, a condição para isto é a meditação, ou um profundo mergulho dentro de si mesmo. No Oriente, portanto, a passividade e a vida reclusa são vistas como ideais religiosos. Também em solo grego muitas pessoas diziam que o homem tinha que viver uma vida ascética – quer dizer, em reclusão religiosa -, se quisesse obter a redenção de sua alma. Alguns componentes da vida nos conventos da Idade Média têm suas origens em tais concepções do mundo greco-romano.

Em muitas culturas indo-européias a crença na metempsicose, ou transmigração da alma, era muito importante. Por exemplo, no hinduísmo, o objetivo de cada devoto é o de um dia conseguir libertar sua alma desse processo de transmigração. E nós já sabemos que Platão também acreditava na transmigração da alma.

OS SEMITAS

(Páginas 170-172.)

Passemos agora aos semitas, Sofia. Vamos falar de um círculo cultural completamente diferente, com uma língua completamente diferente também. Os primeiros semitas são originários da península da Arábia, mas o círculo cultural semita também se expandiu para extensas e diferentes partes do mundo. Há mais de dois mil anos, os judeus vivem bem longe de sua pátria natal. Foi o cristianismo que levou a história e a religião semitas para mais longe de suas raízes, se bem que a cultura semita também foi transportada para todo o mundo pela expansão do Islã.

As três religiões ocidentais – o judaísmo, o cristianismo e o islamismo – têm um pano de fundo semita. O Alcorão, o livro sagrado do Islã, e o Antigo Testamento foram escritos em línguas semitas aparentadas. Uma das palavras do Antigo Testamento para “deus” tem, por isso, a mesma raiz lingüística de Allah (Alá), dos muçulmanos (a palavra allah significa pura e simplesmente “deus”).

No cristianismo o quadro se complica. É claro que também o cristianismo tem um pano de fundo semita, mas o Novo Testamento foi escrito em grego e quando a doutrina ou teologia cristã foi reformulada, ela foi marcada pelas línguas gregas e latinas e, com isto, também foi influenciada pela filosofia helenística.

Vimos que os indo-europeus acreditavam em muitos deuses. O que nos espanta no caso dos semitas é que desde muito cedo eles já acreditavam num único Deus. Chamamos isto de monoteísmo. No judaísmo, no cristianismo e no islamismo, o princípio fundamental é o de que existe apenas um Deus.

Outro traço comum semita é a sua visão linear da história. Queremos com isto dizer que a história é vista como uma linha: no passado, Deus criou o mundo e com isto começou a história. Um dia, porém, a história vai acabar e isto vai acontecer no dia do Juízo Final, quando Deus julgará os vivos e os mortos.

Um traço importante das três grandes religiões ocidentais é precisamente o papel da história. Acredita-se que Deus intervém na história, ou melhor, que a história existe para que Deus possa fazer valer sua vontade no mundo. Assim como um dia Ele conduziu Abraão à Terra Prometida, do mesmo modo irá conduzir a vida dos homens através da história até o Juízo Final. E então todo o mal será eliminado do mundo.

A forte ênfase na ação de Deus sobre a história teve como decorrência o fato de os semitas virem se ocupando da escritura da história há muitos milhares de anos. E são precisamente as raízes históricas que constituem o núcleo de seus escritos religiosos.

Ainda hoje a cidade de Jerusalém é um importante centro religioso para judeus, cristãos e muçulmanos. E isto também diz alguma coisa sobre o pano de fundo comum dessas três religiões. Em Jerusalém existem importantes sinagogas (judaicas), igrejas (cristãs) e mesquitas (muçulmanas). Por isso é tão trágico que justamente Jerusalém tenha se transformado num pomo de discórdia, em que pessoas se matam umas às outras aos milhares porque não conseguem entrar num acordo sobre quem deve ter o domínio da “cidade eterna”. Tomara que um dia a ONU consiga que Jerusalém se transforme num ponto de encontro das três religiões! (…)

Vimos que, para os indo-europeus, o mais importante dos sentidos era a visão. Igualmente interessante é saber que para o mundo semita a audição desempenhava um papel preponderante. Não é por acaso que a profissão de fé judaica começa com a frase: “Ouve, Israel!”. No Antigo Testamento lemos que as pessoas “ouviam” as palavras do Senhor e os profetas judeus gostavam de começar suas pregações com a fórmula “Assim falou Jeová” (Deus). Sobretudo, porém, os cultos religiosos judaicos, cristãos e muçulmanos são marcados pela leitura em voz alta das escrituras sagradas.

Eu também mencionei que os indo-europeus faziam quadros e esculturas de seus deuses. Para os semitas é igualmente característico o fato de eles respeitarem certa proibição pela representação pictórica. Isto significa que eles não podiam criar imagens ou esculturas de Deus e de tudo o que é sagrado. No Antigo Testamento está escrito que os homens não devem fabricar para si imagens de Deus. Esta norma é válida até hoje para o islamismo e o judaísmo. No Islã ainda impera uma aversão geral pela fotografia e pelas artes plásticas, pois as pessoas não devem querer competir com Deus na “criação” de alguma coisa.

Mas você deve estar pensando agora nas igrejas cristãs apinhadas de imagens de Deus e de Jesus. Você está certa, Sofia, e este é um exemplo de como o cristianismo foi influenciado pelo mundo greco-romano. (Na Igreja ortodoxa – quer dizer, na Grécia e na Rússia -, as imagens entalhadas, ou seja, esculturas e crucifixos com cenas de histórias da Bíblia, são proibidos até hoje.)

Contrariamente às grandes religiões orientais, as três religiões ocidentais enfatizam o abismo que existe entre Deus e sua criação. O objetivo não é redimir a alma do processo de transmigração, e sim a redenção dos pecados e da culpa. Além disso, a vida religiosa é mais marcada pela oração, pelo sermão e pela leitura da Bíblia do que pela meditação e pelo mergulho em si mesmo.



ISRAEL

(Páginas 172-174.)

Não estou querendo competir com o seu professor de religião, Sofia. Mas vamos examinar rapidamente o pano de fundo judeu do cristianismo.

Tudo começou com a criação do mundo por Deus. Como isto aconteceu você pode ler na primeira página da Bíblia. Na seqüência, o homem se rebelou contra Deus. E o castigo de Deus para isto foi a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. A partir desse momento, a morte passou a fazer parte do mundo.

A desobediência do homem a Deus atravessa toda a história contada na Bíblia. Se continuarmos folheando o Gênesis vamos encontrar referências ao dilúvio e à Arca de Noé. Então leremos que Deus fez um pacto com Abraão e seus descendentes. Este pacto – ou acordo – exigia que Abraão e todos os seus descendentes observassem rigorosamente os mandamentos de Deus. Mais tarde este pacto foi renovado, quando Moisés recebeu as Tábuas da Lei (A lei de Moisés!) no monte Sinai. Isto aconteceu por volta de 1200 a.C. Naquela época, os israelitas viviam havia muito tempo como escravos no Egito, mas com a ajuda de Deus todo o povo foi levado de volta a Israel.

Por volta de 1000 a.C. – muito tempo antes, portanto, de haver alguma coisa que se pudesse chamar de filosofia grega – ouvimos falar de três grandes reis em Israel. O primeiro foi Saul, que foi seguido por Davi, que, por sua vez, foi sucedido por Salomão. Agora, todos os israelitas estavam reunidos num mesmo reino e foi sobretudo sob o reinado de Davi que eles viveram um período de apogeu político, militar e cultural.

Quando os reis eram investidos no poder eram ungidos pelo povo. Por isso recebiam o título de Messias, que significa “aquele que foi ungido”. No contexto religioso, os reis eram vistos como mediadores entre Deus e o povo. Por isso é que os reis podiam ser chamados de “filhos de Deus”, e o país que governavam, de “reino de Deus”.

Mas o reino de Israel não tardou a enfraquecer e foi dividido em um reino ao norte (Israel) e outro ao sul (o reino de Judá). Em 722 a.C., o reino do norte foi devastado pelos assírios e perdeu completamente sua importância política e religiosa. Com o sul a coisa não foi muito melhor. O reino de Judá foi conquistado em 586 a.C. pelos babilônicos. O templo de Jerusalém foi destruído e uma grande parte do povo foi levada para a Babilônia. Este cativeiro babilônico só terminou em 539 a.C. Foi então que o povo pôde retornar a Jerusalém e reconstruir o enorme templo. Mas por todos os séculos que se seguiram até o nascimento de Cristo, início do nosso calendário, os judeus continuaram sob dominação estrangeira.

Os judeus se perguntavam por que o reino de Davi havia sido destruído e por que se abatia sobre o povo uma desgraça sobre outra. Afinal, Deus tinha prometido colocar sua mão protetora sobre Israel. Acontece que as pessoas também tinham prometido cumprir os mandamentos de Deus e isto acabou espalhando a crença de que Deus estaria castigando Israel por sua desobediência.

A partir de 750 a.C., aproximadamente, surgiram vários profetas que anunciavam o castigo de Deus a Israel, pois o povo não havia respeitado os mandamentos do Senhor. Eles diziam que um dia Deus viria julgar Israel. Chamamos tais profecias de “profecias do Juízo Final”.

Não tardaram a surgir outros profetas que anunciavam que Deus iria salvar uma parte do povo e enviar um “príncipe da paz” ou um rei da paz da casa de Davi. Este príncipe da paz iria restaurar o antigo reino de Davi e assegurar ao povo um futuro feliz.

“Este povo, que andava nas trevas, viu uma grande luz”, dizia o profeta Isaías. “Aos que habitavam na região da sombra da morte, nasceu-lhes o dia.” Chamamos estas profecias de “profecias da redenção”.

Resumindo: o povo de Israel vivia feliz sob o reinado de Davi. Quando a situação ficou difícil para os israelitas, alguns profetas começaram a anunciar a vinda de um profeta da casa de Davi. Este “Messias” ou “Filho de Deus” viria para “redimir” o povo, restituir a Israel sua grandeza e fundar um “Reino de Deus”.

JESUS

(Páginas 174-176.)

OK, Sofia. Suponho que você esteja conseguindo me acompanhar. As palavras-chaves neste contexto são “Messias”, “Filho de Deus”, “Redenção” e “Reino de Deus”. No início, tudo isto tinha um significado político. Mesmo na época de Jesus, muitos imaginavam o novo Messias como um líder político, militar e religioso do mesmo calibre do rei Davi. Quer dizer, o “redentor” era visto por todos como um libertador nacional, que teria vindo para pôr fim aos sofrimentos dos judeus sob a dominação dos romanos.

Mas outras vozes também se ergueram. Duzentos anos antes do nascimento de Jesus, outros profetas já haviam anunciado que o Messias prometido seria o redentor de todo o mundo. Ele não apenas libertaria os israelitas do jugo de outros povos, mas viria para redimir todos os homens do pecado, da culpa e também da morte. A esperança de uma redenção neste sentido da palavra há havia se espalhado por todo o mundo helenístico.

E então aparece Jesus. Ele não é o único que aparece como o Messias prometido; e, como muitos outros, também ele usa as expressões “Filho de Deus”, “Reino de Deus”, “Messias” e “Redenção”. Assim procedendo, Jesus alinha-se às antigas profecias. Ele vai para Jerusalém e se deixa aclamar pelas massas como o salvador do povo. Desta forma, ele retoma a antiga tradição dos reis, que eram entronizados através de um típico “ritual de acesso ao trono”. Jesus também se permite ser ungido pelo povo. “É chegada a hora”, disse ele. “O Reino de Deus está próximo.”

É muito importante gravar todas essas coisas. Mas o mais importante vem agora: o que diferenciava Jesus dos demais profetas que diziam ser o Messias era o fato de ele admitir publicamente que não era um comandante militar ou político. Sua tarefa era muito maior. Ele pregava a redenção e o perdão de Deus para todos os homens. E é por isso que ele podia caminhar por entre as pessoas e dizer: “Teus pecados estão perdoados”. Dizer abertamente essas coisas era algo jamais visto. Por esta razão não demorou muito tempo para que entre os escribas se levantassem protestos contra Jesus. Por fim, esses escribas também se puseram a trabalhar no processo de acusação e execução de Jesus.

Vou tentar ser mais exato: no tempo de Jesus, muitas pessoas esperavam por um Messias que restaurasse o Reino de Deus sob o rufar de tambores e o som de trombetas (quer dizer, a ferro e fogo). A expressão “Reino de Deus” está presente em todas as pregações de Jesus, só que num sentido muito mais abrangente. Jesus dizia que o Reino de Deus era o amor aos semelhantes, a compaixão pelos fracos e o perdão para todos os que tinham errado.

Vemos aqui uma dramática alteração no sentido de uma antiga expressão de cunho militar. As pessoas esperavam, portanto, por um general que proclamasse um Reino de Deus. E então aparece Jesus trajando uma túnica, usando sandálias, e diz que o Reino de Deus ou “a nova aliança” significa “Amar o teu próximo como a ti mesmo”. E mais ainda, Sofia. Jesus também disse que devemos amar nossos inimigos e quando eles nos esbofeteiam não devemos pagar-lhes na mesma moeda, mas oferecer-lhes a outra face. E que temos de perdoar; não sete vezes, mas sete vezes setenta.

Através dos atos de sua própria vida, Jesus também mostrou que não considerava indigno de si conversar com prostitutas, funcionários corruptos e inimigos políticos do povo. Mas ele vai mais além: ele diz que um perdulário que gastou todo o dinheiro que herdou, ou um funcionário do Estado que se apoderou de dinheiro público será visto por Deus como um homem reto e justo, bastando para isto que se voltem para Ele e Lhe peçam perdão. Tão generoso é Deus na sua misericórdia.

Mas ele vai mais além ainda, Sofia, e é preciso que você grave bem isto: Jesus disse que esses “pecadores” eram mais retos aos olhos de Deus – e, portanto, mereciam mais o seu perdão – do que os irrepreensíveis fariseus, orgulhosos de sua própria excelência.

Jesus enfatizava que nenhuma pessoa pode obter, ela mesma, a graça de Deus. Nós mesmos não podemos nos redimir (como acreditavam muitos gregos!). No Sermão da Montanha, quando Jesus estabelece seus rígidos princípios éticos, ele não o faz apenas porque quer mostrar a vontade de Deus. Ele também quer mostrar que nenhuma pessoa é reta perante os olhos de Deus. Isto é, a graça de Deus não tem limites, mas somos nós que temos de nos voltar a Ele e Lhe suplicar o perdão através de orações.

Outras explicações sobre a pessoa de Jesus e seus ensinamentos eu deixo para o seu professor de religião. Com isto ele terá bastante trabalho. Espero que ele possa mostrar a vocês que Jesus foi um ser humano extraordinário. Ele soube usar de forma genial a língua de seu tempo e deu a conceitos e palavras-chaves antigos um sentido novo, extremamente ampliado. Não é de admirar, portanto, que ele tenha acabado na cruz. Sua mensagem radical sobre a redenção dos homens ameaçava tantos interesses e posições de poder que ele tinha de ser eliminado.

Quando falamos sobre Sócrates, vimos o quanto pode ser perigoso apelar à razão das pessoas. No caso de Jesus, vemos como pode ser perigoso exigir dos outros um amor assim tão incondicional pelo próximo e uma capacidade de perdoar igualmente incondicional. Ainda hoje vemos como nações poderosas ameaçam desmoronar diante de exigências simples tais como paz, amor, comida para os pobres e anistia para os inimigos do Estado.

Você ainda deve estar lembrada de como Platão ficou furioso com o fato de o homem mais justo de Atenas ter tido de pagar sua conduta com a própria vida. Para o cristianismo, Jesus foi o único homem justo que viveu. Não obstante, foi condenado à morte. Para o cristianismo, portanto, ele morreu pelos homens. E “sofreu no lugar dos homens”, como se costuma dizer. Jesus foi o “servo que sofreu” e que tomou para si toda a culpa dos homens, a fim de nos reconciliar com Deus e nos salvar de Seu castigo.



PAULO

(Páginas 176-179.)

Alguns dias depois da crucificação e do enterro de Jesus surgiram boatos de que ele teria ressuscitado dos mortos. Com isto Jesus dava provas de que era mais do que apenas um homem. Ele mostrava que era realmente o “Filho de Deus”.

Podemos dizer que a igreja cristã começa nesta manhã de Páscoa com os boatos sobre a ressurreição de Jesus. O próprio Paulo deixa isto claro: “Pois se Cristo não ressuscitou, então todo nosso sermão é vão; é vã toda a vossa crença”.

A partir de então, todas as pessoas podiam ter esperança na “ressurreição da carne”. Para nos redimir, Jesus tinha sido crucificado. E agora, cara Sofia, é preciso que você atente bem para o fato de que em solo judeu não se falava em “imortalidade da alma”, nem em qualquer forma de “transmigração”. Estes eram conceitos gregos e, portanto, indo-europeus. Mas o cristianismo nos ensina que não há nada no homem – nenhuma “alma”, por exemplo – que seja imortal em si mesmo. A Igreja acredita na ressurreição da carne e na vida eterna, mas o fato de sermos salvos da morte e da condenação é um milagre de Deus. Isto não aconteceria, portanto, graças aos nossos próprios méritos, nem graças a uma característica natural que nos fosse inata.

Os primeiros cristãos começaram então a espalhar a “boa-nova” da redenção pela fé em Jesus Cristo. Através dessa redenção, o Reino de Deus estava próximo. (A palavra “Cristo” é uma tradução para o grego da palavra judaica “Messias” e também significa “aquele que foi ungido”.)

Poucos anos depois da morte de Jesus, o fariseu Paulo se converteu ao cristianismo. Em suas muitas viagens como missionário através de todo o mundo greco-romano, ele transformou o cristianismo numa religião universal. Sabemos disso por meio dos Atos dos Apóstolos. Os sermões de Paulo e seus ensinamentos aos cristãos espalharam-se também por meio das muitas epístolas que ele enviava às primeiras comunidades cristãs.

E então Paulo viajou para Atenas. Dizem que, passeando pelo mercado da capital da filosofia, ele ficou indignado “por encontrar uma cidade tão afeita à idolatria”. Visitou a sinagoga judaica em Atenas e conversou com os filósofos epicureus e estóicos, que o levaram até o Areópago. Ali chegando, disseram: “Podemos conhecer esta nova doutrina que o senhor prega? O senhor nos traz algo de novo aos ouvidos e por isso gostaríamos muito de saber do que se trata”.

Dá para imaginar, Sofia? Um judeu aparece na praça do mercado de Atenas e fala de um redentor que foi crucificado e que mais tarde ressuscitou dos mortos. Já na visita de Paulo a Atenas podemos pressentir o choque entre a filosofia grega e a doutrina da redenção cristã. Ao que tudo indica, porém, Paulo conseguiu dialogar com os atenienses. Do Areópago, em meio aos soberbos templos da Acrópole, ele fez o seguinte discurso: “Homens atenienses, em tudo vos vejo muito supersticiosos. Pois, indo eu passando e vendo os vossos monumentos sagrados, encontrei também um altar, sobre o qual estava escrito: ‘Ao Deus desconhecido’. Aquele, pois, que vós adorais sem o conhecer, esse eu vos anuncio. Deus, que fez o mundo e tudo o que nele há, sendo ele o Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos pelos homens, nem é servido pelas mãos dos homens, como se necessitasse de alguma coisa, ele que dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas. E de um só fez todo o gênero humano, para que habitasse sobre toda a face da Terra, fixando aos povos a ordem dos tempos e os limites da sua habitação, para que busquem a Deus e o encontrem, embora ele não esteja longe de cada um de nós, porque nele vivemos, nos movemos e existimos, como até o disseram alguns dos vossos poetas: somos verdadeiramente da sua linhagem. Sendo vós, pois, linhagem de Deus, não devemos pensar que a Divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra lavrada por arte e indústria do homem. Porém Deus, não levando em conta os tempos desta ignorância, anuncia agora aos homens que todos em todo o lugar se arrependam, porque fixou um dia em que há de julgar o mundo conforme a justiça, por meio de um homem que destinou para juiz, do que dá certeza a todos, ressuscitando-o dos mortos”.

Paulo em Atenas, Sofia! Estamos falando do cristianismo, que pouco a pouco começa a se infiltrar no mundo greco-romano como algo diferente, completamente diferente da filosofia dos epicureus, estóicos e neoplatônicos. Apesar de tudo, Paulo encontra nesta cultura um sólido apoio, ao chamar a atenção para o fato de que a busca de Deus está dentro de todos os homens. E para os gregos não havia nada de novo nisso. O que Paulo pregava de novo era o fato de o próprio Deus ter se revelado aos homens e realmente ter se encontrado com eles. Ele não é, portanto, apenas um “Deus filosófico”, ao qual as pessoas pudessem chegar pelo exercício da razão. Além disso, esse Deus não se assemelha a nenhuma imagem de “ouro, prata ou pedra” – na Acrópole e também lá embaixo, na praça do mercado, já havia imagens suficientes. Mas Deus “não habita em templos feitos pelos homens”. Ele é um Deus pessoal, que intervém na história e que morreu na cruz pelos homens.

Nos Atos dos Apóstolos, lemos que, depois de ter feito seu discurso no Areópago, Paulo foi vítima de zombaria por parte de algumas pessoas, quando estas ouviram-no dizer que Cristo havia ressuscitado dos mortos. Mas também ouve aqueles que disseram: “Queremos ouvir mais do senhor”. Outros, por fim, agregaram-se a ele e se tornaram cristãos. Entre estas pessoas estava uma mulher chamada Damaris, um nome que precisamos gravar. Naquela época, eram as mulheres que mais freqüentemente se convertiam ao cristianismo.

Depois Paulo prosseguiu em sua tarefa missionária. Apenas algumas décadas depois da morte de Cristo já havia comunidades cristãs em todas as cidades gregas e romanas mais importantes: Atenas, Roma, Alexandria, Éfeso, Corinto. Entre três e quatro séculos depois, todo o mundo greco-romano estava cristianizado.



O CREDO

(Páginas 179-180.)

Paulo não foi de fundamental importância para o cristianismo apenas por sua função como missionário. Dentro das comunidades cristãs, a sua influência era muito grande. É que as pessoas precisavam muito de uma orientação espiritual.

Uma questão importante dos primeiros anos depois da morte de Jesus era saber se os que não eram judeus precisavam passar pela doutrina judaica antes de se tornarem cristãos. Um grego, por exemplo, teria de observar as leis de Moisés? Para Paulo, isto não era necessário. O cristianismo era mais do que uma seita judaica. Ele se voltava para toda a humanidade através de uma mensagem universal de redenção. A “antiga aliança” entre Deus e Israel fora substituída pela “nova aliança” que Jesus estabelecera entre Deus e todos os homens.

Mas o cristianismo não era a única religião nova daquela época. Vimos que o helenismo era marcado por um sincretismo religioso. Por esta razão, a Igreja precisava definir claramente a doutrina cristã, a fim de estabelecer seus limites em relação às demais religiões e evitar uma cisão dentro da própria igreja cristã. Surgiram assim as primeiras profissões de fé, os primeiros credos. A profissão de fé, ou credo, resume os princípios ou os “dogmas” cristãos mais importantes.

Um desses importantes princípios era o de que Jesus havia sido Deus e homem ao mesmo tempo. Ele não era o “Filho de Deus” apenas por seus atos. Ele era o próprio Deus. Mas ele também era um “homem de verdade”, que compartilhava a vida com os outros homens e que realmente tinha padecido na cruz.

Isto pode parecer um paradoxo. Mas a mensagem da Igreja era precisamente a de que Deus se fez homem. Jesus não era um “semideus” (meio homem e meio deus, portanto). A crença em tais semideuses era bastante difundida nas religiões gregas e helenísticas. A Igreja ensinava que Jesus era “o Deus e o homem plenos”.

PÓS-ESCRITO

(Páginas 180-181.)

O que estou tentando mostrar, cara Sofia, é que tudo está inter-relacionado. A entrada do cristianismo no mundo greco-romano significou o encontro dramático de dois universos culturais. Mas significou também uma grande transformação histórico-cultural.

Estamos quase deixando para trás a Antigüidade. Quase mil anos são passados desde os primeiros filósofos gregos. À nossa frente se descortina agora a Idade Média. E ela também durou cerca de mil anos.

O poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe escreveu:

Quem, de três milênios,


Não é capaz de se dar conta
Vive na ignorância, na sombra,
À mercê dos dias, do tempo.

E eu não quero que você seja uma dessas pessoas. Estou me esforçando ao máximo para familiarizá-la com suas raízes históricas, pois só assim você se tornará uma pessoa de verdade. Só assim você será mais do que um macaco sem roupas. Só assim você não vai ficar flutuando no espaço vazio.




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