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Encontro18.08.2019
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Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Mestrado em Administração – PPAGEI
Professor Francisco G. Heidemann, PhD


Disciplina: Modelos de Gestão



Tema: Resenha – Sociedade Disciplinar

Referência: Vigiar e Punir – Michel Foucault (1)



Aluno: Luiz Carlos de Almeida Oliveira

Julho de 2001

“Que há de espanto no fato que a prisão se assemelhe às usinas, às escolas, às casernas, aos hospitais, e de que todos se assemelhem às prisões”

(Michel Foucault, Surveiller et punir)


Introdução

O objeto de análise da presente resenha é o papel das Organizações como integrantes da dita Sociedade Disciplinar, caracterizada por Foucault como uma evolução dos mecanismos criados no século XVIII como alternativa à reclusão. A referência básica tomada para a análise em questão é a arquitetura do Panóptico, proposta pelo jurista inglês Jeremy Bentham. Esta é a abordagem de Foucault sobre a Sociedade Disciplinar.




O Panóptico

O elemento tomado como referência para a análise desenvolvida é o Panóptico. Trata-se de uma arquitetura desenvolvida no fim do século XVIII, como uma proposta alternativa de funcionamento para as prisões.


Uma mudança fundamental foi constatada na arquitetura proposta. O tradicional modelo de reclusão, a partir da exclusão, da masmorra, onde o indivíduo era deixado de lado, foi substituído por outro onde a “luz” fazia o controle. Uma mudança radical, a exclusão foi substituída pela inclusão a um novo regime.
A arquitetura do panóptico previa uma torre central, com um vigia, cercada de celas ao seu redor, numa formação circular. As celas apresentavam aberturas dos dois lados, o interno à torre e o externo. Assim a luz poderia passar por ela, possibilitando ao vigia da torre a observação dos movimentos a partir das silhuetas projetadas.
Os indivíduos vigiados não podiam ver o vigia, sequer se ele de fato estava lá. A “torre” passava a controlá-los. A prisão passava a ser feita pela inclusão (adestramento) dos indivíduos ao novo regime, que passava a exercer um forte controle sobre os corpos e o tempo dos aprisionados.


Do Panóptico às Instituições Disciplinares

Foucault nos ofereceu um diálogo entre o Panóptico e as Instituições atuais, situando-as como detentoras de formas brandas e difusas de adestramento e inclusão. Neste contexto situam-se as fábricas, os hospitais, as escolas e, inclusive, as prisões.

Passam a ser entendidas como “instituições de seqüestro”, em razão de que a reclusão que elas operam não pretende propriamente excluir o indivíduo, mas antes incluí-lo num sistema normalizador, fixando-os às instituições através de mecanismos específicos de controle e de exercício do poder.


Assim a análise situa no momento atual, nas instituições contemporâneas, os aspectos fundamentais presentes na arquitetura do Panóptico. A mudança básica passa do espetáculo à vigilância, vigilância esta exercida por três funções: o controle do tempo, o controle dos corpos e a instalação de um poder polimorfo.


Funções de controle



O controle do tempo - A vigilância é, nas sociedades modernas, uma forma de dispor do tempo dos indivíduos, principalmente visando atender os objetivos das instituições. Mecanismos são desenvolvidos visando um controle e um vínculo com as organizações e seus interesses.
Exemplos típicos são praticados pelas organizações quando estabelecem políticas de remuneração e recompensa vinculadas ao tempo, tais como fundos de pensão, promoções por tempo de serviço, o próprio mecanismo de férias etc.
A síntese é: o indivíduo pode dispor do seu tempo, de forma minoritária, desde que atenda, em primeiro lugar, os interesses das organizações. São formas brandas e difusas, como comentado anteriormente, mas são formas de controle do tempo, são componentes de um processo contínuo de vigilância e controle.
O controle dos corpos - Também o controle dos corpos é uma das formas de construção e de controle das instituições disciplinares. Ao definirem padrões de comportamento, de vestuário, de atos e práticas possíveis e proibidos em cada instituição, estas exercem um controle sobre os corpos.
Ao exercerem também criam um saber fisiológico e orgânico que possibilita um maior exercício deste aspecto de controle, bem como a criação de um “corpo da sociedade”, necessário para a preservação dos padrões estabelecidos.
O poder polimorfo – Outra característica e mecanismo de controle é a forma de instituição do poder, que nestas instituições são polimorfos e polivalentes. São classificados como poder econômico, político, judiciário e epistemológicos.
O poder econômico é, talvez, o mais óbvio e aparente. Este se associa de forma direta com o poder político, estabelecendo quem define os procedimentos, quem tem direito de dar ordens, de aceitar indivíduos, de expulsar outros etc.
O poder econômico e político se articulam na formação do poder judiciário. Nestas organizações, alguns têm o direito do julgamento, de condenar pessoas, atitudes, valores. Existe o direito de punir e compensar, a partir do exercício da vigilância (Surveiller et punir).
Uma nova articulação das três formas de poderes cria uma quarta forma: o poder epistemológico, que produz saberes. E o produz duplamente: extraindo saberes dos indivíduos e elaborando saber sobre os indivíduos. Exemplo claro novamente se observa nas fábricas. O saber extraído dos indivíduos é aquele obtido a partir das práticas desenvolvidas por um operário que são observadas e repassadas para os demais, enquanto o saber sobre o indivíduos , nasce das observações, das avaliações, das classificações e das anotações que são feitas sobre o desempenho de cada um. Assim também é nas escolas e em muitas outras instituições, segundo Foucault.


Análise Crítica - A Sociedade Disciplinar e os Modelos de Gestão

Obtido o entendimento sobre o funcionamento das Sociedades Disciplinares, resta-nos situá-los no contexto dos Modelos de Gestão.


Cabe-nos observar que, segundo a abordagem do autor, uma série de mecanismos foram estabelecidos, embora de forma branda e difusa, com o objetivo do controle, da construção da torre.
As organizações contemporâneas replicam as práticas destes mecanismos, replicando desta forma também a essência do controle e da busca do “seqüestro” dos indivíduos. Morgam (2), também aborda esta questão ao tratar das organizações como instrumentos de dominação.
Ao se pensar em modelos de gestão, devemos nos ocupar de uma reflexão sobre o quanto as práticas abordadas pelos diversos modelos propostos não são apenas reforços dos mecanismos de controle das sociedades disciplinares.
E se o forem, quais as suas conseqüências sobre os indivíduos, bem como quais são as possíveis limitações impostas por estas conseqüências.
Analisando sob esta ótica, podemos situar um conjunto de práticas de gestão, amplamente difundidas, como componentes da torre que vigia, recompensa e pune os indivíduos, visando “incluí-los” cada vez mais na organização. Assim podem ser entendidos nas organizações, por exemplo, os processos de comunicação, de remuneração, de gerenciamento de “talentos” ou do “capital humano”, de gestão do conhecimento etc.
Esta seqüência de raciocínio permite-nos questionar o quanto a associação de algumas práticas de gestão com mecanismos de controle e inclusão, não é a origem de uma série de dificuldades e, por vezes, quase impossibilidades enfrentadas pelas organizações. Principalmente no que se espera do comportamento e atitude dos indivíduos que nelas trabalham, ou melhor, que nelas estão presos.
A questão final que deve ser considerada é: qual o resultado possível de ser alcançado por instituições que podem ter origem em mecanismos criados para serem alternativas aos então existentes para trancafiar os loucos e os marginais ?


Bibliografia





  1. Foucault, Michlel. Vigiar e punir. Rio: Vozes. 2000




  1. Morgan, Gareth. Imagens da Organização. São Paulo: Atlas. 1996




  1. Muchail, Salma T. O Lugar das Instituições na Sociedade Disciplinar ISAD/PUC PR.





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