O morto o morto – Coelho Neto menumark edição eBooksBrasil



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O Morto


O MORTO – Coelho Neto

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edição


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O Morto – Memórias de um Fuzilado (1898)


Coelho Neto (1864-1934)


Fontes digitais:
Ministério da Cultura
Fundação BIBLIOTECA NACIONAL
Departamento Nacional do Livro
www.bn.br
[http://www.bn.br/bibvirtual/acervo/]

Biografia do Autor:


ABL
www.academia.org.br


Copyright
Domínio Público

 

 



O MORTO
(Memórias de Um Fuzilado)


Coelho Neto

ÍNDICE

Nota Informativa
O Autor

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo II
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XVIII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI
Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV
Capítulo XXXVI
Capítulo XXXVII

 

O Morto


( Coelho Neto )

Nota Informativa

 

     Em O morto Coelho Netto desenvolve uma trama que despertará ressonâncias bastante sugestivas em leitores que conservam na lembrança (por terem-na experimentado pessoalmente ou conhecido por depoimentos) a situação vivenciada pelo brasileiro comum nos anos da ditadura militar. Dosando com felicidade suspense e humor, Coelho Netto narra a existência de um burguês pacato, envolvido de repente nas malhas de uma intriga kafkianamente absurda. Como pano de fundo para a ação o autor constrói notável painel do Rio nesses meses da revolta da armada, em que se destacam as cenas do êxodo da população litorânea, apavorada pela ameaça de bombardeamento da cidade pelos rebeldes. Nessas páginas – e não nos duvidosos textos de antologia, que privilegiam a pirotecnia verbal do estilista parnasiano – poderá o leitor constatar o poder expressivo do narrador Coelho Netto. A segunda metade do romance transcorre no meio rural e revela, na fixação dos quadros da natureza e da vida em uma fazenda, elaborados em linguagem límpida e expressiva, o lado lírico do escritor. Visto no seu todo, O morto constitui uma obra equilibrada e estilisticamente sóbria, capaz de desacreditar a imagem simplificadora de verbalista vazio a que se tem pretendido reduzir o seu autor.


     Mas tal imagem, já de si obstáculo respeitável dificultando o acesso dos leitores ao mundo ficcional de Coelho Netto, não representa a única pedra nessa vereda arriscada: o tecido de equívocos que cerca a obra do escritor maranhense tem urdidura mais cerrada. Um outro estereótipo, esse de natureza temática, começou a articular-se ainda em vida do escritor, na pena ressentida de Lima Barreto. Na visão do criador do Isaías Caminha o romancista de Turbilhão exercia uma "ditadura/.../ particularmente nociva" no meio intelectual brasileiro, por reduzir a literatura à produção de frivolidades para leitoras ociosas: "Não posso compreender que a literatura consista no culto do dicionário; não posso compreender que ela se resuma em elucidações mais ou menos felizes dos estados d'alma das meninas de Botafogo ou de Petrópolis; /.../" – o crítico segue por aí adiante, numa negação raivosa, tingida de ressentimentos pessoais, do valor do seu contemporâneo mais afortunado, detentor na época de invejável (e invejado?) sucesso junto aos leitores. Anos depois, em artigo cujo título já define as intenções do autor – "Histrião ou literato?" –, Lima Barreto volta à carga e, a propósito de um simples discurso de circunstância, pronunciado por Coelho Netto na inauguração de uma dependência do Clube Fluminense, proclama-o "o sujeito mais nefasto que tem aparecido em nosso meio intelectual", reduz sumariamente a zero todo o valor do romancista maranhense e, ressumando carga ainda maior de despeito, torna a repisar a velha tecla de que "desde menino, o Senhor Coelho Netto ficou deslumbrado por Botafogo e as suas relativas elegâncias".
      Tudo isso é criticamente desprezível, e poderia ser aqui ignorado não fosse o prestígio quase mítico com que toda uma corrente intelectual, a partir dos anos 30, passou a cercar a figura de Lima Barreto. Tal postura acarretava o endosso, sem maior exame, do estereótipo posto em circulação por Lima Barreto, que reduzia Coelho Netto às dimensões de um "romancista de Botafogo e suas elegâncias". Se a crítica se desse ao trabalho de ler a ficção do criador de O morto, constataria, surpresa, que tal estereótipo, como costuma suceder com a maior parte dos estereótipos, tem como característica única a sua falsidade; que as "meninas de Botafogo e de Petrópolis" pouco freqüentam essa ficcão; e que, no plano social, o romance de Coelho Netto volta-se de preferência para a classe média (à qual pertencia o escritor), enquanto no tocante à geografia urbana focaliza o centro da cidade e os bairros a ele periféricos – bairros típicos de classe média. Em suma: nem meninas elegantes, nem Botafogo, nem Petrópolis ... Coelho Netto é, acima de tudo, um cronista do viver da pequena e média burguesia carioca na virada do século. Evidentemente, o seu realismo contido, de corte flaubertiano, pouco propenso ao libelo acusatório no gênero das Recordações do escrivão Isaías Caminha, detinha um potencial de fascínio bastante moderado para uma geracão marcada pelas lutas ideológicas que dilaceraram o Brasil após a revolução de 30. Mas também sob esse aspecto o momento atual – de crepúsculo das ideologias – pode e deve abrir espaço à reavaliação de numerosos escritores – dentre os quais Coelho Netto – banidos sumariamente da cidade das letras por não se conformarem a um modelo ideológico fixado a priori pela crítica. Quem sabe esteja próximo o momento em que o autor de O morto poderá abandonar finalmente o incômodo e excêntrico papel de "escritor maldito" a que o condenaram, ironicamente, os adversários.

Rosa Gens



 

O Autor



     Coelho Neto (Henrique Maximiano C. N.), professor, político, romancista, contista, crítico, teatrólogo, memorialista e poeta, nasceu em Caxias, MA, em 21 de fevereiro de 1864, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 28 de novembro de 1934. É o fundador da Cadeira n. 2 da Academia Brasileira de Letras, que tem como patrono Álvares de Azevedo.


     Foram seus pais Antônio da Fonseca Coelho, português, e Ana Silvestre Coelho, índia. Tinha ele seis anos quando seus pais se transferiram para o Rio. Estudou os preparatórios no Externato do Colégio Pedro II. Depois tentou os estudos de Medicina, mas logo desistiu do curso. Em 1883 matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo. Seu espírito revoltado encontrou ali ótimo ambiente para destemidas expansões, e ele se viu envolvido num movimento dos estudantes contra um professor. Prevendo represálias, transferiu-se para Recife, onde fez o 1º ano de Direito, tendo Tobias Barreto como o principal mestre. Regressando a São Paulo, entregou-se ardentemente às idéias abolicionistas e republicanas, numa atitude que o incompatibilizou com certos mestres conservadores. Deu por concluídos os estudos jurídicos, em 1885, e transferiu-se para o Rio. Fez parte do grupo de Olavo Bilac, Luís Murat, Guimarães Passos e Paula Ney. A história dessa geração apareceria depois no seu romance A Conquista (1899). Tornou-se companheiro assíduo de José do Patrocínio, na campanha abolicionista. Ingressou na Gazeta da Tarde, passando depois para a Cidade do Rio, onde chegou a exercer o cargo de secretário. Por essa época começou a publicar seus trabalhos literários.
     Em 1890, casou-se com Maria Gabriela Brandão, filha do educador Alberto Olympio Brandão. Do seu casamento teve 14 filhos. Foi nomeado para o cargo de secretário do Governo do Estado do Rio de Janeiro e, no ano seguinte, Diretor dos Negócios do Estado. Em 1892, foi nomeado professor de História da Arte na Escola Nacional de Belas Artes e, mais tarde, professor de Literatura do Ginásio Pedro II. Em 1910, foi nomeado professor de História do Teatro e Literatura Dramática da Escola de Arte Dramática, sendo logo depois diretor do estabelecimento.
     Eleito deputado federal pelo Maranhão, em 1909, e reeleito em 1917. Foi também secretário geral da Liga de Defesa Nacional e membro do Conselho Consultivo do Teatro Municipal.
     Além de exercer os cargos para os quais era chamado, Coelho Neto multiplicava a sua atividade em revistas e jornais de todos os feitios, no Rio e em outras cidades. Além de assinar trabalhos com seu próprio nome, escrevia sob inúmeros pseudônimos, entre outros: Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, Blanco Canabarro, Charles Rouget, Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-Fur, Manés.
     Cultivou praticamente todos os gêneros literários e foi, por muitos anos, o escritor mais lido do Brasil. Apesar dos ataques que sofreu por parte de gerações mais recentes, sua presença na literatura brasileira ficou devidamente marcada. Em 1928, foi eleito Príncipe dos Prosadores Brasileiros, num concurso realizado pelo Malho. João Neves da Fontoura, no discurso de posse, traçou-lhe o justo perfil:

"As duas grandes forças da obra de Coelho Neto residem na imaginação e no poder verbal. ... Havia no seu cérebro, como nos teatros modernos, palcos móveis para as mutações da mágica. É o exemplo único de repentista da prosa. ... Dotado de um dinamismo muito raro, Neto foi um idólatra da forma."

     Principais obras: Rapsódias, contos (1891); A capital federal, romance (1893); Baladilhas, contos (1894); Fruto proibido, contos (1895); Miragem, romance (1895); O rei fantasma, romance (1895); Inverno em flor, romance (1897), Álbum de Caliban, contos (1897); O morto, romance (1898); A descoberta da Índia, narrativa histórica (1898); O rajá do Pendjab, romance (1898); A Conquista, romance (1899); A tormenta, romance (1901); Turbilhão, romance (1906); Vida mundana, contos (1909); Banzo, contos (1913); Rei negro, romance (1914); Mano, Livro da Saudade (1924); O polvo, romance (1924): Imortalidade, romance (1926); Contos da vida e da morte, contos (1927); A cidade maravilhosa, contos (1928); Fogo fátuo, romance (1929). Publicou, ainda, peças de teatro (vários livros), crônicas, críticas, obras didáticas, discursos e conferências.

 

O MORTO


(Memórias de um Fuzilado)


CAPÍTULO I

 

     MEU VERDADEIRO nome é Josefino Soares. A razão do incógnito que eu trouxe, durante meses, juntamente com uma viçosa barba ruiva, que repontou em meu rosto com a exuberância de sarçal bravio em terras esquecidas, o leitor achará nestas páginas simples, que, vagarosamente, escrevi à sombra de árvores, em remoto desterro, enquanto a metralha arrasava a terra hospitaleira onde, numa tarde tépida de junho de 1863, meu pai celebrou, contente, o natal do seu primeiro filho, que sou eu.


     Nasci miúdo e fraco nas mãos de minha tia Manuela, entendida em partos e em compotas, e, tão fino era o fio da minha vida que, para chorar, foi necessário que a solícita senhora me assistisse com a mão direita em certo ponto sensível. Ao meu primeiro grito agudo as lágrimas saltaram dos olhos de minha mãe, de alegria e de pena, por ver-me com vida, mas esperneando, roxo das palmadas cruéis com que me ativaram as energias entorpecidas. Mergulharam-me, em seguida, em banho esperto, no qual meu pai derramou copiosamente meia garrafa de vinho do Porto e minha tia espargiu um papelucho de canela em pó.
     Os panos que me envolveram não eram de custo, nem rendas caras embelezaram o berço de vime que mamãe, mesmo do leito onde ficou a caldos durante quarenta dias, embalava, cantando docemente as descidas da Virgem à beira d'água para lavar as fraldas de Jesus, enquanto minha tia ordenhava a cabra que me criou rijo e sadio, tornando-me, em menos de um ano, um rapagão travesso e belo como Júpiter, quando repeliu, saciado, as tetas de Amaltéia.
     Minha vida infantil foi como a de todas as crianças: engatinhei, andei, batizei-me (meu padrinho foi Tibério Castro, da alfândega; minha madrinha foi a tia Manuela), tive a coqueluche, o sarampo, esfolei-me várias vezes vindo abaixo de goiabeiras e de muros e, aos sete anos, depois de uma febre que me pôs os olhos fundos e magro como uma quaresma, com um saco de brim a tiracolo onde mamãe, chorosa, metera a lousa, uma carta e um pão de rala barrado de manteiga, segui para o Colégio Mourão, em velho prédio tenebroso e úmido da Rua do Hospício.
     Sumido debaixo das abas da rabona paterna, espiei o mestre, homenzarrão estrábico, de barbas densas, híspidas e negras, como as de um profeta, pulso guedelhudo e forte de campônio. Não ouvi o que disse, mas lembro-me ainda hoje, com pavor, do olhar terrível que lançou de muito alto sobre a humildade da minha pessoa engelhada e trêmula, fazendo-me pensar na história do Pequeno Polegar e do gigante, que mamãe contava para distrair-me nos serões pacatos.
     Foi uma luta tremenda para arrancarem-me das abas da rabona paterna: promessas, ameaças, a tudo eu respondia com choro, esperneando, berrando, mas... que havia eu de fazer diante do possante mestre? Agarrou-me e eu apenas ouvi estas frases: "Puxe por ele... Puxe por ele, Sr. Mourão, e, quando for preciso... " e a porta envidraçada bateu. Meu pai partira. Fungando, banhado em lágrimas, quase arrastado pelo mestre, entrei no imenso salão da aula, onde havia um sussurro como o dos bambuais farfalhando ao vento. Era um viveiro de crianças. Sentados em compridos bancos, diante de estiradas carteiras pintadas de negro, os pequenos falavam, cochichavam, riam e, quando entrei, todos os olhos curiosos voltaram-se para ver-me. O mestre recomendou-me a um rapazinho que me levou, por entre a criançada, para um dos primeiros bancos. Sentei-me, abri a carta, mas a minha atenção perdia-se, distraida em exames curiosos. Olhei para todos e para tudo. Nos últimos bancos havia homens, alguns barbados. Um, principalmente, surpreendeu-me: amulatado, bexigoso, feio, usava óculos e, durante toda a aula, esteve a arrepelar o cavaignac; mais tarde vim a saber que se chamava Tinoco e que empacara nos verbos. Os monitores temiam-no porque era forte e entendia de capoeiragem; o próprio mestre, a pretexto de que ele era um homem "de barba na cara", dispensava-o da palmatória, mas, a boca pequena, confessava-se que ele não lhe batia de medo.
     Por baixo dos bancos balançavam-se perninhas nuas, mordicadas, escalavradas; pés descalços, sujos da lama das sarjetas, esfregavam-se; e tamanquinhos juntos, aos pares, faziam filas ao longo das carteiras. Mas havia meninos limpos, bem calçados, bem vestidos; um deles trazia, com orgulho, relógio e corrente.
     Nas paredes estiravam-se dilatados mapas e sobre a mesa do mestre um globo imenso mostrava as grandes águas e as terras vastas do mundo.
     Quando me sentei entre um crioulinho e um rapazola sardento, de cabeça raspada, logo um elástico esticado estalou-me na orelha esquerda. Um grito fugiu-me, cabeças encolheram-se, houve riso, ameaçaram-me; mas o mestre bravejou um brado, batendo com a régua na mesa.
     Caiu um grande silêncio, mas espirraram risinhos aqui e ali e, não sei por que, o forte Mourão ergueu-se pronunciando um nome. Uma vozinha chorosa balbuciou: "Não fui eu! Não fiz nada!" mas o mestre insistiu. Voltaram-se todos, voltei-me também.
     Um pequeno, choramingando, passava de esguelha entre os companheiros, esfregando as mãos, resmungando. Eu o vi chegar à mesa e logo um estalo, e um grito partiu do estrado do mestre . Contei seis, mas os gritos agudos do pequeno foram dominados pelo estrídulo vibrante de uma corneta e passos fortes soaram na rua. Dedos rufaram nas carteiras e o crioulo, baixando a carapinha sobre a carta, começou a cantarolar: Ta ra, ta ta tó! to to ro to tó! Depois foi um realejo que veio gemer fanhosamente e com guinchos perto das janelas; em seguida um vendedor de melado, vozeirando, cantarolando, a chamar crianças.
     E tudo era pretexto para risadas. Alguns pequenos ficaram de joelhos, outros de pé nos bancos, de braços abertos como crucificados; e o crioulo, dissimulado, arrulhava como pombo, miava como gato ou imitava italianos, em algaravia gemebunda e cômica.
     À hora da tabuada foi uma folia. Enquanto cantarolavam com fúria, em diapasão tremendo: "um e um – dois; dois e dois, quatro", beliscões ferviam, estalavam elásticos; outros, no rumor do canto, diziam obscenidades, insultavam o mestre, que ouvia o grande coro de somas carrancudo, a barba nos punhos, virando e revirando os olhos tortos. Eu, atordoado, entoei com os companheiros idiotamente, arrastado pelo ritmo. De quando em quando o cotovelo do sardento, que soprava um pica-pau na unha, batia-me no ventre, ou o elástico vinha estalar-me na orelha, de sorte que foi com inenarrável alegria que me levantei para cantar uma reza com que nos despedimos do mestre.
     À saída, o feroz Mourão, de sobrecenho carregado como um juiz que presidisse um grave pleito, distribuía as turmas, primeiro os maiores: abrindo a marcha o Tinoco, que passava gingando, os livros escondidos no bolso amplo do casaco, o cigarro já pronto, entre os dedos.
     Na rua, a criançada trêfega, fervilhando, espalhava-se com vozerio atroante: eram gritos, gargalhadas, assobios. Rusgas resolviam-se: os adversários, enfrentando-se, atiravam os chapéus aos portais, miravam-se com fúria e, incitados pelos que os cercavam, arremetiam ferrando-se a murros; às vezes, agarrando-se pelos cabelos, lutavam atirando ponta-pés, até que ambos rolavam engalfinhados, rosto contra rosto, rilhando os dentes.
     O vencido, além das bordoadas e das nódoas nas roupas, partia choramingando, perseguido pela vaia dos companheiros, que o levavam até longe; o vencedor, à frente do grupo, purpúreo e roto, de quando em quando atirava novo desafio, saltando para o meio da rua, com grandes e desempenados gestos, o chapéu derreado à nuca. Às vezes, quando as lutas se travavam perto do colégio, um robusto criado de Mourão acudia, sucedendo irem os brigões aplacar a fúria nas cafuas, onde ratos chiavam como em palheiro.
     As quitandeiras, à hora da saida, postavam-se às portas para defender os tabuleiros, e um velho italiano, sapateiro, mal soava em S. Francisco a primeira badalada do meio-dia, arrastava um mocho para o batente e, de tira-pé em punho, defendia botinas, chinelas e tamancos. Formavam-se grupos ameaçadores diante da casa do pobre homem que, um dia, desesperado, para repelir o ataque, pôs-se a atirar formas sobre os sitiantes, ferindo um deles, o que lhe valeu uma dormida no xadrez próximo e, no dia seguinte, tremendo assalto da pequenada, presidida pelo Tinoco que chegou a abrir uma navalha. Felizmente pedestres acudiram e o bando dissolveu-se, sem que o valente Tinoco, impenetrável aos verbos, pudesse raspar as barbas do carcamano, como prometera.
     Confesso que tive vontade de sair entre o crioulo e o sardento para a pagodeira da rua mas... a rabona de meu pai lá estava, por trás da porta envidraçada, à minha espera.
     Minha mãe recebeu-me com beijos e com um saboroso prato de tapioca e, à tardinha, na soleira da porta do quintal, a cabeça no seu colo, acariciado pelos seus dedos que desembaraçavam os meus cabelos louros, femininamente longos, enquanto meu pai regava a banqueta de cravos e titia preparava as torcidas dos lampiões, fui contando todo o meu dia de estréia colegial: os terrores, a perversidade dos elásticos que me puseram a orelha esquerda escarlate e dorida, o ta, ra, tá do crioulo, os bolos do outro. Descrevi a sala, o mestre, os companheiros, não esquecendo o do relógio e os que sofreram castigos e por último o Tinoco, que apresentei como um forte, capaz de fazer frente a um batalhão. E dormi regaladamente, depois de ter soletrado os nomes da minha lição, rindo muito dos pequeninos pontos luminosos que as grossas lentes dos óculos de minha tia projetavam na página da carta.
     Três dias depois da minha entrada, já familiarizado com o crioulo, que se chamava Constâncio (hoje músico num regimento de cavalaria), fui chamado pelo mestre e as mãos ficaram-me altas e vermelhas, ardendo-me como se nelas houvessem aplicado sinapismos. E isso porque, em resposta ao sardento, que usara comigo de linguagem vil, festejando-me indecorosamente por causa das minhas tranças, cravei-lhe com força uma pena no braço magro, depois de o ter ameaçado com o bengalão pesado de meu pai. Contei, chorando, o caso a Mourão, e o mestre, longe de ser por mim, brandiu a palmatória dizendo enojado:
     — Que aquilo mesmo não era decente: andar um homem com um rabicho daqueles, amarrado de fitas.
     Mamãe, vendo-me de mãos inchadas, soluçou, excitada de ódio, bramando contra a crueldade:
     — Que aquilo não eram modos de se bater numa criança.
     Eu ria, pondo em forma na mesa os meus soldadinhos de chumbo e, por entre beijos, pedi à mamãe que me mandasse cortar o cabelo, contando-lhe miudamente, e sem malícia, o escândalo que as minhas tranças haviam provocado. Ela corou, mas ainda assim não teve ânimo de permitir que um cabeleireiro me arranjasse a cabeça de modo que outro menino qualquer não me saisse com a mesma léria com que sardento, a troco de seis penas novas, ousara ofender a minha candura . Do meu leito ouvi os soluços maternos e resmungos de meu pai no quarto próximo, mas o sono venceu-me.
     Na manhã seguinte disseram-me que eu não voltaria mais ao Mourão.

 

CAPÍTULO II



 

     DIAS DEPOIS levaram-me para um colégio de Matacavalos, dirigido por um francês já velho, reumático, que bebia. A casa era pobre e havia ao todo dezoito meninos. Bom homem, M. Deschamps, paternal e brando com todos. Muitas vezes, durante as aulas, na alegria das manhãs de sol, que os canários enchiam de sonoro gorjeio, ele contava guerras, infundia-nos no coração um grande ódio à Alemanha fria e erguendo-se, as farripas alvoroçadas, os olhos fuzilantes, apontava para um cajazeiro que ensombrava o pátio de recreio, dizendo que alí estava a França, a grande França maternal, ensangüentada e faminta, gemendo sob as patas dos cavalos dos ulanos.


     E lágrimas sinceras borbulhavam por trás dos óculos, escorrendo-lhe pela face velha, como gotas de chuva por uma muralha em ruína.
     Tinha, porém, dias terríveis, quando o vinho o excitava: tornava-se bruto, praguejava, ameaçava matar, expulsava meninos, forçando-os a ficarem de pé, no pátio, a cabeça nua, ao sol, até que um dia um rapazito, duramente insultado, atirou-lhe à cara um dicionário, deitando a fugir, com uma surriada de nomes.
     M. Deschamps chorou, queixou-se da ingratidão e suspendeu a aula para aplicar panos de arnica na testa, onde o "Fonseca" deixara uma protuberância denegrida . Deixei também esse colégio, e, em um ano, corri três outros, sendo o último o dos frades de S. Bento.
     Foi nesse mosteiro, de sólidas e vetustas arcadas, com uma Igreja resplandecente de ouro, lajeado de lápides sobre cujos epitáfios batiam profanamente, com surdo rumor, os sapatos de trezentos estudantes, que aprendi os primeiros rudimentos da gramática e as orações que sei para retemperança d'alma nas horas de desalento.
     Quando havia festas, davam-me uma opa e um círio e eu penetrava no templo, vagaroso, marchando com solenidade, de cabeça alta, acompanhando os frades que salmodiavam ao som cavo e gemente do órgão; e do alto, no côro, iluminado pelo sol, que entrava pelos olhais abertos nas muralhas grossas, em duas fachas polvilhadas de ouro que desciam sobre as cabeças dos fiéis, cantores respondiam em solene e misterioso uníssono, que parecia vir de muito longe, do céu, que meus olhos infantis buscavam, com ânsia de liberdade e de folga, porque lá fora, no campo fronteiro, murado, como terrapleno de castelo, de onde se olhava a cidade e o mar sereno, rútilo ao sol, a criançada corria, rolava na erva, aos gritos, jogando a barra.
     O sino, de espaço a espaço, dobrava com lentidão, e eu ficava ali, amodorrado, de olhos na chama trêmula do meu círio, alheio a tudo, suando, no ambiente abafado onde ardiam centenas de outros círios, enfumado pelos turíbulo cheio do cheiro azedo da multidão que se apinhava, compacta, ondulante, até à portaria.
     Ao fim da cerimônia os sinos bimbalhavam em repique festivo, o órgão tronava gloriosamente, em crescendo que enchia todo o mosteiro soturno, passava ao campo e perdia-se; espoucavam foguetes e eu saía lassamente acompanhando os frades. O meu círio pingava no tapete grossas lágrimas e, enquanto a multidão esbaforida ia escoando com burburinho, eu penetrava na sacristia pensando na refeição monástica, farta e apetitosa, na grande sala, de largas janelas abertas sobre o mar por onde, às vezes, andorinhas entravam com ruflo de asas circulando a mesa extensa, assustadas, trissando, até que partiam para o grande azul, rápidas como pelotas brandidas, em rumo aos mares .
     Hoje, talvez, fosse eu o médico de mais clínica entre damas, porque o meu grande desejo, em pequeno, era ser parteiro, um grave parteiro, de óculos e barba à inglesa como o Dr. Costa Garcia, da Rua Larga, que tinha no escritório fetos encolhidos, enrugados, como de borracha, dentro de bojudos frascos, se meu pai não tivesse aparecido, uma manhã, duro e frio no leito, a boca aberta escorrendo espuma, a cara manchada de roxo, os olhos opacos, vítreos, parados em fixidez de espanto. Um médico, chamado à pressa, constatou: apoplexia.
     Mamãe custou a acreditar na morte e largo tempo, debruçada sobre o corpo amado, tomando-lhe a cabeça nos braços, chamou-o, com gritos desesperados; mas minha tia, com serenidade heróica, buscando palavras de resignação no seu abastecido espírito religioso, arrancou-a do quarto acabrunhada, flácida, numa grande crise de choro.
     A vizinhança invadiu a casa, até pessoas desconhecidas entraram curiosamente, indagando. Meu padrinho, chamado, apareceu silencioso, falando baixo, comovido, e, empurrando a porta, penetrou no quarto devagarinho como quem vai surpreender um crime. Mamãe, ao vê-lo, desatou em choro forte e muito tempo, abraçada com ele, falou do grande bem que lhe queria.
     Meu padrinho, desconsolado, meneava a cabeça calva, cor de marfim. E quis saber como fora a desgraça e eu então, do meu canto, ouvi de mamãe: "Que nem ela sabia. Ele recolhera-se alegre, sem queixa; fumara e, até 11 horas, tivera a vela acesa, lendo Os Três Mosqueteiros.
     A morte fora repentina e serena porque, se ele houvesse feito o mínimo movimento, se tivesse gemido, ela, com o sono que tinha, leve como o de um passarinho, por certo teria despertado; mas... nada! Só de manhã, como o não visse levantar-se para o banho, chamara-o, "até brincando" sacudira-o, dando então com ele já rijo, a boca aberta, cheia daquela espuma". Meu padrinho encarregou-se do enterro.
     O cadáver, hirto, esticado, passou o dia e a noite na mesa da sala de visitas, cercado de velas, com um crucifixo entre as mãos cruzadas e engelhadas, como se tivessem saído de prolongado mergulho em água fria. Mamãe, sucumbida, suspirava, sentada no sofá, com os olhos macerados do pranto. Titia e D. Brígida, uma vizinha, iam e vinham, em pontas de pés, com segredos, recebendo as visitas, que abraçavam mamãe, que me abraçavam a mim, sussurrando lástimas.
     Andei pela sala, em volta do cadáver, até as 11 e meia da noite. Na minha cama haviam deitado crianças, e eu então, furtivamente, passei ao quarto da titia e, como o seu leito virginal estivesse carregado de capas e de xales, encolhi-me sobre um baú, dormindo profundamente até às 7 da manhã.
     O enterro foi às 10 horas. Chovia. Quando começaram a bater os pregos do caixão, mamãe que havia sido levada em braços para o quarto, irrompeu na sala, desgrenhada, aos gritos, forcejando para livrar-se das senhoras que a seguravam. Eu, aterrado diante daquele imenso desespero, recuei para o vão de uma janela, mas quando tomaram o caixão senti angústia estranha, como se me arrancassem alguma coisa do peito, como se o meu coração viesse subindo, subindo e me ficasse na garganta engasgando-me, sufocando-me. Encheram-se-me os olhos d'água e rompi a chorar, procurando os braços de minha tia que também chorava. A porta abriu-se com rangido seco, passos farfalharam e, quando levantei a cabeça do colo de titia já o caixão havia saído.
     Rodaram carros e um grande grito agudo atravessou o silêncio fúnebre – era mamãe que havia corrido para a porta e tombara no chão estrebuchando, às gargalhadas .
     A casa ficou em tristeza pesada e tresandando à cera como uma sacristia; cotos de velas rolavam pela mesa e, lamentoso e fúnebre, o Palhaço miava farejando os cantos como se procurasse meu pai que costumava tomá-lo ao colo, afagando-lhe o dorso que ele encurvava voluptuosamente.
     Ficamos em completa miséria e com dívidas; eu tinha quatorze anos e três preparatórios. Mamãe e titia, em comum esforço, quiseram que eu levasse a termo os estudos – coseriam para lojas, para o arsenal, fariam doces e eu, logo que pudesse, anunciaria lições, tomaria discípulos, mas repugnava-me viver do trabalho das duas senhoras, mamãe então, coitada! sempre com acessos de asma. Parecia-me covardia, parasitarismo torpe, e recusei, propondo, para consolação de ambas, empregar-me como caixeiro, estudando à noite para concluir o curso .

 




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