O último Trem de Hiroshima



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BARBANTES

Quase ao mesmo tempo em que o cadete Komatsu voava para dentro do caule da nuvem radioativa e em que Michie Hattori co nheceu o homem-jacaré, Charles Sweeney estava se acostumando à triste matemática de sua situação e a outra manobra cabeça-dura de Paul Tibbets.

De Nagasaki a Okinawa eram 560 quilômetros. Depois do voo de bombardeio, o Bock's Car e o Great Artiste tinham subido de 6 mil a 9 mil metros para um rápido reconhecimento de grande altitude do alvo, e também para ficar acima e à frente de caças ascendentes. Nesse ponto inicial da viagem de volta à base, os motores de Sweeney estavam queimando aproximadamente três litros de combustível por quilômetro. Ele começara com apenas 1.135 litros. Para conservar combustível, tinha de reduzir a altitude e descer à altitude em que o oxigênio era mais abundante. Além disso, ele podia desacelerar as hélices da velocidade normal de 2 mil rpm para 1.800 rpm. Isso pouparia um pouco mais de combustível, mas não urna quantidade grande o suficiente, pelos cálculos de Sweeney. Então decidiu desacelerar para 1.600 rpm, o que infelizmente reduziria o influxo necessário de lubrificação e os níveis de resfriamento necessários para manter os motores em boas condições. Essa decisão arruinaria quatro motores, mas eles seriam devastados numa queda em água salgada e portanto poderiam ser considerados dispensáveis.

A diminuição da marcha reduziu a velocidade do Bock's Car para cem quilômetros por hora. Sweeney agora consumia 1.135 em de 1.900 litros vez por hora, mas ele ainda cairia no mar quinze minutos e vários quilômetros antes do que previa sua destinação.

Sweeney esperava que a teoria cabeça-dura de Tibbets pudesse fazer a diferença. O nome dado por Tibbets à teoria era "voar a escada". De acordo com a teoria, com as regulagens de velocidade e força equalizadas, uma descida gradual, baixando um degrau e permanecendo nesse nível, baixando outro degrau e mantendo-se no nível, daria ao avião urna breve, temporária aceleração em cada degrau, sem usar combustível extra. Teoricamente, Sweeney conseguiria sugar alguns quilômetros extras do que restava da reserva de combustível. "E na prática?", o piloto se perguntava. Começando sua descida a 9 mil metros, Sweeney acreditava ter muito tempo para descobrir; então começou sua descida pelas escadas, confiando na matemática de Paul Tibbets e Isaac Newton para conduzi-lo grande parte do tempo.

A quinze minutos de Okinawa e sobre o alvo inicial, o suprimento de combustível, apesar de reduzido a quase mais de 45 litros, ainda providenciava alimento para Os motores. Sweeney agradecia a Tibbets, Newton e a Deus, quando por fim avistou a ilha. Infelizmente, o aeroporto americano mais próximo ao Japão também era o mais movimentado. Mesmo a dez minutos de lá, Sweeney já conseguia ver sinais de tráfego aéreo sobre todas as pistas.

"Yontan. Torre Yontan!", Sweeney chamou um controlador de vôo que parecia muito ocupado para responder. "Aqui é Dimples 77. Mayday! Mayday! Câmbio."

"Todos Os instrumentos de medição estão marcando vazio", Kuharek disse, à frente, e imediatamente depois que ele disse isso, o Número 4 — o motor de estibordo — parou.

“Aumento a força no Número Três", Sweeney disse.

O aumento de velocidade do Número Três ajeitou a asa de estibordo do Bock's Car, mas se àquela altura algum resultado era seguro, era que a única maneira de aterrissar seria plainar ao longo de um caminho até o chão. Sinalizado por um controlador de voo para um "circule ao redor e tente de novo", aterrissar não era uma opção.

Sweeney ordenou a Van Pelt que acionasse as luzes de emergência verdes e vermelhas, para sinalizar "aeronave sem combustível". E reforçou o sinal com outra chamada de "Mayday! Mayday! Dimples 77". Serpentinas de vermelho e verde agora seguiam atrás do Bock's Car, e Sweeney podia ouvir as torres de controle comunicando-se normalmente com os outros aviões, como se não houvesse nada fora do comum no horizonte.

"Eles são cegos, além de surdos?", Sweeney gritou para sua equipe e depois, ao microfone: "Mayday! Mayday! Estou chamando qualquer maldita torre em Okinawa!".

Não houve resposta, nem mesmo estática. Sweeney baixou o equipamento de aterrissagem e gritou de novo a Van Pelt: "Dispare qualquer maldito sinalizador que tivermos a bordo!".

"Todos eles?"

"Todos eles! Faça-o agora!"

Segundos mais tarde, os sinalizadores estavam explodindo por todos os lados — vermelhos, azuis e verdes; roxos e com estrelas brancas brilhantes. Van Pelt estava sinalizando, ao mesmo tempo: "Aeronave sem combustível! Aeronave caiu na água, aqui! Preparem-se para o choque iminente! Aeronave pegando fogo! Mortos e feridos a bordo!".

Sweeney imaginou que o Bock's Car deveria estar parecendo com um desfile de Quatro de julho, acelerado.

"Quem é aquele idiota?", perguntou um cansado controlador de tráfego aéreo.

"Pelo menos agora eu tenho a atenção deles", Sweeney pensou, enquanto os aviões começavam a desviar de seu caminho, deixando-o descer à pista mais próxima com apenas dois dos quatro motores ainda sugando ar e dando propulsão.

Menos de dez segundos depois que Sweeney parou o avião, veículos de emergência estavam ao lado do Bock's Car. Um deles dirigiu o jato do extintor aos motores, apesar de nada parecer estar pegar fogo. Um médico meteu sua cabeça pela porta dianteira e perguntou: “Onde estão os mortos e feridos?".

Sweeney apontou o polegar sobre seu ombro, na direção de Nagasaki. "Lá atrás", ele disse, e não falou mais nada sobre o assunto. Ele estava a um longo caminho da base aérea de Tinian, e mesmo se o presidente Truman tivesse contado tudo e anunciado a existência da bomba, todos a bordo do Bock's Car entenderiam, sem terem sido comunicados, que eles não poderiam dizer nada a ninguém sobre onde tinham estado, para onde estavam indo ou o que tinham feito.

Quando chegou a ordem do almirante Purnell, em Tinian, pedindo às equipes de solo, em Okinawa, que providenciassem a Sweeney todo o necessário para a próxima etapa da viagem; a resposta de Tóquio continuava a ser um deserto de silêncio. Enquanto isso, as horas passavam.

"Será que a resposta a essas duas bombas atômicas pode ser uma indiferença desdenhosa?", Sweeney se perguntava. "Poderia ser verdade?"

Parecia que sim. Em vez de notícias sobre uma rendição japonesa, a manchete do noticiário da Rádio das Forças Armadas era ;obre a invasão da Rússia à parte ocupada pelo Japão na China, seguida pela descoberta de gravações "perdidas" do arquivo do falecido Glenn Miller, "Caribbean Clipper" e "Little Brown Jug".

Sweeney era o único membro de sua equipe que sabia que os núcleos de plutônio das duas bombas atômicas seguintes não viriam a existir em dois meses ou mais. Ele anotou em suas memórias que esse pensamento o deixou mais frio que qualquer outro. O intervalo entre as bombas poderia convencer os chefes supremos no Palácio Imperial de que, se o país podia absorver duas bombas atômicas e se reconstituir, então esse novo horror — bem como os ataques com bombas incendiárias convencionais — poderia ser combatido e a vida continuar.

"Jesus...", Sweeney disse a si mesmo. "Se tivéssemos outra bomba que pudesse ser largada amanhã ou no dia seguinte, então Tóquio acreditaria que somos capazes de carregá-las uma depois da outra corno balas de espingarda. E eles certamente se renderiam e parariam com essa loucura. Mas isto? Isto?"

O atraso de um mês inteiro comunicaria apenas uma lição: Truman estava jogando pôquer e o vasto arsenal nuclear não existia realmente. A trágica ironia era que, quando as próximas bombas atômicas ficassem prontas, em algumas semanas, Sweeney teria que voar em mais dessas missões. Pelo menos três mais, ele calculou.

"Que diabos eles devem estar pensando lá no palácio do imperador?"


COMO OS SEUS CONTEMPORÂNEOS diziam, "Nero tocava violino enquanto Roma ardia".

Depois de passados quase dois mil anos, essas palavras nunca foram tão certeiras. O marechal de campo Shunroku Hata, que perdera seu encontro com o prefeito Nishioka, mas sobrevivera aos incêndios de Hiroshima e chegara a Tóquio com queimaduras do clarão apenas em um lado de seu rosto, insistiu com o doutor Sagane que os americanos possuíam material nuclear suficiente apenas para construir duas bombas atômicas.

"Eles parecem já ter usado as duas", disse Hata. "Já fizeram o pior que poderiam fazer."

O ministro das Relações Exteriores Shigenori Togo e o físico Yoshio Nishina voltaram a pressionar o imperador, mas com toda a educação possível, implorando para que ele tomasse uma decisão.

O ministro da Guerra, Korechika Anami, parecia ter deixado de se preocupar. Na verdade, ele estava aprendendo a "abraçar-bomba. Tendo escutado as descrições da nuvem atômica florescendo até a estratosfera corno uma flor radiante, o ministro meteu-se a poeta e disse: "Não seria maravilhoso para esta nação ser destruída corno uma linda flor?".

A lição pessoal do poeta guerreiro para os jovens kamikaze e Kaiten tinha sido muito parecida. Ele os ensinou que seu destino era a guerra — "cair pelo imperador como as pétalas de uma flor". Alguns dias depois, seguindo revelações de que soubera e considerava juntar-se a um golpe militar contra o imperador, com o objetivo de eliminar qualquer possibilidade de rendição, Anami cometeria suicídio ritual depois de oferecer saque aos amigos, mostrando-lhes dois de seus "poemas de morte"e lamentando: “Ah, que poeta o mundo está perdendo".

Naquele momento, Anami se recusava a tolerar a frase do ministro do Exterior: "A situação de guerra está menos favorável a nós a cada hora que passa". Togo foi forçado a reformular suas palavras: "A situação de guerra se desenvolveu não necessariamente dando vantagem ao Japão".

O general Yoshijiru Umezu assegurou a Anami que as medidas de retaliação antiaéreas concentradas contra dois ou três aviões voando solitários deveriam conseguir repelir um ataque atômico.

"E o que acontece se eles tiverem outra bomba atômica já esperando numa das ilhas?", o ministro das Relações Exteriores Togo interrompeu. "E se eles souberem que nós já aprendemos a ficar atentos especialmente a grupos de apenas dois ou três aviões? Os senhores não acreditam que eles são espertos o suficiente para esconder uma bomba entre uma frota de cinquenta B-29? Ou cem? E como vamos abater todos?”

Por um momento, Togo pensou que o ministro da Guerra Anamii não tinha uma resposta; mas, com suas bochechas vermelhas e lavadas de lágrimas, ele disse: "Tenho certeza de que podemos causar grandes baixas no inimigo; e, mesmo se falharmos na tentativa, nosso povo de cem milhões de pessoas está pronto para morrer pela honra, glorificando os atos dos japoneses gravados na história".

O general Umezu concordou e anunciou: "Devemos continuar a lutar com coragem e achar vida na morte. Esta é a única maneira por meio da qual podemos honrar tantos bravos homens que já morreram pelo imperador".

“E por quê?", o doutor Nishina pensou. "Nós honramos nossos mortos de guerra empilhando cadáveres em cima deles?" Mas quando o almirante Ugaki começou a cantar o elogio de um esquadrão de aviões-foguete suicida, Nishina guardou seus pensamentos para si porque ele podia ver muito claramente que permanecer racional e altivo naquele momento era uma maneira rápida de ser dispensado — com a cabeça decepada. Então o corpo ouviu e conteve sua língua, e enquanto isso o ministro da Guerra e o ministro das Relações Exteriores discutiam com eufemismos políticos se a guerra realmente estava se tornado "desfavorável" ou apenas "não necessariamente desejável" enquanto Urakami e Nagasaki ardiam.


LONGE, AO SUL DE TÓQUIO, nas planícies ainda fumegantes de Hiroshima, Gen, o garoto que foi salvo de uma pira funerária por um soldado conhecido apenas como "Senhor", encontrou o chapéu de um bombeiro morto e o usou para cobrir os sinais que denunciavam a "Doença X".

Desde bem cedo na manhã, o cabelo de Gen tinha começado a cair em grandes tufos. Ele sabia que o chapéu não servia para muito: sua mãe certamente notaria o quão doente ele estava ficando. Então Gen saiu discretamente do barraco de chapa de metal que ele tinha ajudado sua mãe a construir e recomeçou sua busca por comida.

Atrás dos alicerces do castelo de Hiroshima e das ruínas do Hospital de Comunicações, Gen descobriu fardos de arroz carbonizado ainda empilhados ordenadamente, apesar de o depósito do exército no qual as pilhas estavam parecer ter sido levantado do chão e transportado para longe. Fraco e com dor, ele cavou um buraco nas sacas, tentando encontrar algo ainda comestível. Pacotes açúcar se tornaram um caramelo amarronzado, do tom do âmbar, preservando grãos de arroz negro junto de algumas das vítimas de Hiroshima — grossos grumos de formigas que em seus últimos segundos de vida deveriam ter corrido, uma após a outra, para da lava doce derretida.

A mãe de Gen já tinha lhe contado uma cena parecida. Durante aqueles dez últimos minutos antes do pika-don, ela observara centenas, se não milhares de formigas, saindo em fila da horta e para casa. Uma das últimas coisas que ela ouviu o irmão menor de Gen, Senji, dizer, era que ele nunca tinha visto tantas formigas.

As formigas fossilizadas não preocupavam Gen. Ele apenas as guardou em sua memória e continuou procurando comida. Abaixo da camada de formigas fritas e de caramelo duro, o arroz que ele encontrou não estava mais escuro por ter sido carbonizado. Dessa vez, o escurecimento parecia ter sido causado pelo vazamento de chuva negra e por mofo negro. Abaixo da camada de mofo, ele penetrou em outra que estava pouco umedecida pelo vazamento, e apenas um pouco fervida pelo calor — e lá o arroz parecia bem comestível.
Gen encontrou algumas latas de pintura queimadas e as encheu com quanto arroz pudesse carregar, e também com blocos de formigas caramelizadas.

Enquanto caminhava, Gen provou os grãos de arroz e o arroz marrom-escuro. Mesmo com as formigas mortas e com um ranço de carvão, e apesar das persistentes ondas de náusea e calafrios, o primeiro açúcar que ele provou durante uma infância de racionamento severo era muito delicioso para ser descrito em palavras.

A caminho de casa, ele viu pilhas de ossos de dois metros de altura ao redor das piras funerárias do exército. Essas cenas não o impressionavam mais; em apenas três dias, ele tinha se acostumado a ossos e cadáveres. Enquanto um pedaço da "bala de formigas de Hiroshima" se dissolvia em sua língua, o estudante aprendeu, com ama fascinação lúgubre, que o corpo humano queimava como frutos do mar cozidos demais. Quando as chamas queimavam os mortos, parecia que aumentavam e se mantinham constantes — "como lula na grelha".

As piras do exército continuariam a queimar por quase um mês.

A comida que Gen levou para casa veio de um quartel do exército muito próximo ao hipocentro e que fora inundado pela chuva negra. A maioria dos elementos radioativos têm uma vida tão curta que desaparecem e se dissipam em algumas horas, mas os isótopos de iodo têm uma meia-vida de oito dias e o estrôncio-90 ainda retém metade de sua potência original após trinta dias. O mais raro e menos ativo plutônio gerado pela fissão do urânio irradia-se pela carne mais lentamente e de um modo um pouco menos grave que o iodo-131 e o estrôncio-90. A sua taxa de decomposição de meia--vida é de 24 mil anos.

Gen não tinha como saber que a comida que ele estava levando para sua mãe, em casa, estava infestada de uma morte lenta.

Os doutores Alvarez e Urey imaginavam ainda que a chuva negra, radioativa, lançada sobre uma cidade ou córrego se diluía pouco a pouco a cada chuva que passasse, como tinta derramada na água. Não era assim que acontecia. A chuva tinha um hábito sorrateiro de se esconder nos sistemas biológicos. A situação de Gen poderia então ser descrita por uma aritmética biológica de uma simplicidade assustadora: se três microgramas de iodo-131 fossem misturados a três litros de água, poder-se-ia dizer, mesmo, que três microgramas do isótopo (em forma líquida) tinham sido diluídos uniformemente na água. Contudo, se aqueles mesmos três litros de água contaminada com partículas radioativas fossem colocados num lago e atravessassem os tecidos vivos de um peixe, possivelmente uma pessoa que estivesse monitorando a água expelida pelo peixe poderia supor que o iodo se diluía, e que a água que saía era menos radioativa que a água que entrara, de modo que o lago poluído estava ficando mais limpo sozinho. Na realidade, quase todos os três microgramas críticos de iodo radioativo teriam sido absorvidos por todos os peixes, de modo que uma pessoa que comesse três peixes expostos a essa mesma condição (de três microgramas cada um) absorveria cerca de nove microgramas de iodo-131 concentrando-o em sua maior pane, como é o caso com qualquer tipo de iodo, em sua glândula tireoide-

O mesmo princípio de absorção e concentração se aplicava ao arroz e ao açúcar manchados de chuva radioativa que Gen trouxe das ruínas para sua mãe. O plutônio, como o iodo, tendia a ficar preso em sistemas vivos; concentrava-se nos pulmões, fígado e ossos, expondo as células do entorno a uma radiação de longa duração. Apesar de o elemento nem existir na Terra até que os humanos o criaram, o maquinário químico do corpo era facilmente enganado agarrar o plutônio, frequentemente confundindo-o com cálcio, ferro e outras vitaminas permitindo dessa maneira que a radiação migrasse até as glândulas que produzem leite materno — dando prioridade glândulas mamárias se a mãe estivesse amamentando.

A irmã pequena de Gen, Tomoko, tinha apenas três dias de idade; nascera na noite de 6 de agosto. A falta de comida fez o leite de sua mãe secar; e a preocupação mais imediata de Gen era providenciar boa alimentação a sua mãe, para que ela voltasse a produzir leite para a pequena Tomoko.

O arroz e o açúcar depois de um tempo funcionaram, mas a irmãzinha de Gen, "chorando até a morte", ele contaria mais tarde, "morreu como uma vela se consumindo". A criança foi condenada pelo ar que já tinha respirado, condenada pelo leite que estava por beber.


ALGUMAS HORAS DEPOIS do almoço, o cavalo do doutor Hachiya morreu. O Hospital de Comunicações tinha, em vez de um companheiro, um suprimento constante de proteína que podia ser cozido, secado e racionado por vários dias.

Enquanto mais pacientes cambaleavam até o hospital, mais e mais deles foram mandados para o pavilhão de isolamento.

Enquanto isso, Hachiya ficou satisfeito em descobrir que, ao recobrar seu apetite e saúde, sua curiosidade científica também estava reavivando. Os outros médicos sobreviventes e ele já estavam dividindo os contaminados (ou "infectados") em três grupos da

Doença X:


1. Aqueles com náusea, vômitos e diarreia que estavam melhorando.

2. Aqueles com os mesmos sintomas, que nem melhoravam nem pioravam.

3. Aqueles que estavam piorando com sintomas adicionais, incluindo perda de cabelo, calafrios e febre hemorrágica.
A maioria daqueles no terceiro grupo parecia ter uma tendência assustadora à morte súbita.

Da perspectiva do doutor Hachiya, nem a Doença X nem nada mais que tivesse a ver com a bomba atômica parecia se comportar de acordo com as leis naturais. Pelo menos dois dos novatos no hospital tinham vidro em seus pulmões. Hachiya não acreditou até que um colega lhe trouxe um dos pacientes. Sentado em sua própria cama de doente, o médico auscultou pelo estetoscópio e ouviu as pequenas lascas de vidro fazendo ruído quando o paciente inspirava profundamente — várias lascas. Ele não podia imaginar que força aquele homem teria feito para inalar tanto vidro, tampouco como ele conseguia continuar vivo em tal condição.

"Definitivamente, um mistério", o doutor Hachiya concluiu, e então tentou esquecer isso e dormir um pouco. Ele imaginava que o sono poderia vir se tornasse sua cama mais confortável, mas sua cama era um pouco mais que um ninho num estrado queimado. Engrossar um colchão improvisado com as páginas de um livro não seria o suficiente para ajudá-lo a deitar e desligar-se do que vira nos últimos três dias. As horas passavam e Hachiya não conseguia parar de pensar. Todas as vezes que começava a cochilar, era imediatamente despertado pelos gemidos intermináveis que vinham do andar de baixo, marcados por gritos ocasionais.

Um desses gritos veio da mulher de um médico chamado Harada. O médico tinha morrido subitamente em seu pavilhão de isolamento. A enfermeira Hinda, que parecia ter uma boa saúde até os vômitos e a diarréia começarem, também morreu no mesmo pavilhão.

Eles deram uma das camas livres a uma garotinha que ficara órfã depois da bomba. Os gritos da criança, que chamava por sua mãe, mantiveram Hachiya acordado por boa parte da noite — até que cessaram. Se qualquer sobrevivente de Nagasaki pudesse se sentir por algumas horas na beira da cama do doutor Hachiya e olhar ao redor, teria percebido, para seu horror, que o que o médico via e ouvia era o seu futuro também.
OS ESCOMBROS NAS RUAS e as infinitas filas sem rumo de pessoas-jacaré fizeram o carro do prefeito Nishioka parar na saída do subúrbio de Isahaya. A oito quilômetros do hipocentro de Urakami, centenas de pessoas jaziam mortas sob seus olhos. Soldados empilhavam cadáveres no espaço aberto mais próximo, transformando uma escola primária num crematório improvisado.

O carro do prefeito tinha um dos poucos rádios em funcionamento na cidade. Um locutor do governo tentava assegurar à nação que Tóquio estava ciente do problema em Nagasaki. O ministro da Guerra reconhecera um ataque a civis com um novo tipo de bomba que causara "algum dano" à cidade, fazendo mais de cem vítimas. Mais tarde, naquele mesmo dia, Tóquio revisaria o número para quase quinhentas almas.


Três vezes mais perto do hipocentro que o prefeito Nishioka, o mestre fabricante de pipas Morimoto tinha sobrevivido, e sabia apenas que dois membros de sua família ainda estavam vivos. Ele não teria sobrevivido se não fossem os bancos de nuvens que levaram o alvo para longe de sua casa, para quase 2,5 quilômetros mais ao norte, na direção do estádio de Urakami. Ainda assim, dois de seus parentes estavam perdidos em Hiroshima, e agora mais oito em Urakami. Um deles estava trabalhando perto do marido de José Matsou no abrigo do prefeito Nishioka. Agora, e para sempre, ele simplesmente seria um dos nomes da lista dos "desaparecidos".

No Momento Zero, Morimoto contava a sua mulher sobre o que ele testemunhara em Hiroshima. "Primeiro veio um clarão azul que cegava."

Um clarão duplo cortou suas palavras, primeiro vermelho e depois azul, em seguida enchendo a loja de pipas de um clarão amarelo opaco. Agindo por puro reflexo, Morimoto agarrou seu filho e empurrou sua mulher com o corpo, escada abaixo, para um porão de suprimentos, não um abrigo contra bombas. Para não se arriscar, fechou a pesada porta do alçapão e protegeu a mulher e o filho com o corpo. O trovão explodiu imediatamente sobre suas cabeças.

"Por pouco", Morimoto disse a si mesmo. Ele não entendia exatamente o quão pouco até que saiu do porão. Toda a parte superior da loja fora quebrada ao meio, transportada para longe e lançada sobre uma casa do outro lado da rua. Ainda havia um fogão no seu antigo lugar, com um bule de chá em cima, mas todo o resto parecia ter sido arrancado do prédio e levado com as nuvens. Envelopes com seu nome, tiras de papel de pipa queimado, flutuavam junto com o papel de todos os prédios, de escritórios da região, ao longo de uma trilha de escombros que se estenderia por 25 quilômetros ao norte e ao leste.

Apesar de todas as suas privações recentes, Morimoto era um homem de sorte. Sua loja estava localizada no que se converteu numa cratera entre as tempestades de fogo e as chuvas radioativas. Apesar de dez pessoas de sua família estarem desaparecidas, Morimoto, a mulher e o filho não sofreram queimaduras ou ferimentos além dos hematomas de quando caíram no porão. Fora a náusea que sentira na viagem de trem de Hiroshima, Morimoto tinha escapado à Doença X, e sua mulher e filho também escapariam.

Como Yamaguchi observara, às vezes as coisas davam certo. No futuro, Shigeyoshi Morimoto veria os filhos e depois os netos empinarem suas pipas sobre uma cidade destinada a ter a fênix como símbolo.


O ASSISTENTE DE MORIMOTO, DOI, parecia compartilhar essa improvável "sorte de sorte de principiante". Embora ainda estivesse lutando contra os calafrios e a náusea de Hiroshima, Doi e sua família, como os dois filhos do doutor Nagai, estavam estavam protegidos pela sombra de uma montanha quando a bomba explodiu, a 3.700 metros de distância.

Como Morimoto, no momento crítico o aprendiz de fabricante de pipas também estava explicando o que acontecera em Hiroshima à sua mulher e sua filha. Sem poder prever o perigo iminente, deixara o filho de 9 anos brincar no pátio do templo budista ao lado de casa.

"Se vocês virem o clarão branco", Doi ressaltou e à mulher e filha pela terceira ou quarta vez, "devem imediatamente se jogar no chão. E o que quer que façam — o que quer que façam, não olhem em direção ao clarão".

A filha de Doi estava impaciente e perguntou se podia ir até o córrego, onde outras crianças do bairro planejavam tomar banho.

O clarão interrompeu sua pergunta, cortando o céu, e brilhando pelas vidraças como se centenas de lanternas tivessem apontado subitamente na direção daquela sala.

"É disso que estou falando!", mas Doi gritou. Sua mulher deu um salto e começou a correr na direção do pátio do templo, mas Doi a fez tropeçar no chão e puxou sua filha para baixo, enquanto a onda de choque sacudia o chalé, rachava as janelas e fazia buracos nas portas corrediças de papel.

Como os filhos de Nagai, Doi não imaginava que do outro lado da alta serra de Kawabira havia uma taxa de mortalidade de 80% e uma devastação completa. Ele encontrou seu filho escondido no prédio principal do templo ainda um pouco aturdido, com os olhos arregalados, voltados em direção a uma estátua da Mãe da Misericórdia. Ele não estava ferido. Tinha se encasulado em um canto contra o choque. O único perigo real a que se submetera parecia ser a metade superior de um relógio de pêndulo que caiu como que das nuvens e se arrebentou no pátio do templo como se fosse um meteorito. O relógio foi rapidamente seguido por uma curiosa chuva de bolas de golfe e raquetes de tênis... e, minutos mais tarde, por uma nevasca de papel.
APENAS ALGUNS QUILÔMETROS de Doi, o amigo do engenheiro naval Yamaguchi, Akira, caminhava ao longo das encostas queimadas dos montes Kawabira e Kompira. Ele acabava de descobrir que o calor radioativo do ciclone de Urakami não o deixava chegar a mais de 1,6 quilômetro do estádio e do hipocentro. No lado do rio, os pés do monte Kawabira eram atravessados por cinco túneis, cada qual abrigando alguma parte das fábricas de aviões e de munições da Mitsubishi — incluindo duas rampas para catapultar os caças remanescentes no país durante a já antecipada invasão da frota americana. Os trabalhadores que estavam do lado de fora dos túneis foram carbonizados, e mesmo aqueles do lado de dentro pareciam ter sido queimados e sufocados pela explosão. Toda a vegetação desaparecera, exceto pelos troncos enegrecidos das árvores, tombadas na mesma direção.

Akira desistiu da ideia de voltar ao escritório da Mitsubishi e seguiu em frente, na direção em que as árvores apontavam, indo até o topo do monte Kawabira, na esperança de poder avaliar o estrago de cima. No caminho até o topo do Kawabira o seguia Masao, o segundo assistente do fabricante de pipas que viera de Hiroshima no mesmo trem que Akira, e saíra do acidente sem ferimentos.

Quando o par de duplos sobreviventes chegou ao cume do Kawabira, as nuvens eram tão escuras que a luz do sol parecia ter não mais que a intensidade de uma lua cheia. O outro lado do vale, a parte localizada fora da sombra do Kawabira, e que portanto recebeu o clarão total parecia a Akira gravemente destruído e incandescente. Mas as pessoas estavam formando brigadas de baldes córrego abaixo e todas as casas do lado da sombra estavam de pé, como se nada houvesse acontecido. Nada mesmo.

Akira deixou Masao sem se despedir, e começou a caminhar na direção da grama verde e do córrego que ainda fluía, jurando, a cada passo doloroso e a cada pausa para vomitar, que, se conseguisse sair vivo dessa guerra, nunca mais voltaria a Urakami. a Hiroshima, a Mitsubishi ou à marinha.

Com o tempo, os surtos da doença da bomba atômica passariam, e Akira teria uma longa vida na qual evoluiria de engenheiro de navios de guerra a defensor da paz. Com seu amigo Yamaguchi e de um físico americano que certa vez projetara admiráveis bombas novas, ele teria um sonho simbólico, simples, mas impossível, de que países com armas nucleares somente poderiam ser governados por mães que ainda estivessem amamentando e defendendo seus bebês.
"No FIM, TUDO O QUE PODEMOS FAZER é rezar", disse um dos irmãos jesuítas ao doutor Akizuki. Embora fosse budista, Akizuk o compreendeu.

Naquele momento, a fumaça negra que se erguia de Urakami não tinha para onde ir. Assim como os lados de uma banheira contêm a água, os morros dos dois lados do vale continham a fumaça. Com correntes de vento sendo atraídas para o norte e para o sul, a única maneira de sair do vale seria inundando suas paredes. A maior parte da fumaça se acumulou no alto, bloqueando o sol. A fonte mais próxima e mais forte de iluminação era o hospital em chamas. Sua chama ardia tão intensamente que dava para ler sob sua luz.

Um depósito próximo parecia estar razoavelmente intacto. Akizuki e Nagai acreditavam que o teto de metal ofereceria abrigo adequado contra a neve de cinza, que, pouco a pouco, parem irritar os pulmões da doutora Yoshioka e das outras vítimas queimaduras a tal ponto que os espaços abertos ao lado do morro e as ruas estavam começando a soar como o maior pavilhão de enfisema do mundo.

Os jesuítas ajudaram o doutor Akizuki a espalhar esteiras no chão de concreto do depósito e a transportar a doutora Yoshioka para lá. Akizuki removeu os curativos de seu rosto, cuidadosamente, e limpou suas feridas uma segunda vez. Ele esperava que ela não percebesse a pena e o medo estampados em seus olhos. Estilhaços de vidro e madeira, e mesmo vários fragmentos de galhos, tinham perfurado a pele da doutora. Akizuki agradecia a todos os deuses pelo rosto da doutora Yoshioka estar completamente coberto de gaze quando sua mãe chegou, vinda de uma cidade protegida pela sombra do outro lado do morro.

Você agiu com nobreza", ela disse ao doutor Akizuki, ao ver sua filha cheia de ataduras — e, felizmente, ainda viva.

Akizuki olhou para baixo e balançou a cabeça, devagar. "Você não entende", ele disse, suavemente. "Sou o responsável pelos ferimentos dela".


DOUTOR PAUL NAGAI viveria tempo suficiente para observar que a bomba atômica não quebrou apenas o concreto e o aço. Rompeu as almas humanas com igual facilidade e indiferença.

A sobrinha de Nagai, Tatsue, nunca se perdoaria por ter ficado com Kayano e Makoto no córrego protegido pela montanha após ter visto a bola de fogo se erguer em Urakami. Tatsue gostaria de ter estado com sua mãe do outro lado do monte Kawabira, para pelo menos oferecer-lhe conforto nos momentos finais. E não importava quantas vezes Paul Nagai explicasse à garota que, mesmo se houvesse um tipo de mágica que lhe permitisse ser transportada por meio de um ciclone de chamas até o lado de sua mãe, o máximo que ela poderia esperar era transformar-se em mais uma das manchas escuras arrastadas pelas correntes de cinzas de Urakami. Ainda assim, ela adicionou ao peso da morte da mãe a falsa culpa de não ter sido corajosa.

No dia em que Urakami explodiu, o irmão de Tatsue havia escapado de Saipan e sobrevivido numa balsa em alto mar com todo um lado do corpo queimado, e sem os dedos de uma mão. O que o manteve vivo era o pensamento de voltar para casa e ver a mãe e a

irmã novamente. Ele nunca pediria a Tatsue que contasse os detalhes da morte da mãe, mas a bomba vinha começando a causar rachaduras invisíveis nos laços entre irmão e irmã desde o Momento Zero.

Mesmo os laços entre mãe e filho não eram imunes.

Tatsue nem se esqueceria nem conseguiria perdoar a maneira como sua pequena prima Eiko morrera. Nunca mais ela se referiria à mãe de Eiko por outro nome exceto o de "Tia Magrela".

A tia, como Tatsue, fora protegida pelas sombras do monte Kawabira e pelos 366 metros do Kompira. Ao contrário de Tatsue, a Tia Magrela correu para o outro lado, ansiosa por encontrar a escola de Urakami onde tinha visto sua filha de 8 anos pela última vez.

Em algum lugar depois da escola arrasada, depois da massa emaranhada de ferros de grades de prisão, além do homem-jacaré morto, ela ouviu Eiko chamá-la de um dos túneis.

Todas as outras garotas perto da entrada do túnel pareciam ter sido queimadas e esmagadas como insetos. A maioria delas não parecia mais ter forma humana, assim como Eiko. Seus olhos tinham sido protegidos, mas o restante do rosto era uma enorme bolha e a frente de seu corpo era como um couro de crocodilo enegrecido.

"Minha filha se transformou num monstro!", a Tia Magreza contaria a Tatsue — outra vez tentando explicar tudo, pensando que Tatsue de alguma forma a entenderia.

Pela maneira como a Tia Magrela falara, Eiko sabia que iria morrer; mas estava tão feliz em ver sua mãe de novo que até parecia reviver. Tatsue acreditava que a Tia Magrela tivesse medo que o monstro sobrevivesse.

"Mãe!", Eiko dissera, "eu não podia caminhar muito. chegar até você. Por favor, cubra-me. Tenho frio."

A mãe ficou parada e disse: "Espere um minuto. Eu vou encontrar algo para aquecê-la. Espere só um minuto — ".

E então ela fugiu, assombrada pelo resto de sua vida com a imagem da pequena Eiko tremendo sozinha no escuro, atormentando-a para sempre com seus gritos "Mãe... Mãe...".

"Mas Eiko era um monstro", a Tia Magrela queria explicar, mas Tatsue ficou tão insultada com a atitude da mulher que nunca poderia compreendê-la.

“Os monstros de verdade", Tatsue diria ao tio Paul Nagai, "se parecem conosco".

“Talvez os santos também", ela mais tarde afirmaria. Horas depois da fuga da Tia Magrela, um pai que procurava por seu filho nos abrigos encontrou Eiko ainda viva e a manteve aquecida até a morte chegar, na manhã seguinte. Eiko viveu muito mais do que provavelmente deveria, chamando pela mãe o tempo todo. O estranho que cuidou da criança em suas horas finais como se fosse sua filha deu-lhe um enterro católico perto das ruínas da catedral de Urakami e do Hospital São Francisco, assegurando-se de que o nome da pequena Eiko fosse gravado numa pedra.

Cinco anos mais tarde, em seu depoimento para o memorial, Tatsue diria que sempre que sua tia falava sobre aquele dia, com o passar do tempo, ela "consertaria" a parte sobre como Eiko morreu. A cada mês que passava, ela pedia a Tatsue que visitasse o túmulo de Eiko por ela, porque, evidentemente, não queria estar ela mesma diante da filha.

"Ela tentava ser minha amiga", Tatsue contaria aos historiadores. "Mas não me deixei levar. Sabia perfeitamente bem que, se uma coisa dessas acontecesse de novo, ela me deixaria assim como deixou a Eiko. Eu a tratava com respeito, mas no fundo a detestava. Ainda assim, quem era eu para detestá-la, negligenciando minha própria mãe? Eu me detesto. Eu me odeio!"

Em sua mensagem no memorial da paz, Paul Nagai conta que a Tia Magrela acabou por perder a razão e começou a correr nas ruas, assustando garotinhas, tentando derrubá-las no chão ou mesmo agarrá-las. Tatsue e Nagai não tinham dúvidas de que todas as garotam a faziam lembrar-se de Eiko. Àquela altura, o irmão de Tatsue começou a insultá-la com xingamentos a respeito da morte de sua mãe, depois golpeava-a com socos para quebrar seus ossos. Por isso Tatsue jurou matá-lo — onde quer que estivesse — se ele tentasse se aproximar dela novamente.

As fissuras que se formaram no hipocentro ainda ficaram presentes muitos anos depois. "Mas eu não estou falando sobre rachaduras no chão", disse Paul Nagai. "Eu me refiro às rachaduras invisíveis nas relações pessoais dos sobreviventes daquela desolada terra atômica. Estas fendas nos laços de amizade e amor não fecharam com o tempo; ao contrário, parecem se tornar cada vez maiores e mais profundas. De todo o dano que a bomba atômica causou, esse é de longe o mais cruel."
QUANDO A NOITE CAIU sobre o monte Kompira, o pai do doutor Akizuki apareceu vivo com sua mãe. Seus rostos sorridentes pareciam-lhe uma imagem saída de um sonho.

"Você não se machucou!", disse a senhora Akizuki. Depois de tantos encontros com a morte naquele dia, cada um pensava que o outro estivesse morto.

O pai do doutor Akizuki começou a descrever um tour de terror e estranhas maravilhas que começavam com um desvio antes do pika até uma Corte de Justiça no distrito de negócios do centro de Nagasaki. A corte estava localizada atrás de um morro protetor, mais de cinco quilômetros ao sul do hipocentro de Urakami. Ás 11h02, o pai de Akizuki viu um clarão do lado de fora das janelas e, alguns segundos depois, sentiu o prédio tremer. O barulho da explosão foi tão alto que ele esperava ver pelo menos parte da Corte de Justiça derrubada por uma bomba de meia tonelada. Entretanto não havia muito estrago, ao menos aparentemente. Mesmo algumas janelas estavam intactas.

Ao caminhar na direção das chamas e da fumaça de Urakami, o pai de Akizuki teve ainda mais certeza de que seu filho não poderia estar vivo. Pelo menos doze quilômetros quadrados de chamas o forçaram a tomar um caminho mais longo pelo norte de Nagasaki e ao sul de Urakami, levando-o a atravessar pelo leste, da serra do Kawabira até a formação em sela do monte Kompira. Lá, no topo do Kompira, ele observou o ciclone de Urakami levantar-se periodicamente no mar de fumaça preta. Por muito tempo, a visão o manteve enraizado no chão. Nunca tinha visto ou ouvido nada igual.

Cambaleando, ele perguntava às pessoas que chegavam o que tinha acontecido, se o hospital de Urakami ainda estava em pé.

Súplicas por água e ajuda foram as únicas respostas.


Quando o senhor Akizuki viu o hospital em chamas e finalmente conseguiu ter coragem para ir até lá, ele preparou-se para sua última tarefa como pai: procurar os ossos de Tatsuichiro. Para sua surpresa, ele e a mulher encontraram o filho sem ferimentos.

"E agora", o pai disse, enquanto olhava para baixo e percebia que sua casa de quatro gerações não estava mais lá, "agora eu não peço mais nada".

Naquela noite, o pai juntou-se à mulher e ao filho para oferecer algum conforto aos feridos. Àquela altura, todos os remédios e curativos tinham sido queimados ou utilizados, sobrando muito pouco para amenizar a dor, nada além de palavras de conforto, uma mão gentil ou um lugar para descansar no gramado. Os pacientes, duzentos ou trezentos deles, dormiam, choravam ou sangravam sob o céu sem estrelas.

Ao se aproximar a meia-noite, o ciclone enfraqueceu, tornando-se apenas um mar de chamas. Lá no fundo, a fumaça negra se cindia ao meio como se fosse o mar Vermelho. Percebendo que subitamente a paisagem estava mais clara à meia-noite do que ao meio-dia, o doutor Akizuki e seu pai se detiveram e observaram.

Do outro lado do rio, os contornos das ruínas de vários prédios grandes de Urakami podiam ser vistos dentro das chamas. Deste lado, na direção da escola de meninas Yosé, tudo o que sobrou de uma escola de engenharia — uma elevada estrutura de metal —parecia oscilar de um amarelo-alaranjado a um vermelho intenso, de onde surgiam as lagartas de fogo. A estrutura tombou ao chão lentamente, como se fosse um grande navio afundando.

"Roma está caindo", observou o doutor Akizuki.

"O quê?", seu pai perguntou.

"É assim que acaba", ele disse. "O império foi consumido em chamas."


APROXIMADAMENTE VINTE MINUTOS antes da meia-noite, Hirohito, o 124º imperador do Japão, adentrou a sala de conferência e sentou-se à frente de Togo, o ministro das Relações Exteriores. Ele era um homem magro, introvertido e nervoso, cujo reinado tinha começado aos 26 anos e já durara dezoito anos.

O imperador era uma figura religiosa, e dizia-se que descendia diretamente da Deusa do Sol. Naquele momento, o doutor Nishina e os outros físicos acreditavam que o Sol já tocara a Terra duas vezes.

Togo e Anami, representando seus respectivos lados da mesa, estavam igualmente firmes em seus propósitos sobre conceder os termos de rendição ou continuar a luta. Segundo relatos, o debate manteve-se por mais de duas horas, cada lado repetindo os mesmos argumentos da hora anterior, e da hora antes daquela, às vezes palavra por palavra. O imperador escutava tudo e calmamente fazia anotações num bloco de folhas brancas.

Finalmente, em torno das 2h10, Hirohito se levantou e a maioria dos presentes escutou seu governante — que usava óculos e parecia um faraó —, falar pela primeira vez. Sua voz era surpreendentemente humana, muito suave e de tom alto.

O ministro Togo ditaria as palavras a seu genro um pouco mais tarde, naquela manhã, para que fossem gravadas na História com frescor e precisão. Segundo Togo, o último imperador-deidade da história anunciara: "Concluí que continuar a guerra significa a destruição da nação, a prolongação do derramamento de sangue e da crueldade no mundo".

Seus olhos percorreram o teto, na direção do céu, a leste, enquanto falava.

Segundo Togo, o secretário de gabinete Hisatsune Sakomizu teve que se conter para não berrar: "Agora entendemos os desejos de Vossa Majestade! Por favor, Majestade, não se digne a dizer mais uma só palavra!".

"Não preciso dizer o quão insuportável é, para mim, ver desarmados os bravos e leais guerreiros do Japão", o imperador disse, sem interrupção. "É igualmente insuportável que outros que me têm rendido devotado serviço sejam punidos como provocadores da guerra. Contudo, chegou o tempo em que devemos suportar o insuportável."

Ele baixou os olhos do teto e olhou para Togo, que baixou a cabeça, porque, pela tradição, era proibido olhar nos olhos do imperador.

"Neste momento, engulo minhas próprias lágrimas", Hirohito disse, e anunciou a intenção de dar sanção oficial à proposta do ministro das Relações Exteriores de enviar uma mensagem ao presidente americano, para certificar-se sobre os termos finais de rendição do inimigo.


NAQUELA MESMA MANHÃ, Charles Sweeney despertou em Tinian com as notícias de que ainda não havia nenhuma reação de Tóquio. Aparentemente, a resposta permaneceu mokusatu, o que significa “tratar com silencioso desprezo".

Depois do café da manhã, Tibbets, Sweeney e os outros membros das duas missões foram chamados para tirar fotos com o grupo na frente de seus aviões, e dar entrevistas a fim de registrar suas idéias.

Estávamos todos duros para a foto, Sweeney se lembra. Narramos todos os fatos em jargão militar: o que, quando e onde.

Como costumava acontecer, a matemática da situação ocupava o primeiro lugar na mente de Sweeney. Durante os três meses desde que Truman assumira o poder, o avanço final de ilha a ilha, até o território japonês, ganhara impulso. Durante esse mesmo breve intervalo, a própria versão de Tóquio da política de "terra queimada" tinha causado quase a metade de todas as vítimas americanas no Pacífico nos três anos e meio, desde Pearl Harbor. Pelas contas de Sweeney, quanto mais perto estavam da vitória, maior era o custo em vidas americanas. Por essas mesmas contas, a probabilidade de missões de bombas atômicas tornarem-se rotina até outubro parecia muito alta.

A ideia de outra bomba atômica aterrorizava Sweeney. A Robert Lewis também. Apesar de os bombardeios de fogo em Kobe, Osaka e Tóquio terem ceifado mais vidas, a equipe nunca sabia se os incendiários de seu avião realmente mataram alguém. Se a morte os perturbasse mesmo que remotamente, havia quase cinqüenta outros aviões em cada uma das seções de cada um dos ataque. Quer dizer, havia muitos lugares pelos quais espalhar a culpa ou esconde-la. Evidentemente, ninguém se sentia responsável por todos os fogos que via abaixo. Uma maneira de suportar isso era convencer-se de que se estava sempre no melhor avião da esquadrilha, e que suas bombas incendiárias não falhavam em atingir os alvos: tanques de óleo, refinaria e fábricas de munição. Já no caso da bomba atômica, não dava para fazer de conta, muito menos dividir a culpa com alguém. Hiroshima e Nagasaki foram muito mais pessoais, porque cada morte apontava a alguns poucos homens.

Luis Alvarez temia que as armas de megamorte tornassem guerra mais impessoal, e de gosto menos duvidoso. Ninguém podia prever que o oposto se tornaria verdade. Robert Lewis, por exemplo, examinou a foto de "seu" cogumelo atômico com uma mistura de admiração e revolta. "Assim serão as coisas", ele disse, e afirmou já estar com saudade dos "velhos e bons dias dos ataques com cinquenta B-29".

Um pouco antes do almoço, Sweeney recebeu notícias de que a Casa Branca tinha ordenado uma "moratória temporária" aos ataques aéreos com bombas incendiárias. Por toda a ilha de Tinian, havia a esperança de que Truman tivesse enfim recebido uma resposta de Tóquio, e que estava aguardando a rendição do Japão.

Em vez de ser enviado para um ataque com bombas incendiárias, o Bad Penny e o restante de sua esquadrilha iriam largar outros milhões de notas falsas com advertências sobre a rendição ou a destruição total. As novas mensagens eram mais curtas e diretas que as anteriores — "escritas para lançar as notícias como dardos envenenados", disseram às tropas. Alguns dos panfletos tinham parágrafos parecidos a haikais. As traduções eram de arrepiar. As ameaças de morte, de tão bem escritas, pareciam poemas de Edgar Allan Poe.

Dessa vez, a força aérea tinha contado com a ajuda de um lendário escritor da marinha, expert em cartas de amor, e de um prisioneiro de um campo de guerra japonês recentemente libertado. Ele não deixava de produzir escritos com ódio tanto sobre seus captores quanto sobre seus ancestrais e descendentes. Dizia que as bombas atômicas eram um "controle de pragas". O último da lista da força aérea chamava-se James Clavell. Nos anos futuros, Clavell continuaria obcecado em fazer as pazes com a História, buscando aprender tudo que pudesse sobre o Japão dos tempos contemporâneos a antiguidade. Depois de escrever o romance semiautobiográfico Rei Rato, ele publicaria uma obra-prima intitulada Xogun (embora seja mais lembrado pelo roteiro do filme A mosca). Este que se tornou escritor de cartas de amor e de antologias românticas, antes era um quaker, e, durante seu tempo no Pacífico Sul, veio a se envolver no que seria um controverso romance interracial para a época. Sendo um quaker, James Michener estava dispensado de atirar nos aviões do imperador; mas, em vez disso, ele se ofereceu para ameaçar Hirohito com a aniquilação nuclear. Nas horas de folga, Michener começou a escrever o primeiro esboço de um livro sobre a guerra do Paciifico, que se transformaria no musical Pacífico Sul.

Enquanto Charles Sweeney esperava pelo fim da guerra, uma onda de intriga, rebelião e suicídio irrompeu em Tóquio, e o imperador ficou mais isolado do restante do mundo do que antes, forçado a se trancafiar num canto escondido do palácio com alguns poucos soldados de confiança.

Ao mesmo tempo que o imperador Hirohito gravava secretamente duas cópias de sua rendição em discos fonográficos, um almirante chamado Ugaki — que apoiava o ministro da Guerra Anami e o marechal de campo Hata contra a rendição — ordenou que sete bombardeiros fossem carregados com os explosivos mais fortes que pudessem ser levados numa viagem só de ida. Como Okinawa supostamente era a fonte das bombas atômicas, Ugaki teceu o plano de um ataque kamikaze, usando o que ele acreditava serem as maiores bombas arrasa-quarteirão jamais fabricadas.

O almirante esperava que, com seu brilhante exemplo, inspirasse seguidores a continuar a luta com mais aviões convertidos em superbombas guiadas por foguetes.

A essa altura, por ordens de Hirohito executadas pelo ministro Togo, mais da metade das fábricas de munição do país já tinha sido desativada. Quanto aos foguetes às costas de Ugaki — que em teoria teriam transformado seu avião num alvo impossível de deter durante o mergulho final até Okinawa —, a combinação destes com um bombardeiro movido a hélices já tinha sido descrita pelos engenheiros do almirante como "tecnologicamente prematura". O melhor que o almirante Ugaki podia esperar era atravessar a barreira de som em sua abordagem final. Entretanto com as hélices atingindo ar supersônico nos dois lados da cabina do piloto, isso poderia não funcionar tão bem quanto o almirante esperava.

A última palavra que se ouviu de Ugaki foi uma declaração de que tinha o alvo à vista e que o esquadrão estava pronto para "acender as velas" e lançarem-se sobre os hangares de Okinawa.

Os fogos de artifício ao norte da ilha foram tímidos e não fizeram muito estardalhaço, dada a distância de pelo menos 24 quilômetros. Os relatórios militares americanos não chegaram a registrar ataques kamikaze nem naquele dia nem no seguinte — nem

Okinawa, nem em outro lugar.

Os aviões do almirante Ugaki simplesmente voaram em formação rumo à lenda e ao mistério, tornando-se um dos esquadrões fantasmas da História.
A FRENTE METEOROLÓGICA que fez Charles Sweeney redirecionar seu alvo no dia anterior se deslocara, trazendo céus perfeitamente claros e prometendo um típico dia de agosto: quente e úmido.

O doutor Paul Nagai e o restante da equipe médica do Hospital São Francisco tinham passado a noite dormindo em filas, em ninhos de grama achatada e papel queimado. Ao acordar, Nagai quase acreditou que os acontecimentos do dia anterior tinham sido apenas um pesadelo, mas, quando olhou para baixo, para aquele deserto selvagem e cinza em que certamente sua mulher morrera, ele aceitou o fato de que a realidade de todo esse mundo tinha mudado numa fração de segundo.

Uma expressão antiga e que antes não tinha sentido veio à mente, parecendo muito irônica e adequada: "Sob as garras do tempo um oceano azul pode se tornar um campo de amoreiras, e uma floresta pode se tornar um mar de gelo".

O mundo de Nagai era uma paisagem de mudanças súbitas atrozes.

Apesar de o esqueleto de aço e concreto ainda estar de pé, o interior do hospital fora destruído pelo fogo. Nos fundos do gramado, o doutor Akizuki e várias enfermeiras improvisavam um fogão de pilhas de tijolos caídos. Eles já tinham começado a preparar refeições para os feridos, com panelas e sacas de arroz levemente queimado que alguém escavara das ruínas.

O córrego atrás do hospital trazia suprimento contínuo de água para a limpeza e para a cozinha, o que fez os sobreviventes se sentirem duplamente abençoados. Nesse dia, aliás, as bênçãos não paravam de chegar. Akizuki e sua mãe estavam preparando um mingau de arroz com leite para vários bebês órfãos, quando o carpinteiro do hospital os chamou animadamente, implorando que o médico o seguisse.

O carpinteiro levou-o a um armazém subterrâneo sob as paredes caídas da cozinha do hospital. O ar embaixo estava insuportavelmente quente e Akizuki tinha certeza de que tudo dentro da caverna deveria estar cozido ou queimado.

“Isto é seguro?", o médico perguntou, e começou a tossir. Num canto, uma pilha de carvão para os fogões da cozinha ardia intensamente.

"Confie em mim", o carpinteiro disse, e levou-o até um canto mais fresco, onde havia duas grandes caixas de madeira intactas.

"Você é uma bênção", Akizuki disse, e surpreendeu o carpinteiro com um poderoso abraço de urso. Quando ouviu falar sobre Hiroshima pela primeira vez, o carpinteiro tinha começado a guardar, feito um esquilo, suprimentos de primeiros socorros nos estoques de carvão e arroz. As caixas de gaze e curativos mais próximas do teto, apesar de levemente marrons por causa dos carvões incandescentes e do edifício em chamas, ainda podiam ser usadas. Mais importante, tinham agido como um cordão de isolamento entre o calor e os remédios abaixo. Os curativos e as gazes não eram nem um centésimo do suprimento médico de que Akizuki necessitaria para os pacientes nos gramados e calçadas. Mas só de ter um pouco de gaze e mercúriocromo em suas mãos, o humor do doutor Akizuki melhorou.

Quando saiu à rua novamente, uma nova fila de andarilhos feridos avançava de Urakami até o topo do morro. Uma mulher fora até onde o ciclone tinha passado na noite anterior, e encontrara seu marido caminhando sem rumo. Ele estava trabalhando em uma das fábricas e ficou abrigado atrás do concreto quando o pika desabou quase diretamente sobre sua cabeça.

A mulher apoiara em seu ombro durante todo o trajeto até o topo do morro. "Ele parece bem", ela disse, "mas de alguma maneira a explosão o feriu."

O médico o examinou para encontrar sinais de fraturas ou de sangramento interno. Exceto por pequenos arranhões e hematomas, o homem do Ground Zero não parecia ter nenhum ferimento. Mas, ainda assim, ele tinha se tornado estranhamente fraco, e nada parecia lhe interessar.

Akizuki se levantou e olhou para baixo, em direção ao Ponto Zero. Tudo abaixo se estendia num panorama de serras e planícies devastadas. Todos os edifícios familiares tinham sido explodidos, interiormente destruídos ou convertidos em pó. Os postes telefônicos pareciam ter tido melhor sorte que os prédios, embora a maioria estivesse pendendo para um lado. Quase nenhuma estrada podia ser identificada, porque as casas e os muros de pedra tinham sido levantados e atirados sobre as ruas. Suspensos pelos fios dos postes de eletricidade havia camadas de roupas queimadas e objetos que pareciam colchões rasgados. Perto do rio, onde os incêndios ainda ardiam e colunas de fumaça subiam aos céus, os esqueletos de ferro dos prédios da Mitsubishi estavam tão torcidos que pareciam campos de junco apanhados numa tempestade.

O vale estava morto. Não havia qualquer sinal de movimento, fosse humano ou animal. Depois de algum tempo, Akizuki deu as costas à cena, inventariou mentalmente as provisões restantes em seu bornal e se dirigiu ao depósito onde estava a doutora Yoshioka. Ele reservara uma das poucas porções de analgésicos que tinha especificamente para ela. Em seu coração, ainda estava convencido de que, ao tê-la mandado ao andar superior para comer algo e descansar antes do pika-don, ele a tinha exposto ao perigo.
Akizuki não encontrou a doutora Yoshioka nem melhor nem pior do que uma hora antes. Trabalhando o mais lentamente que podia, Akizuki adicionou pomadas antibacterianas aos novos curativos. Enquanto trabalhava, pensamentos sobre o homem letárgico do Ground Zero se tornavam cada vez mais insistentes. Começou a achar que algum detalhe importante estava lhe escapando, algum detalhe que não pudesse ser ignorado. O doutor Nagai havia mencionado pelo menos dois casos similares em que as enfermeiras vindas dos sopés dos morros, ainda que sem ferimentos, tinham adoecido gravemente.

E então, por apenas uma vez, o doutor Akizuki sentiu uma cãibra e uma náusea tão grandes que, se durassem dois ou três segundos mais, ele julgava que cairia de joelhos.

O mal-estar foi embora tão rapidamente quanto chegou. Como não voltava, ele deu tudo por espasmo muscular e se esqueceu do que tinha acontecido.

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