O último Trem de Hiroshima



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A LOUCA ÍRIS

De Fukuyama a Hiroshima são 160 quilômetros, e mesmo lá, num raio de mais de cem quilômetros, a explosão pôde ser ouvida. Masuji Ibuse acreditava que, se não fosse pelos morros circundantes, ele certamente teria visto e talvez mesmo sentido os efeitos da bomba.

Estava agradecido pelos morros. Em Mihara, uma cidade a apenas 49 quilômetros de Hiroshima, localizada numa encosta que oferecia aos moradores urna visão privilegiada, o morro deu à onda de choque um pequeno impulso de compressão e reflexão. Testemunhas se desequilibraram com o abalo, e todas as janelas apontando na direção da cidade ficaram rachadas.

Masuji era um escritor e poeta que estava por acaso na casa de um amigo na periferia de Fukuyama. Ele acreditava que a bomba tinha, de alguma maneira, sido responsável pela linda íris púrpura que vira florescer subitamente fora de estação. Quando viu a íris pela primeira vez, por uma janela, não tinha certeza de que pudesse ser urna flor; poderia ser, em vez disso, um pedaço de papel colorido flutuando perto da margem do lago da casa de seu amigo.

Naquela manhã, só os subúrbios de Fukuyama ainda existiam, e parecia possível ao poeta que o papel tivesse sido trazido pelo ar com as cinzas da cidade. Durante a noite, bombardeiros carregados de bombas incendiárias tinham voado sobre o vale como nuvens de gafanhotos gigantes. Quando raiou o dia, Masuji pôde ver, por uma brecha entre os morros, uma coluna de fogo subindo sobre o local onde se erguia uma antiga torre de castelo. A coluna ardia com um brilho tão intenso que, mesmo à luz do dia, um enorme pináculo de calcário era banhado pelo brilho da torre moribunda. O "papel", Masuji pensou, tinha simplesmente caído da fuligem e da fumaça da morte de Fukuyama.

Mas o que é isso, realmente? — Masuji se perguntou. Esse respingo inesperado de cor num mundo que se tornava cada vez mais escuro obcecava o poeta e acabou por levá-lo à beira d'água. E quando finalmente descobriu a origem do mistério, Masuji, que sempre se orgulhou de permanecer estoico e analítico mesmo nas situações mais angustiantes, suspirou horrorizado e deixou escapar um grito de dor.

A mulher sob a água do lago vestia uma linda camisola atada com uma cinta vermelha. Suas longas mangas flutuavam perto da superfície como as barbatanas de um grande peixe dourado. Ela estava de costas, e o objeto púrpura era mesmo uma íris que desabrochara. O caule da flor estava dobrado para um lado, na direção da superfície da água — como se a íris estivesse tentando tocar a bochecha da garota, pensou Masuji.

Masuji Ibuse ficou sabendo depois que a mulher tinha apenas 20 anos. Recrutada para o "trabalho voluntário" pelo conselho da cidade de Fukuyama, ela fora enviada a uma fábrica de munições em Hiroshima; e exceto por uma pequena queimadura numa bochecha, sobrevivera sem ferimentos visíveis enquanto navegava um mar de mortos — alguns ainda se mexiam —, em seu caminho até a estação Koi e ao último trem para Fukuyama, onde morava. As bombas incendiárias chegaram menos de uma hora depois — e ela parecia ter escapado deles sem dano físico também.

O policial que veio examinar o corpo encontrou as sandálias da mulher perto da beira d'água. Ela parecia ter vindo correndo da cidade em chamas. Sem sinais de esforço ou hesitação, se deitou e submergiu, exalando todo o ar dos pulmões e inalando água deliberadamente.

Mesmo enquanto o policial explicava a teoria de uma mulher que tinha enlouquecido de medo, a íris com o caule estranhamente torcido e os botões fora de época mantinham Masuji fascinado.

“Você acha que a íris floresceu de medo?", o poeta perguntou.

“É extraordinário", ele respondeu. "Nunca vi uma íris florescer tão tarde. Deve ter enlouquecido."

Uma análise adequada, Masuji disse a si mesmo, e completou: “Que a íris floresça neste lago é realmente uma loucura, e faz parte de uma época louca".

“NÃO PODE SER", disse o general Seizo Arisue ao piloto. O avião do chefe da Inteligência voou sobre as ruínas antes da aeronave do doutor Nishina — e mesmo depois de ter circulado duas vezes, nada embaixo, exceto a geografia dos rios, parecia fazer sentido.

O general Arisue tinha visto Osaka, Kobe e vastas regiões de Tóquio depois de arrasadores ataques com bombas incendiárias, e em todos os três casos, abrigos de emergência e refeitórios brotavam entre as ruínas em até 48 horas. Abaixo, porém, pouco mais do que um deserto de cor cinza-amarelada se estendia entre as bases militares que tinham desaparecido, e mais adiante, pelo lugar onde o castelo e o Centro de Comunicações estiveram. As cinzas se espalharam por quilômetros, e não havia sinal de atividade humana.

"Não, não pode ser", o general disse novamente. "Onde está Hiroshima?"

"Senhor", respondeu o piloto, "isto deveria ser Hiroshima."

A Cúpula e a ponte "T" permaneciam lá embaixo, no centro, ainda desafiadoramente de pé. Ao redor da Cúpula, os troncos das árvores — apesar de terem sido privados de seus galhos — também estavam de pé, enquanto por quilômetros, em todas as direções, filas inteiras de árvores pareciam se inclinar para o lado oposto da Cúpula. O general se lembrou das fotos que vira de uma área florestada ao redor de Tunguska, na Sibéria. Em 30 de junho de 1908, um fragmento solar colidira na atmosfera a mais de trinta quilômetros por segundo, voando por Tunguska como uma impressionante bola de fogo, e causando uma série de abalos que foram ouvidos em lugares tão distantes como Kiev e Londres. Quando urna expedição chegou ao ponto de impacto, mais de uma década depois, encontrou as árvores de pé no centro, enquanto todas as outras árvores, por quilômetros ao redor delas, tinham sido dobradas para baixo, e estavam de costas para o hipocentro. Para o general, a explosão de Hiroshima se parecia surpreendentemente à de Tunguska.

Quando ele desceu a um gramado perto do porto, a semelhança ficou inegável. Folhas de grama pareciam ter sido grelhadas pelo clarão num dos lados até atingir a cor de terracota; e todas as folhas estavam inclinadas — junto com as árvores de Hiroshima e exatamente como as árvores de Tunguska — para o lado oposto do centro da explosão, como se tivessem sido prensadas por um ferro quente gigante. Arisue e o piloto foram encontrados por um tenente-coronal cujo rosto também parecia ter sido queimado só de um lado.

"O que aconteceu com você?", Arisue perguntou.

"Pika-don", o jovem oficial respondeu, e começou a descrever o clarão e o estrondo que se seguiu. O general interrompeu-o, querendo saber especificamente se o lado intacto de seu rosto tinha sido protegido do pika, e se sua carne, cheia de bolhas, tinha estado apontada para o centro da cidade quando o clarão veio.

O oficial confirmou as suspeitas de Arisue de que a destruição de Hiroshima deveria mesmo ter começado com uma única explosão, com seu centro nas alturas, sobre a Cúpula e o pequeno grupo de árvores ao redor.

A primeira coisa que o doutor. Nishina fez depois de aterrissar foi examinar a grama comprimida e queimada. Depois, foi rapidamente na direção indicada pela grama, parecendo não se importar se o general ou alguém mais o seguisse. Passando pelas ruínas do Banco Sumitomo, e localizando o hipocentro na direção da Cúpula e das árvores incrustadas de carbono, Nishina descobriu que crânios e fêmures foram convertidos em algo parecido a folhas queimadas e poeira. Os dentes eram mais resistentes que os ossos, e num cruzamento, onde mais de sessenta pessoas foram totalmente expostas ao clarão, a única evidência de sua existência era uma calçada cravejada de dentes.

Quando o doutor Nishina levou um punhado de caninos e molares enegrecidos para perto de seu medidor Geiger, os inconfundíveis cliques lhe revelaram exatamente o que acontecera.

“Restos humanos geralmente não emitem radiação", o físico disse a Arisue.

“Então o que é?", perguntou o general. "Esses cliques aí mostram tudo?"

“É isso mesmo", disse o doutor Nishina. "Só esses cliques e acabou. Temos que fazer o ministro da Guerra Anami entender: se os norte-americanos tiverem muitas dessas armas, pode acreditar em minha palavra, general — não há defesa contra esse tipo de poder."

Em Moscou, STALIN NÃO ESTAVA tão cético quanto o ministro da Guerra de Tóquio. Quando Yoshio Nishina começou a encher um frasco de provas com os dentes radioativos, o embaixador do Japão na Rússia foi chamado ao Kremlin, onde recebeu uma declaração oficial de guerra, a entrar em efeito à meia-noite — aparentemente em cumprimento a um pacto com a Inglaterra e os Estados Unidos pelo qual a União Soviética entraria na Guerra do Pacífico três meses depois da derrota da Alemanha.

Dois exércitos soviéticos já estavam a postos na fronteira do território ocupado pelos japoneses na Manchúria, e forças avançadas tinham começado a cruzá-la. Depois que o embaixador Naotake Sato foi escoltado para fora do Kremlin, o embaixador norte-americano, Averell Harriman, foi escoltado para dentro para brindar com vodca. Harriman encontrou Stalin num humor extraordinariamente jovial e conversador. O homem mais temido da Rússia felicitou o embaixador norte-americano pelo triunfo científico de seu país, e expressou gratidão, aos deuses que fossem, pelo fato de o universo o ter colocado ao lado das pessoas que descobriram a bomba atômica.

Mas o ditador sabia sobre a descoberta norte-americana meses antes do acontecido em Hiroshima, e ele já tinha encarregado Lavrenti Beria, o comissário de Segurança do Estado, de concentrar os físicos mais importantes da Rússia num laboratório para retomarem o desenvolvimento do programa nuclear russo, por muito tempo adormecido. Stalin disse a Beria que seu programa teria duas grandes vantagens sobre o Projeto Manhattan norte-americano.

Primeiro: a Rússia tinha capturado quase a metade dos cientistas alemães de foguetes, e Stalin confiava na capacidade de Beria de persuadi-los a trabalhar na construção de um míssil capaz de pôr uma bomba atômica em órbita. A dificuldade em refinar metais fissionáveis e de transformá-los em bombas eficientes poderia ser simplificada mais ainda se as forças russas conseguissem penetrar rapidamente no continente japonês e capturar os doutores Sagane, Tajima e Nishina.

Uma segunda e mais importante vantagem era que, quando os norte-americanos começaram, ninguém sabia que o problema poderia realmente ser solucionado. "Agora", Stalin disse a Beria, "o mundo sabe que isso pode ser feito. É a parte mais difícil do problema. Muito, muito mais importante de saber como pode ser feito, é saber que pode ser feito."


EM TÓQUIO, UMA MENSAGEM em código do doutor. Nishina enviada pelo rádio foi respondida com provocação. Eizo Tajima confirmou ao ministro da Guerra Anami que os restos humanos radioativos e o solo do centro de Hiroshima significavam que as bombas atômicas deveriam existir de fato. Sua confirmação não mudou nada.

O doutor Ryokichi Sagane apoiou as descobertas de Nishina, mas ele e um grupo de colegas ressaltaram num relatório a Anami que, se um piloto de caça comum como Marcus McDilda tinha acesso a mesmo um conhecimento rudimentar de como uma bomba de urânio funcionava, então os norte-americanos por alguma razão queriam que.seu "segredo" fosse revelado.

Sagane acreditava ter descoberto o motivo. Ele calculou que todas as instalações de refinaria e usinas de força que pudessem ser dedicadas exclusivamente a produzir materiais fissionáveis — se pudessem operar 24 horas por dia, sete dias por semana, por três anos — conseguiriam produzir duas ou três bombas atômicas. Ele deduziu que o inimigo tinha testado uma bomba para ter certeza de que funcionaria; e concluiu que, depois de Hiroshima, se já não estivesse sem bombas atômicas, teria apenas uma em seu arsenal.

Era exatamente o que Anami queria ouvir. O cálculo de Sagane era baseado num raciocínio sólido e estava apenas um pouco equivocado. Ainda assim, ele ainda não tinha levado em consideração a síria nuclear em expansão que já estava se dedicando à produção de plutônio, nem o impulso que fora dado menos de dois meses antes por um navio que chegara ao porto de Nova York com mais de nove quilos de urânio alemão confiscado, refinado a um nível de pureza de quase 10% de urânio-235. Nem tinha levado em conta o inevitável fator Fubar 5 — que mais ou menos empatava com os avanços de plutônio e urânio.

Os últimos testes com plutônio em solo tinham falhado diversas vezes — em vez de estarem de acordo com seu plano de implosão esférica, quase impossível de tão preciso — e a reação tinha disparado prematuramente. Isso significava que, se os artefatos tivessem um núcleo de plutônio de verdade e fossem lançados de um B-29, os gatilhos teriam destruído a bomba e o avião. Os últimos invólucros e a calçadeira da bomba de urânio não tiveram melhor sorte. A bomba (menos seu precioso urânio) foi lançada por engano perto de uma pista de decolagem em Chicago, e uma substituta teria de ser construída do zero.

Uma quarta bomba atômica não ficaria pronta até a metade de setembro, talvez nem até outubro. Essa era a verdade. E a equação de Sagane também afirmava isso, apesar de seus defeitos: uma bomba fora lançada. Outra bomba fora lançada. Só restava a terceira bomba.

O ministro da Guerra Anami vira a comprovação da matemática de Sagane nos múltiplos ataques com bombas incendiárias da noite anterior. "Só temos a palavra do presidente Truman de que bombas atômicas suficientes existem para atacar cada uma de nossas cidades e portos", Anami disse aos outros senhores da guerra. "Certamente, se eles possuíssem mais dessas armas, não perderiam seu tempo lançando bombas incendiárias comuns sobre nossas cidades.”
5. Fubar: Acrônimo de "Fucked up beyond recognition", "tão fodido a ponto de não ser mais reconhecível". Gíria militar americana. (N. T.)

O ministro da Guerra insistia em "manter o rumo", apesar do contra-argumento do ministro das Relações Exteriores Shigenori Togo de que já quase não havia navios japoneses para os norte-americanos atacar e pouco combustível precioso para o que sobrava da força aérea e do exército de Anami.

"Em breve", Togo explicou, "os norte-americanos vão ser donos do mar e do ar. Mesmo se teoria do doutor Sagane se mostrar correta e o inimigo já não tiver mais bombas atômicas, somente as bombas incendiárias vão nos destruir totalmente".

O general Yoshijiro Umezu era tão insistente quanto o ministro da Guerra Anami. Mesmo com urna marinha impotente e as cidades em chamas, ele acreditava fanaticamente em urna última grande resistência na qual o povo do Japão infligiria perdas inaceitáveis nas forças invasoras em terra, e as repeliria; ou morreria na derrota e levaria os norte-americanos junto para o inferno.

O ministro do Exterior Togo percebeu que fazer esses homens enxergar a realidade da situação era como guiar um tufão para longe da terra. A invasão russa da Manchúria preocupou-os mais do que o bombardeio de Hiroshima. Essa ferida russa tinha tornado Anami e Umezu mais perigosos do que nunca.

"Cedo ou tarde, e mais cedo do que tarde", o ministro do Exterior decidiu, "nós deveremos deixar de lado a bravura e pedir ao imperador que considere a rendição enquanto ainda existe um povo japonês a ser salvo".

Shigenori Togo agora estava inteiramente consciente de que o doutor Nishina e ele tentavam pisar com suavidade numa casa em chamas — uma tarefa ainda mais vã quando a casa estava cheia de animais feridos.
NA ILHA DE TINIAN, notícias da invasão russa foram recebidas com preocupação.

Na base, Luis Alvarez foi visitado por um almirante que queria discutir a venda por atacado que os russos estavam fazendo das terras na Europa oriental antes ocupada por alemães, incluindo a anexação de Berlim Oriental. Nas semanas anteriores, Wernher von Braun e sua equipe de cientistas de foguetes encaravam uma escolha: a captura pelos russos ou pelos norte-americanos. A maioria dos engenheiros tinha corrido desesperada e quase fatalmente para a direção dos norte-americanos. Cientistas do programa alemão de bombas atômicas enfrentavam a mesma escolha e fugiram para oeste, esperando que a prisão do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, fosse melhor que a Sibéria.

Nem todos chegaram até os norte-americanos, o almirante explicou. Os russos tinham conseguido capturar quase a metade dos cientistas mais importantes da Alemanha. Como prata e ouro, e obras de arte de grande valor, eles foram considerados pelos sobreviventes de Leningrado, Stalingrado e Bolsa de Cherkassy como meros espólios de guerra.

O almirante estava preocupado com uma iminente corrida nuclear, mas Alvarez começou a enumerar cientistas alemães e perguntar quais deles tinham conseguido chegar ao lado de Eisenhower e Patton, e quais foram presos no leste e supostamente pertenceriam aos russos. Após verificar quase dois terços da lista, o físico levantou a mão e disse: "Não se preocupe. Nossos alemães são melhores que os alemães deles".

"E o que você acha de os russos ou os chineses tomarem o Japão antes de nós?"

“Não devemos deixar que isso aconteça", o físico disse. "A esta altura, espero que Sagane e Nishina tenham recebido nossa mensagem. Se receberam, eles são espertos o suficiente para saber o que uma rendição atrasada significará para o Japão. Se não, deixá-los cair nas mãos de qualquer outro país não é uma opção. Devemos chegar lá rápido e resgatar aqueles cientistas vivos ou mortos."

Naquele momento, somente Alvarez, um punhado seleto de físicos e comandantes militares e o presidente Truman sabiam que só restava uma bomba atômica no mundo.

Do lado de fora do barracão, quase todos os outros integrantes equipe dos B-29 acreditavam, como o pronunciamento de Truman os tinha levado a crer, que pelo menos mais uma dúzia desses dispositivos já deveriam existir e apenas aguardavam o lançamento. Em meio à bagunça, o desânimo e o medo imperavam quando o assunto era o front russo, que estava em rápida expansão — da Europa oriental pela Manchúria, na direção do Japão. O acordo final entre Churchill, Roosevelt e Stalin especificara a reconstrução das nações derrotadas, incluindo uma política de devolução da posse de todos os países a seus povos. A tomada de poder pelos russos era vista como um aterrorizante ato de traição.

Uma solução que se ouvia com mais frequência era a de acabar com o Japão o mais rápido possível usando armas nucleares, e depois a Rússia, com a mesma força.

A segunda bomba atômica ainda não tinha incendiado Naga saki e diversos veteranos da primeira missão atômica já viam seus amigos lançarem o olhar para além do Japão, na direção da Rússia e usar pela primeira vez a expressão "Nuke them".

Ninguém em Tinian ou fora da ilha sabia, em 8 de agosto de 1945, o que a expressão realmente significava. Nem mesmo os homens que voaram na primeira missão atômica e observaram urna cidade desabar poderiam fornecer critérios para um entendimento detalhado. Só no solo, em Hiroshima, alguém podia entender isso de verdade.
QUANDO CRESCESSE, KEIJI NAKAZAWA, de 7 anos, contaria ao mundo como uma parede de concreto nos fundos do pátio do colégio o tinha protegido contra o clarão, e como uma moeda que caíra no mesmo instante fez toda a diferença entre a vida e a morte.

Keiji, que mais tarde se chamaria "Gen Pés Descalços" de Hiroshima, se abaixou para apanhar a moeda. Ele estava muito perto para poder ouvir a explosão — só podia ver o que aconteceu. Num raio de pouco mais de sete quadras, a luz desceu num ângulo de quase 45 graus, Exceto por uma pequena área na parte de trás da cabeça, a parede protegeu completamente o jovem Gen; mas uma criança mais velha, com quem estivera conversando, foi vítima da força total do raio de calor. Nos primeiros segundos, o clarão borrou tudo, e a vizinhança de Gen parecia ter desaparecido. Um segundo mais tarde a luz se desvanecia e os detalhes começaram a voltar a seu mundo. Ele se sentia como se tivesse desaparecido por um momento, sido transportado a um lugar seguro e inexpressivo, e subitamente trazido de volta a uma terra mudada e mutante. O rosto e os braços da outra criança se dissolveram ao toque dos raios e uma coluna de densa fumaça negra saía de sua cabeça. Se ela gritou, foi um grito silencioso. A onda explosiva também era assustadoramente silenciosa.

Quando Gen recobrou seus sentidos e olhou em volta, a garota e a escola tinham desaparecido — aparentemente com a maioria de Hiroshima. Seu único ferimento parecia ser a queimadura na parte de trás da cabeça. Ardia pouco, mas era grave. O contraste entre a sombra e o calor mortal era afiado como uma faca, e marcou a única porção do corpo de Gen que não estava protegida pela parede. Seu cabelo tinha desaparecido onde a cabeça fora exposta, e as camadas da pele pareciam folhas carbonizadas até a tampa do crânio — um corte preciso feito com um sabre de luz.

No segundo dia após a bomba, a ferida supurava, e Gen sabia que a mãe e a irmã pequena eram os únicos sobreviventes da família. Numa expedição a uma base destruída do exército, atrás do que fora o castelo de Hiroshima, a missão que Gen se atribuíra, de encontrar comida para a mãe, foi interrompida por súbitas ondas de náusea que se alternavam com calafrios e febre. Primeiro Gen sentiu enjoo, depois vomitou. Quando conseguiu erguer a mão para afastar uma nuvem de moscas que atacava sua cabeça, Gen descobriu que seu cabelo parecia estar caindo. No decorrer de apenas cinco minutos ele foi tão dominado pelos efeitos da radiação que simplesmente caiu perto de uma pilha de corpos e foi coberto pelas moscas.

Um soldado o salvou. Enquanto estava inconsciente, o serviço de limpeza passou e empilhou todos os corpos para serem cremados, jogando o pequeno Gen na pilha. O soldado, a quem Gen só conheceria como "Senhor", notou que ele ainda respirava, e o retirou da pilha antes que fosse queimado vivo.

Alguns goles de água de um cantil pareciam ter reanimado Gen. O enjoo provocado pela radiação era inconstante. Poderia cair como um raio e ir embora com a mesma facilidade. O Senhor deu a Gen algumas rações de comida para sua mãe e decidiu escoltá-lo até o que era sua casa entre as ruínas. Mas, no caminho, Senhor ficou doente e de repente caiu. Rapidamente, eles trocaram de papel. Agora era o garoto que tentava ajudar o soldado a ficar de pé e a se locomover, não o contrário.

Senhor sabia que o Hospital de Comunicações ainda funcionava, a uma curta distância das fundações do castelo. Eles tinham pouco menos de sessenta ou setenta metros para avançar, mas isso se tornou uma odisséia. O sol estava escaldante e a umidade era de quase 100% — ainda assim, os dentes de Senhor não paravam de bater e ele dizia estar morrendo de frio. Com trinta metros por avançar, o soldado perdeu o controle dos intestinos, e dez metros depois começou a vomitar algo preto. Gen carregou-o pelos últimos metros, e o primeiro médico a chegar no local repreendeu-o por trazer um homem morto.

"Não", disse Gen. "Ele não pode estar morto!"

"Ele teve diarréia?", perguntou o médico "E disse que tinha frio?”

"S-sim."


"Então ele morreu da mesma maneira que muitas pessoas, ainda que parecessem ter escapado do pika-don."

"Mas por quê?"

O médico balançou a cabeça e começou a se afastar. "Eu não sei", murmurou.

Ao mesmo tempo em que o salvador de Gen morria, um homem que entraria para a história como o sobrevivente mais próximo ao hipocentro chegou com os mesmos sintomas que Gen decidira esconder de sua mãe. Quando o céu se abriu, Eizo Nomura estava a poucos metros da Cúpula de Hiroshima, no porão da seção de racionamento da cidade. Mesmo no subterrâneo, ele percebeu o clarão — e o porão foi fortemente sacudido.

Durante o primeiro minuto após o Momento Zero, na superfície do solo que fora aquecido a várias vezes o ponto de ebulição da água, as espirais de fogo que perseguiram as famílias Nomura e Sasaki até a água começaram a se erguer dos túmulos de edifícios já destruídos pela bomba, como espíritos que tivessem sido invocados. (CRP)
O senhor Nomura teve de usar as unhas para sair do que se tornara uma caverna, a pouco mais de cem metros (ou uma quadra) do hipocentro absoluto. Ele ficou de pé no pavimento quente o suficiente para queimar as solas dos sapatos, e era como se a terra tivesse desaparecido e ele tivesse sido levado a outra terra, estranha. A impressão estava só um pouco equivocada. Seu pequeno canto no planeta Terra tinha de fato desaparecido, e grande parte dele estava na estratosfera. Um pequeno trecho dos imóveis de Hiroshima foi transformado em algo tão estranho e sem precedentes que, no futuro, os alicerces da seção de racionamento se tornariam uma casa de descanso perto do centro do Parque Memorial da Paz da cidade.

Quando Nomura sacudiu a poeira e olhou para cima, o céu estava preto de fumaça e faíscas pareciam chover de todos os cantos. De seu lado da ponte Motoyasu, ele não encontrou ninguém nem nada vivo, a menos que as trombas d'água e as espirais de fogo serpenteantes pudessem ser consideradas vivas. Para o senhor Nomura, essas coisas se moviam e se comportavam como criaturas sencientes, avançando a passos enormes e escorregadios da margem oposta do rio, afugentando-o para longe da ponte e para o fundo da água, onde ele prendeu a respiração até agonizar. Quando finalmente veio à tona, limpou os pulmões e tirou o cabelo e a água de seu rosto, as espirais estavam indo embora. Ele sentiu um pouco de orgulho por ter sobrevivido; mas também sentia a doença da radiação se arrastando dentro dele e começando a mordiscar, como dentes de milhares de pequenos ratos.

Dois dias mais tarde, havia poucos doutores e enfermeiras que estivessem suficientemente bem para ajudar o senhor Nomura ou qualquer outra pessoa. Os remédios tinham acabado e não existiam microscópios funcionando para que os médicos pudessem fazer algum diagnóstico sobre a natureza da doença que atacara Nomura e Gen, e que matara Senhor.

O edifício a que Nomura finalmente chegara estava a apenas 1.500 metros do hipocentro. A maior parte do segundo andar tinha caído e queimado. O andar inferior estava parcialmente intacto, tendo sido, de alguma forma, encasulado contra o choque atrás do castelo de Hiroshima. Um dos diretores, o doutor. Michihiko Hachiya, agora era paciente de seu próprio hospital.

O doutor Hachiya foi um dos andarilhos-formiga que Isao Kita observara da estação meteorológica. No primeiro dia, ele vagou queimado, golpeado e nu através de correntes de ar para cima e para baixo tão violentas que as chapas de metal dos telhados zumbiam e davam piruetas sobre sua cabeça. Pedaços de árvores em chamas rodopiavam, vindos do céu como se fossem andorinhas inflamáveis. O doutor se lembrava vagamente de ver pássaros morrendo no chão, com asas e penas queimadas. E se lembrou vividamente de ter seguido uma fila de pessoas que, como ele, estavam nuas — e se perguntou, meio distraído, que força da natureza os tinha privado das roupas.

O médico lembrou-se de pouca coisa mais sobre as 48 horas anteriores. Na maior parte do tempo em que esteve perdido, ele teve febre e sono intermitentes. Na tarde de 8 de agosto, não queria nada mais do que se levantar do chão e começar a ajudar outros pacientes. Mas o chefe de cirurgia, o doutor Kutsube, disse: "Você é muito impaciente. Deveria estar agradecido porque vai sobreviver".

Não lhe havia ocorrido que pudesse ter chegado perto da morte.

''Eu estive tão mal assim?", Hachiya perguntou.

"Todos estávamos preocupados com você", Kutsube respondeu e explicou que ele tinha perdido muito sangue e sofrido quarenta ferimentos. O senhor Iguchi, motorista da ambulância, improvisara uma sala de operações desenterrando lâmpadas e conectando-as a uma das várias baterias de caminhão que ainda funcionavam. Desse modo, o doutor Hachiya e quase sessenta outros pacientes — incluindo o "sobrevivente por milagre" Eizo Nomura — tinham sido e continuariam sendo tratados, até que a última bateria acabasse. Enquanto Kutsube informava Hachiya sobre os acontecimentos dos dois dias passados, o doutor-transformado-em-paciente notou que as mãos do cirurgião estavam gravemente queimadas.

Um barulho do lado de fora da janela chamou sua atenção a um paciente que o doutor Kutsube se esquecera de mencionar.

De vez em quando, em seu longo e intermitente sono; Hachiya se recordava de tê-lo escutado tropeçar no jardim. Hachiya olhou por uma janela quebrada, cujo marco de metal parecia ter sido arrancado. O paciente bateu o nariz contra o marco quebrado.

"Ele foi alimentado?", Hachiya perguntou.

"Não se preocupe, doutor", foi a resposta. "Há muitas folhas de pé de batata no jardim, não acho que vá passar fome."

O paciente era um cavalo que tinha queimaduras por todo um lado do corpo, e parecia ter sido simultaneamente cegado pelo pika (o clarão). O animal cambaleara até o portão da frente do hospital quase ao mesmo tempo em que o doutor Hachiya. O doutor Kutsube explicou que não tivera coragem de mandar a pobre criatura embora. Então o abrigou no jardim, do lado de fora da janela do médico.

Para Hachiya, o cavalo não era apenas um companheiro de que se lembrava remotamente, e sim um constante. Companhia significava muito para ele, sempre que acordava no meio da noite e se lembrava do que vira ao longo da trilha de formigas, caindo no desespero. Primeiro, ele se sentia sozinho. Escreveria mais tarde que se tratava de "uma solidão animal. Eu me tornei parte da escuridão da noite. Não havia rádios, nem luz elétrica, nem mesmo urna vela no quarto. A única luz que vinha até mim era refletida nas sombras oscilantes da cidade em chamas. Os únicos sons eram os gemidos e o choro das vítimas das queimaduras".

No meio de tamanha solidão, Hachiya sempre escutava o cavalo cego chocando-se contra uma parede e tocando as folhas com suas patas. Àquela altura, o paciente já tinha comido a maioria das folhas dos pés de batata.

O jardim fora uma quadra de tênis, mas o esforço de guerra tinha cobrado cada pedaço de terra disponível para ser convertido num "jardim da vitória". Hachiya se tornou famoso no hospital por plantar morangos e pés de batata que produziam folhas enormes e exuberantes, mas que davam morangos do tamanho de amendoins e batatas do tamanho de morangos.

O doutor Hachiya levantou a cabeça e perguntou: "Vocês não acham que nós deveríamos colher as batatas? Devem estar bem grandes agora".

O doutor Kutsube e a enfermeira Kado riram, e por um momento (embora apenas por um momento) esqueceram a desolação

Quando o doutor Kutsube começou a explicar que os pacientes estavam sucumbindo a vômitos e diarréia, que não havia encanamento disponível e as baterias da sala de operações estavam praticamente no fim — e que o exército não trazia comida ao hospital —, começaram a cair numa nova realidade. Caíram com toda a força da compreensão e da mortalidade: o companheiro constante do doutor Hachiya tinha se tornado a única fonte de proteína com que os pacientes poderiam contar por muitos dias.


HANAKO ITO E SEU MARIDO, Akio, tinham esperado que a tempestade de fogo enfraquecesse antes de se aventurarem pelo centro de Hiroshima, onde seu filho Hiroshi estudava. Ele frequentava a escola mais bem avaliada da província. A escola era um deserto de cinzas e tijolos rachados. Seu único marco reconhecível era uma piscina olímpica, para dentro da qual mais de cem pessoas tinham fugido, procurando abrigo das chamas. Seus corpos estavam fervidos e inchados. Os rostos pareciam ter sido assados antes de a fervura começar.

Ao mesmo tempo em que Charles Sweeney ficara sabendo que teria de fazer tudo novamente e dirigia no meio da noite em busca de um padre, o senhor e a senhora Ito já tinham visto o suficiente. Cadáveres — nenhum identificável — estavam sendo arrastados para fora da piscina e empilhados em piras pelos soldados que se moviam para a frente e para trás num silêncio aturdido. Segurando firme a mão do marido, Hanako seguiu os trilhos do bonde até sua casa, tendo por única luz o crescente número de piras funerárias de enterros em massa dos dois lados da estrada. O fogo e um pouco da cor da luz da Lua a guiavam.

"Entre as piras, podíamos ver trilhas de fósforo prateado serpenteando", escreveu urna testemunha. "Seguiam todo mundo como os espíritos dos mortos nos antigos livros de histórias."

Hanako acreditava que eles podiam ser os fantasmas de Hiroshima buscando os entes queridos, e ela se perguntava se o pequeno Hiroshi poderia vir à procura dela naquele caminho. Quando chegou à zona montanhosa do leste, contudo, ela encontrou seu filho vivo, ainda que muito cansado de toda a provação.

"Fui perseguido pelo fogo", ele explicou. "E tive de cobrir meus ouvidos porque podia ouvir as pessoas chorando e pedindo ajuda atrás de mim." Enquanto contava a história das espirais de fogo e da chuva negra, Hiroshi começou a ter calafrios e a vomitar Chamaram um doutor até a casa, mas ele não pôde diagnosticai nenhuma doença conhecida. Contudo, isso pareceu não ter importância, porque por volta da meia-noite o apetite do garoto começou a voltar. E na manhã de 8 de agosto ele estava se sentindo bem c suficiente para ajudar o irmão, um estudante da quinta série, numa nova tarefa da Associação de Segurança Nacional.

A cidade dos Ito estava entre as poucas que não mandaram os sobreviventes de volta a Hiroshima. Em vez disso, caminhões e carroças puxadas por cavalos eram enviados para oeste, para além do acidente de trem de Kaidaichi, a fim de trazer os feridos de Hiroshima à escola local. Embora o pronunciamento de Truman fosse mantido em segredo de toda a cidade, Tsugio Ito sabia, pelo tamanho assustador da nuvem de 6 de agosto e pela explosão que quebrou vidraças a quase treze quilômetros de distância, que ele e seu irmão Hiroshi tinham sido testemunhas de uma bomba incomum. As queimaduras causadas pelo clarão e os ferimentos em quer pele se soltava como uma luva naquelas pessoas que chegavam nos caminhões confirmavam sua singularidade incontestável.


Na tarde do segundo dia depois da bomba, 360 sobreviventes lotavam as pequenas salas de aula. A Segurança Nacional encarregou as crianças de fazer curativos nos feridos, mas não providenciou unguentos nem medicação. Um fazendeiro local ofereceu fatias finas de pepino e aconselhou as crianças a aplicarem-nas às queimaduras — Band-Aids de pepino para feridas do pika-don, Tsugio pensou, amargamente. Parecia uma tarefa completamente sem sentido. Algumas das pessoas tinham hemorragia e estavam perdendo o cabelo e morrendo; e Tsugio sentiu um sobressalto de medo quando Hiroshi tirou o chapéu e a maior parte de seu cabelo saiu grudada na palha trançada.

Mas não pode ser tão ruim, Tsugio disse a si mesmo. Seu irmão não tinha sofrido nenhuma das queimaduras que pareciam estar matando os outros sobreviventes; e, afinal de contas, quando o dia terminou na escola, Hiroshi se sentiu bem o suficiente para jogar bola;

ele não estava vomitando como os outros; e o seu apetite se mantinha. Todavia, ele estaria morto na segunda semana de setembro.
"VOCÊS DEVEM SE LEMBRAR" Susurnu Tsuno disse aos doutores Koyano e Akizuki. "Vocês não devem esquecer nunca que a razão pela qual estou vivo para lhes contar isto é porque a bomba atômica dá tempo para nos esconder. Se vocês virem o clarão, terão talvez três segundos para se agachar, rolar e procurar abrigo antes que a onda de explosão nos atinja."

O reitor do Hospital Universitário de Nagasaki teve de correr do trem de Hiroshima até a escola, numa missão autoatribuída de advertência e preparação. O que parecia horrorizá-lo mais que qualquer outra coisa eram as intensas ondas de calor — que, mesmo se a bomba oferecesse três segundos para que as pessoas se agachassem e se cobrissem, queimavam quem estivesse sob o clarão.

"Não importa o que fizerem, vocês não devem só ficar parados, olhando para os lados", Tsuno advertiu. "As queimaduras daqueles que se atiraram de cara no chão e nas sombras atrás de paredes ou nas valas foram comparativamente suaves."

Tsuno prosseguiu a lição, contando algo que seus ouvintes certamente se lembrariam e levariam em conta mais tarde. Um homem que estivera sentado numa parada de bonde, lendo um jornal, sobreviveu com um padrão de queimaduras — o papel branco refletiu o

clarão do pika, protegendo seu rosto e a parte superior de seu corpo e seus polegares. Mas seus dedos, dobrados na frente do jornal, foram queimados e fundidos. O homem parecia vestir calças pretas, que absorveram a luz, com a tintura esquentando e queimando as fibras profundamente em suas virilhas e pernas.

O doutor Tsuno relatou vários casos de mulheres e crianças que vestiam roupas com estampas, às vezes de flores decorativas no pano branco. As flores negras ficaram permanentemente queimadas na pele.

Como precaução, ele advertiu aos estudantes que usassem roupas brancas e chapéus de abas largas, também brancos, e que pendurassem lençóis brancos em todas as janelas do hospital. O reitor contou como folhas de papel de caligrafia, penduradas numa janela por uma professora, foram o suficiente para proteger seu rosto do clarão. Quando sua lição se aproximava do fim, concluída com uma advertência, um estudante conhecido por Akizuki apenas como o "jovem senhor Fujii da escola teológica” entrou na sala.

"Por tudo o que vi dessa nova bomba", Tsuno concluiu, "tenho certeza de que não será suficiente, como precaução contra um ataque aéreo, vocês estarem alertas quando escutarem aviões inimigos se aproximando. Vocês todos devem — e vocês, alunos, em particular - estar mais alertas do que nunca e se preparar para o pior."

Enquanto o doutor Tsuno falava, sua própria agitação crescia, e parecia se tornar contagiosa. "O que fora uma cidade", ele disse, "é agora urna planície cozida, vermelho-amarelada". Sua voz ficou reprimida quando contou a história de uma garotinha que tentou ajudar um homem que lhe pedira água. Sentado, com as costas apoiadas a uma coluna de madeira, ele implorou que ela o ajudasse a levantar e caminhar até o rio. O lado de seu corpo, próximo da menina, fora queimado e estava negro. A madeira atrás dele também estava negra, e quando ela agarrou a mão do homem e o ajudou a levantar, viu que a sombra dele estava perfeitamente gravada na madeira, como uma imagem pálida num negativo fotográfico.

"Isso foi a pouco menos de dois quilômetros do centro do clarão", o reitor Tsuno explicou, e disse que não teria acreditado na história da garota se não tivesse visto tais horrores com seus próprios olhos.

Na mesma distância do pika, as folhas e os galhos de uma mamoneira tinham se desintegrado completamente perto das ruínas da ponte Meiji. O poste telefônico atrás do arbusto tinha sido queimado pelo clarão, o marrom original dera lugar a um preto cor de carvão — e ainda assim cada ponta e fenda das folhas desaparecidas continuavam vivas nas sombras marrom-claras impressas no preto do poste. O tronco da planta ainda existia, embora como uma protuberância negra de madeira estilhaçada. Mais perto do castelo de Hiroshima — que "simplesmente desaparecera" —, o doutor Tsuno cruzou a ponte Misasa, e lá viu uma bicicleta encostada nas grades da ponte com um ciclista carbonizado, com seu esqueleto parcialmente exposto, ainda em cima dela. Tentando entender o inexplicável, Tsuno disse que tinha procurado pela sombra do homem, mas não conseguiu encontrá-la.

Nesse instante, o estudante de teologia saiu correndo da sala, e o doutor Akizuki correu atrás dele. A namorada e o pai do estudante moravam em Hiroshima. Raiva e medo tomavam conta dele — porque, até aquele momento, ele acreditara no pronunciamento oficial de Tóquio. Oficialmente, a cidade tinha sofrido "danos leves" provocados por uma nova arma, e várias pessoas tinham sido mortas.

"Danos leves?", ele gritou para o doutor Akizuki. "Pelo que acabamos de ouvir, pelo menos quinze quilômetros quadrados foram queimados até o chão!"

O doutor Akizuki imediatamente entendeu o que o estudante estava planejando. "Não", ele disse. "Você deve ficar longe daquele lugar."

"Enquanto os trens forem naquela direção, eu tenho que tentar. Até este momento, tudo o que nós realmente sabíamos era que não havia notícias daquela área. Tenho de descobrir o que aconteceu lá."

Akizuki tentou dissuadi-lo, advertindo que várias cidades ao longo da via férrea tinham sido atingidas por bombas incendiárias na noite anterior, e que ele poderia ser morto no norte se os bombardeios continuassem aquela noite. Mas o rapaz saiu em direção à estação de trem com uma mochila nas costas, e o doutor Akizuki registraria depois: "Ninguém sabia como a sorte sorriu para ele naquela tarde, quando ele deixou Nagasaki para ir a Hiroshima".

Ele também contaria que, como um dos poucos médicos sobreviventes na região de Nagasaki, suas primeiras tarefas envolveriam triagem, o que significava basicamente eutanásia. O hospital estava a pouco mais de 1.600 metros do hipocentro de uma detonação três vezes mais poderosa que a bomba atômica anterior. Aqui e ali, efeitos aleatórios de casulo antichoque se espalhariam entre os morros, mando as paredes de concreto do perímetro e os múltiplos andares do hospital misteriosamente intactos. Contudo, 42 médicos profissionais, 206 trabalhadores de escritório, 109 enfermeiras e 535 estudantes

estavam prestes a ser perdidos.

O doutor Akizuki sempre atribuiria sua própria sobrevivência, e a sobrevivência de muitos outros, às advertências do reitor Tsuno.

O reitor, ele ficou sabendo mais tarde, não morreu no hospital. No Momento Zero, ele estaria fazendo seu relato preventivo a autoridades militares no quartel-general do governo das províncias, quase 1.500 metros mais perto do hipocentro. Em menos de 24 horas, o reitor Tsuno estava fadado a sobreviver num segundo casulo antichoque, perto o suficiente desta vez para receber uma dose letal da radiação. Parecia impossível, mas, enquanto Tsuno teria alguns dias a mais de vida, pessoas a quinze metros dele, nos cômodos externos do mesmo edifício de madeira, estavam fadados a evaporar, tornando-se parte das partículas radioativas que Akizuki e os outros sobreviventes inalariam.


O PREFEITO TAKEJIRO NISHIOKA não queria nada mais além de estar com sua família, antes que Nagasaki sofresse a mesma destruição que ele vira em Hiroshima. Ainda assim, apesar da vontade de ver mulher e filho, um senso de dever o mandou diretamente da estação de Nagasaki ao escritório do governador Nagano.

Até aquele momento, na tarde de 8 de agosto, o governador tinha sido informado apenas de que uma nova bomba estava envolvida na perda de contato com Hiroshima, o que era devido em grande parte a um efeito disruptivo de pulso nos rádios e linhas de transmissão. Diziam que a bomba tinha matado várias centenas de pessoas e danificado alguns prédios e a rede de energia, as ameaças de destruição maciça feitas pelo presidente norte-americano, segundo os conselheiros militares mais importantes do governador Nagano, tinham sido grosseiramente exageradas. E então o prefeito Nishioka entrou correndo no escritório, descrevendo tornados de fogo que se erguiam num mar de chamas, que cobria o horizonte... e grandes árvores derrubadas pela explosão num raio de vários quilômetros... E edifícios de aço reforçado e pontes de cabeça para baixo, esmagados.

O governador perguntou se ele estava descrevendo algo que realmente tinha visto ou se ficara sabendo por rumores.

“Eu vi”, disse Nishioka. “Todos no trem comigo viram, e estão contando a todo mundo sobre isso.”

O governador parecia mais preocupado naquele momento com a propagação da notícia do que com os fatos reais por trás dela, e quando Nishioka percebeu isso, implorou pela palavra de Nagano que não seria citado. Espalhar “histórias ruins” e “rumores de derrota” eram delitos de traição que ameaçavam não só o prefeito com um castigo militar mas toda sua família também.

Nagano deu a Nishioka sua palavra de que não contaria nada, e se revelou um mentiroso no momento em que o prefeito cruzou a soleira da porta. Imediatamente, ele reuniu a polícia e os membros do poder executivo e relatou o que o prefeito lhe tinha revelado. Cada um deles entendeu, pelo tom de voz do governador Nagano, e pela expressão em seu rosto, que deveriam responder com medo e uma necessidade de preparação, em vez de com o velho reflexo doutrinado de retalhar contra o mensageiro.

Nos anos seguintes, o prefeito lamentaria que os protocolos de censura a respeito das mortes o tenham forçado a limitar seu relato aos ouvidos do governador. Nishioka envelheceria precocemente, ciente de que, se fosse autorizado a publicar em seu jornal o que ele e o reitor Tsuno já sabiam, milhares de vidas poderiam ter sido poupadas.

Do escritório do governador, o prefeito Nishioka foi diretamente até o lugar que tinha escolhido para esconder os maiores geradores, impressoras e os mais importantes tesouros nacionais. Com ele estavam os chefes da polícia da província e o comandante do Tokko, a polícia militar especial à paisana do Japão. Temporariamente, o equipamento imprescindível e os tesouros seriam guardados no abrigo privado do governador. Este seria o último, e praticamente inexpugnável, Centro de Comando de Crises. Um largo túnel seria cavado, permitindo levar equipamentos pesados até uma caverna sob o monte do santuário de Gokoku. O local estava, por pouco, do lado de fora do futuro hipocentro, numa região em que as ondas de compressão ricocheteantes convergiriam e ecoariam com tal força que nenhuma pedra do alicerce permaneceria em seu lugar para dar uma pista de onde ficava o santuário; mesmo a geografia original do monte ficaria desconhecida.

Nishioka combinou de se reunir novamente no santuário com equipamento pronto — pontualmente às 11 horas da manhã seguinte, 9 de agosto.

A doença da radiação interferiu e manteve o prefeito longe de seu encontro com o destino. Por toda sua vida ele tinha sido saudável. Agora, do nada — do profundo e impessoal nada —, náusea, um cansaço debilitante e a sensação de estar sendo esfolado por dentro tomaram total controle sobre ele. Ele se lembrou dos jatos de fogo em miniatura que brotaram perto da casa do marechal de campo Hata, e de como sabia então que deveria ter tomado distância, mas caminhara no meio deles mesmo assim.

Sentado no chão e enrolando suas calças, ele se amaldiçoou. Logo abaixo da pele das pernas, manchas azul-escuras estavam brotando, na forma de estrelas, tingidas de amarelo nas bordas — como se ele tivesse desenvolvido subitamente algo próximo da hemofilia.

Nesse curto espaço de tempo, sua única diretriz se tornou simplesmente rumar para casa e levar sua família para longe de lá. Ele não pensava que pudesse ir muito longe, mas não tinha de andar muito. Dava para ir caminhando de sua casa até o santuário de Gokoku, perto da Catedral Católica e Romana de Maria.

"Meu Deus! Onde você esteve?", a senhora Nishioka perguntou quando viu o quão cinzento e débil — e agora também imundo — seu marido tinha ficado.

"Estive na cidade dos cadáveres", ele respondeu. "Agora não me pergunte mais nada. Só siga minhas instruções, se você quer viver."

O prefeito ordenou que sua mulher partisse imediatamente com o filho até o povoado de Uzen, a quase duas horas de carro dali. Ele encheu o tanque com o que restava da gasolina (que estava poupando havia mais de três meses) e não a deixou pôr nenhum pertence na bagagem. Uzen era menor que uma cidade — apenas um vilarejo com um santuário no meio de um parque nacional, e duas horas de carro de Nagasaki tinham de ser longe o suficiente. Ninguém teria um parque nacional como alvo e um local a duas horas de distância de carro de Nagasaki deveria ser seguro.

"Vá. Vá agora e não olhe para trás!", ele ordenou. A mulher do prefeito nunca o tinha visto perder a compostura dessa forma. A senhora Nishioka, que era cristã, lembrou-se subitamente das instruções de Lot à sua própria esposa.


AKIRA IWANAGA, O ENGENHEIRO naval de Hiroshima, tinha desembarcado do mesmo trem que o prefeito numa cidade chamada Isahaya, aproximadamente 29 quilômetros a nordeste de Nagasaki. Os pais de Akira moravam em Isahaya, e, enquanto o trem se aproximava, ele se sentia muito doente para ir até o estaleiro Mitsubishi. Decidiu passar o restante do dia e a noite na casa dos pais, esperando que, depois de um pouco de descanso, acordasse se sentindo melhor. Enquanto a tarde passava, ele descobriu que a esperança era vã. As dores em seu abdome estavam piorando, e quando pensou que poderia desmaiar de dor, tamanha a intensidade, e talvez dormir, percebeu que um sono restaurador estava fora de questão.

Tsutomu Yamaguchi não se sentia melhor que Akira ou o pre­feito. Seu braço e rosto, queimados, estavam inchando, ardendo e coçando sem piedade quando chegou à estação de Nagasaki. Enquanto o prefeito Nishioka descobria o sangramento sob a pele, Yamaguchi entrava cambaleando no hospital da companhia Mit­subishi, buscando tratamento. Ele chegou durante um alerta de ataque aéreo que havia levado as equipes médicas para abrigos sub­terrâneos. Yamaguchi sentia-se muito fraco para ir com eles, então ficou vagando pelo hospital, que, de repente, se transformou em uma cidade fantasma. Seu braço esquerdo estava muito inchado, parecia que a pele iria arrebentar, como um balão de gás, ao mais leve toque. O lado esquerdo de seu rosto esticara tanto que ele não e pedir ajuda — não sem sentir uma dor absurda. Por sorte, um médico havia desobedecido o alerta e permanecera no hospital. Era o doutor Sato, que estudara com Tsutomu Yamaguchi.

Seu velho amigo estava curioso para ver o sobrevivente da bomba, mas Yamaguchi se incomodou com o fato de que Sato não conhecera seu rosto até que se identificasse. O engenheiro perce­beu, de repente, que suas feridas poderiam ser piores que sua dor.

Sato levou Yamaguchi diretamente para urna sala no departa­mento de oftalmologia, onde começou o tratamento para queimadu­ras. Quando o médico cortou uma fina camada de pele morta de seu braço, o recipiente que Yamagachi segurava para ele foi preenchido por uma substância aquosa que transbordou e espalhou-se pelo chão. O médico foi honesto com ele, descrevendo a carne sob a "camada morta" como "clara, de um vermelho cru — como carne de baleia". Ele aplicou óleos aos ferimentos e pôs curativos. Havia apenas remé­dios oftalmológicos disponíveis e o único tratamento que o doutor Sato podia oferecer para as feridas de seu amigo era cortar as cama­das externas de pele morta e o cabelo queimado, esterilizar a área e fazer curativos. Nenhum dos homens entendera, na hora, que Sato tinha entrado para a História como o primeiro médico a tratar um sobrevivente da bomba atômica em Nagasaki.

Quando Yamaguchi saiu do hospital, o sol da tarde, embora já estivesse mais baixo, queimava sua pele. Seu amigo lhe deu um lençol leve de linho para ser usado como protetor solar até sua casa, o que explicou, em parte, por que sua mãe deu um grito quando ele se aproximava de casa: "Fantasma!".

Enquanto era tratado por Sato, histórias do trem de Hiroshima tinham se espalhado rapidamente pela região de Nagasaki, e os pais de Yamaguchi começavam a se preparar psicologicamente para a ideia de que ele pudesse estar morto.

E então, quando sua família se escondeu no abrigo em outro alerta de ataque aéreo, ele entrou na casa de seus pais, acendeu as velas no altar da família e orou em silêncio. "Não acredito em um deus específico", ele se lembraria, "embora não pudesse evitar agradecer a alguém por meu retorno do inferno a salvo". E, nesse estado — com o rosto coberto de curativos e sentado com as pernas cruzadas diante do altar com os pés fora do alcance da vista —, sua família o encontrou depois de o alerta terminar.

Na mitologia japonesa, os fantasmas não tinham pés.

"Você tem pés?", sua mãe lhe perguntou, timidamente.

Yamaguchi levantou o lençol e a tranquilizou, mostrando que tinha pés e não era o fantasma de seu filho. Sua mulher, Hisako, veio correndo dos fundos da casa, tomou-lhe a mão sã, e o beijou como se nada tivesse acontecido a seu rosto.

Yamaguchi esqueceu sua dor e tentou afirmar que estava bem apesar de todos aqueles curativos. Vendo seu filho dormir tranquilamente no colo de Hisako, "fiz carinho em sua cabeça", Yamaguchi escreveu depois, "pois não queria assustá-lo com meu rosto cheio de curativos".

Hisako lhe contou que agora tinham uma casa nova só para eles, que ela comprara com parte da poupança do casal, e que ele ainda não a tinha visto. A pequena casa pré-fabricada estava a pouco mais de meia hora de caminhada da casa dos pais dele, e a mãe de Yamaguchi insistiu em cuidar da pequena Katsutoshi aquela noite, insistindo que os dois cruzassem a soleira da porta sozinhos. Ele foi hesitante, mas feliz, apoiado no ombro de Hisako.

O lugar era pequeno, mas construído em madeira de lei com bom acabamento. Havia até uma sacada para os dois, da qual Yamaguchi e sua mulher poderiam ver o outro lado do rio e a Catedral de Maria nos montes de Urakami — e, não muito mais abaixo disso, o arco do santuário de Sano.

DEP0IS DE MANDAR a mulher e o filho para a floresta de Unzen, o prefeito Nishioka juntou tantos documentos importantes quanto pudesse levar de seu escritório, pediu a seus homens que colocassem um pouco de gasolina num pequeno caminhão do exército, e partiu para Unzen. A 33 quilômetros dali, acabaram tanto sua gasolina como sua saúde. Abrindo bruscamente a porta do lado do motorista, ele caiu de joelhos e começou a vomitar uma bile grossa com centenas de pequenos coágulos negros. O prefeito levantou-se com esforço e, em passos desajeitados e dolorosos, caminhou o quilômetro que faltava até uma velha estalagem com vista para o mar.

Estou morrendo, pensou. E então afastou o pensamento. Ele não se deixaria morrer até ver sua mulher e filho novamente. Esperava que Unzen fosse longe o suficiente para os dois, mas não tinha certeza. Seu próprio estado era a prova de que uma pessoa não precisava estar tão perto de uma bomba atômica para ser diretamente ferida ou envenenada. Sua única certeza era de que Hiroshima não era o fim, e que Nagasaki seria a próxima.
EM TINIAN, CHARLES SWEENEY ficou sabendo, durante uma instrução à tarde, que o arsenal do exército de Kokura seria o próximo alvo. Kokura estava rodeada de baterias antiaéreas, e era um dos poucos lugares onde o controle do espaço aéreo não estava garantido. Um ninho de vespas de pistas de decolagem e caças interceptadores ainda existia por lá.

No caso improvável, dadas as condições do tempo, de que um excesso de nuvens cobrisse Kokura, Nagasaki se tornaria o alvo secundário.

Sweeney esperava que o alvo fosse Kokura. Depois de mais de uma semana de estudo intenso, ele conhecia as ruas e edifícios nos dois lugares tão bem quanto os de sua cidade natal. Nagasaki e a cidade vizinha de Urakami ficavam no meio de um vale íngrem De acordo com Alvarez, os efeitos máximos de explosão e rebo na região de Nagasaki podiam ser conseguidos com uma detonação diretamente sobre o relevo plano que havia ao descer o rio, depois das fábricas de torpedo Mitsubishi e das instalações de manutenção de submarinos. Os distritos comercial e residencial do centro de Nagasaki também estavam localizados dentro dessa zona de efeito máximo; e, pelo que Sweeney sabia, o número de vítimas civis seria ainda mais alto em Nagasaki que em HiroshiMa.

Então Sweeney decidiu fazer tudo o que pudesse para lança: seu pacote em Kokura. Ele tinha dúvidas, contudo, de que a bomba chegaria tão longe. Sweeney conhecia os funcionamentos anómalos de fusão que, se ocorressem com uma bomba de plutônio, teriam desencadeado a fúria de mil sóis sob a barriga do B-29. Ele esperava que a equipe de Alvarez finalmente tivesse solucionado o problema.

A bomba de plutônio era muito mais complicada que o dispositivo de urânio utilizado em Hiroshima — tanto que não poderia se: armada em pleno voo e teria de ser ativada um pouco antes de se: lançada pelas portas do compartimento de bombas.

Quatro tipos de detonadores já tinham sido instalados — com dois fusíveis de cada tipo, não deixando nada ao acaso. Os dois sensores de pressão do ar estavam ajustados para disparar seus fusíveis a 570 metros. Os dois detonadores da bomba-relógio disparariam 43 segundos depois que a bomba fosse lançada, quando já teria caído de 48 quilômetros a aproximadamente três quilômetros. Os dois detonadores de radar estariam ligados a um aparelho que tocaria o chão com ondas de rádio e cronometraria os ecos até a altitude de três quilômetros. Se os primeiros três pares de detonadores falhassem e a bomba continuasse a cair depois dos três quilômetros. Os dois últimos, localizados no nariz da máquina, implodiriam o núcleo de plutônio e iniciariam a reação em cadeia dentro de um centésimo de milionésimo de segundo, antes que o impacto pudesse danificar a bomba.

Os dois gatilhos finais, de último recurso, eram os que preocupavam Charles Sweeney. Um solavanco forte na pista de decolagem poderia incinerar a ilha inteira.

Ele pensava nisso sob a própria bomba quando o almirante William Purnell chegou por trás dele e perguntou: "Filho, você sabe quanto custou essa bomba?".

“Não, senhor", Sweeney respondeu.

“Dois bilhões de dólares", Purnell disse.

“Bem", Sweeney disse, e soltou um leve assobio. "É um monte de dinheiro almirante."

“E você sabe quanto custa o seu avião?"

“Um pouco mais de um milhão de dólares, senhor."

O almirante assentiu com a cabeça, severamente, e disse: "Sugiro que você tenha em mente esses valores durante a missão".


O ÚLTIMO TREM a chegar a Nagasaki estava partindo da estação de Hiroshima. O mestre fabricante de pipas Morimoto e três de seus ajudantes — Doi, Shinji e Masao — viajavam juntos no mesmo vagão. Todos os quatro tinham sobrevivido à bomba de Hiroshima sem ferimentos visíveis, mas Morimoto lutava contra uma náusea persistente e Doi estava empapado em suor — apesar de se queixar ao mesmo tempo de calafrios intermitentes.

Em outra parte do trem, um sobrevivente chamado Kuniyoshi Saro estava sentado em frente a uma figura pálida que, como Doi, suava em profusão. Mais de duas décadas depois, Kuniyoshi relataria que o companheiro de viagem anônimo trazia no colo uma tigela coberta por um pano, guardando-a com zelo, corno se estivesse cheia de ouro.

"O que você está levando aí?", Kuniyoshi perguntou.

“Eu casei no mês passado”, o estranho respondeu. "Mas minha mulher morreu. Quero levá-la a seus pais.” E então, depois de uma pausa, o homem levantou a cobertura da tigela.

"Viu? Quer dar uma olhada?" Ele disse essas palavras num tom também dizia: "Viu? Isso é o que acontece quando você mete o nariz onde não é chamado".
Uma sombra protegera o complexo do Hospital de Comunicações da onda de compressão da bomba (que irradiava da direção do castelo de Hiroshima), depois que o castelo e as muralhas absorveram e alteraram uma fração significativa da força da onda. A equipe de resgate do doutor Hachiya fez sua base de operações no menor dos dois edifícios, que estava escudado atrás do prédio maior e mais danificado. A ponte Misasa é visível no canto inferior esquerdo. A linha férrea na parte inferior esquerda é a mesma que cruzava o rio até as casas das famílias Hachiya e Sasaki. (Patricia Wynne)
A tigela estava cheia de pedaços de ossos humanos. E, apesar de o trem estar lotado, e de parecer improvável que Kuniyoshi pudesse encontrar outro assento, ele se levantou e fugiu. Kuniyoshi nunca ficou sabendo o nome do homem com a tigela de ossos, mas haveria poucas dúvidas entre os historiadores de que se tratava de Kenshi Hirata.

Atrás de Kenshi, de Kuniyoshi e dos fabricantes de pipas, equipes de resgate se deslocavam da zona rural até Hiroshima, mais mais equipes a cada hora que passava.

No Hospital de Comunicações, um doutor chamado Minoru Fujii passou por uma equipe que ele próprio reunira nos subúrbios. A caminho de outro hospital de campanha, o doutor Fujii deixou para trás uma caixa de unguentos e curativos e comida suficiente para dois dias. Em qualquer outra quarta-feira, dois dias de suprimentos não significariam muito, mas naquele dia eram tudo. Dada a incidência crescente do que pareciam ser sintomas similares ao da gripe e de uma anorexia contagiosa, o doutor Hachiya acreditava que o estoque de comida poderia durar quatro ou cinco dias. Parecia-lhe que a vida do cavalo no jardim (a rede de proteção nutricional do hospital) agora tinha uma prorrogação, mesmo que breve.

O Hospital de Comunicações, como a Cúpula de Hiroshima e a loja de departamentos Fukuya, se distinguia da paisagem, chamando a atenção. Por quilômetros em todas as direções, essa região da cidade era como urna planície onde a grama não brotava, e cujas pedras eram tijolos e telhas perfurados pelo tempo. No meio disso, o hospital era como uma solitária afloração de rocha, e também como um ímã. E assim, inevitavelmente, o edifício

atraiu um batalhão de soldados à entrada. Apontando armas, eles exigiram curativos e comida para o Segundo Exército Geral. Quatro dias mais tarde, quando se sentia saudável o suficiente para escrever, o doutor Hachiya registraria em seu diário que os bandidos não tinham deixado nada para o tratamento e alimentação de mais de oitenta pacientes.

O doutor Hachiya, apesar de parecer o único integrante da equipe que ainda tinha apetite e se sentia fortalecer, ainda não estava pronto para sair da cama e caminhar pelo hospital para visitar os pacientes. Tanto que os outros médicos proibiram terminantemente o antigo andarilho-formiga de tentar se mover. Então ele fazia relatórios em vez disso, escrevendo a História sem saber.

Nenhum dos pacientes tinha apetite. Cada um deles tinha desenvolvido sintomas como enxaquecas e calafrios, suor em profusão, sangramentos sob a pele e fortes ataques de vômitos.

Àquela altura, os vômitos se tornaram secos, e muitos dos pacientes diziam estar sentindo dores lancinantes na parte inferior da coluna. Com frequência, a dor se espalhava pela região dos rins.

O que assustava mais Hachiya era que muitos desses pacientes — com o branco dos olhos tornando-se um vermelho brilhante por usa de sangramentos superficiais, e a pele do rosto apresentando manchas vermelhas em forma de estrela — não tinham sido golpeados nem queimados pelo pika-don. Muitos dos que permaneceram aparentemente intactos pareciam nem saber onde estavam.

Koyama, o amigo de Hachiya, amaldiçoou os soldados que saquearam os últimos antibióticos, mas o doutor Hachiya começava a suspeitar que as drogas convencionais não teriam efeito sobre a doença. Os sintomas coincidiam com hemorragias por todo o corpo. Havia doenças conhecidas na África e na Nova Guiné que faziam as pessoas sangrar e eram imunes a antibióticos e sulfonamidas. Hachiya começou a suspeitar que os norte-americanos tinham dado continuidade ao pika-don com uma guerra biológica, e esse pensamento o encheu de pavor.

Quando os diagnósticos progrediram de um enjoo à morte súbita entre os pacientes, um médico que estivera tratando vítimas da explosão trouxe a Hachiya uma breve distração das preocupações sobre armas biológicas.

"Doutor, o senhor acha que uma garota poderia continuar vendo se a explosão arrancasse seu olho da órbita?" Ele perguntou isso de urna maneira completamente prática; e, em anos futuros, o doutor Hachiya se admiraria de quão rapidamente a mente humana se adaptava, transformando mesmo o inacreditável em algo comum.

Da mesma maneira prática, Hachiya perguntou: "O nervo ótico ainda estava anexado?".

"Acho que sim", o médico disse. "Ela mantinha a palma da mão contra a bochecha e o olho estava na palma. E insistia que podia me ver — eu posso jurar que sua pupila apontava diretamente para mim."

Num dia qualquer, num lugar qualquer, Hachiya teria tido calafrios. Mas, naquele dia, sua mente se entregava facilmente à especulação sobre como o cérebro da garota podia ter tentado lidar com o problema de construir uma figura tridimensional a partir de uma visão binocular tão distorcida.

Essa linha de pensamento foi interrompida por preocupações mais horripilantes. O doutor Koyama relatou que os pacientes estavam ficando muito fracos para se levantar das esteiras no chão e deixar o prédio para fazer suas necessidades. Mais da metade deles estava deitada em poças de fezes aguadas com traços de sangue — o que explicava, pensou o doutor Hachiya, por que o edifício começou a cheirar como um ossário se enchendo lentamente de dejetos asquerosos.

A parte mais alarmante do relatório do doutor Koyama envolvia dois pacientes homens que apresentaram melhoras pela manhã, mais que no decorrer de uma única hora tinham piorado dramaticamente. As manchas vermelhas sob a pele se expandiam até se tornar enormes hematomas, deixando seus rostos púrpura. E então, muito depois que os vômitos do dia anterior tivessem esvaziado o estômago até causar náuseas secas, sangue arterial fresco vinha até a boca. O doutor Hachiya percebeu que algo estava rompendo todos os vasos capilares e sanguíneos, enquanto outra coisa reduzia drasticamente a capacidade de o sangue coagular, como se a medula tivesse começado a morrer. Quando os homens começaram a vomitar sangue, os rins e vastas regiões da espinha e cérebro devem ter

começado a sangrar por dentro e a cessar suas atividades, seguindo a medula óssea à morte.

Segundo o doutor Koyama, um dos pacientes rolou para um lado e vomitou mais de dois litros de sangue; e então o outro emitiu um som como o ruído de um lençol de seda muito longo se rasgando — o som do revestimento de seu intestino, já privado de oxigênio,

deslocando-se e sendo expulso no chão pelas tripas, ou melhor, pelo que restava delas.

"Nenhum desses homens tinha sido ferido pelo pika-don", disse o doutor. Koyama, repetidamente. "Nem um pouco!"

O doutor Hachiya estava convencido então de que lidava com uma doença contagiosa e possivelmente disseminada por uma arma, e nesse caso não havia outra escolha que assegurar que seus homens queimassem os mortos rapidamente e isolassem os infectados. Ao doutor Koyama, como novo vice-diretor provisório, tinha sido atribuída a tarefa de criar a ala de isolamento. Com a ajuda dos trabalhadores do resgate e da recuperação dos subúrbios, que foram atraídos até o único edifício que estava de pé no bairro, ele pôde construir o que resultou num pavilhão rudimentar a céu aberto, parcialmente encoberto pelo lado sul do hospital. O que estavam fazendo provavelmente não significava muito, o doutor Hachiya registraria mais tarde, mas pensar que eles estavam fazendo algo ajudava o seu moral.

O próximo passo era levar todos os pacientes ainda não infectados e a equipe para o ar fresco, longe do risco de contaminação com a diarréia sangrenta nos corredores do andar térreo. O andar superior tinha desabado e incendiado durante o ataque e não tinha mais teto, mas parecia uma opção muito melhor do que ficar lá embaixo.

O doutor Hachiya foi carregado numa maca para a sua nova casa no segundo andar, onde quase todas as paredes tinham desaparecido, mas onde filas de camas, torcidas e queimadas, ainda estavam misteriosamente em seu lugar.

Alguém poderia reclamar da fuligem e das cinzas, Hachiya observou, mas ele provavelmente nunca vivera numa enfermaria tão livre de bactérias quanto esta, esterilizada pela explosão e pelas chamas.
NANCY CANTWELL JÁ HAVIA passado pela primeira de várias mudanças de nome. Ela nasceu Namsun Koh, e como jovem enfermeira coreana levada a trabalhar num hospital militar japonês, sofrera menos que a maioria a arrogância racial dominante naqueles tempos; mesmo assim, sofrera um pouco. Os coreanos derrotados eram considerados uma casta inferior de escravos. O trabalho atribuído a Namsur, era extenuante, mas ela impressionou urna enfermeira-chefe com sua disposição a trabalhar ainda mais duro ao dizer: "Porque eu certamente não morrerei de trabalhar".

A enfermeira transferiu Namsun a um novo hospital nos subúrbios de Hiroshima e lhe deu um novo nome que soava japonês: Minami.

O hospital estava rodeado de morros altos e de um parque que fora convertido em fazenda. Durante os meses que antecederam o bombardeio, todos os carregamentos de comida foram suspensos e os militares ordenaram que o hospital tirasse seu sustento da terra da fazenda. Minami e os outros da equipe médica dobraram sua carga de trabalho e se tornaram agricultores e cuidadores de soldados feridos e infectados pela tuberculose. A maioria de seus pacientes estava infectada. Minami achava estranho que cada vez menos militares pareciam voltar para casa sem feridas. A maioria das camas estava ocupada por veteranos idosos que tinham adoecido. Ocorreu-lhe que talvez a guerra estivesse se tornando mais mortal aos soldados do que qualquer um queria admitir.

O problema em tentar cultivar alimentos num hospital durante o fim da guerra era que as sementes escasseavam. Milho e tomates tinham saído do menu havia meses. Felizmente, ela poderia fazer as batatas brotar e se multiplicar com facilidade, e por todo seu trabalho pesado Minami recebia duas batatas da colheita de vez em quando. Estava aprendendo como a fome constante podia transformar o que era pequeno e mesmo ordinário em algo enorme. Minami se lembraria mais de sessenta anos depois que poucas coisas podiam ter um sabor tão maravilhoso quanto uma simples batata, antes disso ou desde então.

Até a primeira semana de agosto de 1945, os pacientes estavam enfraquecendo de modo constante e morrendo mesmo sem ter passado pela chuva negra e pelas partículas radioativas. O doutor Minoru Fujii, que àquela altura se tornara o mentor de Minami, explicou que os três elementos principais no tratamento da tuberculose eram o descanso, o ar fresco e a boa nutrição. Desses três, a nutrição era a pedra angular. No desespero, durante as semanas que antecederam o dia 6 de agosto, o doutor Fujii elaborou um plano para drenar um lago no parque adjacente ao hospital. A operação de abrir valas era simples, porém esgotante, mas funcionou. Centenas de carpas e bagres foram apanhados morrendo na lama. Limpos, salgados e secados ao sol, eles supriram os nutrientes necessários durante a última semana de julho e a primeira de agosto - com poucas sobras para a missão de resgate a Hiroshima. Até a época da "grande matança de peixes", os pacientes que estavam suficientemente fortes para deixar suas camas saíam furtivamente para o campo à noite e apanhavam folhas de rabanete e algumas raízes macias de plantas, as quais cozinhavam em água salgada com um pouco de mingau de batata e arroz. Um paciente reivindicou a autoria de uma receita que envolvia nutrientes de sopa derivados do "caçador de ratos" do hospital. Ele espremera o suco das bolas de pelo vomitadas pelo gato.
Depois de conhecer tamanha fome e apesar de saber que esta provavelmente voltaria, a equipe e os pacientes decidiram empacotar quase a metade da reserva de peixe e batata que sobrava (o que não significava muito) e deixaram que o doutor Fujii a levasse até a cidade atingida. O roubo praticado pelo exército no Hospital de Comunicações, mesmo que de urna pequena doação de comida, era urna perda muito maior do que o doutor Hachiya poderia supor.

Na noite de 8 de agosto, o doutor Fujii levou Minami e o restante da equipe às ruínas da Escola de Ensino Fundamental Motokawa, onde um novo hospital improvisado tinha sido montado num ginásio sem teto. Encontraram centenas de sobreviventes queimados, sangrando e em sua maioria nus, amontoados até os portões da escola. As condições no novo hospital eram muito piores do que no Hospital de Comunicações. Grupos de voluntários de cidades vizinhas estavam sufocados pelo que viam e sentiam, e tinham começado a vagar como os andarilhos-formiga, sem saber o que fazer.

O doutor Fujii supunha que as palavras para descrever o que ele encontrara deveriam existir em algum lugar, em algum dicionário. em alguma língua, mas nunca conseguiria encontrá-las. Quando viu os ferimentos pela primeira vez, pensou que ia perder a razão completamente. Isso não vai ajudar a ninguém, ele disse a si, e tomou a decisão de enrijecer seu coração. Fujii se concedeu precisamente cinco minutos para ficar no meio daquilo tudo completamente horrorizado; e então, quando o seu relógio marcou trezentos segundos, ele conseguiu adormecer sua sensibilidade, assumir o comando e chamar o restante de seus médicos para trabalhar.

Minami parecia tão atordoada quanto qualquer um, mas o doutor Fujii viu que ela estava superando a situação mais rapidamente que os outros. Ele foi diretamente até ela e encorajou-a com um velho provérbio: "Dizem que o caçador não vê a montanha".

O doutor Fujii não sabia exatamente o que essas palavras significavam e agradecia por Minami nunca ter perguntado. Tudo o que ele sabia com certeza era que o provérbio parecia apropriado e que funcionara.

Sua primeira ação foi fazer circular instruções para a triagem, pelas quais somente os pacientes que pudessem ser atendidos com os recursos médicos disponíveis seriam tratados. Isso significava que aqueles que aparentemente morreriam em até 48 horas seriam deixados. A vasta maioria se enquadrava na categoria "mais provável que morra".

Mesmo aqueles pacientes que pareciam ter chance de sobrevivência podiam receber pouco mais cuidado médico que tigelas de arroz e água. Os únicos remédios disponíveis para o tratamento de queimaduras e cortes eram alguns poucos kits de costura e mercúrio-cromo para a esterilização. Uma mistura de pó de óxido de zinco e óleo poderia ser aplicada às queimaduras. Cirurgias estavam fora de questão.

Minam" não tinha certeza de que pudesse saber quem sobreviveria e quem não. Ela simplesmente ia de paciente em paciente, seguindo uma filosofia budista de fazer brilhar um pouco de luz sempre que pudesse. Passava a mistura de zinco e óleo no rosto das vítimas de queimaduras, cujos traços estavam tão inchados que era impossível diferenciar homens de mulheres só de olhar para eles.

Enquanto o pôr do sol se aproximava, vastas quantidades de comida foram levadas ao ginásio. O súbito contraste entre o hospital improvisado e o Hospital de Comunicações a apenas algumas centenas de metros se tornou extremo. Ninguém podia entender, no início, de onde vinham arroz, verduras frescas, pêssegos e caixas de peixe e frango. "Pessoas importantes" vieram junto, e então os médicos perceberam que uma família abastada tinha descoberto parentes vivos no ginásio. Eles enviaram, literalmente, caminhões de suprimentos. Por algum tempo, Minami ficou irritada em pensar que veteranos numa cidade depois dos morros tentara espremer comida de vômito de gato enquanto havia reservas de comida de boa qualidade perto dali. Ela não era o tipo, contudo, que deixava a raiva ferver por muito tempo. Tampouco era o tipo de pessoa que, como ela pensava que os norte-americanos diziam, "olhava os dentes de cavalo dado". Então ela se serviu de um pouco de arroz e carne e atravessou o portão da frente.

Seu apetite não durou muito. Ainda havia algumas pessoas - formiga vagando pelo lugar; embora àquela altura não houvesse o bastante para formar filas longas, e a maioria vagasse sem destino em duplas, em trios, ou sozinhas. Os últimos andarilhos-formiga apresentavam feridas abertas nos lugares expostos ao clarão, onde a pele tinha sido quase instantaneamente assada e depois arrancada. Era frequente a pele estar tão completamente esfolada que a musculatura dos braços e das pernas se tornava exposta. Uma substância aquosa saía dos músculos, derramando trilhas enquanto eles caminhavam.

O doutor Fujii explicou que o funcionamento mais elevado das regiões externas do cérebro dos andarilhos já deveria ter cessado, apagando quem eles tinham sido e deixando para trás apenas um instinto básico, animal, de continuar caminhando adiante cegamente. Ele aconselhou Minami a parar de olhar para eles e voltar ao ginásio, mas ela ficou do lado de fora um pouco mais, até observar o suficiente para saber que eles não podiam mais estar conscientes da dor e que a substância aquosa que fluía tão livremente os faria cair mortos de desidratação.

A visão dentro do ginásio era pouco menos angustiante.

O doutor Fujii mostrou a Minami uma técnica — recém-inventada — para remover centenas de larvas de uma ferida esguichando uma solução salina sob a pele descolada e moribunda. Fujii e os outros médicos demonstravam muito medo das infestações de larvas e instruíam a todos que as retirassem com líquido ou as removessem uma a uma com pinças. Minami estava mortificada com as nuvens de moscas que enchiam o ar. Ela descobriu que em cada paciente tinha crescido um quilo ou mais de larvas. Muitas dessas criaturas eram descendentes diretas daquelas que se esquivaram dos efeitos do clarão durante os primeiros milissegundos do pika. Para Minami, era impossível acreditar que tapetes de larvas contorcendo-se poderiam nascer sob a pele de seres humanos. A repentina abundância de proteína humana em Hiroshima, ela deduziu, estava causando o crescimento rápido das larvas brancas.

Minami queria chorar e vomitar; mas lembrou-se do conselho do doutor Fujii, endureceu seu coração, e removeu as larvas, limpou as feridas, aplicou desinfetante e pincelou na pele e em qualquer músculo exposto a mistura de óleo e zinco.

O que Minami e o doutor Fujii não poderiam saber — o que poucas pessoas no mundo entenderiam até que a Food and Drug Administration(6) classificasse as larvas das moscas formalmente como “recursos médicos" em 2007 — era que a praga de larvas de Hiroshima provavelmente causara mais cura do que danos. Embora as moscas adultas da cidade carregassem infecções bacterianas enquanto iam de corpos em putrefação a pacientes cujo sistema imunológico já estava enfraquecido pela radiação, os ovos que punham sobre e dentro das feridas estavam liberando uma das equipes de limpeza mais eficientes da natureza. As larvas brancas eram, como todos os que se alimentavam de carniça, comensais muito exigentes. Elas rejeitavam a carne viva, liquefazendo e digerindo apenas tecidos mortos e permeados de bactérias. Àquela altura, cirurgiões militares norte-americanos já notavam que os sobreviventes de Okinawa com feridas infestadas de larvas estavam se saindo melhor que os soldados com feridas similares sem a infestação. Eles também prenderam que era quase impossível retirar todos os vermes, porque cada criatura removida parecia ser reposta dentro de algumas horas por dez ovos recém-chocados. E então os cirurgiões descobriram que membros infestados, os quais já tinham amputação marcada, não mais fediam a bactérias putrefacientes, e a gangrena começava a sarar.

Depois de três horas do pôr do sol, Minami deixou o covil das larvas brancas para esticar os músculos, endireitar a coluna e respirar ar razoavelmente fresco.

6. Órgão governamental norte-americano que controla alimentos, medicamentos e cosméticos, entre outros. (N.T.)

Do portão da frente, ela podia ver que alguns edifícios distantes continuavam a queimar, e que piras funerárias de valas comuns eram acendidas longe e perto. Uma chuva leve com névoa começou a cair, e vieram os vaga-lumes azuis. Antes do amanhecer de 9 de agosto, centenas de outras pessoas das equipes de resgate e sobreviventes testemunhariam o mesmo fenômeno dos "vaga-lumes". O pior da radiação já tinha passado. Mesmo no contexto da física do século XXI, nenhum efeito conhecido da bomba poderia ser adequadamente responsável pelas bolas de fogo azul brilhantes que se lançavam pelo ar como fósforo.

"Simplesmente apareciam aqui e ali na escuridão", Minam" se lembraria depois. "Não eram sólidos, eram mais como fogo se movendo pelo ar, desaparecendo e reaparecendo. Não eram exatamente como chamas. Eram mais como pontos de luz, corno vaga-lumes —só que maiores. Um voava para longe e outro aparecia em outro lugar; ou talvez era o mesmo desaparecendo e reaparecendo. Não tinha como ter certeza. Eu tinha certeza simplesmente disto: não apareciam onde os fogos estavam. Eram outra coisa. Apareciam em todos os lugares e disparavam para lugar nenhum."

Aparecer em qualquer lugar fazia sentido para Minami. As faíscas azuis agora se moviam ativamente para lá e para cá sobre as ruínas da cidade inteira, e Minami sabia àquela altura que pessoas morreram e continuavam morrendo em todos os lugares.

Mesmo os andarilhos-formiga que vertiam água não a fizeram ter medo como ela tivera na noite de 8 de agosto, enquanto estava sozinha e de pé na escuridão onde fora o centro de Hiroshima. Minami soltou um gemido, baixou a cabeça e a seguro: entre as mãos, e caiu sentada na terra úmida, tremendo e apertando seus joelhos contra o peito. Nunca estivera tão assustada antes, e mesmo que tivesse sido atingida por um tiro na Coreia e vivesse para ver o Voo 11 da American Airlines passar sobre sua cabeça em Hell's Kitchen, a caminho de matar um de seus alunos favoritos em 11 de setembro de 2001 — mesmo esses acontecimentos seriam incapazes de lhe provocar tanto medo novamente.

Hiroshima era uma cidade de fantasmas. Era assim que Minami se lembraria dessa noite. Ela tinha saído do covil das larvas brancas para o domínio dos vaga-lumes azuis.

KENSHI HIRATA QUASE COCHILOU, mas um solavanco nos trilhos do trem e um clarão do lado de fora de sua janela o deixaram completamente alerta. De um lado, um brilho laranja começou a florescer no céu se espalhando e ficando mais brilhante. A cidade de Yahata estava morrendo sob o que ele suspeitava ser o ataque de pelo menos cinquenta B-29.

Ele pensou em Setsuko.

Os intestinos de Kenshi ainda não estavam bem, e ele notou um sangramento sob a pele dos dedos — e embora se sentisse fraco e com dor, tinha medo de que, se cochilasse, derrubaria no chão a tigela dos preciosos ossos que estava no seu colo.

Dois enxames adicionais de bombardeiros noturnos o ajudaram a controlar o sono. A caminho de Nagasaki, ele testemunhou os ataques com bombas incendiárias de duas cidades mais: Tobata e Yawata. A última introduziu um novo fator "Fubar" na equação de

Alvarez, garantindo que no dia seguinte os caminhos de Kenshi Hirata e Charles Sweeney convergiriam uma vez mais.

Nos ANOS SEGUINTES, o doutor Hachiya despertaria às 2h da manhã com o mesmo pesadelo recorrente. Ele se encontrava numa grande cidade — maior que Tóquio —, uma cidade onde os edifícios eram de meio quilômetro de altura. No raiar do dia, torres de todas as formas e tamanhos brilhavam como mica, e ao meio-dia elas eram apenas cinzas, fumaça e aço retorcido. Ao seu redor, a cidade estava com pilhas de corpos em decomposição, todos olhando suplicantemente para Hachiya. Ele viu um olho apoiado na palma da mão de uma garota — e no alto de outra cidade cujas torres superavam os mais altos arranha-céus de seu tempo, o olho piscava, e depois se abria novamente como urna enorme bola de fogo.

A quase duas da manhã do dia 9 de agosto, o médico acordou com o cheiro de sardinhas queimando. Por um momento ele se perguntou o que poderia causar esse cheiro, e então se lembrou de onde estava. Olhando para baixo, do segundo andar destruído e queimado do hospital, podia ver vários incêndios espalhados pelas ruínas, até as colinas mais distantes. No início, os incêndios eram principalmente escombros em chamas, mas agora não mais. Na direção de Nigitsu, uma fogueira especialmente grande competia com as espirais de fogo do dia 6 de agosto. Lá, os mortos eram queimados às centenas. A percepção súbita de que Hiroshima se tornara uma cidade de piras funerárias fez Hachiya estremecer.

Perto do centro da cidade, a Cúpula e um ou dois prédios vizinhos — que o pika-don tinha deixado de alguma maneira permanecer em pé — ainda ardiam por dentro. Numa cidade onde já não havia iluminação nas ruas, os prédios eram sinistras silhuetas contra o céu noturno. Essas ruínas brilhantes e as piras ardentes —e os clarões ocasionais de fosforescência azul — faziam o doutor Michihiko Hachiya se perguntar se Pompeia tinha se parecido com isso em sua última noite. E lhe ocorreu que não houve tantos mortos em Pompeia quanto em Hiroshima naquela noite.


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