O último Trem de Hiroshima



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Ao perceber que até mesmo suas roupas estavam completamente intactas, os garotos se sentiam invadindo uma terra estranha, onde os olhos e lábios de todas as outras pessoas haviam se tornado bolhas cobertas de cinza preta. Alguns minutos antes, ninguém na escola conhecia tais lesões, agora, todos menos Hiroshi e Ryuso exibiam essas feridas estranhas. Era como se o normal tivesse se tornado anormal, e o que era anormal, virado comum. A inversão os fez lembrar de histórias que seus avós tinham contado sobre uma profetizada quebra do mundo.

"Meu Deus, meu Deus", disse RyUso. "O que acabou de acontecer?"

Ao cruzar o rio, do outro lado da ponte Misasa, as famílias de Masahiro e Sumiko tinham sido protegidas pela sombra e encasuladas contra o choque — como Hiroshi Ito e Ryuso. E, também como os dois garotos, no início não conseguiram encontrar pistas sobre a causa dessa desgraça. Tudo o que sabiam era que o fenômeno havia convertido o pátio idílico e brilhante de orvalho da manhã em poeira amarelada e redemoinhos de fumaça negra que mais pareciam um pesadelo. Por sorte, a irmãzinha de Masahiro, Sadako, se lembraria apenas do clarão. Sua mãe nunca quis acrescentar nada a essa memória. Principalmente, nunca contaria à garota sobre o dançarino de sapateado que eles viram.

Quando as duas famílias saíram à rua, descobriram que as pessoas haviam desaparecido — com exceção de um estranho homem que conseguira sair de uma casa destruída e passara correndo por eles em direção a uma cortina quente de faíscas. Enquanto corria, ele batia os braços como se fosse um pássaro, não pediu ajuda, nem notou que o olhavam. O único som que emitiu foi um dique ritmado na superfície da rua, como se estivesse dançando com sapatos de sola de metal. Mas ele não tinha sapatos. Na verdade, seus pés haviam sumido e as pontas de suas tíbias — lascando-se e quebrando a cada passo contra o pavimento — eram a fonte do ruído. Ninguém viu o que aconteceu com ele. O sapateado no inferno de Dante foi abafado, depois completamente interrompido por uma grossa correnteza de fumaça oleosa — que envolveu as duas famílias numa calma sombria.

A seis ou sete passos de lá, o mundo se tornava um filme mudo cheio de sombras. Depois que o dançarino passou, tudo o que se ouvia era um silvo constante de pedras e cascalho caindo do céu sobre chapas de zinco ondulado que haviam explodido bem longe e voado até a vizinhança. Sumiko Kirihara se perguntava se a súbita mudança em seu mundo poderia não ter qualquer ligação com a guerra, mas com a destruição final da Terra, tal como havia sido profetizada por milhares de anos. Ela começou a acreditar que esse era o fim de Hiroshima, do Japão, da humanidade.

Num hospital perto do Ground Zero, um médico militar fora reintegrado havia pouco, nos preparativos a um já esperado ataque norte-americano ao continente. As ordens que recebera, sob a mira de um revólver, incluíam ensinar novos soldados — alguns de apenas 14 e 15 anos — a seguir os novos procedimentos: amarrar bombas ao corpo e se atirar sob veículos. O doutor estava tão perplexo quanto Sumiko com o silêncio dos arredores. Décadas se passariam até que alguém se desse conta de que ele pertencia a um grupo muito especial de sobreviventes: os que haviam sido encasulados contra o choque. O hospital às margens do rio, no qual o médico trabalhava, havia desaparecido. Tudo fora removido com uma rajada de pó, fazendo dele o único sobrevivente ainda de pé e sem nenhum arranhão. Tudo o que a bomba fez foi arrancar os óculos de seu rosto. Olhando para baixo, ele viu uma caixinha de música também intacta naquele súbito purgatório de fumaça e poeira ascendente. A caixinha ainda tocava a música Let me call you sweetheart; além dessa canção ocidental, só havia o silêncio, e todo mundo parecia ter desaparecido.

O mistério se aprofundou quando, através de clareiras no pó, o médico começou a ver a verdadeira extensão do estrago. Depois que it ele encontrou os óculos e percebeu que não conseguia mais enxergar nitidamente com eles, descobriu que tudo ficava nítido quando os tirava... E fora de foco quando voltava a colocá-los. Algum tipo de onda de pressão, ele teorizou, deveria ter mudado a forma de seus globos oculares.

"Mas é claro", ele afirmou a um cientista anos mais tarde, num tom de genuína ironia, "eu não recomendaria detonações nucleares como cirurgia corretiva".

Em outro ponto da margem do Ground Zero, um dos companheiros de trabalho da senhora Ito, que também havia sido recrutado, tinha uma história de sobrevivência igualmente notável para contar, em virtude de uma combinação precisa de distância e obstáculos, ângulos e forças, e sorte. No Momento Zero, as calças escuras da senhora Sumako Matsuyanagi tinham pegado fogo sob o clarão azul, mas sua camisa branca de mangas compridas protegera a parte de cima do corpo — e a explosão de ar imediatamente extinguiu as chamas das calças antes que pudessem causar algum ferimento. A martelada de ar também carregou a senhora Matsuyanagi, arremessando-a da calçada onde estava a mais de cinquenta metros — quase meia quadra. Ela estava ainda mais longe da explosão de ar do que Akiko Takakura e onde era o Banco Sumitomo, então a extremidade inferior da bolha de choque não passou por ela. Em vez disso, a bolha de choque bateu de lado, e sua superfície inferior, em forma de tigela, ao espalhar-se sobre a terra plana, comprimiu uma onda precursora à frente de choque — o que era tanto bom quanto ruim para a sobrevivência. A onda precursora avançara dezenas de metros à frente da senhora Matsuyanagi, ganhando força enquanto se deslocava. Assim, o ar preso entre a frente de choque e a bigorna era como o efeito de uma semente quase líquida de melancia bem apertada entre um dedão e um indicador, com a senhora Matsuyanagi amortecida no meio. Dessa maneira, enquanto a onda precursora arremessava a mulher a uma velocidade letal, também realizou simultaneamente a tarefa salvadora de remover as grandes janelas de uma casa na rota de voo da senhora Matsuyanagi — que acabou aterrissando na sala de estar de alguém, juntamente com boa parte do teto.

Anos mais tarde, a senhora Matsuyanagi recordaria, num estilo de ironia superado apenas por aquele do médico cuja visão foi corrigida pela bomba, de que "as pessoas lá dentro ficaram muito surpresas em me ver".

"De onde você veio?", perguntou uma mulher idosa.

"Você está ferida?", quis saber um senhor gentil.

A senhora Matsuyanagi olhou em silêncio ao redor da sala, sem saber o que dizer. O homem de cabelos brancos puxou uma cadeira quebrada dos escombros e pediu que ela descansasse. Quando se sentou, sua roupa começou a se desfazer como se fosse feita de papel-arroz quebradiço.

"O que estará causando isso?", o homem perguntou.

A senhora Matsuyanagi respondeu, sem reação: "Alguma coisa parece ter acontecido". Seus pensamentos estavam somente em seus dois filhos naquele momento. Ela agradeceu ao casal e disse que precisava sair para procurar a escola. Precisava.

O garoto Yoshitaka, de 13 anos, também sobreviveu à explosão. frequentava uma das menores escolas da cidade. Todo o prédio parecia ter desabado ao seu redor; mas, pela ironia do destino, ele foi abrigado dentro de um bolsão de ar, do qual conseguiu sair com algum esforço empurrando até a superfície, rápido o suficiente para testemunhar a nuvem ainda radiante que crescia no céu, quase diretamente acima de sua cabeça. O plasma dentro da bolha ainda era assustadoramente brilhante; Yoshitaka podia sentir seu calor se irradiando e refletindo todas as cores do arco-íris — "E Deus que me perdoe", ele diria mais tarde. "Eu poderia dizer que foi bonito."

Ao seu redor, nos tijolos e escombros, outras crianças estavam parcialmente enterradas e morrendo. Mãos agarravam os pés e as canelas de Yoshi. Ele estava horrorizado com a ideia de tantas mãos tentando agarrá-lo — os que pareciam mortos e os mortos que ainda se mexiam tentando puxá-lo pelos escombros —, e tudo o que ele conseguia pensar era em escapar deles. Chutou as mãos e fugiu, continuava olhando para cima, para a bela aparição — olhava para qualquer lado, menos para baixo.

Se Yoshi tivesse ficado enterrado numa camada de tijolos, meso à altura do tornozelo, por mais alguns segundos, talvez os raios nunca o tivessem atingido. A beleza que ele admirava no céu se originou em grande parte da criação de produtos secundários da fissão, a maioria com meias-vidas de milissegundos a três minutos. O declínio desses isótopos — quando pedaços começaram a desaparecer do universo deixando erupções de energia em seu lugar — abasteceu a terceira onda de raios gama. Esta decaiu mais de 90% nos primeiros dez segundos e continuou a irradiar a maioria de seu der remanescente por mais meio minuto.

Quando a senhora Matsuyanagi encontrou os dois filhos correndo sem direção certa, perto das ruínas da escola, eles pareciam sobrevivido sem ferimentos aos estilhaços de vidro e às paredes desabaram, mas seus corpos haviam absorvido os raios gama. Foi-lhes concedido um breve descanso — no qual poderiam pensar ter escapado — antes de sucumbir a uma epidemia que ninguém havia visto antes. Um dos garotos tinha sido protegido por alguns segundos no interior de um prédio que desabava, enquanto seu irmão mais novo fora escudado contra o raio de calor pela sombra de um grosso tronco de árvore, que o protegera do golpe lateral da onda de choque. As forças de explosão devem ter divergido ao redor do garoto, porém a bomba havia liberado uma sinistra fauna de partículas de alta energia, algumas mais mortíferas ainda que os raios de calor e as ondas explosivas. Entre elas estavam núcleos de ferro — disparados do interior da bomba pelas linhas do campo magnético com até 90% da velocidade da luz. Se um único núcleo de urânio dividido por uma bala de nêutron libera energia suficiente para fazer um grão de areia saltar, um núcleo de ferro arremessado através de um corpo humano a uma velocidade relativística pode transmitir a força de uma bola de beisebol comprimida, por esse mesmo trajeto, a quase 170 quilômetros por hora. Por um diâmetro não muito maior que o de um fio de cabelo, a carne vira cinzas, a água explode e a síntese de proteínas nos tecidos ao redor para subitamente. Naquele dia, havia raras e estreitas zonas mortíferas — as linhas do campo magnético da bomba poderiam levar milhares dessas partículas através de um corpo, causando um efeito que seria, basicamente, de tiros de uma metralhadora nuclear.

Enquanto percorriam a pilha de escombros que havia sido sua escola, os filhos da senhora Matsuyanagi já se sentiam mal. O mais novo tinha ido para a escola com fome, mas, depois dos efeitos dos raios e dos feixes de partículas, perdeu a vontade de comer. Quando sua mãe finalmente o encontrou, ele havia sido tomado por náuseas secas e convulsões. Em questão de minutos, os braços da criança ficaram pretos e azuis, e ele começou a sangrar, apesar da aparente falta de ferimentos. A hemorragia sob a pele evoluiu com uma velocidade tão incrível que um dia os cientistas se perguntariam se a explosão dos raios gama tinha sido, de alguma maneira, apontada a uma criança específica sob uma árvore específica; ou se o menino era extraordinariamente sensível a doses de radiação que teriam levado horas ou dias para abater outras pessoas; ou se a memória da senhora Matsuyanagi sobre o sangramento do filho pelos poros — e sobre sua morte apenas horas mais tarde —, "corno fumaça se desvanecendo", era em realidade uma lembrança equivocada dos acontecimentos. Um efeito de espingarda parecia muito provável, mas ninguém saberia ao certo. Naquele dia, a senhora Matsuyanagi não podia nem adivinhar o que a havia atirado pela rua e feito suas roupas se desfazer como se fossem um pergaminho antigo, nem que ripo de doença havia atacado seus dois meninos.

Antes de sair de casa pela última vez, o filho mais novo chorou porque não havia arroz por muitas semanas. Ele só podia comer uma pequena porção de mingau de soja no café da manhã — o que não enchia o estômago. Pior ainda, na ausência total de peixe fresco, carne seca ou temperos, o mingau deixava um ressaibo como o de serragem úmida. Por décadas, a senhora Matsuyanagi rezaria para que seu filho viesse visitá-la em sonhos, nos quais ela o levaria nos braços e lhe daria todo arroz e carne que ele pudesse comer.

A prece da senhora Matsuyanagi refletia as emoções de muitos pais que também se lembravam dos desejos não realizados de seus filhos. No Parque da Paz que um dia ocuparia o Ground Zero, uma mãe deixaria um poema a um filho que lhe pedira um tomate da horta antes de ir para a escola. A mãe havia dito que só restava um tomate e que, se o garoto esperasse para comê-lo quando voltasse para casa, isso adiaria sua fome habitual na hora de dormir. O poema falava do pequeno santuário que seria construído para ele, em que ela colocaria uma caixa de papel coberta por um pano branco — e, em cima do pano, depositaria todos os dias um tomate.
COMO TODOS NA CIDADE, Akiko Takakura não sabia nada sobre raios gama, jatos de nêutrons, ou íons pesados relativísticos. Ela não podia definir o que estava acontecendo com seu corpo, mas desejava nunca ter conhecido a sede que a acometia. No Banco Sumitomo, ela e Asami enchiam capacetes de proteção contra ataques aéreos com a água de um cano quebrado, mas a sede continuava a aumentar.

Elas eram as únicas duas almas dentro do corredor principal do banco quando o clarão ocorreu, pois as tarefas de limpeza eram reservadas às mulheres do escritório, e elas tinham a obrigação de chegar meia hora antes dos gerentes e dos clientes. Às 8h15, quase todo mundo estava do lado de fora.

Durante o primeiro meio minuto depois do clarão, o ar dentro do banco tinha ficado insuportavelmente quente. Akiko achou que seria perigoso continuar do lado de dentro e que em qualquer outro lugar, em qualquer outra direção, deveria ser mais seguro. As costas de Asami estavam mais gravemente feridas do que elas supunham; assim, não foi antes das 8h25 — dez minutos depois do Momento Zero — que conseguiram sair ao ar livre e ver o que havia acontecido. Então, é claro, elas desejaram não ter visto nada.

O sol havia desaparecido. No brilho vermelho de um redemoinho de fogo, que parecia ter saído dançando dos edifícios já reduzidos a escombros incandescentes, Akiko podia ver que a rua estava cheia de pessoas transformadas em carvão e pilhas de cera ardente. À primeira vista, a rua parecia simplesmente vazia, mas, quando ela olhou de novo por entre a fumaça e as chamas, era fácil ver como as pessoas que estavam caminhando na direção do banco jaziam caídas umas por cima das outras. Várias pareciam ter caído aos pedaços, como sacos de folhas queimadas e esparramadas pelo chão. Os redemoinhos vermelhos — ou espirais de fogo — espalhavam essas pilhas negras irregularmente, e as palavras "cidade da morte" vieram rapidamente à mente.

Akiko estava entre os primeiros sobreviventes a concluir que tudo o que vira tinha sido obra de uma única e avassaladora explosão. Atordoada, e tentando entender o que tinha acontecido, ela se agachou perto de algo macio e carnudo, cujos dedos estavam queimando. Uma espécie de óleo saía dos tecidos sob a pele e manava até as pontas dos dedos, que ardiam como velas. Ela achou difícil acreditar que dedos pudessem queimar dessa maneira — dedos que um dia deviam ter segurado bebês ou virado páginas. Akiko irrompeu em lágrimas, e então começou a chover.

Por vários minutos, as duas amigas tinham se esquecido da sede e a conseguiram controlar, mas agora a febre estranha havia voltado com força total — por isso começaram a beber chuva.

Algumas das gotas de chuva eram tão grandes quanto uvas - tão grandes e caindo com uma força tal que davam ferroadas no rosto de Akiko. Mas ela e Asami levantaram o rosto para o céu e beberam da chuva mesmo assim, abrindo a boca o mais que pudessem.

Quando olhou para os braços, Akiko percebeu que a água tingia de negro sua pele. A chuva era tão escura quanto uma tinta, mas a sede de Akiko era tão grande que, quando a amiga encontrou uma lata vazia, elas a usaram para apanhar tanta chuva negra quanto - pudessem e continuaram a beber.

A bomba tinha vaporizado a água do rio e dos lagos em toda a extensão de Hiroshima. Num raio de dois quilômetros, as folhas perderam uma porção substancial da umidade, como também a perderam pássaros e grilos, e cada folha de grama, cada soldado e cada criança que estiveram ao ar livre. Todos os vapores acumulados da cidade foram içados para as camadas inferiores da estratosfera; quando esfriaram, condensaram e começaram a cair.

A chuva era negra porque tinha se misturado à fuligem na estratosfera de Hiroshima e aos produtos de fissão da nuvem. Mesmo com meias-vidas de apenas alguns minutos, quaisquer goles de chuva negra ingeridos entre as 8h30 e 8h45 daquela manhã eram capazes de transmitir, nas sete horas seguintes, pelo menos a metade da dose de DNA necessária para matar.

O corpo de Akiko era evidentemente mais resiliente que o da amiga. Asami sucumbiu rapidamente, mas, em 2005, Akiko mostrou sua lealdade às vítimas ao manter viva a memória de sua amiga.

"Ela era um ano mais nova que eu", disse Akiko. "Tenho quase oitenta anos agora. Ela tinha apenas dezoito. Quando penso nela, ela ainda tem dezoito anos. Era uma pessoa muito bonita, muito gentil."

COMO AKIKO, A MAIORIA das pessoas acreditava que qualquer lugar tinha de ser mais seguro do que onde estava quando o céu se abriu. Do seu posto no alto da estação meteorológica, Isao Kita chegou à mesma conclusão que Akiko Takakura: um único, estupendo explosivo era a única explicação que fazia sentido. Ao contrário de Akiko ou de qualquer outra pessoa lá embaixo, Kita tinha urna visão clara do que estava acontecendo. Podia observar, com os binóculos, como milhares de sobreviventes do mesmo lado da fumaça e da chuva negra que ele, embora estivessem razoavelmente a salvo, tinham começado urna migração desordenada em direções aleatórias. Só gradualmente começaram a formar estranhas caravanas, como num formigueiro, ziguezagueando para longe dos incêndios e da escuridão que havia no norte.

Dois dos andarilhos, caminhando dentro das trilhas de formigueiros avistadas por Kita, eram um relojoeiro e um médico sobrevivente chamado Michihiko Hachiya. O relojoeiro havia se juntado, maquinalmente, à primeira trilha de vítimas que pareciam mostrar algum sinal de organização. Elas se moviam em uma direção, sobre um monte de pó amarelo e telhas quebradas. O relojoeiro foi levado pelo movimento mais ou menos automaticamente e o seguiu. A expressão que ele usaria mais tarde era muga-muchu, o que podia ser traduzido literalmente como "sem self, como se estivesse num sonho". Ele sentiu que não podia mais tomar uma decisão sozinho, então seguiu outras pessoas, perdendo-se em uma mentalidade de colmeia e sendo levado por ela.

O doutor Hachiya estava completamente nu quando se juntou à fila. Suas roupas tinham sido desintegradas antes de ele se juntar ao relojoeiro e ao restante dos andarilhos-formiga, e mal percebeu que havia algo remotamente perturbador sobre a repentina ausência de seu habitual pudor. Mais tarde, explicaria: "Aqueles que podiam, caminhavam silenciosamente em direção aos morros, seus espíritos destruídos, sem nenhuma iniciativa. Quando perguntavam de onde vinham, eles apontavam para a cidade e diziam: 'Do lado de lá'. Estavam tão alquebrados e confusos que eles — nós — se moviam e se comportavam como autômatos. Nossas reações surpreenderiam os forasteiros que relatavam, com espanto, o espetáculo de longas filas de pessoas mantendo-se impassíveis num caminho estreito e irregular [sobre montes de escombros pontiagudos], quando bem perto de lá havia uma estrada mais plana, mais fácil de transitar] na mesma direção. Quem observava do lado de fora não poderia entender que testemunhava o êxodo de pessoas que caminhavam no domínio dos sonhos".

Nesse estranho domnio do choque, alguns dos sobreviventes trocaram o pânico por uma ilusão de controle, trancafiando-se no que ficou conhecido (no campo da psicologia do desastre) como a Resposta de Edith Russell:3 a tendência a se concentrar em detalhes absurdos em meio ao horror ou ao grave perigo. Um dos soldados mais novos da cidade, que geralmente estaria em seu posto nas profundezas do Ground Zero, tinha sido enviado a uma cidade pequena a dez quilômetros de Hiroshima na manhã de 6 de agosto. Depois de receber a confirmação, por rádio e telefone, de que todos os contatos de Hiroshima haviam cessado, ele arrumou seu equipamento e rumou de volta à cidade.

A primeira vítima de queimaduras que ele encontrou não parecia um ser humano. Não tinha um rosto, só uma massa inchada de carvão sobre seus ombros, cuja pele parecia couro de crocodilo ou madeira queimada. Ao se aproximar da cidade, encontrou mais criaturas com cara de madeira queimada.

Depois de mais de uma hora, ele parou sem saber que caminho tomar. O fogo, a fumaça e as pessoas de carvão deixaram-no a ponto de correr para qualquer lado, mas um pensamento repentino sobre o livro do código militar deteve seu pânico e devolveu o controle ao rapaz. Ele se atribuiu a tarefa de achar e proteger o livro do código do exército. Enquanto caminhava, estava decidido a encontrá-lo e mantê-lo longe do inimigo, mesmo se só restassem lascas de papel preto.

O soldado passou por muitos "formigueiros" ao longo do perímetro exterior da explosão. Embora seu cantil estivesse cheio, ele ignorou as súplicas por água das pessoas. Precisava encontrar o livro do código; nada mais importava. Apressou o passo o mais que pôde, cada vez mais preocupado com uma repreensão severa por parte de seu superior quando chegasse ao acampamento do exército. Quando finalmente chegou ao acampamento, entretanto, não havia mais ninguém vivo. Casernas e prédios tinham desaparecido ou sido achatados contra o solo. Só os armazéns mais robustos eram reconhecíveis.
3. Edith Louise Rosenbaum Russell (1879-1975), sobreviveu ao naufrágio do Titanic aos 33 anos. Antes de ir para o bote salva-vidas, fez questão de voltar à cabine e buscar um porquinho de brinquedo. (N.T.)

Um desnível no chão levou-o até um armário e às cinzas do livro de código. O soldado envolveu a capa do livro e as páginas queimadas num pedaço de pano que havia rasgado e dobrado especialmente para salvar os documentos. Depois saiu da cidade, correndo vários quilômetros rio acima até o quartel-general militar onde, para sua surpresa, um comandante repreendeu-o por ter se obcecado por um detalhe tão irrelevante quanto aquele livro de código caindo aos pedaços.

Enquanto isso, dentro de um dos depósitos pelos quais o militar obstinado passara, o soldado raso Shigeru Shimoyama finalmente conseguia se libertar dos cinco pregos que mantinham seus braços presos a uma grossa viga. Após a explosão e um processo de descrucificação que havia jogado sangue sobre seus olhos, os óculos de Shigeru de alguma maneira permaneciam intactos em seu rosto. Quando saiu para a luz do dia e viu as grossas nuvens espirais de poeira, o soldado percebeu que os óculos não eram mais necessários. Sua visão tinha melhorado enormemente, como a do médico que avistara uma caixinha de música no chão e, ao lado, seus próprios óculos. A força que desceu sobre a cidade, fosse o que fosse, havia corrigido sua vista.

Na margem do rio, o soldado Shigeru observou entre as lufadas de fumaça que perto dali, saindo da "zona plana" central, o castelo de Hiroshima tinha sido destroçado. Daquela direção vinham um burocrata chamado Yasuda e quatro homens do Escritório de Assuntos Gerais, caminhando com dificuldade por entre pilhas ardentes de detritos, sustentando sobre suas cabeças um retrato em tamanho natural do imperador. Uma segunda comoção atraiu a atenção de Shigeru para o rio, onde um barco da marinha recortava caminho corrente acima através das casas destroçadas e dos corpos flutuantes. O soldado observava tudo, confuso, enquanto o barco desacelerou até parar a fim de que a tripulação pudesse saudar o retrato do imperador. Ao ver o retrato, mesmo os que estavam queimados e sangrando saudavam e faziam reverências, juntavam suas mãos em prece e choravam. Dezenas saíram de suas filas e juntaram-se ao esforço de salvar a pintura, enquanto postes de telefonia dos dois lados se acendiam como tochas. A Resposta de Edith Russell e o atraso cultural eram distrações poderosas.

Àquela altura, Shigeru tinha visto o suficiente. Ele tinha mais informação que os Sasaki e os Ito, do que Akiko Takakura, Isao Kita e as pessoas-formiga.

Alguém esteve partindo átomos hoje, ele pensou.

O cunhado de Shigeru tinha lhe contado, já em 1943, que tais bombas podiam ser construídas, pelo menos em teoria. De acordo com “o Professor" Yoshio Nishina, não havia motivo para temer uma corrida real com os norte-americanos ou com os britânicos para o desenvolvimento de uma arma nuclear, porque a geração de energia de um país inteiro poderia nem ser suficiente para refinar os poucos quilogramas necessários dos raros metais emissores de nêutrons. Nishina e outros cientistas de Tóquio acreditavam que uma bomba atômica poderia ser feita somente se o Japão conseguisse obter o volume equivalente ao de uma romã de 90% de urânio-235 puro; mas, como também acreditavam que refinar esse material seria tecnologicamente impossível nos cinquenta anos seguintes, mais ou menos, eles não viam motivo em correr para desenvolver a bomba.

Tudo estaria muito bem, pensou Shigeru, se o número de cinquenta anos estipulado por Nishina não fosse dez vezes maior que o número real, e se os norte-americanos não tivessem saído correndo da faixa de largada cinco anos atrás.

Um sinistro encadeamento de certezas obcecava o soldado Shigeru: Estávamos numa corrida todo o tempo e não sabíamos. E perdemos — ou seja, podia haver muitas dessas coisas esperando para serem lançadas, e eu precisava sair de Hiroshima, voltar para casa e ver minha filha uma última vez.
Outros dois que pensavam em sair da cidade eram Misako Katani, de 16 anos, e seu pai. Depois da explosão, estranhos redemoinhos de fogo tinham vindo na direção do Banco Sumitomo, e naquele momento estavam entre eles e as ruínas de sua casa. Enquanto observavam, as chamas se espalhavam como um tsunami sobre uma área que abrangia a casa, depois se esparramaram sobre uma clareira e transbordaram nos estábulos do exército.

"Elas não estão em casa", disse o senhor Katani. Não havia emoção em sua voz, não havia vida. "Elas se foram." Ele se referia à mãe e à irmãzinha de Misako, mas a sua filha só conseguia pensar nos gritos dos cavalos que se libertavam dos estábulos e corriam em sua direção, com labaredas saltando de suas costas. Eles não correram muito; todos caíram, morreram e soltaram uma fumaça de cor estranha.

O pai agarrou-a pela mão e os dois pareciam estar correndo em nenhuma direção específica, só para longe das chamas.

"Aonde estamos indo?", perguntou Misako.

"Para longe", ele disse, sem muita ênfase. "Tenho parentes numa cidade a trezentos quilômetros. Qualquer lugar longe daqui deve ser mais seguro que Hiroshima. Nós temos de ir para Nagasaki."
Nos PRIMEIROS VINTE MINUTOS, sobre vastas áreas de Hiroshima, as espirais de fogo tinham começado a se misturar a furacões que mandavam pelos ares plataformas de metal corrugado com uma força capaz de decapitar uma pessoa, e também arrancavam bondes chamejantes de seus trilhos — enquanto ninhos de novas lagartas de fogo se erguiam das ruínas, como espíritos invocados. O fogo estava por todos os lados, furioso, obrigando as famílias de Sumiko Kirihara e de Sadako Sasaki a fugir para o rio.

Duas espirais de fogo chegaram a perseguir as famílias até a margem, seu brilho era tão intenso que a família de Sumiko não teve outra escolha a não ser correr para a água. A superfície estava saturada de destroços flutuantes. Vizinhanças inteiras pareciam ter sido carbonizadas, destruídas e depois espalhadas aos pedaços sobre a água. Nas duas margens, as espirais de fogo, se empinando e girando a uma altura maior que cinco andares, pareciam fazer um intervalo deliberado, como se estivessem estudando a situação antes de decidir o que fazer. Então, um dos redemoinhos chamejantes se abateu sobre o rio, convertendo-se imediatamente de uma coluna de fogo em uma coluna de espuma e rápidas gotículas de água — virando um barco da marinha e indo parar, ameaçadoramente, perto do lugar onde Sumiko estava atravessando o rio.

Da margem oposta, uma espiral de fogo seguia outra até o rio, depois mais outra, transformando-se numa tromba d'água antes de cruzar e atrair mais fogo. Perto dali, Hiroko Fukada, de 18 anos, tentou nadar mais rápido que uma das trombas d'água, mas foi ultrapassada e atingida por pedaços de madeira que vinham na correnteza e giravam. Quando isso passou, grandes pedaços de granizo negro começaram a cair com uma força de rachar os ossos, e Hiroko submergiu para buscar proteção.

Cercada de redemoinhos de fogo e água — e de gelo negro que caía —, Sumiko se contorceu e se livrou dos pulsos da mãe, saiu correndo do rio, cavou um buraco raso na areia e tentou entrar nele. Pelo menos duas trombas d'água a seguiram enquanto ela saía do rio, levantando nuvens de areia que rasgaram sua camisa e arremessaram a menina para trás, como uma saraivada de pequenas agulhas disparada de um canhão. Finalmente, sua mãe a agarrou pelo braço e elas fugiram com o restante da família até uma serra com vista para o rio.

Todos ao redor deles pareciam ter sido terrivelmente queimados. Sumiko mais tarde se lembraria de sentir vergonha por ter sobrevivido ao pika-don sem nenhum ferimento, mas ela podia ver facilmente que seus problemas não tinham terminado. O calor vindo da terra era tão forte que a família e ela foram forçadas a entrar novamente no rio, onde tiveram de empurrar cadáveres e beber a água escura para matar uma sede que só parecia se intensificar a cada minuto.

As trombas d'água e os redemoinhos de fogo roubaram a coragem que restava a Hiroshi Ito. Olhando ao redor em pânico e tentando achar uma maneira de sair dali, ele perdeu Ryuso de vista. Na margem oposta, pessoas em fuga da direção da casa dos Sasaki caíam na água como enxames de insetos. As casas na margem do rio também estavam caindo — esmagadas ao meio, com seus cômodos expostos e a maioria da mobília curiosamente ainda no lugar, apesar de estar em chamas. Em seguida, as pessoas que estavam na água foram perseguidas e ultrapassadas por pedaços de madeira em chamas; e quando um novo piquete de espirais de fogo o encarou, o menino Ito fugiu sem olhar para onde, mudando de direção aleatoriamente. Uma tromba d'água o seguiu, explodindo e jorrando algo escorregadio e arenoso para dentro de sua boca. Ele cuspiu sobre a palma da mão, mas não podia ver o que quase havia engolido porque outra rajada de chuva preta e gelada o perseguiu enquanto escorregava e tropeçava sobre um par de trilhos de trem, o que finalmente determinou sua direção.

Ele pensava ser provável que sua mãe estivesse caminhando em direção à cidade, procurando por ele. Contra o céu negro, as chamas pareciam ganhar força em todos os lados, especialmente na direção da escola. Hiroshi Ito sabia que a mãe era esperta o suficiente para não vir a passos largos, feito uma suicida, àquele lugar. Enquanto sacudia a água da chuva de seu cabelo, o granizo negro começou a cair. O garoto não conseguia acreditar que, menos de 25 minutos antes, o céu estava azul e claro.
O ENGENHEIRO NAVAL TSUTOMU Yamaguchi, que havia sido poupado enquanto uma mulher de calça escura desaparecera perto dele, notou, enquanto o choque passava, que estava sentindo uma dor muito forte. À sua frente, o rio exalava o cheiro da morte, mas, quando chegou à margem, Yamaguchi tomou a água mesmo assim. Não tinha escolha. As queimaduras em seus braços e pescoço trouxeram a desidratação e a sede.

O engenheiro não tinha que olhar para muito longe para entender que tivera mais sorte que a maioria, incluindo os "garotos da grama". Primeiro lhe parecia que um cabelo estranho e mutante havia crescido nas costas queimadas e laceradas daqueles meninos. Depois, ele percebeu que o vento forte tinha fincado, feito pregos, afiadas folhas de grama na carne. Yamaguchi ajudou-os por alguns momentos; mas tudo o que podia fazer era aconselhá-los a puxar as folhas de grama, uma por uma, de suas costas. Era mais fácil falar do que fazer isso, porque eles enfraqueciam e morriam sob seus olhos. Sua sede, como a de Yamaguchi, era mais avassaladora que a dor. Mesmo a fome parecia não ter mais importância. Os garotos simplesmente foram embora, um guiando os outros — aparentemente a nenhum lugar.

Yamaguchi não tinha a intenção de se juntar aos andarilhos-formiga. Outras preocupações o moviam. Ele precisava ir para casa, para a mulher e filho, e sua casa ainda ficava muito longe dali. Como precaução contra o inesperado, e especialmente contra a possibilidade de ter de viajar longas distâncias sem comida ou água, ele sempre levava um cantil e uma ração de emergência: dois pequenos biscoitos. Depois de engolir uma mordida de um biscoito, o engenheiro vomitou imediatamente. Daquele momento em diante, decidira, só beberia água. Ao contrário do soldado Shigeru, ele ainda não suspeitava de que pudesse ter absorvido radiação.

A bomba tinha criado mais ferimentos abstratos que a doença radiação e o que acontecera aos "garotos da grama". "Desenluvamento " se tornaria um termo educado e antisséptico usado pelos médicos para descrever o que acontecia quando a pele, estivesse ou não queimada, tinha sido exposta ao anel de ar comprimido supersônico que se formou entre a zona central encasulada do Banco Sumitomo e a zona dos pregos de grama. A pele com frequência era descolada pelo vento — descolada corno se estivesse presa ao corpo com a aderência de uma luva de couro, podendo ser retirada tão facilmente quanto uma luva.

O soldado Shigeru Shimoyama, tendo sobrevivido ao peculiar horror de ser pregado a uma viga de madeira, encontrara um cavalo rosa-esbranquiçado sozinho, de pé, numa estrada. Toda sua pele e pelo haviam desaparecido. A visão fascinou-o mais que o horrorizou, e já o tinha horrorizado bastante. O animal parecia não sentir dor e tentou seguir o soldado enquanto este caminhava.

Toda vez que o soldado olhava para trás, o cavalo — a pele "desenluvada" até as camadas de musculatura rosa-pálida — fitava-o suplicantemente e coxeava em sua direção. Como Sumiko Kirihara e o menino Ito, Shigeru começou a pensar se o fim do mundo se parecia um pouco a isso.

Shigeru era cristão, e, quando sonhava com o cavalo rosa, em muitas noites, pelo resto de sua vida, ele se lembraria de uma passagem do Apocalipse de são João: 4
E, havendo aberto o quarto selo, ouvi a voz do quarto animal, que dizia: Vem, e vê

E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia.


4. Apocalipse 6:7-8.
Setsuko

Em comparação a Hiroshima, as detonações explosivas do Vesúvio ou de Krakatoa foram relativamente suaves e longas, liberando energia por muitos, muitos segundos. Como o núcleo da bomba atômica era muito mais compacto, a energia foi liberada numa frada duração de um relâmpago, dentro de um caldeirão de alguns centímetros cúbicos de metal, em vez de várias dezenas de quilômetros cúbicos de magma explosivo e saturado de gás.

E, mesmo com toda a sua fúria, a bomba de Hiroshima tinha dado errado. Apesar de ser listada oficialmente com a bomba de Nagasaki no espectro de 22-30 quilotones, era na verdade uma bomba de 10 quilotones que havia falhado.

Às 8h15, sua energia tinha se irradiado de uma faísca pouco maior que a ponta do dedo indicador de Setsuko Hirata. Quando a esfera de plasma dourado tinha finalmente atingido oitenta metros de largura — ainda numa pequena fração da duração de um relâmpago —, a faísca gerara um campo magnético de vida curta e muito intenso. Onde a bomba estivera, o sistema de haste e refletor de nêutrons que corria de seu centro, do nariz à "asa", produzira uma aglomeração de densos núcleos de metal — sem os seus elétrons, carregados positivamente, e confinados magneticamente dentro de forças que tentavam despedaçá-los a quase a velocidade da luz. As mentes que conceberam a bomba tinham criado acidentalmente, por um instante, um antecessor do colisor relativístico de íons pesados do Laboratório Nacional de Brookhaven.

A bomba era um acelerador atômico cujos canos de espingarda magnética estavam apontados diretamente para cima e para baixo. Uma corrente de núcleos de ferro e tungstênio chegou às estrelas a 90% da velocidade da luz, ultrapassando a órbita da Lua quase um segundo e meio depois. A outra corrente seguia linhas do campo magnético até o chão.

Setsuko Hirata estava sentada em sua sala quase diretamente sob a espingarda magnética. Nêutrons rápidos e íons pesados desceram pelas telhas e vigas do teto e foram parar dentro de seu corpo ou continuaram até serem detidos por várias centenas de metros do leito de rocha sólida. Neutrinos também desceram pelo teto. Nascidos da chamada força nuclear fraca, suas interações com o mundo eram fantasmagóricas. Eles continuaram a viagem através de Setsuko, depois viajaram com a mesma indiferença quântica através da Terra. Os mesmos neutrinos que passaram por Setsuko espalharam-se para cima, até o espaço interestelar a algumas centenas de quilômetros a oeste do Brasil.

Quando o jato de neutrinos de Setsuko irrompeu sem ser visto perto da costa do Equador, 134 milissegundos depois da detonação, ela ainda estava viva. Telhas de cerâmica, três metros acima de sua cabeça, começavam a apanhar o máximo de raios infravermelhos do clarão — que culminou 150 milissegundos depois de os primeiros átomos começarem a se desintegrar. As telhas devolveram uma pequena fração dos raios ao céu, mas no final deram a Setsuko pouco mais proteção que a camisola de seda que seu amado Kenshi havia lhe presenteado duas semanas antes, durante a lua de mel nos jardins de Miyajima.

Acima dela, no hemisfério inferior do globo cuja cor mudava de azul para dourado e para azul novamente, gotículas de umidade tinham se dissolvido num esparramar de núcleos sem elétrons de hidrogênio e oxigênio. Um número muito pequeno desses núcleos de hidrogênio se aglomerou e fundiu, e uma quantidade de massa quase igual a um grão de areia desapareceu do universo, adicionando um pequeno "chute" de fusão ao poder de fissão que explodiu na direção de Setsuko. A transformação instantânea de matéria em energia produziu uma luz tão intensa que, se Setsuko estivesse olhando para cima, teria visto o hemisfério brilhando através da única camada de telhas do teto e das tábuas de madeira, como se fosse uma lanterna brilhando através dos ossos de seus dedos num quarto escuro. E naqueles primeiros dois décimos de segundo, ela poderia ter tido o tempo suficiente para perceber um zumbido eletrônico em seus ouvidos, um formigamento pelos ossos e a sensação de ser levantada da cadeira, ou pressionada firmemente à cadeira, ou as duas coisas ao mesmo tempo — e a esfera crescendo no céu... Ela poderia mesmo ter tido tempo para perceber, se não ver, suas dimensões em expansão.

O marido de Setsuko, Kenshi, estava trabalhando como contador na fábrica de armas da companhia Mitsubishi a quase três quilômetros dali quando entrou por uma janela o relâmpago dourado mais bonito que ele já tinha visto. Ele ouviu um zumbido estranho e

um chiado, e o grito de urna mulher ecoou em sua cabeça. Anos mais tarde, ele pensaria que talvez tivesse sido o espírito de sua avó — ou, mais provavelmente, o de Setsuko, A voz gritou: "Cubra-se!".

Como por reflexo, ele deixou cair os papéis que estava carregando, se atirou ao chão e enterrou o rosto em seus braços. Três longos segundos depois, enquanto a onda de choque ainda não tinha chegado, ele já estava num estado de esgotamento provocado pela adrenalina — mas encontrou tempo para rezar.

Do lado de fora, em silêncio absoluto, uma flor vermelha gigante crescia sobre a cidade num caule de poeira amarelo-esbranquiçada.

As preces de Kenshi pareciam ter sido atendidas — mais uma vez. Ele tinha saído do bombardeio de fogo em Kobe sem uma única bolha ou machucado; de início, pensava que tivera um pouco de azar, porque nunca deveria ter estado lá se não tivesse terminado o trabalho em Osaka um dia mais cedo e viajado a Kobe antes do planejado. Duas noites depois de ter sobrevivido a Kobe, ele ficou sabendo que Osaka também tinha sido pesadamente bombardeada. Aliás, o hotel em que deveria estar dormindo fora atingido e não deixou sobreviventes. Em Hiroshima, Kenshi devia sua vida a um instinto de obedecer a uma voz interior e à falha da bomba, que tinha desapontado seus criadores, produzindo uma onda explosiva consumida apenas fracionariamente quando o alcançou.

A reação instintiva seguinte de Kenshi não o serviu tão bem quanto a obediência à voz. Quando se atirou ao chão, sua impressão inicial era de que enormes bombas incendiárias explodiam bem em cima do prédio e que ele seria cremado antes de conseguir terminar as primeiras frases de uma prece. Mas quase cinco segundos se seguiram ao clarão e a luz começou a diminuir sem sinal de uma concussão.

As bombas não atingiram o prédio.

Kenshi levantou a cabeça para ver o que acontecia a seu redor. Perto dele, uma mulher jovem se aproximara da janela e espiava o lado de fora. O que ela viu na direção da cidade, Kenshi nunca saberia. Ela se levantou, murmurou algo gutural e incompreensível, e então a onda explosiva — que seguia as ondas de luz — a alcançou. Quando as vidraças se soltaram da estrutura, saltando meio metro, se separaram da rede que servia como proteção a ataques aéreos e viraram milhares de diminutos cacos. Cada caco foi acelerado a pelo menos a metade da velocidade do som, como se fosse um chumbinho de espingarda. A garota na janela levou pelo menos um quarto de quilo de vidro no rosto e no peito antes de o vento jogá-la contra uma parede.

Kenshi não viu aonde ela fora lançada. Ao mesmo tempo em que a janela explodia, o chão do edifício se soltava e o arremessava a mais de meio metro em pleno ar. Ele caiu de costas e, quando se levantou, descobriu para seu alívio que estava ileso — e depois descobriu, para seu horror, que tinha sido o único poupado dessa maneira. Todos os seus colegas de trabalho — todos eles — pareciam ter saído de uma piscina de sangue.

Nós fomos diretamente atingidos, Kenshi supôs. Ele não percebeu a magnitude do ataque até sair à rua. Ao longe, e na direção de sua casa, a "cabeça da flor" não era mais silenciosa. Tinha estado ribombando nos céus por mais de um minuto, a pelo menos sete quilômetros de altura, e foi de um vermelho brilhante a um marrom sujo, quase preto. Enquanto ele observava, a flor partiu-se do caule e um botão preto, menor, floresceu em seu lugar. Segundo um sobrevivente, era como um dragão decapitado com uma nova cabeça nascendo.

Um sussurro escapou dos lábios de Kenshi: "Setsuko...".
ESTAR IMERSO EM MORTE, o padre Mattias lembraria, poderia ser tão ruim quanto ser dado por morto. No presbitério da única igreja católica da cidade, a 1,3 quilômetro a leste do hipocentro, ele, o padre Hubert Cieslik e o padre Lassalle tinham escutado dois aviões se deslocando pelo céu, com os motores a toda a força, e mergulhando como se tentasse escapar de algo. Do alto um pátio com jardim, eles viram dois pára-quedas vagando perto do horizonte. E o céu, normalmente vazio, de repente ficou azul, depois amarelo — e depois o teto caiu.

Mattias não soube o que aconteceu depois. Sua memória parecia registrar apenas partes desarticuladas. A primeira lembrança nítida foi a de estar caminhando em direção ao rio; mas o tempo estava pregando peças nele. Todos os pontos de referência usuais a igreja e outros marcos — tinham sumido. Algum tempo atrás — Um minuto? Uma hora? —, ele tinha se juntado a centenas de outras pessoas estupefatas e seminuas, e se tornara um dos andarilhos-formiga. A pele do homem à sua frente flutuava livremente em suas costas, corno pedaços de uma camisa esfarrapada; e toda a carne do antebraço tinha sido arrancada como se fosse uma luva comprida. O padre seguiu o cadáver ambulante sem rumo até que ele — e o espantalho à sua frente — chegaram a um bonde carbonizado, ainda queimando. Quando o padre Mattias olhou para dentro, viu que as roupas e a pele dos passageiros tinham sido arrancadas. Só um deles se mexia: um bebê não nascido se contorcendo dentro da barriga de sua mãe morta.

Ele saiu dali aos tropeções, deixando o homem que o levara até o bonde no chão, de boca aberta e engolindo a seco, como um peixe em terra. Mattias não sabia aonde estava indo, ainda assim, mais de uma dezena de pessoas formou uma fila atrás dele e o seguiu.

Outro andarilho-formiga chamado Akihiro Takahashi cambaleou até o bonde destroçado. O garoto de 14 anos, queimado apenas parcialmente, olhou ao redor e viu um padre liderando uma nova trilha de formigas. Takahashi seguiu o padre, até que ouviu um amigo chamar seu nome. Então ele foi em direção ao amigo, e uma nova trilha de formigas começou a se formar atrás dele.

Akihiro Takahashi e Mattias, mais de 25 anos depois, se sentariam juntos numa estação de ônibus em Washington, D.C., com um acompanhante norte-americano e com Paul Tibbets, o piloto do avião que lançou a bomba. Mattias contou a Tibbets que tinha ouvido os motores de seu avião se esforçando para afastá-lo da bomba naquela manhã ensolarada de agosto. Takahashi sentou-se em silêncio por muito tempo, sabendo da reputação de Tibbets — sobre sua boa vontade em reconstituir o bombardeio durante shows aéreos, e até mesmo em fazer gracinhas sobre seu papel na história, ao encomendar bolos de aniversário com o formato de cogumelos atômicos. Nervoso, Takahashi contou a Tibbets que, embora fosse incrível que um homem pudesse estar perto o suficiente para ouvir os motores do mola Gay e ainda sobreviver, ele na verdade tinha visto o avião. E Tibbets comentou: "Sim, eu podia ver Hiroshima debaixo de mim". E então, inesperadamente (e com aparente sinceridade), ele tomou a mão direita de Takahashi, que era cheia de cicatrizes, entre suas duas mãos e disse: "Não deveríamos deixar a guerra acontecer nunca mais".

Bem além do bonde e da trilha de formigas de Takahashi, a parede de tijolos da esquina de um edifício residencial — era tudo o que restava do prédio — pairava três andares acima da cabeça do padre Mattias. Três crianças se agarravam ao topo da torre e gritavam. Elas estavam nuas, e o padre notou que uma delas parecia sangrar de corpo inteiro.

Inicialmente agradecido por ter sido poupado, agora, enquanto a irrealidade de sua caminhada adormecida dava lugar à compreensão nascida da atrocidade, o padre começou lentamente a se culpar por ter sobrevivido. Quando chegou ao rio e os primeiros barcos de resgate começavam a retirar cadáveres da água, e quando caminhou dentro d'água e viu uma mulher trazer o filho em sua direção — implorando à criança que abrisse os olhos — sem notar que, quando pisara na água, pele e músculos começaram a se soltar dos ossos, o miserdicorioso estado de entorpecimento começou a se quebrar. E o padre foi tocado por uma culpa sem piedade.

Foi quando começou a pensar, realmente pensar, pela primeira vez, sobre as três crianças que tinha visto na torre de tijolos. Não havia lugares conhecidos para apontar o caminho de volta, e as espirais de fogo começaram a se aglomerar em paredes itinerantes de chamas. Ele se perguntaria, todos os dias, até o fim de sua vida, o que teria acontecido àquelas crianças na torre. Todas as noites, elas se tornariam a última coisa em que pensaria antes de pegar no sono. E ele sonharia com elas. E elas seriam a primeira imagem que viria à sua mente quando acordasse.


ENQUANTO KENSHI SE DIRIGIA ao centro da cidade, em busca de sua mulher, das ruas e campos brotavam o que pareciam ser milhares de lâmpadas tremulantes. Ele não conseguia definir o que essas lâmpadas realmente eram. Nem os cientistas que foram informados sobre o fenômeno conseguiriam. Cada jato de chama era do tamanho e forma de uma rosquinha. Kenshi sabia que podia facilmente apagar qualquer "vela no chão" em seu caminho ao pisar nela, mas intuiu que podia ser perigoso tocar nos doughnuts ardentes e se desviou deles. Ele pensou em Setsuko. Passou por homens e mulheres cujas costas haviam sido queimadas pelo clarão, mas não eram as queimaduras que chamavam sua atenção e que ficaram em sua memória. Grama fresca parecia nascer das costas queimadas das pessoas. Só depois Kenshi conseguiu imaginar que milhares de folhas de grama foram arrancadas do chão e atiradas pelo ar como flechas em miniatura. Ele rodeou uma coluna de fogo gigante em que se podiam ver vigas de metal derretendo. Ele pensou em Setsuko. Perto do hipocentro, não muito longe da prefeitura da cidade, Kenshi atravessou a superfície quente de uma estrada sobre a qual um grande incêndio se erguera e depois, inexplicavelmente, se extinguira. Todas as pessoas haviam desaparecido de lá, e todas as casas de madeira, nos dois lados da estrada, foram reduzidas a cinzas esbranquiçadas. Ele pensou em Setsuko. A rua principal que levava até sua casa parecia mais um campo que uma estrada. No meio do campo, ele achou dois bondes carbonizados. Os tetos e janelas haviam desaparecido e estavam cheios de caroços negros que, soube-se depois, eram passageiros em seus assentos. Aparentemente, os bondes pararam num dos lados da rua para apanhar mais passageiros, e duas pessoas estavam por subir os degraus do veículo quando o calor desceu e as converteu em fardos de carvão com botões de camisa e dentes. Ele pensou em Setsuko, culpando-se por sua malfadada excursão de lua de mel, duas semanas antes, à ilha do santuário de Miyajima.

Havia uma estranha conexão com o santuário de Miyajima. As gerações mais antigas acreditavam que o local havia sido devotado a uma deusa que ficava com ciúme se um homem e sua mulher recém-casados subissem os degraus juntos. Se o tabu fosse violado, diziam os mais velhos, a mulher morreria em pouco tempo. Mas um amigo de Kenshi, um taberneiro local que conseguia acomodações para casais em lua de mel perto dos jardins da ilha, zombou disso e afirmou ser pura superstição. Já que tinham vindo até Miyajima juntos, ele disse, então eles deveriam ir imediatamente até o famoso santuário. Assim o fizeram. Durante a viagem entre seu escritório e o Ground Zero, Kenshi se arrependeu disso muitas vezes.


YASAKU MIKAMI TINHA perdido o bonde por apenas alguns segundos e teve de esperar o próximo. Por isso, estava atrasado uns quinze minutos quando o bonde o levou, por acaso, para a proteção do túnel Miyuki Bashi, fazendo dele um dos poucos bombeiros sobreviventes em toda a Hiroshima.

A primeira coisa que ele notou — depois do clarão azul do lado de fora e depois que uma explosão encheu o veículo de fumaça negra — era que a fumaça tinha um cheiro horrível. Quando saiu do bonde, na fronteira do Ground Zero, o cheiro familiar e horrível se tornou ainda mais forte. Como bombeiro, ele entendeu prontamente o que estava respirando. O cheiro que a carne humana produz ao ser queimada era muito parecido ao cheiro de lula grelhada sobre carvões em brasa — com pedaços de porco do lado. O ar tinha um forte cheiro de lula e de porco torrado. Então, enquanto Yasaku corria até o lugar onde era a estação dos bombeiros, ele sabia o que estava inalando — dezenas de milhares de pessoas.

Ninguém havia sobrevivido na estação. Só restavam os três caminhões no lugar onde Yasaku presumia ser o estacionamento, mas ele não podia ter certeza. Só os caminhões e os alicerces do edifício eram reconhecíveis, mas as linhas dos alicerces já não eram retas. Ele encontrou seu capitão queimado e morto atrás da direção na Escada 1. O homem parecia ter estado perto do caminhão quando o clarão chegou, pulado para dentro da cabine e estar prestes a dar a partida para ir combater o fogo — mas não poderia, é claro.
As RUAS DE HIROSHIMA estavam cheias de justaposições intrigantes, aparentemente impossíveis, entre os completamente destruídos e os miraculosamente ilesos. As telhas da casa de Kenshi tinham fervido, rachado e se transformado em milhares de pequenas lascas. Evidentemente, a estrutura inteira fora simultaneamente torrada e socada quase meio metro terra adentro. A algumas portas dali, vestígios dos efeitos imediatos de uma bolha de choque gigante, na qual a própria atmosfera tinha recuado a uma velocidade supersônica do centro da explosão, podiam ser vistos — o "efeito de vácuo" que havia se desenvolvido atrás de uma onda de choque na dianteira, puxando tudo de volta para o centro, na direção do ponto de formação real do cogumelo atômico. A força da bolha de choque implosiva tinha também arrancado do pavimento algumas bocas de lobo cheias de ar. Essas manifestações apenas davam uma pista sobre as forças liberadas quando a bolha de baixa densidade — e suas paredes brilhando com o poder do plasma e do ar supercomprimido — tinha se espalhado e esfriado a um ponto em que a pressão para dentro pela atmosfera ao redor começou a ficar mais forte que o calor e o choque que empurravam para fora da tempestade de urânio. Nesse ponto, a bolha de choque tinha apenas 250 milissegundos de idade — apenas um quarto de segundo passado do Momento Zero, e quatrocentos quilômetros de raio. Quando a bolha desabou, menos de dois décimos de segundo depois, e com quase vinte metros de largura, a corrente de ar vertical experimentada diretamente abaixo, na vizinhança de Kenshi, foi amplificada pela quase simultânea ascensão do plasma que se retraía, comportando-se um pouco como um balão de ar quente superaquecido. Enquanto subia e perdia força, esfriara de uma bola de fogo a uma agourenta cabeça de flor negra, e começara a soltar entulhos da maneira que uma flor solta pólen. Bicicletas, pedaços de calçadas, e até mesmo a metade de um piano de cauda caíram da nuvem, a mais de oitocentos metros do hipocentro.

Mesmo assim, no meio de todo esse caos, pedaços de porcelana e frascos de geléia de frutas permaneciam intactos no chão. Kenshi descobriu que as árvores, embora tivessem sido torradas à sequidão e perdido as folhas, ainda estavam de pé e numa área de trinta metros de largura em sua vizinhança. Uma casa de quatro andares também parecia ter sobrevivido entre as árvores, sofrendo apenas uma forte sacudida e alguma compressão e queimadura. Os donos não estavam mais lá, é claro, mas não pelas razões que Kenshi esperava.

Morimoto, o mestre fabricante de pipas que estava visitando com dois primos ricos aquela casa no Momento Zero, saíra dali com apenas pequenos arranhões e machucados. O teto de três camadas e a madeira grossa e cara, combinados com a natureza excêntrica dos efeitos da bomba, tornaram a casa forte o suficiente para abrigar os três homens que tomavam chá no térreo. Morimoto e os primos simplesmente saíram do centro de uma detonação nuclear e entraram para os livros de recordes como membros de uma das minorias mais exclusivas da história. Com suas grandes vigas e camadas de telhas grossas, o casarão deve ter absorvido apenas o suficiente de raios gama, raios X e jatos de nêutrons para salvar suas vidas. As explosões de núcleos pesados, quase à velocidade da luz, não atingiram a casa dos Morimoto.

Mesmo assim, enquanto escalava a pilha de madeira e argila na qual o fogo se apagara como por milagre, Morimoto ingressava numa selva poeirenta e percebia ter muita sede. Ele sentia como se cada centímetro de sua pele tivesse sido queimado pelo sol. Estômago e intestino também lhe doíam, como se o seu interior também estivesse queimado. Sentia-se desorientado e confuso, e, àquela altura, Morimoto começava a suspeitar que mesmo seu cérebro deveria estar pelo menos um pouco queimado. Depois que parou no topo de uma cordilheira de destroços e olhou pelas clareiras na fumaça, sua desorientação se multiplicou. Normalmente, daquela posição ele não teria conseguido ver as montanhas nem a torre de transmissão da estação meteorológica porque havia edifícios altos no caminho. Mas todos os obstáculos haviam desaparecido. A cidade estava... aplainada. Toda a cidade. Entre camadas de poeira a se deslocar, ele podia reconhecer apenas máquinas de costura em chamas, cisternas de concreto, bicicletas enegrecidas, bondes e montes de carne vermelho-escura por todos os lados, algumas vagamente com a forma de figuras humanas, ou ocasionalmente com a forma de cavalos.

A sede e a sensação de queimadura se intensificaram rapidamente, e Morimoto começou a vomitar — os primeiros sinais das doses de raios gama e de nêutrons, que se misturaram com ul'n estado de choque que durou algum tempo, até o fabricante de pipas perceber que havia andado sem rumo, sozinho, e que perdera de vista os seus primos.

Mais do que qualquer outra pessoa na cidade naquele dia, Morimoto poderia dizer a futuros historiadores que seus problemas só estavam começando. Ele sabia que Hiroshima, apesar de ter sido sobrevoada por grupos de bombardeio a caminho de Osaka e outras cidades-alvo, fora deixada intacta. Tinha ouvido muitos rumores sobre o porquê desses acontecimentos — um deles muito popular: "Hiroshima tem muitos jardins e santuários, e é muito bonita para ser bombardeada". Mas agora Morimoto estava entre os primeiros a concluir corretamente que os norte-americanos tinham poupado Hiroshima por alguma razão especial — pois de que outra maneira os inventores de uma nova arma poderiam compreender o estrago se a cidade já estivesse forrada de crateras? Se houvesse mais dessas bombas especiais pela frente, elas também se destinariam às cidades deixadas intencionalmente em condições imaculadas.

A maioria das pessoas da família de Morimoto vivia numa cidade assim, Nagasaki. Então, era com um medo lógico, nada supersticioso, e com uma certeza sincera, que ele sabia que sua mulher e filhos seriam os próximos; que a bomba estava por segui-lo até sua casa. Mas ser seguido não importava para Morimoto.

Se eu for morrer, me deixe morrer com minha família, ele decidiu. Então me deixe voltar a Nagasaki.

E, assim, a história receberia, da mesma pessoa, duas perspectivas impossíveis de encasulamento contra o choque: dez a doze quilotones quase diretamente sobre sua cabeça e aproximadamente trinta quilotones a 2,4 quilômetros de distância.
O PREFEITO TAKEJIRO NISHIOKA fora totalmente protegido por uma serra alta quando seu trem se aproximava da estação Kaidaichi, nos subúrbios montanhosos de Hiroshima. O prefeito tinha visto um anel incandescente, vermelho-amarelado, no céu — enorme e dirigindo-se vertiginosamente para cima, saindo de trás dos montes. Quando se desvaneceu e se tornou uma onda de vapor colorido em forma de couve-flor, os soldados que estavam no trem disseram que um arsenal de munições deveria ter explodido. Nishioka sabia que não era isso. Nenhuma explosão de munição tinha se comportado como aquela nuvem sobre Hiroshima. O prefeito sabia disso e mais. Ele havia retornado de Tóquio com instruções para levar máquinas de impressão, quartéis administrativos e quaisquer grandes obras de antiguidade que pudessem ser salvas para os cofres nas encostas das montanhas.

Na semana anterior, Nishioka tinha comparecido a reuniões com o professor Yoshio Nishina e seu aluno Eizo Tajima, que havia lamentado amargamente o fato de o recém-finado Terceiro Reich nunca ter compartilhado os frutos de suas instalações de refinaria de urânio. Os cientistas estimaram que, dadas as taxas de produção correntes, trabalhando 24 horas por dia, sete dias por semana, os dois aceleradores ciclótrones poderiam produzir material físsil o suficiente para montar uma única bomba atômica somente no ano 2020. Os planos de uma espingarda nuclear relativista de íons carregados não pareciam estar progredindo com mais rapidez. Usando a energia dos grandes dínamos na usina de Sakidaria, os cientistas tinham conseguido provar que núcleos de ouro eram menos facilmente espalhados e mais facilmente enfocados que núcleos de ferro — e, em teoria, era um negócio simples apontar armas mortíferas relativistas a bombardeios B-29. Mas na prática eles necessitariam de um acelerador gigante, em forma de anel, de quase dois quilômetros de diâmetro, e os canhões magnéticos teriam de permanecer estacionários, ancorados ao anel gigante. As máquinas eram, então, passíveis de ser destruídas mesmo se o inimigo escolhesse não atacar os dínamos. Tudo o que os norte-americanos, os britânicos — e logo os russos — precisavam fazer era escolher não voar perto dali.

O jovem Tajima tinha perguntado se deveria continuar com seus planos para o anel acelerador. O representante do imperador não respondeu.

E foi assim que Nishioka, ao contrário dos soldados em seu trem, entendeu imediatamente o que provavelmente havia acontecido em Hiroshima. Os soldados necessitariam de um pouco mais de tempo para abordar o problema. Como precaução, ordenaram que o trem parasse na estação Kaidaichi e ficasse lá até que fizessem contato com a cidade. Eles descobriram em seguida que as linhas de telefone estavam cortadas, e mesmo as transmissões de rádio usuais do dia tinham cessado. E então, da direção da estação de Hiroshima, veio um trem. Todos os vagões tinham perdido as janelas e, aparentemente, também os passageiros — com exceção de algumas almas em estado de choque, olhando para fora sem expressão alguma em seus rostos. Os carros queimavam lentamente. Dois deles estavam em chamas. O trem não parou. O maquinista, parecendo mais um espantalho que um homem, se curvou pela janela lateral e vomitou jatos de bile; e ele ou não se importava com isso ou sentia um prazer perverso em ganhar velocidade e abanar as chamas enquanto passava.

Os soldados que estavam no mesmo lado dos trilhos que Nishioka imediatamente ordenaram que os vagões de passageiros fossem desconectados de seu trem. Eles assumiram o comando da locomotiva e decidiram ir de uma vez até a cidade atingida. Nishioka, tentando livrar-se da imagem do maquinista-espantalho de sua mente, correu atrás da tripulação, mostrou suas credenciais, e ordenou que o levassem à cabine do maquinista. Ele não sabia ainda, mas havia embarcado numa das viagens mais incríveis da História.

Minutos depois de o trem fazer a curva no monte Kaidaichi, Nishioka e os soldados começaram a encontrar filas de andarilhos feridos, que seguiam os trilhos do trem para fora da cidade. Avançando lentamente — e apitando para sinalizar Abram caminho! Abram caminho! —, eles notaram que as queimaduras dos refugiados se tornavam cada vez piores, e um número maior de feridos murmurava: "Água... água".

Enquanto se aproximavam das cortinas ciclópicas de fumaça negra, os trilhos do trem começaram a sair de linha, e a locomotiva foi forçada a parar.

O prefeito decidiu continuar a pé até o encontro que havia marcado dois dias antes na casa do marechal de campo Hata. Nishioka tinha a reputação de ser pontual, e nem um alerta de tsunami, nem de tufão, o tinha feito se atrasar antes. Ele não ia deixar que uma bomba atômica estragasse o seu recorde impecável.

Mesmo depois de descobrir pequenos jatos ondulantes de um fogo estranho brotando no chão, entre o trem parado e a casa do marechal de campo, preservar sua reputação o obcecava — não importava o quão perturbadoras aquelas chamas parecessem. Elas brotavam como pequenas colunas de fumaça vulcânicas, como se feitas de pequenos pedaços de enxofre queimado. Poderiam ter sido extintas facilmente, pisando-se nelas ao passar, mas ele não queria fazer isso. Mais tarde, veio a acreditar que, só de ter caminhado entre aqueles pequenos jatos, ele havia se exposto à radiação que causara o sangramento subcutâneo em seus pés e canelas.

Apesar disso tudo, ainda estava no horário. O marechal de campo, por sua vez, não estava, embora um morro tivesse poupado sua casa do efeito integral do pika-don. Àquela hora da manhã, Nishioka esperava encontrar Hata em casa, mas foi recebido por um oficial mais velho, que exibia queimaduras de primeiro e segundo grau numa das faces. Seu uniforme havia sido estraçalhado. Nishioka perguntou por Hata, e o oficial respondeu que achava que o marechal de campo estivesse morto.

E continuou: "Acho que Hiroshima foi atingida por uma bomba atômica".

"Eu também acho", disse Nishioka, e decidiu seguir os trilhos um pouco mais para ver por si mesmo.

Uma ponte o deteve. O aço cedia grotescamente e os dormentes dos trilhos estavam em chamas. Não havia mais sobreviventes atravessando a ponte, mas alguns de seus gatos tinham conseguido cruzar. Seis deles, com o pelo levemente queimado, lambiam o emaranhado de intestinos de um cavalo ferido, que parecia não notar.

Nishioka não gostava muito de gatos antes do acontecimento em Hiroshima. Quase ao mesmo tempo em que Kenshi Hirata chegava ao Ground Zero, o prefeito decidira que os odiava. Também decidira que não havia nada mais a se fazer em Hiroshima e que serviria melhor ao império se retornasse ao quartel-general regional imediatamente com notícias sobre o que tinha visto.

Seguindo os trilhos, para longe do mar de fumaça, ele encontrou um estudante recrutado pelos professores para trabalhar numa fábrica. O relevo da terra — especialmente os fossos do castelo de Hiroshima e as muralhas de pedra — tinha de alguma forma comprimido a onda de choque direcionando-a através do prédio como se fosse uma bala de canhão. O garoto explicou repetidas vezes que parecia ser o único sobrevivente. Nishioka soube mais tarde que o menino estava se afastando da zona mais fortemente exposta a chuvas radioativas, perto da ponte Misasa. Ele teria passado direto pela zona de chuva negra ao seguir os trilhos de trem, além do Hospital de Comunicações de Hiroshima, em direção a uma das estações ferroviárias do subúrbio — ponto de encontro combinado pela família em caso de bombardeio grave.

Antes de seus caminhos se separarem, o prefeito deu ao garoto a maior parte da provisão de água e arroz que carregava. Deu-lhe também um cartão com seu nome e o endereço de sua sede, oferecendo-lhe ajuda e pedindo que a família entrasse em contato mais tarde. Porém, nunca mais teve notícias dele, e se perguntava se o silêncio era porque o menino e a família deveriam ser dados por mortos, ou porque eles o davam por morto. A última alternativa parecia tão provável quanto a primeira, porque o endereço no cartão de Nishioka era o mesmo do hipocentro de Nagasaki.

Os historiadores nunca conseguiram determinar a identidade do menino com certeza. Mas a família Ito, em Hiroshima, teria um relato de um sobrevivente muito semelhante — que soaria assustadoramente igual ao do outro lado da história de Nishioka. O irmão mais velho de Tsugio Ito, Hiroshi, era um aluno que apareceu como o único sobrevivente da Escola Central. Ele seguiu os trilhos de trem para o leste da cidade, para um encontro familiar previamente marcado, perto da localização do prefeito. Numa época em que a comida era tão escassa que poucas pessoas, ou ninguém, davam seu arroz a estranhos, Hiroshi contou à família que um desconhecido, alto e com ar de autoridade, tinha lhe dado comida e oferecido ajuda.

Nas horas que se seguiram ao encontro, náusea e fraqueza atacaram Hiroshi; depois desapareceram, apenas para retornar com mais força e fazê-lo vomitar o arroz. Se ele era ou não o mesmo garoto que o prefeito havia encontrado, ninguém sabe. Mas a história havia dado às famílias Ito e Nishioka uma mão de cartas altamente improvável, do fundo do baralho. Rumando em direções opostas, pouco importava se eles fossem afinal para os subúrbios de Nagasaki ou Hiroshima. Mais tarde, Nishioka contaria que o demônio da morte atômica parecia determinado a persegui-los — já se encontrava profundamente sob sua pele, afiando as garras e esperando para atacar.

KENSHI HIRATA PROVAVELMENTE teria escapado sem lesões radioativas se não tivesse ido procurar Setsuko no centro da área de explosão. Enquanto respirava o pó seco e o limpava de sua garganta com a água marrom-escura de um cano quebrado, suas células absorviam variações estranhas de alguns elementos bastante comuns. Essas novas encarnações, ou isótopos, tendiam a ser tão instáveis que, quando ele despertasse na manhã seguinte, a maioria já não existiria mais. Como pequenas baterias carregáveis, estavam perdendo sua carga. Infelizmente, essa energia era descarregada diretamente na pele e no estômago de Kenshi, e em seus pulmões e sangue. O acontecimento singular que o poupou de uma dose letal foi o colapso inicial da bolha de choque e a ascensão da nuvem de calor. Um volume substancial de escombros pulverizados e irradiados fora içado até a nuvem, e a maioria dos venenos já tinha e precipitado quilômetros dali na forma de chuva negra. Paradoxalmente, mesmo em termos de efeitos da radiação, o Ground Zero às vezes era o lugar mais seguro para estar. Era tudo relativo, naturalmente: a vizinhança do senhor Hirata ainda estava "quente" pela radioatividade, mas lugares ainda mais distantes estavam mais "quentes" ainda.

Ao cair da noite, Kenshi notou uma singular depressão no chão de sua casa. Apenas um dia antes, a casa e o jardim eram rodeados por uma bela parede de azulejos; agora, lascas desses azulejos especiais estavam espalhadas entre as brasas. O grande fogão de ferro que aquecia a água do banho de Kenshi e de sua noiva parecia ter sido martelado e enterrado no chão, mas ainda estava no lugar correspondente. A alguns passos dali, ele desenterrou utensílios de cozinha que pareciam dolorosamente familiares, apesar de deformados pelo calor e pela explosão. Eram presentes da família de Setsuko.

Kenshi tinha a estranha intuição de que até o chão poderia ser perigoso, e de que precisava deixar a cidade imediatamente. Setsuko foi o pensamento que o deteve: Se ela está morta, seu espírito pode e sentir solitário sob as cinzas, no escuro, sozinho. Então dormirei com ela esta noite em nossa casa.

Perto da meia-noite, ele foi acordado por aviões inimigos que voavam baixo, estudando o estrago. Num arco largo, que cobria o horizonte do norte ao leste, o céu tinha um brilho carmim que refletia os incêndios no solo. Embora houvesse pouco para queimar no que os aviadores norte-americanos já chamavam de Ground Zero, as chamas continuavam crescendo na periferia da zona da bomba, arrastando-se para dentro e para fora.

Os aviões voaram em círculos e foram embora. Kenshi baixou a cabeça novamente sobre as cinzas da casa e ficou deitado em meio à desolação sobrenatural do centro da cidade. O silêncio de Hiroshima era quebrado intermitentemente por mais aviões e explosões perto do horizonte, na direção do mar e das indústrias de combustíveis sintéticos. Quando o círculo de fogo se expandiu até os tanques de gás, não havia hidrantes funcionando nem caminhões de bombeiros, e só havia um punhado de bombeiros vivos para evitar que os tanques se incendiassem. Kenshi ouviu grandes cascos de metal voando pelos ares em jatos de chamas, espatifando-se na terra, um por um, e voltando a voar. Mas o Ground Zero estava enganosamente sereno, e os barulhos que chegavam até Kenshi do exterior não o incomodavam. Ele estava exausto e cheio de preocupações sobre o destino de Setsulo. O crepitar distante das chamas — e mesmo os ocasionais estalos e explosões — o embalaram num sono profundo.
As FAMÍLIAS DE SUMIKO KIRIHARA e de Sadako Sasaki tentaram desesperadamente sair da cidade. Por volta da meia-noite, porém, muitas das pessoas que o prefeito Nishioka tinha visto cambalear na saída de Hiroshima encontravam as estradas bloqueadas pelos moradores dos vilarejos próximos. Na zona rural, durante o espaço de apenas algumas horas, os sobreviventes tinham sido convertidos em fugitivos, como as administrações locais faziam questão de deixar claro em anúncios feitos com megafones. Apelando para argumentações ou ocasionalmente apontando armas, as autoridades mandavam os andarilhos feridos de volta às piras e aos lugares onde a chuva negra caíra. Embora ainda não soubessem que tais venenos existiam, encaminhavam as pessoas à radioatividade.

Mesmo depois da queda da bomba, os habitantes da cidade não eram bem-vindos. Após o forte bombardeio de Osaka com armas incendiárias, ninguém queria mais viver nas cidades. Se tivessem parentes no campo, as famílias mandavam os filhos para lá. Satoko Matsumoto, uma garota cuja família fugira para o rio com os Kirihara e os Sasaki, tinha esperança de que todos pudessem atravessar juntos uma ponte ferroviária até o outro lado da montanha.

Uma parte das posses de seu pai fora enviada para lá um mês antes, a fim de ser guardada. Ela se lembrou do que seu pai dissera naquela hora: que as pessoas dos vilarejos aceitavam guardar bagagem, mas que os refugiados seriam mandados embora. Já havia escassez de comida nas comunidades camponesas, que precisavam pagar altos impostos aos militares. Mais bocas para alimentar, vindas da cidade, levariam muitas famílias da fome e de um racionamento severo à morte por inanição, os camponeses diziam.

Enquanto Kenshi Hirata deitava a cabeça perto do túmulo da mulher, os primeiros refugiados retornavam a Hiroshima trazendo notícias inacreditáveis dos moradores de outras cidades que os mandavam de volta com ameaças e até mesmo violência mortal. Assim, as três famílias decidiram encontrar um espaço aberto onde pudessem passar a noite.

O pai de Satoko Matsumoto seria atingido pela "doença da bomba atômica" em apenas uma semana. Enormes hematomas aparecem sob sua pele. Ele começou a perder cabelos em grandes tufos e a sangrar muito pelo nariz. E, num fim de tarde, o senhor Matsumoto se levantou, olhou pela janela o pôr do sol e, sem aviso ou estardalhaço, caiu morto.

Naquela primeira noite, Satoko estava deitada de costas e observava as torres de fumaça subindo e escondendo as estrelas. Nas bases das torres, a luz refletida das chamas dançava. Em cima, as torres nada refletiam; absorviam a luz como se alguém houvesse derramado tinta no céu. Como seu pai, Satoko não tinha sofrido nenhum ferimento visível, mas era doloroso passar aquela noite interminável deitada de costas, sentindo o cheiro forte de lula frita e escutando os incêndios consumirem o que restava da cidade. Às vezes, sombras negras dos aviões de reconhecimento norte-americanos passavam no alto. Quando a fumaça enfim desapareceu e revelou mais da metade do céu, Satoko viu mais estrelas cadentes do que nunca antes em sua vida.

Algo lhe provocou um arrepio na coluna — numa noite tão leia de momentos assustadores que mais um deles não faria diferença. Mesmo assim, ela teve calafrios quando uma mulher lhe disse que o número excepcional de estrelas cadentes deveria significar que mais pessoas — mais do que eles já tinham visto — estavam morrendo ou prestes a morrer naquele momento.
Os PRIMEIROS SOLDADOS chegaram ao hipocentro somente uma hora antes do amanhecer. O Ministério da Guerra os enviara com padiolas — com qual propósito, eles não conseguiam entender. "Não havia nada vivo à vista", um soldado afirmou. "Era como se as pessoas que moravam nessa cidade sinistra tivessem sido reduzidas a cinzas junto com suas casas."

Apesar disso, havia urna estátua intacta num lugar onde não existia tijolo sobre tijolo. A estátua era na verdade um homem nu parado, de pé, com braços e pernas abertos — onde tudo havia sido derrubado. O homem tinha se transformado em carvão, um pilar de carvão tão claro e quebradiço que pedaços inteiros desmoronavam ao mero toque. Ele devia ter saído de um abrigo quase um minuto depois da explosão — perseguido, talvez, pela fumaça Que 131-0 que o afogava. O fogo o matou, deixando-o carbonizado no lugar onde estava.

A próxima estátua que encontraram estava coberta de cinzas. Parecia ter passado o último momento de sua vida tentando se curvar numa posição fetal. Um dos soldados cutucou-a com uma vara, esperando que se desfizesse. Em vez disso, abriu os olhos.

O soldado levou um susto e perguntou: "Como você se sente?". Parecia não haver mais nada a ser dito.

Em vez de dizer o que tinha vontade — Como você acha que eu me sinto, imbecil? —, o homem respondeu que não estava ferido e ainda explicou: "Quando cheguei em casa, do trabalho, vi que tudo havia desaparecido, como você vê agora". Ele insistiu que não precisava de ajuda para deixar o lugar, nem desejava sair dali.

"Este é o lugar onde estava minha casa", ele disse. "Meu nome é Kenshi."


NAQUELA PRIMEIRA NOITE, Akira Iwanaga tinha se abrigado da fumaça e das espirais de fogo a apenas dez ou vinte passos de onde estava o engenheiro naval Tsutomo Yamaguchi, seu colega de quarto e de trabalho. Mas os dois homens não se viram.

Akira estava do lado de fora da instalação mais nova da companhia Mitsubishi quando o pika-don nasceu. Um morro baixo, a urna distância de 3,7 quilômetros, serviu de escudo contra toda a força. Mesmo estando a uma distância de mais de três quilômetros do hipocentro, e atrás de um morro, Akira sentiu uma forte onda de calor no ar, seguida rapidamente por um vento intenso e poeira em redemoinhos. Em cima, a parte superior da nuvem em forma de cogumelo brilhava com relâmpagos dourados. Depois veio a chuva negra e uma escuridão que engoliu todos os sons do mundo, e que parecia não ter fim.

O nascer do sol trouxe apenas um breve descanso. Os ventos, atraídos até a pira como ar quente ao olho de um tufão, por fim diminuíam. As espirais de fogo definhavam. Naquele momento, o arco de chamas que estava além do hipocentro ardia com um constante rugido crepitante, e Akira começou a ver com mais clareza enquanto a luz do dia ganhava força.

O rio ainda estava coalhado de corpos e entulhos, como ele havia observado ao crepúsculo. Nos vilarejos do interior, os corpos inchados pela água e a maré de ávidas moscas negras que pareciam vir de todos os lados teriam sido chocantes. Mas Akira já acreditava ter passado do ponto em que ainda poderia se impressionar. E a luz do dia continuava a ganhar força, revelando uma jovem mulher cuja mente havia sido apagada. Apenas 24 horas antes, seu sorriso deveria ter sido absolutamente lindo. Mesmo naquele momento havia algo pesarosamente bonito nela. Ela havia escapado sem queimaduras ou ferimentos aparentes, com exceção de um enorme corte em seu abdome. Depois de apoiar as costas firmemente a uma parede, ela parecia ter passado boa parte da noite reorganizando cuidadosamente seus intestinos e tentando colocá-los de volta para dentro. Mas o bebê, que parecia não ter chegado nem à metade da gestação, tinha saído junto com os intestinos e morrido, e ela parecia não saber o que fazer com ele... se o deixava do lado de fora de seu corpo ou continuava a empurrá-lo para dentro. Ela fez uma careta medonha que se converteu num sorriso para Akira. Depois caiu para um lado, morta.

Akira fugiu, tropeçou sobre uma pilha de tijolos soltos, caiu com tudo em cima de um pedaço pontudo de madeira queimada, coberto de felpas, e gritou. Levantou-se e começou a correr de novo, escorregou em algo macio, recobrou o passo sem cair e continuou correndo tão rápido e para tão longe quanto pudesse, distanciando-se ao máximo daquela horrível garota bonita.
COCHILANDO PERTO DALI, num barco de pesca semiafundado, Yamaguchi ignorou o grito repentino e o ruído de mãos e pernas sobre os tijolos, pensando que outra pessoa anônima tinha enlouquecido. Ele não comera por quase 24 horas, mas tinha conseguido evitar a desidratação forçando-se a tomar a água suja dos canos quebrados. O engenheiro naval ainda tinha a maior parte de sua ração de dois biscoitos, mas tinha dificuldade em manter mesmo alguns poucos goles d'água no estômago. Seu apetite sumira muitas horas antes.

Durante a noite, um soldado contou a Yamaguchi que as instalações locais da companhia Mitsubishi pareciam estar paradas e que todos os engenheiros sobreviventes deveriam voltar à sede, em Nagasaki. Yamaguchi acreditava que os serviços de trem estariam tão parados quanto o estaleiro Mitsubishi, mas o soldado o informou de que havia planos de mandar um trem a Nagasaki até o fim da tarde, partindo da estação Koi.

Depois de somente duas horas de descanso nas ruínas do barco, Yamaguchi se sentiu bem o suficiente para ir até Koi. Normalmente, ele faria a viagem em 45 minutos. Mas e naquele momento? Ninguém poderia saber se ele chegaria à estação, quanto mais a Nagasaki.

O soldado assegurou que, sendo um engenheiro naval do alto escalão, um assento prioritário estaria disponível para Yamaguchi. O engenheiro já não se importava muito com prioridades militares ou com o esforço de guerra. Tudo o que ele queria era ir para casa, para sua mulher e filho pequeno.

Com nada mais que isso em mente, ele conseguiu, com diferentes níveis de sucesso, endurecer seu coração contra tudo o que a aurora cruel revelava: uma mulher cantando uma canção de ninar para o filho morto, a cabeça de um cavalo queimando como uma lâmpada a óleo, uma chama assustadora, azul-esverdeada. Yamaguchi topou com um corpo que parecia à primeira vista ter sido completamente protegido dos raios cauterizantes, mas em seguida viu que a proteção ocorrera apenas da cintura até os pés. O terço superior era um cadáver carbonizado cujos traços foram apagados pelo vento. A musculatura e mesmo as costelas estavam sendo levadas pela brisa da manhã como se fossem fuligem, revelando um coração negro. Yamaguchi registrou para futura referência que o inverso teria sido pior — se o que protegera a parte inferior do corpo do homem, transformando cabeça e torso em fuligem, tivesse deixado coração, olhos e cérebro intactos, permitindo à vítima vislumbrar pélvis e fêmures nus antes de morrer.

O engenheiro precisava atravessar dois rios para chegar à estação. O mais estreito deles já não tinha ponte, mas nas partes rasas cadáveres se empilhavam como uma barragem natural, que também podia ser cruzada como se fosse uma ponte. Mesmo enquanto tentava se concentrar apenas no rosto da mulher e do filho, atravessar aquela ponte lhe foi muito sofrido.

No rio mais largo, ele encontrou uma ponte ainda mais desafiadora: uma elevada ponte ferroviária, de treliça, cuja estrutura de metal pendia de um modo sinistro, como se estivesse prestes a desabar. Quase todas as ligações de madeira tinham sido queimadas, então ele foi obrigado a engatinhar, sentar-se de pernas abertas e seguir seu caminho por um trilho estreito, como se fosse um aprendiz na corda-bamba.

Perto da estação de trem, o engenheiro encontrou vários militares reunidos com o prefeito Nishioka ao redor de um grande cilindro de alumínio. O clarão queimara um dos lados do objeto, que parecia ter se espatifado contra o chão como um meteorito. Um dos oficiais contou a Yamaguchi que o cilindro fora lançado de para-quedas sobre a cidade segundos antes do clarão. Dentro da caixa de metal, eles encontraram um transmissor de rádio conectado a aparelhos de registro científico e atmosférico.

O que não contaram a Yamaguchi — e que só o prefeito e outro oficial sabiam àquela altura — era que eles tinham descoberto um envelope entre os sensores de onda de pressão, raios gama e nêutrons. O envelope continha um apelo especial aos professores Ryokichi Sagane, Nishina, Tajima e aos outros principais físicos do Japão. O apelo vinha do cientista Luis Alvarez, que quatro décadas mais tarde deixaria sua marca na história da redução dos armamentos nucleares com a descoberta do efeito de "inverno nuclear".

"Vocês sabem há muito tempo que uma bomba atômica poderia ser construída se uma nação estivesse disposta a pagar o enorme custo de preparação do material necessário", dizia no começo da carta. Alvarez continuou: "Agora que vocês viram que construímos as unidades de produção, não pode haver dúvida de que toda a produção dessas fábricas, trabalhando 24 horas por dia, será explodida sobre sua pátria... Como cientistas, deploramos o uso que foi dado a essa linda descoberta, mas podemos lhes assegurar que, a menos que o Japão se renda imediatamente, essa chuva de (bombas atômicas vai aumentar muitas vezes em fúria".

Alvarez não estava contando toda a verdade, é claro. O fim da Segunda Guerra Mundial estava mais para um jogo de pôquer que de xadrez, e, como qualquer bom jogador de pôquer, o norte-americano não se atrevia a mostrar todas as cartas. A verdade era que essas fábricas mencionadas mal podiam produzir um pouco mais de cinquenta gramas do material necessário por dia. Quando a próxima bomba fosse jogada, outra não estaria pronta até setembro ou outubro.

O que aconteceu no futuro, ou no dia seguinte, tinha muito pouco a ver com o comportamento norte-americano ou japonês. Resumidamente: a maior parte da história humana estava fadada a ser decidida por instintos primitivos, não pelo pensamento civilizado. O alvorecer da morte atômica era uma história humana diferente, contada por tigres com garras de urânio e plutônio.

Era uma vez apenas três bombas atômicas no mundo. Os tigres testaram uma delas no deserto do Novo México, para ter certeza de que a máquina funcionaria. Três semanas depois, as outras duas foram lançadas.

MESMO QUANDO KENSHI percebeu que a nuvem tinha se erguido sobre sua casa, ele rezou e tinha esperança de que Setsuko pudesse de alguma maneira ter escapado. Quando deixou o estaleiro, estava levando alguns biscoitos a mais para ela. Um dia depois, ele cavava as cinzas comprimidas em sua cozinha, descendo quase meio metro, à altura dos joelhos. Ao parar para comer um biscoito ou tomar água de um cano quebrado, ele espalhava um pouco da comida e da água no chão, como numa cerimônia — uma oferenda a Setsuko.

Quando o sol de agosto ficou ainda mais alto e uma nevasca de cinzas soprou pelo local, o cano parou de gotejar. Em pouco tempo, Kenshi já não tinha água e os biscoitos escasseavam, mas ele continuou cavando e esperando, mesmo sabendo que o fracasso em encontrar quaisquer ossos significava que Setsuko talvez não estivesse em casa no momento do clarão.

Quando a exaustão, a sede — e, naquele momento, a fome — começaram a competir com os primeiros leves sintomas da doença da radiação, três mulheres da sua vizinhança retornaram às ruínas. A mais velha, presidente da associação do bairro, descobrira o lugar onde as rações de emergência estavam enterradas e coordenou a escavação de três grandes latas de arroz seco. Ao ver Kenshi e ao escutar seus apelos a qualquer pessoa que pudesse ter encontrado Setsuko, a mulher se dirigiu até um buraco feito no chão perto dali, cheio de pedaços de carvão em brasa. Ela misturou um pouco de sua própria ração de água com arroz e cozinhou uma tigela de mingau levemente radioativo para Kenshi. Ele se lembraria, depois, de ter ido às lágrimas com a bondade daquela mulher. Nunca mais a viu.

Depois de tomar uma tigela de sopa de arroz, ele sentiu-se reenergizado, apesar das leves ondas de náusea, e retomou as buscas por Setsuko.

Escavou quase toda a cozinha, sabendo que sua mulher gostava mais de cozinhar que de qualquer outra coisa no mundo. Ela se achava uma chef importante, que conseguia transformar mesmo as rações mais escassas nos sabores mais sutis, ao colocar temperos e ervas, o que a maioria das pessoas chamava de cupins, ervas daninhas e formigas dos citros. A cozinha, ele estava convencido, era onde mais provavelmente poderia encontrá-la às 8h15, pensando em como transformar uma xícara de grãos de soja mofados no que ela prometia ter "um gosto parecido ao de caminhar nas nuvens"

Quando a poeira da cozinha não revelou nenhum sinal dela, Kenshi começou a aferrar-se à esperança. Logo foi acompanhado por dez homens que trabalhavam na serralheria da cidade e conheciam bem o casal. Eles tinham ouvido falar da aflição de Kenshi.

Procuraram da cozinha até a sala de estar, escavando até a altura do joelho, mas nenhum sinal de osso foi encontrado.

"Ela não está aqui", disse Kenshi. "Ela ainda está viva em algum lugar."

"Para termos certeza, precisamos cavar um pouco mais fundo", disse um de seus amigos.

Minutos depois, a esperança morreu. Seu amigo desenterrou o que parecia apenas um pedaço de concha a Kenshi.

"Nós dois adoramos conchas e ostras gigantes", Kenshi insistiu. "Setsuko as usa como decorações de mesa!"

Mas ele já sabia, em seu coração, que aquilo era um fragmento de crânio humano. Os homens recuaram em silêncio. Reprimindo a ansiedade, Kenshi cavou suavemente com a ponta dos dedos, aumentando aos poucos e depois aprofundando a área de onde a "concha" tinha saído. Ele tocou pequenos fragmentos de coluna e encontrou neles um padrão que indicava o momento final. Ela estava sentada quando tudo aconteceu.

Da cozinha, ele escavou uma tigela de metal, que apesar de queimada não apresentava nenhum outro dano. Kenshi reconheceu-a como a mesma tigela que Setsuko e ele tinham trazido da casa dos pais dela de trem para Hiroshima havia apenas dez dias. Dez dias, ele lamentou, e os ossos desta pobre garota vão ser colocados neste vasilhame que ela trouxe de sua terra natal.

Sob o sol ardente da metade do verão, Kenshi tinha sede. O suor escorria por suas costas e suas calças estavam encharcadas. Ele sentiu que ia desmaiar. Seu amigo da serralheria ofereceu-lhe água; ele bebeu e depois borrifou um pouco sobre o vasilhame — como para dar à mulher o último gole de sua curta vida.

"A serralheria desapareceu e ninguém sabe o que acontecerá conosco agora", seu amigo disse, e depois contou que a esposa e ele estavam guardando uma pequena ração de arroz branco especial e peixe seco, caso as condições cada vez piores viessem a se resumir no que os ocidentais chamavam de "um dia de chuva".

"Bom, está chovendo fogo, gelo negro e tripas de cavalo", o ano da serralheria disse. "Então acho que esse dia chegou."

Ele convidou Kenshi para um almoço tardio, mas substancial, e lhe ofereceu um lugar para ficar enquanto decidisse aonde ir.

Kenshi já havia decidido. Como um dos sobreviventes da gerência da Mitsubishi, ele poderia conseguir assentos prioritários em quaisquer trens em operação. "Se eu puder chegar a Koi ou mesmo até a estação Kaidaichi", disse, abraçando a tigela de metal contra o

peito "então encontrarei uma maneira de levar Setsuko para a casa seus pais".

"Por isso mesmo você tem um motivo para fazer uma boa refeição antes de partir", seu amigo insistiu.

Na periferia da cidade, a casa do dono da serralheria tinha sobrevivido intacta atrás de um morro, com apenas algumas telhas deslocadas. A náusea de Kenshi ia e vinha, o que tornou mais fácil comer devagar e em pequenas porções. Ele não queria tomar muito para si da última boa refeição na cidade, nem tirar muito de seus amigos. A tigela de sua cozinha permanecia a seu lado o tempo inteiro. Isótopos de potássio e iodo estavam sendo liberados dos ossos de sua mulher. Eles se alojaram nas calças de Kenshi, em sua pele e em seus pulmões.

Enquanto comiam, um jovem soldado bateu à porta com notícias de que a estação de Hiroshima talvez nunca mais operasse novamente, e que todos os assentos de alta prioridade na estação Koi já estavam ocupados para a tarde de 7 de agosto. Não havia trens saindo de Kaidaichi devido ao que o soldado de 16 anos chamou de "o mais assombroso acidente de trem de todos os tempos!".

Ele explicou, animadamente, como um trem que estava saindo de Hiroshima durante o clarão tinha sido tão frito que mesmo seus pedais de segurança tinham falhado: "A coisa atravessou Kaidaichi sem parar e continuou voando. Disseram que estava a pelo menos 150 quilômetros por hora, e por fim bateu num caminhão em um cruzamento e descarrilou!".

Kenshi apenas agradeceu ao garoto pelo relato e lhe perguntou se algum trem sairia de Koi no dia seguinte.

"Sim", ele disse. "Há um saindo às 15h e o senhor tem assento provisório — o que significa que o senhor está nele contanto que consiga chegar lá."

Kenshi decidiu sair cedo. Muitas estradas e pontes deixaram de existir e ninguém podia saber quanto tempo duraria a caminhada até Koi. Ele encheu o cantil e colocou dois biscoitos e alguns grãos de arroz nos bolsos da calça, depois cortou barbantes e enrolou a tigela num pedaço de pano, bem firme, para que os ossos de Setsuko não caíssem se ele tropeçasse nos destroços que enchiam as ruas.

Antes de sair, Kenshi pediu ao amigo permissão para colher uma flor de seu jardim. Então, dizendo obrigado e adeus, ele desceu até o rio, onde atirou a flor e os grãos de arroz corno oferenda e se curvou três vezes, de acordo com uma tradição budista que reconhece o lugar dos mortos.

Corpos já estavam sendo resgatados dos dois lados do rio, e na estrada adiante cremações em massa já tinham começado.

Como, Kenshi se perguntava, ele contaria aos pais de Setsuko o que tinha acontecido com ela? Ele não conseguia pensar em mais nada. Não sabia ainda que logo teria muito mais em que pensar. Podia-se dizer que seu encontro com a História nesses dois últimos dias tinha sido apenas o crepúsculo antes do amanhecer. Kenshi Hirata chegaria à estação Koi com tempo de sobra; e às 3h da tarde de 8 de agosto ele começaria a viagem para levar os ossos de Setsuko à casa dos pais, a bordo do último trem para Nagasaki.


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