O último Trem de Hiroshima



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PAUL TIBBETS: Piloto do Enola Gay, foi o matemático que estava por trás das dinâmicas de voo de lançamentos de bombas atômicas.
SHIGENORI TOGO: Com o físico Nishina, o ministro das Relações Exteriores Togo argumentou que não existia defesa contra armamentos atômicos, e que o imperador deveria considerar a rendição. O imperador concordou. O ministro da Guerra Anami, não.
DR. SUSUMU TSUNO: Reitor da Faculdade de Medicina de Nagasaki. Em 7 de agosto de 1945, embarcou no mesmo trem de Hiroshima em que estavam Akira Iwanaga e o prefeito Nishioka. Estava num prédio perto do hipocentro e, como a maioria das pessoas que chegaram no mesmo trem, não sobreviveu ao seu segundo encontro com a bomba atômica.

YOSHIJIRO UMEZU: Um dos vários generais no Palácio Imperial (entre eles, Ugaki) que propuseram fazer uma última resistência contra o ataque nuclear.


BERNARD WAIDMAN: Cientista/fotógrafo na posição de artilheiro de cauda durante a missão de Hiroshima.
TSUTOMU YAMACUCHI: Engenheiro naval nas fábricas de armas de Hiroshima e Nagasaki. Como Shigeyoshi Morimoto, vivenciou os dois bombardeios atômicos nas "terras planas" — nome que se dava às regiões do Ground Zero. Foi salvo por um casulo antichoque uma segunda vez e, quando sofreu da doença da radiação, recebeu cuidados da mulher, Hisako (com a ajuda de uma das equipes de resgate do doutor Paul Nagai). O senhor Yamaguchi sairia da experiência como um defensor da paz.
DOUTORA YOSHIOKA: Boa amiga dos doutores Akizuki e Nagai no complexo médico de Nagasaki. Altamente respeitada, foi uma das poucas mulheres no Japão autorizadas a exercer a medicina durante os anos 1940.

NOTAS


Por muito tempo, a censura dominou as duas cidades. Governadas pelos regulamentos do Comitê de 11 de setembro de 1945 do general Douglas MacArthur, os sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki não estavam autorizados a publicar nada a respeito do que tinham visto ou vivido.

Durante as décadas seguintes, suas histórias raramente vieram a público. Foram exceções notáveis as entrevistas de John Hersey com seis sobreviventes de Hiroshima, as quais ocuparam toda a edição de 31 de agosto de 1946 da revista The New Yorker. A história de Hersey foi subsequentemente publicada no livro Hiroshima8 e continua a ser reimpressa até hoje. Como John Hersey, o doutor Paul Takashi Nagai também conseguiu escapar à censura e publicar, apesar de pouco. Depois do lançamento de Os sinos de Nagasaki, durante o tempo em que estudava a biologia do hipocentro e compilava notas para Nós, de Nagasaki, sua escrita foi alvo de uma campanha brutal de difamação. Nessa época, o doutor Nagai recebeu a visita de dois agentes do fisco americano, mas o modo como os recebeu e sua mensagem de esperança fez um dos agentes relatar ter estado na presença de "um homem realmente santo". Ninguém do governo americano incomodou o doutor Nagai novamente.

Hiroshima (Nova York: Vintage, 1989); The Bells of Nagasaki (Londres: Kodansha International, 1994); We of Nagasaki (Nova York: E,P. Dutton, 1951).

Os livros do doutor Nagai permaneceram relativamente obscuros; mas o livro de John Hersey rapidamente se tornou um best-seller mundial. Durante os estágios iniciais da Guerra Fria, o general MacArthur e demais oficiais que estavam abaixo ou acima dele prefeririam que houvesse menos atenção a Hiroshima e aos efeitos de radiação a longo prazo. Depois de Hiroshima, o pessoal de MacArthur tomou todas as medidas necessárias para se evitar que uma bomba três vezes mais destrutiva do que a que explodiu sobre a "Cúpula Atômica" da cidade não fosse lembrada. Assim, a negligência percebida pelo doutor Akizuki era muito real. O esquecimento da bomba de Nagasaki não foi um acidente.

"Nagasaki nunca foi destruída, estritamente falando", escreveu em seu relato George Weller, um dos primeiros jornalistas americanos a chegar ao porto de Nagasaki.(9) Sua reação era típica de muitos naqueles dias, que viram a maioria dos edifícios de Nagasaki intactos e não sabiam que o real centro de devastação nuclear estava em Urakami.

Weller ficou maravilhado ao escutar as histórias de pessoas que tinham sobrevivido bem perto da bomba, em estranhas bolhas parecidas com casulos, enquanto tudo ao seu redor tinha sido destruído. As quase duas dúzias de incidentes envolvendo os tais casulos eram contadas com tanta frequência que Weller começou a considerar esses eventos raros como relativamente comuns, o que o levou a concluir que talvez as explosões nucleares não fossem tão ruins assim. No início, ele não percebeu que esses notáveis relatos de sobrevivência eram deliberadamente dirigidos e contados a ele, nem que o Ground Zero estava escondido na subida do rio, a três quilômetros de Nagasaki.


9. George Weller, First into Nagasaki: The Censored Eyewitness Dispatches on Post-Atomic Japan and Its Prisoners of War (Nova York: Crown, 2006).

"O que permanecia fascinante para mim", Weller escreveu em seu diário, "era a revisão constante de minhas próprias ideias de devastação total e de não-se-poder-escapar-à-bomba". Em geral, os prisioneiros de guerra americanos que sobreviveram nos túneis das fábricas de torpedo Mitsubishi reforçaram essa crença. E, assim, Weller relatou que esses homens apresentavam precisamente o contrário da ideia de uma destruição total. "A explosão e os raios voaram de forma inofensiva sobre as cabeças dos prisioneiros. Eles tinham se prostrado e permaneceram deitados expostos quase diretamente à explosão. Apenas quarenta deles declararam ter sido feridos."

As mais de trezentas páginas de anotações de George Weller preservaram uma importante história oral feita por prisioneiros de guerra americanos que sobreviveram em mais de uma dúzia de campos japoneses de trabalhos forçados. Entretanto, as suas quarenta páginas de notas sobre Nagasaki foram escritas com a desvantagem de terem de registrar apenas sorrateiramente o que havia no porto e ao longo das encostas do vale para conseguir dar uma olhada além da mansão intocada do governador e evitar os censores do general MacArthur. Como era de se esperar, as anotações de Weller foram confiscadas e mantidas sob sigilo. Mais tarde, suas cópias em carbono foram armazenadas, editadas e reproduzidas como documentos militares e da Comissão de Energia Atômica — tornando-se, com o tempo, algo mais ou menos parecido com um evangelho. Seu relato não autorizado, apesar de ter sido compilado naquela Nagasaki proibida, continha estranhos depoimentos fornecidos a ele sob o disfarce de conhecimento secreto. Weller escreveu sobre a ironia de uma arma atômica descendo lentamente em três paraquedas —"um golpe fatal voando debaixo de um lenço de seda".

As palavras eram poéticas, mas as coisas não aconteceram exatamente assim. Os paraquedas eram, na verdade, as caixas com os sensores do doutor Luis Alvarez, lançados do Great Artiste. Weller também foi informado de que a bomba atômica era simplesmente uma arma tática como qualquer outra — com a exceção de poder nocautear urna fábrica com mais força, embora apresentasse alguns efeitos colaterais passageiros nas contagens de leucócitos e plaquetas. Essa informação errada foi copiada por Weller e posteriormente adotada como verdadeira, replicada e distribuída.

Em 2005, o filho de Weller, Anthony, escreveu: "A atitude de meu pai em relação ao que viveu em Nagasaki era complicada e não melhorou com os anos. 'Eu perdi a minha guerra em Nagasaki', ele costumava dizer".

Uma explicação a respeito de sua atitude pode ser encontrada em cartas escritas por George Weller em 1984: "Cada general quer mais do que já tem, mas a diferença entre MacArthur e os outros é que ele quebraria janelas para obter mais... Com ciúme de que `sua guerra' de quatro anos foi ganha por duas bombas preparadas sem o seu conhecimento e lançadas sem as suas ordens, MacArthur resolveu fazer o que pudesse para apagar da história — ou pelo menos apagar tão bem quanto a censura conseguisse — as importantes lições humanas sobre os efeitos da radiação nas populações civis".

O general MacArthur foi, pelo menos, decisivo. Se Hamlet tivesse sido escrita por ele, seria uma peça de um ato só.

E, assim, o documento de Weller registrou fielmente os números que lhe foram fornecidos segundo as regras de MacArthur. De 30 de agosto de 1945 em diante, os números oficiais contabilizaram apenas 19.741 mortes em Nagasaki. Como essa cidade tinha sido protegida por morros altos, a estatística era tecnicamente correta, mas não representava nem uma fração da verdade. O hipocentro estava a dois quilômetros ao norte do centro de Nagasaki, na cidade de Urakami. Lá, o desaparecimento de mais de 8 mil dos 20 mil católicos do distrito correspondia a quase metade da estimativa oficial de MacArthur. Além destas, pelo menos mais 80 mil pessoas foram mortas e excluídas da história por MacArthur.

Nem todos cooperaram e se tornaram jogadores na equipe do protocolo do general. Arriscando-se à corte marcial, um cartógrafo desconhecido se lançou à elaboração do mapeamento, tido como atividade subversiva. No "Mapa de pesquisa de bombardeios estratégicos" oficial dos Estados Unidos, junto com a fábrica de torpedos Mitsubishi e outros alvos militares destruídos pela bomba atômica, ele listou cada igreja e cada escola, incluindo a escola de meninas Yosé, a escola secundária Ouramachi, a escola primária Nishizaka e a escola para surdos e cegos de Urakami.
Em 8 de setembro de 1945, George Weller permaneceu uma hora na encosta do vale, nas ruínas do hospital do doutor Nagai, observando a bacia de Urakami. Durante o período que foi de 9 de agosto até a chegada de Weller, Nagai, Akizuki e os outros médicos tinham relatado o surgimento de uma misteriosa "Doença X" associada à bomba. De acordo com o diário de Weller, 25 cientistas americanos estavam por chegar ao local da bomba em 11 de setembro, sujeitos à jurisdição de MacArthur. "A esperança japonesa é que eles tragam uma solução para a Doença X", Weller escreveu.

Quando os cientistas finalmente chegaram, Yamagami, amigo do doutor Akizuki, estava sucumbindo à tristeza. Ele sobrevivera e se fortalecera o suficiente para construir um abrigo temporário para a família perto de um córrego abaixo do hospital. Mas o restante de sua família, com exceção de seus quatro filhos, tinha desaparecido e provavelmente morrido. As crianças tinham escapado com apenas um ou dois cortes, então ainda existia alguma esperança em meio à dor de Yamagami. "Mas ninguém sabia que isso era apenas o começo de uma grande dor", o doutor Akizuki declararia. "Dez dias se passaram, e depois outros dez, e as quatro crianças sobreviventes começaram a morrer, uma após a outra." O doutor Tatsuichiro Akizuki publicou suas memórias, Nagasaki 1945: O primeiro relato integral de uma testemunha do ataque da bomba atômica em Nagasaki, em 1981 (Londres: Quartet Books).

Nas 24 horas após o pika-don, um número considerável de estudantes de medicina morreu, apesar de não apresentar ferimentos causados pelos escombros nem queimaduras visíveis. Eles tinham vindo dos sopés dos morros e conseguido chegar até o hospital. Naquelas horas em que a expressão Doença X ainda não fazia parte do vocabulário, tudo o que o doutor Akizuki poderia supor era que a cabeça dos estudantes ou seus órgãos internos tinham sido golpeados por objetos em queda, produzindo ferimentos fatais a princípio não aparentes.

Weller ficou sabendo muito mais tarde que o comitê de 11 de setembro deu por verdadeira a hipótese inicial do doutor Akizuki, não obstante o fato de que provas adicionais fizeram o médico rejeitá-la rapidamente. Oficialmente, e por mais de uma década, não existiriam provas de que as pessoas tivessem feridas permanentes ou que estivessem morrendo por efeitos relacionados à radiação. Não oficialmente, elas existiam apenas em obscuras publicações científicas e médicas. Oficialmente, aqueles que sobreviveram com a Doença X — eles mesmos chamando-se de hibakusha —, não deveriam existir. Eles foram o alvo de uma expressão tipicamente macarthista: "uma verdade inconveniente".

Ninguém do comitê de MacArthur perguntou aos doutores Akizuki ou Nagai o que realmente aconteceu no distrito de Urakami durante os primeiros dias e semanas. Ninguém nunca perguntou nada a Tsutomu Yamaguchi ou a Michie Hattori. Em Hiroshima, o comitê não abordou o doutor Hachiya, o doutor Fujii, tampouco as famílias Sasaki ou Ito. Ainda assim, com o tempo, eles vieram a contar suas histórias. Depois de seu relatório inicial à companhia Mitsubishi (que registrou nove duplos sobreviventes, incluindo Kenshi Hirata e o fabricante de pipas militares Shigeyoshi Morimoto), Yamaguchi intencionalmente desapareceu de cena até a morte de seu filho em 2005. Durante essas primeiras décadas, ele escolheu a obscuridade ainda que tivesse conseguido um pouco de fama depois da compilação do relatório da companhia Mitsubishi pelo jornalista Robert Turmbull, em Nove que sobreviveram a Hiroshima e Nagasaki (Nova York: E. P. Dutton, 1975).

Sabe-se que aproximadamente trinta pessoas viajaram nos dois trens de Hiroshima a Nagasaki e sobreviveram às duas bombas atômicas, apesar de a maioria dos duplos sobreviventes (como o prefeito Nishioka) ter escapado numa distância muito além da fronteira do Ground Zero. Tsutomu Yamaguchi pertence a uma das minorias mais raras da história: pessoas que, apesar de estarem nas zonas de devastação total, sobreviveram duas vezes sob escudos de sombra da natureza ou em casulos antichoque.

APESAR DE TODO O mistério e perplexidade que cercam os casulos antichoque de agosto de 1945, nunca deveria ter existido a necessidade de que um Tsutomu Yamaguchi, uma José Matsou ou outra pessoa fosse salva por esse efeito. Muito menos pelo mais improvável e talvez o pior — em termos de localização — casulo antichoque de todos os tempos.

Havia mais de um ano, em 20 de julho de 1944, o coronel Claus von Stauffenberg enterrou uma maleta com uma bomba no quartel-general da Toca do Lobo de Hitler, estando a um metro do próprio. A bomba detonou de acordo com o planejado, despedaçando toda as peças do mobiliário da sala, explodindo paredes e marcos de portas, levantando o teto inteiro de seu suporte. Das 24 pessoas presentes na sala com Hitler, a metade sofreu mutilações quase fatais ou foi morta (entre eles estavam quatro generais e o contra-almirante Karl-Jesco von Puttkamer). Da metade restante, todos sofreram ferimentos mais graves que Hitler — que, embora estivesse mais perto da bomba, saiu dali com apenas alguns cortes, arranhões, calças rasgadas e um zumbido enlouquecedor nos ouvidos. (O incidente na Toca do Lobo foi descrito com precisão histórica no romance de Herman Wouk, Guerra e Memória, publicado pela Little, Brown em 1978.)

Fotografias detalhadas dos destroços da Toca do Lobo já tinham oferecido um relatório forense suficiente para os físicos e especialistas em explosivos esclarecerem o paradoxo de como as pessoas localizadas a vários metros da bomba foram mutiladas e mortas enquanto Hitler sobreviveu a menos de meio metro do centro da explosão.

Uma grossa perna de mesa entre Hitler e a bomba criou o casulo antichoque que salvou sua vida. Durante um intervalo de apenas um ducentésimo de segundo — antes que o carvalho se rachasse pela metade e se despedaçasse —, a onda de choque divergiu completamente ao redor da coluna que se desintegrava e passou por Hitler — levando farpas de madeira e transformando-as em estilhaços. Estas tampouco o atingiram. Se ele estivesse mais longe, mesmo ao longo daquele vetor (ou direção), o buraco em forma de casulo à frente da explosão que se expandia teria se fechado na largura de um punho de homem antes de chegar à parede, desferindo-lhe um murro fatal.

Se a maleta fosse levada a qualquer outra posição da sala, a bomba provavelmente teria causado uma lesão muito grave em Hitler que o impediria de permanecer no comando, ou ainda o teria matado. Em vez disso, um casulo antichoque se formou perto da bomba, e era grande o suficiente para prevenir que a força da explosão chegasse a um alvo que aparentemente era impossível de errar.

A bomba da Toca do Lobo foi o primeiro passo num suposto golpe militar. Na metade de 1943, os generais Edwin Rommel e CarlHeinrich von Stulpnagel tinham elaborado a matemática infalível que pôs a Alemanha ao lado dos perdedores numa guerra de desgaste. Hitler estava disposto a lutar até que Paris, Berlim e toda a população dos territórios da Alemanha fossem destruídas. Chamando sua política de "terra queimada", ele parecia aceitar até mesmo sua própria morte numa eventual derrota, contanto que pudesse arrastar todos com ele até o túmulo.

Não fosse pelo casulo antichoque de Hitler, von Stulpnagel teria pedido, de seu posto avançado na França, um armistício imediato às forças aliadas em 20 de julho de 1944 ou numa data próxima. O plano de Stulpnagel-Rommel pretendia colocar Ludwig Beck e Carl Goerdeler no poder como presidente e chanceler — com a condição de que a Alemanha se rendesse até a última semana de julho de 1944, em vez de 7 de maio de 1945. Se tivesse acontecido assim, os aliados não teriam se distraído do front do Pacífico pela batalha do Bulge em dezembro de 1944; tampouco de Dresden em fevereiro de 1945, ou de Berlim devido ao avanço russo em abril de 1945.

Em vez disso, Okinawa não caíra com os fuzileiros navais e as Filipinas não foram liberadas até junho de 1945. Se um pedaço de madeira de carvalho não tivesse interferido em 20 de julho de 1944, esses dois eventos-chave teriam ocorrido pelo menos seis meses antes — até janeiro de 1945, provavelmente em momento anterior a novembro de 1944.

Em junho de 1945 — um mês antes da primeira bomba atômica ser testada no deserto do Novo México —, o plano pós-Okinawa do general MacArthur requeria a invasão do território japonês até novembro de 1945, seguindo o bombardeio incendiário de quase todas as reservas de combustível remanescentes e estaleiros. A julgar por tudo o que foi visto durante as missões de reconhecimento em julho e no início de agosto — incluindo a absoluta ausência de trânsito nas ruas e mesmo a observação dos barcos de pesca e de patrulha quer estivessem ancorados quer estivessem no porto, dia após dia exatamente nos mesmos lugares —, o plano de MacArthur seguia conforme o planejado para uma invasão em outubro ou novembro. A matemática do desgaste de MacArthur, era clara: a população japonesa seria "derrotada" entre três e cinco meses depois da invasão.

Em agosto de 1945, mais de 500 mil soldados já estavam em posição em Okinawa e em outras ilhas mais distantes. Seis milhões de soldados adicionais — incluindo os da "Easy Company" e Normandia, Vire, e o 82" Batalhão de Engenharia, já calejado pela batalha do Bulge — estiveram em treinamento para o ataque final desde maio. A matemática de MacArthur também tinha pedido que a Casa da Moeda americana produzisse 400 mil Corações Púrpuras para serem entregues aos feridos e postumamente aos mortos. (As medalhas tinham sido inventadas recentemente, e os mesmos Corações Púrpuras que sobraram da Segunda Guerra Mundial foram entregues durante as guerras da Coreia, do Vietnã, e nas guerras do Iraque e do Afeganistão.)

Todos esses eventos teriam ocorrido de seis a oito meses antes, não fosse pelo casulo antichoque de Hitler. A esquadra americana deveria ter invadido o território japonês em maio de 1945, possivelmente até março. Se isso tivesse acontecido, existiria uma probabilidade de mais de 50% de que a guerra terminasse até agosto. Se a invasão ocorresse em março, então o calendário de MacArthur encerraria a guerra quando a primeira bomba atômica foi testada na base de Trinity, em 16 de julho de 1945. Hiroshima e Nagasaki nunca teriam acontecido.

DAS RUÍNAS DE HIROSHIMA, apesar dos protocolos de censura, alguns trabalhos literários conseguiram vir à luz. Entre eles, o diário do doutor Michihiko Hachiya, publicado primeiramente na revista médica Teishin Igaku, depois traduzido e editado sob a coordenação do físico americano Warner Wells, que o publicou como o Diário de Hiroshima: o diário de um médico japonês, 6 de agosto-30 de setembro, 1945 (Durham: University of North Carolina Press, 1955). Keiji. Nakazawa (o Gen Pés Descalços) escreveu várias novelas gráficas (mangás) com relatos de sua sobrevivência quando criança em Hiroshima, e conseguiu publicá-las depois que as regras de censura foram canceladas nos anos 1980. Entre as obras estavam Eu vi (San Francisco: Educomics, 1982); A História do Gen Pés Descalços (Sanyusha, Japão, 1984); Gen Pés Descalços: O Dia Seguinte (Filadélfia: New Society Publishers, 1988); e o DVD Gen Pés Descalços (Japão, 1992), lançado nos Estados Unidos por Geneon Studios e disponível na Amazon.com.

Nobuo Tetsutani doou o triciclo de seu filho Shin ao Museu de Hiroshima. Então, aos 79 anos de idade, depois de se aposentar de sua carreira como professor de escola secundária, ele começou a entrevistar outros sobreviventes da bomba atômica e a montar um arquivo para o museu, na esperança de manter suas histórias vivas enquanto a população de sobreviventes diminuía. Ao aumentar o arquivo, o senhor Tetsutani conheceu as enfermeiras que trabalharam com Minami (Nancy Cantwell) na estação de resgate do doutor Fujii, e estas lhe mostraram três bolinhas de gude derretidas que originalmente pertenceram a Toshihiko Matsuda. Em 1992, o senhor Tetsutani produziu o desenho animado. As bolinhas de gude de um menino, e em 1995 ele supervisionou a publicação do livro para crianças O triciclo de Shin (Nova York: Walker). A história de Masuji Ibuse da "louca íris" foi publicada numa antologia com o mesmo título (Nova York: Grove Press, 1985). Os poemas de Shoda Shinoe e Sadako Kurihara foram publicados em Clarão branco, Chuva negra (Minneápolis: Milkweed Editions, 1995).

Talvez o livro mais famoso sobre Hiroshima, além do Hiroshima, de John Hersey, seja a novela para crianças e adolescentes de Eleanor Coerr, Sadako e os mil pássaros de papel (Nova York: Putnam, 1999). A novela não pretendia ser uma história detalhada e factual; em vez disso, é baseada em tradições orais que se desenvolveram entre as crianças (e seus futuros filhos) que frequentavam a escola de Sadako. Mesmo a estátua memorial no Parque da Paz em Hiroshima é mais fiel à tradição oral que se criou na escola de Sadako do que à história real gravada por sua família e por seus médicos. A estátua exibe um pássaro de papel dourado (fiel à história contada pelos pais dos colegas de Sadako, que coordenaram a construção do memorial), mas na realidade esse pássaro nunca existiu. Apesar de tal imprecisão factual, a novela de Coerr é uma boa introdução à história de Sadako. Para um relato detalhado dos acontecimentos que levaram à construção do memorial, veja o livro de Takayuki Ishii, Mil pássaros de papel: a história de Sadako e da Estátua da Paz das Crianças (Nova York: Random House, 2001).

Nancy Cantwell (Minami) publicou a tradução inglesa de suas memórias em 2006, Uma vida em três terras (Japão, Coreia, EUA), corno um livro de impressão por demanda, disponível pela Vantage Press por meio da Amazon.com. Seus amigos — incluindo Nenkai Aoyama, Hitoshi Takayama e as enfermeiras que cuidaram de Toshihiko Matsuda, "o garoto das bolas de gude de Hiroshima" —, compilaram ensaios e relatos de sobreviventes em Hiroshima in memoriam e hoje: um testamento da paz no mundo (Asheville, N. C.: Baltimore Press, 2000).
NANCY CANTWELL NÃO TINHA como saber, mas, enquanto dirigia seu carro em direção ao túnel Lincoln na manhã de 11 de setembro de 2001, foi agraciada com a distinção histórica de se aproximar do segundo ground zero de sua vida ao guiar em direção ao local onde seu primeiro ground zero teve origem: uma parte de Manhattan conhecida como Hell's Kitchen.

Semanas mais tarde, quando os cientistas auxiliavam o corpo de bombeiros da cidade de Nova York a desenvolver um protocolo para neutralizar os efeitos de uma "bomba suja" terrorista (projetada para espalhar césio radioativo), eles ficaram sabendo que os ultrassensíveis medidores Geiger fornecidos pelo governo federal eram inúteis. Sua sensibilidade era tal que os aparelhos reagiam a traços de gás radônio presentes no granito dos prédios de Manhattan — para não falar de resíduos remanescentes nos depósitos de urânio do Projeto Manhattan, localizados entre os currais e matadouros de Hell's Kitchen.




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