O último Trem de Hiroshima



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"É o destino", ele disse. "Não pode ser evitado. É inútil reclamar ou se esforçar para entender, porque as coisas se tornam o que se tornam."

Seus amigos frequentemente brincavam: "Esse cara não tem vergonha mesmo. Depois de passar por duas bombas atômicas, morrer é o natural, viver é coisa de preguiçoso".

Por muito tempo, Yamaguchi gostava das brincadeiras, e ria junto com seus amigos. Mas, depois que ficou sabendo do que realmente estava acontecendo às crianças do pika, tornou-se impossível acreditar que houvesse alguma verdade no ditado antigo segundo o qual às vezes se encontra o destino no caminho que se tomou para escapar dele. Talvez tivesse chegado a hora de abandonar o anonimato conseguido com dificuldade e contar ao mundo a história das duas cidades.

"Sinto que só me foi permitido viver por essa razão", Yamaguchi contou à família. "Vivi o tempo suficiente para fazer o que precisa ser feito e para dizer o que precisa ser dito."

A primeira coisa que ele precisava dizer envolvia um lembrete do passado, uma velha crença de que, se algo acontecesse duas vezes, haveria de acontecer uma terceira vez. Quando o governo lhe perguntou se falaria nas Nações Unidas, ele olhou para o passado buscando sinais que orientassem o futuro e disse que o essencial de sua mensagem simplesmente seria o seguinte: "Não podemos deixar uma bomba atômica ser usada pela terceira vez".

A família Nagai carregou uma culpa constante. Por ter levado seus dois filhos para viver na estação de pesquisa do hipocentro, Paul Nagai acreditava que poderia tê-los exposto à radiação que posteriormente desencadeou seu câncer. Estar perto do hipocentro não era o problema, porque antes de as crianças chegarem a maior parte das partículas radioativas já tinha se decomposto. Contudo, quando as partículas estavam frescas e "quentes", os ventos predominantes carregavam as concentrações mais altas de chuva negra diretamente para o vale onde elas tinham visitado seus parentes. (Patricia Wynne)


Ele lembrou-se da história de um papa católico, João Paulo II, que visitou Hiroshima e quando estava perto de um memorial coberto de milhares de garças de papel, comentou: "A guerra é obra dos homens". Essas palavras eram chaves para Yamaguchi, e a elas, ele adicionou mais tarde: "O que isso significa — se tomarmos como verdade e se acreditarmos que fomos criados por causas naturais — é que não foi Deus quem iniciou a guerra; foram os humanos. Então podemos pará-la ou evitá-la, se quisermos".

E assim Tsutomu Yamaguchi tirou um passaporte e, pela primeira vez em sua vida, viajou a Nova York. Um dia antes de dar sua palestra na ONU, ele entrou num táxi movido a pedal. Numa ladeira íngreme perto do Central Park, sua correia se partiu, durante uma tarde em que o calor batia recordes.

Eles saíram do táxi, e Yamaguchi notou que o motorista estava tendo dificuldades em consertar o veículo — enquanto tentava evitar que descesse morro abaixo. Yamaguchi utilizou seu peso para apoiar uma das extremidades do táxi, e disse: "Eu sou do Japão", e perguntou ao motorista de onde era.

"Cuba", o homem disse rapidamente, enquanto continuava lutando contra a correia partida.

"Então", Yamaguchi recordou, "notei que ele estava suand muito. Peguei minha toalha e sequei o suor de sua testa. Não falávamos a mesma língua, com exceção de uma palavra ou outra — Japão, Cuba. Então senti que, ajudando, algo podia ser comunicado. O simples ato de dar-lhe minha toalha já o provara — ele parecia tão feliz em ser ajudado por um estranho que a ocasião me remeteu àquele homem que colocara um bolinho de arroz em minha mão no trem de Hiroshima. E então me ocorreu isso, cg e me acompanha até hoje: simples atos de bondades são coisas que todos podem fazer".

Ao encontrar outros sobreviventes na ONU, Yamaguchi descobriu que eles estavam, sem exceção, infelizes com o presente e preocupados com o futuro. Demonstravam bastante preocupação com a mineração dos oceanos, a destruição dos solos, o derretimento da capa de gelo da Groenlândia e as guerras feitas pelos homens. "Arruinar sistematicamente a ecologia também vai arruinar a economia global", um deles disse. "E uma economia global arruinada é uma corda ao redor do pescoço da paz mundial — uma garantia de futuras guerras." Um dos presentes não conseguia entender o conceito de biocombustível, como se dava a transformação do milho em gasolina e por que chamar esse processo de "verde". "Plantar comida para queimar e chamar isso de bom para o meio ambiente: , ele perguntou. "O que pode ser mais estúpido?"

Tudo o que Yamaguchi queria dizer era que ele e o motorista do táxi a pedal, no dia anterior, não falavam a mesma língua mas se entendiam mesmo assim, por simplesmente serem seres humanos —"um e o mesmo, todos nós".

"Então por que lutamos?", Yamaguchi começou. Ele explicou a seus ouvintes que já tinha feito essa pergunta muitas vezes a si mesmo. "E percebi que talvez, mesmo de uma forma limitada, haja algo que eu possa fazer. Cada um de vocês pode, apesar de sermos apenas humanos, ajudar a nos entender. Tudo o que precisamos é de pequenos passos. É tudo de que vocês precisam se lembrar. Pratiquem pequenos atos de bondade, de pessoa a pessoa. Transmitam a bondade como se ela fosse uma doença contagiosa."

"O que poderia ser mais fácil?", Yamaguchi se perguntava. O que poderia ser mais simples que Nyokodo e Omoiyari?

Pelo menos uma dúzia de pessoas na plateia revirava os olhos e balançava a cabeça.

"Eu me dou conta de que posso soar esperançoso ou simplório demais", ele disse e fez uma pausa. Recordou-se das palavras dos astronautas da missão Apollo, que viram, da Lua, a Terra flutuar sobre as montanhas: "Cidadãos planetários", eles tinham se denominado quando voltaram à Terra. Yamaguchi continuou: "Depositar minha fé na bondade recíproca entre os humanos pode parecer menos do que uma esperança simplória — completamente ingênua. talvez —, mas se seguirmos esses princípios, deixamos a experiência da guerra não como japoneses ou americanos, não como cristãos ou budistas, hindus, muçulmanos ou judeus, mas simplesmente como cidadãos planetários. Precisamos começar em algum momento. Precisamos. Porque, como cidadãos planetários, vemos como estão as coisas, e não estamos satisfeitos."

MASAHIRO SASAKI, QUANDO NÃO ESTAVA se encontrando com outros

sobreviventes, estudantes ou com algum ocasional representante do Vaticano, mantinha um salão de cabeleireiro com sua mulher num pacato subúrbio bem ao norte de Nagasaki. No bairro, ele era conhecido por trazer e levar de carro, pessoalmente, cada um dos seus clientes, o que era apenas uma pequena demonstração dos princípios de Omoiyari Durante o verão de 2008, um cientista visitou o senhor Sasaki em seu salão. O visitante aprendeu a palavra Nyokodo e aprendeu o Omoiyari. Com a ajuda de Masahiro, ele pôde descobrir — primeiro num mapa de levantamento sobre a bomba, de 1945, depois nas ruas de Hiroshima — a localização exata da casa da infância de Masahiro e de Sadako. Milhares de passageiros do trem-bala passavam pelo lugar todos os dias sem saber. Durante os anos de reconstrução, as telhas e as cinzas foram removidas e um estacionamento foi construído em cima das fundações antigas, preservando-as. Do outro lado da rua, na direção em que ficava a casa do doutor Hachiya, das ruínas tinha se erguido uma loja 7-Eleven 24 horas.

No dia em que a casa de Sadako foi redescoberta, o cientista deixou flores num canto do estacionamento, prostrou-se três vezes, e caminhou para o leste, na direção do rio. Quando começou a filmar o lugar entre as duas pontes onde Masahiro indicara que ele, Sadako e sua mãe tinham sobrevivido num barco quase afundado, uma garça branca desceu do sul e pousou no local.


MICHIHIKO HACHIYA, AMIGO e vizinho de Shigeo Sasaki, morreu em 1980. Seu diário, que relatava os tempos de Hiroshima, indicava que ele carregou uma culpa imerecida por, de alguma maneira, ter causado a morte da mãe de Shigeo. Se ele não fosse um homem decente, não carregaria tal culpa. Um homem inferior não teria sentido nada. Assim, a bomba feriu duas famílias com a própria decência de Hachiya, devido à lealdade a seus vizinhos, à sua humanidade. Mesmo depois que histórias sobre Sadako e sobre os mil pássaros de papel começaram a se espalhar pelo Japão, Masahiro não conseguia lembrar se seu pai falara com o doutor Hachiya novamente. Acreditava que não — como a teoria das "rachaduras invisíveis" do doutor. Nagai tinha previsto.

Em Urakami, o destino de Akizuki, amigo de Nagai, foi morrer por causas naturais e em idade avançada, no ano de 2005. Ele defendeu os ensinamentos do doutor Nagai até o fim de seus dias.

A essa altura, aos 87 anos, Shigeo Sasaki estava morto em Hiroshima.

Fujiko Sasaki estava morta.

A companheira de quarto de Sadako, Kiyo, estava morta.

Ryuta Kondo estava morto.

Keiji Nakazawa — "Gen Pés Descalços" — cresceu numa favela entre o Hospital de Comunicações e a escola frequentada por Sadako e Masahiro Sasaki. Gen frequentemente estava em apuros; costumava se meter em brigas no pátio do colégio e fugir por dias e mesmo por semanas.

"É claro que eu brigava muito", Gen recordou. As pessoas do pika-don (chamadas de hibakusha) frequentemente se tornavam intocáveis. Éramos tratados como lixo pelas crianças mais protegidas e mais privilegiadas, que começavam a chegar de outros lugares. Mais tarde, se a família de uma jovem descobrisse que tínhamos sido expostos à bomba, não nos deixaria casar. Mesmo tendo sobrevivido, não nos era permitido viver."

Durante sua vadiagem, Gen descobriu as histórias em quadrinhos e os desenhos animados — que, na verdade, eram formas embriônicas do movimento artístico do mangá. Gen por fim se envolveu com os criadores do Astro Boy, o que levou aos livros de Gen Pés Descalços e a vários filmes animados, um deles baseado nos diários do doutor Akizuki.

"O pika e os hibakusha não podem acontecer novamente . Gen disse. "Quando os americanos chegaram, escreveram a nossa Constituição, baseada no que no seu país se concebia como liberdade. Entretanto, o artigo 9º de nossa Constituição diz: “Nenhuma marinha. Nenhum exército. Nenhuma força aérea. Nenhuma produção de armas'. É um documento extraordinário. Não importa o que aconteça, devemos protegê-lo."

Todos os amigos de infância de Gen — ou ao menos aqueles que estavam perto o suficiente para ter testemunhado a bomba, como ele testemunhou — morreram antes da virada do século.

Satoko Matsumoto e o restante de sua família estavam mortos.

Yoshiko Mori e seu filho Hiroshi estavam mortos.
A esquina onde se localizava a casa dos Sasaki, como era na manhã de 6 de agosto de 1945; dois dias depois que os incêndios se apagaram; e durante o verão de 2008. (Patricia Wynne, CRP)

Masuji Ibuse, o poeta de Hiroshima que testemunhou o incidente da "louca íris", estava morto.

O bombeiro Yasaku Mikami estava morto.

O assistente de fabricante de pipas Doi — assim como o senhor Yamaguchi um dos duplos sobreviventes —, não sofreu efeitos conhecidos da radiação apesar da chuva de objetos atirados do hipocentro até seu bairro em Nagasaki, seguida rapidamente por uma leve bruma causada pela chuva negra. Não obstante ter escapado, aparentemente, de algum ferimento, sua filha ainda bebê teve bolhas, inchação nos nódulos linfáticos, anemia e infecções frequentes. Depois de alguns anos, quando parecia que a criança tinha se recuperado completamente, a mulher de Doi adoeceu, teve câncer e morreu.

Akira Iwanaga tornou-se secretário no escritório da Casa de Governo Municipal pós-guerra de Nagasaki, onde se aposentou com uma saúde notável, e depois se mudou para o litoral com sua família, onde viveu até os 90 anos. Em 2008, ele era, com Tsutomu Yamaguchi, um dos duplos sobreviventes ainda vivos de que se tinha notícia.

Shoda Shinoe morreu de câncer em 1965.

A jovem doutora Yoshioka, cujo rosto dilacerado pela explosão encheu o doutor Akizuki de uma culpa que nunca o abandonou, continuou a viver perto do complexo do hospital de Crakami até sua morte, que se deu em torno de 1985. Ao redor do complexo, as cerejeiras queimadas até as raízes tinham voltado à vida, transformando as regiões desérticas em florestas e jardins restaurados.

O padre Mattias nunca pôde esquecer as crianças que tinha deixado sozinhas numa torre de tijolos entre as espirais de fogo que se erguiam em Hiroshima. Ele se tornou viciado em álcool e cometeu suicídio em 1985. O filósofo jesuíta John MacQuirty presidiu seu enterro em solo sagrado, apesar das injunções da Igreja contra a compaixão para com os suicidas. "Ele foi um homem bom que tentou viver sob um código de bondade", MacQuirry disse. "Foi Hiroshima que o matou."

Hiroko Nakamoto curou-se de suas feridas e acabou indo para os Estados Unidos, onde estudou design de interiores no Instituto Pratt, em Nova York. Ao voltar para o Japão, projetou o Portal para a Paz, monumento na estação de trem de Hiroshima.

Misako Katani estava morta.

O castelo de Hiroshima em julho de 1945; no fim de agosto de 1945, e em agosto de 2009. (Patricia Wynne)

Masao Komatsu estava morto.

O mestre fabricante de pipas Morimoto estava morto.

Depois da morte da mulher, Doi caiu em depressão, adoeceu e morreu.

O prefeito Takejiro Nishioka continuou a sofrer os sintomas da radiação durante meses depois de Hiroshima e Nagasaki. Acreditando que morreria logo, ele transferiu os direitos da editora a sua mulher. A senhora Nishioka expandiu vastamente os lucros da família com as publicações, depois entrou na política e foi eleita membro da Casa dos Conselhos (o equivalente japonês ao Parlamento britânico ou ao Senado americano). O senhor Nishioka deixou a política, parecia ter recuperado sua saúde, depois adoeceu e morreu.

O governador Nagano estava morto.

José Matsou, a sobrevivente que fora abrigada mais perto do hipocentro de Urakami, teve câncer e morreu.

Emiko Fukahori, uma das crianças de um pequeno grupo que alcançou os abrigos a tempo, viu sua família ser morta perto de um jardim de bambus, a seiscentos metros do hipocentro. Como certidões de óbito raramente eram emitidas para as pessoas cujos corpos nãcftinham sido encontrados, Emiko teve dificuldade em provar aos burocráticos provedores de ajuda ao menor que ela era uma órfã de guerra. Aos 16 anos, foi acometida de uma anemia proveniente da bomba e hospitalizada quase ao mesmo tempo que Sadako Sasaki. Emiko recuperou-se, continuou estudando e passou o restante de sua vida num retiro católico para meditação em Osaka.

A amiga de Emiko, Sumi-chan, estava morta.

O cadete Komatsu e seus amigos estavam mortos.

Inalar a poeira radiativa fresca e a chuva negra que secava nas roupas dos pacientes do Hospital Naval de Omura, marcou o início da longa luta do doutor Masao Shiotsuki contra o câncer. Ele perdeu a batalha em 1978.

Surniko Kirihara — uma garota que foi encasulada contra o choque e que vivia no mesmo bairro que Sadako Sasaki — poderia ter sobrevivido, não fosse pela chuva negra. Inicialmente, toda sua família escapou com vida. Durante os três anos que se seguiram, cada um deles sofreu sangramentos esporádicos sob a pele e fadiga debilitante. Sumiko contraiu uma doença crônica no fígado, sofreu anemia e febres assustadoramente altas. Ela e os outros sete membros da família Kirihara morreram jovens, um após o outro.

Sachiko Masaki, que sobrevivera com Hajime Iwanaga na fábrica de torpedos Mitsubishi, morreu de câncer. Sua mãe e sua irmã morreram pouco tempo depois.

Hajime Iwanaga estava morto.

Michie Hattori, uma garota de 15 anos que voltava de uma escola cujos arredores tinham se tornado "um cemitério sem lápides", descobriu seu bairro completamente encasulado contra o choque. Então, mudou-se de Nagasaki para o quartel-general de MacArthur, em Tóquio, onde trabalhou como tradutora. Casou-se com um americano, tornou-se Michie Hattori Bernstein, e mudou-se para o Mississipi — onde morreu de câncer.

Isao Kita estava morto.

Ichiro Miyato, o homem do radar que identificou a aproximação da missão de Charles Sweeney a Nagasaki, na virada do século ainda estava vivo.

Charles Sweeney foi promovido a general em 1956 e tornou-se comandante da 102ª Esquadra de Defesa Aérea (morreu em 2004, de causas naturais).

Marcus McDilda, o piloto americano capturado que, sob tortura. de causas naturais).

inventou um desenho factível da bomba atômica (baseado em alguns detalhes vagos e outros inventados na hora sobre duas massas esféricas) foi transferido para uma instalação perto do Palácio Imperial em Tóquio, onde seria submetido a interrogatórios mais complexos. Pouco tempo mais tarde, seus cinquenta companheiros prisioneiros de guerra no quartel-general da polícia secreta foram decapitados. McDilda permaneceu sob vigilância constante e, acreditava, sob perigo constante até 30 de agosto de 1945, quando o Quarto Regimento Marítimo liberou o campo de prisioneiros de Omori, no litoral de Tóquio. Ele voltou aos Estados Unidos e teve uma longa vida.


O físico Ryokichi Sagane foi considerado um "bem nucle sob o protocolo de MacArthur. Foi transferido de Tóquio para Berkeley e depois para o laboratório do acelerador linear perto dali, onde realizou programas que levaram a experimentos com bombardeios antipróton-próton.

O doutor Luis Alvarez se tornou um defensor da paz — o primeiro a favor da redução das armas nucleares e, posteriormente, da abolição de seu uso. Quando ele e seu filho Walter se depararam com uma camada de irídio que se estendia da Nova Zelândia ao restante do mundo, logo descobriram o conceito de inverno nuclear gravado nas pedras que pareciam remontar à época da extinção dos dinossauros. "Se não tomarmos cuidado", Alvarez disse, "as pedras provavelmente vão escrever nosso epitáfio depois de uma tempestade global de pó, de proporções parecidas, e seremos extintos do mesmo modo que os dinossauros o foram um dia".

Até o dia de sua morte, Alvarez guardou um profundo e fervoroso ressentimento pelos "conciliadores" dos Estados Unidos e do Japão que, com a ajuda de advogados, tentaram listar apenas uma dúzia de pessoas — e trinta vacas — em Hiroshima como, oficialmente, os únicos mortos por envenenamento da radiação. Sob o protocolo MacArthur, os sobreviventes da bomba atômica não podiam publicar histórias sobre suas experiências; então, pouco mais que lendas urbanas emergiam das ruínas. Mitos sobre mutantes criados pela radiação começaram a fazer parte da história oral, e foi assim que, no tempo de MacArthur, uma piada sobre os benefícios das picadas de aranhas radioativas, junto com o curioso caso da cura do doutor Paul Nagai, chegou até o jornalista Stanley Lieber, que, assim como James Clavell e como o dramaturgo William Saroyan, tinha sido recrutado durante a guerra como escriba militar. A mitologia atômica produziu em Stan Lieber um carinho fora do comum por voos de imaginação abstrata envolvendo transformações radioativas. Depois da guerra, ele se mudou para Nova York, anglicizou seu nome para Stan Lee e deixou sua marca na história cultural ao trazer à vida o Hulk, os X-Men e — com uma piscada de olho para o doutor Nagai — o Homem-Aranha.

O doutor Harold Urey teve um colapso nervoso depois de constatar que a bomba atômica, em vez de pôr fim à guerra, levou à produção em massa de armas nucleares durante a era da Guerra Fria. Com o objetivo de ajudá-lo em sua recuperação, Alvarez e outros amigos incentivaram-no a resolver problemas como decifrar temperaturas antigas usando isótopos de oxigênio e tentar descobrir de onde surgiu o DNA. Com o aluno Stanley Miller, ele ganhou o Prêmio Nobel por um experimento sobre evolução química. Morreu jovem, enquanto escrevia uma carta a um amigo sobre o segredo das origens da vida.

Albert Einstein, colega de Harold Urey, cuja carta de 1939 ao presidente Roosevelt desencadeou o programa americano de desenvolvimento da bomba atômica, tornou-se um leitor devotado de Gandhi, Nagai e todos os outros homens de paz. Quando lhe mostraram fotos de artefatos de Hiroshima e Nagasaki — entre eles um relógio de bolso chamuscado, com os ponteiros congelados às 8h15, e um relógio esmagado de Nagasaki, que parou às 11h02 —, o físico lembrou-se da observação do doutor Nagai de que a descoberta da espada celestial de dois gumes escondida no átomo tinha mudado tudo sobre o animal humano, menos sua maneira de pensar. A essa observação, Einstein adicionou que a subsequente corrida por armamentos nucleares era um desgosto, e que realmente, apesar de o yinyang da "espada e presente" ter mudado tudo menos a maneira de pensar dos humanos, "a única solução para este problema está no coração da humanidade. Se eu pudesse saber em minha juventude sobre a espada, eu teria me tornado um relojoeiro". Uma década depois da primeira bomba atômica, Einstein morreria de um ataque cardíaco.

Décadas depois das queimaduras da pequena Eiko terem afugentado sua mãe, a vergonha não declarada da solidão em que a criança morreu ainda causava tanta dor que os membros da família Nagai raramente conseguiam ir visitar seu túmulo. Talvez não houvesse exemplo mais forte das rachaduras no espírito humano criadas pela bomba e descritas pelo doutor Nagai; porque, já na primeira década do século XXI, ninguém mais lembrava onde Eiko estava enterrada.

A prima de Eiko, Tatsue, a última pessoa a visitar seu túmulo, estava morta.

O soldado Shigeru Shimoyama estava morto.

Nobuo Tetsutani estava morto.

Tomotsu Eguchi estava morto.

Os amigos do doutor Hachiya, Hinoi, Koyama e Kutsube estavam mortos.

O senhor Fujii, estudante de teologia que fugiu de Nagasaki antes do pika para ir à procura de sua namorada em Hiroshima, estava morto.

O doutor Minoru Fujii continuou a trabalhar nos subúrbios de Hiroshima e ficou em contato próximo com Minami até sua morte.

Os amigos de Minami, entre eles a enfermeira Reiko Owa ("Viverei para lembrar que ninguém ignore as vidas perdidas com a bomba atômica"), a enfermeira Fujita Misako, Hiroshi Takamoya ("Por favor, lembrem-se de Hiroshima. Pela paz"), Saito Kaneko e Kouno Kazuno ainda estavam vivos na virada do século.

Akiko Takakura, a sobrevivente do Banco Sumitomo, permaneceu em Hiroshima até 2008 com uma saúde fora do normal, assim como Nenkai Aoyama, cuja mãe desapareceu na Cúpula de Hiroshima sem deixar rastros.

Tsugio Ito — cujo irmão Hiroshi entrou em estado de decomposição ainda em vida —, após escapar de Hiroshima, cresceu numa casa onde ambos os pais sobreviveram com saúde perfeita, apesar de urna intensa queda de cabelos e de terem se aventurado numa zona radioativa "quente", perto da ponte Misasa. Tsugio acabou se casando, mantendo em segredo da família sua condição de hibakusha intocável. O filho de Tsugio, Kazushige Ito, apesar de ter crescido numa família contaminada pela "areia da morte", não apresentou quaisquer sinais de doença. Como Akiko Takakura, Kazushige Ito foi trabalhar numa das maiores instituições bancárias no Japão. Depois de ter sido promovido diversas vezes, foi transferido em 1998 para o escritório do Banco Fuji na Torre Sul do World Trade Center — onde, em 11 de setembro de 2001, quase 56 anos depois que Tsugio se sentou no leito de morte de seu irmão Hiroshi, seu filho Kazushige morreu no epicentro do segundo Ground Zero de sua família.

Hanako Ito, que desbravou os desertos do Ground Zero de Hiroshima em busca de um filho já condenado pelo ar que respirava, morreu em setembro de 2001, assim que aceitou a realidade de que seu neto Kazushige não estava apenas desaparecido no Ground Zero de Nova York; mas que tinha morrido.

A senhora Sumako Matsuyanagi permaneceu em Hiroshima, onde em cada 6 de agosto acendeu uma lanterna flutuante e a colocou no rio, em memória de seu filho perdido. Ela continuou a acender lanternas por trinta anos, até morrer.

Kuniyoshi Sato, o homem que estava sentado na frente de Kenshi Hirata no trem de Hiroshima, e cuja curiosidade sobre o que Kenshi trazia dentro da tigela de casamento foi satisfeita até demais, também estava morto.

A mãe de Toshihiko Matsuda — o "garoto das bolinhas de gude" de Hiroshima — estava morta.




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