O último Trem de Hiroshima



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LEGADO: MIL TSURUS

Num espaço de minutos, se não de segundos, as pessoas tinham mudado. Enquanto os céus escureciam sob a nuvem que se espalhava por Urakami, os incêndios eram a única fonte de luz perante os olhos do doutor Paul Nagai. Ele viu um colega dançando e cantando loucamente nos últimos andares do prédio do hospital. A metade do teto do dormitório já tinha sido engolida pelas chamas, e enquanto a parede de fogo ganhava força e avançava na direção do homem, seu canto se tornou uma risada.

O homem necessitava ser salvo, estava claro, mas o calor se intensificava tão rapidamente que, se alguém corresse dormitório adentro e tentasse achar as escadas, nunca encontraria a saída. Nem Paul Nagai, nem nenhuma outra pessoa que tenha avistado o dançarino, ousou avançar na direção do fogo. Em vez disso, eles retrocederam. Não conseguiam avançar nem mesmo quando o jovem colega — enlouquecido pelo medo, ou pela impossibilidade de atravessar o fogo ou por ambas as coisas — dançou na direção das chamas. Sua cantoria e sua risada deram lugar a um grito que durou quase quinze segundos, e Nagai retrocedeu vários passos atrás, aumentando a velocidade de sua retirada.

"Doutor... doutor, o que devo fazer?"

O doutor. Nagai retrocedeu até quase derrubar a mulher que lhe implorava que tratasse as feridas de seu filho pequeno. Quando Nagai se voltou para a jovem mãe, começou a correr em outra direção, sem dizer palavra.

"Ajude-me!", a mulher gritou.

Ela parecia não entender que seu filho já não tinha mais cabeça.

O doutor Nagai lembrou que aqueles que sobreviveram à bomba atômica em geral eram pessoas que ignoraram o choro desesperado dos outros ou que ficavam longe das chamas mesmo quando parentes e colegas gritavam de dentro delas: "Aqueles de nós que ficaram onde estavam, aqueles de nós que buscaram refúgio nos morros atrás do hospital enquanto os incêndios começaram a se espalhar e a fechar o cerco, conseguiram escapar com vida. Em outras palavras, aqueles que sobreviveram à bomba eram, não apenas sortudos, mas, num grau maior ou menor, egoístas, pessoas centradas em si mesmas — guiadas pelo instinto de sobrevivência e não pelos ideais da civilização. E nós que sobrevivemos sabemos disso".

Edifícios podiam ser restaurados, observou Nagai. Hipocentros podiam ser cobertos por jardins e monumentos, mas quem visitasse as cidades reconstruídas nunca entenderia ou estaria consciente de que aqueles lugares se transformaram numa ruína espiritual. Desde aquele primeiro verão após o ataque das bombas, o doutor Paul Nagai suspeitava que a pior ruína de todas seria transmitida como um vírus invisível por várias gerações. E ninguém que se lembrasse dela poderia se recuperar completamente.

"Nós que vimos e sobrevivemos sabemos o que a bomba atômica pode fazer.", Nagai disse aos historiadores. "Nós levamos no fundo de nossos corações, cada um de nós, feridas teimosas, que não fecham. Quando estamos sós, meditamos sobre elas; quando vemos nossos vizinhos, lembramos novamente das feridas deles e das nossas."

Ao NORTE, EM HIROSHIMA, o doutor Hachiya e o senhor Sasaki entendiam o lamento do doutor Nagai. Antes da bomba, eles eram vizinhos e melhores amigos. As histórias familiares dos dois homens contavam que o senhor Sasaki fizera várias viagens entre os morros e o Ground Zero de Hiroshima, levando comida para o doutor Hachiya e para seus pacientes no Hospital de Comunicações. Ainda assim, o filho do senhor Sasaki, Masahiro, notaria que depois dos 5 ou 6 anos de idade ele não se lembrava de tê-lo visto novamente, apesar de sua família morar bem perto da casa do doutor Hachiya.

Em seu diário, o doutor. Hachiya escreveu: "Quando a casa [de Shigeo Sasaki] caiu, eu tinha acabado de chegar à rua, fugindo [das ruínas] da minha própria casa. A mãe do senhor. Sasaki foi morta mas [o restante de] sua família escapou. Se eu não tivesse sido ferido, poderia ter salvo sua mãe porque a casa caiu aos meus pés. Para mim, [esta é] uma mágoa sem fim".

Para Hachiya, não parecia importar que, quando ele conseguiu sair das paredes destruídas de sua casa, suas feridas fossem quase fatais, e que tivesse emergido dos escombros tão completamente desorientado que se tornou um dos andarilhos-formiga da cidade. Pelo senso comum ou pela emoção, daquele momento em diante ele deveria se considerar sem culpa. Ninguém que conhecesse essa pequena fração da história de Hachiya o teria repreendido por não ter salvo seus vizinhos. Ainda assim, sempre que encontrava o senhor Sasaki ou sua mulher e os dois filhos na rua, ele se lembrava da avó da pequena Sadako. Sua única forma de escapar da lembrança era retirar-se silenciosamente e evitá-los.

Foi exatamente isso que o doutor Nagai de Urakami queria explicar quando ele afirmou que a bomba tinha criado "fendas" ou “fissuras" entre famílias e vizinhos. O senhor Sasaki nunca pronunciam uma palavra de reclamação ou recriminação contra seu amigo, muito menos pensou em acusá-lo. E, ainda assim, um golfo se abriu entre os dois vizinhos. E o pior de tudo, em primeiro lugar, foi nunca ter havido uma razão suficiente para a recriminação; em segundo, o fato de a ferida parecer estar além de uma cura. O doutor Hachiya levou silenciosamente uma culpa indevida para o túmulo. O médico nunca soube da verdade. Ele evitava o assunto completamente e nunca perguntou nada.

Naquele dia, nos minutos antes das 8h15 e do Momento Zero, Masahiro Sasaki tinha deixado sua mãe e sua irmãzinha na mesa do café da manhã e foi correndo para o quintal, onde começou a brincar. Foi lá que avistou dois dos três aviões. Décadas mais tarde, quando existia mais conhecimento sobre como os fatos aconteceram durante o bombardeio, e em que sequência, Masahiro começaria a perceber que a razão pela qual sobrevivera era que ele não tinha visto as caixas de instrumentos de Luis Alvarez caindo do Great Artiste e os paraquedas se abrindo. Ele viu os aviões somente até sua mãe chamá-lo para entrar. Outras pessoas que viram os paraquedas nesse mesmo raio, uma distância de 1,9 quilômetro, entre a ponte Misasa e a linha de trem principal, receberam aproximadamente 7 roentgen da onda de raios gama e do jato de nêutrons. Num raio de dois quilômetros, 7R não significava nem 2% de urna dose letal de radiação, mas nos jardins das casas e nas ruas da vizinhança dos Sasaki, o raio de calor simultaneamente cegou e queimou as pessoas.

Como se soube depois, a pequena Sadako salvou seu irmão por obra do acaso. A menina de 2 anos não tinha terminado as duas ou três últimas colheradas de arroz e mingau de peixe. A fim de evitar o desperdício, a senhora Sasaki chamou Masahiro para que terminasse o desjejum de sua irmã. A margem de tempo que separou o pika do chamado de sua mãe foi assustadoramente pequena. Ele acreditava ter escapado das queimaduras e da morte por menos de dez segundos: "Aconteceu com essa rapidez — somente o pika (o clarão), sem o don (a explosão)".

Masahiro não se lembrava de nenhum som, nem da explosão nem dos aviões que a precederam. Parecia impossível, mas o pika e as rachaduras nas grossas vigas de madeira aconteceram em silêncio absoluto.

Sadako lembrava-se apenas do clarão, e Masahiro lembrava-se de sair à rua e ver um mundo em que todas as outras casas tinham explodido ou estavam achatadas. As primeiras espirais de fogo já começavam a nascer. As espirais cresciam com uma rapidez incrível, e a família fugiu por três quadras a leste até a beira d'água, todos os quatro — Masahiro, de 5 anos, a senhora Sasaki com Sadako em seus braços, e a avó à frente, abrindo o caminho.


Quando os Sasaki finalmente chegaram ao rio, o doutor Hachiya tinha acabado de conseguir sair dos escombros de sua casa, a tempo de ver a casa dos Sasaki pendendo para um lado, rangendo em sua direção e caindo a seus pés, literalmente. Este foi o começo do golfo silencioso entre os amigos, de perguntas não feitas e de uma culpa incomunicável. O doutor Hachiya nunca poderia apagar de sua memória a imagem da mãe de Shigeo Sasaki presa dentro da casa caída. Nem poderia se livrar da ideia de que, por ser médico, podia ter ajudado. O que Hachiya nunca ficou sabendo foi que a mãe de seu amigo já não estava na vizinhança. No momento em que a casa despencou, ela estava viva e perfeitamente intocada a mais de duzentos metros dali, na beira do rio. Ela ainda ficou na margem por vários minutos depois de o médico cambalear e se juntar aos andarilhos-formiga.

Masahiro Sasaki lembrou que, mesmo de longe, os tornados em expansão e as ondas de fogo de vários andares o fizeram sentir o rosto queimado como que por exposição ao sol. Um grupo de homens tentava colocar um barco semidestruído na água, enchendo-o de mulheres e crianças tão rapidamente quanto conseguiam, enquanto empurravam e retiravam a água da embarcação.

"Mais alguém?", um dos homens gritou, sinalizando para que as pessoas subissem ao barco imediatamente. Aquelas perto das bordas da embarcação não precisavam de muito incentivo para pular e remar para longe dali, mas as manifestações da bomba as confundiam. Não mais de cinquenta metros dos barcos, uma tromba d'água chegou até a margem e atirou famílias inteiras ao chão. Rasgou suas roupas, prosseguiu terra adentro e, liberando dezenas de toneladas de água, se tornou um tornado e em seguida uma espiral de fogo.

A avó ajudou sua nora Fujiko a subir no barco e deu-lhe seus dois filhos. Olhou depois ao redor, e hesitou.

"Vá você", ela ordenou. "Eu tenho que voltar para casa."

"Você não pode!", Fujiko gritou.


O salva vidas do Sasaki

Cata de Sadako

Casa do doutor Hachiya
"Olhe ao seu redor!", a avó disse. Dos dois lados do rio, Fujiko Sasaki também conseguia ver rio acima e abaixo, uma tempestade de fogo tentando nascer.

"Toda a comida da cidade está prestes a ser queimada", a avó disse. "Temos latas de arroz em casa. Você vai precisar delas para sobreviver."

"Não, é muito perigoso voltar."

"Vão para o centro do rio e me esperem", a avó disse aos homens responsáveis pelo barco. "Remem de volta e me apanhem quando eu voltar com a comida."

"Não!", Fujiko gritou, mas os homens empurraram o barco pela lama e pela areia até chegarem à água, então pularam a bordo. Quase três minutos depois que a avó correu sob um pontilhão de trem e seguiu a oeste pela rua mais próxima na direção da casa, tornados de faíscas e chamas se aglomeraram e a perseguiram.

Masahiro se lembrava de ver monstruosas paredes de chamas rugindo e ganhando vida ao longo das duas margens. Na direção da casa, ele viu pessoas queimadas. Muitas correram para dentro d'água, ainda em chamas. Estranhamente, quando as chamas estavam extintas e parecia que as pessoas finalmente estavam a salvo, a maioria delas parou de se mexer.

A avó nunca regressou. Masahiro tinha certeza de que nunca mais a veria novamente. Por toda a cidade, as cisternas aéreas eram utilizadas especificamente pelas brigadas de incêndio do bairro. Dias depois, quando os sobreviventes voltaram às zonas de fronteira do Ground Zero, encontraram em cada uma das cisternas de concreto pelo menos dois ou três corpos cozidos. A avó era uma dessas pessoas. Em seus últimos segundos de vida, os homens levaram as mulheres e as crianças à suposta segurança das banheiras d'água e ficaram do lado de fora, enquanto as tempestades de fogo ameaçavam submergir todos dentro de um lago de chamas. Aqueles que foram postos nas cisternas — em geral crianças agarradas umas às outras ou mulheres abraçadas a crianças — tiveram talvez um precioso minuto a mais de vida. Nenhuma delas viveu mais do que o tempo que podia manter a cabeça sob a água. Quando emergiam, seus olhos queimavam nas órbitas, e mandavam fogo puro para dentro de seus pulmões.

O pequeno Masahiro tentou ajudar os homens a retirar a água do barco. Ao redor deles, o rio começou a se encher de corpos, mais de dez mil na região da ponte Misasa, ao sul, na direção da ponte "T" e da Cúpula. Em seguida, vários sobreviventes começaram a se agarrar às laterais do barco, enquanto pessoas semicarbonizadas continuavam a correr ou a cambalear para dentro do rio e morrer. até a superfície ficar coalhada de cadáveres. Até a chegada da chuva — grossa e negra — a água fluía vermelha do sangue dos mortos e moribundos.

O centro da chuva negra estava perto da ponte Misasa e do pontilhão do trem — onde a família Sasaki lutava pela sobrevivência dentro de um barco salva-vidas. O calor da tempestade de fogo deixou Masahiro e Sadako com sede, e eles lamberam avidamente a água da chuva que caía em seus lábios.

Quando as chuvas caíram sobre fazendas a trinta quilômetros dali, mais de uma hora tinha se passado, e os piores isótopos gerados pela bomba já tinham se decomposto. Mas, apesar da distância segura, as vacas que comiam a grama onde a chuva negra caíra tiveram diferentes graus de perda de pêlo, e sofreram uma grave, às vezes fatal, diarreia. O impacto era mais forte em bezerros jovens.

A dose de radiação recebida por Sadako e Masahiro e por todos os outros no barco salva-vidas era muito pior que essa, em graus de magnitude desconhecida.
PRIMEIRO, O DOUTOR NAGAI tinha caído em desespero com a incineração de sua universidade, de sua mulher, de seu hospital, de seus alunos e de toda a sua pesquisa.

"Contudo", ele escreveu em suas memórias, "o desespero não durou, porque encontrei um novo propósito e uma nova esperança numa doença que nunca tinha existido: a doença da bomba atômica. Eu tinha de investigar esse novo mistério. Quando decidi isso, meu coração sombrio e deprimido se encheu de esperança e coragem. Meu espírito de médico se elevou. Meu corpo recobrou a energia e eu me reergui."

O doutor Nagai e suas enfermeiras começaram a viajar até vinte quilômetros por dia além das fronteiras das zonas de fogo e explosão, levando para os feridos latas de pêssego em conserva e o estranho conselho de não retirar os vermes das feridas gangrenadas. A equipe de Nagai se tornou conhecida por uma teoria particular para o tratamento dos pacientes que tinham sofrido radiação: fortalecer seus sistemas imunológicos com as vitaminas do fígado (mesmo de fígados de rato) e com todas as fontes conhecidas de vitamina C e de vitamina B lhes proporcionaria uma chance maior de sobrevivência.

Pelos subúrbios, onde quer que as chuvas oleosas tivessem caído, Nagai se tornou conhecido como o "médico dos vermes, fígados e pêssegos".

A filhinha de Nagai, Kayano, lembrava que, quando seu pai chegou de Urakami pela primeira vez, ele trazia uma lata de pêssegos razoavelmente intacta, resgatada de um abrigo de suprimentos. Para Kayano, seu pai parecia muito sério e esgotado, apesar de ter sua força curiosamente recobrada. A cabeça de Nagai estava envolta em ataduras manchadas de negro e vermelho, cores que indicam os diferentes estágios de estancamento do sangue. Seu rosto estava pálido e imundo, mas mesmo assim seus olhos brilhavam.

Kayano e Makoto mostraram-lhe, animados, os lugares no vale onde o chão e as plantas estavam manchados de um resíduo escuro proveniente da chuva de gelatina e óleo que caíra no dia do pika-don.

"Não toquem nesses lugares onde a chuva negra caiu e secou!”, ele avisou as crianças. Paul Nagai já supunha que a chuva do pika-don era daninha.

"Sim, meu pai parecia muito sério", Kayano lembrou. "Ele tirou uma lata de pêssegos do bolso, nos deu. Ele não comia nada. Guardava tudo para nós."

Num abrigo do outro lado do Ground Zero, o senhor Yamaguchi, depois de encontrar a mulher e os filhos, na melhor das hipóteses estava apenas semiconsciente. Pedaços de galhos que o tinham atingido na explosão de Hiroshima permaneciam fincados em sua pele, e uma pedrinha tinha se alojado em seu braço como se fosse uma bala de revólver. No escritório da companhia Mitsubisn: em Nagasaki, ele passou por um "desenluvamento" parcial de um braço, e a superfície do músculo exposto continha uma amostra de cada um dos dejetos que voavam pela sala.

A carne de Yamaguchi estava bastante infectada quando o "médico bruxo" finalmente chegou e disse a Hisako que não removesse os vermes. Ele também deixou uma lata de pêssegos e falou sobre fontes de vitaminas que podiam ser encontradas num campo de morros cobertos de capim que havia perto dali. Os membros de sua equipe não deixaram nomes, tampouco aceitaram agradecimentos. Apesar de Hisako nunca ter podido confirmar isso, o senhor Yamaguchi sempre acreditou que o médico misterioso era seu velho companheiro de beisebol, o doutor Nagai, ou as pessoas que trabalhavam com ele. Não havia muitos outros candidatos.

A maioria dos médicos da região estava morta, e os remédios utilizados por Nagai eram provenientes de fontes naturais.

Quando o doutor Nagai e o carpinteiro do hospital desenterraram a última caixa de pêssegos em lata, começaram a circular rumores e teorias sobre a morte da própria terra. As pessoas começavam a acreditar que nenhuma criatura cresceria ou sobreviveria em Urakami nos 75 anos seguintes.

"Eu já tenho pouco tempo de vida", Nagai disse ao seu amigo Akizuki, declarando que, fora as outras doenças, só o câncer (apesar de este ter parado de incomodar e de seu cabelo crescer enquanto o das outras pessoas continuava a cair) já deveria ter-lhe encurtado a vida. "Eu decidi construir uma estação de pesquisa científica lá embaixo, nas ruínas, e passar a viver como um rato de laboratório", disse.

Nesse período, durante as tempestades de setembro, a contagem de leucócitos do pobre doutor Akizuki já caíra à metade do nível normal, e ele começava a ter hemorragias sob a pele. Mesmo no meio das melhoras pós-dilúvio, os ciclos viciosos persistiam. As pessoas que cuidavam de Akizuki com uma dieta de fígado e pêssegos em lata sucumbiram a uma febre alta, enquanto ele recobrava forças e começava a se sentir bem o suficiente para retomar as visitas. Nagai, por fim, sucumbiu de "exaustão extremas', segundo seu auto-diagnóstico. Akizuki o lembrou de que qualquer médico que fizesse seu próprio diagnóstico tinha tanto um tolo por paciente quanto um tolo por médico.

Akizuki suspeitava que a radiação persistente tinha causado o colapso de Nagai, e concluiu que todos os que viviam nos morros ou perto deles estavam condenados à morte. Apesar de novas folhas brotarem dos galhos queimados das árvores, Akizuki registrou em suas anotações que os verdes espaçados que se viam "anormalmente brilhantes" contra o pôr do sol e as nuvens, em vez de sinais da vida, lhe pareciam arautos da morte.

O doutor Nagai não enxergava isso da mesma maneira. O crescimento da grama e das folhas, cada vez mais intenso, que se seguira às inundações de setembro, à aparição de besouros-tigre e de borboletas pieris rapae davam uma pista a Nagai de que a teoria dos 75 anos estava errada, e que os morros voltariam à vida de novo e rapidamente. Ele começou a acreditar que, se a humanidade de alguma maneira conseguisse se destruir completamente, a natureza cobriria os erros da civilização em apenas uma ou duas décadas, espalhando florestas inteiras sobre as avenidas e ruínas.

Com as chapas de metal e os pedaços de madeira transportados do centro médico demolido, Nagai construiu uma cabana a seiscentos metros do hipocentro, perto dos alicerces de sua casa. A estrutura metálica constituída por uma só peça estava localizada a passos do lugar em que ele encontrara o rosário da mulher com as contas de vidro derretidas.

Descer o morro e ingressar na zona dos "círculos concêntricos da morte" descritos pelo doutor Akizuki, tornando-se o primeiro colonizador de Urakami, não era apenas uma exploração científica para Nagai, mas também um exercício de fé.

Certa vez, quando era um jovem estudante, ele alugou um quarto numa casa de família cujos membros tinham sido ativos no movimento clandestino cristão de Nagasaki do tempo do expurgo do xogum Tokugawa, que vai dos idos de 1614 até a execução do líder cristão Kichizo, em 1856. Nagai casou-se com Midori, a filha do proprietário da casa, que era descendente direta de Kichizo. Sua cabana pós-holocausto foi erguida sobre os escombros da casa da ancestral clandestinidade cristã de Urakami, e tinha vista para o lugar onde o xogum Tokugawa mandou crucificar os jesuítas.

A influência da senhora Nagai e a influência da fé presente sua família há várias gerações — a busca por "amar ao próximo como a si mesmo" — certa vez quase levara o médico à corte marcial, e naquele momento o levava para perto da radiação do hipocentro. Como tenente médico do exército na China ocupada por quase três anos, ele tinha oferecido tratamento às tropas de choque imperiais, depois aos civis chineses e finalmente a um soldado chinês ferido. "Quando faço um diagnóstico, não levo a nacionalidade em consideração", ele disse em sua defesa.

Não fosse pelo fato de um de seus comandantes ter ancestrais entre os clandestinos de Urakami, a história de Nagai teria terminado em morte e obscuridade na China. Em vez disso, ele foi mandado dr volta a Urakami, onde descobriu que o tempo de guerra tinha deixado muitos residentes mal alimentados, com a saúde em declínio e na completa pobreza. O que Nagai aprendeu na China voltou para o Japão com ele: "Quando fizermos um diagnóstico e oferecermos ajuda, não devemos levar em consideração se o paciente tem condições de pagar por isso", disse a sua equipe.

Então não foi uma surpresa nem para Akizuki nem para ninguém que conhecesse Nagai, que, logo no primeiro outono depois da bomba, ele tenha descido o morro, adentrado a zona proibida, se convertido em rato de laboratório e deixado seu cabelo crescer à Einstein.

Ele batizou sua cabana de Nyokodo — o eremitério "Como a ti mesmo".

Quando ele ergueu o teto e o selou contra a chuva, as formigas já tinham entrado em ação, escavando pequenas pedras e lascas de ossos carbonizadas. A cinquenta metros em todas as direções, as formigas prosperavam.

No campo entre Nyokodo e o hipocentro, e por urna distância igual e oposta ao ponto zero, todos tinham sido mortos, com exceção de duas crianças e uma mulher, protegidas nos túneis do prefeito Nishioka.

Em outubro de 1945, mesmo os "mineiros da cidade" tinham fugido dos círculos internos proibidos do Ground Zero. Nagai relatou que o crescimento das plantas continuava a se intensificar, e que às crescentes populações de insetos agora se somavam ratos e finalmente pássaros. Seus cadernos também registraram as queimaduras causadas pelo clarão nos troncos das árvores a uma distância de dez quilômetros, afirmando ainda que, a sete quilômetros do Ground Zero, todos os gramados e árvores "foram irradiados e queimados na hora da explosão, com uma variedade de cores de vermelho a marrom". Mesmo os lados protegidos pela sombra de morros distantes não foram poupados. No pequeno vale onde Kayano e Makoto agora viviam, todas as folhas que não foram queimadas mas que foram manchadas pela chuva negra tinham secado e morrido.

O doutor Nagai examinou dois fazendeiros que, a quase dezessete quilômetros do hipocentro, tinham cortado um pouco de madeira molhada pela chuva negra e a transportado nos ombros um dia depois da explosão. No dia seguinte, seus braços e ombros apresentavam uma irritação vermelha. Das picadas de mosquito fluía pus e suas feridas demoravam a fechar. Dois meses depois do contato com a radiação, sua contagem de leucócitos ainda era anormal, mas sua saúde em geral parecia estar melhorando lentamente.

Estava claro para Nagai que o efeito da radiação no corpo humano era mais violento no início, diminuindo depois. Quando o outono deu lugar ao inverno, ele escreveu: "Eu durmo numa cabana pequena com estalactites de gelo no teto, a neve entrando pelas frestas das paredes. Tenho apenas um cobertor fino para me proteger. e, mesmo assim, não contraí pneumonia, nem mesmo uma gripe. Mesmo se eu tiver um ferimento ou um arranhão (como quando sou mordido por uma aranha), não tenho medo de infecção ou de pus nas feridas".

Em pouco tempo, as lesões no rosto de Nagai e os dolorosos efeitos de inchaço abdominal causados pelo câncer pareciam te' entrado em remissão completa. Os cientistas japoneses e americanos, "pesquisadores do bombardeio", que o visitaram uma manhã. foram unânimes em relatar a seus supervisores que os efeitos radiológicos tinham se dissipado, e que pelo menos em um dos casos poderiam até mesmo ter ajudado na saúde de um sobrevivente. Enquanto cresciam as piadas sobre os benefícios medicinais das mordidas de aranhas radioativas, a comissão MacArthur decidiu ignorar a conclusão amplamente divulgada por Nagai de que, se o lugar atingido pela bomba fosse Tucson, no Arizona, em vez do vale do rio Urakami, a poeira radioativa teria subsistido por uma década ou mais em cada brisa, em vez de ser lavada dos morros e levada para o mar por um tufão.




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