O último Trem de Hiroshima



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A casa em estilo ocidental era considerada uma traição pela maioria dos vizinhos, e, em época de guerra, se tocar música já era malvisto, pior ainda seria tocar os instrumentos e as canções dos bárbaros estadunidenses. Mas, mesmo durante os tempos difíceis, a senhora Nagahashi insistia em ensinar as crianças do bairro a tocar piano. Segundo seu único aluno sobrevivente, Seki Chieko — que estava viajando com sua família no dia do pika-don — a vontade de ensinar música da senhora Nagahashi aumentou notavelmente no dia em que seu filho, que tinha uma carreira musical promissora, foi morto na batalha por Tinian e por outras ilhas mais distantes.

Como a escada e os dois pianos carbonizados, tudo no térreo da mansão permanecia exatamente onde estivera às 8h15 de 6 de agosto. Atrás de uma pilha de pequenos tonéis pretos, que na verdade eram pilhas de discos derretidos, os soldados encontraram a senhora Nagahashi em frente a um altar budista. Ela parecia um louva-a-deus — carbonizado — e ninguém que viu a pose em que estava a senhora Nagahashi naquele momento poderia ignorar que ela estava rezando no momento do pika.

Quando voltou ao Hospital de Comunicações, o doutor Hachiya estava muito tenso para obedecer à ordem de Hinoi de ir direto para a cama. Ele circulou pelo hospital como se tivesse ido visitar pacientes, vestindo uma camisa imunda e rasgada, os novos buracos cobertos de suor e sujeira. Ele parecia e de fato se sentia como uma lesma barbuda, e percebeu que começava a gostar disso e do cheiro asqueroso de sua própria sujeira.

Mesmo quando a noite chegou e a exaustão finalmente o mandou para cima, Hachiya só conseguia pensar nos brinquedos quebrados e nas piras funerárias do exército, queimando sob as estrelas frias enquanto a senhora Nagahashi rezava. Andou pelo andar superior do hospital em ruínas, parando por vezes para se deitar por alguns minutos, e depois voltando caminhar. Enquanto o amanhecer se aproximava, um vento forte começou a soprar, obscurecendo a vista que Hachiya tinha da cidade com uma lente translúcida de poeira e sujeira. Os ventos derrubavam gesso e lascas de concreto das poucas paredes remanescentes do hospital.

“Disso eu gostava", Hachiya relataria mais tarde. "E eu parecia perder todo o controle. Combinava com o meu humor."

Um novo dia tinha começado.


MICHIE HATTORI, A GAROTA de Urakami que voltou para casa e descobriu sua vizinhança milagrosamente protegida por uma serra alta, fora recrutada — junto com seus pais e vizinhos de quadra - para força de resgate e recuperação. Por volta da manhã de 12 de agosto, o esforço fora reduzido à coleta e transporte de corpos até um necrotério improvisado no lado escuro da montanha, o qual se tornou um cercado temporário até o momento em que Michie e as outras crianças puderam juntar madeira suficiente para uma pira funerária.

Quase todos os sobreviventes vindos do lado negro morriam em um ou dois dias. Com a exceção de Michie, todos os outros que se afastaram do centro da explosão pareciam ter sido expostos a algo que os queimava por dentro, e poucos deles tinham expectativa de viver muito mais tempo.

Uma mulher que até então sobrevivera, apesar da estampa de seu quimono tatuada na pele, morreu subitamente depois de vomitar o que parecia ser parte de seu estômago. Um oficial do exército ordenou a Michie que carregasse os corpos até a pilha de madeira. "Maruta", ele chamou os cadáveres — referindo-se tanto à madeira quanto às pessoas mortas como "pedaços de pau". Enquanto a pele da mulher maruta se rompia nas mãos de garota, e enquanto as chamas eram finalmente acesas e grandes nuvens de moscas voavam ao redor, Michie mal podia acreditar que apenas uma semana antes ela tinha ficado horrorizada com um corte feito num dedo por uma folha de papel.

Menos de uma hora de caminhada morro acima, e ao noroeste da cidade de Michie, o mundo parecia ainda mais miserável para o doutor Akizuki. Ele olhou para o sol com reprovação, por ter se levantado normalmente, como se nada tivesse acontecido na Terra. A serenidade com que levantara parecia apenas aumentar a tristeza do médico.

A ajuda prometida pelo governador, uma "patrulha medica” do exército, tinha chegado com três dias de atraso, e conseguiu pouco mais que vacinar os doutores Akizuki e Nagai contra a falta de esperança. Quando começaram a pensar que a situação tinha chegado ao fundo do poço e que nada poderia ficar muito pios algo de novo sempre parecia mostrar que eles não sabiam o quão profundo um poço pode ser.

A tia de Paul Nagai, Matsu, tinha advertido a todos sobre os trogloditas que pareciam estar enlouquecendo morros abaixo. Agora Akizuki e Nagai acreditavam estar enlouquecendo também.

Os caminhões da patrulha médica trouxeram mais trinta vitimas, com sangramento de gengiva, nariz e intestinos. Algumas choravam sangue. O chefe da patrulha disse: "Eles estão perdendo sangue assim porque devem ter inalado algum gás venenoso. Também estão muito doentes. Descubram o que está causando isso".

"Todo o nosso equipamento foi destruído", Akizuki explicou. "Não temos nenhum microscópio que ainda funcione. Como vamos descobrir o que está causando esses sintomas, ou ainda, como vamos curá-los?"

"Vocês são médicos, não são? É o seu trabalho", o chefe disse, e então ele e sua equipe se serviram de mais da metade da água fervida e potável do posto médico, bem como de grande parte de estoque de comida.

Não fosse pelo fato de que o doutor Yoshioka e os outros pacientes precisavam dele, e não fosse eles saberem que caso contrariasse a equipe do governador teriam uma morte instantânea, Akizuki acreditava ainda ter força suficiente — nutrida pela raiva — para decapitar o líder do grupo do exército com o simples golpe de uma pá.

Quando a patrulha foi embora, Akizuki concordou com o doutor Nagai em tirar cinco minutos para fervilhar de ódio e medo, depois sacudir a poeira e realizar sua tarefa com os poucos suprimentos que restavam antes de acabarem força e suprimentos, e não pudessem fazer mais nada.

Com pouco mais de alguns gramas de gaze e um frasco de iodo, ele foi fazer suas visitas. As enfermeiras e os alunos de medicina ficavam cada vez mais fracos, e, um por um, se transformaram em pacientes. O oposto também aconteceu: alguns dos pacientes se tornaram enfermeiros e residentes.

Por sorte, a maioria dos pacientes com casos leves de tuberculose estava se sentindo bem o suficiente para ajudar Akizuki e Nagai em suas rotinas excruciantes. Assim como acontecera uma vez com o doutor Nagai, que já estivera enfermo e, ainda que a passos pequenos, sua saúde parecia estar melhorando. Akizuki notara que os pacientes tuberculosos que foram fumantes inveterados também pareciam ser mais resilientes à Doença X. Ele atribuiu isso a um efeito de seleção natural darwiniano: se seus corpos não fossem fortes desde sempre, provavelmente não teriam sobrevivido à tuberculose tempo suficiente para ver o pika-don.

De tarde, usando uma panela de arroz como aparelho de esterilização, fios de seda para fazer as suturas, e com dois pacientes tuberculosos como assistentes, o doutor Akizuki converteu uma biblioteca queimada numa sala de operações e fez o que pôde para consertar o rosto da doutora Yoshioka. Ele encontrou novos pedaços de vidro saindo pela superfície da pele, entre uma bochecha e a ponte do nariz, e outro pedaço perto de um de seus olhos.

A onda de choque tinha abatido as janelas quase horizontalmente, e dois ou três estilhaços perfuraram as bochechas da doutora Yoshioka. Outro pedaço tinha atravessado sua blusa e penetrado seu peito, alojando-se numa das costelas. O médico removeu-o com uma faca sem fio e pinças, enquanto um paciente segurava uma vela e um espelho quebrado para oferecer-lhe algo parecido a um sistema de iluminação de perto.

No total, o doutor Akizuki conseguiu extrair sete pedaços de vidro em uma hora, e após isso a doutora Yoshioka já não podia mais aguentar a dor e o cansaço. Ele costurou um corte profundo num peito e outro corte entre um dos olhos e o nariz. O rasgo no lábio superior de Yoshioka era tão aberto que os assistentes nem o conseguiam olhar. Um enorme estilhaço de vidro continuava alojado em seu maxilar inferior. O vidro era particularmente cruel porque, mesmo se o aparelho de raios X do hospital estivesse funcionando, os estilhaços não apareceriam nas radiografias, como os pedaços de metal, e dificilmente seriam detectados.

Na manhã seguinte bem cedo, aqueles pacientes que se sentiam capazes — entre eles os que vinham se recuperando da tuberculose — começaram a se aventurar na direção das ruínas mais profundas e achatadas; primeiro, em busca de seus entes queridos, depois em busca de suprimentos ou objetos úteis que pudessem ter resistido.

Àquela altura, quase ninguém pensava em realizar resgates na parte mais baixa de Urakami. As forças estavam concentradas na operação de recuperação.

Aqueles que conseguiam encontrar algo que parecesse ser de suas casas explodidas e carbonizadas revolviam qualquer fragmento de telhado — mas quando relatavam o que tinham encontrado ao doutor Akizuki, lhe parecia que só com muita imaginação poderiam acreditar ter descoberto suas casas. Todas as telhas na área da montanha de fogo tinham sido reduzidas a fragmentos menores que um ovo de galinha. A maioria tinha sido moída e perfurada pelo fogo. Segundo Akizuki, quando os fragmentos de teto foram afastados, a equipe de busca desceu a uma camada fina de gesso e cinzas, às vezes cheia de pedaços de ossos. Embora a maior parte da radiação já tivesse se dissipado naquele momento, a quantidade fracionária que permanecia nos objetos ainda era uma porção substancial, especialmente para as pessoas que já tinham recebido doses de variados graus, principalmente na área ao redor do hipocentro.

Aqueles pacientes tuberculosos que tinham se sentido bem no terceiro dia e que não tinham parentes perdidos perto do hipocentro, continuaram a recobrar sua saúde. Os que desceram ao sopé dos morros em busca dos entes queridos voltaram com poeira radioativa na pele e nos pulmões, o que passou a trabalhar em conjunto com os usuais golpes ao sistema imunológico que acompanhavam a inalação da poeira alcalina, do concreto e do gesso.

Em seus relatórios médicos, o doutor Akizuki chamaria a poeira de Urakami de "areia da morte". Naquela noite, contudo, nem Akizuki nem ninguém mais que estivesse perto ou dentro do acampamento do Hospital São Francisco tinha alguma ideia do perigo que não podia ser visto nem sentido. Só muito mais tarde se saberia que as brisas que subiam o morro, além do alívio ao calor e à umidade, traziam partículas radioativas. Só muito mais tarde os doutores Akizuki e Nagai entenderiam que aqueles que voltavam e distribuíam arroz cozido aos pacientes na noite de 13 de agosto já eram homens muito doentes. Enquanto serviam o jantar, suas roupas deixavam cair a "areia da morte" como os gatos deixam cair seus pelos. As partículas radioativas se misturavam imparcialmente à abóbora em cubos e as maçãs que as equipes de busca colocavam na sopa de pasta de soja de todos os pacientes.
EM TINIAN, CHARLES SWEENEY tinha visto as notícias promissoras de 10 de agosto ir e vir sem uma palavra sobre a rendição do Japão. A moratória aos bombardeios, com nada além dos escritos de Clavell e Michener, continuou pelas noites de 11 e 12 de agosto e pela tarde em que uma equipe de buscas se formou no pavilhão de tuberculose do doutor Akizuki.

Na noite de 13 de agosto, o presidente Truman autorizou o general George Marshall a retomar os bombardeios incendiários contra o Japão. Durante as horas que antecederam o alvorecer do dia 14 de agosto, essencialmente Marshall ordenou a decolagem de cada uma das mais de 2.500 aeronaves a alcance do Japão. Entre as poucas exceções estavam o Enola Gay e o Bock's Car (o último porque três de seus motores estavam "em sua maioria fritos" e necessitavam vistorias completas). O Great Artiste também foi retido, porque todos os aparelhos de monitoramento científico ainda estavam a bordo e poderiam ser necessários se outras missões atômicas fossem realizadas em setembro e outubro. Sweeney voltou a bordo do Straight Flush o avião fotográfico que acompanhava o que era essencialmente, exceto pelo núcleo, o terceiro ataque aéreo atômico sobre o Japão.

Como o Enola Gay e o Bock's Car, o Straight Flush tinha sido modificado para levar uma única bomba na forma de abóbora, carregada de múltiplas toneladas de explosivos Torpex (cuja sequência de detonação fora levemente reconfigurada, projetada para produzir um anel de explosão capaz de atravessar qualquer coisa localizada no nível do chão). Nesse voo, as equipes estavam aperfeiçoando as habilidades adquiridas nos dois voos de bombas atômicas anteriores. A abóbora do Straight Flush era o explosivo não nuclear mais poderoso jamais lançado de um avião, mas, como Sweeney se lembraria, embora possuísse exatamente o mesmo invólucro e maquinário que ele lançara sobre Urakami, "dessa vez não continha nem os segredos nem os horrores do universo".

O alvo do Straight Flush era a fábrica de motores Toyota em Koromo. Não houve artilharia antiaérea nem caças, e embora Straight Flush estivesse entre os últimos dos dois mil B-29 a lançar sua carga, dessa vez não havia a fumaça dos ataques anteriores obscurecendo o alvo. Posteriormente, Sweeney relatou que a "abóbora" de seu bombardeio detonou a sessenta metros do alvo, e o piloto concluiu que, assim como a Mitsubishi em Urakami, o nome Toyota tinha sido apagado da História para sempre.


EM HIROSHIMA, AS VISITAS MATINAIS do doutor Hachiya foram interrompidas

por alarmes antiaéreos vindos das barcaças do rio. O mesmo pensamento estava na cabeça de todos: O pika pode acontecer de novo depois de tudo pelo que passamos? O clarão de 6 de agosto pegou a todos de surpresa.

Hachiya percebeu que tremia de medo, e quando o zumbido dos motores dos B-29 desceu sobre o terreno baldio, ele procurou a proteção de um largo pilar de concreto reforçado por aço. Um grande esquadrão estava se aproximando da baía de Hiroshima pelo sul. O médico esperava outro grande clarão sobre sua cabeça a qualquer instante. Entretanto, vendo-se novamente perante a morte, ele deteve seus sentimentos de pânico e decidiu que, se a morte voltasse a atacar seu hospital, seus últimos momentos seriam com os pacientes, e não encolhido atrás de um pilar.

Os aviões — pelo menos dois esquadrões inteiros, um depois do outro — passaram pelo céu fazendo barulho, mas sem lançar nada. Então, de repente, tremores começaram a ser sentidos no chão do hospital, e segundos mais tarde Hachiya poderia ouvir as características detonações distantes de bombas arrasa-quarteirão forrando o chão no noroeste. Ele concluiu que os aviões deveriam estar visando a base aérea da marinha em Iwakuni.

Primeiro, Hachiya sentiu-se muito sortudo por ter sido poupado pela segunda vez, mas ocorreu-lhe que a sorte não tinha nada que ver com isso. Simplesmente não restava nada mais em Hiroshima que valesse a pena bombardear.

Num barraco atrás do hospital, a pequena irmã de Gen Pés Descalços tinha parado de chorar, e o mais estranho de tudo, tinha começado a recusar o leite materno. Gen se lembraria: A pequena Tomoko parecia estar dormindo calmamente todo o tempo. Um bebê estranhamente muito bem comportado.

Nem mesmo o clamor dos esquadrões no céu e a sacudida do chão fez Tomoko chorar de medo. Quando viu os B-29, Gen não pensou em outro pika. Ergueu um punho fechado na direção deles, pensando que tinham vindo para admirar o estrago. Havia rumores lá fora sobre derrota e urna rendição inevitável.

"Me diga, por que essa conversa sobre rendição agora?", a mãe de Gen perguntou. "Por que não antes?"

A menos de um quilômetro dali, uma poeta de 32 anos chamado Kurihara se fazia essas mesmas perguntas, enquanto, dos alicerces de sua casa, carregava uma recordação radioativa de fragmentos de ossos humanos colados em vidro derretido, como se fossem caramelos. Um dia, ele pensou, esse souvenir deverá ser exibido num museu onde toda a humanidade possa testemunhar seu destino, e jurar evitá-lo.

Os ossos no vidro tinham sido fossilizados pelo clarão tão rapidamente que alguns ainda eram brancos. Naquele momento, Kurihara estava adicionando assustadoras quantidades de seu próprio sangue ao memento, provenientes de um sangramento no nariz que parecia piorar a cada hora.

De alguma forma, o sangue parecia apropriado. Ele pensava na bandeira vermelha e branca do imperador, que até aquele momento tinha representado o Sol Nascente. Mas o vermelho do Sol Nascente se tornara o sangue das pessoas, e seu fundo branco se tornara seus ossos.

"As pessoas derramaram seu sangue e expuseram seus ossos”,. Kurihara disse, erguendo um punho cerrado ao céu, "por causa da nossa bandeira de sangue e ossos".

Em Tóquio, o ministro do Exterior Togo recebeu relatórios de que a frota dos Estados Unidos estava vindo logo atrás dos bombardeiros. Os aviões de observação do império, evidentemente, tinham sido autorizados a observar a frota e voltar sem ser atingidos. O que eles relataram não era meramente uma frota, mas uma armada que parecia pôr a invasão da Normandia — que quebrara todos os recordes — numa categoria inferior. Navios de abastecimento de todos os tamanhos e configurações, contratorpedeiros, cruzeiros de indescritíveis variedades e vários porta-aviões. Os navios estavam agrupados em formações de cinco por vinte.

O ministro da Guerra Anami se recusava a acreditar que a armada significava derrota e, junto com o marechal de campo Hata, o general Shizuichi Tanaka, e um major chamado Hatanaka, ele insistia em que um bombardeio com força total ao comboio "poderia fazer os americanos repensarem suas ações". Togo foi surpreendido ao ver seus colegas falando como se não tivessem participado da conferência imperial de 9 de agosto, como se, mesmo se tivessem suas cabeças decepadas, eles pudessem de alguma maneira morder os dedos dos pés de seus inimigos, sentir-se satisfeitos por isso, e continuar a lutar.

Hatanaka ordenou a um general chamado Mori que se juuntasse a ele no objetivo de fechar o palácio e evitar a radiodifusão da rendição do imperador Hirohito. Quando Mori se recusou, ele e seu ajudante foram mortos a tiros e cortados em pedacinhos. O major Hatanaka em seguida conspirou para tomar o controle dos estúdios de rádio da nação, esperando substituir com um pronunciamento próprio a radiodifusão previamente gravada pelo imperador. Hatanaka ainda considerava o imperador uma figura sagrada que não poderia ser ferida, mas todos os outros eram alvos possíveis.

Enquanto isso, o general Tanaka e sua equipe recebiam e compilavam relatórios de ataques aéreos que pareciam ocorrer simultaneamente em todos os lugares. À hora do almoço, para sua satisfação, o general tinha confirmado que a armada que se aproximava — insistentemente considerada por Anami como "apenas uma frota fantasma de rumores" — de fato existia e que estava se dirigindo diretamente a Tóquio. Tanaka retirou seu apoio ao golpe militar, e Hatanaka, junto com outros líderes rebeldes, se suicidou no gramado do palácio.

Durante as longas horas da rebelião malsucedida, todos os membros da equipe do imperador foram convocados para uma execução sumária, e o próprio Hirohito estava, com efeito, em prisão domiciliar.

Sem conseguir encontrar e destruir as duas declarações de rendição gravadas pelo imperador, e com os leais generais de Hirohito rapidamente recobrando o controle das estações de rádio de Tóquio, Anami escreveu: "Peço perdão ao imperador por meu crime maior", e saiu para escrever seus últimos poemas, embebedar-se, e abrir seu estômago com uma espada cerimonial. Muitos anos se passaram antes que o povo do Japão soubesse o que realmente aconteceu naquela manhã de 14 de agosto que se dissolveu em um incomparável espasmo de negações, assassinatos e suicídios. Apesar de ninguém saber da verdade, os rumores nasceram e voaram para todos os cantos, sobre todas as coisas.

KAZUSHIGUE AINDA NÃO tinha nascido no dia em que Hiroshima morreu. Seu pai contaria que o tio de Kazushige — Hiroshi — então com 12 anos, tinha escapado sem ferimentos de uma escola na fronteira do Ground Zero, onde quase todos os outros alunos tinham sido queimados e esmagados. Seguindo um par de trilhos de trem na direção de casa, nos morros do leste, ele foi ajudado por um estranho que ofereceu sua própria ração de arroz, e cujas ações combinavam com a descrição feita pelo prefeito Nishioka de um encontro com um estudante, um "único sobrevivente", perto de uma estação de trem. Quando o garoto finalmente voltou para casa, o restante da família Ito já o contava entre os mortos, mas ele tinha sido tão completamente encasulado contra o choque que não tinha sequer um arranhão no corpo. Mesmo suas roupas pareciam perfeitamente intactas.

Em seu bairro, ele ficou conhecido como "o garoto do milagre”.

O pai de Kazushige Ito, Tsugio, ele mesmo apenas um garoto naquela época, lembrou que durante os primeiros dias depois da explosão seu irmão mais velho parecia bem o suficiente para levá-lo para pescar e para participar de um vitorioso jogo de beisebol contra o time de um bairro rival. Em realidade — e muito frequentemente —, os sobreviventes da bomba atômica não eram bem o que aparentavam ser.

A queimadura pelo lado de dentro começou aproximadamente em 14 de agosto, no início da Semana Budista dos Mortos. Num momento, os dois irmãos Ita estavam brincando; no outro, o garoto mais velho caiu de joelhos, levando a mão ao estômago, como se tivesse sido esfaqueado. De noite, a mãe da criança não conseguia mais se aproximar dele, e começou a evitar o próprio filho. Todos o evitavam, porque em cada expiração ele exalava um fedor que lembrava à família um cadáver que já estava morto há vários dias. Os vermes responsáveis pela decomposição estavam comendo os pulmões e a garganta do garoto Ito, sua língua — inchada, roxa e quente — fedia a carne podre, enquanto ele ainda se movia e tentava falar.

Finalmente, o irmão de Tsugio, Hiroshi, soltou um uivo de arrepiar até os ossos. Espuma e sangue manchavam seus lábios e, do mesmo modo súbito corno adoeceu por causa da "areia da morte” e dos raios, o garoto milagroso se deitou e morreu.

Enquanto isso, nas ruínas enegrecidas do Hospital de Comunicações de Hiroshima, o doutor Hachiya escutava histórias sobre pessoas que estavam do lado de fora de uma casa no momento do pika, e que foram protegidas do raio de calor por uma sombra. E, ainda assim, apesar de escapar sem quaisquer queimaduras, elas adoeceram e morreram, enquanto as pessoas que estavam dentro da casa, apesar de gravemente feridas pelas vigas que caíram, ainda estavam vivas. Se os rumores sobre uma bomba de gás venenoso fossem verdadeiros, as pessoas que estavam do lado de dentro da casa deveriam ter sido infectadas ou envenenadas tão facilmente quanto as que estavam do lado de fora, Hachiya concluiu. O que matou as pessoas do lado de fora parecia ser proveniente de um veneno de curta duração, que, em grande parte, tinha se evaporado enquanto as pessoas se esforçavam para subir à superfície. Quanto mais pensava sobre isso, mais confuso Hachiya ficava.

Uma visita de um capitão da marinha a Hiroshima trouxe um fim à confusão. "O pika parece ser a fonte de uma terrível doença", explicou o capitão Fujihara. "A marinha já começou a estudar mais de trinta casos, e embora eu não seja médico, posso lhe dizer sem dúvida que, em cada caso, o número de leucócitos está caindo drasticamente."

"Você tem que me arranjar um microscópio", Hachiya disse.

"Sinto muito", o capitão respondeu. "Só ternos um no barco, e estamos trabalhando com uma lente rachada." Sem graça, ele abriu uma maleta e, em vez de equipamento médico, presenteou o doutor com uma garrafa de uísque e vários maços de cigarro. "Não é muito", ele disse, "mas estas coisas podem ser mais difíceis de conseguir que microscópios".

"Eu preferiria o microscópio", Hachiya pensou em dizer, mas agradeceu.

Depois que o capitão partiu, Hachiya acendeu um cigarro e começou a vasculhar os restos quebrados da meia dúzia de microscópios da Bausch and Lomb que pertenciam ao hospital, na esperança de conseguir improvisar pelo menos um equipamento minimamente útil. O esforço estava condenado desde o início. Nem uma única lente de imersão a óleo sobrevivera, e mais nada além de um cilindro achatado e vidro convertido outra vez em areia. Ele calculava que a explosão deveria estar se movendo a uma velocidade de duzentos metros por segundo — ou duas quadras de uma cidade — quando os atingiu.

O doutor Hachiya lembrava que um dos gerentes do Escritório de Comunicação do distrito tinha um microscópio guardado em seu cofre. O escritório que continha o cofre era um bunker coberto por concreto reforçado. Mas isso não fez diferença. Quando o médico encontrou o bunker, este estava arrasado como uma cesta quebrada. O vento da bomba tinha revirado totalmente o cofre e arrancado a porta de aço de suas dobradiças. O microscópio estava tão completamente destruído que o doutor começou a perceber, como ainda não o fizera, o quanto a sua própria sobrevivência naquele primeiro dia do pika-don era improvável.

O segundo visitante da tarde para o doutor Hachiya o faria lembrar-se de novo da improbabilidade de estar vivo, e embora trouxesse presentes, enchia o médico de remorso por ter perdido o sentido da própria vida indo juntar-se aos caminhantes-formiga naquele dia.

O senhor Sasaki morava na casa em frente da de Hachiya, perto da ponte Misasa. Ele foi até o hospital levando ayu, um peixe de água doce, para os pacientes e à equipe.

"Como está sua família?", Hachiya perguntou.

O senhor Sasaki explicou que tinha levado vários dias para encontrá-los, porque, quando o pika explodiu, estava realizando uma tarefa num dos escritórios do prefeito Nishioka no subúrbio. Por estar dentro do prédio, e muito além do raio da explosão e do raio de calor, ele escapou sem ferimentos. Mesmo a uma distância segura rio acima e na região montanhosa, ele podia ver que sua vizinhança estava "sob a base do cogumelo". Sasaki ia com sua bicicleta pelas ruas cobertas de escombros quando encontrou sua casa e a do doutor Hachiya reduzidas a pilhas de cinzas pela altura dos joelhos. Felizmente, a família de Shigeo Sasaki tinha viajado rio acima com outros sobreviventes do bairro. Ele os encontrou no mesmo memento em que se sentiram os primeiros tremores de Nagasaki em Hiroshima. Estavam todos cobertos de lama e pareciam ter fome.


"A pequena Sadako fica falando sobre o clarão", o senhor Sasaki disse. A criança tinha apenas 2 anos, mas ainda não esquecia — e jamais esqueceria — o falso amanhecer e o vento forte. O irmão de Sadako, Masahiro, de 5 anos, e a senhora Sasaki estavam machucados e muito abalados, mas a salvo. Tinham sobrevivido ao piquete de espirais de fogo que avançava até o rio e se tornava uma tromba d’água. Eles tinham até sobrevivido à chuva de óleo sem sofrer nenhum dos sintomas que constituíam o diagnóstico do que o doutor Haciya estava começando a chamar de "doença da bomba atômica".

"Eles estavam dentro de casa durante o pika-don ou fora?", o doutor Hachiya perguntou.

"Dentro", o senhor Sasaki respondeu, e Hachiya suspirou aliviado. "Assim é que se machucaram", Sasaki continuou. "Eles foram atirados pela casa e, quando escaparam para a rua, viram que, apesar de a casa parecer intacta, pendia levemente para um lado. E então, enquanto as chamas e a confusão pioravam, eles se separaram de minha mãe e ela se perdeu."

"O quê?"


"Eles nunca mais a viram."

Apesar de todos os horrores que o doutor Hachiya tinha visto e experimentado durante a semana anterior, a morte da amável mãe do senhor Sasaki parecia um soco no estômago. A partir do que Hachiya podia saber, a avó da pequena Sadako fora queimada e morrera quando a tempestade de fogo ganhou força. Havia pouco que pudessem fazer para salvá-la, ou a outras pessoas presas no torvelinho. Mas Hachiya tinha estado lá mesmo quando os fogos começaram — e se lembrava, vagamente, de ter visto a casa de Sasaki pender para um lado antes de se espatifar no chão, como agora lhe havia sido descrito.

Desde o momento em que soube que a mãe de seu amigo tinha sido ferida e morta a apenas alguns passos dele, não importava mais Hachiya se ele tinha conseguido sair das ruínas de sua própria casa, sangrando e confuso, e ingressado num mundo súbita e violentamente estranho. Pensava que, em vez de ajudar o seu vizinho, ele também tinha se juntado à trilha de formigas mais próxima.

Não que o senhor Sasaki, que era tão amável quanto sua mãe, dissera alguma palavra de recriminação contra ele. Ao contrário disso, ele continuava a trazer a comida que pudesse guardar para o seu vizinho e para os que estavam sob seus cuidados. Ainda assim, a partir daquele momento, a primeira pontada de culpa por ser sobrevivente começou a destilar seu veneno no coração de Hachiya, e ele nunca voltaria a encontrar Sadako ou seu pai sem voltar à figura dele mesmo como o tipo de pessoa que se tornou um andarilho-formiga num tempo de necessidades. Sua única esperança de evitar a dor era evitá-los. Era o início do que o doutor Nagai, de Urakami, naquele momento já começava a reconhecer como uma das rachaduras invisíveis provocada pela bomba atômica, uma rachadura entre vizinhos e amigos, embora nunca se falasse sobre isso.

"Tenho mais uma coisa para você", o senhor Sasaki disse "Notícias do gabinete do prefeito. Não se trata de um rumor. São informações que vêm diretamente do ministro Togo, das Relações Exteriores. Um pronunciamento importante no rádio está anunciando para amanhã."

"O que pode ser?"

Nenhum dos homens queria especular, mas ambos supunham que o ministro da Guerra, Anami, estava prestes a anunciar o avanço das frotas inimigas em direção à costa do país. Ele provavelmente ordenaria cada homem, mulher e criança a lutar contra os americanos até a extinção do próprio Japão — usando cutelos. facas e palitos de bambu afiados.

Por uns instantes, Hachiya poderia deixar de lado os pensamentos sobre os andarilhos-formiga em favor do agradecimento por não ter eletricidade. "Não temos rádio", ele disse a si mesmo, e percebeu que viver de mãos vazias, na Idade da Pedra, na verdade lhe dava uma liberdade de espírito e de ação que ele não tinha conhecido desde que a guerra começara.

NA MANHÃ DE 15 DE AGOSTO, Gen acordou se sentindo forte o bastante para aumentar o barraco de sua mãe e transformá-lo numa das primeiras casas de zinco vincado do lugar que se tornaria uma das primeiras favelas da planície de Hiroshima.

Ao voltar de uma de suas operações de escavação de arroz para casa, um dos novos vizinhos de Gen lhe dissera que um caminhão do Escritório de Comunicações tinha passado por lá e deixado um rádio no hospital do doutor Hachiya. Quando Gen chegou aos degraus do hospital, alguém já tinha ligado o rádio a uma bateria de carro quase descarregada, e o gramado do Hospital de Comunicações zumbia e crepitava com a estática que se desvanecia. Do rádio, uma voz distante dizia: "Nós decidimos abrir o caminho para uma grande paz para todas as gerações por vir, suportando o insuportável e sofrendo o insofrível".

Gen não escutou tudo isso com clareza. O que se escutava claramente, antes de a bateria morrer, eram apenas as palavras "suportando o insuportável".

O eletricista do hospital, que estivera bem perto do alto-falante, anunciou que o que todos escutavam era a voz do próprio imperador, e que ele tinha acabado de anunciar o fim da guerra.

"Quem ganhou?", alguém perguntou.

"Ele disse que devemos suportar o insuportável", o eletricista respondeu; e então, olhando ao redor, adicionou: "Quem você acha que ganhou?".


A PEQUENA IRMÃ DE GEN, para quem ele tinha escolhido o nome de Tomoko, porque a palavra queria dizer "amigo", estava morrendo.

O pai de Gen estava morto.

Naquele momento, alguns dos isótopos absorvidos pelos ossos de sua mãe estavam sendo silenciosamente redirecionados para as suas glândulas mamárias. Para além disso, já tinham feito seu trabalho, e as células-tronco de sua medula óssea — arrasadas por deslocamentos cromossômicos — começavam a se dividir aleatoriamente, numa marcha em direção ao caos e à morte.

A irmã mais velha de Gen estava morta.

O irmãozinho de Gen, Senji, estava morto.

Na noite da rendição, um garoto apenas um ano ou dois mais jovem que Gen, atraído pelo cheiro de comida, se escondeu sob uma das folhas de metal ao lado da casa improvisada, e tentou fugir com um frasco de arroz recém-escavado.

Como Gen — Kenji Nakazawa — depois escreveria e filmaria, um movimento suave, de sombras, pulou, e quando viu já estava lutando no concreto quebrado do lado de fora do barraco. Quando Gen prendeu a cintura do garoto com suas pernas, sua mãe saiu do

barraco gritando para que parasse, e então a luz de sua lanterna atingiu o rosto do garoto. Gen recuou o braço para bater no ladrão, mas prendeu o fôlego, tamanha a surpresa.

"Senji?"

Gen soltou um grito e cambaleou, quase derrubando a lanterna da mão de sua mãe.

"Você é igualzinho ao Senji", a mãe disse, dando um passo em sua direção.

"Quem quer que ele seja, não sou Senji", o garoto disse, esquivando-se com um passo para trás e se preparando para dar um salto e sair correndo.

"Você parece um. gêmeo de meu irmão menor", Gen tentou explicar.

"Bom, eu não sou ele. Certo? Posso ir embora agora?"

"É claro que você não é Senji", disse a mãe, tão calma e gentilmente quanto podia. "Eu o vi morrer", ela disse inexpressivamente, lembrando-se de Gen.

"Sinto muito por ter roubado sua comida", o garoto disse, deixando que a mãe o ajudasse a se levantar. "Meu nome é Ryuta Kondo." Desculpando-se novamente, ele tentou explicar a fome que estava atormentando-o por três dias, até que finalmente acreditou ter perdido o apetite. Mas então sentiu cheiro de arroz cozido, e não pôde se controlar. "Deus diz que não é um pecado roubar comida se você realmente estiver faminto."

"Ryuta, onde está sua família?", a mãe perguntou.

Cerrando os maxilares, ele respondeu: "Eles foram todos mortos na explosão". Os pais de Ryuta viviam na vizinhança do doutor Hachiya, perto da ponte Misasa e da família Sasaki. Ele, sozinho, se arrastou para fora dos destroços da casa, para então descobrir que algo achatado e afiado tinha guilhotinado as pernas de sua mãe na altura dos joelhos. Ela sangrou até a morte antes que ele pudesse ir até uma casa vizinha procurar ajuda. O pai de Ryuta parecia ter sido concomitantemente queimado e empalado. Um tio, que à primeira vista parecia estar correndo até Ryuta em resposta aos pedidos de ajuda, continuou correndo ao passar por ele como se não tivesse visto ou ouvido nada, deixando uma poça de sangue atrás de cada passo e fazendo um ruído que parecia um clique bem alto, antes de cada poça. Os pés do tio sido arrancados, e ele estava tentando correr sobre suas tíbias. Sua corrida de pernas-de-pau" continuou ainda por algum tempo rumo à terra baldia em chamas onde o "tio das pernas-de-pau" de Ryuta se tornou, provavelmente, o "sapateador" que inflingiu horror às famílias de Sumiko Kirihara e Sadako Sasaki.

Gen escutou a história de Ryuta impassivelmente, como se todos os horrores pudessem agora ser ignorados, parecessem ruído de fundo — o que, na verdade, de fato passaram a ser. Naquele momento, Gen estava preocupado com outros pensamentos.

“Você se parece exatamente com o meu irmão", Gen disse novamente.

"Eu não sou ele!", o garoto gritou, rancoroso, dando um passo para trás. "Eu sou Ryuta!"

Gen não disse nada. Simplesmente olhou para Ryuta como que pedindo desculpas, entrou no barraco e voltou com um bolinho de arroz comido pela metade. "Tome", ele disse, "você pode comer o resto do meu jantar se quiser."

"Você está dizendo que o daria para mim?"

"Claro."


E antes que Gen pudesse terminar de lhe entregar o bolinho, o garoto já tinha dado uma enorme mordida. Depois, tentou comer o restante num segundo bocado em que quase se engasgou.

"O que você está fazendo?", Gen perguntou. "Vai ficar doente."

Ryuta engoliu com força e disse: "Eu não queria que você o tirasse de mim".

"Eu não faria isso", Gen assegurou-lhe.

"Por que eu deveria acreditar em você?"

A mãe se ajoelhou deixando sua cabeça à mesma altura que a de Ryuta. "Onde você tem morado depois da explosão, Ryuta?

"Por aqui, na maior parte do tempo."

"Bem, se você ainda estiver com fome, você pode terminar o meu arroz também."

"Tem certeza?"

"Claro que sim."

A mãe viu Ryuta engolir o segundo bolinho de arroz tão rapidamente quanto o primeiro. Isso a chocava e a surpreendia. O pequeno Senji também tinha o hábito de engolir a comida como se realmente temesse que alguém fosse tomá-la dele antes que terminasse de engolir.

Gen trouxe uma panela de cobre amassada e ofereceu a Ryuta uma colher para que raspasse as sobras de arroz torrado. Ele largou a colher, enfiou a cabeça na panela, e começou a lamber as laterais. "Como Senji fazia", Gen sussurrou.

A mãe explicou a Gen, e talvez tentando convencer a si mesmas: "Eu ouvi dizer, Gen, que todo mundo tem cinco duplos. Ainda assim, é notável que um deles pareça ter nos encontrado por acaso. De alguma maneira, parece que ele foi enviado para cá".

Gen viu Ryuta lamber até o fundo da panela, procurando todas as migalhas que restassem. "Mãe", ele disse. "Você está pensando no que eu estou pensando?"

"Estou. Mas já temos bastante dificuldade em nos alimentar” — e ela viu a panela de cobre se transformar num enorme capacete na cabeça de Ryuta. "Mas, ainda assim, se Senji estivesse vivo é o que desejaria que nós fizéssemos."

"Então está tudo bem?"

Ryuta não ouviu a pergunta. Sua cabeça inteira e um dos ombros tinham sumido dentro da panela. Foi só então que finalmente ele a jogou no chão e disse que quase já não tinha mais fome - "quase". Notou que Gen e sua mãe estavam olhando para ele com expressões muito muito estranhas. Primeiro lhe pareceu que ele os tinha ofendido de alguma maneira e estava prestes a ser atirado ao chão para se engalfinhar com Gen novamente. Então se lembrou de que deveria ter educação.

"Obrigado!", disse Ryuta, rapidamente. "Sinto muito, eu deveria ter dito obrigado."

Ele recebeu o mesmo olhar de ambos.

"O que eu fiz?"

"Nada", disse a mãe. "Ryuta, estávamos nos perguntando. Você gostaria de ter uma casa novamente?"

"Você quer dizer, ficar aqui?"

"Sim", Gen disse.

O garoto parecia assustado, como se no instante seguinte Gen pudesse dizer "Brincadeira", e mandá-lo de volta à natureza selvagem. Ele começou a falar sobre suas privações e a tentar explicar que na verdade não eram tão ruins. "Eu sei que sou pequeno e não posso trabalhar duro nem ser de muita ajuda, mas posso fazer massagens nas suas costas. Meu pai sempre disse que eu era bom nisso." E então ele foi direto aos ombros da mãe, beliscando todos os nervos certos nos lugares errados.

"É muito gentil de sua parte", a mãe disse, "mas você não precisa trabalhar duro. Nós não estamos pedindo nada em troca, Ryuta. Você só vai ser da família."

"Mesmo?"


A mãe disse que sim, e passou a mão sobre sua cabeça suavemente. Um pequeno tufo de cabelos veio junto. Não importava. Ryuta, que acreditava que nunca mais se sentiria feliz com algo, estava chorando de alegria.
No AMANHECER, O DOUTOR HACHIYA despertou e ficou sabendo que outras três pessoas de sua equipe estavam inválidas pela nova doença. A mulher do falecido chefe do Escritório de Comunicações, que tinha vindo até o hospital oferecer-se para trabalhar voluntariamente como enfermeira, quase não tinha pulso. Todo o interior de sua boca era uma massa de tecido hemorrágico. Sua língua e amígdalas eram carne em decomposição.

Em outra cama estava a senhora Hamada. Ela fora exposta à radiação numa casa de madeira, de um andar, a cerca de um quilômetro do hipocentro. Sentia uma sede enorme, como se estivesse sendo profundamente queimada por dentro, e dentro de minutos começou a vomitar. Ainda assim, no dia da rendição, sentiu-se completamente curada e pôde oferecer-se como voluntária no hospital. Apenas um dia depois, ela acordou e foi surpreendida por um monte de cabelos em seu travesseiro. Tão logo pôs uma mão na cabeça, o restante de seu cabelo começou a cair em grande quantidade, sem nenhuma resistência. Ela notou que a pele de seus braços tinha se tornado extraordinariamente seca e frágil durante a noite. Quando o doutor Hachiya a examinou, ele encontrou sinais de hemorragia extensiva sob a pele. Em algumas horas, a senhora Hamada passou de "completamente curada" a "condição crítica".

Assim como a senhora Hamada, o senhor Hirohata também teve apenas algum desconforto, mas se sentia bem no pós-pika. Num raio de pouco menos de quatrocentos metros do alvo, ele estava mais próximo ao hipocentro que a senhora Hamada. Mas — conforme explicou ao doutor Hachiya, quando o clarão veio — estava numa das porções mais grossas, de concreto reforçado, do edifício da Companhia Telefônica. E, assim, conseguiu sair dali caminhando, quando todos os outros foram instantaneamente explodidos ou carbonizados.

"Doutor?", o senhor Hirohata perguntou. "Existe alguma razão pela qual meu cabelo está caindo e eu me sinto tão fraco?"

"Não creio que deva se preocupar", Hachiya disse. "Você passou por um estresse sem precedentes, e além disso tentou trabalhar dia e noite aqui, mantendo-nos vivos."

Uma chuva suave começou a cair, e Hachiya sabia que logo os tetos estariam pingando e que, naquela noite, todas as camas estariam úmidas.

"Pare de se preocupar tanto", Hachiya impôs ao paciente.

O senhor Hirohata decidiu obedecer às ordens do médico — ficar absolutamente quieto na cama e beber todos os fluidos nutritivos que as enfermeiras traziam. Ele sorriu, confiante de que sua saúde voltaria. Mas ele, junto com a senhora Hamada e a mulher do chefe do escritório, já estariam mortos quando o primeiro microscópio chegasse.


Por volta de 20 de agosto, a equipe de Hachiya confirmou que a radiação — e não uma arma biológica ou algum gás desconhecido - tinha sido a causa da Doença X. Muitos dias depois da promessa de má vontade feita pela marinha, o microscópio que Hachiya tanto desejava lhe foi entregue. Muitos no hospital tinham contagem de leucócitos de quase dois mil — bastante abaixo da faixa normal de seis a oito mil. Somente a contagem do doutor Hachiya parecia estar pairando sobre os três mil. Alguns pacientes tinham contagens de apenas quinhentos; e um deles — com uma contagem de duzentos — parecia estar morrendo por um ataque violento da bactéria que normalmente transformava a matéria em decomposição em fertilizante para o solo.

Hachiya rapidamente percebeu que o pavilhão de isolamento tinha sido uma loucura. Apesar de novas infecções estranhas estarem aparecendo — incluindo a putrefação dos corpos ainda vivos —, as doenças vinham de dentro, não de fora. De acordo com um memorando enviado do Hospital Naval Omura, autópsias começaram a revelar medulas ósseas tão completamente irradiadas que se reduziram a um fluido amarelo, como bile. Com sistemas imunológicos reduzidos à inexistência, bactérias que normalmente não atacam a carne humana nem depois da morte começaram a aparecer. Em muitos casos, a morte da medula óssea se manifestava por uma febre hemorrágica que se espalhava para todos os órgãos internos; e em tais casos o sangue só coagulava sete horas depois da morte. As plaquetas de sangue, assim como os agentes coagulantes, simplesmente desapareceram.

Outros pacientes foram vítimas de sinais e sintomas que ninguém tinha testemunhado antes. Dois homens examinados em Omura morreram de alguma infecção que liquefez seus cérebros e medulas espinhais. Uma ameba infecciosa parecia estar envolvida — uma espécie contra a qual o sistema imunológico humano há muito tempo tinha desenvolvido defesas naturais. A ocorrência de tantas infecções oportunistas era tão rara e tão nova que não seria vista novamente até a epidemia da Aids nos anos 1980.

No Hospital Naval de Omura, Shiotsuki, colega do doutor Hachiya, esteve examinando pacientes de Nagasaki e Urakami desde a noite de 9 de agosto. Os primeiros foram mandados de trem ao seu hospital de oitocentos leitos, localizado a dezenove quilômetros do hipocentro. Mesmo a essa distância, todas as janelas do hospital naval na direção da explosão foram quebradas, e todas as árvores nas encostas das montanhas com vista para o pika estavam tão desidratadas que suas folhas ficaram marrons, como se tocadas por um outono antecipado. O doutor Shiotsuki relatou que o efeito marrom nas folhas se estendia por oitenta quilômetros em todas as direções, partindo do estádio de Urakami. Se todas as folhas já estivessem secas desde o início, a tempestade de fogo resultante teria virado um tufão de um diâmeto de 160 quilômetros. Perto do Hospital São Francisco, se o olho da tempestade se tornasse ciclônico e sustentado por si mesmo, as chamas horizontais facilmente teriam se tornado supersônicas.

Por volta de 20 de agosto, os relatórios médicos do doutor Shiotsuki estavam cheios de observações peculiares e frequentemente inacreditáveis. Ele notou que os pacientes que carregavam marmitas, usavam relógios de pulso, ou alianças de casamento e anéis de ouro ou que tinham, de alguma outra maneira, a pele em contato direto com objetos metálicos no Momento Zero, foram literalmente marcados a fogo onde o metal tocava a pele, e em quase sua totalidade exibiriam os sintomas da doença da radiação. As marcas coincidiam com um perigo da outra extremidade do espectro, do lado oposto dos raios gama. Tratava-se de raios de uma onda muito curta, espécies de micro-ondas que interceptavam o metal, elevando-o a temperaturas de queimar a pele. Sob o pika, partes de Nagasaki pareciam ter se tornado um forno de micro-ondas. O doutor Shiotsuki também notou que apesar de os pacientes que usavam bramo frequentemente terem escapado às queimaduras do pika, e de um paciente que usava uma camiseta de listras brancas e negras ter sofrido "tatuagens de queimaduras" de listras verticais, esses fenômenos estranhos pareciam se aplicar somente àqueles que estavam em um raio de dois quilômetros. Mais perto do hipocentro e do estádio, usar preto ou branco se tornou um ponto de discussão.
Mapa de Hiroshima: Honshu

Mapa de Nagasaki: Kyushu

Mapa de Manhattan: Nova Jersey, Bronx, Queens, Long, Island, Brooklyn, Manhattan.
A maior diferença entre a escala e o alcance dos fogos em Hiroshima e Nagasaki era devida à força muito maior da bomba de Nagasaki, cujo clarão desidratou folhas e as fez murchar a uma distância de oitenta quilômetros. Se a arma ou de Nakasaki tivesse sido

detonada em Nova York durante uma seca de outono ou sobre a Califórnia durante a estação seca, poderia ter criado um tufão de fogo de mais de 160 quilômetros de diâmetro. (Patricia Wynne)

Àquela altura, em Omura, muitas das jovens mulheres que tinham se voluntariado para vir com o trem de Nagasaki e cuidar dos feridos, estavam começando a apresentar os primeiros sintomas da doença. Como tinha ocorrido no Hospital São Francisco e no Hospital de Comunicações, esgotadas por uma fadiga súbita, febre e calafrios, elas sucumbiam e se tornaram pacientes nas mesmas alas em que atendiam como enfermeiras.

"Não havia necessidade de lhes explicar o que estava acontecendo", o doutor Shiotsuki gravaria em depoimento em 1974, pouco antes de morrer de leucemia, aos 54 anos de idade. "Já tínhamos notícias de uma doença disseminada em Hiroshima. Sabíamos que estava vindo."

Elas morreram. Todas elas.

"Vestindo calças mompe folgadas e guarda-pós feitos de material barato", Shiotsuki contou, a título de epitáfio tardio, "as garotas voluntárias estavam muito longe da beleza no sentido ordinário da palavra. Mas, para mim, eram mais bonitas física e espiritualmente do que as garotas de hoje que andam pelas ruas, com jeans ou vestidos da moda. Essas garotas, ao perceberem que iam morrer, saíram da cama para usar a força que lhes restava para cuidar dos outros. Eu queria poder ter visto, nem que fosse uma só vez, uma daquelas garotas vestidas com a moda elegante de hoje; mas elas ganharam uma sentença de morte a poucas horas antes do final da guerra, e nunca poderiam imaginar que um dia a prosperidade chegaria ao Japão."

A batalha pessoal do doutor Shiotsuki contra a doença da bomba atômica começou quase ao mesmo tempo em que o doutor Hachiya cancelava o protocolo de isolamento no Hospital de Comunicações, quatorze dias depois da explosão de Hiroshima, onze dias depois da explosão de Nagasaki e cinco dias depois que Gen e sua mãe convidaram Ryuta para viver em seu barraco. Seu número de leucócitos tinha caído perigosamente para quase a metade do valor normal, apesar de ele estar a dezenove quilômetros do hipocentro. A única explicação para a sua doença era uma exposição muito intensa à radioatividade dos próprios pacientes, cujas roupas, pele e hálito deveriam emitir-lhe partículas de pó radioativo desde sua chegada, na noite de 9 de agosto. Durante as primeiras 48 horas, a radioatividade que liberavam tinha certamente invadido os pulmões, o sangue e a medula óssea do doutor Shiotsuki.

Com o passar dos dias, a contagem dos leucócitos de Shiotsuki voltou novamente ao normal, depois continuou a subir. Duas semanas após a chegada do trem a Nagasaki, a preocupação de Shiotsuki era com a falta de leucócitos, mas com sua abundância. Esse foi o começo de uma doença crônica na medula óssea. Era 24 de agosto.

Naquela noite, em Tóquio, o general Shizuichi Tanaka inspecionava a frota americana no porto. Tanaka tinha recebido relatórios de que aviões britânicos voavam sobre Hiroshima e Nagasaki como se estivessem num tour macabro. A rendição seria assinada oficialmente em 2 de setembro. Tanaka, que em 14 de agosto retirara seu apoio à rebelião que queria evitar a radiodifusão do pronunciamento do imperador, não queria ver o ato final daquela tragédia. Depois de tomar chá com seu ajudante, o general deitou sua espada ao lado do chapéu, das luvas e de seis cartas com seus respectivos destinatários. Depois, enrolou um pedaço de tecido na parte superior da cabeça, para reduzir os jorros de sangue, e, alinhando sua cadeira numa direção que evitasse que a substância lançada pela ferida aberta sujasse os seis envelopes, ele se deu um tiro.
APESAR DAS MORTES DE ANAMI e Tanaka, os trâmites burocráticos do governo continuavam operando normalmente. Em 25 de agosto, um caminhão trazendo presentes do Corpo de Engenharia do Exercito Imperial chegou ao Hospital de Comunicações de Hiroshima. Os soldados entregaram quatro cadeiras quebradas, três escrivaninhas quebradas, duas panelas, um fogão e nada de comida ou carvão. Um segundo caminhão trouxe cinco caixas grandes, cada uma cheia até a borda de bandeiras sinalizadoras para pistas de aterrissagem e salva-vidas. Os pacientes do doutor Hachiya distribuíram os salva-vidas entre si para usar como travesseiros, e as crianças pareciam gostar de abanar as bandeiras.

O senhor Sasaki enviou um terceiro caminhão com peixe e maços de cigarro — os cigarros estavam valendo mais do que dinheiro, e tinham rapidamente se tornado a nova moeda corrente. O doutor Hachiya apreciava o sabor do tabaco, e decidiu aferrar-se à nova moeda tanto quanto pudesse, dando apenas algumas baforadas num cigarro, depois guardando-o para fumá-lo aos pouquinhos mais tarde.

Durante uma das pausas para o cigarro, Hachiya saiu para respirar um pouco de ar fresco e encontrou o primeiro cachorro que vira em quase vinte dias. Imediatamente apelidou-o de Miserável Hachiya notou que o pobre vira-latas carregava um pedaço de batata podre na boca. Que cena digna de dó, ver um cachorro, por natureza um carnívoro, obrigado a mendigar sobras de vegetais, ele pensou.

A maior parte do pelo do animal desaparecera. Hachiya diagnosticou que Miserável também estava sofrendo da doença da radiação.

De alguma forma, essa figura magérrima que se arrastava seus quadris curvados, o rabo caído e sem pelo, era simbólico.

"Podem soltar os cães da guerra!", o doutor gritou, assustando o animal.

Atrás dele e do morro, alguém gritou com animação ao ver cabos elétricos amarelos instalados na direção do hospital. Um engenheiro do exército anunciou que, em poucos dias, Hachiya teria um telefone, e, depois disso, luz elétrica.

Ao cair da noite, a água da chuva brilhava nas paredes pelo terceiro dia consecutivo. Por todo o prédio e no que tinha sido e pavilhão de isolamento, um mofo negro começava a brotar nas roupas e nos lençóis. E assim, inevitavelmente, a pneumonia começou a fazer suas visitas oportunistas, de um sistema imunológico enfraquecido a outro. Na manhã de 26 de agosto, mais quatro pacientes estavam mortos.

A TAXA DE MORTALIDADE se acelerava nos morros de Urakami. Os doutores Akizuki e Nagai inspecionavam as frequentes fogueiras de corpos no pátio do hospital. A saúde de Nagai parecia melhorar constantemente, a tal ponto que ele e três enfermeiras conseguiam fazer visitas de longas distâncias nos morros. Mas o cabelo de Akizuki estava mais ralo e ele tinha dificuldade em manter a comida no estômago. O doutor se perguntava se ele próprio não estaria numa pira em poucos dias. Viver e morrer no Ground Zero, Akizuki concluiu, era uma questão de destino. Ali, a linha divisória entre homem, cremado e médico era tênue e vaga, dependendo inteiramente da sorte.

Ele estava começando a encarar a doença da radiação como um espírito traiçoeiro e onipotente que arrancava o cabelo dos sobreviventes e sugava seu sangue.

Do hospital até as ruínas da Escola de Meninas Yosé, mais abaixo, e até o estádio, um padrão de morte estava surgindo. O último influxo de pacientes tinha parecia estar bem de saúde, pois tivera força para descer às ruínas e construir as favelas. Eles tinham inventado um novo termo — "as minas da cidade", que se referia aos artigos de valor enterrados sob pilhas de escombros. Os mineradores que moravam na parte mais inferior do morro, perto do estádio e do hipocentro, foram os primeiros a sofrer e morrer durante o segundo surto de doença da radiação, no fim de agosto. O doutor Akizuki conseguiu mapear "a sombra da morte" enquanto esta subia como uma maré que vai lenta e constantemente morro acima. Os mineradores no vale e nos sopés dos morros começaram a ser carregados até o hospital nas costas de parentes que moravam um pouco mais acima. Então, uma família de mineiros que vivia cem metros acima ficou doente, e também teve de ser carregada. Depois, uma família quarenta metros mais acima; e assim sucessivamente.

O doutor Akizuki chamou o avanço crescente da doença de "círculos concêntricos da morte”. Ele imaginou ser apenas uma questão de tempo até que as nuvens invisíveis da morte ascendessem ao hospital. A maré que subia estava a apenas cinquenta metros do pátio da frente do hospital, quando as chuvas vieram em 1º de setembro, e se converteram numa tempestade tropical no dia 2, com trovoadas e o estrondo de quedas d'água recém-formadas lá embaixo.

Por volta da meia-noite de 2 de setembro, a chuva caía tão torrencialmente que, quando Akizuki saiu, foi atingido com força no rosto e cegado por um grande golpe de água corrente. Ficou ensopado imediatamente e as mangas de sua camisa se rasgaram. Ele se agarrou a um pilar de concreto quebrado para se firmar. Atrás dele, num prédio em escombros cujo térreo tinha se transformado num riacho com águas a subir, os feridos e cuidadores amontoavam-se em grupos de dez e quinze, como pequenos pássaros num ninho.

"Eles não sofreram o suficiente?", o doutor Akizuki gritou para os céus. Os raios brilhavam como um grande número de lâmpadas, ou pikas bebês. Era um novo tipo de inferno: depois de esfolados pelo fogo, agora eram devastados pela água.

"Não os puna desta maneira!", Akizuki gritava. "O que você quer? Quem é você? Você já não fez o suficiente?"

Akizuki pensava nas irmãs e irmãos católicos que tinham vindo ajudar e que também acabaram por se tornar doentes. Agora tremiam como animais quase afogados. Como budista, era difícil para ele acreditar — como o faziam os jesuítas ou o doutor Nagai — que a tragédia e o mal sem sentido eram parte de um plano divino.

"Por que você tem de sofrer assim?", ele tinha perguntado à irmã Mizoguchi, uns dias antes de ela vomitar um grande pedaço de sua própria carne e morrer. "Por que isso, a alguém como você que só fez o bem? Não está certo!"

"Eu acredito na providência divina", ela respondeu, quase sem forças — e depois disse, com um sorriso: "É a vontade de Deus”.

"Então maldita seja sua providência!", o doutor agora gritava à tempestade e ao universo.

Ele ficou acordado a noite toda, tentando acalmar os pacientes e amaldiçoando a tempestade. Na manhã seguinte, um arco-íris duplo apareceu no céu. O mais alto dos dois era de um brilho raramente visto em Nagasaki; e o mais baixo era de um tipo nunca visto. As cores do arco-íris estavam dentro de uma camada de névoa, de uma cor perolada pouco usual, mas claramente com o formato de um arco — um arco-íris branco.

"Algo aconteceu", Akizuki disse à enfermeira Murai. "Sinto uma mudança no ar, tenho certeza." Ele respirou fundo e, pela primeira vez em quase um mês, se sentiu refrescado. A sensação constante de fraqueza e náusea tinha começado a se dissipar apesar de uma noite estressante sem dormir. "O mundo mudou", ele pensou.

Apesar de Akizuki não ter acesso a um medidor Geiger, tinha certeza de que, se visse um deles, encontraria algo diferente sobre o solo e o ar. A chuva tinha levado o pó em suspensão para as profundezas do solo ou para o mar. O dilúvio que durante a noite toda parecia uma maldição, agora provava ser um ato de misericórdia da... providência divina — na qual agora o doutor Akizuki quase acreditava.

Naquela mesma manhã, pés de amor-de-hortelão tinham começado a brotar no terreno baldio. Uma tempestade semelhante também caiu sobre Hiroshima, seguida pelo mesmo fenômeno do arco-íris duplo, depois por flores silvestres desabrochando fora da estação. Eram tantas, que parecia que os B-29 tinham lançado sementes de flores sobre a cidade, em vez de bombas.

Shoda Shinoe, a garota que perguntara aos médicos se existia uma operação para remover memórias, parecia ter recobrado todas as suas forças depois das chuvas. Quando ela localizou as ruínas de sua escola, encontrou prímulas da noite nascendo em cada tijolo

quebrado ou fissura no concreto. Crisântemos silvestres azuis estavam por todos os lados.

Na pracinha, talos de flores surgiam entre costelas e através das órbitas dos crânios — dezenas, centenas de crânios. A maioria deles era pequena; e Shoda supôs que todos os crânios maiores deveriam ter pertencido às professoras.

Em Kaitaichi, subúrbio de Hiroshima, Hiroko Nakamoto, a estudante que tentou em vão manter seus dois camundongos de estimação vivos durante um período de intenso racionamento, estava se recuperando de suas feridas do pika. Até as queimaduras e a contínua escassez de alimento pareciam triviais quando comparadas às notícias de que a força armada norte-americana avançava rumo ao vilarejo. Antes da destruição de Hiroshima, todos os estudantes tinham assistido a filmes que mostravam o que podiam esperar dos norte-americanos se o Japão perdesse a guerra. As previsões mais otimistas diziam que os japoneses se tornariam uma casta de trabalhadores escravos. E, as mais pessimistas, fizeram os oficiais de Kaitaichi aconselhar mulheres e crianças a fugir para as montanhas e ficar escondidas; mas Hiroko ainda estava se recuperando dos ferimentos e sua tia não a abandonaria.

Quando, enfim, os soldados e suas gomas de mascar chegaram, eles se mostraram incrivelmente educados. Trouxeram doces com nomes estranhos, como salva-vidas e via láctea.

Hiroko percebeu, então, que as horrorosas previsões de escravidão e tortura, estupros e até canibalismo, tinham sido apenas propaganda militar, com o intuito de incentivar a nação a lutar até a morte.
ENQUANTO AS DUAS CIDADES floresciam, um cirurgião da marinha americana e um intérprete chinês chegaram ao Hospital São Francisco. O doutor Akizuki saiu de trás de uma pilha de tijolos assustando ambos.

O intérprete procurou sua pistola, mas rapidamente relaxou quando olhou o médico de cima a baixo e percebeu que ele não parecia mais perigoso que o "prefeito da cidade dos mendigos".

Contrastando com Akizuki, que, fora o banho de chuva na noite anterior, estava sem tomar banho por quase um mês, as roupas do cirurgião americano estavam engomadas e limpas, e ele se parecia com uma versão muito mais alta da jovem e romântica estrela de comédia Vincent Price. Akizuki estava esperando Boris Karloff ou Bela Lugosi.

O cirurgião da marinha parecia apavorado com as condições primitivas que prevaleciam na encosta do morro. Ele apontou para o outro lado do hipocentro, na direção das barracas de primeiros socorros que estavam sendo erguidas a cinco quilômetros dali, no norte de Nagasaki. "Você deveria levar seus pacientes para lá", ele aconselhou.

Considerando a condição de seus pacientes, parecia a Akizuki que cinco quilômetros — distância um pouco maior do que a necessária para atravessar a ilha de Manhattan — seriam o mesmo que uma marcha até Tóquio.

"Se você fizer a gentileza de nos providenciar medicamentos adequados", Akizuki disse, "meus colegas e eu gostaríamos de ficar aqui e continuar a tratar destas pessoas".

O americano olhou ao redor das ruínas queimadas, suspirou e começou a examinar os pacientes. Primeiro eles se retraíam com medo, mas, quando Akizuki assegurou-lhes que ele não lhes faria mal, começaram a relaxar. O visitante descobriu um tipo de ferimento da bomba que não estava aparente antes.

"A maioria teve os nervos ópticos danificados pelo clarão da bomba atômica", o americano disse. "Suas córneas também foram danificadas, e eles estão infectados."

Eles estavam perdendo a visão, o americano concluiu, e pressionou Akizuki novamente: "Você deve mandá-los para a estação de primeiros socorros no centro da cidade". Akizuki explicou que os pacientes não tinham saúde o bastante para fazer a viagem, mesmo se não estivessem ficando cegos.

"Bem", o sósia de Vincent Price disse, "as estradas já não existem mais, e não temos caminhões grandes o bastante sobrando para fazer uma retirada. Mas temos penicilina e outros suprimentos vitais na estação. Você deveria ir até lá amanhã e ver o que pode conseguir".

Considerando todas as coisas, Akizuki estava surpreso e impressionado com o homem que tinha subido o morro através dos escombros para examinar os feridos. Estava muito aliviado que as expectativas do Alto Comando sobre um mundo de estupros e destruição que aguardavam um Japão rendido não pareciam estar se concretizando.

Isso não significava, contudo, que tudo subitamente era um mar de rosas. O farmacêutico na estação de primeiros socorros olhou para as roupas do doutor Akizuki e quase o dispensou, pensando se tratar de um vagabundo em busca de drogas do mercado negro. Quando o médico explicou que um oficial da marinha americana o tinha aconselhado a obter antibióticos para o hospital de Urakami, o farmacêutico disse: "Mande seus pacientes para cá".

Depois de algumas explicações sobre o Hospital São Francisco, o farmacêutico liberou uma pequena quantidade de medicamentos, bem como vitamina B e fortes doses de vitamina C, de acordo com o tratamento da radiação proposto pelo doutor Nagai, o que —até tais suprimentos começarem a faltar no hospital — parecia ter proporcionado melhoras a casos limítrofes, incluindo os de Nagai e Akizuki. A penicilina, contudo, foi retida, e a liberação de cada lote de vitaminas parecia requerer duas ou três viagens pelo hipocentro.

Como relatou o doutor Akizuki posteriormente: "Depois da visita do oficial americano, nosso hospital, em ruínas, na fronteira da área devastada, foi apagado da memória daqueles que vieram investigar o estrago realizado pela bomba atômica. Os que vieram conferir Nagasaki depois da explosão visitaram somente os edifícios intactos e andaram em volta do estádio desaparecido. Nunca souberam do que acontecia no morro com vista para o hipocentro".

Assim, o caso mais evidente de radiação da cidade permaneceu quase invisível. Um comitê de pesquisadores científicos americanos e britânicos esteve no Japão em 11 de setembro, e imediatamente propôs uma detalhada pesquisa zoológica em pontos de escavação a distâncias variadas do hipocentro, para determinar se os efeitos da radiação produziam mutações maléficas em múltiplas gerações de insetos. Oficialmente, o comitê de 11 de setembro estava sob a jurisdição do general MacArthur, que por sua vez não queria que houvesse muita divulgação sobre os bombardeios atômicos. A pesquisa zoológica foi interrompida tão logo começou. Minhocas encontradas sob a Catedral de Santa Maria em Urakami e sob os hospitais demolidos perto dali, foram recolhidas e levadas para análise. Os efeitos da radiação eram determinados pela amputação de segmentos nas extremidades das minhocas do Ground Zero e na regeneração de suas cabeças. O processo regenerativo parecia ocorrer sem anormalidades evidentes e, durante ele, a ausência de provas dos efeitos da radiação prolongada nas populações humanas expostas à bomba foram interpretadas como insuficientes. Os cientistas do comitê propuseram a ampliação do estudo das minhocas ao exame real de pacientes humanos tratados perto dali, no hospital do doutor Akizuki. A proposta pereceu no limbo do macarthismo.
A essa altura, Charles Sweeney retornava à cidade e levava os membros de sua equipe a um lugar onde existia uma quadra de tênis, que ele calculava ser a localização exata do hipocentro. Pouquíssimas pessoas estavam na planície e nos sopés dos morros. Olhando para o céu azul, onde a 570 metros o punho de plutônio atacara pela primeira vez, Sweeney tentou formar uma imagem do que deveria ter sido estar lá naquele momento. E confidenciou aos amigos uma fé simples: "Que a nossa seja a única missão de voo desse tipo".

Enquanto percorria o entorno, o olhar de Sweeney se deteve por um momento na encosta de um morro distante, na qual se viam as paredes de tijolos vermelhos queimados do Hospital São Francisco.


QUANDO SHODA SHINOE encontrou suas professoras e Charles Sweeney encontrou o hipocentro, a senhora Matsuda descobriu os alicerces de sua casa. Estavam a três quadras da casa de Hirata e da mansão de Hiroshima dos Morimoto, e quase ao alcance de um atirador de elite da Cúpula de Hiroshima. Seu filho Toshihiko vinha vindo sem rumo, com queimaduras negras na forma de folhas por todo um lado de seu corpo. O garoto estava a uma distância em que a camisa branca que vestia se tornara um pouco mais relevante (em termos de proteção às queimaduras provocadas pelo clarão) do que as paredes do jardim que o escudaram contra a explosão. O algodão branco tinha ficado marrom instantaneamente, e a sombra de Toshihiko, junto com as sombras de pés de abóbora evaporados e as filas de pés de feijão, se transformaram em marcas ou sombras fantasmagóricas na parede. O garoto devia ter se abaixado para apanhar algo quando veio o clarão.

Os historiadores presumiriam, equivocadamente, que todas as pessoas-sombra de Hiroshima foram vaporizadas pelo pika, e encontraram morte instantânea e indolor. Isso aconteceu apenas em casos raros. Somente na vizinhança imediata à Cúpula e à ponte "T" isso era verdadeiro. Um pouco mais longe do hipocentro, o mesmo clarão que queimava a pele também queimava tinta e madeira. Contra todas as probabilidades, o jovem Toshihiro pôde sair do Ground Zero e caminhar até a escola em ruínas onde Minami tinha visto os vaga-lumes azuis. Ela e o doutor Fujii acreditavam que, já que 60% do corpo do garoto tinha sido protegido do clarão e não fora queimado, ele poderia sobreviver — e essa crença foi o inferno. Toshihiko Matsuda deveria ter sobrevivido, mas sobre ele incidiram os raios gama — sobre ele e através dele. Seus ossos se encharcaram de radiação gama e nêutrons, e o DNA dentro de sua medula se convulsionou e se rompeu tão violentamente que os sistemas de reparação de DNA, sempre vigilantes, tornaram-se incapazes de lidar com a extensão do dano mesmo não estando completamente danificados.


Apesar de as tias de Toshihiko e de todos os outros que estavam dentro da casa terem sido mortos quando a explosão achatou o sobrado até a altura do peito de um homem, Toshihiko parecia, ao doutor Fuji, ser outro "garoto milagroso", escapando por pouco enquanto todos ao seu redor morriam. Mas os raios tinham feito seu trabalho, e o garoto milagroso tinha pouco tempo de vida.

Considerado pela triagem como uma vítima capaz de sobreviver sob atenção médica, ele e vários outros feridos com chance de recuperação foram enviados com Minami e quatro enfermeiras na traseira de um caminhão até o hospital dos veteranos nos subúrbios..

A descoberta de que a mãe de Toshihiko tinha sido convocada a fazer trabalho militar fora da cidade, e que ela também tinis sobrevivido, trouxe nova vida aos seus olhos. Apesar disso, depois de uma semana suas feridas se recusavam a fechar e, sem nenhum aviso, ele caiu num sono profundo e morreu.

Agora sua mãe voltava ao lugar onde o horror começara. Lá a área circular da "zona de destruição total" podia ser vista claramente. Com exceção da Cúpula, da estrutura do Banco Sumitomo e de algum raro tanque de água surgindo da terra, a paisagem era uma extensão plana em todas as direções até um círculo de ruínas de concreto, quase equidistante à casa da senhora Matsuda. O campo de escombros cinza e marrom era interrompido por alguns amores-de-hortelão e por flores silvestres.

Como Gen se abaixara para apanhar uma moeda no pátio do colégio, o filho da senhora Matsuda parecia estar se ajoelhando e mexendo em algo que estava no chão no Momento Zero. A figura dele capturada pelo clarão e projetada sobre uma parede do jardim era testemunha disso. Somente a metade inferior da parede permanecia em pé para contar a história, mas era o suficiente. Folhas e videiras o circundavam, enquanto ele se abaixava para tocar uma abóbora ou arrancar capim. Quando a bomba produziu o clarão sobre Toshihiko, as folhas das parreiras deveriam estar se movendo com a brisa matinal, de modo que suas pontas estavam definidas com tanta clareza que a imagem tinha sido, sem dúvida, criada mais rapidamente do que a reação de urna folha ao vento.

Através de Hiroshima e Urakami, por quilômetros ao redor, asfalto e tinta embranqueceram sob a luz; a madeira queimou e, em cada parede de pé, janelas com sombras, imagens de postes telefônicos, árvores, varais e até mesmo das pessoas indicavam a direção dos clarões e apontavam inequivocamente ao hipocentro de cada uma das cidades.

O fenômeno era exatamente análogo ao que acontece quando um relógio de pulso protege uma pequena área de pele da luz do sol e deixa a imagem da sombra do relógio e da pulseira. A diferença, nesse caso, era uma questão de grau e intensidade. As sombras de Hiroshima e Nagasaki agiram muito mais rapidamente, e com maior ferocidade.

Apesar de mais de 60% do corpo de Toshihiko ter sido protegido do clarão — e misericordiosamente seu rosto foi mantido sob a sombra do chapéu — no final não fazia diferença. Perto do Banco Sumitomo e da borda externa do hipocentro, os raios gama tinham pintado fragmentos de vidro com belos tons de violeta. Se naquele lugar houvesse diamantes, teriam ficado azuis, verdes ou vermelhos.

Cavando sob o campo coalhado de telhas e cinzas de sua casa, a mãe de Toshihiko encontrou seis contas de vidro deformadas. Eram as bolas de gude de seu filho. O pika ou as espirais de fogo que vieram depois, ou ainda a combinação de ambos, tinham-nas derretido e transformado-as em bolhas semitransparentes.
Sessenta e três anos mais tarde, Nenkai Aoyama sentiria o peso do tempo e a improbabilidade do peso de duas bolinhas de gude derretidas que um dia pertenceram "a um garoto da quadra". A casa de Nenkai estava ainda mais perto do hipocentro do que a de Toshihiko. Aos 17 anos, Nenkai tinha sido convocado para um projeto de construção de casas a quase dois quilômetros da sua, descendo o rio. Era um trabalho importante, disseram-lhe — "Uma preparação para a defesa final do Japão".

Às 7 horas da manhã de 6 de agosto, ele ainda não tinha terminado o café da manhã quando sua mãe lhe disse para se apressar, apesar de ele poder facilmente percorrer a distância de casa ao trabalho com tempo de sobra.

"Vá, apresse-se!", sua mãe disse, empurrando-o para fora de casa.

"Tchau", ele disse, perplexo.

Essa foi a última conversa que Nenkai teve com sua mãe. Sua casa era parte de um templo budista, localizado logo ao lado da Cúpula de Hiroshima. O hemisfério de ar comprimido que desceu pelos lados da torre da Cúpula parecia ter atingido o templo de pedra e madeira por cima e pelos lados. Depois que os incêndios se extinguiram e Nenkai voltou ao hipocentro como sobrevivente e residente mais próximo, ele já não podia mais encontrar sequer o rastro dos alicerces. Tudo desaparecera. Ele não podia nem imaginar como começar a procurar sua mãe.

Na outra margem do rio, sobre o mesmo lugar em que futuramente o Memorial de Hiroshima se ergueria, a senhora Shigeko Orimen teve mais sorte que Nenkai. Voltando do campo, a cinco quadras do hipocentro, ela encontrou seu filho Shigeru.

A senhora Shigeko estava sozinha. Um filho tinha sido levado do primeiro ano da escola secundária para a marinha, e seu maride fora convocado pelo exército aos cinquenta anos. No dia do pikadon, Shigeru, de 11 anos, era tudo o que a senhora Shigeko tinha.

Em Hiroshima — como em todo o restante do Japão —, o primeiro ano do secundário não era mais exatamente uma escola, e, por causa da preparação para a batalha final, o semestre da primavera tinha se estendido por julho e agosto. Depois dos bombardeios incendiários de Kobe, Osaka e Tóquio, o exército tinha confiscado casas de quadras inteiras da cidade, em toda Hiroshima, e convocado os alunos da escola secundária para ajudar a derrubar as casas ao longo de barreiras contra incêndios e a carregar a madeira para a reciclagem militar.

Na última manhã que o viu, a mãe de Shigeru tinha lhe preparado um almoço de pasta de soja e cevada, misturada a duas colheres de arroz, e colocado tudo numa marmita de lata com seu nome.

"Shigeru, se os bombardeiros vierem", ela disse, dando seu último conselho maternal, "se agache no chão tão rapidamente quanto conseguir".

"Entendido", ele respondeu, e saiu alegremente em sua bicicleta.

No lugar onde morreu, a apenas uma curta caminhada de uma das pontes destruídas ao lado da Cúpula e descendo o rio, os ossos de Shigeru e de seus colegas permaneciam onde tinham caído, ou, mais precisamente, onde seus pequenos corpos tinham sido esmagado no chão.

A marmita de Shigeru, com seu nome ainda nela, estava preta e totalmente prensada. Curvas eram projetadas nas quebras de suas costelas, costelas pequeninas. Sua mãe abriu a tampa e encontrou a comida lá dentro, transformada em carvão negro, como a carne de seu filho. Ainda assim, como todo fóssil, a refeição carbonizada contava uma história.

"Ah, Shigeru", sua mãe chorou. "Você morreu antes de poder comer seu almoço."


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