O último Trem de Hiroshima



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TESTEMUNHO

Depois que os sobreviventes se acostumaram às enormes piras, uma calma curiosa se instalou em Hiroshima. As reações humanas normais às negras nuvens itinerantes de moscas que se alimentavam de cadáveres tinham sido completamente amortecidas. Em 10 de agosto, um garoto que se dizia chamar Gen Pés Descalços já não reagia à cena nem com excitação tampouco com medo. Não reagiu nem mesmo quando viu um delta de rio tão cheio de corpos que, depois disso, as marés baixas que chegavam aos mangues sempre lhe pareciam criar campos de costelas que se assemelhavam a galhos.

Por muitos anos, Gen não falaria sobre o que testemunha4 ou como reagira a isso. Ele não tinha escolha. Logo, o protocolo MacArthur obrigaria todos a terem cautela no que dissessem. E, além de querer ser prudente com a censura oficial, Gen acreditava numa fábula sobre o diabo contada nos pátios escolares, que dizia o seguinte: "Se nós dermos uma espiada no inferno e falarmos sobre isso, seremos levados de volta às suas trevas".

Só muito mais tarde Gen responderia à frase do diabo, contado o que viveu a quem quisesse ouvir. Dizia que, se todos fizessem silêncio e permitissem que o inferno fosse esquecido, então era garantido que o inferno voltaria.

Dentro do Ground Zero, naquele quarto dia após a bomba, simplesmente não havia tempo para emoção ou reflexão. Gen gastou quase toda a energia que conseguira poupar até então escavando mais nos barracões destruídos do exército. A caminho de casa, ele viu uma mulher ajoelhada sobre um pedaço de concreto quebrado, batendo um crânio humano até virar um pó fino. Ele parou para observar, mas a mulher não o notou enquanto juntava o pó do crânio e o polvilhava sobre as feridas de um homem jovem deitado sob a sombra de um barraco improvisado.

'''Que coisa estranha de se fazer", Gen disse, com fria curiosidade.

A mulher não respondeu. Ela levantou a cabeça do rapaz, abriu sua boca e colocou nela um punhado de pó. O nariz do homem parecia ter sangrado pelo menos um ou dois dias seguidos, e todo o seu cabelo tinha caído. Mesmo suas sobrancelhas e cílios tinham desaparecido, e toda a superfície de sua pele estava machucada. O punhado de pó o fez tossir um grande coágulo de sangue.

“Com licença", Gen disse, tão educadamente quanto possível. “Mas por que você o está alimentando com pó de ossos?"

"Colocar esse pó nos ferimentos os faz sarar", ela explicou com uma cortesia sem emoção. "E você não morre se engolir o pó de um homem-pika."

"Não pode ser verdade. Parece loucura."

"Estúpido!", a mulher gritou, nem mais fria, nem amável. “Centenas de pessoas foram salvas assim!" Então, ela o observou melhor e ao ver que as sobrancelhas de Gen estavam perdendo pelos, ofereceu-lhe um punhado de pó de osso.

"Não, obrigado", disse Gen, e foi-se embora. Mais adiante, ele viu uma segunda mulher espalhando pó em duas crianças com queimaduras. Pelas ruínas, estranhos rumores começavam a se tornar comuns. "Todos querem tanto ajudar os feridos que vão acreditar em quase qualquer coisa que lhes disserem", Gen pensou; enquanto se perguntava quem primeiro tivera a ideia de que os ossos dos atingidos pelo pika poderiam curar.

Quando Gen chegou ao barraco, ele descobriu (não inesperadamente) que tentar cobrir sua calvície com o capacete de um bombeiro morto poderia enganar sua mãe por uma hora ou duas, por não mais do que isso.

"Diga-me", ela disse, tirando o capacete de sua cabeça, "você está sentindo dor?"

"Não", Gen disse. "Estou bem, mãe."

"Tem certeza? Não minta para mim."

"De verdade, mãe. Estou bem. Olhe todo o arroz que eu consegui encontrar e trazer."

Abraçando-o, e obrigando-o a prometer que não morreria, a mãe de Gen lhe deu um chá muito forte que ela tinha passado toda a manhã para fazer. Ela o chamou de "chá medicinal". O gosto era horrível, apesar de ter sido adoçado com um grande pedaço do"açúcar de formiga", e quando ele disse à mãe que levasse embora a xícara, ela insistiu que tomar tudo o faria sentir-se bem.

Quando Gen terminou de tomar, ele descobriu que o fundo da xícara estava coberto de um barro negro, arenoso.

"Mãe?", ele perguntou. "Esse remédio por acaso é pó de ossos?”

"Bem, sim. Como você sabia?"

Gen não tinha uma resposta. Era apenas outro estranho fato da vida após o pika-don. Sua mãe tinha posto mais do que o pó nojento em seu chá, e em retribuição ele continuou a trazer à mãe e à irmã mais baldes de arroz. As quantidades de radiação residual nos ossos e na comida eram tão grandes que se o doutor Nishi ou os cientistas que lidaram com a onda de nêutrons em Tinian passassem um medidor Geiger pelo material, seus olhos teriam se arregalado de pânico, e teriam dado alguns passos para trás. As substâncias não eram abertamente letais. Com luvas de borracha e outras precauções menores, poderiam ser manejadas com segurança. Ainda assim, ninguém que conhecesse sua verdadeira natureza iria querer aquele pó ou aquela comida em sua pele ou em seu corpo.

A mãe de Gen ainda tinha todos os cabelos e parecia apesar de que já estava numa séria complicação. Em anos futuros, Gen se perguntaria se havia uma quantidade de veneno fornecido por um filho a uma mãe e por uma mãe a um filho, em que uma dose a mais de radiação passasse a ser mera redundância. Ele pensou que deveria também perguntar quantos anjos poderiam dançar na cabeça de um alfinete.

Enquanto os sintomas da bomba atômica eram facilmente visíveis em Gen, a doença de sua mãe ficaria escondida numa anemia progressiva, depois em leucemia crônica, progredindo para câncer de ossos. Quando finalmente morreu e foi cremada, Gen seria confrontado com o mistério de um corpo convertido inteiramente em cinzas. Ele já tinha visto corpos cremados o suficiente em Hiroshima para saber que os ossos, mesmo se frágeis e fáceis de esmigalhar, ainda mantinham sua forma original.

“Maldita seja", Gen gritaria para a bomba, para as mentes que a conceberam e para as mãos que a fizeram nascer. Apesar de o médico-legista ter-lhe enumerado muitas razões pelas quais o esqueleto se desintegrara, Gen não podia acreditar que a radiação consumira os ossos da mãe; e que continuaria comendo-os mesmo depois da morte.

E, uma noite, um grito subiu até as estrelas impassíveis: "Devolvam-me! Devolvam-me os ossos de minha mãe!".
POEIRA E FUMAÇA SOPRAVAM pelos alicerces do castelo de Hiroshima e do Hospital de Comunicações. O sol quase já tocava os morros, e mesmo que ainda tivesse que percorrer um longo caminho para encostar no horizonte, as ruínas incandescentes, as piras funerárias e o pó tingiam-no já de dourado, quase laranja. O efeito de lente na atmosfera poluída dava às ruínas um aspecto fantasmagórico, mesmo em plena luz do dia.

Naquela mesma tarde de 10 de agosto, enquanto a mãe de Gen lhe oferecia uma estranha poção de ossos em pó, uma garota chamada Shoda, assim como Gen quando estava em coma, parecia recobrar parte de suas forças no pavilhão de isolamento dos que padeciam da

Doença X. O doutor Hachiya, que tinha sido um andarilho-formiga, para que qualquer melhora entre essas pessoas era uma razão para ficar de bom humor. Em seus piores pesadelos, ele imaginava uma arma biológica que acabaria matando a todos que infectasse.

Por isso, a notícia de alguém que estivesse tendo uma recuperação extraordinária deixava Hachiya mais determinado a sair da cama — mesmo se as suturas repuxassem sua pele. Seu amigo, doutor Hinoi, trouxe uma bengala e o ajudou a descer até o pavilhão de isolamento onde estava a garota. Ao descer, os dois tinham os olhos voltando constantemente em direção ao hipocentro.

"Você não está curioso?", Hachiya perguntou.

"Sobre o quê?"

"Sobre o que existe lá. Como se parece, realmente, de perto?"

"Tenho pensado muito nisso", disse Hinoi. "Não tenho certeza de que quero saber. Mas..."

"Mas o quê?"

"Tenho uma bicicleta que ainda funciona — e tenho de fazer uma visita amanhã a um barco de suprimentos da marinha, atracado perto do banco destruído. Estava pensando que se talvez você tivesse vontade..."

"Então está combinado", Hachiya disse. Ele faria Hinoi retirar seus pontos de manhã cedo, e, depois da ida até o barco de suprimentos, eles organizariam, por um caminho mais longo, uma expedição até o hipocentro.

Quando Hachiya chegou ao pavilhão de isolamento, com pensamentos sobre a exploração e o desespero disputando o primeiro lugar em sua mente, a esperança passou correndo até a linha de chegada na forma de uma garota chamada Shoda, que estava apresentando sinais de melhora. O pulso de Shoda era forte, o nariz tinha parado de sangrar, e o apetite estava voltando. Ao ser chamada, Shoda respondeu com um leve sorriso para Hachiya e, pela primeira vez desde o pika-don, ele experimentava uma sensação que poder ser chamada de felicidade.

"Não se preocupe", ele disse a si mesmo mais tarde, "isso tudo não vai durar". Ao ver os outros pacientes no pavilhão, soube que não podia mesmo durar. Ao ficar sabendo que a saúde de uma garota tinha melhorado enormemente, e que não havia mortes naquele dia, o doutor Hachiya se permitiu acreditar que o pior já tinha passado. Porém, quando viu urina fresca com sangue em quase todas as esteiras, ele entendeu que o que Hinoi e os outros médicos estavam relatando era apenas um intervalo passageiro.

Duas mulheres diziam ter bolas presas em sua garganta. Hachiya e Hinoi ajudaram-nas a tossir coágulos de sangue e catarro do tamanho de bolas de golfe. Enquanto Shoda as observava, vermes saíam de suas bocas.

Hachiya saltou e pôs-se de pé, repuxando dois pontos.

"Já vi isto antes!", Hinoi disse. "Mas só acontece quando as pessoas já estão mortas. Só quando a carne do corpo começa a apodrecer e não pode mais saciar sua fome é que os parasitas abandonam seus hospedeiros."

O doutor Hachiya olhou para Shoda e pediu a Hinoi que a tirasse de uma vez do pavilhão e que a levasse para o ar livre. Shoda assentiu com a cabeça, concordando com gratidão. Enquanto ficava de pé, uma das mulheres moribundas soltou um grito abafado e de repente cuspiu uma incrível bola de catarro vermelho com vermes brancos no chão.

"Doutor?", Shoda sussurrou, tentando manter seus reflexos faríngeos sob controle.

"Sim", Hachiya disse.

"Será que existe uma operação que remova lembranças?"


PERTO DO LIMITE SUL do Ground Zero de Urakami, o engenheiro naval Yamaguchi, sua mulher, Hisako, e seu filho estavam entre as poucas criaturas que ainda se mexiam, apesar de o senhor Yamaguchi estar cada vez mais letárgico e deprimido.

O lado engenheiro de seu cérebro lhe dizia, logicamente, para ser grato por suas queimaduras de Hiroshima terem colocado sua mulher num caminho improvável até o abrigo. Contudo, o coração de Yamaguchi lhe dizia que seus irmãos estavam mortos, que seus primos estavam mortos. A mulher de um primo e com seu filho pequeno estavam mortos em sua própria casa.

A família de Hisako foi mais do que dizimada. Yamaguchi e o pequeno Katsutoshi eram tudo que ela tinha, e Yamaguchi começou a temer que mesmo esse pouco que tinha não duraria muito. Como casa, tinham apenas um túnel onde se abrigavam, e enquanto a ferida de Yamaguchi não deixava de crescer, seu braço esquerdo e todo um lado de seu rosto começaram a inchar como balões, tornando-se roxos e muito doloridos. As queimaduras em seus braços gangrenaram e delas começaram a brotar ninhos de larvas de moscas, e foi então que Yamaguchi desmaiou sem mais poder ser acordado.

Hisako tentou remover as larvas, mas alguém que parecia saber um pouco de medicina chegou ao túnel onde estavam, e insistiu que ela deixasse os vermes viverem na pele de seu marido. A ideia parecia a Hisako uma crendice popular; mas ela depositou sua fé na visitante, e resolveu que, mesmo se fosse apenas um mito, se isso levasse à cura das queimaduras e à recuperação de seu marido, acreditaria nisso. Então Hisako ajudou a recém-chegada a alimentar seu marido semiconsciente com bebidas feitas de rosa-mosqueta seca e quaisquer outras fontes de vitamina C que pudessem ser encontradas, e foi instruída a cozinhar porções de fígado de qualquer animal — mesmo de ratos — se pudessem ser encontrados. Com o tempo e a recuperação de seu marido ela ficou convencida de que, se tivesse levado o senhor Yamaguchi a um dos centros de primeiros socorros em Nagasaki — deploravelmente sobrecarregados e com falta de suprimentos —, ele provavelmente teria morrido.

Pouco a pouco, as bolhas pararam de soltar sangue, e, hora após hora, os vermes removiam a carne morta e gangrenada, chegando a um ponto em que Hisako acreditou que os ossos dos braços do senhor Yamaguchi poderiam logo ser expostos.

A visitante espalhara um pó de sementes de uva maceradas e talco nas feridas para secá-las e prevenir mais infecções. Ela também sugeriu pôr sanguessugas ao redor das piores queimaduras. explicando a Hisako que as sanguessugas manteriam o sangue circulando nas mãos feridas de seu marido, e evitariam que os dedos tivessem de ser amputados.

O senhor Yamaguchi considerava tudo aquilo bruxaria, mas, como estava quase em coma, e naquele momento a "doutora bruxa" era a única médica que atendia em casa, Hisako obedeceu às recomendações e passou incontáveis horas procurando sanguessugas e se engasgando com a amarga água mineral dada pela visitante. A mistura fedia a giz e algo misturado com pasta de soja, e tinha um gosto que lembrava iodo. No futuro, Hisako deixaria os médicos perplexos ao afirmar que, com exceção de irritabilidade e de vômitos breves, ela e o bebê não ficaram nem um pouco doentes durante a estada no túnel à beira da terra de ninguém radioativa. E, exceto por urna surdez permanente produzida por um inchaço num ouvido, Yamaguchi passaria por uma recuperação completa e impressionante.

A estranha visitante de que Hisako lembraria para sempre como seu anjo recusou os agradecimentos e oferecimentos de devoção e, como a maioria dos verdadeiros heróis, simplesmente deixou o palco da história.


MAIS DE 24 HORAS tinham passado, mas ainda assim nenhum dos médicos adicionais e dos suprimentos prometidos pelo governador Nagano tinham chegado sequer perto do Hospital São Francisco. Depois do contato inicial por um rádio da polícia, mais ou menos na hora do almoço, nenhuma notícia da mansão do governador parecia cruzar a serra.

Quando o prefeito Nishioka chegou ao escritório de Nagano, o governador estava caminhando em círculos, em estado de choque. Nishioka ficou sabendo que Nagano vivia quase em transe desde o momento em que as estimativas iniciais subiram de 50 mil mortos para mais de 75 mil, com pelo menos mais outras 75 mil pessoas gravemente feridas ou à beira da morte.

O prefeito tinha passado pelo menos um dia e uma noite inteiros entre os escombros, e se expôs ainda a uma segunda dose de radiação ao cruzar os campos de poeira radioativa para chegar à sede do governo, apenas para ser imediatamente repreendido pelo atraso. Depois disso, o governador caminhou para frente e para trás sem dizer palavra, enquanto seu chefe de Assuntos Exteriores gritava com Nishioka sobre toda a equipe que ele e o governador tinham perdido, culpando o prefeito por não avisar a todos sobre o que vira em Hiroshima.

"Se eu tivesse feito como queria e publicado um panfleto sobre Hiroshima", Nishioka disse, em sua defesa, "então vocês, gentis cavalheiros, seriam os primeiros a me acusar de espalhar rumores disparatados, e eu poderia ter sido morto a tiros por traição".

"Por mim, eu atiraria em você agora", o chefe Nakamura disse, "exceto pelo fato de que o seu couro não vale o preço das balas".

O prefeito vomitou um pouco de bile grossa aos pés do chefe de Assuntos Exteriores. Antes que qualquer um dos homens pudesse recuar, um segundo bocado saiu, mas dessa vez com manchas negras de sangue.

"O que há de errado com você?", o chefe perguntou.

"Acho que podemos chamar isso de envenenamento por radiação", o prefeito disse, e completou: "Acho que vou procurar minha mulher agora."

"Você não pode sair!", o governador gritou.

"Já estou provavelmente morto", o prefeito Nishioka disse, e pensou nas folhas manchadas de chuva negra que tinha visto no jardim do governador. Então perguntou: "Só mais uma coisa. Caiu chuva negra aqui, ontem?"

"Sim. E poeira negra também."

"Então eu suponho que logo estaremos todos no mesmo barco", o prefeito disse, e partiu.


QUANDO O DOUTOR NAGAI finalmente saiu do posto médico de São Francisco e foi até seu bairro, ele encontrou dois de seus vizinhos brigando sobre uma pilha de restos humanos carbonizados, na metade do caminho entre os alicerces de suas casas. Toda a sua roupa e a maior parte de sua musculatura tinha sido consumida pelo fogo, e uma aliança de casamento não dava pista alguma sobre sobre seu matrimônio porque tinha virado uma poça de ouro derretido que se solidificara novamente. Os dois homens sobre a pilha de mortos gritavam que o corpo era o de sua própria esposa. Um terceiro vizinho se juntou a eles, dizendo que a mulher do senhor Tanaka era "meio forte", e tentava determinar, a partir do diâmetro de uma mancha negra nas cinzas, se uma quantidade de gordura humana maior que a de uma pessoa com estatura mediana fora derramada no chão. De modo algum conseguiam ter certeza sobre a mancha de gordura, tampouco o conseguia o doutor Nagai, que continuou sua viagem morro abaixo, esperando que uma discussão desse tipo não irrompesse sobre sua amada Midori.

A menos da metade do caminho para casa, Paul Nagai tropeçou e quase desmaiou. Ele se levantou cambaleando novamente. Descendo um pouco mais, encontrou sua tia Matsu, que o impediu de cair uma terceira vez: "Você não vai querer descer até lá", ela disse.

"Por quê?"

"Porque as pessoas que você vai encontrar estão ficando loucas", a tia Matsu advertiu. "São como animais depois de um incêndio na floresta, perigosos e assustados, brigando por qualquer coisa e dispostos a fazer pequenas maldades."

Levando-o de volta morro acima, a tia Matsu descreveu discussões sangrentas sobre pedaços de louça quebrada, mas, entre tudo o que vira, o que mais parecia perturbá-la era o encontro que tivera com uma jovem mulher que, ao voltar para casa, encontrou sua avó sem ferimentos, cantando alegremente enquanto lavava roupas floridas — todas queimadas — na água negra do poço, e depois as estendia para secar.

"Estou tão feliz", a mulher disse estranhamente. "Eu nunca achei que vovó e eu fôssemos pessoas especialmente boas, mas só pode ter sido pela graça de Deus que não morremos." Então, olhando para o centro de Urakami, ela declarou: "Aquelas pessoas que foram queimadas até a morte — elas devem ter deixado Deus muito bravo, não? Devem ter provocado Sua ira".

"Você quer dizer, pessoas como a minha prima, a bebê Kimiyo?", a tia Matsu perguntou. Parecia-lhe que as idéias civilizadas de "não julgar" e "amar a teu próximo como a ti mesmo" — nas quais sempre acreditara — tinham sido perdidas e agora tudo pretendia a outro mundo.

O doutor Nagai ficou sabendo que na noite de 10 de agosto essa estranha mulher sucumbiu e começou a ter sangramentos no nariz. Por volta da meia-noite, ela morreria, com uma aparência muito envelhecida.


AMANHECER DE 11 DE AGOSTO, um cidadão abastado de Nagasaki chegou ao Hospital São Francisco trazendo — além de arroz fresco para sua mãe e para outros cem pacientes — rumores que animaram o doutor Akizuki: "Doutor, ouvi dizer que recapturamos Okinawa e lançamos as bombas atômicas dos próprios americanos sobre Washington e Nova York".

"Mesmo se fosse verdade", Akizuki disse, "nunca ficaria feliz com esse tipo de história, juro. Já não perdemos o bastante? Tudo o que temos é essa inútil matança recíproca?"

O homem voltou para casa para buscar mais suprimentos, e nunca mais mencionou nada ao doutor Akizuki sobre vencer urna guerra nuclear. No vale abaixo, Saku Shimohira, 10 anos, e sua irmã, encontraram sua mãe. Ela estava no chão, carbonizada e parecendo uma escultura. "Juntos", Saku recordaria, "nos aproximamos do corpo e chamamos 'Mãe'. Diante de nossos olhos, ela virou cinzas".
NOTÍCIAS OFICIAIS QUASE NÃO transitavam entre as duas cidades, transitavam só aquelas trazidas pelos sobreviventes. Muito pouca informação real chegava. No Hospital de Comunicações de Hiroshima, na manhã ensolarada e com ventania de 11 de agosto, o doutor Hachiva ouviu rumores sobre o ataque vitorioso do almirante Ugaki em Okinawa. Ele ainda não recebera a confirmação de que o tremor de terra que sentira duas manhãs antes era, na verdade, a devastação de Nagasaki.

Com a chegada do sol, chegaram também as notícias de que mais pessoas tinham sucumbido à misteriosa febre hemorrágica_ Muitas mulheres tinham morrido durante a noite na barraca de isolamento. Hachiya acreditava estar sentindo os primeiros sintomas de uma gripe, e se perguntava se estaria contaminado.

"É melhor que eu veja o que aconteceu lá antes de morrer", Hachiya disse ao doutor Hinoi, e pediu ao amigo que removesse todos os pontos de suas feridas e partisse com ele para a expedição sobre a qual tinham discutido no dia anterior.

"Você quer dizer, agora mesmo?"

Hachiya assentiu.

"Bem, por que não?", Hinoi disse, e deu de ombros. "Eu acordei com um pouco de gastroenterite. Se é assim que isso se chama esta manhã. É melhor irmos logo, enquanto ainda temos forças.”

"Ou antes que a excursão se transforme na peregrinação de dois homens de bicicleta com uma diarreia sangrenta", Hachiya disse, e tentou forçar uma risada. Hinoi olhava para a Cúpula distante e ignorou a piada. Ele só conseguia pensar na excursão; e traçava um mapa do caminho na cabeça, mudando-o de acordo com as estradas e pilhas de escombros cuja localização já sabia. O caminho até o barco médico parecia simples o suficiente. O ponto de partida estava dentro do Ground Zero, e os prédios tinham sido mais achatados lá do que no terreno dos morros de Urakami, pelo qual o doutor Nagai não conseguira atravessar. No centro de Hiroshima, as ruas estavam claramente visíveis, e na maioria dos lugares pareciam não ter sido atingidas por avalanches de escombros.

Enquanto Hinoi e Hachiya avançavam, os obstáculos mais difíceis que encontravam eram os fios dos bondes elétricos e seus cabos de suporte caídos obrigando-os a desviar duas ou três vezes em cada quadra da cidade. Essas pausas davam ao doutor Hachiya a oportunidade de observar as ruínas dos dois lados da rua. A maioria dos prédios tinha sido esmagada como cestas enormes de vime pisadas por elefantes. Alguns queimaram depois de ter sido esmagados. Outros simplesmente foram reduzidos a polpa. Havia lascas de azulejos e de banheiras em algumas das pilhas de escombros, indicando onde tinham sido os banheiros. Fragmentos de louça indicavam cozinhas, e pedaços com padrões de cloisonée finamente trabalhado indicaram a Hachiya que passavam pelos escombros de um bairro rico. Algum brinquedo encontrado ocasionalmente entre os destroços chamuscado ou queimado sempre o levava a realidades mais obscuras.

"O dano à cidade foi muito pior do que eu tinha imaginado", o doutor Hachiya relatou a respeito do que vira e tocara durante a expedição. Do alto do Hospital de Comunicações, ele já podia olhar em direção ao hipocentro e imaginar muita coisa.

Uma das maiores mansões da cidade provavelmente fora levada pelas correntes verticais de ar e pelas espirais de fogo. Em vez de, como as outras, ser golpeada e enterrada no chão, a casa parecia ter sido levantada como se fosse uma caixa e transportada para longe.

O patamar superior de uma maravilhosa escada de carvalho, no primeiro andar, estava bastante queimado, mas apesar disso continuava em seu lugar — no meio do bairro de Komachi, onde tudo o mais havia desaparecido — com seus corrimãos intactos.

A senhora Nagahashi, musicista famosa, tinha vivido nessa casa que era considerada a mais moderna do Japão. A residência fora projetada por seu finado marido com a colaboração do arquiteto americano Frank Lloyd Wright em uma década mais branda. Ao lado de dois pianos de cauda, armários embutidos iam do chão ao teto com urna enorme coleção de discos de 78 rpm.




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