O último Evangelho David Gibbins



Baixar 1.25 Mb.
Página8/21
Encontro02.07.2019
Tamanho1.25 Mb.
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   21

CAPÍTULO 10
O homem vestido com a sotaina preta passou pelo baldaquino em direção ao molhe de Santo André, fazendo o sinal da cruz em direção ao elevado altar quando passou em sua frente. Ele era alto, já no final da meia-idade, com feições finas e aquilinas e óculos de pessoa estudiosa, mas com a energia sem dureza de um jesuíta que passou anos no campo. Fez um breve gesto de cabeça para a guarda suíça que estava parada perto da baixa via de acesso dentro do molhe, depois olhou para trás, para o baldaquino. Os grandes pilares pretos que haviam sido moldados por Bernini com o bronze tirado do Panteão, o templo pagão para todos os deuses, fora aqui transformado em um esplendor barroco e atraía a atenção sob a cúpula da maior igreja da cristandade. Para aquele homem, este lugar sempre fez com que a sensação de domínio romano sobre a natureza parecesse insignificante, fraca, assim como o lugar fazia parecer insignificantes as pessoas que ficavam hoje numa posição mais baixa que ela. Era um lugar onde tudo podia mostrar a ascendência da Santa Sé, sobre uma congregação muito maior do que poderia ter sido imaginada pelos imperadores na época de Cristo.

Ele aspirou o ar, e enrugou levemente o nariz. O ar parecia pesado com a exalação de milhares de peregrinos e turistas que haviam passado por lá naquele dia, como em todos os outros. As pessoas eram o poder da Igreja, entretanto o homem achava a realidade da humanidade desagradável e era sempre aprazível passar distante, dentro dos santuários dos que receberam as ordens sacras. Lembrou-se por que estava ali naquela noite. O homem recomeçou a andar a passos largos e retomou propositadamente seu caminho descendo as escadas que davam para a gruta debaixo da nave da Igreja, descendo até o nível do declive romano onde antigamente havia existido um hipódromo de Calígula e de Nero e uma cidade dos mortos, escavada dentro da rocha. Agora era o cemitério dos papas, e o venerado lugar de repouso de são Pedro. O homem fez novamente o sinal da cruz enquanto passava por aquele lugar sagrado, depois foi desviando por entre os alicerces da basílica de Constantino, o Grande, até uma outra porta e um outro lance de degraus, que levavam para as profundezas da antiga necrópole. A porta tinha sido aberta para ele, mas, enquanto passava por ela, retirou uma chave de debaixo de sua sotaina e com a outra mão movimentou uma pequena tocha. No final dos degraus, o feixe de luz iluminou paredes de pedra bruta alinhadas com nichos e reentrâncias sombrias. Agachou-se para entrar numa galeria à direita, descendo alguns degraus entalhados na rocha que davam para uma tumba vazia e inclinou-se ao longo da parede, achando rapidamente o que tinha vindo procurar. Enfiou a chave no buraco e uma porta escondida que se abria para dentro apareceu. Entrou rapidamente, depois se voltou e trancou a porta novamente. Estava dentro.

Ele ainda se lembrava de sua impressão na primeira vez em que se agachou neste lugar. Foi durante a escavação da necrópole, quando toda a atenção estava focalizada na tumba de são Pedro. Ele e outro noviço tinham descoberto esta galeria, uma primeira catacumba cristã fechada desde a Antiguidade. Ela estava mais conservada do que o restante da necrópole, com os nichos ainda rebocados e os sepulcros intactos. Tinham ido juntos, apenas os dois. Então, tinham feito sua extraordinária descoberta. Somente alguns poucos ficaram sabendo dela, o pontífice, o chefe do conselho de cardeais, o homem que detinha a posição que agora era dele, os outros membros do concilium. Este era um dos grandes segredos da Santa Sé, uma munição para o dia em que as forças da escuridão alcançassem os portões sagrados, quando a Igreja necessitasse reagrupar todas as suas reservas para lutar por sua própria existência.

Continuou a caminhar em direção a um bruxuleante reservatório de luz no final da galeria. Ao longo do caminho revisou as imagens que tinham visto naquele primeiro dia, expressões simples e rústicas daquela antiga fé que ainda o comovia poderosamente, mais visceral do que qualquer um dos ornamentos que enfeitavam a igreja acima. Cristo em um barco, atirando uma rede, uma mulher sentada ao lado dele. Cristo em fogo, ascendendo com os seus dois companheiros crucificados acima das chamas, uma montanha em chamas como pano de fundo. E nomes por toda parte, nos nichos das tumbas, nomes formados com simples mosaicos pressionados no reboco. Priscilla in Pace. Zakariah in Pace. Símbolos Qui-Rô, imagens gravadas nos cestos de pão, uma pomba segurando no bico um ramo de oliveira. Imagens que se tornavam mais freqüentes à medida que ele se aproximava da fonte de luz, como se as pessoas desejassem vivamente ser enterradas próximas daquele local, aglomerando-se ali. E então ele chegou. A galeria alargava-se ligeiramente, e ele podia ver que a luz que havia à frente vinha de velas em cada canto de um pedestal colocado no chão, uma tumba. Era uma estrutura simples, erguida alguns centímetros sobre o reboco, e coberta com grandes telhas romanas. Ele podia ler o nome rabiscado na superfície. Fez novamente o sinal da cruz, e sussurrou as palavras que outros tinham suspeitado, mas que só ele e poucos outros sabiam ser verdade. A Basílica de São Pedro e São Paulo.

Duas outras pessoas já se encontravam ali, figuras vestidas com sotainas e sentadas em nichos baixos talhados na rocha de cada lado da tumba, os rostos obscurecidos pelas sombras. O homem de novo fez o sinal da cruz. - In nomine patre, filii et spiritu sancti - ele disse. Curvou-se ligeiramente para cada um deles. - Eminências.

- Monsenhor. Por favor, fiquem sentados. - As palavras eram ditas em inglês, com um ligeiro sotaque europeu do leste. - O concilium está completo.

A catacumba estava úmida, o que mantinha a poeira no chão, mas a fumaça espiralada das velas fazia seus olhos arderem, e ele piscou fortemente. - Vim assim que recebi sua convocação, Eminência.

- Você sabe por que estamos aqui.

- O concilium só se reúne quando a santidade da Santa Sé está ameaçada.

- Durante quase dois mil anos tem sido assim - disse o outro. - Desde a vinda de são Paulo para a irmandade, quando o concilium se reuniu pela primeira vez nos Campos de Fogo. Somos soldados de Nosso Senhor, e seguimos seu comando. Dies irae, dies illa solvet saeclum infavilla.

- Amém.

- Nós aceitamos somente a verdadeira palavra do Messias, nenhuma outra.



- Amém.

- Nós já nos encontramos uma vez este ano. Já nos opusemos à busca dos perdidos tesouros judaicos do Templo. Mas agora uma escuridão muito maior nos ameaça, uma heresia que vai destruir a própria Igreja. Durante séculos soubemos disso, usamos todo o nosso poder e até a fraude para lutar contra ela. Mas agora um novo perigo surge. Aquele que pensávamos estar destruído, perdido para sempre, foi encontrado. Uma blasfêmia, uma mentira, meios de ataque do Demônio.

- O que o concilium quer que façamos?

A voz, quando respondeu, estava dura como o aço, gelada, uma voz que impedia qualquer argumentação, que não admitia réplica.

- Procurem-no.
O céu apresentava faixas douradas enquanto Jack dirigia o helicóptero Lynx em direção às luzes de aterrissagem na popa do Seaquest. Ele levou menos de uma hora para voar para o sul da baía de Nápoles, seguindo o contorno da massa escura das montanhas da Calábria e depois dando uma guinada em direção à posição do navio, cerca de dez milhas ao norte do estreito de Messina. O anoitecer estava claro, quase translúcido, o ar limpo e o mar ondulado pela leve brisa expi¬rante que vinha do oeste, mas quando o rotor bateu fortemente no propwash de ambos os lados do navio, foi como se estivessem descendo através de um redemoinho de água, as luzes de aterrissagem iluminando o borrifo da água como um ciclone rodopiando na popa. O Lynx parou com um barulho alto e Jack esperou os rotores pararem antes de soltar a fivela da correia e abrir a porta, soltando uma exclamação de satisfação para o chefe da equipe que estava amarrando os pontões ao convés. Jack retirou o capacete, esperou que Costas e Maria fizessem o mesmo e depois saiu e conduziu-os direto para uma escotilha no final dianteiro do heliporto. Momentos depois encontraram-se no laboratório de conservação em alto-mar e a porta fechou-se atrás deles. Jack escolheu uma estação de trabalho com um computador no console em um dos lados e uma mesa com luz do outro lado, ativou um bulbo fluorescente em um braço de metal retrátil acima da mesa e sentou-se. Retirou de seu jaleco de vôo um rádio transmissor e receptor e pressionou o canal de segurança da IMU. Ouviu-se um estalido e ele falou no receptor. - Maurice, aqui é Jack. Estamos no Seaquest, sãos e salvos. Eu o manterei informado. Câmbio. - Esperou uma confirmação, depois colocou o rádio ao lado do monitor e pôs a correia da mochila caqui, que tirou do pescoço, em seu colo e enfiou um par de luvas de borracha que pegou em uma caixa debaixo da mesa.

- Você acha que ele pode agüentar firme? - perguntou Costas.

- Maurice? Ele é um profissional. Ele sabe exatamente como fechar uma escavação. Tudo que precisa fazer é dizer que o túnel não é seguro, está em perigo de desmoronar, e eles vão fechá-lo com tábuas. De qualquer modo, eles não querem que se faça esta escavação. E ele conseguiu Anúbis para abastecer a imprensa, o que é mais do que o suficiente para lhes mostrar que a arqueologia foi encerrada. Estamos prosseguindo com o plano revisado. A Reuters foi avisada, mas não sobre a biblioteca. Logo que soubermos para onde isto está nos levando, eu darei um telefonema para expor o assunto todo. Maria tirou centenas de fotografias digitais, e elas estão todas aqui. Parecem-se com aquelas primeiras vistas da tumba do faraó Tutankamon. É absolutamente sensacional, um material de primeira página. As autoridades não terão escolha a não ser abrir o local, para que o mundo possa ver o que nós vimos.

- Eu vou voltar para ficar com Maurice assim que tivermos acabado aqui - disse Maria.

- Isto é crucial, Maria. Você pode manter a pressão sanguínea dele baixa. Vocês dois formam obviamente uma ótima equipe. - Ele sorriu para ela, depois abriu sua grande mochila. - Agora, vamos ver o que conseguimos.

Segundos mais tarde, o achado extraordinário que Jack havia tirado da câmara da vila estava diante deles na mesa iluminada. Ele dava a mesma impressão que Costas e Jack tiveram quando o viram pela primeira vez, com cada lado do manuscrito enrolado ao redor de uma vara de madeira, um umbilicus, e linhas visíveis com a antiga escrita onde o manuscrito ficava aberto entre as partes enroladas. Jack colocou dois pequenos protetores com fios retrateis nas extremidades de cada umbilicus e cuidadosamente puxou o rolo estendendo-o em toda a sua extensão, cada fio preso na extremidade da mesa iluminada e atado a um dispositivo mecânico que controlava o movimento rotacional. Agora podiam ver a coluna inteira do texto, semelhante a uma página de um livro moderno. - É assim que os gregos e os romanos lêem estes manuscritos de lado a lado, desenrolando-o para revelar a página dessa maneira a cada vez - disse Maria. - As pessoas pensam com freqüência que os manuscritos eram difíceis de manejar porque assumem que eles foram escritos como um texto contínuo de uma extremidade à outra, e desenrolado aos poucos a cada vez. De fato, eles eram tão convenientes quanto um códice, um livro moderno.

- Temos uma sorte incrível por poder ver uma coisa como esta - murmurou Jack. - Os manuscritos carbonizados encontrados na vila no século XVIII levaram anos para ser desenrolados, milímetro por milímetro. Mas tudo o que vimos naquela sala está incrivelmente bem preservado, e parece haver algum tipo de resina ou de cera no papiro, o que significa que ele ainda está flexível.

- Parece que dois parágrafos foram escritos por uma mão, com uma seção no meio escrita por uma mão completamente diferente - disse Costas.

- Você tem razão - disse Maria. - O texto principal é como uma página impressa, escrita pela mão exercitada de um copista, um escriba. A outra escrita é um pouco espalhada, se parece mais com uma escrita à mão pessoal, legível, mas certamente não é a escrita de um copista.

- O que são estas manchas grandes?

- De início pensei que elas pudessem ser sangue, mas depois as cheirei - disse Jack. - Elas são as mesmas que vi espalhadas sobre a mesa na câmara. São manchas de vinho.

- Vamos confiar que o vinho era de uma boa safra naquela última noite - murmurou Maria.

Costas apontou para uma papeleta colada no topo do manuscrito, como uma etiqueta. - Então, este é o título?

- Eram chamados sillybos - disse Jack, concordando. - Plinius, Historia naturalis. Eu estava certo. Este manuscrito foi tirado de entre aqueles que estavam no cesto perto da porta, indubitavelmente é um texto completo. Eu ainda mal posso acreditar nisso. Nada como isto sobreviveu em nenhum outro local da Antiguidade, a primeira edição de um texto escrito por um dos escritores mais famosos do período clássico.

- Posso perceber isso - disse Costas. - Mas por que estamos sendo tão reservados a respeito disso?

- Certo. - Jack apontou para a linha superior do manuscrito. - O primeiro indício foi a palavra Iudaea. Plínio, o Velho, menciona a Judéia em vários lugares. Ele nos relata a origem e o cultivo da árvore balsâmica, e fala a respeito de um rio que seca em cada Sabá. Isso é típico de Plínio, uma mistura de história natural competente e de fábula. Mas a discussão principal se encontra em seu capítulo geográfico, onde ele nos relata tudo o que ele pensa que vale a pena acerca do lugar. É isto que conseguimos aqui. - Jack abriu a moderna edição da História natural de Plínio numa página marcada do livro, e apontou-a com um dedo. Eles podiam ver o original em latim do lado esquerdo, e a tradução em inglês do lado direito. Leu em voz alta a primeira linha:


Supra Idumaeam et Samariam Iudaea longe lateque funditur. Pars eius Syriae iuncta Galilaea vocatur.
Jack olhou atentamente para a primeira linha do manuscrito, depois de novo para o texto impresso, lendo-o novamente em voz baixa. - Elas são idênticas. Aqueles monges medievais que transcreveram isso fizeram-no de forma correta, afinal. - Ele leu a tradução. - Além de Edom e de Samaria estende-se a ampla vastidão da Judéia. A parte da Judéia que se junta com a Síria é chamada Galiléia.

- Então começou a percorrer o texto, seus olhos movendo-se rapidamente da tradução para o manuscrito e de volta à tradução, fazendo uma pausa ocasionalmente quando a falta de pontuação no manuscrito tornava difícil prosseguir.

- Plínio estava fascinado pelo mar Morto - murmurou. - Aqui, ele nos conta que absolutamente nada podia afundar nesse mar, e como mesmo os corpos de touros e de camelos flutuavam ao longo dele. Ele gostava desse tipo de coisa. Esta é a dificuldade. Ele estava certo a respeito do mar Morto, mas havia outras maravilhas sobre as quais ele escreveu que são inteiramente fabulares, e Plínio não era muito bom em distinguir fato de ficção. Se ele tinha algum tipo de princípio diretor, era o de incluir tudo que escutava. Ele confiava quase inteiramente em fontes de segunda mão.

- Pelo menos em Cláudio ele encontrara um informante confiável - disse Maria. - Um erudito bastante sólido, de acordo com a opinião geral.

- Aqui vamos nós - disse Jack. - Isto é logo antes da disparidade no texto do manuscrito, antes que mudem os estilos da escrita. Iordanes aminis oritur e fonte Paniade. A fonte do rio Jordão é a nascente do Panias. - Depois há uma descrição mais longa:
In lacum se fundit quem plures Genesaram vocant, xvi p. lomgitudinis, vi latitudinis, amoenis circumsaeptum oppidis, ab oriente Iuliade et Hippo, a meridie Tarichea, qui nomine aliqui et lacum appellant, ab occidente Tiberiade aquis calidis salubri.

Ele se expande em um lago comumente chamado mar de Genesaré, dezesseis milhas de comprimento e seis de largura, limitado pelas agradáveis cidades de Iulias e Hippo ao leste. Tarichae ao sul, sendo que algumas pessoas também dão ao lago o nome de cada um desses lugares, e Tiberíades, que possui fontes quentes saudáveis no oeste.
Jack apontou para um mapa que tinha colocado no outro lado da mesa iluminada. - Dessa vez ele não fala sobre o mar Morto, mas sobre o mar da Galiléia, cerca de oitenta milhas ao norte na parte superior do vale do Jordão. Genesaré era o nome romano para ele, assim como o moderno nome hebraico Kineret. Tiberíades é hoje a principal cidade no mar da Galiléia, um recanto popular. Ele se enganou quanto a Tarichae, ela não fica ao sul, mas a oeste, algumas milhas ao norte de Tiberíades. Tarichae era o nome romano para Migdal, o lar de Maria Madalena.

- O lugar onde Jesus começou seu ministério - disse Maria.

Jack assentiu com um gesto de cabeça. - Ao longo da margem ocidental do mar da Galiléia. - Fez uma pausa e sentou-se novamente. - Agora estamos chegando à disparidade no texto do pergaminho. Não há nenhuma disparidade no texto moderno impresso, baseado na transcrição medieval, que continua direto falando sobre betume e o mar Morto.

- Então, o nosso manuscrito deve ser uma versão posterior - murmurou Costas. - Talvez fosse um em que ele estivesse trabalhando quando morreu, com atualizações e alterações.

- Ele pode ter pedido ao seu escriba para fazer uma cópia deixando lacunas, onde achava que era provável que fizesse acréscimos - disse Maria. - E essa podia ser a cópia que trouxera consigo para Cláudio.

- A História natural era um processo orgânico, e é difícil acreditar que uma mente que estava sempre à procura de novos dados como a de Plínio fosse capaz de deixá-la isolada, completamente terminada - disse Jack. - E lembrem-se, mais lugares estavam sendo conquistados e explorados pelos romanos a cada ano, de modo que havia muita coisa para acrescentar. Cláudio devia ter sido capaz de contar muito mais coisas que eram novas para Plínio sobre a Grã-Bretanha, especialmente pelo fato de que, como sabemos, ela estava em primeiro lugar na mente de Cláudio na época da erupção, com a sua própria história da Grã-Bretanha em andamento. E se Plínio sobreviveu à erupção do Vesúvio, minha impressão é que ele tinha um capítulo completamente novo sobre vulcanologia para acrescentar.

- Você pode ler o que está escrito no espaço com outra letra? - perguntou Costas.

- Eu meramente posso lê-lo - disse Jack. - Ele está escrito por uma mão completamente diferente daquela que escreveu o texto principal no pergaminho, com linhas finas e desiguais, meticulosas. Não tenho dúvidas de que esta é a verdadeira mão de Plínio, o Velho. - Jack teve uma visão momentânea, de repente, sentiu-se transportado, de volta, para aquela sala escondida na vila, quase dois mil anos atrás, ao pé do vulcão ameaçador, a tinta ainda acabando de secar e as manchas de vinho ainda cheirando a uvas e álcool, como se os personagens em cada lado dele não fossem Maria e Costas, mas Plínio, o Velho, e Cláudio, incitando-o a juntar-se a eles na exploração da última revelação de seu mundo.

- Bem, fale logo - disse Costas, olhando para ele de maneira interrogativa. Jack saiu de seu devaneio e debruçou-se sobre o texto. - Certo. Aqui vai.

Aqui é onde aparecem os nomes, as palavras que vi quando descobrimos o manuscrito. O motivo para o segredo. - Deu uma olhada para Costas, depois fez uma pausa, examinando cuidadosamente o texto para localizar o início e o fim das sentenças e para pôr o latim em inglês e numa ordem coerente. - Eis a primeira sentença:


Cláudio César visitou este lugar com Herodes Agripa, quando eles encontraram o pescador Josué de Nazaré, aquele que os gregos chamavam Jesus, que meus marinheiros em Misenum chamam agora de Cristos.
Jack sentiu como se ele tivesse soltado um raio junto com trovão. Fez-se um silêncio ensurdecedor que foi quebrado por Costas. - Cláudio César? Cláudio, o imperador? Você quer dizer o nosso Cláudio? Ele encontrou Jesus Cristo?

- Com Herodes Agripa - sussurrou Maria. - Herodes Agripa, rei dos judeus?

- Assim parece - replicou Jack com voz rouca, tentando manter a voz sob controle. - E ainda há mais. - Ele leu lentamente: - O nazareno deu para Cláudio sua palavra escrita.

- Sua palavra escrita - repetiu Costas lentamente. - Um compromisso, uma espécie de promessa?

- Eu traduzi literalmente - disse Jack. - Tenho certeza de que isto significa algo escrito.

- Sua palavra - murmurou Maria. - Seu evangelho.

- O Evangelho de Jesus? A palavra escrita do Cristo? - Costas sentou-se subitamente, com o queixo caindo de assombro. - Santa Mãe de Deus. Percebo o que você quer dizer. O segredo. Herculano, a Igreja, tudo. Isto é exatamente o que eles mais temeram.

- E, no entanto, isto é algo que muitos esperaram sem esperança que algum dia pudesse ser encontrado - disse Maria, quase num sussurro. - A palavra escrita de Jesus de Nazaré, com sua própria mão.

- Será que Plínio sabe o que aconteceu com isto? - perguntou Costas. Jack terminou de acertar as sentenças seguintes em sua mente e leu a tradução em voz alta:
Genesaré, que é Kineret na linguagem local, é dito derivar da palavra para o instrumento de corda ou lira, kinnor, ou de kinnara, a fruta doce e comestível produzida por uma árvore cheia de espinhos que cresce na vizinhança. E, em Tiberíades, existem fontes que restauram a saúde de maneira notável. Cláudio César diz que beber daquela água clareia e acalma a mente, que soa para mim como ingerir morfina.
- Ah - exclamou Costas. - Morfina. Eu queria que Hiebermeyer visse isso.

Jack fez uma pausa, e murmurou em voz baixa. - Vamos, Plínio. Continue com isso. - Ele leu o que vinha depois para si mesmo, resmungou impacientemente e depois repetiu em voz alta. - E o mar de Genesaré, na verdade um lago, fica muito abaixo do nível do mar do Meio ou Mediterrâneo. E, enquanto o mar de Genesaré é de água fresca, meu amigo Cláudio me lembra que o mar Morto é notavelmente salgado, e parte dele não é água, mas betume.

- Meu amigo Cláudio - repetiu Costas, pesando as palavras. - Este é um belo deslize, não é? Quero dizer, acho que a sobrevivência de Cláudio devia ser mantida em segredo.

- Isto prova que ele estava vivo - disse Jack. - Acho que este manuscrito em particular era uma versão anotada pelo próprio Plínio, uma que ele tencionava levar embora consigo. Ela foi deixada na sala de estudo de Cláudio, provavelmente de maneira deliberada. E acho que era para o próprio benefício de Cláudio também. Vocês devem imaginar Cláudio sentado ao lado de Plínio enquanto ele escreve isto, tomando goles e derramando seu vinho, lendo sutilmente por cima do ombro do outro homem. Certamente, como sabemos pelo texto conhecido, Plínio já estava perfeitamente ciente de que o mar Morto era salgado e produzia betume.

- Ele estava lisonjeando Cláudio - disse Maria.

- Uma clássica técnica de interrogação - replicou Costas. - Nunca pare no que você já conhece, então as pessoas lhe dirão mais coisas.

- Há algo mais? - perguntou Maria. - Quero dizer, sobre Jesus? Plínio parece ter se perdido em uma digressão.

- Talvez haja - disse Jack. - Mas há um problema.

- Qual?

- Olhe para isto. - Jack apontou para o final da disparidade de letras no texto do manuscrito, depois para a margem do lado direito. - Li tudo o que podia no texto díspar. Mas você pode ver no final que algumas poucas linhas foram manchadas, apagadas. Depois ele escreveu alguma coisa na margem ao lado delas, muito menor. Ele não tinha reabastecido sua tinta, talvez até mesmo deliberadamente, de modo que é quase ilegível. Dá a impressão de que ele tinha escrito no fim da seção com sua letra algo que desejava ter na edição publicada, depois pensou melhor naquilo e apagou o que tinha escrito, depois pensou mais um pouco e colocou uma nota na margem, talvez uma nota para si mesmo que não queria que ninguém mais lesse.



- Mas você pode lê-la - disse Costas.

- Não exatamente. - Jack girou a plataforma giratória até que o manuscrito ficasse a noventa graus, depois puxou uma lente de aumento presa a um braço retrátil e a colocou sobre as linhas minúsculas da escrita, muito pouco visíveis na margem. Ele empurrou sua cadeira para trás para que Maria e Costas pudessem dar uma olhada. - Digam-me o que pensam.

Ambos abaixaram a cabeça, e Costas falou imediatamente. - Isto não é latim, é? Algumas destas letras me parecem familiares. Há um lambda, um delta. Será que é grego?

- São letras gregas, mas não é a linguagem grega - murmurou Maria. - Parece ser o precursor do alfabeto grego, aquele que os gregos adotaram do Oriente Próximo. - Ela olhou para Jack. - Você se lembra do curso do professor Dillon em Cambridge sobre a história antiga da linguagem grega? Já faz um bocado de tempo agora, mas tenho certeza de reconhecer algumas daquelas letras. Será semítico?

- Você é a estrela da lingüística, Maria, não eu. O professor orgulhava-se de você. De fato. Ele ainda ele ainda se orgulha, como demonstrou quando eu falei com ele do Lynx. Quando peguei este manuscrito da prateleira em Herculano, dei uma olhada na escrita e tive um súbito pressentimento. Pedi a Dillon para nos enviar sua última versão do Projeto Hanno para baixarmos aqui. Ele deve estar em operação agora.

- Jack! - exclamou Costas. - Computadores? Você fez tudo sozinho?

Jack fez um gesto em direção ao teclado ao lado dele. - Não se preocupe. Ele é todo seu.

- O Projeto Hanno? - perguntou Maria.

- Dois anos atrás, nós escavamos um antigo naufrágio de navio na altura da Cornualha, não longe do campus da IMU. Costas, você se lembra do Mounts Bay?

- Hein? Sim. Fazia frio. Mas havia grandes peixes em Newlyn, onde se localiza uma das maiores frotas de pesca do Reino Unido. - Costas estava sentado na frente do computador, e digitava ativamente. Ele se voltou e olhou para Jack. - Eu peguei o que o professor Dillon mandou. Você quer ver?

Jack assentiu com a cabeça, e Costas empurrou a lente de aumento e posicionou um braço móvel com um escâner sobre a margem do manuscrito. Jack voltou-se para Maria. - Era um naufrágio de um navio fenício, o primeiro encontrado em águas da Grã-Bretanha, datava de quase mil anos antes da chegada dos romanos. Encontramos lingotes gravados com letras fenícias, e uma misteriosa placa de metal coberta com escrita fenícia. Dillon tem trabalhado sobre ela desde então. Nós chamamos a tradução de Projeto Hanno por causa de um famoso explorador cartaginês. Apenas um nome tirado de um chapéu.

- Então, você acha que a escrita no manuscrito é fenícia?

- Eu sei que é.

- Plínio conhecia o fenício?

- O fenício era semelhante ao aramaico falado ao redor do mar da Galiléia na época de Jesus, mas isto pode ser uma coincidência. Não, eu acho que isso tem a ver com Cláudio. Você se lembra dos manuscritos na prateleira inferior em sua sala? Era sua história de Cartago, seu maior trabalho histórico, um que se pensava estar completamente perdido, mas que agora foi milagrosamente descoberto. Bem, Cláudio teria aprendido esta língua para poder ler nas fontes originais a linguagem falada pelos mercadores fenícios que fundaram Cartago. Ela era virtualmente uma língua morta na época da Roma Imperial, e acho apenas que este é o tipo de coisa que posso imaginar Cláudio ensinando para Plínio no tempo livre que passavam juntos depois de terminar de escrever, além de tomar vinho e jogar dados. Então, quando Plínio resolve colocar esta nota, ele escolhe esta linguagem, que era virtualmente um código. Cláudio está observando e teria ficado contente e lisonjeado por isto também.

- Eles devem ter sido as únicas pessoas por lá que podiam ler esta língua.

- É isso mesmo.

- Está pronto - disse Costas. - Há quatro palavras que a concordância identificou como transliteração, que são nomes próprios, e foram traduzidas primeiro em latim e depois em inglês para nós. Uma palavra é Cláudio. A outra, Roma. E as outras palavras estão todas no léxico fenício de Dillon. Há uma aqui que até eu sei. Bos, touro. Eu lembro dela do Bósforo.

O coração de Jack acelerou com a excitação. Podia ser isso.

- Está aparecendo na tela agora.

Maria e Jack ficaram atrás de Costas. Na parte superior do escâner podiam ver que o manuscrito tinha sido aumentado, com as letras em estilo grego muito mais claramente visíveis agora. Abaixo delas havia a tradução:

Haec Implacivit Claudius Caesar in urbem sub sacra bos iacet.

O que Cláudio César me confiou está em Roma debaixo dos touros gêmeos.
Jack olhou fixamente de novo. Sua mente estava acelerada. Apenas um dia depois de encontrar o navio naufragado de são Paulo eles tinham se deparado com algo extraordinário, o maior prêmio entre todos. Ele sabia agora que tinha estado certo em pegar o manuscrito, de mantê-lo escondido até que seguissem a pista até o fim.

A palavra de Jesus. A palavra final, a palavra que iria ofuscar todas as demais. O último evangelho.

- Bem? - Maria disse, erguendo o olhar para ele. - Touros gêmeos?

- Eu acho que sei onde fica isso.

- O divertimento continua - disse Costas.




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   21


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande