O último Evangelho David Gibbins



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CAPÍTULO 9
Jack olhou cuidadosamente dentro da câmara oculta no final do túnel. De início, tudo que podia ver eram sombras, formas empoeiradas cinzentas, escuridão. Depois viu uma mesa, possivelmente uma mesa de pedra, e um certo tipo de estrutura de prateleiras na parede. Alguma coisa não estava certa. Depois, para seu espanto, percebeu o que era. Não havia cinza, nem lama solidificada.

- A câmara está perfeitamente preservada - ele sussurrou. Hiebermeyer ergueu o ventilador centrífugo alguns centímetros para frente dentro da câmara, e ele começou a lampejar vermelho de novo. Hiebermeyer cautelosamente lhes disse para permanecer atrás. - Esta sala é um milagre - ele replicou. - Existem outras salas em Herculano que escaparam da lama, do fluxo piroclástico. Ninguém entende realmente o que aconteceu, mas deve haver algum perito em computador da IMU que pode explicar isto. O fato extraordinário sobre esta câmara é que ela escapou também ao efeito fornalha. Isso pode ter tido algo a ver com a elevação, a câmara estava empoleirada no último andar da vila acima do nível do topo dos telhados da cidade, assumindo ares de superioridade em relação a ela. A rajada quente certamente se introduziu rapidamente e com força violenta em todas as outras partes da casa passando direto até a câmara superior, por cima daquele corpo na entrada. Mas ela deixou escapar esta câmara. Nós sempre soubemos que algo assim era possível em Herculano.

- Maurice, eu consigo ver manuscritos - disse Jack, com a voz tensa pela excitação. - Manuscritos danificados. Sem nenhuma dúvida. Em jarras, debaixo daquelas prateleiras.

- Foi isso que vi ontem - replicou Hiebermeyer, quase sussurrando. - Foi por isso que o chamei para cá. Agora você pode entender o que quero dizer. Isto realmente poderia ter se passado assim.

- Você pode imaginar o que pode estar contido nas jarras? - A voz de Jack estava rouca.

O ventilador parou de repente, e Hiebermeyer soltou uma imprecação em alemão. - Não agora. Por favor, Deus, não agora. - Ele inclinou-se sobre a máquina, e parecia estar rezando. - Eu peço profusamente perdão por tudo o que sempre disse ou pensei sobre Nápoles. Apenas mais cinco minutos. Por favor.

- Isto já aconteceu antes - murmurou Maria. - Havia uma rede elétrica manhosa em Ercolano. Os guardas não podiam ser incomodados para ligar o gerador de emergência, e nós tínhamos que sair apressados. Mas, agora, a superintendência está planejando usar perfuratriz elétrica ao redor da estátua de Anúbis, então há um pouco mais de incentivo para os guardas tomarem providências. Nós só precisamos parar de forçar o ventilador e esperar.

Jack olhou para o esconderijo escurecido com os manuscritos, quase incapaz de se conter. Fechou os olhos e respirou profundamente. Eles rastejaram para trás através da entrada até o ponto inicial. Costas estendeu a mão nas trevas perto da parede e pegou algo. - Examine isto - ele disse de maneira excitada. Segurou para cima o que tinha apanhado, e retirou a poeira. Era um disco de metal com cerca de dois centímetros e meio de diâmetro, verde-escuro e com uma figura gravada. - Parece um medalhão.

- Não é um medalhão - murmurou Hiebermeyer, olhando bem de perto. - É um sestércio de bronze, a maior base de metal indicativa do primeiro século d.C. Um pouco como uma moeda de um quarto de dólar americano.

- Ela também é o maior tipo de moeda romana, a melhor para gravar retratos. - Jack se aproximou mais de Costas. - Há algo visível?

- Nero! - exclamou Costas. - Eu consigo ler. O imperador Nero! - Passou a moeda para Jack, que olhou para ela com muita atenção, virando-a de um lado para outro sob a luz de sua lanterna. - Você está certo quanto ao nome, errado acerca do imperador - ele murmurou. - Eu estou olhando para o reverso, o lado de trás. Ele mostra NERO Cláudio DRUSO GERMÂNICO. Este é Druso, irmão do imperador Tibério. Nero era o nome de família. Druso era um dos generais romanos mais capazes, um homem decente e um herói do povo. Um verdadeiro guia no início do império, uma época de grandes promessas, mas também de grande perigo, um pouco como a América dos anos 1960, mas na época indivíduos como aqueles eram típicos daqueles períodos. Sua morte por envenenamento e depois o assassinato de seu filho Germânico foram como o assassinato de Keneddy, lançaram uma mortalha sobre toda a dinastia imperial inicial.

- Isso foi muito anterior ao nosso período - murmurou Hiebermeyer. - Druso foi assassinado em 10 a.C., durante o reino de Augusto, quase oitenta anos antes da erupção do Vesúvio.

Jack assentiu concordando, e continuou, olhando atentamente para a moeda. - A imagem no meio é a do arco triunfal em Roma, que tem em cima uma estátua de Druso montado a cavalo galopando entre troféus. Mas esta não é uma moeda de Druso. Ele nunca foi imperador. - Jack virou a moeda novamente. - Esta é uma moeda de seu outro filho, irmão de Germânico, aquele que sobreviveu à loucura de seu tio Tibério e seu sobrinho Calígula. Ela data de mais de cinqüenta anos depois da morte de Druso. A inscrição mostra TI CLAUDIUS CAESAR AVG PM TR P. Isto significa Tibério Cláudio César Augusto, Pontifex Maximus, Tribuna Potestas. O imperador Cláudio.

- Pobre Cláudio - murmurou Maria. - Cláudio, o aleijado.

- Esta é a caricatura - disse Jack. - Mas é um pouco parecida com o sentido que Shakespeare dá ao rei inglês Ricardo III, o corcunda. Cláudio era consideravelmente muito mais do que este apelido.

- Ele foi imperador de 41 a 54 d.C. - disse Hiebermeyer, olhando novamente para o ventilador centrífugo e verificando que ele ainda mostrava a luz vermelha. - Morreu em Roma um quarto de século antes da erupção do Vesúvio, provavelmente envenenado por sua esposa Messalina.

- Ele tinha má sorte com suas esposas - disse Jack. Seu único verdadeiro amor foi a prostituta Calpúrnia, mas ela também foi assassinada por volta da mesma época. - Jack fez uma pausa admirando a imagem novamente. - A cunhagem desta moeda de Cláudio sempre foi a minha favorita, uma das minhas moedas preferidas entre todas as de Roma. Ela é uma moeda rara, um retrato muito atraente. Olhe para este rosto, a sua expressão. Ele não está aleijado aqui, é um rosto bonitão, mas não há glorificação, nenhuma idealização. Podemos distinguir as feições características da dinastia Julius-Cláudio, a testa, as orelhas, aspectos herdados de seu tio-avô Augusto, e de Júlio César antes disso. Cláudio deve ter conhecido os retratos de seus ancestrais intimamente, e deve ter ficado orgulhoso ao olhar para este retrato de si mesmo, ao ver a dignidade que há nele. A fim de ver além de suas deformidades, de saber que ele compartilhava as feições de seus ancestrais venerados. Há inteligência também neste rosto, um anseio, mas também tristeza e dor. Um jovem homem com o rosto coberto de desapontamento, olhos mais velhos do que a sua idade.

- Provavelmente, ele teve paralisia - murmurou Hiebermeyer. - Paralisia cerebral, com alguns elementos espasmódicos. Não há cura, dificilmente existe qualquer tratamento paliativo a não ser copiosas quantidades de vinho.

- E o ópio? - Costas interrompeu subitamente. - A morfina? Hiebermeyer voltou-se e lançou a Costas um olhar cheio de piedade. – Nós estamos falando acerca do primeiro século d.C. Deixe a Nápoles moderna fora disso.

- Eu não estou brincando. Você escutou falar do que nós encontramos no navio naufragado?

- Mais tarde. - Jack olhou para Costas, e naquele momento o ventilador centrífugo recomeçou a funcionar.

- Falando da moderna Nápoles - murmurou Hiebermeyer. - Parece que alguém subornou o operador da rede elétrica para nos fornecer um pouco de eletricidade. Ou os guardas levantaram seus traseiros. Seja como for, nós podemos prosseguir. Como você diria. - As palavras soavam levemente absurdas no seu sotaque alemão, e Jack abafou um sorriso. Hiebermeyer empurrou os óculos para cima e lançou um outro olhar para Costas, dessa vez mais zombeteiro do que piedoso.

- Ei. Ele é um de nós afinal. - Costas devolveu o olhar com o rosto inexpressivo, depois olhou para Jack, em seguida de novo para Hiebermeyer. - Recebido e entendido.

Jack pressionou as costas contra a lateral recortada do túnel para deixar Maria passar. - Acho que está na hora da nossa especialista em manuscritos tomar a dianteira.

- Concordo com isso. - Hiebermeyer olhou de modo interrogador para Costas, que levantou o polegar com entusiasmo, depois falou seriamente. - De agora em diante, vamos tocar apenas no que for necessário. Os manuscritos em papiro que se encontram aí dentro podem estar extraordinariamente bem conservados, mas também podem estar frágeis. Mesmo nas tumbas mais secas no Egito, os papiros que não têm resina preservativa podem se desintegrar em pó com um toque. - Olhou intencionalmente para Costas. - Depois de todos os esforços que tivemos de fazer para obter das autoridades a permissão para entrar aqui, eu não quero ser o último em uma longa fila de investigadores que destroem mais do que recuperam deste local. Muito bem. O ventilador mostra a luz verde. Vamos em frente.

Alguns momentos mais tarde, Jack, cuidadosamente, ficou em pé no meio da câmara. Tinha a certeza de que era o primeiro a fazer isso em quase dois mil anos. Retirou sua máscara contra poeira e respirou com cuidado. O ar tinha um cheiro levemente penetrante e doentio, mas continha pouca poeira. Pela primeira vez ele olhou adequadamente para a sala, focalizando sua headlamp em todas as paredes ao redor, em seguida trabalhando metodicamente e voltando a ver tudo o que havia visto.

- É possível desligar o ventilador agora, Maurice? - ele murmurou. - Estou preocupado de que nossas vozes possam viajar e ser ouvidas na saída do sistema de ventilação.

- Feito. - Hiebermeyer virou o comutador, e tudo ficou sinistramente silencioso. Em seguida, ouviram o som de tinidos e de vozes distantes mais abaixo no túnel, e os queixumes da perfuratriz elétrica. - Bom. Este barulho deverá nos dar cobertura.

- Esta sala é bastante austera - disse Costas, ficando em pé atrás de Jack e olhando em volta. - Não há muita coisa aqui.

- Era este o costume romano - disse Jack. - Eles gostavam de ter o chão e as paredes cobertos com cores e ornamentação, mas muito poucos móveis.

- A sala é toda de pedra, mármore branco pela sua aparência - disse Maria. Jack olhou atentamente ao redor de novo, absorvendo o que podia, tentando encontrar um sentido para tudo aquilo. À direita, no lado sul, a parede estava perfurada por duas entradas, ambas bloqueadas com material vulcânico sólido. Ele supunha que elas davam para um balcão, que contemplava do alto a cidade de Herculano. Devia ter sido uma vista espetacular, com o Vesúvio erguendo-se a esquerda e a ampla extensão da baía de Nápoles à direita, o contorno da costa sendo visível até Misenum e Cumas. Jack mudou de posição e o feixe de luz da sua headlamp iluminou uma longa mesa de mármore, talvez com três metros de comprimento e um metro de largura, com duas cadeiras de pedra dispostas em sentido contrário ao da sacada. Sobre a mesa encontravam-se duas jarras de cerâmica, três copos de cerâmica e o que pareciam ser potes de tinta. Apenas visível e apoiada em uma perna da mesa havia uma pequena ânfora de vinho. Jack olhou de novo para o topo da mesa. Potes de tinta. Seu coração se acelerou com a excitação. Viu formas empoeiradas que poderiam ter sido papel, papiro. Estreitou os olhos. Tinha certeza disso. Forçou-se a permanecer no lugar, e virou seu feixe de luz para a esquerda. Viu as prateleiras que tinham visto da entrada, que Hiebermeyer havia visto no dia anterior. Prateleiras de livros cheias de manuscritos empilhados. Mais manuscritos se espalhavam pelo chão, da mesma maneira como Weber havia encontrado em outro local no século XVIII. Jack virou mais para a esquerda, em direção ao buraco por onde tinham entrado. Ao lado da entrada havia manuscritos em uma espécie de cesto de vime, diferentes dos manuscritos espalhados no chão, com diferentes remates arredondados aparecendo na parte final de cada um. Não havia dúvida sobre o que deveriam ser. Livros terminados.

Dirigiu seu feixe de luz novamente para a parede esquerda da sala, entre o cesto e as prateleiras, em direção a duas cabeças obscuras, bustos de pessoas colocados em uma pequena prateleira olhando em direção à mesa. Deu alguns passos cuidadosos em direção a eles. Precisava descobrir quem havia estado ali, quem tinha sido a última pessoa a se sentar naquela mesa de leitura, quase dois mil anos antes. Ficou parado na frente dos bustos, e viu que eram em tamanho natural. Por um momento pareceram ser uma aparição, como se os ocupantes da vila, naquele dia fatídico, tivessem saído da parede e estivessem olhando fixamente para ele. Jack se obrigou a olhar imparcialmente. Eram típicos bustos de pessoas do início do período imperial, extraordinariamente naturais, como se tivessem sido feitos a partir de máscaras mortuárias de cera. Cabeças bonitas, bem proporcionadas, orelhas ligeiramente protuberantes, eram nitidamente membros da família imperial. Eram tão parecidos que poderiam ter sido irmãos. Jack olhou atentamente para os pequenos pedestais debaixo de cada busto e leu os nomes.


T. CLÁUDIO DRUSO NERO

T. NERO DRUSO SEMPRÔNIO GERMÂNICO


- Druso e Germânico - sussurrou Jack.

- Os dois sujeitos que você acabou de mencionar um pouco antes? O sujeito da moeda? - perguntou Costas. - O pai e o irmão de Cláudio?

- Parece ser uma incrível coincidência - disse Maria.

A mente de Jack estava acelerada. Ele ainda tinha a moeda na mão, e segurou-a levantada de modo que a cabeça gravada ficasse emoldurada pelas cabeças dos dois bustos. A semelhança era notável. Seria possível? - Há alguma coisa a respeito desta moeda - ele murmurou. - Algo está nos encarando de frente.

- Esta moeda não é necessariamente muito significativa - disse Maria. - Esta vila era como uma galeria de arte, um museu. Os grandes proprietários de vilas na Itália, durante a Renascença, colecionavam medalhões, moedas antigas. Por que não os romanos?

- Possivelmente. - Jack olhou pensativo ao redor da câmara. - Mas acho que estamos no quarto de uma pessoa idosa, ele é despojado e possui apenas o essencial. Não se trata do minimalismo romano, e sim de uma verdadeira austeridade. Livros, uma mesa de leitura, alguns poucos retratos venerados, vinho. Sem pinturas nas paredes, nem mosaicos, nada do hedonismo que associamos com a baía de Nápoles. O quarto de alguém preparado para o próximo passo, para a vida após a morte, já tendo feito uma limpeza geral do passado. O crepúsculo de uma vida.

- Isso parece muito estranho para uma vila pródiga - disse Costas. - Quero dizer, este quarto é como um cubículo de monge.

Hiebermeyer se agachou, e ficou olhando atentamente para um dos manuscritos que estavam no chão. - Este papiro está fantasticamente bem preservado - ele murmurou, erguendo-o cuidadosamente com os dedos. - Ele é até mesmo dobrável. Eu posso ler o grego.

- Ah. Está em grego - repetiu Jack.

- O que há de errado com isto? - perguntou Costas.

- Nada. Nada de errado. Nós queremos apenas manuscritos em latim.

- Más notícias, Jack - disse Hiebermeyer, olhando atentamente para o manuscrito, depois empurrando os óculos para cima e olhando para ele. - Eu posso tê-los trazido para cá para uma busca sem esperança.

- Filodemo.

- Receio que sim.

- Pensei que os filósofos gregos fossem muito apreciados - disse Costas.

- Nem todos eles - disse Jack. - Uma série de romanos, homens educados como Cláudio, Plínio, o Velho, pensavam que muitos desses gregos eram impostores e charlatães, aproveitadores nas vilas dos mais abastados. Mas há uma grande quantidade deste material por aqui, e provavelmente era muito mais verossímil encontrar um livro de alguém como Filodemo do que de um dos grandes nomes que reverenciamos hoje. Lembrem-se, os textos clássicos que sobreviveram, que foram salvos e transcritos no período medieval, representam somente o apogeu da realização antiga, e apenas uma pequena parte dela. Eles nos dão uma falsa impressão e nos levam a pensar que todos os pensadores antigos eram mentes notáveis. Olhem para o mundo acadêmico de hoje. Para cada grande erudito, há dúzias de medíocres, os charlatães ocasionais. Mas todos eles são ainda chamados professores. Foi apenas um azar para nós que Calpúrnio Piso tenha protegido um dos menos dotados.

- Confio em Deus que nós não tenhamos nos deparado apenas com o trabalho de Filodemo - disse Hiebermeyer. - Isto sempre foi um risco, mas eu ficaria embaraçado.

- Que pena! - disse Maria, encurvando-se ligeiramente. - Um filósofo de segunda classe. É difícil acreditar que alguém estivesse tentando salvar tudo isso - ela continuou, mostrando com a mão os manuscritos espalhados pelo chão.

- Talvez eles não estivessem - disse Costas. - Quem sabe eles estavam tentando desembaraçar-se deles.

- Ou procurando por alguma coisa, como você disse antes. - Jack deu uma nova olhada para a forma macabra do esqueleto na entrada, com a mão parecendo se dirigir em direção aos manuscritos para agarrá-los. - Mas há alguma coisa a respeito desta sala. Não acho que seja a sala de estudo de um filósofo grego. Não no final, pelo menos. Ela é demasiado romana. É uma sala particular, a expressão de um indivíduo, não é para exibição pública. Não posso imaginar um grego escolhendo ter em sua sala dois bustos imperiais romanos como sua única decoração, a única coisa para ser vista desta mesa de leitura.

Hiebermeyer deu uma sacudidela no ventilador centrífugo, e a luz lampejou vermelha. - Vamos esperar mais alguns minutos - ele disse. - Acho que está tudo bem quanto ao barulho. Não acho que eles podem nos ouvir lá embaixo com aquela perfuratriz funcionando.

Voltaram outra vez para a entrada, agrupando-se em torno dela, e Jack ergueu a moeda. Olhou novamente para as estátuas, depois de volta para a moeda. Percebeu que a moeda havia sido bastante manuseada, no mesmo lugar, dos dois lados. - Talvez ela fosse a lembrança de um velho soldado - ele murmurou. - Talvez a lembrança de alguém que serviu sob o comando de Cláudio na invasão da Grã-Bretanha, ou até mesmo sob Germânico, sessenta anos antes. Um velho que venerava seu general, o irmão e o pai de seu general. - Fez uma pausa, perturbado. - Mas isto ainda é estranho.

- Por quê? - perguntou Costas. - Ela é um grande achado, mas, como disse Maria, é apenas uma moeda.

- Bem, ainda assim teria sido arriscado - disse Jack. - Você não se apega a velhas moedas, a menos que as colecione. Antigamente não era como hoje em dia, quando a razão principal por que não vemos antigas cunhagens de moedas em circulação são mudanças em denominação, ou em modificações nos tamanhos das moedas. No período romano, a pessoa simplesmente não queria ser vista com moedas de um imperador anterior. As moedas eram instrumentos importantes de propaganda, um meio vital de transmitir a imagem de um novo imperador, confirmando assim o seu poder. E o reverso da moeda era um pouco como selos de correio, imagens comemorativas que com freqüência continha propaganda ostensiva, que celebrava uma realização nacional. No caso das moedas romanas, elas ilustravam as realizações do imperador e de sua família.

- O triunfo sobre os judeus de Vespasiano - disse Costas. - Judaea Capta. A menorá.

Jack sorriu. - Como podíamos esquecer. A cunhagem daquela moeda foi feita dois anos depois da erupção do Vesúvio. Um outro famoso exemplo são as cunhagens de moedas que Cláudio mandou fazer sobre a Grã-Bretanha, celebrando sua conquista da Grã-Bretanha em 43 d.C.

- Mas esta moeda comemora seu pai. - Costas olhou para a moeda que Jack segurava, e olhou atentamente de perto com sua headlamp. - Isto parece uma coisa altruísta para um imperador fazer, até mesmo um pouco tocante. Acho que gosto deste sujeito.

- Não é bem o que parece - disse Jack. - Esta moeda data do primeiro ano do reinado de Cláudio, antes que ele tivesse qualquer coisa para se vangloriar. Referir-se a um ancestral glorioso era uma maneira de dar autoridade para sua reivindicação, lembrando para as pessoas as virtudes de seus ancestrais. Em 41 d.C., Roma havia acabado de passar quatro anos de sofrimento sob o reinado insano de Calígula, sobrinho de Cláudio. O que as pessoas desejavam desesperadamente era um retorno para os velhos costumes consagrados. Honra pessoal, integridade, continuidade da família, viver à altura de seus ancestrais, isso era muito mais o modo de vida romano. Pelo menos em teoria.

- Na Itália - murmurou Costas. - A importância da família. Soa familiar.

- Cláudio foi o imperador mais obstinado de Roma - continuou Jack. - Arrastado de detrás de uma proteção pela guarda pretoriana quando já estava na meia-idade, antegozando os anos que lhe restavam como erudito e historiador. Mas ele reverenciava a memória de seu pai, e durante toda a sua vida desejou ser bastante apto para se juntar ao exército como seu irmão Germânico, que ele adorava. Ser imperador, finalmente, lhe deu uma chance. E a aclamação de cada novo imperador, mesmo a de Calígula e de Nero, sucessor de Cláudio, era sempre acompanhada por uma declaração que prometia solenemente uma volta aos costumes do passado, o fim da devassidão e da corrupção e um retorno às virtudes de seus ancestrais.

- Será que Cláudio viveu à altura disso? - perguntou Costas.

- Ele poderia ter vivido, se não fosse dominado por suas esposas - disse Hiebermeyer.

- A Grã-Bretanha foi um grande triunfo - continuou Jack. - Cláudio estava condenado a nunca se cobrir com glória pessoal, afastando-se das ondas do Canal Inglês de modo um tanto absurdo, montado em um elefante treinado para combate, chegando a tempo de ver os cadáveres dos britânicos vencidos, mas não a tempo de conduzir suas legiões na batalha. Mas era um bom estrategista, um visionário do tipo que tinha passado sua vida estudando o império e a conquista e podia enxergar além da campanha individual, do triunfo. O mundo seria um lugar diferente hoje se Cláudio não tivesse conquistado a Grã-Bretanha. E lembrem-se, para os homens que formavam as legiões, nada poderia ser pior do que Calígula forçando-os a se dispor no lado francês do Canal Inglês e atacar o Deus do mar Netuno. Eles não se importavam de ter um aleijado como imperador, desde que ele fosse sensato. Cláudio escolheu comandantes muito capazes e fiéis, generais como Vespasiano, oficiais de médio escalão como Plínio, o Velho, e eles eram leais a Cláudio. - E os legionários veneravam a memória de seu pai e de seu irmão. - Jack fez uma pausa, e olhou novamente para os bustos. - Assim como o ocupante desta sala.

- A lealdade deles não impediu que Cláudio fosse envenenado - disse Hiebermeyer.

- Não - murmurou Jack. - Mas, para um imperador do primeiro século, este também era o costume romano.

- Falando em veneno, que história é essa de ópio? - perguntou Hiebermeyer. - Eu continuo tentando extraí-la de vocês.

- Você não vai acreditar no que encontramos naquele navio naufragado.

- Apenas diga-me. - Hiebermeyer olhou para Jack, empurrou o capacete para baixo, depois olhou para Costas. - Como vocês podem ver, sou todo ouvidos. - Naquele momento, a luz lampejou verde, e Hiebermeyer estendeu a mão e desativou o ventilador. - Vou ter que esperar.

Jack agachou-se de novo para entrar no quarto e foi direto para a mesa, perto do lado mais distante da entrada, entre as cadeiras. Examinou a superfície. Ele estava certo. Elas estavam cobertas com matéria cinzenta, mas não havia engano. Havia folhas de papel, folhas em branco, papiros. Uma folha de papiro presa com alfinetes, preparada para ser escrita. Potes de tinta, um estilo (haste pontiaguda) colocado em equilíbrio pronto para ser mergulhado na tinta, deixado onde tinha sido abandonado quando o lugar se tornou um inferno na terra. Jack desviou o olhar perturbado, depois ergueu-o de novo para os dois bustos. Druso e Germânico. Havia romanos vivos em 79 d.C. que ainda se refeririam àqueles dias gloriosos. As mortes prematuras de dois heróis significavam que sua memória continuaria viva durante gerações. Jack lembrou-se de algo que pensara antes. Um romano devia conhecer as figuras de seus ancestrais intimamente. E esta era uma sala particular, uma sala onde um homem mantinha a sua herança tradicional mais preciosa, as figuras de seus ancestrais.

Jack estava começando a pensar o impensável.



A figura de seu pai. De seu irmão.

As peças subitamente estavam começando a se encaixar. Jack experimentou um movimento impetuoso de excitação. Mais alguma coisa irrompeu em sua mente, da conversa com Costas sobre Plínio, o Velho, no dia anterior. Ele procurou dentro de sua mochila, o coração martelando, tirou o pequeno livro vermelho e colocou-o sobre a mesa, debaixo do feixe de luz de sua headlamp. Ele se apoiou no lugar em que o livro deixou sua marca na poeira, pegou cuidadosamente uma folha antiga de papiro, sacudiu-a ligeiramente, e iluminou-a com sua lanterna Maglite.

Ele riu silenciosamente para si mesmo. - Bem, eu serei condenado ao inferno.

- O que foi? - perguntou Costas.

Jack ergueu cuidadosamente o papel até a luz de maneira que os outros pudessem ver. - Olhem, vocês podem ver uma segunda camada de papiro debaixo desta, mais grossa que a camada de cima. Isto significa que a superfície é de ótima qualidade, mas o papel é reforçado, menos transparente. E a menos que eu esteja enganado, a folha mede exatamente um pé romano de lado a lado (58,9 centímetros de comprimento e 29,45 centímetros de largura).

- E daí?


Jack recolocou a folha na mesa e pegou o livro, a sua cópia da História natural. Ouçam o que Plínio tem a dizer sobre o papel. Livro 12, capítulo 79, quando fala em árvores:
O imperador Cláudio impôs uma modificação para melhorar a qualidade porque a finura do papel na época de Augusto não era capaz de resistir à pressão da pena de escrever. Além disso, permitia que a escrita fosse percebida do outro lado, e isto causava receio por causa dos borrões provocados pela escrita nas costas do papel. Além disso, a excessiva transparência do papel parecia invisível em outras circunstâncias. Assim, a camada inferior do papel foi feita com folhas de segunda qualidade, e as faixas em cruz do papiro de primeira qualidade. Cláudio também aumentou a largura da folha para 30,6 centímetros.
Hiebermeyer inclinou-se sobre a mesa e olhou de perto e com muita atenção com uma pequena lente. - E, a não ser que eu esteja errado, esta é a tinta de melhor qualidade disponível naquela época - ele disse muito excitado. - Tinta natural, com toda a probabilidade, feita a partir do pequeno besouro do deserto. Sei um pouco sobre isto, porque estudei tipos de tintas quando encontramos documentos em papiro reutilizados como envoltórios de múmia no Egito. Plínio também escreve sobre ela.

- Então vou apresentar meu argumento - disse Jack, recolocando cuidadosamente a folha sobre a mesa e olhando atentamente para os outros. - Parece incrível, mas tenho absoluta certeza de que estamos dentro do estúdio de Tibério Cláudio Druso Germânico César. - Ele ergueu a moeda, permitindo que a luz ressaltasse a figura. - Não o imperador Cláudio, não o deus Cláudio, mas Cláudio, o erudito. O Cláudio que agora acredito deve ter fingido o seu próprio envenenamento e sobrevivido durante um quarto de século depois de seu desaparecimento de Roma, escondido em um lugar retirado como esta vila. Cláudio, que deve ter morrido, assim como Plínio, no cataclismo de 79 d.C.

Fez-se um silêncio ensurdecedor, e Costas olhou de modo penetrante para Jack. - Bem - ele disse baixinho. - Esta é uma outra pequena parte da história que você vai ter que reescrever.

- E não a única parte. - Maria estava de costas para eles, e estava inclinada sobre a prateleira mais baixa no canto da sala. - Há mais manuscritos aqui, Jack. Muito mais. Muitos e muitos livros.

Jack deu a volta na mesa e todos eles se agacharam à volta dela. Ouviu-se um suspiro coletivo de perplexidade. À frente deles encontravam-se duas prateleiras atulhadas com várias dezenas de caixas cilíndricas, cada uma com cerca de quarenta e cinco centímetros de altura. - Elas estão tampadas, seladas com algum tipo de argamassa - murmurou Hiebermeyer. - Foram escavadas na rocha e tornadas côncavas, pelo aspecto parece um mármore egípcio. Elas são semelhantes aos canópicos. Nenhum gasto foi poupado aqui.

- Este aqui está aberto. - Maria pegou sua lanterna Maglite, acendeu-a e iluminou o topo do cilindro que estava do lado direito na prateleira inferior. O interior oco tinha quase 30 centímetros de largura e dentro dele puderam ver outras formas cilíndricas mais estreitas, com um espaço onde uma delas parecia ter sido removida.

- Heureca - disse Hiebermeyer baixinho.

- O que é isso? - perguntou Costas.

- Manuscritos em papiros - disse Hiebermeyer. - Manuscritos em papiro enrolados e introduzidos firmemente.

- Jack, eles não estão carbonizados - disse Maria. - Isto é um milagre.

- Vocês têm alguma idéia do que eles são? - perguntou Costas.

- Deve haver sillyboi, etiquetas descrevendo cada livro - disse Jack. - Os manuscritos não possuem lombada como os livros, por isso eram identificados com etiquetas coladas, que usualmente ficavam penduradas para fora da prateleira. Eu não vejo nenhuma aqui.

- Espere um segundo. - Maria olhou atentamente para o topo do cilindro selado próximo àquele com a tampa deslocada. - Há marcações. Gravações na pedra. Palavras em latim. Eu consigo lê-las. Carthaginia Historiae.

- A História de Cartago - sussurrou Jack. - A perdida História de Cartago, de Cláudio. Fantástico. Quem mais além do próprio Cláudio teria isso, em uma biblioteca particular?

- Espere aí, Jack. - Hiebermeyer tinha se aproximado silenciosamente do cesto de manuscritos perto da porta, e estava segurando uma ponta de um papiro preso a uma das alças decorativas do cesto. - Historiae Naturalis, G. Julius Plinius Secundus. Parece que nós conseguimos uma edição completa da História natural, de Plínio.

- Afinal, parece que você encontrou a biblioteca em latim - disse Costas.

Jack experimentou uma sensação irresistível de certeza. Olhou para o manuscrito, lembrou da sensação que tivera quando viu da sala pela primeira vez, daqueles dois bustos. - Havia alguém mais aqui, uma outra presença. Há algo mais me incomodando a respeito deste lugar - disse Jack. - Acerca de quem estava aqui.

- O que é?

- Bem, nós conseguimos o que parece ser uma cópia completa da História natural de Plínio, recém-saída do scriptorium. Como Cláudio entrou em posse disso?

Costas virou a cabeça em direção ao esqueleto perto da porta. - Talvez ele tenha mandado o eunuco comprar os livros para ele.

- Vamos simplesmente pensar a respeito - disse Jack. - Vamos dizer que eu estou certo em dizer que Cláudio estava vivendo aqui em segredo na época da erupção, em 79 d.C. E um dos fatos mais famosos da história antiga é que Plínio, o Velho, também estava aqui, na baía de Nápoles, morando em Misenum distante apenas algumas milhas, almirante da esquadra romana, e que ele morreu na erupção.

- Você está dizendo que eles se conheciam? - disse Costas.

Jack abriu nas páginas do índice de sua cópia da História natural. - Foi isso que me despertou a atenção. Plínio menciona Cláudio um certo número de vezes, sempre atenciosamente, enaltecendo suas realizações. Ele deve sua carreira a Cláudio, quando este foi imperador, mas as passagens na História natural são quase demasiado laudatórias, para um imperador que supostamente estava morto havia um quarto de século. Ouçam isto. Ele fala da realização de Cláudio ao mandar escavar um túnel para drenar o lago Fucine perto de Roma, que empregou 30 mil homens e levou onze anos, uma operação imensa "que as palavras não tinham o poder de descrever". Esta última frase é estranha, por si só. Para Plínio, absolutamente nada estava além do poder das palavras. E uma outra coisa. Ele deveria ter se referido a Cláudio como Divus Cláudio, o divino Cláudio, mantendo assim o seu status como imperador deificado, anos depois de sua divinização. Mas, em vez disso, Plínio se refere a ele como Cláudio César. E essa maneira de falar é quase demasiado familiar, quase como se Cláudio ainda estivesse vivo quando ele estava escrevendo sua obra. Os indícios estão todos aí.

- Isso faz sentido - murmurou Hiebermeyer.

- Cláudio parece ter sido um homem gregário, como Plínio era - disse Jack. - Cláudio pode ter sido forçado a viver como um recluso, mas sempre apreciou ter companhia. E Plínio teria sempre estado em busca de informantes, pessoas que pudessem ajudá-lo em seu livro História natural. Ele era um romano prático, simples e direto, e Cláudio deve ter parecido um sopro de ar fresco para ele, neste lugar que dava a impressão de estar infestado com gregos amantes do hedonismo, romanos sob o feitiço de filósofos fracos de espírito como Filodemo.

- E vice-versa - disse Maria. - Provavelmente Cláudio sentia o mesmo a respeito de Plínio.

- Cláudio devia ter admirado Plínio - continuou Jack. - Soldado, erudito, fantasticamente laborioso, um homem decente. Uma vez, Plínio teve uma visão do pai de Cláudio, Druso, dizendo-lhe para escrever a história das guerras germânicas. Com o busto de seu amado pai diante dele aqui, Cláudio teria gostado de ouvir aquela história do próprio Plínio, junto com alguns cântaros de vinho.

- Cláudio também teria sido fantasticamente instruído - acrescentou Hiebermeyer, apontando para as prateleiras. - Teria sido um verdadeiro encontro de mentes. Ele devia ter sido uma grande fonte para Plínio em relação à Grã-Bretanha, embora eu não lembre de muita coisa sobre a Grã-Bretanha na História natural.

- Possivelmente porque Plínio morreu antes de poder incorporá-la - murmurou Jack. - Ele tinha morado em Nápoles apenas por um ano antes da erupção, e provavelmente não encontrou tempo. Também era bastante sociável para o seu próprio benefício, e estava constantemente indo à casa dos amigos, das damas também. Mas Cláudio deve ter sido uma extraordinária descoberta para ele, um tremendo segredo. Acredito que Plínio esteve presente nesta sala. Pos¬so sentir que esteve. Acho que Plínio veio visitar Cláudio, e eles começaram a trabalhar juntos. Plínio deve ter dado para Cláudio a cópia mais recente de sua História natural, mas estava provavelmente pronto para fazer acréscimos, assim que percebeu a mina de ouro que havia encontrado.

- Talvez fosse para cá que Plínio estava realmente vindo quando saiu de barco em direção ao Vesúvio durante a erupção - disse Costas. - Aquela carta que você leu para mim, de seu sobrinho. Talvez ele tenha apenas dito a seu sobrinho que vinha para cá por causa de uma mulher. Quem sabe, na verdade, ele estivesse vindo para salvar Cláudio, esta fabulosa biblioteca.

- Mas ele estava muito atrasado - murmurou Maria.

- Eu estou curioso para saber o que de fato aconteceu com o velho Cláudio, e se ele realmente estava aqui - disse Costas.

- Ele estava aqui - disse Jack veementemente. - Eu posso quase sentir o seu odor. Vinho envelhecido e derramado por uma mão trêmula. Um cheiro de enxofre, talvez trazido até aqui depois de uma visita a Cumas para ver a Sibila, que nós sabemos que ele consultava quando era imperador. O cheiro de tinta natural velha. Ele estava aqui, isto é bem certo. Reconheço isso em meus ossos.

Jack caminhou de volta até a mesa de leitura enquanto falava. Havia palavras visíveis, onde elas não estavam antes. De repente, ele percebeu que a folha de papiro debaixo daquela que ele tinha pegado estava coberta com escrita, protegida e perfeitamente conservada por quase dois mil anos. Ele olhou-a atentamente e leu em seu topo:


HISTORIA BRITANNORUM CLAUDIUS CAESAR
- Meu Deus - ele murmurou. - Uma História da Grã-Bretanha por Cláudio Caesar. Você pode imaginar o que isso contém? - Examinou com cuidado as linhas de uma escrita admirável e precisa e depois olhou novamente para o título. Embaixo havia duas palavras, escritas pela mesma mão, mas menores:

NARCISO FECIT


- É evidente - exclamou Jack, com a voz rouca por causa da excitação. - Narciso fez isto. Narciso escreveu isto. - Ele olhou novamente em direção à entrada, onde a mão estendida do esqueleto era visível em seu feixe de luz. - Então, é você afinal de contas - ele murmurou consigo mesmo, depois olhou para os outros. - Vocês lembram que eu disse que Narciso era o ex-escravo de Cláudio? Bem, o seu título oficial era praepositus as epistulis, escritor de cartas. Isto encerra o assunto. Sabemos, afinal, quem era aquele esqueleto. Ele era o copista de Cláudio, o seu escriba. Sabemos que Plínio sempre teve um, e Cláudio deve ter tido um também, especialmente por causa da sua paralisia. - Jack olhou de novo para a página, depois para algumas outras páginas espalhadas por perto, sem escrita, mas cobertas por manchas de um tom vermelho-escuro como manchas de vinho. - Isto tudo é fantástico. Só espero que possamos encontrar algo escrito de próprio punho por Cláudio.

O som da perfuratriz na entrada do túnel havia parado, e uma voz de mulher estava gritando, com um pesado sotaque inglês. - Doutor Hiebermeyer? Doutor Hiebermeyer? Estamos fechando o túnel agora. Venha imediatamente para fora.

Hiebermeyer gritou de volta dizendo sim em italiano várias vezes. Maria pegou imediatamente uma câmera digital e começou a tirar fotos, calma e rapidamente, movendo-se sem interrupção e passando por tudo o que tinham visto, terminando com uma seqüência de fotos, tiradas de perto, da página escrita que estava sobre a mesa. Em seguida, recolocou a folha de papiro em branco sobre ela.

- Jack, precisamos decidir o que fazer - disse Hiebermeyer em voz baixa. - Imediatamente.

- Tão logo estivermos fora do alcance dos ouvidos desse pessoal, vou telefonar para o meu amigo da agência de notícias Reuters - disse Jack. - Maria tem agora um disco cheio de imagens, e elas podem ser enviadas diretamente por e-mail. Mas ficamos em silêncio até lá. Se vazar a mínima coisa disso agora, nós nunca veremos esta sala de novo. Você precisa jogar com a carta pericolo, Maurice, para ganharmos tempo. Dizer que nós não encontramos nada de interesse, gastamos o nosso tempo examinando alguns fragmentos de alvenaria que se salientavam da parede. É extremamente perigoso para qualquer um aventurar-se além daquela grade novamente. Diga-lhes que a perfuratriz desestabilizou ainda mais o túnel, e que houve um desmoronamento. Mas, amanhã de manhã, quando as imagens saírem, divulgadas pelas manchetes dos jornais e pelos noticiários de TV por toda parte, eles não terão escolha a não ser abrir este local. Este será um dos achados mais sensacionais jamais feitos em arqueologia. E, a propósito, Maurice e Maria. Muitas felicitações.

- Ainda não, Jack - murmurou Hiebermeyer, andando em meio aos manuscritos no chão em direção ao ventilador centrífugo. - Já passei muito tempo lidando com estas pessoas para ser otimista. Vamos adiar a festa com champanhe até este lugar se tornar mais do que simplesmente uma invenção de nossa imaginação.

- Jack, há um manuscrito aberto aqui. - Costas estava parado ao lado das prateleiras. Olhando atentamente para o nicho atrás das jarras de mármore.

- Há manuscritos por toda parte - disse Jack. - Este lugar é uma caverna de Aladim.

- Você disse que queria ver a escrita de Cláudio. Eu não tenho certeza, mas este manuscrito parece ter sido escrito com duas mãos diferentes, uma delas mostrando letras um pouco finas e desiguais. Parece que alguém acrescentou anotações nas margens.

- Provavelmente o velho louco Filodemo - comentou Hiebermeyer.

- Acho que Cláudio estava colocando fora os livros de Filodemo - disse Jack.

- Acho que ele estava abrindo espaço nas prateleiras para o seu próprio material.

- Caminhou até onde se encontrava Costas, que se deslocou para o lado, e olhou atentamente para o lugar que o outro apontava. O manuscrito estava aberto, as duas extremidades parcialmente enroladas, com alguns centímetros de escrita visível entre elas. O manuscrito parecia ser idêntico àqueles que se encontravam no cesto perto da porta, os volumes da História natural de Plínio, com os distintivos remates redondos nas alças. Alguém devia ter estado consultando o manuscrito, depois o colocou de lado aberto em uma página. A voz da mulher surgiu no túnel outra vez, áspera, aguda. Maria e Hiebermeyer já estavam de novo perto da entrada, tirando o ventilador centrífugo para fora da sala.

Jack petrificou-se.

Ele olhou novamente. Duas palavras. Duas palavras que podiam mudar a história. Sua mente estava acelerada, seu coração martelando.

Em seguida, pela primeira vez em sua vida, Jack fez o impensável. Ergueu o manuscrito, enrolou cuidadosamente as duas extremidades até que se juntassem, e enfiou-o dentro de sua mochila caqui. Ele fechou a mochila e prendeu as correias. Costas o observava em silêncio e estupefato.

- Você sabe por que estou fazendo isso - disse Jack calmamente.

- Sou bom nisso - replicou Costas.

Jack se voltou para os outros dois. - Muito bem. Está na hora de encarar a inquisição.




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