O último Evangelho David Gibbins



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CAPÍTULO 6
Jack inclinou-se sobre o parapeito, deixando-se penetrar pela cena extraordinária a sua frente quando a luz matinal começou a abrir brechas nas passagens entre árvores e arbustos e os espaços escuros abaixo. Ele se sentia cansado, tão cansado quanto jamais esteve, com a sensação de peso que sempre surgia depois de um mergulho em águas profundas. Sabia que o seu sistema ainda estava trabalhando muito ativado para pôr para fora o excesso de nitrogênio, no entanto o sentimento também provinha de uma profunda sensação de contentamento. No espaço de doze horas, ele tinha se deslocado de uma das descobertas, debaixo d’água, mais notáveis de sua carreira para um dos terrenos arqueológicos mais famosos no mundo, um local que havia deixado uma impressão indelével nele quando o visitara pela primeira vez, ainda como um aluno. Herculano. A cidade parecia mais decadente agora, negligenciada em alguns lugares, mas tinha mudado pouco com o passar dos anos, e ainda o deixava sem respiração. Quase não podia acreditar que eles eram praticamente os primeiros arqueólogos, em mais de duzentos anos, a escavar o lugar para onde estavam indo.

- Uma mensagem de texto para você, Jack. - Costas passou o celular sem olhar. Ele estava sentado de cócoras com as costas contra o parapeito, completamente concentrado em um sistema de diagramas em seu laptop. - É de Maria.

Jack leu a mensagem e resmungou. - Mais meia hora, talvez menos. São boas novas, a transação foi feita. - Ele e Costas já tinham esperado por mais de uma hora desde a aterrissagem do helicóptero, tempo bem gasto em mostrar a Costas o local ao redor, mas eles não estavam acostumados a ficar à disposição dos procedimentos burocráticos e a demora se transformava em irritação.

Costas pegou o celular de volta, e deu uma olhadela para Jack. - Eu ainda não posso acreditar que estamos fazendo isso. Pagando gorjeta. É como um procedimento de Operação França.

- É como Nápoles para você - disse Jack. - País de bandidos.

- Então onde fica a idéia de que nosso dinheiro vai para a manutenção do local, o trabalho de conservação? - Costas girou e fez um gesto em direção a um telhado coberto de pó, uma parede antiga caindo aos pedaços. - Como todo o outro dinheiro estrangeiro que foi conseguido para ser aplicado aqui no passado.

- Fui franco com o conselho de diretores da IMU - disse Jack. - Não há outra maneira de conseguir alguma coisa aqui. Se quiser trabalhar neste local, tem que soltar o dinheiro.

- Basicamente, estamos pagando um suborno.

- Não exatamente como eu expliquei ao conselho, mas trata-se do tamanho disso - replicou Jack, olhando para o relógio. - Agora, precisamos apenas esperar enquanto eles confirmam a transferência eletrônica. Você também pode manter-se no seu trabalho por um espaço de tempo maior. Eu estou retornando para o primeiro século d.C. - Jack voltou-se novamente em direção ao terreno, inspirou profundamente e soltou o ar lentamente. Como uma criança viajando ao redor do mundo ele tinha desenvolvido uma imaginação incomum, uma habilidade em usar poucas imagens para transportar-se de volta para um passado distante, quase como em um estado de transe. Mas aqui ele dificilmente precisava disso quando o passado estava diante dele com extraordinária clareza, completo em quase todos os detalhes.

Herculano era o mais raro dos locais, sem as limitações e as distorções do tempo, com poucas das complexas camadas de história vistas na maioria dos locais arqueológicos. Aqui, a cidade de 79 d.C. estava tão bem preservada que era se habitável debaixo dos edifícios do moderno subúrbio, as estruturas de tetos com superfície plana quase idêntica. Os olhos de Jack moveram-se para além dos cimos dos telhados ao cone enegrecido do Vesúvio que se elevava no fundo. Ele parecia resumir a continuidade subjacente da condição humana, e o poder indomável da natureza. Jack olhou para baixo, em direção aos estabelecimentos comerciais de frente para o mar, onde massas retorcidas de esqueletos tinham sido encontradas amontoadas em sua agonia mortal. Depois ergueu o olhar para as vilas acima, onde aquelas mesmas pessoas tinham estado comendo e conversando, vivendo sua vida diária poucos momentos antes. Tudo permanecia ali como eles tinham abandonado naqueles momentos finais de horror. Havia uma claridade ali, refletiu Jack, uma claridade extraordinária, mas também opacidade. Esmiuçar a história deste local era como observar uma animação reconstruída, em que as primeiras cenas eram lancinantes e claras, depois a seguinte era vaga, tornando-se de modo crescente fora de foco, os pequenos elementos separados se tornavam maiores, enquanto a resolução diminuía, até que as imagens que tinham sido dominadas por pessoas se tornavam submersas em sombras, com apenas os artefatos sobressaindo-se e as pessoas reduzidas a formas variáveis quase não discerníveis no fundo.

Este era o desafio para os arqueólogos neste local, refletia Jack, o de dar profundidade, de contar histórias que ocupassem o espaço de horas, dias, anos. E ainda aquela cena final apocalíptica era um chamariz contínuo, a fascinação humana com a morte, o macabro, os momentos finais da normalidade, como eles seriam. Um pouco antes, andando por entre as casas romanas com Costas, ele experimentara um desconforto curioso, como se estivesse violando os lugares íntimos de pessoas que nunca realmente os abandonaram, lugares em que ele podia ainda sentir os atos mundanos dos vivos, os odores particulares e sons da família. O que acontecera ali havia ocorrido muito rapidamente, mais depressa ainda do que em Pompéia. O local parecia ainda em estado de choque, imobilizado naquele momento logo antes que o inferno se desencadeasse. Herculano ainda parecia balançar de maneira instável, como se os terremotos das últimas semanas fossem um tremor nervoso que começara na noite do inferno quase dois mil anos antes.

- Esta é uma visão infernal. - Costas estava parado ao seu lado, e Jack foi arrancado de seu devaneio. - O passado, o presente e a explosão cósmica. Isso diz tudo.

Jack deu um sorriso cansado. - Estou contente que você também veja isto.

- Então, tudo isso é lama solidificada - disse Costas.

- Lama, cinza, pedras-pomes, lava, tudo misturado enquanto rolava como bola de neve ao descer do vulcão.

- Um fluxo piroclático?

- Você lembra de Plínio, que escreveu sobre o ópio? - disse Jack.

- Pode apostar que lembro. O comandante workaholic de uma esquadra. De alguma maneira ele encontrou tempo para escrever uma enciclopédia.

- Bem, o seu sobrinho adolescente, também chamado Plínio, estava aqui naquele dia, passando uma temporada na vila de seu tio perto da base naval em Misenum. O Plínio moço sobreviveu à erupção, o seu tio não. Anos mais tarde, ele escreveu uma carta sobre isso para o historiador Tácito, que queria saber como o Plínio velho morrera. Do ponto de vista da história natural, esse é um dos documentos mais importantes que subsistiu da Antiguidade, talvez mais importante do que a enciclopédia de seu tio. Não é somente um relato único de uma testemunha ocular sobre a erupção do Vesúvio, ele constitui também uma das melhores observações científicas jamais feitas de uma erupção vulcânica até os tempos modernos.

- Isto soa como um fragmento solto da antiga grande massa de pedra. Seu tio ficaria orgulhoso dele. - Costas observou Jack puxar um pequeno livro vermelho de sua mochila, sua capa era gasta e quebradiça. - Você parece ter um suprimento infindável dessas coisas, eu não tenho idéia de quanta literatura subsistiu daquele período.

- É o que não perdurou que me mantém acordado durante a noite - disse Jack, e virou rapidamente a cabeça em direção das ruínas diante deles. - É isso que é tão provocador a respeito deste lugar. Mas, antes de irmos até lá, ouça isto. É crucial compreender por que Herculano e Pompéia têm a aparência que tem. - Ele segurou o livro levantado de modo que o local e o vulcão ficassem como pano de fundo, e depois começou a ler passagens marcadas. - Sua aparência geral pode ser mais bem expressa como parecendo uma copa de um pinheiro em forma de guarda-sol, porque se ergue a uma grande altura em uma espécie de tronco de árvore e depois se espalha em ramos. "Imagino que parece assim porque foi empurrado para cima pela primeira explosão e depois deixado sem suporte quando a pressão diminuiu, ou então ele foi empurrado para baixo pelo seu próprio peso de maneira que ele se expandiu e gradualmente se dispersou." - Jack desceu com os dedos pela página. - Depois ele descreve cinzas caindo, "seguidas por fragmentos de pedra-pomes e pedras escurecidas, chamuscadas e rachadas pelas chamas". - Em seguida ele diz que a escuridão era mais negra e densa do que qualquer noite comum, e, no Vesúvio "enormes lençóis de fogo e chamas que saltavam no ar resplandeciam em vários pontos".

- Isto soa como uma clássica liberação de partículas de cinza e de pedras-pomes - disse Costas. Mas aquele primeiro pedaço, sobre a coluna de fumaça desmoronando por si mesma, isto é um fluxo piroclástico.

- É esta exatamente a diferença entre os dois locais. Pompéia foi enterrada por uma descida de partículas vindas do céu, misturadas com gases venenosos. Posteriormente, alguns cimos dos tetos ainda persistiam, e é por isso que eles não estão tão bem preservados hoje. Herculano foi enterrada por deslizamento de terra, toneladas de lama fervente e material vulcânico, subindo e descendo como ondas cada vez que a coluna de fumaça desmoronava até que as construções ficaram completamente enterradas, cerca de dez metros acima do topo dos telhados.

- É isto que aqueles primeiros cristãos devem ter visto - disse Costas. - Nos Campi Flegrei, quero dizer. Era o que estávamos falando durante o vôo para cá. Anéis de fogo descendo pela montanha, provavelmente a uma velocidade aterradora, na ponta de cada fluxo piroclástico.

- O Plínio moço estava observando tudo isso da vila em Misenum, apenas uma milha mais ou menos ao sul de Cumas, a Gruta da Sibila. Um ponto de observação vantajoso.

- Síndrome de estresse pós-traumático.

- Pode repetir?

- Síndrome de estresse pós-traumático - Costas repetiu. - A obsessão com o fogo do inferno, a danação. Eu tenho pensado sobre isto. Se este é o principal lugar para onde o cristianismo se espalhou em direção ao Ocidente, então eles foram obrigados a ser afetados pela experiência, certo? Uma vez que você viu o inferno, não se esquece dele rapidamente. Eles já estavam na metade do caminho em direção aos Campi Flegrei, vivendo no meio das fumarolas na entrada do mundo subterrâneo pagão. Acrescente a isso uma erupção vulcânica, e você obtém uma visão bem apocalíptica. Estou certo?

- Para um homem interessado em aspectos práticos, esta é uma idéia bastante fantástica. Nunca pensou em reescrever a história da teologia cristã?

- Não. - Por um momento, ambos ficaram silenciosos, olhando dentro das janelas dos estabelecimentos comerciais romanos desenterrados, escuros e ameaçadores como as portinholas de um navio afundado - Não há sobreviventes aqui - murmurou Costas. - Ninguém que tenha permanecido.

- É difícil saber o que teria sido pior - disse Jack pensativo. - Ser sufocado pelo gás superaquecido em Pompéia ou incinerado vivo em Herculano.

- Venha morar na ensolarada baía de Nápoles - murmurou Costas. - Hoje em dia, tudo o que acontece é que você ou fica satisfeito ou sai correndo.

- Não subestime o Vesúvio - disse Jack. - Lembra-se daquele quadro da erupção de 1944? Os especialistas em sismologia têm estado falando sem chegar à conclusão alguma durante décadas, e os terremotos são bastante agourentos.

Costas protegeu os olhos da luz e deu uma olhada para o cume do vulcão, onde a luz do sol estava começando a irradiar ao lado da terra estéril acima do declive. - Plínio esteve aqui? Em Herculano? Estou pensando no velho.

- De acordo com seu sobrinho, ele deu uma olhada na erupção e foi com um navio de guerra em direção ao vulcão, deste lado da enseada, debaixo da montanha. Supostamente foi uma missão heróica para salvar uma mulher.

- A destruição de muitos grandes homens - suspirou Costas.

- Foi sem esperança. Quando ele chegou aqui, a praia estava bloqueada com detritos, pedras-pomes flutuando como um mar de gelo. Mas em lugar de voltar, ele fez sua galera remar em direção ao sul para Stabiae, uma outra cidade mais longe que Pompéia diretamente sob a queda de cinzas. Ele permaneceu ali durante muito tempo e foi intoxicado pela fumaça.

- Isto parece uma tragédia de amor de Shakespeare. Talvez ele tenha sido realmente subjugado pela dor.

- Eu não acho - disse Jack. - Não o Plínio. Tendo visto que sua namorada estava condenada, ele teria continuado a fazer outra coisa. O que ele realmente queria era aproximar-se da erupção. Posso vê-lo, com o caderno de notas na mão, aspirando o ar e identificando o enxofre, coletando amostras de pedras-pomes ao longo da costa. Uma espécie de Charles Darwin romano. Mas a curiosidade levou a melhor sobre ele. Ele era como Ícaro, voando muito próximo do Sol. Pelo menos ele tinha terminado sua História natural.

- Por causa de toda aquela variedade de tarefas que ele tinha, estava provavelmente se dirigindo para um local que sofrera uma devastação total pelo fogo.

Jack desviou o olhar, depois percebeu duas figuras descendo a rampa de entrada para a posição em que eles estavam, uma mulher e um homem. - Bom - ele disse. - Parece que por fim estamos nos mexendo. - Afastou-se do parapeito e passou a mão pelos cabelos. Maria usava botas de deserto, calças caqui de combate e uma camiseta cinza, e seu longo cabelo negro estava atado atrás. Maurice Hiebermeyer estava alguns passos atrás dela, um celular apertado contra a orelha, e era uma figura um tanto menos esbelta. Ele era ligeiramente mais baixo que Maria, e consideravelmente acima do seu peso, e vestia uma curiosa seleção de roupas de safári e ainda um par de sapatos de couro gastos, adequados para uma ocasião mais formal. Estava com o rosto vermelho e agitado e empurrava constantemente para a parte alta do nariz seus óculos pequenos e redondos enquanto falava ao telefone. Seus shorts iam bem abaixo dos joelhos e se pareciam perigosamente com um meio mastro, flutuando livremente quase por milagre.

- Não diga nada - Jack murmurou a Costas. - Absolutamente nada. - Ele se esforçou para manter um rosto sério, e olhou para Costas. - De todo jeito, você pode sorrir afetuosamente. Quando foi a última vez que se olhou no espelho? Você tem o aspecto de quem ficou seis meses fora num submarino.

Hiebermeyer ficou um pouco afastado antes de alcançá-los, gesticulando ao telefone e virando-se de costas, enquanto Maria aproximava-se e beijava a ambos. Jack fechou os olhos quando ela se pressionou contra ele. Ele tinha sentido falta dela, de ouvir sua voz sonora, seu sotaque. Tinham passado um tempo intenso juntos, durante a busca pela menorá, e Jack passara pelos momentos usuais de vazio quando a expedição terminara. Maria lhe lançou um olhar com seus olhos escuros. - Faz três semanas desde que eu estive no Seaquest, mas parece que passou um tempo muito mais longo.

- Você sentiu falta da companhia - Costas sorriu, olhando para Jack.

- Para ser honesta, o período tem sido tão extraordinário aqui que eu realmente não me lembrei muito de antes - ela disse, afastando-se deles e olhando demoradamente para o terreno. - Recebi uma mensagem de texto de Jeremy, nesta manhã, e esta foi realmente a primeira vez que me lembrei repentinamente do tempo que passamos no Yucatán, daquelas cenas horríveis. Foi bom para mim ter este novo projeto para me concentrar, foi melhor do que voltar diretamente para o Instituto, em Oxford. E Jeremy está cuidando de tudo por lá. Esta foi exatamente a brecha que ele queria, e está se saindo brilhantemente.

- Como vai o meu companheiro mais novo e favorito de mergulho? - perguntou Costas.

- Enterrado até o pescoço na biblioteca perdida na Catedral de Hereford. Ele conseguiu um novo material fantástico, Jack. Um outro mapa primitivo, com referências aos fenícios, eu acho. Está louco de vontade de mostrá-lo a você. E tem uma idéia para um novo dispositivo de mergulho, Costas. Eu não entendo nadinha disso.

- De verdade? - Costas falou com excitação silenciosa. - Se a idéia é de Jeremias, ela tem que ser boa. - Procurou o celular no bolso de trás das calças, mas Jack segurou seu braço.

- Não agora, não é um bom momento.

Costas cedeu pesaroso. - Só estava querendo me informar.

- Nada de tarefas múltiplas, lembra? Vamos perseverar com a atual por enquanto.

- Sim, chefe.

- Estou agradecida por você ter me indicado, Jack - Maria continuou. - Considero realmente um privilégio estar aqui. E, de muitas maneiras, constitui uma ampliação de visão. Mas eu deveria ter estado aqui desde o início.

- Então, você nunca teria tido o prazer de passar algum tempo com o velho amigo Maurice - disse Jack com um sorriso. - Sei que você não o tinha visto desde Cambridge.

Maria aproximou-se deles silenciosamente. - Ele é um homem estimado - ela sussurrou, olhando para Jack de maneira inquisitiva.

- Ele é um homem estimado - repetiu Jack baixinho. - Lembre-se de que nós estivemos juntos na escola, mesmo antes de nos encontrarmos todos em Cambridge. Eu vivi a minha primeira verdadeira aventura com ele, quando éramos garotos. Você sabe, ele é tratado como um deus no Egito, com alguma justificativa. É de longe o arqueólogo de campo mais admirável que conheço. E, apesar da aparência, não é um daqueles egiptólogos que pensam que tudo o mais está abaixo deles. Ele é tremendamente instruído, desejoso de ver e de conhecer todos os períodos e lugares. Ele não seria visto nem morto dentro de um macacão de mergulho, mas é um professor adjunto excelente para a IMU.

- Então, o que significam estes shorts - ela sussurrou.

- Ah. - Jack olhou para o traseiro de Hiebermeyer, e se esforçou para manter sua expressão. - Um uniforme genuíno do Afrika Corps Alemão, do ano 1940 aproximadamente. Parecia apropriado quando ele foi para o Egito pela primeira vez. Eu lhe dei como presente de formatura. Ele me deu uma mochila caqui da Oitava Armada Britânica. - Jack deu uma batidinha na mochila bastante usada ao seu lado. - É minha culpa. Sinto muito.

- Um par de suspensórios ajudaria - sussurrou Maria. - Você sabe, liederhosen, aquela espécie de macacão com calças curtas e suspensórios usado na Bavária.

- O que Jack está dizendo - disse Costas com uma piscadela -, é que ele está crescendo na sua estima.

- Somente enquanto ele não esperar que eu o trate como um deus - Maria disse baixinho, depois recuou e falou normalmente. - De todo modo, agora vejo como é estar no lugar de Jack. Só espero não ter tirado o entusiasmo de vocês pelas viagens marítimas.

- Nós não ficamos exatamente tomando banho de sol na coberta da proa - disse Costas. - Espere até ouvir o que encontramos ontem.

Hiebermeyer parecia estar cada vez mais exasperado, erguendo os olhos e levantando o punho no ar, depois ouviu atentamente ao telefone e deu um olhar de alívio. Acenou com a cabeça em direção a Maria, fechou o celular e aproximou-se, apertando as mãos de Jack e de Costas. - Achei que ia fazer vocês perder seu tempo. - Sua voz estava ligeiramente rouca por causa do estresse, seu sotaque alemão mais pronunciado. - Eu não podia acreditar. Tudo o que fiz foi sair por um curto período ontem para telefonar para vocês. Eles não estavam querendo nos deixar entrar de novo.

- Todos estão prontos? - perguntou Maria, levantando sua mochila e prendendo-a na tira em sua cintura, e voltando-se para subir a rampa. - Maurice e eu aprendemos da maneira mais difícil que, quando temos que ir em frente neste local, vamos em frente rapidamente. O lugar fica a cerca de mil e oitocentos metros em direção ao oeste partindo daqui, mas temos que sair do terreno e andar em descida por algumas passagens escuras. Nos encontraremos na entrada. - Ela olhou para a mochila que continha a máquina fotográfica de Costas. - E cuidem de seus objetos de valor, certo? Lembrem-se de onde estamos.



CAPÍTULO 7

Vinte minutos mais tarde, pararam do lado de fora de uma porta baixa no final de uma ruela escura na moderna cidade de Ercolano. Estava fazendo calor sob o sol do meio-dia, e eles se abrigaram na sombra, encostando-se numa parede. A cena era surpreendentemente parecida com a de uma rua desenterrada na antiga Herculano, algumas centenas de metros distante dali, e por uma fração de segundo Jack se sentiu completamente deslocado, sem saber se estava no passado ou no presente. Ele foi trazido de volta para a realidade pelo eco muito pequeno de uma motoneta Vespa quando ela passava por uma ruela próxima, e pelos inconfundíveis aromas modernos que se erguiam ao redor deles. Havia lixo espalhado nas laterais da ruela e um caramanchão ao lado da entrada mostrava seringas hipodérmicas usadas jogadas no chão.

- Cuidado com o pé - disse Maria. - Este é o local favorito para o uso de drogas ilegais.

- Ópio - disse Costas. - Quanto mais muda...

Maria olhou para ele interrogativamente. - Mais tarde - disse Jack. - Conseguimos algumas notícias fabulosas. Uma descoberta incrível. Mas vamos executar primeiro o que viemos fazer aqui.

A porta se abriu, e um guarda de segurança armado apareceu. Hiebermeyer disse algumas poucas palavras vacilantes em italiano e o homem olhou de maneira dúbia para Jack e Costas. Ele sacudiu a cabeça, com má vontade pegou os papéis de autorização que Hiebermeyer lhe ofereceu e empurrou-o para fora, para a ruela, fechando a porta de novo na cara do arqueólogo.

- Toda vez acontece isso - disse Hiebermeyer, em voz baixa. - Sempre há um guarda novo e eles sempre precisam ver a papelada. Depois insistem em ficar com os papéis, e eu tenho que conseguir outros fornecidos pela superintendência em Nápoles. Levou duas semanas para eles deixarem Maria entrar.

- Não sei como você suporta isto - disse Costas.

- Paciência 101, 101 citações sobre a paciência - disse Jack. - Um curso obrigatório de introdução à arqueologia.

- Não posso imaginar como você conseguiu passar nesse curso, Jack.

- Paguei a Maurice para fazer o exame por mim.

A porta reabriu, e o guarda fez um gesto com a cabeça para entrarem. Hiebermeyer inclinou-se para passar pela porta e os outros entraram em fila atrás dele. Eles se encontraram em um pequeno pátio cinza, e o guarda fez um gesto com a sua submetralhadora em direção a uma outra entrada. Costas manteve o seu olhar de desprezo por bastante tempo, e o homem gelou.

- Não faça isto - falou Jack em voz baixa. Pegou Costas pelo braço e conduziu-o rapidamente atrás de Maria e Hiebermeyer em direção à outra entrada. O guarda permaneceu enraizado no chão, depois o ouviram afastar-se lentamente para um lado. Eles passaram pela entrada e encontraram outra pequena passagem estreita.

- Eu acho que você é a estrela, a atração do momento, por aqui - resmungou Costas para Hiebermeyer. - Um arqueólogo estrangeiro famoso, que veio do Egito para ajudar na escavação de um dos locais mais importantes jamais encontrados.

- Esta é a face pública da história - disse Hiebermeyer, mantendo a voz baixa. - Atravesse aquela entrada, e a história é diferente. Eles não deixam nem mesmo um filme entrar aqui. Este lugar esteve fechado durante duzentos anos, e alguém quer que permaneça assim.

- Nada da vila está aberta ao público?

- Depois de um enorme lobby internacional, uma pequena seção foi aberta com uma grande cerimônia poucos anos atrás. Passamos pela entrada no caminho para cá. Pela primeira vez, as pessoas podem visitar um pouco da escavação feita no século XVIII. Fizeram um grande espetáculo com essa abertura, até conseguiram que o príncipe Charles viesse de Londres para cá cortar a fita. Vocês não fazem idéia de quantos eruditos e filantropos têm tentado apressar o início do trabalho neste lugar. Mas, do nosso ponto de vista, todo esse suposto progresso tem sido um benefício confuso. Permitiu que as autoridades descrevessem isso como uma grande realização, desviando a atenção da necessidade de retomar as escavações.

- Então, sem aquele terremoto no mês passado que abriu este novo túnel, nós não estaríamos aqui - disse Costas.

- Não teríamos chance alguma.

- Agradecemos a Deus pela catástrofe natural.

- Você pode se manifestar assim sobre este local.

- Isto é estranho - disse Maria calmamente quando alcançaram o final da ruela. - É como se eles nos odiassem por estarmos aqui, e fizessem tudo que está em seu poder para impedir-nos. Demorou uma era geológica para Maurice conseguir um ventilador centrífugo aqui dentro para limpar o túnel. Mas, na informação à imprensa, Maurice é uma grande estrela. Ele tem toda a documentação necessária aqui. Então, quando entramos, é como se eles realmente quisessem que encontrássemos algo, mas apenas o suficiente para eles poderem fechar todo o espaço novamente durante um bom tempo.

- E agora estamos quase chegando nesse estágio - disse Hiebermeyer. - Eu estou convencido de que esta é a última vez que nos deixarão entrar. Vocês verão a razão disso dentro de poucos minutos. Muito bem. Aqui vai. Comportem-se adequadamente. - Ele os conduziu ao redor de uma esquina para dentro de uma valeta profunda, ao ar livre, como o buraco para a fundação de uma grande casa. As paredes eram de lama vulcânica cinza, idêntica à dos terrenos de Herculano, e eles podiam ver antigas paredes incompletas de alvenaria e uma curiosa coluna romana se salientando. Meia dúzia de operários e uma mulher, com uma prancheta para anotações, estavam agrupados em torno de algumas ferramentas e colocando tábuas na parede mais distante do buraco, e mais dois guardas de segurança estavam andando, parando com freqüência, e fumando em um ou¬tro canto. Os guardas agarraram os canos de suas submetralhadoras e olharam com suspeita para eles. Hiebermeyer deu-lhes um aceno amigável e prosseguiu levando seus companheiros para atravessar rapidamente o chão do buraco. - Os guardas estão aqui para impedir que o local seja saqueado durante a noite.

- Isto é uma piada - disse Costas. - Aqueles macacos parecem que foram recrutados na máfia local.

- Fale baixo - disse Maria insistentemente. - Há alguma autoridade por trás disso tudo que mantém até os guardas sob controle, e eu não acho que seja a máfia. - Ela tomou a dianteira, seguindo seu caminho ao redor dos pilares formados por antiga arte de alvenaria em direção a uma estrutura de madeira diante do outro lado do buraco, que evidentemente escondia uma espécie de via de acesso. Todos os operários olharam rapidamente para eles enquanto passavam, mas a mulher os ignorou deliberadamente.

- Ela é o nosso anjo protetor junto à superintendência - murmurou Hiebermeyer.

- Sem conhecê-la nem cumprimentar? - perguntou Costas.

- Sem chance. Ela tem ordens estritas para não confraternizar com o inimigo.

- Doutora Elizabeth D’Agostino - murmurou Jack. - Ela estava em Roma quando tivemos que pedir ao Vaticano para nos deixar entrar na câmara secreta do Arco de Tito.

- É ela mesma - sussurrou Hiebermeyer. - Trabalha para a agência nacional de arqueologia, não apenas para a superintendência local. Conhece o seu assunto, mas alguém definitivamente lhe deu ordem de não falar.

- Sua amiga, Jack? - perguntou Costas.

- Tivemos um caso. - Ele deu uma olhadela para Maria, depois se voltou rapidamente para Hiebermeyer. - Ela se junta a vocês dentro do túnel?

- Oficialmente não. Eles têm medo de que o túnel desmorone. Esta é a razão oficial que utilizam para se recusar a autorizar uma escavação completa. A abertura de qualquer outro túnel aumenta o risco de desmoronamento, ameaçando a moderna cidade que está acima. É melhor selar o túnel novamente por mais duzentos anos.

- E extra-oficialmente?

- Ontem, assim que achamos o que eles queriam, ela e aqueles operários entraram dentro do túnel com a rapidez de um tiro. Imagino que eles tentaram retirar o que encontramos enquanto estivemos ausentes. Mas ela não estava conosco quando prosseguimos adiante no túnel, e vocês logo verão por que eles não tentaram sozinhos. - Hiebermeyer puxou a fechadura da estrutura de madeira, depois fez um gesto com a mão para um dos guardas. - Temos que esperar que o guarda a abra - ele resmungou. - Outro pequeno ritual. - O guarda o viu, mas propositalmente continuou conversando com o outro guarda, sem fazer nada. Um operário deu partida numa rede elétrica, colocando-os fora do alcance de voz. - Os guardas sabem perfeitamente bem o que eu quero. E tudo acontece em seu devido tempo.

- Bem-vindos à Vila dos Papyri - disse Costas tristemente.

- Não pensei que isto iria ser tão ruim - murmurou Jack.

- Há alguns arqueólogos excelentes aqui, e tenho alguns amigos na superintendência - disse Hiebermeyer. - Eles fazem o que podem. Mas têm de combater o sistema. Alguns acabam progredindo dentro do próprio sistema, sendo sugados por ele. Outros caem e ficam à margem, são eliminados.

- Você quer dizer são afastados? - perguntou Costas com voz rouca. - Eles realmente fazem isso aqui?

- Usualmente não é tão dramático, outras vezes sim, como uma colisão de carros ou um acidente de barco. Comumente é algo mais mundano. Ameaças, suborno, intimidação, falsificação de registros financeiros pessoais. As pessoas podem ser facilmente derrubadas neste lugar, quando são honestas.

- Quando são honestas - repetiu Costas, sacudindo a cabeça.

- Mas há algumas pessoas boas que alcançam o topo e que se recusam a ser intimidadas - disse Hiebermeyer. - A atual superintendente é uma delas. Nós não estaríamos aqui se ela não tivesse nos dado a autorização, apesar de todo tipo de pressão. Não é preciso dizer que ela tem guarda-costas permanentes, mas isto não é incomum para os altos oficiais em Nápoles.

- Ainda não compreendo o que a Máfia poderia querer deste lugar - disse Costas.

- Nunca fica claro. Eu nem tenho certeza ainda de que a Máfia está envolvida. Você nunca sabe ao certo. Ninguém parece saber. Só precisamos assumir que é assim. Não se trata apenas do comércio de antiguidades roubadas, e podemos ter certeza de que isto acontece aqui. Há também uma grande quantidade de dinheiro ligado ao turismo arqueológico.

- Falando de arqueologia, do que se trata aqui? - perguntou Costas.

- Tudo começou em 1750 - disse Hiebermeyer, subitamente animado. - Um engenheiro do exército suíço chamado Karl Weber assumiu o comando das escavações em Herculano. Algumas semanas mais tarde fizeram uma descoberta enterrada profundamente, um chão de mármore, provavelmente bem no lugar em que nós estamos agora. Possivelmente eles abriram túneis por todo este lugar, e Weber percebeu que tinham descoberto uma enorme vila, muito maior do que tudo que haviam visto. Ela estava arrebentada e saqueada, estátuas, mosaicos, qualquer coisa. Depois começaram a encontrar manuscritos carbonizados. Não perceberam o que eram, e alguns escavadores até os levaram embora e os usaram para acender o fogo. Depois se deram conta de que eram papiros. Por fim, a maioria dos que estavam legíveis foram interpretados como fazendo parte de uma biblioteca grega de um obscuro filósofo chamado Filodemo.

- Provavelmente ele era protegido pelo rico proprietário desta casa - disse Jack. - Uma espécie de mascote filósofo. Se também havia ou não uma biblioteca em latim, essa sempre foi a grande questão.

- E o túnel, este onde vamos entrar, revelado pelo terremoto?

- Este é um dos primeiros túneis, que leva para uma área da vila onde a biblioteca foi encontrada. Ela foi selada quando Weber ainda estava no comando.

- Você tem alguma idéia do motivo?

- É para descobrir isto que estamos aqui.

- Tem alguma idéia de quem era o proprietário deste lugar? - perguntou Costas.

- Esta é a beleza do período que precedeu a erupção - replicou Jack. - Conhecemos uma grande quantidade de nomes dos aristocratas pelos historiadores romanos como Tácito, Suetônio, Plínio e meia dúzia de outros. Achamos que esta vila era propriedade de um homem chamado Calpúrnio Piso, de uma proeminente família romana. Um busto dele de bronze foi encontrado em Herculano, e tudo dentro da vila é consistente com o que conhecemos sobre seus interesses e gostos.

- Um sinal para seu primeiro divertimento - disse Hiebermeyer, sorrindo.

- Foi isto o que alertou a superintendência sobre a conseqüência do terremoto neste lugar. Parte da parede de lama solidificada desmoronou, naquele lado. Podemos ainda ir olhá-la agora enquanto o nosso guarda termina seu cigarro.

Caminharam passando pelo grupo de operários que agora estavam retirando pedaços grossos de conglomerado de rocha, e chegaram a uma abertura onde uma parte da parede escavada havia caído. A mulher que usava uma carteira de identificação da superintendência e com um capacete protetor como o usado por operários de construção estava apenas alguns metros adiante com uma prancheta para anotações, falando rapidamente ao celular. Jack tentou atrair o seu olhar, mas falhou. - Levará meses até que eles limpem tudo isso - Hiebermeyer resmungou para Jack, enquanto escolhiam cuidadosamente seu caminho por entre o entulho.

- Encontrarão alguma razão para um retardamento. Alguém importante, realmente importante, quer que este local seja fechado, e eu acho que eles vão conseguir.

- Não se pudermos impedir - murmurou Jack.

- Existem três forças poderosas nesta região - continuou Hiebermeyer calmamente, secando o suor da testa. - A primeira é o vulcão. A segunda é a Máfia, o crime organizado.

- E a terceira é a Igreja - disse Jack.

- Correto.

- É uma mistura bastante volátil - disse Costas pesadamente, depois tossiu quando viu a mulher com a prancheta olhar para eles.

- Isto faz com que a arqueologia no Egito seja algo muito fácil - murmurou Hiebermeyer. - Algumas vezes eu penso que eles estão desejando uma outra erupção para selar este lugar para sempre. A enorme perda de vidas que resultaria disso, a destruição desses locais e toda a arqueologia e a perda do dinheiro de turistas não seria nada quando comparado ao perigo representado pelo que pode ser encontrado aqui. Eu não sei o que poderia ser, mas alguém tem medo de alguma coisa. Acho que alguém poderoso dentro da Igreja está preocupado com alguma grande revelação, algum antigo documento que poderia arruinar gradativamente sua autoridade. Lembrem-se de quanta obstrução houve quando os Manuscritos do Mar Morto foram revelados em Israel. Um outro fluxo piroclástico do Vesúvio eliminaria a ameaça aqui para sempre.

- Vamos esperar que o que você encontrou seja o suficiente para manter a porta aberta antes que isto aconteça.

- Você vai ficar surpreso - sussurrou Hiebermeyer, olhando intensamente para ele. - Com o que eu encontrei. Creia-me. - Chegaram perto de uma mesa coberta com equipamentos de segurança, e ele se virou e disse em voz alta. - Vestir capacetes protetores. Regras de segurança e de saúde.

- Eles têm estas coisas em Nápoles? - disse Costas propositalmente. A mulher que segurava a prancheta deu mais uma olhada ao redor, e Jack lançou para Costas um olhar de advertência. Ele colocou um capacete laranja, seguido pelos outros. Pararam juntos debaixo de uma saliência dentro de uma cavidade com cerca de cinco metros de profundidade, diminuindo na altura até que, no ponto onde Maria se encontrava, do outro lado, ela era forçada a se agachar. Costas se arrastou para dentro ao lado de Jack e pressionou a mão na superfície cinzenta irregular acima deles.

- Você percebe o que quero dizer? - perguntou Jack. - É duro como rocha.

- Deve ter sido um pesadelo escavar aqui.

- Chegamos. - O capacete de Hiebermeyer era muito grande, e fazia suas orelhas se projetar quando ele pressionava a cabeça contra o teto. Costas tentou não olhar para ele e concentrou-se na geologia, voltando a estar ao lado de Jack de modo que ficaram de frente para o mesmo caminho. Emergindo da lama solidificada na frente deles havia uma placa polida de pedra não lavrada, com veios azuis e verdes visíveis na superfície branca polida.

- Cipollino - murmurou Jack, batendo de maneira apreciativa na superfície. - Mármore de Euboia, da Grécia, Muito bonito. Não pouparam gastos nesta vila.

Hiebermeyer ligou a headlamp em seu capacete, e imediatamente eles puderam ver que a placa estava coberta com uma inscrição. Era formada por três linhas, letras maiúsculas brilhantes profundamente esculpidas dentro do mármore.
HBOYAHKAIOAHMO∑AEYKIONKAAIIOPNION

AEYKIOY YION IIEI∑ΩNA

YONAYTOKPATOPAKAIIIATPΩNATH∑TIOAEΩ∑
- É uma inscrição grega! - exclamou Costas.

- Estes tipos de inscrições eram altamente utilizados na época - disse Hiebermeyer. - Também eram encontradas no Egito, desde a época anterior aos romanos, quando os gregos governavam. O conselho e o povo reverenciam Leukios Kalpornios Peison, o filho de Leukios, o governador e patrono da cidade.

- Governador e patrono - Costas assobiou. - Será que era o chefe da máfia local?

Jack sorriu. - Eu lembro disso. Há uma inscrição idêntica na Grécia. Calpúrnio Piso era o governador romano na ilha de Samotrácia no mar Egeu. Ele deve ter trazido isto de volta como uma lembrança.

- Juntamente com um navio carregado de estátuas e outras obras de arte - murmurou Maria. - Maurice me mostrou o material que encontraram aqui no século XVIII, e que está no museu de Nápoles. É inacreditável.

- Este Calpúrnio Piso, em particular, era provavelmente o pai ou o avô daquele sobre quem mais sabemos, que viveu na época dos imperadores Cláudio e Nero - disse Hiebermeyer. - Esse Calpúrnio parece ter sido especialmente leal a Cláudio, mas armou uma conspiração contra Nero que fracassou. Piso se retirou para sua casa, talvez esta mesma onde estamos, onde cortou suas veias e sangrou até a morte. Isto aconteceu no ano 65 d.C., quatorze anos depois da morte de Cláudio e quatorze anos antes de o Vesúvio entrar em erupção. Não sabemos quem era o proprietário da vila na época da erupção, mas provavelmente era um outro membro da família ou esta inscrição não estaria ainda aqui. Talvez um sobrinho, um primo, alguém que escapou ao expurgo efetuado por Nero que a família sofreu, em seguida à tentativa de assassinato.

- Então, isto encerra o assunto - disse Jack olhando para Hiebermeyer. - Esta foi realmente a casa de Calpúrnio Piso. Outro pequeno avanço para a arqueologia. Parabéns, Maurice.

Saíram ao ar livre de novo. Hiebermeyer tirou o capacete protetor e virou subitamente a cabeça para a presença que apareceu atrás dos cimos dos telhados. - Não me congratule, Jack. Foi o vulcão que fez isso, não eu. Esta inscrição foi revelada depois do terremoto. Foi o que alertou as autoridades para o que mais poderia ter sido denunciado. Então, eles viram a entrada do túnel.

- Para mim, isto aqui em volta parece ser mais grego que romano - disse Costas, limpando a poeira das mãos. - Eu não fazia idéia.

- Há camadas aqui - disse Jack. - Primeiro a dos gregos que colonizaram a baía de Nápoles, depois a dos romanos que redescobriram a Grécia quando eles a reconquistaram. Os generais romanos na Grécia saquearam todas as grandes obras de lugares como Delfos e Olímpia, e uma grande quantidade de arte grega começa a aparecer em Roma, com freqüência colocadas em monumentos romanos. Depois, opulentos colecionadores particulares como Calpúrnio Piso trazem de volta o que acumularam, algumas obras-primas, mas sobretudo obras menores, o que foi deixado. Depois, na época de que estamos falando, o primeiro período imperial, os artesãos gregos estão produzindo artigos especificamente para o mercado romano, assim como os oleiros chineses ou os que produziam móveis indianos os faziam para o gosto ocidental no século XIX. É por isso que em Pompéia e Herculano você vê, principalmente, objetos de arte à moda grega, mais estilo do que substância.

- Eu olho para uma escultura - disse Costas com determinação. - Eu gosto dela ou não, e não ligo para a etiqueta.

- Muito razoável - sorriu Jack. - O tipo mais confiável de especialista. Mas você realmente tem que conhecer o contexto aqui, e nisto consiste a beleza desses lugares. Você pode ver como os romanos usam sua arte, como eles a apreciam.

Para eles não importa se possuem um antigo mestre grego ou uma excelente reprodução, porque na verdade trata-se apenas de decoração. O que de fato importava para eles eram os retratos de seus ancestrais, imagens que personificavam as virtudes que eles tanto admiravam, que enfatizavam a continuidade da família. Os quadros eram mantidos separados, em uma sala privada, e eram com freqüência de cera e madeira, de modo que não subsistiram ao tempo. Os romanos tiveram muitas publicações desfavoráveis porque os historiadores de arte do período vitoriano, que glorificaram a Grécia clássica, viram principalmente coleções de esculturas antigas tiradas de seu contexto e alinhadas em galerias e museus. E parecem revelar um julgamento indiscriminado, mau gosto e vulgaridade. Quando chegamos aqui, podemos ver que nada está mais afastado da verdade. Ao contrário, foram os gregos deste período que se sobressaíram.

- O que nos aproxima muito nitidamente dos motivos pelos quais estamos aqui - sorriu Hiebermeyer, colocando novamente o seu capacete muito grande.

- Somos todos ouvidos - disse Costas, com o rosto inexpressivo, olhando para Jack sem conseguir atrair o olhar deste.

Eles observaram quando o guarda finalmente se ergueu, andando a passo lento até a entrada de madeira e fazendo uma grande exibição para destrancá-la. - A maior biblioteca perdida da Antiguidade - disse Hiebermeyer baixinho. - E um dos maiores buracos negros na arqueologia. Até agora.





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