O último Evangelho David Gibbins



Baixar 1.25 Mb.
Página4/21
Encontro02.07.2019
Tamanho1.25 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   21

CAPÍTULO 5
Jack levantou o capacete brevemente para aliviar a dor no pescoço, os seus sentidos atormentados pelo ruído ensurdecedor da turbina do Rolls Royce bem atrás dele, e depois puxou o capacete de novo para o lugar certo, pressionou os protetores de ouvido até que o barulho amortecesse e o microfone ficasse em posição. Ele estava fisicamente exausto, mas muito excitado para descansar, cheio de alegria pela descoberta do naufrágio no dia anterior, ansiando por retornar para lá, mas agora cheio de expectativas por um novo prêmio que poderia conseguir mais adiante. Hiebermeyer só fora capaz de dizer pouca coisa, mas tinha sido suficiente para Jack saber que era real. Ele verificou o relógio novamente. Tinham voado em direção ao norte, no helicóptero Lynx, por mais de uma hora desde que deixaram a posição do Seaquest antes do amanhecer, no estreito de Messina ao largo da Sicília, e Jack tinha posto o piloto automático para mantê-los voando baixo. O altímetro mostrava uma situação crítica, o que mantinha Jack acordado. Fazia doze horas desde que tinham subido à superfície depois do mergulho, e suas correntes sanguíneas ainda estavam saturadas com excesso de nitrogênio que poderia se expandir perigosamente se eles ganhassem maior altitude.

Jack verificou o altímetro novamente, depois desligou o piloto automático e ocupou-se com os controles manuais e pedais do helicóptero, girando o Lynx para uma posição de trinta graus para o nordeste para assumir uma posição angular em direção à linha da costa. Reativou o piloto automático e olhou de novo para a imagem que tinha estado contemplando na tela do computador entre os assentos. Era uma aquarela em miniatura pintada por Goethe, uma que o avô de Jack tinha adquirido para a Howard Gallery por volta de 1920, pintada durante a erupção do monte Vesúvio em 1787. No segundo plano, Goethe pintara um céu cinzento e sem relevo, e no primeiro plano um luminoso mar amarelo. No centro havia a massa escura do vulcão, o contorno da costa abaixo dele fronteado por construções de teto plano similares aos das antigas cidades romanas soterradas debaixo do Vesúvio então desenterradas pela primeira vez. A imagem parecia excêntrica, quase abstrata, no entanto as listas de vermelho e de amarelo acima do vulcão revelavam a violenta realidade do evento que Goethe havia testemunhado. Jack desviou o olhar do painel de vidro de proteção contra o vento para a enseada à frente deles. Era como se estivesse vendo uma outra versão da aquarela, sombras pastel acumulando-se além do horizonte no nascer do sol, os detalhes misturados e obscurecidos pela camada de mistura de neblina e fumaça na atmosfera logo abaixo.

No assento do co-piloto Costas tinha estado dormitando e acordando de vez em quando, mas mudou de posição, ficando virado para frente quando Jack ajustou o curso. Ele despertou com um susto quando seus óculos escuros deslizaram do seu capacete e entalaram no seu nariz.

- Desfrutando da evaporação dos gases? - Jack perguntou pelo intercomunicador.

- Apenas mantenha-nos abaixo de cento e cinqüenta pés - Costas replicou com os olhos lacrimejando. - Quero manter aquelas bolhas de nitrogênio apropriadas e pequenas.

- Não se preocupe. Logo estaremos no solo.

Costas se estirou, depois suspirou. - Ar fresco, espaços abertos e vazios. É disto que eu gosto.

- Então, você deveria escolher os seus amigos mais cuidadosamente. - Jack sorriu, depois moveu lentamente o helicóptero, inclinando o seu nariz, para baixar algumas centenas de pés. Atravessaram a camada de neblina, e a miragem se tornou uma realidade. Abaixo deles, o dramático contorno das ilhas e do continente estavam nitidamente delineados, vastos espaços de rochas queimadas pelo sol rodeadas por um mar azul-celeste. Ao leste estava a grande expansão da cidade e, além dela, um borrão no horizonte, onde terminava a enseada, a neblina quase escondia uma presença indistinta debaixo de uma eclosão de laranja onde o sol estava surgindo acima da montanha do outro lado.

- A baía de Nápoles - disse Jack. - Cadinho da civilização.

- Civilização. - Costas bocejou de modo extravagante, depois parou. - Deixe-me ver. Aquilo seria corrupção em escala sísmica, delitos de entorpecentes, a Máfia?

- Esqueça tudo isto e olhe para o passado - disse Jack. - Nós estamos aqui por causa da arqueologia, não para ser envolvidos no presente.

Costas bufou. - Esta seria a primeira vez.

- Este lugar era uma das grandes escalas para a difusão de idéias para a Europa - disse Jack. - A baía de Nápoles foi onde os gregos se estabeleceram primeiro nos séculos VIII e IX a.C. quando vieram para o oeste comerciar ferro com os etruscos, em uma época em que Roma era formada por apenas algumas cabanas acima de um brejo. Cumas, para onde o alfabeto foi trazido pela primeira vez para o oeste, Neápolis, Pompéia, todos esses lugares se tornaram centros da nova

Grécia, Magna Graecia, expandida pelo comércio e pelo interior da Campânia com seus ricos solos vulcânicos. Lembra-se daquelas ânforas de vinho no navio naufragado? Elas eram daqui. Mesmo depois do domínio romano nos século III e IV a.C, que tornou este lugar uma espécie de Costa do Sol para os abastados, a cultura grega permaneceu forte. As pessoas pensam Pompéia como a quinta-essência da cidade romana, mas na verdade ela existiu durante séculos antes da chegada dos romanos e ainda era altamente cosmopolita em 79 d.C., com as pessoas falando grego e outros dialetos locais, bem como o latim. E a baía de Nápoles continuou a ser o primeiro porto a mandar vir todas as coisas do leste, não apenas as gregas, mas também as do Oriente Próximo e as do Egito, além de artigos de comércio exóticos, novos estilos de arte, emissários estrangeiros, novas idéias em filosofia e religião.

- Muito bem, vou acreditar no que diz - disse Costas. - Um lugar cheio de acontecimentos. Agora me dê informação sobre o vulcão.

Jack digitou no teclado do computador e a aquarela de Goethe foi substituída por uma fotografia em preto e branco mostrando uma vista distante de um vulcão em erupção. - Março de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial - disse Jack. - Nove meses depois que os Aliados desembarcaram na Sicília, bem lá onde estávamos mergulhando. Alguns meses depois da libertação de Nápoles, enquanto os aliados ainda estavam fazendo uma viagem longa e árdua para Roma. Entre as recentes, a maior erupção do Vesúvio.

Costas assobiou. - É como se os deuses da guerra abrissem as portas do inferno.

- Foi isso que as pessoas pensaram na época, mas felizmente ele foi apenas um imenso escapamento de gás e de cinzas e depois a fenda se fechou. Desde então, não houve nada tão dramático, embora houvesse um grande terremoto em 1980 que matou milhares de pessoas e deixou outras centenas de milhares desabrigadas. Há muita preocupação em relação aos recentes distúrbios sísmicos.

- Três semanas atrás.

- É por isso que estamos aqui.

- E nos tempos antigos? - perguntou Costas. - Quero dizer, antes da erupção de 79 d.C.?

Jack digitou novamente, e uma outra tela apareceu. - Esta é a única imagem romana conhecida do Vesúvio, encontrada em uma parede pintada em Pompéia. Ela é imaginativa, com o deus do vinho carregado com uvas à esquerda, mas podem-se ver as montanhas com vegetação fértil e vinhedos florescendo nos declives. O Vesúvio esteve completamente adormecido desde a Idade do Bronze, e os romanos só o conheciam como um local incrivelmente abundante, com solos ricos que produziam vinhos melhores do que em qualquer outro lugar. Os indícios estavam ali, para onde nos dirigimos agora, mas eles não tinham motivo para relacioná-los com a montanha.

Jack fez o helicóptero realizar um grande arco em direção ao norte, e Costas olhou atentamente para uma paisagem deserta. - Que lugar é este?

- Era o que eu queria, que você visse isso antes que chegássemos a nosso destino. Estamos sobre a costa nordeste da baía de Nápoles, a cerca de vinte e cinco quilômetros do Vesúvio. Esta era a única área de extensa atividade vulcânica no período romano, embora nem mesmo Plínio tenha feito a conexão com o Vesúvio. Os Campi Flegrei, os campos de fogo. Ouça isto. É da Eneida, de Virgílio, o poeta nacional de Roma. Tenho o texto na tela. Existe uma caverna profunda, acidentada, estupenda e imensamente ampla, protegida por um lago de água negra e a floresta escura. Acima deste lago nenhum pássaro pode passar voando sem dano, tão envenenado é o ar que sai daquelas mandíbulas e se ergue para a abóbada celeste. Agora olhe para fora. Aquele é o lago d’Averno, que significa sem pássaros. Lá adiante você pode ver a cratera mais ativa em nossos dias, Sulfaterra. Era a isso que Virgílio se referia. E pela costa você mal pode distinguir a acrópole coberta de vegetação da antiga Cumas, um dos primeiros locais onde os gregos se estabeleceram.

- Onde a Sibila foi enforcada.

- Literalmente. De acordo com alguns relatos, ela foi suspensa em uma gaiola no fundo de sua caverna, nunca completamente visível e sempre envolta em fumaça.

- A mais alta de todas.

Jack sorriu. - No período romano, os Campi Flegrei eram uma grande atração turística, muito maior do que agora. A entrada para o mundo subterrâneo, um lugar que cheirava fortemente a fogo e enxofre. As pessoas vinham aqui para ver o túmulo de Virgílio, sepultado ao lado da estrada proveniente de Nápoles. E a Sibila também ainda estava aqui. Pelo menos antes da erupção. Augusto a consultava, e outros imperadores também. Cláudio vinha ver a Sibila - ele acrescentou.

- Então, os primeiros colonizadores gregos trouxeram a Sibila com eles?

- Sim e não.

Costas resmungou. - Fatos, Jack. Fatos.

- Supostamente existiam treze sibilas através do mundo grego, embora as primeiras referências sugiram que elas se originaram da idéia de uma única profetisa, positivamente vidente. A localização de Cumas é um dos poucos lugares em que a arqueologia acrescenta à cena. Nos anos de 1930, foi descoberta uma extraordinária gruta subterrânea, que era como os romanos descreviam a Gruta da Sibila. Ela é um corredor em forma de trapézio de quase cinqüenta metros de comprimento, iluminado por galerias laterais, terminando em uma sala retangular, tudo desbastado na rocha. Na Eneida, de Virgílio, foi nessa caverna que o herói troiano Enéias consultou a Sibila para perguntar se a colônia troiana na Itália se tornaria algum dia o Império Romano. E foi lá que ela o levou para o mundo subterrâneo, para ver seu pai Anquises.

Costas apontou para a cratera cheia de vapor abaixo deles. - Você quer dizer os campos de fogo, os Campi Flegrei?

- Provavelmente existiam respiradouros vulcânicos abertos aqui, na Antiguidade. Se houve algum, ele deve ter sido uma visão do inferno de Dante - disse Jack. - Esta era a localização perfeita para a Sibila. Os suplicantes, provavelmente, eram conduzidos por entre as emissões de gases produzidas pelos vulcões e a lama fervente, de modo que deveriam estar tremendo de medo mesmo antes de chegar diante da caverna.

- Se minha memória não me engana, Enéias era um príncipe troiano que escapou da Guerra de Tróia, no final da Idade do Bronze - disse Costas de maneira pensativa. - O que significa que Virgílio pensava que a Sibila já estava aqui um tempo antes que os gregos ou os romanos chegassem.

- Toda a mitologia que conhecemos hoje associada com a Sibila de Cumas era grega, especialmente seu relacionamento com o deus Apolo. Mas isto pode ter sido o que os gregos trouxeram com eles, e projetaram sobre uma deusa ou profetisa que já existia na Itália pré-histórica. Os gregos e romanos, com freqüência, misturavam seus deuses com deuses nativos similares, mesmo em locais tão distantes como a Grã-Bretanha.

- Então, pode ter existido uma divindade feminina muito mais velha aqui.

- A Katya tem uma teoria acerca disto. Você se lembra da deusa mãe neolítica da Atlântida?

- Dificilmente poderia esquecê-la. Eu ainda tenho as marcas das feridas.

- Bem, nós já sabíamos que estátuas de terracota femininas, corpulentas, estavam sendo idolatradas através da Europa no final da Idade do Gelo, pelo menos na época dos primeiros agricultores. Durante anos, os arqueólogos especularam sobre o culto pré-histórico da deusa mãe, um culto que transpôs as fronteiras entre tribos e povos. Bem, Katya acha que a sobrevivência daqueles cultos se deve, sobretudo, a um sacerdócio poderoso, o homem e a mulher que conduziram os primeiros agricultores ao oeste, cujos descendentes preservaram o culto através da Idade do Bronze até o período clássico. Ela até pensa que os druidas no nordeste da Europa estavam conectados a eles.

- Eu me lembro - murmurou Costas. - Da Atlântida. Os feiticeiros com chapéus cônicos. O Senhor dos Anéis.

- A idéia do Gandalf de Tolkien, como o Merlin nas histórias do rei Arthur, pode em última análise se originar da mesma tradição - disse Jack. - Homens com poderes supostamente sobrenaturais que podiam passar de um reino para o seguinte, que não conheciam fronteiras. Curandeiros, mediadores, profetas.

Costas olhou novamente para Campi Flegrei. - Parece que todas as culturas necessitam deles - ele murmurou.

- E a deusa mãe também sobreviveu sob diferentes disfarces. A deusa grega Ceres, a romana Demeter, Magna Mater, a Grande Mãe.

- Cada nova cultura adiciona a sua própria camada de pintura, mas a mesma velha estátua permanece debaixo dela.

- Algo assim.

- Onde ela está agora? Katya, eu quero dizer.

- Quirguistão, nas montanhas Tian Shan, ao lado do lago de Issyk-Kul.

- Isto soa como algum lugar em Senhor dos Anéis.

- Também se parece com o local, a julgar pelas fotos que ela me enviou por e-mail.

- Ela está fazendo o quê?

- Estudando petróglifos, inscrições nas rochas. Na maior parte citas, com cerca de dois mil e quinhentos anos, mas o terreno fica no antigo Caminho da Seda e também há outras culturas ali. Ela até conseguiu uma inscrição que parece latim. É realmente excitante. Mal posso esperar para ir até lá e dar uma olhada.

- Uma coisa por vez, Jack. Como você sempre me disse. Há este pequeno assunto do naufrágio do navio de são Paulo, depois precisamos voltar para o mar Negro.

- Tudo que fazemos parece ser uma corrida contra o tempo - disse Jack. - A ironia é que toda esta nova tecnologia nos permite explorar e escavar muito mais rapidamente, de modo que podemos pensar no futuro como nunca foi possível antes. Mas é como eu disse no local do naufrágio. Algumas vezes anseio pelos velhos tempos, as lentas semanas que eram gastas para procurar retirar qualquer possível fragmento de informação de uma escavação de um metro quadrado. - Ele soltou um suspiro exagerado. - Talvez este seja um projeto para a minha aposentadoria.

- Aposentadoria. Que nunca vai acontecer. - Costas lançou um olhar esquisito para Jack. - De todo modo, supõe-se que você esteja pensando em Maria, não em Katya.

- Maria é ótima. - Jack replicou rapidamente. - Depois do México, ela quis continuar direto com o trabalho. Uma mulher durona.

- Não era disso que eu estava falando.

Jack o ignorou e continuou. - Trabalhar com Hiebermeyer era uma escolha óbvia quando chegou o telefonema da Superintendência de Nápoles depois do terremoto. Tinha um velho amigo lá que pensou na IMU quando precisaram urgentemente de uma equipe para prosseguir com algo que havia sido iniciado três semanas antes. Maria estava parada ao meu lado e eu repentinamente pensei em sua habilidade com manuscritos. Nenhum deles é especialista no período romano, mas isto é com freqüência uma vantagem. Olhos não viciados, novas maneiras de ver as coisas, livres de obstáculos impostos por cinismo. E acredite-me, o terreno que estamos indo ver está atolado em obstáculos, depois de duzentos e cinqüenta anos de fita adesiva vermelha impedindo a entrada, incompetência, obstrução e corrupção. Conseguir autorização para qualquer novo trabalho de escavação aqui é como uma batalha da Primeira Guerra Mundial, um dispêndio monumental de esforço e de vidas para movimentar a frente de guerra para dezoito centímetros mais perto de Berlim.

Costas desviou o olhar e sorriu consigo mesmo, e depois olhou através de seu visor para o contorno recortado da costa que estava agora diretamente abaixo deles. - Qual é o lugar?

- Pozzuoli. O nome romano é Puteoli.

- Então, é para lá que São Paulo estava se dirigindo? Depois da Sicília, depois de ter sobrevivido ao naufrágio?

- De acordo com os Atos dos Apóstolos, ele e seus companheiros saíram de Siracusa em um navio de Alexandria, depois pararam em Puteoli. Aquele é o antigo porto romano de cereais, que você pode ver ao lado do porto atual, que complementava o porto naval, somando-se a ele, localizado em Misenum. - Jack digitou na tela. - As palavras são: Nós encontramos irmãos ali, e fomos solicitados a permanecer com eles durante sete dias.

- Irmãos? Companheiros cristãos? E a perseguição?

Jack virou a cabeça para o norte. - Os Campi Flegrei. Refúgio perfeito. Provavelmente sempre foi um lugar para proscritos, mendigos, desajustados.

- E depois Paulo vai para Roma. Onde Nero lhe corta a cabeça.

- O Novo Testamento, na verdade, não diz isso, mas é a tradição.

- Podia ter sido melhor para ele se tivesse morrido no naufrágio daquele navio, afinal.

- Se isso tivesse acontecido, então a história ocidental poderia ter sido completamente diferente. - Jack inclinou lateralmente o helicóptero para estibordo, depois o direcionou para o borrão na costa oriental da enseada. - Nós poderíamos terminar idolatrando Ísis, Mitra, ou até mesmo a grande Deusa Mãe.

- Hein?

Jack ajustou a borboleta que controla a gasolina, verificou a tela de tráfego aéreo e acionou o piloto automático. - Aquele naufrágio realmente foi um dos acontecimentos fundamentais da história, não por causa daquilo que foi perdido, mas por causa de quem sobreviveu. Lembre-se, o ministério de Jesus durante sua vida estava confinado à Judéia, principalmente sua província natal da Galiléia. A idéia de que a sua palavra deveria se espalhar para as comunidades judaicas no estrangeiro, e depois para não judeus, parece ter germinado somente depois de sua morte. Paulo foi um da primeira geração de missionários, de convertidos. Sem ele, muitos daqueles que se provaram receptivos ao cristianismo poderiam ter sido seduzidos por um ou outro dos cultos oferecidos. Na época de que estamos falando, a difusão do Império Romano e a pax romana significavam que o mundo mediterrâneo estava sendo influenciado pelo afluxo de novos cultos, de novas idéias religiosas trazidas por soldados de terras recém-conquistadas e outras trazidas por marinheiros para portos como Misenum e Puteoli. A deusa egípcia Ísis, o deus persa Mitra, a antiga deusa mãe, qualquer um desses deuses poderia ter proporcionado a semente de uma religião monoteísta, dando ao povo algo pelo qual ansiavam diante de todos os deuses e rituais da Grécia e de Roma. Se uma daquelas religiões realmente se enraizasse, isto teria sido suficiente para repelir o cristianismo, que só começou a se espalhar da Judéia uma geração ou duas mais tarde.



- Puxa! - disse Costas. - E eu pensei que, com a crucificação, tudo fosse um negócio fechado.

- Aquele foi realmente apenas o começo - continuou Jack. - E a coisa surpreendente é que não há indicação de que Paulo tenha encontrado Jesus em vida. Paulo era um judeu da Ásia Menor que teve uma visão de Cristo na estrada para Damasco, mas somente depois da crucificação. No entanto, Paulo pode ter sido responsável, mais do que qualquer outro, pela fundação da Igreja tal como a conhecemos. A difusão do conceito de Jesus como o filho de Deus, como o Messias, o significado da palavra grega Christos, tudo isso parece que se deve em grande parte ao seu ensinamento. A palavra cristão apareceu pela primeira vez provavelmente nessa época, e a ênfase na cruz. É como se, uma geração após a morte de Jesus, de acordo com a experiência individual que as pessoas tiveram dele, o foco mudou de Jesus o homem para o Jesus ascendido, quase como se ele passasse a ser visto como um deus, tivesse sido posto em um pedestal.

- É isto que as pessoas devem ter entendido - comentou Costas. - Ninguém idolatra um homem.

- Exatamente - disse Jack. - Era um mundo em que os imperadores eram endeusados após a sua morte, onde o culto imperial era um grande fator de unificação no Império Romano. E, como todos os bons missionários, Paulo era um executante astuto que sabia o que tinha que fazer para conquistar o mundo de lado a lado, os acordos e a incorporação de antigas maneiras de pensar e de ver o mundo que ele achava que seriam necessários para que a luz brilhasse de um extremo a outro.

- Então, você está dizendo que este é o lugar onde tudo aconteceu, a baía de Nápoles?

- Os Atos dos Apóstolos sugerem que já havia seguidores de Jesus na baía de Nápoles, quando Paulo chegou aqui no final dos anos 50 d.C., apenas vinte e tantos anos depois da crucificação. Mas Paulo pode ter sido responsável por torná-los verdadeiramente cristãos, por voltar seus pensamentos da mensagem de Jesus, o Reino dos Céus que em breve virá, para o próprio Cristo, o Messias. Este é o lugar onde Paulo pode ter criado a primeira igreja ocidental, o primeiro culto organizado, talvez escondido em algum lugar ali entre as crateras e o enxofre dos Campi Flegrei. Ele lhes ensinava o que eles deveriam acreditar, como deveriam viver. Ensinou-lhes o Evangelho.

- Eu me pergunto o quanto desse Evangelho era o original.

- O que você quer dizer?

- Bem, se Paulo não conheceu Jesus em vida, nunca o encontrou. E Jesus nunca escreveu nada, certo? Isto faz pensar.

- Paulo alega ter tido uma visão, ter visto o Cristo ascendido.

- Eu cresci com todas essas coisas, lembra-se? Fui educado dentro da tradição grega ortodoxa. Gosto da beleza disso, dos rituais. Mas sou apenas um homem interessado em aspectos práticos, Jack. Se pudermos seguir uma pista com fatos sólidos, então eu sou bom nisso. Essa coisa de cristianismo primitivo é como olhar através de um daqueles caleidoscópios de criança, que muda continuamente as lentes e os prismas. Quero fatos, dados sólidos, material escrito por aqueles que estiveram lá naquele tempo, textos que nunca foram adulterados. Até onde posso reconhecer, os únicos fatos sólidos que temos são aqueles nomes rabiscados naquela ânfora que encontramos ontem no fundo do Mediterrâneo.

- Estou ouvindo-o. - Jack sorriu e desligou o piloto automático. - Especulação está fora, entram os fatos.

- Eu me pergunto o que a antiga Sibila teria pensado disso tudo.

- O que você quer dizer?

- Do cristianismo. Seguidores de uma nova religião reunindo-se aqui debaixo de seu próprio nariz.

- Muito bem. Ponto final com a especulação - disse Jack. - Vamos nos ater primeiramente aos fatos sólidos. No final do período romano, Cumas tinha se tornado um centro para o culto cristão. Os templos eram convertidos em igrejas, a gruta da Sibila passou a ser usada para sepultamentos. O lugar está crivado de tumbas cristãs, quase como uma catacumba.

- E a especulação? Você pode considerá-la.

- Há uma tradição cristã, que dura já faz muito tempo, de que a Sibila predisse a vinda de Cristo. Na Écloga, de Virgílio, poemas escritos cerca de cem anos antes da erupção do Vesúvio, disseram-nos que estávamos no final da última era predita pela Sibila de Cumas, e o nascimento de um menino que precedia uma idade de ouro. Mais tarde, os cristãos interpretaram isso como uma profecia messiânica. E depois há o Dies Irae, o Dia da Ira, um hino medieval usado no réquiem da missa católica até 1970. Eu estava dando uma olhada nela há pouco tempo. As primeiras linhas são Dies irae! Dies illa Solvet saeclum in favilla teste David cum Sibylla! Dia da ira e do terror surgindo! Céu e terra em cinzas se consumindo. A palavra de David e a destruição prevista pela Sibila se realizando! Comumente se admite que esses versos são medievais, século XIII, mas pode haver uma fonte antiga por detrás deles, uma que agora está perdida para nós.

- A Sibila certamente estava muito atenta aos acontecimentos naquela caverna - disse Costas.

- Continue.

- Bem, nestes versos tudo soa bastante apocalíptico - disse Costas. - Quero dizer, céu e terra em cinzas se consumindo. Isto me parece ser uma erupção vulcânica.

- Pura especulação. - Jack sorriu para Costas, depois colocou as mãos sobre os controles do helicóptero. - É possível, apenas possível, que a Sibila e suas sacerdotisas soubessem que algo grande estava para acontecer. Havia acontecido uma catástrofe, um terremoto alguns anos antes, em 62 d.C., bastante grande para derrubar boa parte de Pompéia. Talvez a criação das profecias da Sibila envolvesse manter a atenção nos Campi Flegrei, na adivinhação e no augúrio baseados em todas as mudanças de disposição do mundo subterrâneo. E a Sibila pode ter sabido que os seus dias estavam contados. Ela já estava se tornando uma curiosidade, uma atração turística. Apenas poucos suplicantes vinham agora em busca de seus pronunciamentos orais, portanto eram poucos agora os presentes e pagamentos que tinham sustentado o oráculo no passado.

- E que maneira melhor de desaparecer do que com estrépito - acrescentou Costas.

- Precisamente. Talvez a Sibila tenha inculcado essa idéia nos cristãos que viviam aqui, residindo nos Campi Flegrei. Não há uma indicação clara de que no ensinamento de Jesus o Reino dos Céus tenha sido precedido por um apocalipse, muito embora esta idéia tenha dominado os cristãos durante séculos. Talvez ela tenha sua origem aqui, nos cristãos que podem ter morrido no inferno de 79 d.C. Odeio pensar sobre o que estava passando por suas cabeças naqueles momentos finais. Quando Paulo trouxe o Evangelho para eles vinte anos antes, duvido que tenham visualizado o seu fim dentro de um fluxo piroclástico seguido por incineração.

- Especulação construída sobre especulação, Jack.

- Você tem razão. - Jack sorriu, desligou o piloto automático e fez o Lynx sair do seu padrão circular e entrar em uma trajetória adequada para o leste, ao Longo da costa em direção ao sol levante. - É hora de encontrar alguns fatos sólidos. Estamos chegando em casa.

- Entendido e recebido. - Costas abaixou seus elegantes óculos de sol e olhou fixamente para o leste. - E, falando em fogo e enxofre, estou vendo um vulcão extinto adiante.




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   21


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande