O último Evangelho David Gibbins



Baixar 1.25 Mb.
Página3/21
Encontro02.07.2019
Tamanho1.25 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   21

CAPÍTULO 4
Jack e Costas ficaram suspensos sem peso na água oito metros abaixo do barco Zodiac ao sudeste da Sicília. Seu equipamento refletia a luz do sol que brilhava até a base do despenhadeiro trinta metros abaixo. Jack estava flutuando a alguns metros do posicionamento, mantendo flutuabilidade com a sua respiração e observando a cena extraordinária em cima. O Lynx, helicóptero do Seaquest tinha chegado alguns minutos antes, e o fluxo de ar da hélice inclinada criava um halo perfeito ao redor da silhueta do bote. Através do túnel de calmaria no meio, Jack podia ver as formas oscilantes dos dois mergulhadores substitutos que tinham sido baixados para proporcionar um back-up de segurança se algo desse errado. Jack podia sentir a vibração, o tamborilar da hélice na água, mas o ruído ensurdecedor do motor era abafado pelo seu capacete e os fones de ouvido para comunicação. Ele tinha ouvido Costas dando instruções para os mergulhadores que iam mergulhar, uma verificação complexa que parecia passar por todo o estoque de equipamentos da IMU.

- Ok, Jack - disse Costas. - Andy disse que estamos prontos para partir. Só quero conseguir que o pessoal da logística vá para o Seaquest na hora em que a atividade começar.

Sua voz soava curiosamente metálica, através do intercomunicador, um resultado do modulador escolhido para calcular os efeitos do hélio na mistura de gases sobre a voz. Jack moveu-se ereto e bateu as nadadeiras em direção ao posicionamento. O par de mangueiras onduladas do seu regulador o fez sentir-se como um mergulhador dos dias de Cousteau, mas a semelhança terminava aí. Quando se aproximou de Costas, lançou um olhar crítico para o console amarelo em suas costas, sua parte externa de forma curva continha o rebreather de circuito fechado com os cilindros de oxigênio e trimix (uma mistura de nitrogênio, oxigênio e hélio) necessários para o mergulho. As mangueiras ondulantes conduziam para um capacete e uma máscara que cobria o rosto todo, o que permitia que eles respirassem e falassem sem o estorvo de um bocal.

- Lembre-se de minha instrução específica - disse Costas. - Luzes apagadas, a menos que encontremos algo. Assim que os nossos olhos se acostumarem com a escuridão, teremos um maior alcance de visão para localizar uma elevação indicativa de naufrágio do que temos com o cone de luz de uma headlamp. Profundidade máxima, oitenta metros; tempo máximo até o fundo, vinte e cinco minutos. Podemos ir mais fundo, mas não quero arriscar até que o Seaquest esteja na posição e a câmara de recompressão ligada. E lembrem-se de seu equipamento de emergência. - Ele apontou para o regulador octópode que podia ser mantido dentro do capacete se o rebreather funcionasse mal, estabelecendo uma passagem secundária para o "counterlung" e injetando gás diretamente do cano para os cilindros.

- Recebido e entendido. Você é o mergulhador chefe.

- Eu quero que você lembre disso na próxima vez que você vir o tesouro brilhando no fundo do abismo. Ou dentro de um iceberg. - Costas pressionou um controle em seu computador de mergulho e depois olhou atentamente para Jack através do visor. - Só uma coisa antes de partirmos.

- O que é?

- Você disse que qualquer coisa que diga respeito à vida de Jesus é como poeira de ouro. As pessoas devem ter estado procurando pelo navio naufragado de São Paulo desde que existe o mergulho, mesmo antes de Cousteau. Por que nós?

- Isso foi o que você disse sobre a Atlântida. Algumas chances auspiciosas e um pouco de pensamento lateral. Isso é tudo que nós sempre necessitamos.

- E um pouco de ajuda de seus amigos.

- E um pouco de ajuda de meus amigos. - Jack pegou a válvula de descarga em sua jaqueta de flutuação. - Pronto para partir?

- Pronto para ir.


Segundos depois, Costas estava colidindo no fundo, abordando o mergulho da sua maneira costumeira, como se estivesse atravessando as cataratas do Niágara em uma barrica. Jack o seguiu de maneira mais graciosa, seus braços e pernas estendidos como alguém que salta de pára-quedas, um pouco embriagado pela falta de peso e o panorama que se abria debaixo deles. Era exatamente como ele se lembrava, cada erosão e cume da base do despenhadeiro estavam gravados em sua mente desde vinte anos atrás, desde as horas passadas medindo e registrando, passando rapidamente pela planta do naufrágio e examinando onde escavar em seguida. Costas tinha razão sobre a tecnologia. A arqueologia debaixo d’água tinha avançado rapidamente nas últimas duas décadas, como se a física tivesse avançado desde Marie Curie até os aceleradores de partículas em uma única geração. Antes, as medições eram feitas meticulosamente à mão; agora havia telêmetros a laser e fotogrametria digital, que usava veículos operados por controle remoto no lugar de mergulhadores. Aquilo que levava meses podia agora ser conseguido em questão de dias. Com a nova tecnologia de mergulho, profundidades maiores se tornaram acessíveis, profundidades que trouxeram novos limites, novos limiares de perigo. Os custos permaneciam os mesmo, os riscos eram ainda maiores. Jack estava sempre esticando, empurrando adiante os limites de exploração, mas, antes de comprometer outros para seguir atrás de si, ele precisava ter certeza de que o preço valia a pena.

Diretamente abaixo ele viu onde Ben e Andy tinham ancorado a linha de posicionamento no pequeno vale formado por erosão onde havia encontrado a sonda sonora, e dali ele viu uma corda oscilante coberta com alga estendendo-se e descendo pelo declive para dentro das profundezas. Era a linha que ele deixara no seu último mergulho e que ficara ali durante todos aqueles anos, que ainda estava exatamente onde a deixara, como se o local estivesse esperando por ele, inacabado. Costas também a vira, e de alguma forma fez uma parada antes de se mover usando um escavador dentro do leito do mar. Esperou Jack juntar-se a ele, depois, juntos, moveram lentamente as nadadeiras lado a lado seguindo a linha até alcançarem o platô, na profundidade de cinqüenta metros, o ponto mais distante onde ânforas tinham caído do naufrágio da embarcação romana. Enquanto lidavam pelo platô, uma forma como um vergalhão apareceu abaixo deles no lodo, com cerca de dois metros de comprimento e um orifício apenas visível no centro.

- Meus velhos amigos. - Jack puxou o controle na lateral do seu capacete para fazer sua voz soar normal. - Esta é a haste da âncora de chumbo romana que eu vi em meu último mergulho, e deveria haver uma outra idêntica cerca de cinqüenta metros adiante, na extremidade do platô. Isto é exatamente o que se deve esperar ver de um navio que utiliza duas âncoras para se manter a pouca distância da praia, uma lançada em seguida à outra. Podemos usá-las para obter uma posição da bússola em relação a um ponto determinado.

- Recebido e entendido.

Nadaram ao longo da corda e logo encontraram uma segunda haste, exatamente como Jack a lembrava, entalada numa fenda acima de um declive. De lá Jack podia ver a corda decrescendo gradualmente, sua extremidade pendurada sobre um cimo, o lugar mais profundo onde ousara chegar em seu mergulho de vinte anos atrás. Era como o final das cordas de segurança dos mergulhadores que ele tinha seguido nas cavernas, relíquias perturbadoras que testemunham um extraordinário esforço humano e que incita outros a ultrapassá-los. Sem parar, eles seguiram adiante, e desceram para a base do despenhadeiro rochoso onde o leito do mar se tornava um deserto de areia sem traços característicos. Na extremidade, Jack viu um cinturão com cartuchos corroídos usados para uma metralhadora e disposto sobre um pente de balas maiores para um canhão antiaéreo. Ele se lembrava de ter visto isso antes, relíquias da Segunda Guerra Mundial. Costas reduziu a velocidade, e estendeu a mão para a válvula de descarga em seu compensador de flutuação.

- Nem pense nisto - disse Jack.

- Só estava olhando - disse Costas, esperançoso e nadou afastando-se. Atrás deles, a areia parecia se estender até o infinito, um deserto azul-cinzento sem nenhum horizonte visível. Cerca de cinqüenta metros adiante, nadaram acima de um afloramento de rocha, depois viram uma ondulação onde a areia se erguia formando uma duna baixa. À medida que se aproximavam a ondulação parecia cada vez menos natural, como uma criatura do mar espreitando debaixo do sedimento, e estendia-se por dez metros ou mais em qualquer direção a partir de uma corcova central com outra cumeeira seguindo a noventa graus através dela. Costas inspirou de maneira audível. - Meu Deus, Jack. É uma aeronave!

- Eu estava me perguntando se tínhamos visto uma destas - murmurou Jack. - É um planador de ataque, um Horsa Britânico. Veja, você pode perceber onde as asas altas desmoronaram sobre a fuselagem. Naquela noite em 1943, quando a SAS (Special Air Service) apareceu de repente sobre os italianos, os britânicos também enviaram uma brigada aerotransportada. Esse foi o único grande erro em toda a invasão da Sicília, e foi bem horrível. Os planadores foram soltos muito afastados da praia contra um vento contrário, e dúzias deles nunca conseguiram chegar até a praia. Centenas de rapazes se afogaram. Vai haver corpos lá dentro.

- Então, este é um lugar em que definitivamente não quero ir - Costas disse baixinho.

- Acima da linha d’água, algumas vezes acreditamos que as antigas guerras nunca aconteceram, tudo está limpo e sanitizado, mas, debaixo d’água, continua tudo aqui, logo abaixo da superfície. Isto é bem assustador.

- Profundidade, setenta e cinco metros - Costas estava bem concentrado em seu computador, e eles nadaram por cima da última forma fantasmagórica na areia. - O tempo na frente não está parecendo muito bom. Dez minutos no máximo, a menos que queiramos realmente fazer mais do que parece sensato.

- Recebido e entendido.

- Suponho que não estamos procurando uma cruz gigante saindo do leito do mar.

Jack sorriu através do seu visor. - Eu gostaria que fosse tão fácil, Nos nem sabemos se naquela época a cruz já era um sinal cristão. Estamos falando de vinte, talvez vinte e cinco anos depois da crucificação. Muitos dos símbolos cristãos familiares, a cruz, o peixe, a âncora, a pomba, as letras gregas Qui-Rô, só começaram a aparecer no século seguinte, e mesmo então eram apenas usados secretamente. A arqueologia do cristianismo inicial é incrivelmente enganosa. E lembre-se, supunha-se que Paulo fosse um prisioneiro, sob a guarda romana. Dificilmente ele estaria andando com relíquias.

Jack olhou para o seu aferidor de profundidade. Setenta e sete metros. Ele podia sentir o compensador introduzindo continuamente ar dentro do seu macacão de mergulho enquanto ele descia, neutralizando a pressão da água. Ele se sentia alegre, extraordinariamente consciente de uma profundidade onde ele estivera a um passo da morte vinte anos antes. Ele conhecia muito bem o efeito entorpecedor da narcose por nitrogênio, o gosto denso e xaroposo do ar comprimido abaixo de cinqüenta metros, dentro da zona de perigo. Respirar a mistura de gás era como beber vinho sem álcool, o máximo de expectativas, mas sem excitação. Ele percebeu a ausência da narcose e que a sua mente estava super-compensando. Provocava uma euforia de um tipo diferente descer até esta profundeza com a cabeça clara. Ele se sentia intensamente vivo, concentrado, sua lucidez aguçada pelo perigo logo adiante, aproveitando o momento como se fosse um mergulhador novato.

- Eles devem ter ficado sem poder pensar por causa da narcose - disse Costas.

- Os rapazes de Cousteau?

- Não posso acreditar que tenham chegado até esta profundidade.

- Eu posso - replicou Jack. - Mergulhei com os últimos daquela geração, os sobreviventes. Franceses valentões, ex-integrantes da Marinha. Tomavam um trago de vinho antes de mergulhar para dilatar os vasos sanguíneos, e a última inspiração antes de colocar o regulador era aquela que enchia o pulmão com Gauloise. Descer profundamente era como uma competição para ver quem bebia mais. O homem de verdade poderia competir.

- Competir e morrer.

E então Jack as viu. Primeiro uma, depois outra. As formas inequívocas das ânforas de cerâmica, meio enterradas e escondidas no sedimento. A trilha conduzia de volta para a face do despenhadeiro, ao caminho por onde tinham vindo, em direção reta, mas as formas estavam muito incrustadas para ser identificadas. Podiam ser gregas, podiam ser romanas. Jack precisava de mais. Olhou para o aferidor de profundidade. Oitenta metros. Nadou por cima da última forma. Costas atrás dele. Repentinamente estavam em outro despenhadeiro, só que desta vez não havia banco de areia debaixo deles, só uma escuridão preta como tinta. Tinham alcançado o limiar do desconhecido, um lugar tão proibido quanto o espaço cósmico, o início de um declive que descia através de vastas gargantas profundas e cadeias de montanhas, ao mais profundo abismo do Mediterrâneo, mais de cinco mil metros abaixo. Era o fim do caminho. Jack deixou a força cinética carregá-lo alguns metros por sobre a extremidade do abismo, sua mente vazia diante da imensidão diante deles.

- Não faça isto, Jack. - Costas falou calmamente, sua voz soava distorcida, agora que o nível de hélio havia aumentado. - Nós podemos voltar com o Anthropod Avançado para Mar Profundo e examinar as próximas centenas de metros. Fazer isto de modo seguro.

- Não há indícios suficientes para justificar isso. - A voz de Jack soava distante, sem emoção, carregada demais para registrar seus sentimentos. - Os mergulhadores de Cousteau devem ter tido alguma intenção ao espalhar as ânforas sobre o banco de areia. Não há maneira de eles terem podido descer mais fundo, acompanhando o declive. Estamos situados dentro da zona de morte por ar comprimido. - Voltou-se lentamente, depois por capricho ligou a headlamp de seu capacete. Não havia nada a perder agora. O clarão era ofuscante, e mostrava como estava escuro ao redor deles. Ele dirigiu o feixe de luz para a face do rochedo, revelando trechos ocasionais em vermelho e laranja que ficavam invisíveis na luz natural. Dificilmente alguma coisa poderia viver nesta profundidade. Dirigiu o feixe de luz para além do limite de visibilidade abaixo, depois recuou de novo.

Bingo.

Uma saliência estreita, oculta, quando vista de cima, pela cornija do despenhadeiro. Formas em montículos, vinte, talvez trinta delas, idênticas àquelas que tinham acabado de ver. Ânforas.

- Achei - disse Jack excitado. - Cerca de dez metros abaixo de nós.

Costas nadou para perto de Jack, ligou sua headlamp e olhou atentamente para baixo. - Tenho a impressão de que é um montículo formado por um naufrágio - murmurou. - Um pequeno vale arenoso. Seria bom para a preservação.

- Ali deve ser a popa - disse Jack fervorosamente. - A proa se chocou com o despenhadeiro, a popa flutuou para trás, deixando cair ânforas por onde ela passa, depois afunda aqui. É onde devem estar os melhores artefatos, os suprimentos do navio, os pertences pessoais, as coisas para identificá-lo.

- Você consegue ver qual é o tipo de ânfora?

- De modo algum. Necessito descer até lá.

- Jack, podemos fazê-lo, mas preciso configurar de novo o perfil do mergulho. É exatamente o que não quero fazer. Isso nos colocará dentro de um programa de descompressão muito extenso, antes da chegada do Seaquest e sem nenhum apoio de retaguarda. Mesmo os mergulhadores com uma margem de segurança não fazem isto. E só nos restam dez minutos.

- Qualquer mergulho é um risco - murmurou Jack. - Mas, se você consegue calcular o risco, pode fazê-lo de maneira segura. Você acabou de calculá-lo. Isso é o que você sempre me diz.

- Lembra-se do que você disse sobre toda essa nova tecnologia de mergulho, sobre ultrapassar o limite? Bem, é nessa situação que você se encontra agora.

- Eu confio no seu equipamento, mas confie na minha intuição. Este pode ser o melhor naufrágio de navio que já descobrimos.

- Poderíamos esperar. Certamente já encontramos suficientes indícios agora para voltar para cá.

- Poderíamos.

- Eu vou cobrir a sua retaguarda, você cobre a minha.

- O acordo é sempre este.

- Vamos lá.

Desceram juntos pelo declive com Costas reprogramando seu computador de pulso enquanto Jack movimentava sua luz sobre os montinhos de ânforas abaixo. Logo antes de alcançarem a saliência do rochedo ele soltou um grito de excitação. "Greco-itálico - ele exclamou. - Ânforas Dressel 2 a 4. Olhe, daqui você pode distinguir as altas asas e a parte angulada em forma de ombro. É do primeiro século d.C., ânfora do tipo italiano. Aposto que é de Campânia, perto do monte Vesúvio. É isto. Encontrei o que precisava. Temos um naufrágio da primeira metade do século d.C.

- Temos mais nove minutos - disse Costas. - Eu reprogramei o computador para estes minutos, e podemos usar o tempo adequadamente. - Ambos desceram e se ajoelharam no leito do rio ao lado das ânforas, e começaram a fazer uma varredura no local com suas headlamps. Jack viu outras formas salientando-se do sedimento debaixo das ânforas, formas de vergalhões de cerca de um metro de comprimento. Mergulhou mais profundamente e tirou o sedimento com a mão, depois desembainhou sua faca e raspou cuidadosamente. - Exatamente o que pensei - ele murmurou excitado. - Lingotes de chumbo.

- Este aqui tem letras escritas.

Jack colocou a faca na bainha e nadou até onde Costas estava, depois limpou o sedimento para ter uma visão mais clara.


TI.CL.NARC.BR.LVT.EX.ARG.
Durante um momento ficaram em silêncio. - Ah, serei condenado ao inferno - ele murmurou. - Tibério Cláudio Narciso.

- Você conhece este sujeito?

- Um escravo do imperador Cláudio. Quando ele foi libertado, adotou os dois primeiros nomes do imperador, Tibério Cláudio. Era secretário de Cláudio e tornou-se um dos seus principais ministros, mas foi supostamente assassinado por Agripina, a esposa de Cláudio, depois que ela envenenou seu marido.

- Como isso nos ajuda?

- Os escravos libertos eram os novos-ricos da época. Não restringidos pelo esnobismo aristocrático podiam investir no comércio e na indústria. Era exatamente como no século XIX. Nós já sabemos que Narciso tinha interesse em um certo número de negócios em Roma, alguns deles bem confusos. Este lingote mostra o seu caráter astucioso.

- BR significa Grã-Bretanha?

- Sim. LVT era a mina de chumbo de Lutudarum, em Derbyshire, um dos principais centros de mineração de chumbo na Grã-Bretanha. EX ARG significa ex argentariis, relativo aos trabalhos com chumbo prata. Eu o percebi quando raspei aquele outro lingote.

- Chumbo de alta qualidade - disse Costas. - Produzido com galena, sulfeto de chumbo, um subproduto da produção da prata. Poucas impurezas, menos material para oxidar, mais brilhante. Estou certo?

- Correto. Pela análise dos canos de chumbo em Pompéia, sabemos que o chumbo da Grã-Bretanha era exportado para o Mediterrâneo. Isto era exatamente o que se esperava que um rico proprietário de navio devesse ter a bordo de seu navio de melhor qualidade, para reparar o revestimento externo de chumbo no casco do navio. Nossa sonda sonora estava bastante razoável, não escurecida pela corrosão, e meu palpite é que ela foi fundida com essa liga metálica em algum lugar ao longo do caminho.

- Fascinante, mas eu ainda não vejo aonde isso nos conduz.

- A Grã-Bretanha foi invadida pelos romanos em 43 d.C., as minas de chumbo entraram em operação em torno de 50 d.C. O velho e esperto Narciso deita a mão nelas no momento mesmo em que foram produzidas e consegue um contrato lucrativo do mesmo modo que faz hoje um especulador em mineração. Estes lingotes devem datar do início dos anos 50. Isso nos aproxima, nos aproxima bastante, da data mágica para o naufrágio do navio de são Paulo.

- Entendi.

Houve um estalo no intercomunicador, e depois o som de um bip em staccato indicando uma mensagem de revezamento do Seaquest. - Você a pega - disse Jack. - Preciso me concentrar. - Ele harmonizou o receptor externo em seu capacete e subiu alguns metros acima do local do naufrágio, enquanto Costas mergulhava para perto da ânfora ao mesmo tempo que ouvia a mensagem. Jack direcionou sua lanterna para a série de ânforas caídas, sabendo que eles tinham somente mais alguns minutos. Eles tinham encontrado mais do que esperavam, muito mais, e com uma grande sensação de alegria ele se deu conta de que a escavação agora iria adiante. Subitamente, tudo aqui era sacrossanto, não mais uma região fronteiriça de descoberta, mas um lugar a ser cuidadosamente analisado, um manancial inter-relacionado de evidências onde cada aspecto, cada relacionamento, podia conter vestígios preciosos. Ele começou a descer novamente para tirar Costas daquela posição, exatamente quando os três minutos de aviso começaram a brilhar dentro do seu capacete.

- Oh, oh - disse Costas. - É o seu velho amigo Maurice Hiebermeyer. Logo quando você achava que ele estava metido até o pescoço em meio a múmias no Egito, ele sai repentinamente de um buraco no solo na Itália.

- Ele tem trabalhado com Maria nas ruínas romanas de Herculano - disse Jack. - Houve um terremoto, e ele está fazendo uma espécie de escavação de resgate. Eles têm tido problemas com as autoridades que controlam a parte do terreno onde estão, então talvez tenha conseguido algum tipo de acalmada. Ele tem estado me atormentando persistentemente há meses acerca de um papiro, algo que tem a ver com Alexandre, o Grande. A última vez em que ele tentou me pegar foi quando estávamos erguendo aquele canhão do grande cerco de Constantinopla. Ele realmente escolhe seus momentos.

- Ele diz que é urgente. Não quer desligar.

- Diga ao oficial do rádio que falarei com Maurice enquanto fazemos a descompressão.

Houve um som de bipe insistente, e Costas olhou para o seu computador. - Estamos no amarelo, Jack. Mais dois minutos no máximo.

- Recebido e entendido. Estou pronto para partir.

- Jack.


- O que é?

- Esta ânfora na minha frente. Ela tem algum tipo de inscrição sobre ela. Jack estava diretamente acima de Costas agora, e podia ver claramente as letras pintadas na parte de trás da ânfora. EGTERRE. - É um infinitivo em latim, significa "ir". Uma marcação que traduz um padrão de exportação.

- Não. Não isso. Abaixo disso. Marcações riscadas. - Costas limpou cuidadosamente o lado da ânfora enquanto Jack mergulhava para junto dele. - Parece um grande asterisco, ou talvez uma estrela.

- Também é muito comum - murmurou Jack. - Marinheiros aborrecidos, passageiros passando o tempo e rabiscando na cerâmica, jogando jogos. Se aquela foi uma viagem longa e arrastada vamos encontrar um monte de rabiscos. Mas vou pedir para os rapazes dos veículos operados por controle remoto para fotografar isto em sua primeira visita ao terreno.

- Aristarchos - disse Costas lentamente. - Letras gregas. Posso lê-las.

- Provavelmente um marinheiro - disse Jack, agora com um tom urgente enquanto olhava para o seu computador. - Havia muitos marinheiros gregos na época. Provavelmente um ancestral seu. - De repente ele prendeu a respiração. - O que é que você disse?

- Aristarchos. Olhe você mesmo.

Jack desceu mais para baixo e olhou atentamente para a cerâmica. As letras eram seguras, arrojadas, não os rabiscos grosseiros de um marinheiro. Poderia ser? Ele quase não ousava pensar. Aristarco de Tessalônica?

- Há uma outra - disse Costas. - Escrita pela mesma mão, pela aparência. Loukas, eu acho.

A mente de Jack vacilou. Loukas. Lucas. Olhou novamente para o símbolo rabiscado acima dos nomes, a forma de estrela. - Eu estava errado - ele disse com a voz rouca. - Estávamos todos errados.

- O que quer dizer?

- Aquele símbolo. Não é uma estrela. Olhe, a linha vertical tem um pequeno laço no topo. Trata-se da letra grega R, e o X é a letra grega Ch. É o símbolo Qui-Rô. Do modo que eles o usavam no primeiro século. - Jack mal podia acreditar no que estava dizendo. - As duas primeiras letras da palavra christos, a palavra grega para Messias - ele sussurrou.

- Eu acho que isso vai melhorar. Melhorar muito - Costas tinha limpado o sedimento da ânfora debaixo da palavra Loukas, e um terceiro rabisco apareceu. As letras eram tão claras como o dia. Ambos ficaram atônitos.

Paulos.

Paulo de Tarso, São Paulo, o Evangelista, o homem que tinha rabiscado seu nome e os dos seus companheiros neste cântaro quase dois mil anos antes, debaixo do símbolo daquele que eles já veneravam como o Ungido, o Filho de Deus.

Jack e Costas começaram a subir ao mesmo tempo, em direção ao vislumbre opaco de luz onde o sol brilhava na superfície, quase cem metros acima. Jack parecia estar em transe, olhando para Costas sem vê-lo, visualizando um grande navio de cereais navegando no Mediterrâneo dois mil anos antes, na época dos césares, levando inexoravelmente seus passageiros para dentro dos anais da história.

- Pelo que vejo - Costas disse perturbado, - estamos trabalhando.





Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   21


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande