O último Evangelho David Gibbins



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CAPÍTULO 23
Jack puxou-se de volta para a extremidade do espaço onde eles tinham retirado o bloco, sua mochila empurrada adiante dele. Colocou-a no chão da capela, depois esticou as mãos para baixo e usou-as para conduzir-se para fora. As velas ainda estavam acesas, mas não havia ninguém à vista. - Costas? - ele chamou, a voz ecoando de volta para ele. - Helena? - Não houve resposta. Puxou as pernas para fora e agachou-se, retirando a correia da mochila do seu pescoço. Sacudiu os cabelos e enxugou o rosto. Eles talvez tivessem voltado para a primeira câmara, para a Capela de Santa Helena. Verificou o relógio. Faltavam vinte minutos para meia-noite. Se Maclean tivera sucesso, Jack agarrou a mochila, aquele empreendimento também poderia ter sucesso. E o que quer que acontecesse agora para eles, o mundo ficaria sabendo.

Ergueu-se dolorido e caminhou em direção à entrada da capela, saiu dentro da gruta da pedreira. Jack enxugou o rosto novamente com as costas da mão, percebeu como estava encardido, ainda gotejante. A sua frente podia ver a porta gradeada, pela qual tinham entrado, ainda aberta. Atrás dela havia luz de vela na Capela de Santa Helena, as colunas centrais escurecidas, os degraus na escuridão mais atrás que conduziam para o andar principal do Santo Sepulcro, depois para o mundo exterior. Caminhou para frente. Ainda nada. Algo estava errado. Depois um som, um som que estava deslocado, metálico. O som de uma arma sendo engatilhada. Então era isso. Ele se manteve no lugar, o coração acelerado, e olhou ao redor. Lentamente, caminhou para dentro da capela.

- Doutor Howard. Nós nos encontramos novamente. - A voz instantaneamente se tornou familiar, com o vestígio de um sotaque do Leste europeu. Era a voz do homem que encontrara em outro subterrâneo dois dias atrás, um homem que ele e Costas nunca viram a não ser na sombra. Subitamente, Jack sentiu um aperto frio na boca do estômago. Helena tinha razão. Ele não disse nada, a mente paralisada, mas continuou a caminhar cautelosamente sobre o chão de pedra irregular, mantendo os olhos afastados das velas para se acostumar com a escuridão. Então a figura parou na frente dele, nas sombras novamente, ao lado do altar e de uma estátua de uma mulher segurando uma cruz, Santa Helena. Jack ficou parado e silencioso, os pés separados, olhando de um lado a outro, tentando distinguir outras pessoas na escuridão.

- Quero vê-los - gritou Jack rispidamente.

Fez-se uma pausa, um som de dedos estalando, depois, alguém com uma veste desgrenhada de monge, foi empurrado para frente, tropeçando na rocha e caindo pesadamente sobre um cotovelo. Era Yereva, com o rosto queimado e intumescido. - Eu não disse nada, Helena - ela deixou escapar, olhando para a escuridão atrás dela. - Alguém me seguiu. - Depois o silenciador de uma pistola foi colocado contra a sua cabeça, e ela foi puxada de volta para as sombras.

- Você vê, nós sabemos de tudo durante o tempo todo - disse o homem, seu rosto invisível. - Temos olhos e ouvidos por toda parte. Muitos irmãos de boa vontade. - Jack o viu estalar os dedos novamente. Uma outra figura apareceu, empurrada, um homem de barba vestindo um manto episcopal, apertando uma cruz ornada ao seu peito. Jack viu uma pistola movendo-se de um lado ao outro em direção ao bispo, que se voltou para Jack e olhou de modo suplicante, torcendo-se para um lado. Jack disse irado. - Este é um de seus irmãos de boa vontade? - ele perguntou.

O bispo falou rapidamente em sua própria língua, implorando. O homem que estava nas sombras se voltou para ele, com a voz baixa, malévola. Disse alguma coisa em latim. O bispo parou de falar, parou enraizado no local, depois começou a tremer, chorando.

- Você vê? - disse o homem, voltando para trás. - Todo aquele que serve à Igreja tem boa vontade.

- Quero ver Costas e Helena - disse Jack de novo rispidamente.

Dentro das sombras, o homem falou, em italiano, dirigindo-se para um lado. - Pronto - ele disse. Os dedos estalaram novamente. Houve uma briga, e uma exclamação com ruídos. Costas foi subitamente empurrado para debaixo da luz da vela, tropeçando e ficando ereto depois, com uma fita adesiva colocada sobre a boca e as mãos atadas atrás das costas. Estava respirando muito alto, absorvendo o ar através de suas narinas bloqueadas, o peito se levantando. Jack podia ver o tubo preto de um silenciador atrás de seu pescoço, e o contorno escuro de uma figura atrás dele. Uma figura com o braço dentro de uma atadura rígida. Agora a mente de Jack estava trabalhando ativamente. O assaltante deles em Roma. Costas prendeu o olhar de Jack, seus olhos estavam arregalados, desesperados.

- Tire a fita adesiva - gritou Jack, ríspido. - Ele não pode respirar.

- Ele não tem nada a dizer - replicou tranquilamente o homem perto da estátua. - E nem você.

Jack subitamente ficou sabendo, com uma certeza desapaixonada. Aquele local não era mais uma capela. Era uma câmara de execução. Olhou para o relógio. Precisava esticar aquele momento. Apenas mais dez minutos. Acrescentou sua prece àquelas que tinham sido ditas antes. - Presumo que aquele pequeno tumulto nas ruas não foi coincidência - ele disse. - As facadas, o toque de recolher, o corte de eletricidade.

- Isto sempre serve ao nosso propósito de manter o estado judeu em desordem - disse o homem. - E sempre tem sido fácil infiltrar grupos extremistas, em ambos os lados.

- Quando nos encontramos antes você disse que queria pôr um ponto final nisso.

- Eu precisava convencê-lo.

- Você nos contou a verdade sobre o concilium, sobre Cláudio e o último evangelho.

- Precisava lhe dar material suficiente para encontrar o que nós queremos. Para nos trazer a este lugar. Para resolver o assunto, como você diz. Por intermédio de Narciso, sabíamos que Plínio pegara o que Cláudio lhe dera para levar a Roma, e que Cláudio havia visitado a tumba em Londres. O resto era trabalho seu. E depois houve outras pistas. O Museu Getty, o convento em Santa Paula, aqui. O seu jovem colega americano confia demasiado em seus amigos. Não que isso deva lhe importar agora.

- Jeremy. - Jack sentiu novamente um frio na boca do estômago.

- Está vivo. Por enquanto. Assim como os seus colegas em Nápoles. Seguros no meio dos grupos de pessoas de nossa extensa família - O homem fez um gesto de assentimento para a figura escurecida pelas sombras atrás de Costas. - Quando chegar a hora, será rápido. Uma bala na cabeça, um outro corpo incinerado. Ninguém nunca saberá. Este tem sido sempre o nosso método.

- Como você sabe que eu não teria contado para outros? Sobre o concilium?

- Porque você precisava manter isto em segredo até que o que procuramos fosse encontrado. Eu o induzi a acreditar que outras pessoas também estavam procurando por isto, seguindo sua pista. E eu estava dizendo a verdade. Eu vi através de você, doutor Howard, eu vi através de você, quando estava sentado diante de mim em Roma, ao lado da tumba de são Paulo. Nós somos o seu pior pesadelo. Você nunca pode escapar de nós. Estamos sempre com o controle.

- Você realmente acha que são Paulo teria desejado tudo isto? - perguntou Jack.

- São Paulo foi o nosso iniciador. Nós protegemos a sua Igreja. Ele nunca podia ter previsto as guerras que temos que lutar, os sacrifícios que temos que fazer. In nomine patre, filii et spiritu sancti. A nossa guerra é a guerra de toda a humanidade. O Diabo é onipresente.

- Somente dentro da sua mente - disse Jack. - O concilium procurou dissidência, e criou furor a fim de justificar a si mesmo. Auto-satisfazendo a si mesmo e se autodestruindo.

- Eu não penso assim, doutor Howard - disse o homem friamente.

- Você não irá longe com esses assassinos como ajudantes.

- De onde eu venho há muito mais pessoas. - O homem retirou a cabeça para as sombras detrás dele. - Nossa extensa família, como eu disse.

- A família? Eles não parecem se importar com o que fizeram para seus parentes, seus pais, seus vizinhos. Elizabeth d’Augustino era minha amiga.

- Ah, Elizabeth. Depois, ela os traiu, a sua família. Sabemos que ela tentou avisá-lo, quando vocês estavam em Herculano. Mesmo então, ela conhecia seu destino. Este tem sido sempre o método.

- O que vocês fizeram para ela?

- O caminho ficará limpo.

- Se eu fosse você, teria muito cuidado ao escolher em quem confiar. Eles são traficantes de drogas agora, não servidores do Senhor. Um dia, virão atrás de você.

- Blasfêmia - sibilou o homem. - Eles têm sido nossos fieis servidores por centenas de anos. Nada mudou, e nada mudará.

- É nisso que você está errado. Há muitas dificuldades para ultrapassar em seus métodos. Outros procurarão por vocês. Por causa do que fizeram. O peso de sua própria história os destruirá.

- Ninguém ficará sabendo. Nunca deixamos um rastro. - O homem fez um gesto para alguém dentro da escuridão atrás dele. - Há onze cisternas de água escavadas profundamente na rocha debaixo deste lugar. Você já está dentro da sua própria tumba. - Fez um gesto com a cabeça para a figura nas sombras, depois retirou um celular de seu bolso e o ergueu. - Quando você desaparecer, eu vou sair e telefonar para Nápoles, depois Londres. No final do dia, todos vocês terão desaparecido. Nada disso jamais terá acontecido.

Jack olhou para o seu pulso. Só dois minutos. - O cheiro da morte - ele disse. - Você não pode esconder o cheiro da morte. - Ele olhou para Costas, que subitamente estava olhando fixamente para ele, e parecia ter parado de respirar. - Nós seremos encontrados.

- Tudo aqui cheira a morte - o homem riu com escárnio. - Você já esteve alguma vez no monte das Oliveiras? O cheiro repugnante e adocicado da morte se encontra por toda parte. E você não será o primeiro. De Pelágio em diante, outros trouxeram suas ilusões para cá, e não foram adiante. E aqui estamos no maior templo para a morte, a própria tumba de Cristo, Nosso Senhor.

- Você acredita nisso? Que ele foi enterrado aqui? - perguntou Jack.

- Eu só conheço a ascensão de Cristo. Sei pouco sobre Jesus o homem.

- Este é o seu problema.

- Você vai nos dar o que encontrou. Não faz diferença se os seus companheiros morrem agora ou dentro de dois minutos. Capisce? - ele disse de dentro das sombras, e Costas e Helena subitamente balançaram bruscamente, o homem com o silenciador atrás deles. - Dê agora para mim o que você encontrou e o fim será rápido.

Jack respirou profundamente, enfiou a mão dentro de sua mochila e tateou em volta, cobrindo o que estava procurando com sujeira molhada. Ele o puxou para fora, caminhou adiante e colocou o objeto ao lado de uma vela no altar, perto da estátua da mulher com a cruz. Deu um passo atrás. Costas e Helena olharam ambos para aquilo, mas não disseram nada. Era o cilindro de bronze encontrado na tumba de Boudica, o mesmo cilindro que Cláudio colocara ali, o cilindro que Jack levara secretamente consigo para Jerusalém. O homem estendeu a mão e agarrou-o. - Você nos conduziu até ele, e nós o encontramos. Isto se passou como deveria ser. A vontade do Senhor está feita.

- Você pode querer verificar dentro dele - disse Jack em voz baixa. Olhou novamente para o seu relógio. Zero hora.

- Isto é uma blasfêmia - o homem sibilou de novo. - Eu não vou abri-lo. Uma impostura criada por aquele Cláudio louco. Uma falsidade que iludiu todos aqueles que a procuraram. Isto será triturado e queimado e atirado em sua tumba. Você pode tratar com carinho seu tesouro por toda a eternidade. Chegou o momento. - Ele estalou os dedos, e Costas foi empurrado em direção a um buraco negro no chão ao lado dele, o cano da arma encostado em sua nuca. Jack avançou adiante e ergueu sua mão. - Espere - ele disse. - Há uma coisa que você deveria ver primeiro. Algo mais que eu consegui. Agora. - Estendeu a mão para o bolso de sua mochila. A pistola girou abruptamente em direção a sua cabeça. Deteve sua mão. - É um computador. - Ninguém se moveu e fez-se silêncio. Jack cautelosamente continuou, e retirou um laptop do tamanho de uma palma de sua mochila. Caminhou de volta e colocou-o no altar diante da estátua, abrindo-o. Ele já estava funcionando. A tela mostrava uma manchete da CNN. - Isto foi levado ao ar uma hora atrás, antes que entrássemos na igreja - ele disse. Jack bateu de leve em uma tecla. O artigo apareceu, a manchete do artigo chamando a atenção no topo da tela.
O ÚLTIMO EVANGELHO?

TUMBA PERDIDA É DESCOBERTA


Jack voltou-se para o homem. - Você vê? - ele disse. - Eu também tenho amigos. Irmãos de boa vontade, como você diria. Enquanto nós conversamos, esta história está sendo divulgada através de agência noticiosa ao redor do mundo. Planejei para que ela fosse publicada às dezenove horas, e já passamos desta hora. A história inteira foi publicada. Meu nome, o seu nome. Este lugar. Dois mil anos de terrorismo, de assassinatos. Tudo o que você nos contou de maneira tão proveitosa sobre o concilium.

- Você não sabe o meu nome - sibilou o homem.

- Aqui você se engana. Esta é a única coisa que Elizabeth conseguiu me dizer. Cardeal Ritter.

O homem soltou um grito de raiva, caiu para trás, arrastando-se em busca da parede. Naquele momento, houve um estrépito e uma luz ofuscante brilhou vinda da entrada da capela. Tudo aconteceu ao mesmo tempo. Costas foi rapidamente adiante, depois girou para trás, batendo com o ombro na figura atrás dele, agarrando-a pelo estômago e jogando-a estatelada no chão. Eles ouviram gritos em hebraico, e duas figuras uniformizadas avançaram saindo do lugar iluminado. Carabinas M4 apontadas à frente. Um deles arrancou a fita adesiva da boca de Costas e cortou a corda que amarrava seus pulsos. Costas espirrou profusamente, depois se abandonou em cima de Jack, respirando com dificuldade. - Isto entrou em cena de maneira conveniente - ele disse ofegando e acenando com a cabeça para o cilindro de bronze. Helena se aproximou para ajudar Costas, e Jack podia ver Ben mantendo a guarda na entrada da sala, um inspetor de polícia israelense, e Maclean ao lado dele. Jack estendeu a mão e segurou Costas pelos ombros. - Graças a Cristo por isso. E agora você sabe. Eu não me tornei um caçador de tesouros, afinal de contas. Tudo tem um propósito mais elevado.

- Não tente me dizer que você planejou tudo isto muito antes - ofegou Costas.

- Foi simplesmente uma precaução. Mas enviar Maclean para montar um press release foi um empreendimento arriscado. Custou-me um bocado de tempo.

- Isso não se parece com você, Jack.

- Atirariam ovos em nossas caras se não encontrássemos nada, mas, ainda assim, seria melhor do que aquilo que o nosso amigo tinha em mente para nós - disse Jack, mostrando a cisterna com a cabeça. - Achei que algo assim poderia acontecer.

- Muito bem concebido, Jack - disse Helena, se aproximando e colocando as mãos em volta dele. - Não é o Jack Howard de que me lembro. Planejar o futuro nunca foi o seu forte. Você sempre seguia o seu faro.

- Isto me lembra de algo - disse Costas, espirrando novamente. - Obrigado por aquele momento em que falou sobre o cheiro da morte. Foi um belo toque. Quase vomitei dentro daquela mordaça. Exatamente o que eu queria.

- Achei que você precisava de um pouco de incentivo.

- Nunca, nunca mais faça isso, Jack. Jamais.

- Nunca - prometeu Jack solenemente.

O homem nas sombras permanecia fixado ao lado da estátua. Jack tinha mantido o olhar sobre ele, e subitamente percebeu que toda a atenção tinha sido concentrada no homem com a arma atrás de Costas, o homem que estava junto com o cardeal e que os policiais tinham visto quando irromperam dentro da capela. De repente, o cardeal arremeteu para frente e agarrou o cilindro de bronze, depois saiu correndo com ele em direção à entrada que dava para a antiga pedreira, a porta gradeada. - Agora eu o peguei. Vou destruí-lo. Vocês nunca saberão o que ele contém.

- Você está errado de novo. - Jack enfiou a mão dentro de sua mochila, e cuidadosamente retirou um outro cilindro, aquele que ele tinha pegado na câmara subterrânea alguns minutos atrás. - O que você tem em mãos é um cilindro de bronze que peguei na tumba de uma rainha britânica em Londres. Um artefato muito bonito, é notável realmente. E, casualmente, ele está vazio.

O homem gritou de modo ríspido e, com um movimento rápido, girou a tampa do cilindro, olhando dentro. Ele pendeu para um lado, depois pareceu imobilizar-se no lugar onde estava. Jack passou o cilindro de pedra para Costas, entendeu-se com ele pelo olhar, depois se atirou à frente. Em um instante, agarrou o homem com uma chave de cabeça, forçando seu braço esquerdo atrás das costas até que o homem gritasse de dor. Jack afrouxou o aperto ligeiramente, manteve-o preso, e tirou o cilindro de bronze do homem, colocando-o debaixo da estátua. Depois, empurrou o braço de volta até que o homem choramingasse. Jack o segurava como se o prendesse em um torno de bancada, bem apertado atrás de sua orelha esquerda. Podia sentir o cheiro de incenso, suor fresco, medo.

- Você vê? - sussurrou Jack, guiando a cabeça do homem em direção ao laptop, para que ele visse a manchete berrante, e depois para o precioso cilindro nas mãos de Costas. - Você entre todas as pessoas deveria conhecer, Eminência. O poder da palavra escrita.

CAPÍTULO 24

Na manhã seguinte, eles se espremeram dentro de uma Toyota 4x4 e Jack os conduziu subindo a grande falha do vale do Jordão, desde Jerusalém até o mar da Galiléia. Costas e Helena estavam sentados ao lado de Jack, e Maclean ia atrás. A eles se juntaram Jeremy e Maria, que tinham vindo direto de Tel Aviv. Jack lhes havia enviado passagens na primeira classe imediatamente depois de sair do Santo Sepulcro, no dia anterior. Ele sabia que muita de sua ansiedade poderia agora se dissipar, mas, ainda assim, era um enorme alívio tê-los por perto. Hiebermeyer era um assunto completamente diferente. A equipe de jornalistas parecia ter se concentrado nele em Nápoles, e ele se recusou a sair do lugar. Jack sabia que ele iria participar com prazer a qualquer momento, mas isto também fazia parte do jogo, era uma maneira de desviar a atenção de Jerusalém. Ainda tinham um ato final para representar, uma incorporação final de algo encoberto na história, evento que os conduziu para a mais extraordinária caça ao tesouro da vida de Jack.

- Nenhuma palavra ainda? - perguntou Costas. Com a voz sacudida por causa do balanço do veículo, enquanto Jack o conduzia por cima de grandes buracos remendados.

- Nada ainda - replicou Jack, lutando com o volante. - Mas assim é Nápoles. E não nos falamos por mais de dez anos, então eu não poderia mesmo esperar uma resposta instantânea.

- Ela podia ser gentil.

- Eu tive uma visão estranha na tumba, sabe - disse Jack. - Tinha a impressão de vê-la, mas era uma espécie de combinação curiosa, como se realmente houvesse alguém deitado naquela laje.

- Um momento Agamenon?

- Acho que ela estava em minha mente.

- Pelo menos o cardeal e sua equipe de assassinos estão fora do caminho.

- Por enquanto. Mas isto não vai durar muito tempo. E, depois que o furor popular terminar, ele será tranquilamente absorvido de novo no rebanho. Este tipo de revelação já foi feito antes, e nunca parece balançar o barco.

- Ciente da existência do concilium, a lei pode ser capaz de manifestar um braço mais forte.

- A lei de quem? - perguntou Jeremy lá detrás.

- E isso depende de quanto o povo acredita em tudo isso - disse Maria por cima do ombro de Jack. - Quero dizer, como você disse, Jack, que grandes revelações sobre a Igreja rapidamente se tornam notícias passadas, a não ser que se possa imputar assassinato e corrupção a elas. E é improvável sermos os primeiros a reivindicar que encontramos um evangelho perdido.

- Não se trata de nenhum desses tópicos - disse Helena. - Vocês estão esquecendo do que Jack disse para o cardeal. O poder da palavra escrita. Se nós realmente temos o evangelho, se de fato temos a palavra de Jesus dentro daquele cilindro, então os crentes podem encontrar tudo de que necessitam para prosseguir firmemente seu próprio curso, para encontrar seu próprio caminho.

- Mas as pessoas gostam de ter uma mão que ajude, e gostam de fazer parte de uma congregação - disse Maria. - Para alguns, a Igreja é aquilo de que necessitam.

- A liberdade é a chave - disse Helena. - A liberdade para escolher o seu próprio caminho espiritual, sem medo, sem perseguição, sem culpa, sem a inquisição e o concilium. É disto que se trata. Se pudermos desgastar um pouco daquela incrustação, então teremos praticado algum bem.

- Ainda temos que descobrir o que há dentro daquele cilindro - disse Costas. - Se Jack nos deixar.

- Tenha paciência - disse Jack. - Apenas uma última parada.

- Estamos vindo para cá por causa daquela nota que encontramos no manuscrito de Plínio, certo? Aquele que conta que Cláudio e seu amigo Herodes visitaram Jesus no mar da Galiléia?

- Aquele mesmo.

- Não haverá buracos no chão desta vez?

- Sem buracos no chão.

Passaram por postes indicadores de caminhos com nomes que os faziam lembrar da rica e turbulenta história desta terra: Jericó, Nablus, Nazaré. Quando encontraram a indicação para o mar da Galiléia, viraram para a esquerda, passando por recantos e fontes termais de Tiberíades, depois continuaram mais algumas milhas adiante ao pé dos flancos imponentes do monte Arbot até chegarem à entrada do kibutz Ginosar. A terra ao redor deles era queimada, ressecada, e podiam ver que o contorno do lago havia recuado certa distância sobre os alagadiços para o leste. Jack entrou dentro do kibutz e todos eles desceram e se esticaram, cansados e famintos depois de quatro horas de viagem. Jack vestia calças caqui, camiseta cinza e botas de deserto e carregava sua confiável mochila caqui pendurada no ombro. Costas vestia sua extravagante seleção habitual de roupa havaiana e os óculos de sol de grife que Jeremy havia lhe dado, que agora parecia ser um acessório permanente. Jeremy, Maria e Maclean estavam todos vestidos como Jack. A única que parecia ignorar o calor era Helena, que vestia a sotaina branca de freira que estava usando quando a encontraram pela primeira vez no teto do Santo Sepulcro no dia anterior.

- Este é o local do antigo Migdal - disse Jack. - Casa de Maria de Migdal, Maria Madalena. Este litoral era onde Jesus vivia quando jovem, onde ele trabalhou como carpinteiro e pescador e andou no meio das pessoas da Galiléia, espalhando sua palavra.

Depois de um rápido lanche na cantina do kibutz, todos foram para o Museu Yigal Allon e ficaram dando voltas na sala central da exposição, recebendo silenciosamente as impressões causadas por um dos mais notáveis achados jamais feitos na Terra Santa. Era uma embarcação antiga, as madeiras da construção estavam escurecidas por causa da idade, mas maravilhosamente conservadas, tinham pouco mais de oito metros de comprimento e dois metros de largura. Costas tirou os seus óculos de sol e inclinou-se sobre o picadeiro de metal sobre o qual a embarcação se assentava, inspecionando atentamente uma das madeiras. - Polietilenoglicol? - ele perguntou.

Jack assentiu com a cabeça. - Não levava muito tempo para impregnar a madeira, quando a embarcação era encontrada em água doce e não tinha sal para lixiviar. Foi encontrada no verão de 1986, num ano de seca como este, quando o nível do mar tinha baixado. Dois habitantes locais, quando procuravam moedas antigas, encontraram estas madeiras salientando-se da lama, a proa virada para a água. Ela era nitidamente antiga, e de imediato causou sensação. Este era também um lugar perigoso, onde problemas políticos podiam surgir e espalhar-se para outras regiões. O Ministério de Turismo de Israel revelou a possível conexão da embarcação com Jesus, percebendo uma nova atração para o turismo diante da intifada. Mas os judeus ultra-ortodoxos se mostraram contra a escavação, achando que poderia ser como uma luz verde para a atividade missionária cristã naquela região. Havia até pessoas rezando para chover para que o local ficasse inundado e a escavação, frustrada.

- Isto me soa familiar - disse Costas.

- Esta é uma das razões pelas quais eu queria que vocês vissem isso - disse Jack. - Tudo aquilo está esquecido agora. Esta embarcação é uma das principais atrações arqueológicas de Israel, para os cristãos, para os judeus, para todo o povo da Galiléia, qualquer que seja a sua fé. Esta é sua herança comum.

- É melhor acomodar a verdade que negá-la, viver com medo dela - murmurou Jeremy. - Uma descoberta como esta só pode ser enriquecedora.

- É um achado único, a única embarcação do mar da Galiléia a sobreviver desde a Antiguidade - disse Jack, apontando os aspectos. - Ela provavelmente tinha um mastro com um único cabo para recolher as velas, embora tenha espaço para dois remadores de cada lado e um remo que servia como leme. Ele tinha a aresta externa da roda de proa recurvada e uma proa pontuda, com um talha-mar. As madeiras eram, sobretudo, de carvalho para a estrutura e de cedro para a carreira de tábuas, cedro do Líbano. Podemos ver pregos de ferro, mas também ver como foram colocados um ao lado do outro no antigo padrão de modelo "casco primeiro", as pranchas ligadas nas extremidades com encaixe macho-fêmea.

- Isto parece muito familiar - murmurou Maria -, e acabei de perceber por que. Maurice me mostrou retratos de uma embarcação como esta na praia de Herculano, encontrada em 1980, quando foram encontrados todos aqueles esqueletos amontoados nas câmaras debaixo do dique. O tufão formado por gás e cinzas provenientes da erupção virou a embarcação e a carbonizou, mas as madeiras do interior ficaram bem preservadas. Ela era construída de maneira impecável, talvez fosse uma embarcação de passeio de algum proprietário de uma rica vila.

Por um instante, Jack sentiu aquele frisson da percepção que tivera pela primeira vez dois dias atrás na Califórnia, de que estava vendo o passado sob duas aparências externas, uma majestosa e artificial e a outra ordinária e terrena, mas ambas igualmente belas. - Se a embarcação de Herculano correspondia a um Porsche, então esta que se encontra diante de nós correspondia a um velho trator - ele disse. - Há grande quantidade de madeira reciclada aqui, pedaços nitidamente reutilizados. Ela pode não ter a finura da embarcação de Herculano, mas tem o seu próprio estilo. Quem quer que seja que a tenha construído e mantido, tinha um sentimento profundo por esta região, por seus recursos e sabia como usá-los.

- Há alguma data obtida por carbono 14? - perguntou Costas.

- A embarcação da Galiléia? Ano 40 a.C. mais ou menos oitenta anos.

Costas assobiou. - É uma ampla margem, mas apresenta muito boas probabilidades. Jesus morreu em torno de 30 d.C, certo? Quase no final desse espectro. Mas, se as embarcações se conservam durante gerações no lago, reparadas e com novo aparelhamento, então mesmo uma embarcação produzida no início daquele período ainda poderia estar em uso durante a vida de Jesus.

- Os únicos artefatos encontrados associados com a embarcação foram uma simples panela para cozinhar e uma lâmpada a óleo, ambas mais ou menos do mesmo período.

- E sobre Cláudio e Herodes? - perguntou Costas. - Qual é a data que estamos supondo para a sua visita?

- Acredito que tenham vindo para cá por volta de 23 d.C. - disse Jack em voz baixa. - Jesus estaria na metade de seus vinte anos, talvez vinte e sete ou vinte e oito. Cláudio tinha trinta e dois ou trinta e três anos e Herodes tinha a mesma idade, ambos nasceram em 10 a.C. Poucos anos mais tarde, Jesus foi a uma região despovoada e renunciou à sua ocupação mundana, e o resto é história. Cláudio deve ter regressado a Roma logo depois de sua visita aqui, e nunca mais voltou. Nós sabemos o que aconteceu a ele. E Herodes Agripa se tornou o rei dos judeus.

- Como você conseguiu a data?

- Por causa de algo que eu subitamente lembrei em Jerusalém. Isto está me aborrecendo desde que vi pela primeira vez aquelas palavras no laboratório, a bordo do Seaquest, no manuscrito de Plínio. Em nenhum outro lugar há uma referência à viagem de Cláudio para o leste. Suponho que deve ter sido quando ele estava vivendo obscuramente como um estudioso em Roma, antes de ser arrastado à força para o trono em 41 d.C. Isso deve ter sido antes de Jesus ser sacrificado por volta de 30 d.C., no reinado de Tibério. Também deve ter sido antes de Jesus se cercar de discípulos que certamente se lembrariam de uma visita de Roma e teriam deixado algum registro sobre ela. Então pensei acerca do período inicial da vida de Jesus na Galiléia, antes do período principal do seu ministério. Depois me lembrei de Herodes Agripa.

- Se ele era o rei da Judéia, ele deve ter estado por lá durante aquele período - disse Costas.

Jack sacudiu a cabeça. - Foi Cláudio quem lhe deu a Judéia, como uma recompensa por sua lealdade em 41 d.C. Até então, Herodes Agripa havia vivido principalmente em Roma. Mas houve um outro período, anterior. Ele era o neto de Herodes, o Grande, rei da Judéia, mas foi criado em Roma, no Palácio Imperial, adotado por Antônia, mãe de Cláudio. Ele e Cláudio se tornaram os amigos mais diferentes, o erudito e o playboy. Um dos companheiros de bebida de Herodes Agripa foi Druso, o caprichoso filho do imperador Tibério, que costumava ficar embriagado e arrumava brigas com a guarda pretoriana. Aconteceu um incidente obscuro e Druso morreu. Herodes Agripa foi imediatamente enviado para a Judéia. Isto foi o que eu lembrei. Foi em 23 d.C.

- Bingo - disse Costas.

- Isto fica melhor. Seu tio, Herodes Antipas, era o governador da Galiléia naquela época, e conseguiu para o seu imprevisível sobrinho um emprego simbólico como inspetor de mercado, um agoranomos. Adivinhe onde? Em Tiberíades, no litoral do mar da Galiléia, algumas milhas ao sul daqui. Passamos por lá no caminho.

Costas assobiou. - Então ele realmente podia ter cruzado com Jesus.

- Herodes Agripa teria chegado a conhecer todo mundo que valia a pena ser conhecido, bastante rapidamente - replicou Jack. - Era um homem gregário e impetuoso, falava aramaico assim como latim e grego, e teria sentido uma afinidade com as pessoas deste local. Ele pode ter ouvido falar de Jesus como uma espécie de curandeiro, e é possível, apenas provável, que Herodes Agripa tenha enviado uma palavra para o seu amigo aleijado Cláudio, em Roma, que devia esperar que pudesse ser encontrada uma cura para a sua paralisia, talvez em algum lugar no leste.

- Herodes Agripa tem uma reputação bastante ruim na Bíblia - disse Helena.

Jack assentiu. - Sempre achei que Herodes Agripa era basicamente bem-intencionado, mas o seu hedonismo e o curso da história o conduziram a alguns lugares sombrios. Ficou por pouco tempo em Tiberíades, até ser transferido novamente, por algo suspeito que tinha a ver com um empréstimo de seu tio. Depois de visitar Antioquia na Síria, ele voltou para Roma, onde sua alma gêmea seguinte foi o futuro imperador Calígula. Realmente sabia escolher seus amigos. Foi Calígula quem lhe conseguiu o cargo de governador da Galiléia, seu primeiro passo no caminho para se tornar um dos maiores príncipes do leste. As coisas finalmente culminaram numa crise em 44 d.C., o ano do grande triunfo de Cláudio na Grã-Bretanha. Tiago, filho de Zebedeu, irmão de João, o Apóstolo, foi detido e condenado à morte. Os Evangelhos nos contam que foi Herodes quem ordenou essa morte, embora não haja nenhuma outra evidência em parte alguma de que ele era anticristão. Provavelmente fosse apenas megalomaníaco, mas isso não durou muito. Há uma passagem famosa acerca desse final nos Atos dos Apóstolos.

- O relato do naufrágio do navio de São Paulo? - perguntou Costas.

- Alguns capítulos e quinze anos esquisitos antes, quando Herodes estava em Cesaréia na costa da Judéia. - Jack olhou para Helena. - Você sempre teve uma memória prodigiosa. Pode se lembrar da passagem?

Ela concordou. - Versão da Bíblia de King James. Faz parte do meu trabalho.

- Ela começou a narrar:


E, num dia combinado, Herodes vestiu-se com vestes reais, e sentou-se no trono, e fez uma oração para elas. E as pessoas gritaram, dizendo: A voz de um deus, e não a de um homem. E imediatamente um anjo do Senhor atingiu-o, porque ele não deu a glória a Deus; e ele foi comido por vermes e morreu.
- Vermes - disse Costas debilmente.

- Provavelmente foi uma doença que destruiu a carne, talvez uma gangrena - disse Jack. - Uma maneira razoavelmente padrão de morrer naqueles dias, por causa de uma ferida aberta.

- Eu sabia que iríamos voltar a falar em cadáveres - queixou-se Costas.

- Uma teoria diz que Cláudio o envenenou, precisamente porque Herodes estava se comportando como um deus, e apenas o imperador podia usar aquele manto. Mas não acredito em nem uma palavra disso. De tudo o que sabemos sobre Cláudio, ele devia ter sido supremamente leal aos seus amigos, em todas as dificuldades por que passavam.

- Então tivemos Herodes Agripa, Cláudio e Jesus juntos aqui, em 23 d.C. - disse Costas lentamente. - Um encontro que não foi registrado em lugar algum, a não ser na margem de um antigo manuscrito que encontramos em um buraco em Herculano.

- Correto.

- Jesus era carpinteiro - disse Costas pensativo e batendo de leve na madeira a sua frente. - Isto poderia significar construtor de embarcações, certo?

Jack assentiu. - Em grego, bem como nas línguas semíticas daquela época. Aramaico, fenício antigo, a palavra que traduzimos como "carpinteiro" podia ter toda uma gama de significados, inclusive o de arquiteto, construtor com pedra, trabalhador com madeira e até trabalhador com metal. Poderia ter havido uma grande quantidade de trabalho nesta região. Herodes Antipas fundou Tiberíades em 20 d.C., e havia um palácio para construir, a sinagoga, os muros da cidade. Deve ter sido um período de um grande aumento de atividade para um carpinteiro local diligente.

- Talvez tenha sido assim que mais tarde ele financiou tudo - disse Costas. - Quero dizer, mesmo um produtor de milagres precisa comer.

Jack assentiu. - Mas a mercadoria de demanda constante por aqui para um carpinteiro sempre seria a construção de uma embarcação. Meio século mais tarde, mais ou menos, o historiador Josefo sugere que havia 230 embarcações no lago, e que esse número provavelmente não incluía as menores. As embarcações aqui teriam durado muito mais tempo que no mar, sem os vermes de madeira que havia na água salgada. Mas, mesmo assim, teria havido necessidade constante de reparos, bem como a de construir novas naves. Os anos 20 podem ter sido também, no que se refere à construção de embarcações, anos de crescimento rápido, com uma grande quantidade de pedaços de madeira e de madeiras fora do tamanho padrão entrando em circulação vindas dos locais de construção de Tiberíades. Olhem para esta embarcação. Há uma grande quantidade de madeiras com formas singulares.

Costas olhou pensativo para ela. Pôs a mão na extremidade da madeira diante de si, depois olhou de novo para Jack. - Uma vida inteira antes, acho que foi na última terça-feira, quando estávamos mergulhando no navio naufragado de são Paulo, perto da Sicília, você me disse que a arqueologia do início do cristianismo era ilusória, que dificilmente alguma coisa era conhecida com certeza. - Ele fez uma pausa. - Agora diga-me. Estou tocando em uma embarcação feita por Jesus?

Jack colocou as mãos nos quadris, examinou cuidadosamente as pranchas antigas de madeira e depois olhou de volta para Costas. - No Novo Testamento, um enorme problema é descobrir como Jesus via a si mesmo, se se via ou não como o christos, o messias. Quando lhe perguntam, quando as pessoas querem saber quem ele é, ele algumas vezes responde de maneira particular. Esta é uma tradução, é claro, mas acho que dá a essência do que ele diz: "É como você diz".

- O que você está dizendo?

- É como você diz.

Costas permaneceu silencioso por um momento, olhou para Jack como que implorando, depois suspirou e tirou sua mão da embarcação. - Arqueólogos - ele resmungou. - Não se consegue obter uma resposta direta de nenhum deles.

Jack sorriu amplamente, depois deu um tapinha em sua mochila. - Vamos. Ainda não terminamos. Há um último lugar aonde temos que ir.


Uma hora mais tarde, eles pararam nos limites dos alagadiços na costa ocidental do mar da Galiléia. Era o início do final da tarde, e as sombras tinham começado a avançar de detrás deles para cima dos alagadiços. À distância, a água ainda cintilava, e Jack se lembrou da estranha sensação que havia tido ao olhar para o céu perto da Sicília na semana anterior, como se seus olhos estivessem sendo atraídos pelas partes em lugar de ver a coisa toda, uma visão muito ofuscante para que ele pudesse compreender. Agora, agarrando sua mochila, ele sentiu a mesma excitação de antecipação, o conhecimento de que estava na cúspide de outra revelação extraordinária, uma promessa que os trouxera para o lugar onde o tesouro que se encontrava nas suas mãos havia começado sua jornada quase dois mil anos antes. Jack sabia com total convicção que Cláudio estivera neste local, que ele também deve ter olhado para o contorno distante da costa das montanhas de Golan, sentido a fascinação do leste exatamente como Jack sentia. Ele se perguntou se Cláudio tinha sentido também a inquietação, o perigo à espreita nesta falha geológica entre o Ocidente e o Oriente, a tranqüilidade sobrenatural do mar e seu contorno como uma ilusão de calma semelhante ao olho de um furacão.

Enquanto Jack observava, o sol se pôs atrás deles e a cena se tornou coerente de novo em sua mente, mais parecida com uma pintura de Turner que de Seurat, os lampejos se transformando em manchas matizadas de azul e laranja. Respirou profundamente, foi até onde estavam os outros, e começaram a trilhar o caminho em direção aos alagadiços, através de um entrelaçado de galhos finos que haviam sido soprados sobre o contorno da costa como ervas daninhas em desordem.

- Ziziphus spina-crista, se eu não estou enganado - disse Jeremy. - Dá um fruto excelente. Você deveria experimentar um dia desses.

- Você soa exatamente como Plínio - disse Maria.

Depois de dez minutos margeando as poças de lama escurecida eles chegaram a um pedaço de terra elevado de cerca de noventa metros diante do contorno da costa. Era um solo duro onde ficavam os pescadores, uma área de desembarque temporário usada durante a estiagem, e estava impregnada com o odor de peixe e de velhas redes. No centro havia uma rocha grande profundamente enterrada, que tinha sido usada como pedra de amarração, com uma corda velha e esfiapada emergindo da lama em frente e jogada em direção à praia. Jack empurrou um pouco da velha rede e sentou-se, e os outros fizeram o mesmo sobre dois dormentes que haviam sido claramente puxados até lá para este propósito. Jack colocou a mochila no colo e todos olharam para o mar, atraídos pela total tranqüilidade da cena. Observaram como um homem e uma mulher andavam vagarosamente ao longo do contorno da praia, o resplendor da água sobre a lama dava a impressão de que estavam andando sobre a água, uma miragem. Em um ponto mais distante, podiam distinguir os barcos de pesca no lago, as luzes de seus mastros pontilhando a cena como um tapete de velas mais distante no mar.

- Neste contorno de costa foi onde Jesus passou os anos formativos de sua vida - disse Helena em voz baixa. - Nos Evangelhos, seus ditos abundam com metáforas de pescador e sobre o mar. Quando ele fala do céu da tarde vermelho que pressagia um dia bom, não estava sendo um profeta, mas sim um marinheiro e um pescador, alguém que sabia que poeira no ar significava que o dia seguinte seria seco.

- E as pessoas têm vindo ao mar da Galiléia, desde então, para procurá-lo - murmurou Jeremy. - Os primeiros cristãos depois da conversão do Império Romano sob Constantino, o Grande, aqueles que criaram o Santo Sepulcro. Em seguida os peregrinos do mundo medieval, do Império Romano, do Bizantino. Harald Hardrada esteve aqui, conduzindo os mercenários vikings do corpo de guarda dos imperadores bizantinos, banhando-se nas águas do rio Jordão. Depois disso, vieram os cruzados, cavalgando em uma maré de sangue, achando que tinham encontrado o Reino dos Céus, apenas para vê-lo desmoronar diante de seus olhos quando o exército árabe chegou em grande número vindo do leste.

- Aposto que este lugar também não mudou muito - disse Costas, atirando um seixo em uma poça escura, depois olhando para Jack. - Você vai nos mostrar o que conseguiu?

- Você sabia que o escritor Mark Twain esteve aqui? - disse Jeremy, de um modo ausente.

- Pode repetir? - perguntou Jack.

- Em 1867, ele foi um dos primeiros turistas americanos a visitar a Terra Santa.

- Acho que posso lembrar de suas palavras - disse Helena. - Eu as li da última vez em que estive aqui e elas me deixaram uma grande impressão. É algo assim:


O momento para ver a Galiléia é à noite, quando o dia se foi, mesmo o menos impressionável deve se render às influências plenas de sonhos deste lugar tranqüilo iluminado pelas estrelas. No colo das ondas sobre a praia, ele ouve o mergulho de remos fantasmas; nos ruídos secretos da noite ele ouve as vozes dos espíritos; no suave roçar da brisa, na investida de asas invisíveis.
- Houve outras pessoas como ele - disse Jack. - Aquelas que estavam preparadas para acreditar que as histórias na Bíblia não eram apenas mitos e lendas, assim como Heinrich Schliemann e Arthur Evans fizeram em relação às Guerras de Tróia e à Idade do Bronze grega. Dez anos depois de Mark Twain, foi o tenente Horatio Herbert Kitchener, do Corpo Real de Engenheiros, patrocinado pelo Fundo de Exploração Palestina, que teve sua primeira experiência na Galiléia com o Inquérito da Palestina antes de se tornar o maior líder de guerra da Grã-Bretanha - disse Jack. - E T. E. Lawrence, que veio para cá estudar as classes sociais, antes de retornar como Lawrence da Arábia, conduzindo suas legiões por aquelas colinas em direção a Damasco. Tivemos grandes movimentos da história passando por este lugar, e a linha de rompimento entre o leste e o oeste passando com ímpeto por aqui ao longo do vale do Jordão, mas a Galiléia tem sido com muita freqüência um redemoinho na história, um lugar onde o indivíduo ainda pode salientar-se.

- Pessoas que vêm para cá com o futuro à frente delas, na cúspide do destino - murmurou Maria.

Jack enfiou a mão no bolso de seus shorts, e tirou uma pequena caixa com tampa, daquelas que se abrem com estalido. Ele a colocou no colo, abriu-a e retirou duas moedas. Segurou-as no alto, deixando a luz do sol que esmaecia incidir nos retratos, suas feições acentuadas pela sombra quando ele as movia lentamente de lado a lado.

- Parece-me como se você estivesse se apropriando novamente, Jack - disse Costas, com um brilho travesso em seus olhos. - Esta é uma ladeira escorregadia para se tornar um caçador de tesouro. Sempre me perguntei quando você iria transpor o limite.

Jack sorriu, mas permaneceu quieto, olhando com muita atenção para os rostos nas moedas. Sentira a necessidade de olhá-las por uma última vez, de tirá-las e tocá-las antes de abrir sua mochila. O rosto na moeda da esquerda era de Herodes Agripa, era a moeda que tinham encontrado no Santo Sepulcro. O retrato estava gasto, mas mostrava um rosto atarracado, como de um touro, uma imagem que correspondia mais a um lutador do que a um pensador, mas com grandes e sensíveis olhos. Isto foi idealizado talvez na tradição oriental, parecia mais um Hércules ou um Alexandre do que Herodes Agripa. Ele usava uma coroa de louros, vista normalmente apenas em moedas de imperadores romanos. O homem na outra moeda também usava uma coroa, mas desta vez isto era correto. Jack viu Cláudio novamente como o imaginara pela primeira vez na Vila dos Papiros em Herculano, depois parado diante da tumba da rainha britânica debaixo de Londres. Viu a cabeça com cabelos abundantes, a testa alta, os olhos profundos e pensativos, a boca enrugada. Não Cláudio, o aleijado, não Cláudio, o tolo, mas Cláudio, o imperador, no auge de seus poderes, um imperador que construiu aquedutos e ancoradouros e recuperou o mundo romano da beira da catástrofe, pavimentando o caminho para os cristãos ocidentais nos séculos vindouros. Os dois retratos eram de homens que haviam alcançado o auge de suas vidas, um futuro que dificilmente poderiam ter previsto naquele dia em 23 d.C. quando se reuniram no mar da Galiléia. Herodes Agripa, príncipe do Leste. Cláudio, o Deus.

- Eu me pergunto se eles sentiram as trevas antecipadamente - murmurou Helena.

- O que você quer dizer? - perguntou Costas.

- A única época em que a história realmente alcançou este lugar. Jack me disse que vocês conhecem algo sobre a menorá, o tesouro perdido do Templo de Jerusalém.

- Nós sabemos um pouco a respeito - disse Maria em voz baixa, lançando um olhar para Jack.

- Foi em 67 d.C. - disse Helena. - Mais de duas décadas depois da morte de Herodes Agripa, mais de uma década depois do desaparecimento de Cláudio. Três anos antes de os romanos destruírem Jerusalém e declararem seu triunfo, eles vieram aqui para o mar da Galiléia. Os judeus rebeldes tinham escapado em barcos, mas o filho de Vespasiano, Tito, havia construído uma embarcação especial e foi atrás deles. A batalha de Migdal foi uma das batalhas navais mais extraordinárias na história, mas foi também um massacre. O historiador judeu Josefo nos conta que o contorno da costa ficou inundado de sangue. Um horrível mau cheiro espalhou-se sobre a região, a praias ficaram cobertas com destroços de naufrágio e corpos inchados.

- Os rebeldes usaram barcos pesqueiros locais? - perguntou Costas. Helena assentiu. - Eles requisitaram todos os barcos que havia no lago. O barco da Galiléia pode ter sido um deles, abandonado e afundado depois que seus ocupantes foram massacrados. Para algumas pessoas em Israel hoje em dia, o barco é um símbolo da história judaica, da resistência judaica.

- Mas ele podia ter sido construído mais cedo, usado durante a vida de Jesus.

- Alguma coisa para todos - disse Helena.

Jack pôs as moedas de lado, enfiou a caixa de novo em seu bolso e tirou um pacote todo embrulhado de sua mochila. - Não tenho dúvida de que eles viram algo do futuro - disse. - Herodes Agripa veio de uma das dinastias mais voláteis do leste, e cresceu em Roma. Conhecia tudo sobre a natureza caprichosa do poder. Cláudio também havia estado lá, e ele era um historiador, talvez um dos maiores historiadores da Antiguidade. Já devia ter visto as sementes da decadência no reino de Tibério. E o outro que eles encontraram aqui, o pescador de Nazaré, pode ter vivido sua vida protegido dos momentos significativos da história, mas deve ter sentido o que se preparava adiante, visto onde seu ministério podia conduzir.

- Nenhum deles poderia ter visto à frente de um período de dois mil anos - disse Costas.

- Na época em que estava perto do fim, quando fez a última viagem para a Grã-Bretanha, Cláudio deve ter visto como o ciclo da história romana estava se desenvolvendo, deve ter sentido que as amarras seriam sempre tênues - disse Jack. - Um bom imperador seguido por um mau, uma idade de ouro seguida por miséria e corrupção. Augusto, depois Tibério e Calígula. Cláudio, depois Nero. E agora Vespasiano e Tito, uma nova idade de ouro, a época em que o Vesúvio entrou em erupção e Cláudio finalmente desapareceu da história. E o ciclo continuou, com o nadir de Domiciano. Quando Cláudio visitou a Grã-Bretanha pela última vez para esconder o seu tesouro, ele a visitou durante um período consideravelmente longo. E quando Everett foi para Jerusalém, para o Santo Sepulcro, ele fez a mesma coisa. O seu mundo era aquele em que o futuro era negro, estava mais próximo do apocalipse do que Cláudio jamais poderia imaginar. E os dois homens sabiam como os ventos volúveis da história podiam arrebatar seu prêmio.

Jack removeu uma camada final de plástico-bolha revelando o pequeno cilindro de pedra. Ele o ofereceu para Helena. - Você quer quebrar o lacre?

Ela fez o sinal da cruz e pegou o cilindro. Lentamente, cuidadosamente, girou a tampa. Esta saiu facilmente, quebrando o material de resina escurecida que havia lacrado o encaixe. Ela o devolveu para Jack, que retirou a tampa. Os outros se apinharam em volta dele, Maria e Jeremy ajoelhando-se na frente e Costas olhando por sobre o ombro. Ouviu-se um suspiro coletivo quando viram o que havia dentro. Era um pergaminho, amarronzado pela idade, mas aparentemente bem preservado.

- Ele era impermeável ao ar - respirou Jack, aliviado. - Graças a Deus por isso. - Segurou a extremidade do manuscrito com dois dedos, experimentando-o suavemente. - Ainda está flexível. É espantoso. Há alguma espécie de conservante sobre ele, um material feito de cera.

- Sábio Cláudio - murmurou Maria.

- Sábio Plínio, você quer dizer - comentou Jeremy. - Aposto que foi de quem Cláudio aprendeu.

Jack puxou o manuscrito. Eles estavam silenciosos, e tudo o que podiam ouvir era um som distante de motor, e um ligeiro roçar de brisa que vinha do oeste. Jack prendeu a respiração. Não havia nada escrito para ser visto. Apenas a superfície amarronzada do papiro. Segurou o manuscrito no alto de modo que ele ficasse dentro da luz remanescente que brilhava nas colinas atrás deles, e desenrolou alguns centímetros no lugar que tinha experimentado como sendo a extremidade.

- Bem, eu serei condenado ao inferno - ele murmurou, depois sorriu largamente.

- Conseguiu algo? - perguntou Costas.

- Olhe para as camadas cruzadas. Você pode vê-las quando a luz incide através delas. Este é o primeiro nível, este papiro é exatamente igual àquela folha que encontramos na escrivaninha de Cláudio em Herculano. E aqui está. - Sua voz estava quase inaudível. - Posso vê-la.

- O quê?


- A escrita. Ali. Olhe. - Jack desenrolou o papiro lentamente. Primeiro uma linha foi revelada, depois outra, e mais outra. Desenrolou o manuscrito inteiro, e puderam ver cerca de vinte linhas. O coração de Jack estava acelerado. A tinta era preta, quase preto-azeviche, conservada intacta pelo conservante. A escrita era contínua, sem pausas entre as palavras ou pontuação, à maneira antiga. - É grego - Jack sussurrou. - Está escrito em grego.

- Há algo escrito na parte inferior, uma escrita mais antiga - disse Costas, olhando para o papel por detrás de Jack. - Apenas as poucas primeiras linhas, apagadas. Quase não se pode discerni-las, mas parecem escritas por uma outra mão, talvez uma letra diferente.

- Provavelmente a letra de Cláudio - murmurou Jack. - E, se for assim, talvez esteja em latim. Algo que ele começou a escrever e depois apagou, talvez sejam anotações que fez sobre a jornada. Isto seria bastante fascinante. Não temos nada com a própria escrita à mão de Cláudio.

- Espectrometria de massa - disse Costas. - Isto fará a escrita aparecer. Uma ciência difícil.

Jack não estava ouvindo. Ele tinha lido as primeiras Unhas do texto visível, as linhas que encobriam as palavras apagadas. Sentiu a cabeça girar, e o manuscrito parecia tremular em suas mãos, ou por causa de sua emoção extraordinária ou por uma lufada de vento, ele não conseguia dizer. Deixou as mãos caírem, e manteve o manuscrito aberto sobre os joelhos. Voltou-se para Helena. - Kyriam bonum - ele disse. - Estou certo ao usar a tradução literal, Casa do Senhor?

Helena concordou. - Estas palavras podem significar a congregação como um todo, a Igreja no sentido amplo.

- E naos? É a palavra grega para templo?

- Ela provavelmente significa igreja como entidade física, como uma estrutura.

- Você está pronta para isto?

- Se estas são suas palavras, Jack, eu não tenho nada a temer.

- Não, você não deve temer. - Jack fez uma pausa, e durante um momento extraordinário ele sentiu como se estivesse olhando para baixo de uma grande altura, não para eles no alagadiço, mas para um ponto de luz muito pequeno em um vasto mar, para duas formas indistintas inclinadas uma para a outra, em uma antiga embarcação, quase invisíveis na escuridão. Fechou os olhos, depois os abriu e começou a ler.

- "Jesus, filho de José de Nazaré, estas são as suas palavras."






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