O último Evangelho David Gibbins



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CAPÍTULO 21
Uma mulher se separou de um grupo de monges amontoados no topo do telhado da Igreja do Santo Sepulcro e caminhou, atravessando o pátio cheio de sol, com o manto branco flutuando ao seu redor.

- Jack? Jack Howard? - dizia, à medida que se aproximava.

Jack protegeu os olhos e olhou-a. Estava cansado mas alegre, e não conseguira dormir no vôo de Los Angeles. A viagem de carro por Tel Aviv tinha sido quente e poeirenta, mas, quando a Cidade Velha apareceu diante deles, ele experimentou uma grande descarga de adrenalina, uma sensação de que tinham vindo para o lugar certo, que o que quer que encontrassem no final da pista seria aqui e em nenhum outro lugar. Junto com o sentimento de certeza surgiu uma ansiedade crescente. Desde o encontro deles com a misteriosa figura na catacumba debaixo de Roma, ele se sentia apanhado por um processo inexorável, em funil, que ia se estreitando, sem saber quem os estava observando, sem controle. Por quase dois mil anos aqueles que os estavam seguindo haviam ganhado todas as batalhas, não tinham apresentado nenhuma falha. E com cada nova pessoa trazida para o grupo, Jack sabia que havia um outro nome acrescentado à lista. Olhou para a figura que se aproximava, depois lançou um olhar para Costas que estava atrás dele, lembrando. Se você puder calcular o risco, então o risco pode ser assumido. Mas ele odiava brincar com a vida de outras pessoas.

A mulher chegou até ele sorrindo. Tinha faixas de ornamento colorido na frente e nos pulsos de sua veste, e usava um colar de ouro e brincos. Seu longo cabelo negro estava amarrado atrás, e ela tinha os ossos malares altos e as feições bonitas de uma etíope, com surpreendentes olhos verdes. Estendeu a mão e Jack abraçou-a calorosamente. - Meu velho amigo de escola - ela disse para Costas. - Helena Selassie.

- Este sobrenome me traz algo à lembrança - disse Costas, apertando-lhe a mão e sorrindo.

- O rei era um parente distante - ela disse, com um inglês perfeito e um leve sotaque americano. - Como ele, todos éramos etíopes ortodoxos. Este é o nosso lugar mais sagrado.

- Virgínia? - murmurou Costas, estreitando os olhos. - Maryland?

A mulher sorriu. - Belo chute. Você é de Nova York? Meus pais eram exilados etíopes e eu cresci em uma comunidade de expatriados no sul de Washington D.C. Eu e Jack estudamos na mesma escola quando o meu pai tinha um posto em Londres, depois novamente no MIT. Engenharia aeroespacial.

- Realmente? Eu devo ter deixado você escapar. Cursei a mesma faculdade, fiz robótica submarina.

- Nós não nos misturávamos com o pior dos piores.

- A Cidade Velha de Jerusalém é um grito distante proveniente de foguetes lunares e espaço cósmico - disse Jack.

Ela lhe deu um sorriso sem entusiasmo. - Depois que a NASA eliminou o programa de ir e voltar, eu reconsiderei e procurei o caminho espiritual. Ele leva mais rápido até lá.

- Você sabia que iria acabar aparecendo por aqui.

- Isto está no sangue - ela replicou. - Meu pai veio para cá, minha avó, o pai dela antes. Um número regular de mulheres ao longo do caminho. Sempre há pelo menos vinte e oito de nós aqui no telhado, na maior parte monges, mas qua¬se sempre há um par de freiras também. Tem sido assim por quase dois séculos agora. Nossa presença no Santo Sepulcro é a coisa mais importante, mantém o nosso sentido de identidade. Não quero dizer apenas a Igreja Etíope, quero dizer minha família estendida, a própria Etiópia.

- Parece que tem muita gente lá embaixo - disse Costas.

- É verdade. Aqui se concentram os gregos ortodoxos, os armênios apostólicos, os romanos católicos, os coptas ortodoxos e os sírios ortodoxos. Gastamos mais tempo negociando quando poderemos utilizar uma toalete do que rezando. Este lugar é como um microcosmo do mundo, contém o bom, o ruim e o horrendo. No século XIX, os turcos otomanos que governavam Jerusalém impuseram algo chamado o Status Quo dos Lugares Santos, numa tentativa de impedir as brigas. A idéia era de que qualquer novo trabalho de construção, qualquer mudança nos acordos de custódia no Santo Sepulcro, exigiria uma aprovação do governo. O problema é que isto deixou o governo convencido e foi usado para um aumento de rivalidades e de brigas. Nós nunca podemos limpar o gesso que cai em nossas capelas sem perder semanas em negociações, sem conseguir uma aprovação formal de outras congregações. Cada uma delas está sempre espionando as outras. Nunca estamos a mais de um passo de uma guerra declarada. Alguns anos atrás, um monge egípcio copta quis fazer valer seus direitos aqui e moveu sua cadeira do lugar combinado para dentro da sombra, e onze monges tiveram que ser hospitalizados.

- Mas pelo menos vocês estão na linha de frente no telhado - disse Jack.

- Metade do caminho para o céu - sorriu Helena. - Pelo menos é como os monges se consolam no meio do inverno, quando está abaixo de zero e os coptas acidentalmente de propósito cortam a eletricidade.

- Você vive aqui em cima? - perguntou Costas sem querer acreditar.

- Você sentiu o cheiro nas toaletes? - ela perguntou. - Você deve estar brincando. Instalações e medidas sanitárias são básicas, ora. Tenho um bonito apartamento no convento do monte do Paraíso, a cerca de vinte minutos de caminhada daqui. Aqui realizo apenas o meu trabalho diário.

- Que é?

- Oficialmente, eu trato de recuperar todos os antigos manuscritos, os que são mantidos aqui pelas outras congregações. Eles são fáceis de localizar, com inscrições Geez e encadernados em capas de pinturas coloridas, a assinatura da cultura cristã da Etiópia.

- Você os recupera? - perguntou Costas. Ela suspirou. - É uma longa história.

- Conte a parte importante dela.

- Certo. A Etiópia, a antiga monarquia de Aksum, foi uma das primeiras nações a adotar o cristianismo, no século IV d.C. Muitas pessoas não sabem que os africanos negros da Etiópia são uma das comunidades mais antigas associadas com o Santo Sepulcro. As chaves da igreja nos foram dadas pela mãe do imperador romano Constantino, o Grande, Helena, minha xará. Mas durante séculos nós mantivemos uma rivalidade pecaminosa com a Igreja Copta, os monges egípcios de Alexandria. Nosso maior erro foi nossa recusa de pagar taxas para os turcos otomanos quando eles conquistaram a Terra Santa. Depois, em 1838 uma doença misteriosa liquidou a maior parte dos monges etíopes no Santo Sepulcro. Em seguida, quase a totalidade de nossas propriedades foram confiscadas. Os monges sobreviventes foram banidos para o telhado, e mantivemos nossa posição estabelecida aqui, trazendo lama e água nas mãos desde o vale de Kibron para construir estas cabanas. Muitos de nossos livros foram tirados e queimados. Diziam que os manuscritos estavam infetados com a peste.

- Em outras palavras, havia alguma coisa neles que os outros não queriam que fosse revelada - disse Costas. - Isto me soa familiar.

- A mesquinhez disso é que, provavelmente, eles temiam, sobretudo, alguma evidência histórica de que estávamos aqui no Santo Sepulcro alguns anos antes deles, que pudéssemos reivindicar algum tipo de supremacia. A tragédia é que sabemos, por nossa tradição, que alguns desses documentos datam de uma época anterior à fundação da Igreja do Santo Sepulcro, no século IV. Eram manuscritos em pergaminho de cabra com quase dois mil anos de idade. Alguns deles podem ainda existir, trancados em algum lugar abaixo de nós agora, nas bibliotecas de nossos rivais. Meu sonho é encontrar um deles, encontrar um pergaminho que data da época em que Jesus vivia e de seus seguidores, daqueles que o viram e realmente escutaram sua palavra, e abrigá-lo em uma biblioteca construída especialmente. Algo que fale ao peregrino que vem em busca de Jesus, não das rivalidades e mesquinhez que existem aqui. Isto recolocaria a comunidade etíope solidamente no mapa de novo, faria dela alguma coisa mais do que um punhado de indivíduos excêntricos acampados no telhado.

Jack protegeu os olhos com a mão e olhou para as desbotadas estruturas cinzentas das celas dos monges e depois para a santa cruz no alto da abóbada sobre a tumba de Cristo erguendo-se atrás da fileira ocidental de pátios diante dele. -Concordo - ele murmurou. - Este seria o lugar perfeito. Adoraria ajudá-la.

- Nós não temos muito apoio lá embaixo, perto da tumba, mas aqui em cima sentimos que conseguimos uma vantagem. Logo acima do lugar onde Cristo ascendeu, tão alto quanto se pode obter.

- Você realmente acredita que foi neste lugar? - perguntou Costas.

Ela fez uma pausa. - É como tudo o mais que tem a ver com o cristianismo antigo. É preciso retirar muitas camadas de crostas para alcançar a verdade, e algumas vezes a verdade simplesmente não se encontra ali para ser descoberta.

- Incrustação - murmurou Costas. - É engraçado, Jack também usa esta palavra.

- Por causa da mesma escola, eu suponho - sorriu Helena. - A Igreja do Santo Sepulcro só foi consagrada trezentos anos depois da morte de Jesus, e já a busca por um passado fantasioso começara entre o clero cristão, um passado que preenchesse as expectativas da Igreja naquela data, e as necessidades políticas do imperador Constantino, o Grande. A história de sua mãe Helena encontrando um fragmento da Verdadeira Cruz em uma das antigas cisternas de água debaixo da igreja provavelmente é apenas isto, incrustação. Mas há verdades aqui, também. Este lugar era uma antiga colina, fora dos muros da cidade, havia sepulturas aqui na época de Jesus, e pode ter sido um lugar de execução. Sim, eu acredito que o lugar era este.

- Você está arriscadamente parecendo uma arqueóloga, Helena - disse Jack.

- É o que por baixo de tudo isto eu quero, os ossos nus.

- Eles nem sempre estão desnudos, em minha experiência - murmurou Costas.

- Não ligue para ele - disse Jack. - Está traumatizado. - Voltou-se para Helena. - Sei exatamente o que você quer dizer.

- Ocorre algo quando se passa o tempo neste topo de telhado - disse Helena entusiasmada. - Estar aqui, acima do Santo Sepulcro, dia e noite. Não se trata apenas de minha vocação. É como se tudo que está lá embaixo ficasse suavizado debaixo do grande peso do passado. Aqui em cima, com nada além do céu sobre nós, é como estar em cima de um grande pedaço da história, irradiando para cima, para algum distante ponto focal. E, ao olhar para baixo, é como ver a Terra de uma aeronave, todas as obsessões e estranhas influências repressoras das interações humanas se tornam subitamente triviais, nossas próprias preocupações se retiram, as formas das coisas se tornam visíveis naquilo que elas são realmente, as simples verdades. Isto me fez pensar que um dia eu encontrarei o Jesus real, o homem Jesus. Eu me sentei ao lado do mar da Galiléia poucos dias atrás, havia apenas água e colinas distantes e o céu, e parecia-me ver tudo muito claramente diante de mim.

Jack olhou para Helena. - Podemos solicitar para você participar de nossa busca, partilhar um pouco da nossa investigação. Mas antes precisamos de sua ajuda. Com muita urgência. Foi por isso que eu lhe telefonei. Há algum lugar onde possamos ir?

Naquele momento, Maclean subiu as escadas e entrou no pátio do telhado. Como Jack e Costas, ele estava usando calças de algodão caqui e camisa solta, mas carregava um chapéu de palha que colocou quando entrou no pátio ensolarado em busca deles.

- Bem-vindo ao Reino dos Céus - disse Costas.

- Está muito quente, parece mais ser o inferno - disse Maclean, depois olhou, desculpando-se, para Helena e estendeu a mão. - Você deve ser a irmã Selassie.

- Doutor Maclean.

- Encantado por conhecê-la pessoalmente. - Apertaram as mãos e olharam para os outros dois. - Eu e Helena falamos pelo telefone ontem à noite antes de deixarmos a Califórnia , depois que Jack nos apresentou. A chamada foi feita através da linha de segurança da IMU, mas mesmo assim falamos o mínimo possível. Há ainda muita coisa a ser dita. - Olhou para Jack. - Você já a colocou a par?

- Estávamos prestes a fazê-lo - replicou Jack. Eles já estavam a meio caminho de uma fileira de portas no outro lado do pátio, seguindo Helena. As paredes e a estrutura superior da igreja que rodeava o pátio mantinham o barulho exterior da cidade mais afastado, mas houve uma súbita algazarra em algum lugar perto dali seguida por uma série de ecos de percussão. - Barulho de arma de fogo - disse Jack. - Parece ser um .233, M16. Armada israelense.

- Há um toque de recolher - disse Maclean. - Houve algum tipo de distúrbio no Muro das Lamentações e ele se espalhou até o Bairro Cristão. Alguns turistas foram esfaqueados. Conseguimos entrar na Cidade Velha bem a tempo.

Todos os portões foram fechados. Eu apenas começara meu reconhecimento do Santo Sepulcro e ele também foi fechado.

- Esta é outra vantagem de ficarmos aqui em cima no telhado - disse Helena. - Estamos acima de tudo isso. Mas não é comum um turista ser atacado.

- Não é disso que precisamos - murmurou Jack, sentindo-se subitamente desconfortável. - Toque de recolher, ausência de turistas, a polícia e o exército distraídos em outro lugar. Isto nos deixa altamente vulneráveis. Espero que Ben consiga chegar até nós. - Olhou para Helena. - É o nosso chefe de segurança. Ele saiu de Londres cedo, hoje de manhã, e deve chegar de Tel Aviv mais ou menos agora.

- Se alguém puder conseguir que os portões sejam abertos para ele, este alguém é Ben - disse Costas.

- Ele já está em contato com o chefe da polícia daqui - disse Jack. - Eles se conhecem de quando estiveram juntos nas Forças Especiais, alguma operação combinada entre Israel e a Inglaterra da qual nem mesmo eu sei a respeito. As Forças Especiais formam um mundo bastante pequeno.

- Vocês certamente formam uma rede - disse Helena.

Jack lhe lançou um olhar estranho. - Qualquer pessoa pensa que ser Indiana Jones é um espetáculo feito por um único homem, esqueça.

Alcançaram uma porta, quase não distinguível das outras ao longo da lateral do pátio. Helena a destrancou, acendeu uma lâmpada elétrica que havia dentro e ajudou-os a entrar. - Bem-vindos ao meu escritório - ela disse. Todos se comprimiram lá dentro, ficando em pé e sentando onde podiam. Era uma cela de monge, com um banco duro e imagens de caráter devocional de um lado, mas do outro havia prateleiras abarrotadas com livros, desenhos arquitetônicos presos à parede e uma escrivaninha estreita com um laptop dos mais modernos. - Eu roubo eletricidade dos armênios, e entro na Internet sem fio do mosteiro grego que fica na porta seguinte. - Ela sorriu e sentou-se num banquinho baixo atrás da escrivaninha. - Como vocês podem ver, trata-se realmente de uma irmandade que compartilha as coisas.

Maclean estava pressionado contra a parede ao lado das prateleiras de livros, e olhou para um dos desenhos, que mostrava um croqui retilíneo formado por estruturas simples e dominado por lineamentos que pareciam naturais, os contornos de afloramentos rochosos e do terreno. - O Santo Sepulcro? - ele perguntou. - A igreja primitiva?

- Estou trabalhando em uma história arquitetônica do lugar em que a Igreja de Constantino foi estabelecida no século IV. Há ainda uma grande quantidade de coisas para ser encontrada e estudada, muito mais coisas ocorreram aqui durante o período romano antigo, depois da crucificação, do que as pessoas poderiam imaginar. Este é o meu projeto secreto, mas agora vocês o conhecem. Considero que, se vou ficar sentada no topo de um dos lugares mais complicados da história durante os próximos anos, posso muito bem fazer algo mais do que manter meus monges em ordem.

- Então você vai amar o que eu consegui - disse Maclean excitado, dando pequenas pancadas em sua mochila. - Alguém mais estava fazendo o mesmo que você, quase cem anos atrás. Seu trabalho ficou inacabado, e nunca foi publicado anteriormente. Ele trata principalmente das construções medievais, mas há algumas observações sobre o material romano debaixo delas que vão deixar você sem fôlego. Ele achava que, quando Herodes Agripa reconstruiu as paredes da cidade na metade do século I, também colocou um santuário neste lugar, um monumento ao próprio Cristo, apenas poucos anos depois da crucificação. Se você puder me ajudar a seguir os indícios dele, poderemos ter a revelação mais definitiva, nunca alcançada antes pela arqueologia, sobre a cristandade primitiva, que prova, se necessário, de que este realmente foi o lugar onde Cristo foi sepultado.

Helena parecia estar enraizada em seu assento, e ficara pálida. - Você está brincando comigo. Espere até ouvir o que eu encontrei. Quem era esse sujeito?

Jack tirou vários papéis da sua desbotada mochila caqui, e os colocou em seus joelhos. Costas se inclinou no banco onde estava sentado e fechou a porta atrás deles. - Isto foi o que eu não consegui lhe contar pelo telefone - disse Jack. -Durante os quarenta minutos seguintes, ele calmamente repassou todos os fatos, sobre o navio naufragado, Herculano, Roma, a tumba em Londres, os indícios que tinham encontrado no dia anterior no convento na Califórnia. Quando terminou, olhou para Helena, que o olhava estarrecida e sem fala, e depois colocou uma fotografia sobre a escrivaninha dela da pintura na parede do convento feita por Everett com o símbolo Qui-Rô e as letras gregas. - Isso lhe diz alguma coisa?

Helena olhou direto para a parte inferior da fotografia. Ela parecia atordoada e sem fala.

- E então?

Ela pigarreou, e deu a impressão de se apoiar na lateral da escrivaninha. Piscou fortemente, depois olhou atentamente de perto para a imagem. Pigarreou de novo. - Bem, esta é uma cruz armênia. A haste inferior é mais longa que os braços e a haste superior, e aqui estão os dois braços característicos.

- Isto nos ajuda?

- Bem, se você está procurando por algo armênio dentro do Santo Sepulcro, você deve ter pensado na Capela de Santa Helena, debaixo da igreja, na antiga pedreira. É uma parte da igreja pela qual os monges armênios são responsáveis. - Ela se deteve abruptamente, agarrou a mesa e depois sussurrou. - É claro.

- O que foi?

Helena falou em voz baixa. - Muito bem. O meu interesse particular tem sido o que jaz debaixo da igreja. Eis os meus achados. Tudo que está acima, entre a rocha e o telhado, é incrustação, a mesma palavra novamente, Costas. Um registro fascinante da história do cristianismo, mas uma incrustação de qualquer verdade que este lugar possa oferecer sobre a vida e a morte de Jesus de Nazaré, homem Jesus.

- Continue - disse Jack.

- Isto foi o que Maclean disse sobre Herodes Agripa, os muros. E, subitamente, o que ele disse atingiu-me como um clarão ofuscante. Desde a primeira vez que vim aqui, desde a primeira vez que entrei naquela capela subterrânea, fiquei convencida de que existem mais evidências aqui, do tempo de Jesus e dos apóstolos. Por tudo o que você acaba de me contar, por todas as peças que você tentou juntar sobre o que aconteceu aqui em 1918, decorre que nós temos seguido os mesmos indícios.

- Explique.

- Você disse que aquele homem, Everett, John Everett, esteve aqui durante a Primeira Guerra Mundial? Era um oficial da inteligência britânica? Um homem devoto que passava muito tempo dentro do Santo Sepulcro? Um arquiteto de profissão?

Maclean bateu em sua mochila. - Foi ele que escreveu aquele tratado de arquitetura de que lhe falei. Tenho uma cópia em CD para você.

- Nunca soube o seu nome, mas eu conheço esse homem - murmurou Helena. - Eu o conheço intimamente. Sinto a sua presença cada vez que entro naquela capela.

- Como? - perguntou Jack.

- Desde três anos atrás, quando cheguei aqui pela primeira vez. A chave para a porta principal da Igreja do Santo Sepulcro é guardada por duas famílias muçulmanas, uma tradição que remonta ao tempo de Saladino, o Grande, um curdo muçulmano que era o sultão do Egito e da Síria. Uma família cuida da chave, a outra abre a porta. Eles têm sido mais simpáticos com os etíopes do telhado que alguns dos nossos camaradas e irmãos cristãos e eu me tornei apegada ao velho patriarca de uma das famílias. Antes de morrer, ele me contou uma estória extraordinária de sua juventude. Foi no início de 1918, quando era um garoto de dez anos. Os turcos tinham sido expulsos, os britânicos controlavam Jerusalém. Os zeladores muçulmanos se lembravam de décadas anteriores nas quais os oficiais britânicos com freqüência demonstravam um grande interesse pela história e a arquitetura do lugar, engenheiros como o coronel Warren e o coronel Wilson, que mapearam e exploraram Jerusalém nos anos 1860. Por causa disso os zeladores estavam muito mais interessados nos britânicos que nos turcos, que eram camaradas muçulmanos, mas com interesse pelo Santo Sepulcro. O velho patriarca me contou que um oficial britânico que falava um pouco de árabe veio com dois inspetores do exército e passou muitos dias dentro da igreja, mapeando as capelas subterrâneas e explorando os entalhes da antiga pedreira e as cisternas de água. Depois disso, o oficial veio muitas vezes sozinho e tornou-se amigo do garoto. O oficial era triste, algumas vezes chorava, dizia que tinha filhos que não via há anos, nunca veria de novo. Ele tinha sido ferido seriamente por um ataque de gás na frente ocidental, e tinha dificuldade para respirar, tossia muito.

- Este é o nosso homem - murmurou Jack muito excitado.

- Aparentemente, na sua ultima visita, ele passou uma noite inteira dentro da igreja. As pessoas sabiam que ele era muito devoto e o deixaram sozinho. Quando ele saiu, estava desnorteado e encharcado, tremendo, como se tivesse estado debaixo de um cano de esgoto. O homem lhes disse que eles tinham agora o maior tesouro jamais conhecido sob sua proteção, e que deviam guardá-lo para sempre. As pessoas pensaram que talvez ele estivesse delirando, e se referindo ao Santo Sepulcro, a tumba de Cristo. Ele foi embora, e nunca mais o viram ou ouviram falar dele de novo. Por seus pulmões serem fracos, pensaram que sua última noite, na qual fizera grandes esforços, podia tê-lo matado.

- O seu amigo falou sobre algo que podiam ter encontrado? - perguntou Jack. - Alguma coisa na capela, na Capela de Santa Helena? Estamos procurando um esconderijo.

- Nada. Mas os curadores sempre souberam que há muitos lugares inexplorados debaixo do Santo Sepulcro, câmaras antigas que outrora poderiam ter sido sepulturas, cisternas escavadas dentro do solo de sepultamento. Entradas que foram lacradas durante o período romano e nunca foram abertas desde então.

- Só precisamos seguir nossos faros - disse Jack.

- Tenho passado muitas horas lá embaixo, dias - disse Helena. - Há muitas possibilidades. Cada pedra em cada parede pode ocultar uma câmara, um corredor. E quase todas elas estão cobertas com argamassa, rebocadas. Conheço pelo menos meia dúzia de blocos de pedra que têm espaços atrás delas, onde podemos perceber fendas através da argamassa. E fazer qualquer tipo de exploração invasiva está fora de questão. Em primeiro lugar, os armênios vão desaprovar o fato de eu levá-los lá embaixo, quanto mais o uso de britadeiras.

Jack pegou a fotografia que tinha colocado sobre a escrivaninha, e abriu a sua pasta de papéis. - Vamos apenas fazer uma experiência. Há alguém mais que sabe que nós estamos aqui. Estou convencido disso. Se nós não tentarmos, eles o farão. Você pode conseguir que a porta do Santo Sepulcro seja destrancada para nós?

- Eu posso abri-la. - Helena deu mais uma olhada para a fotografia na mão de Jack, depois agarrou subitamente o braço dele. - Espere! O que é isso? Debaixo da cruz?

- Uma inscrição latina - disse Jack. - Domine Ivimus.

Helena ficou quieta por um momento, depois suspirou. - É isto. Agora eu sei onde Everett foi. - Ela ergueu-se com os olhos brilhantes.

- Aonde?

- Você é um arqueólogo náutico, Jack. Qual é a descoberta mais recente e incrível no Santo Sepulcro? Sigam-me.



CAPÍTULO 22
Meia hora mais tarde, Jack estava parado perto da entrada principal da Igreja do Santo Sepulcro, dentro do pátio fechado debaixo da fachada construída quase mil anos antes pelos cruzados. Ele ficara para trás com Maclean por alguns minutos enquanto desciam do mosteiro etíope, no teto do telhado, e, logo antes de alcançar o pátio, Jack tinha passado para Maclean o disco compacto que tirara de sua mochila. No final das escadas foram recebidos por um homem com trajes comuns que segurava uma pistola Glock fora do coldre. O homem olhou de maneira inquisitiva para Helena, que apontou para Maclean, e, depois de fazer um contato visual, o homem acompanhou Maclean atravessando o pátio em direção ao sul. À frente deles, dois policiais israelenses avançaram subitamente, com um equipamento completo para deter pessoas e carregando carabinas Colt M4 prontas para atirar. O som de arma de fogo ecoou nas ruas do lado de fora, seguida por gritos em árabe. Maclean e seu guarda-costas se agacharam contra uma parede no lado oposto do pátio. Maclean olhou para trás, e Jack bateu em seu relógio de maneira significativa. Maclean assentiu com a cabeça, e depois se ergueu e seguiu o outro homem ficando rapidamente fora de vista ao virar em uma esquina. Jack ergueu o olhar para o céu. O sol tinha desaparecido atrás de uma barreira cinzenta, e o ar estava opressivo, úmido e pesado. Ele murmurou uma prece silenciosa por Maclean, e depois seguiu Costas e Helena para as portas de entrada da igreja. Helena havia dito que queria que ambos ficassem com ela. Parecendo sair do nada, dois homens vestidos com roupas árabes apareceram de cada lado de Costas, que deu um passo atrás alarmado, mas Helena estendeu a mão de maneira tranqüilizadora. Um homem passou um aro com antigas chaves para o outro, que então começou a destrancar as portas. Eles as empurraram para abrir só um pouco. Helena olhou para os dois árabes inclinando a cabeça ligeiramente, e deixou Jack e Costas entrar na frente dela. As portas se fecharam atrás deles. Eles estavam dentro da igreja.

- Há um corte de eletricidade em todo o bairro cristão da Antiga Jerusalém - disse Helena com voz baixa. - As autoridades algumas vezes desligam o interruptor. Isto ajuda a fazer sair os maus sujeitos de seus buracos. – Eles ficaram parados por um momento, acostumando os olhos com a escuridão. À frente, uma luz natural entrava através das janelas que circundavam a abóbada acima da rotunda, e em todos os lugares ao redor as sombras estavam pontuadas com pequenos buracos, como os feitos por um alfinete, cor de laranja. - Joudeh e Nussebeh, os dois zeladores árabes que destrancaram as portas, vieram aqui e acenderam as velas para nós depois que eu lhes disse que viríamos.

- Mais alguém sabe que estamos aqui? - perguntou Jack.

- Somente minha amiga Yereva. Ela tem a chave dos próximos lugares para os quais estamos indo. Ela é uma freira armênia.

- Armênia? - espantou-se Costas. - Pensei que vocês não se davam.

- Os homens não se dão. Se este lugar fosse dirigido pelas freiras, poderíamos obter algum resultado melhor.

Ela os conduziu adiante e à esquerda, para a extremidade da rotunda. Jack ergueu o olhar para o círculo de janelas que deixavam entrar a luz nublada do dia, e olhou atentamente para o interior da abóbada, restaurada no lugar em que a abóbada da primeira igreja tinha sido construída por Constantino no século IV. Pensou nas outras grandes abóbadas debaixo das quais estivera nos últimos dias, na de São Paulo em Londres, na de São Pedro em Roma, muito mais grandiosas, no entanto lugares que agora pareciam distantes da realidade da vida de Jesus. Mesmo aqui, o significado expressivo do lugar e as verdades enterradas na rocha debaixo deles, pareciam obscurecidas pela construção ao redor, pela própria estrutura que pretendia glorificar e santificar os atos finais da vida daquele que milhões de pessoas vinham aqui para cultuar.

- Percebo o que você quer dizer com incrustação da história - murmurou Costas. Estava olhando para a estrutura enfeitada demais no centro da rotunda. - Esta é a tumba?

- Este é o próprio Santo Sepulcro, a Edícula (o túmulo de Cristo) - replicou Helena. - O que você vê aqui foi construído, em sua maior parte, no século XIX, no lugar da estrutura destruída em 1009 pelo califatímida al’Hakim, quando os muçulmanos governavam Jerusalém. Foi esse evento, acima de todos os outros, que acelerou as Cruzadas, mas, mesmo antes que os cruzados chegassem, o viking Harald Hardrada e sua guarda varegue de Constantinopla veio para cá por ordem do imperador bizantino, para supervisionar a reconstrução da igreja. Mas acho que vocês conhecem tudo isto.

- Bom velho Harald - disse Costas, sacudindo a cabeça. - Existe algum lugar para onde ele não foi?

- A antiga tumba dentro da Edícula foi identificada pelo bispo Macróbio em 326 como a tumba de Cristo - continuou Helena. - Vocês devem imaginar toda esta cena na nossa frente como uma ladeira feita de rocha, consideravelmente tão alta quanto a rotunda é agora. Logo atrás de nós havia uma pequena elevação conhecida como Gólgota, o lugar da caveira, onde Jesus foi crucificado. A colina à nossa frente tinha sido uma pedreira, que datava de um período tão anterior como o da cidade de David e de Salomão, mas na época de Jesus era um local de sepultamento, provavelmente perfurada com tumbas escavadas na rocha.

- Como sabemos que o bispo escolheu a tumba certa?

- Não sabemos. Tudo o que temos a fazer é consultar os Evangelhos, e eles são bastante escassos em detalhes. Eles nos relatam que a tumba foi desbastada na rocha viva, e que uma pedra rolou na frente dela. Vocês precisam se inclinar para olhar dentro dela. Havia uma sala para pelo menos cinco pessoas, sentadas ou agachadas. A plataforma para o corpo era uma pedra elevada um lugar de repouso para o sepultado, provavelmente um acrosolium, um sarcófago debaixo de um arco baixo.

- Tudo isto podia descrever uma tumba típica daquele período - acrescentou Jack. - Esta não era uma tumba de praxe construída para Jesus, mas uma tumba que foi doada por José de Arimatéia, um judeu rico e membro do conselho de Jerusalém. Era uma tumba nova, e não haveria sepultamentos posteriores, não havia pequenas cavidades ou nichos como são encontrados em muitas outras tumbas desbastadas nas rochas. Ela nunca foi usada como tumba familiar.

- A menos - Helena hesitou, depois falou em voz muito baixa, quase um sussurro, - A menos que uma outra pessoa tenha sido colocada ali.

- Quem? - perguntou Jack. - O que você quer dizer?

- Um companheiro - ela sussurrou. - Uma companheira.

- Você acredita nisso?

Ela levantou as mãos e pressionou as pontas dos dedos juntas, ligeiramente, sem dizer nada, depois olhou para a Edícula. - O problema é que os engenheiros de Constantino cortaram fora a maior parte da colina circundante para revelar a tumba, a câmara desbastada na rocha, deixando intacta apenas a superfície em forma de prateleira escavada na rocha para o sarcófago. Isto foi quase intencional, como se os bispos de Constantino quisessem eliminar qualquer razão plausível para dúvidas, qualquer motivo de disputa. A partir de então, o Santo Sepulcro seria uma questão de fé, não um fato arqueológico. Era isso que eles queriam. A Igreja naquela época estava sendo formalizada pela primeira vez, assumindo a forma familiar de hoje em dia. Uma grande quantidade de fatos inconvenientes foi escondida, destruída. Algumas coisas que eram necessárias, histórias, como mitos de origem, foram criadas, inspiradas não se sabe onde. Supostos artefatos foram descobertos e algumas relíquias sagradas. Constantino encontrava-se por trás de tudo isso, sempre atento à Igreja como um instrumento político. Tudo de que ele necessitava devia ser assentado em pedra, com alguns fatos e muita ficção, uma versão do que ocorreu aqui durante o século I d.C. e que convinha para a nova ordem, a fusão da Igreja com o Estado.

- E atrás de Constantino havia um corpo secreto de conselheiros, guardiões da Igreja inicial - disse Jack. - Há uma coisa que ainda não lhe contamos.

- Eu sei - replicou Helena com voz baixa.

- Você sabe?

- Assim que me contaram o que estavam procurando, eu soube que vocês iriam se deparar com um problema. O concilium.

Jack olhou para ela muito surpreso, depois concordou lentamente com a cabeça. - Tivemos uma audiência secreta com um deles, em Roma, dois dias atrás.

- No local da tumba? A outra tumba?

Jack olhou de novo fixamente para ela, surpreso, depois assentiu. - Você sabe a respeito disso?

- Eles são firmes, Jack. Nunca deixam brecha alguma. Vocês precisam ser incrivelmente cuidadosos. Quem quer que seja que você tenha visto, ele deve ter-lhe contado um pouco de verdade, mas ele pode não ser quem você pensa que era. O concilium tem sido paralisado, mas nunca derrotado. São como um sonho ruim, que volta incessantemente. Nós deveríamos saber disso.

- Nós?


- A memória daquela outra tumba, da tumba de são Paulo nas catacumbas secretas em Roma, não foi completamente perdida. Havia pessoas entre meus antepassados que se lembravam dela, que mantiveram o segredo. Nós, etíopes, acreditamos que somos da verdadeira Igreja inicial, derivada dos primeiros seguidores de Jesus. Existem outros como nós, outros da periferia do mundo cristão. A Igreja Britânica, que existe desde o século I d.C., desde que a palavra de Jesus alcançou pela primeira vez as costas da Grã-Bretanha, assim como alcançou a Etiópia, o reino de Aksum. E sempre fomos bons em manter segredo. Temos a Arca da Aliança, Jack. Mas somos uma inconveniência, aquelas pessoas provocadoras de desordem que os conselheiros de Constantino queriam manter afastadas. Sempre, desde o século IV, temos sido perseguidos pelo concilium, caçados, exatamente como foram os nossos irmãos na Grã-Bretanha. Nós sempre mantemos nossa ligação com nossas igrejas irmãs, nossa força. Nós, mulheres, seguidoras de Jesus e de Maria Madalena. Na Grã-Bretanha, eles a viam através da memória de sua própria alta sacerdotisa, sua rainha guerreira.

- Nós a encontramos - disse Costas.

- O quê?

- Nós encontramos sua tumba - acrescentou Jack.

- Então, tudo entra em seu lugar - sussurrou Helena. - Este realmente é o momento.

- A peste, o extermínio dos monges etíopes em 1838? - disse Jack. - A destruição das bibliotecas? O concilium esteve atrás de tudo isso?

Helena olhou para trás furtivamente, e sussurrou novamente. - Ele esteve atrás de toda a perseguição que sofremos. A razão de nosso mosteiro se localizar no terraço. Só agora estou começando a chegar na causa de tudo isso, o que me aterroriza. Trata-se de algo que esteve por trás de todas as rivalidades neste lugar, todos os absurdos. Algo que queria nos destruir, e queria manter este lugar em um estado de quase isolamento. Olhe para o Santo Sepulcro. Você quase não pode vê-lo por causa da incrustação. As pequenas capelas das congregações eclesiásticas rivais, aglomerando-se sobre a tumba, sufocando-a. É quase como se elas tivessem devorado o máximo que podem da tumba, logo acima da plataforma mortuária, e ficam ao mesmo tempo bloqueadas em um impasse permanente. É uma loucura.

- Teriam servido muito bem se não fosse a tumba verdadeira, não teriam? -perguntou Costas.

- No entanto, mantê-las ali, mantê-las em permanente isolamento, também pode servir aos propósitos do concilium - disse Jack. - Talvez haja algo mais aqui, algo que eles não querem que seja revelado. Alguma outra inconveniência.

- A tumba do Cristo está neste lugar, tenho certeza disso, e esta é a coisa mais importante - disse Helena, olhando para o relógio. - Venham. Minha amiga Yereva deve aparecer a qualquer momento.

Ela os guiou de volta pelo caminho por que tinham vindo, e em seguida para o lado oposto da igreja. Alguns momentos mais tarde, pararam no topo de um lance de escada que levava para baixo, para dentro da escuridão. Jack havia estado aqui uma vez, e sabia que os degraus conduziam para a Capela de Santa Helena, uma antiga gruta escavada na pedreira cinco metros abaixo do nível da igreja. Era um lugar misterioso e labiríntico, preenchido com espaços separados por paredes e antigas cisternas de água, cavadas profundamente na rocha. Por um momento ele ficou sozinho, quando Helena e Costas saíram para procurar velas. Tudo o que podia ouvir era um som como uma exalação distante, como se os ecos de dois milênios de preces estivessem presos dentro do leito de rocha, para ressoar para sempre. Por um instante, sentiu-se como um daqueles peregrinos, no final de um caminho desconhecido, carregado de perigos e de incertezas, que o conduziu por fim para o mais Santo dos Santos. Helena e Costas retornaram, e pararam de cada lado dele, cada um com meia dúzia de velas em uma mão, uma acendendo a outra. Começaram a descer. Nas paredes úmidas, além dos degraus, Jack viu centenas de antigas cruzes, talhadas nas rochas por peregrinos que passaram por ali antes dele. Sabia que cada centímetro do leito de rocha ao redor deles havia sido modelado e alisado por mãos humanas, mas, à medida que desciam em profundidade, Jack sentiu como se estivessem se afastando da história fabricada e indo em direção à verdade, se afastando da esperança e anseios e fantasias incorporadas nas paredes acima para se aproximar da verdade dura do passado, daquilo que realmente aconteceu nesta rocha desnuda quase dois mil anos atrás. Parou novamente, tentando escutar, mas não ouviu nada. Olhou para o relógio e pensou em Maclean. Tinham menos de duas horas para ir embora. Era um empreendimento arriscado, mas ele sabia que precisava assumi-lo, que esta era a linha final de defesa. A palavra escrita. Agora eles deviam fazer tudo que pudessem para alcançar sua meta. Estava a apenas alguns degraus do chão da capela, e Jack podia ver que à frente havia sombras profundas e luzes cor de laranja emitidas por velas colocadas em algum lugar nas paredes. Em seguida, eles se encontraram sobre o chão de pedra, andando em meio a colunas escurecidas em direção a uma porta de ferro gradeada do outro lado, perto do altar.

- Esta porta dá para a Capela de São Vartan - murmurou Helena. - O antigo desbaste da pedreira abaixo de nós só foi escavado nos anos 1970, e parte do es¬paço circundado foi feito dentro de uma pequena capela armênia. Ela nunca foi aberta para o público. Temos que esperar por minha amiga Yereva para trazer a chave. - Olhou para o relógio. - Ela esperava estar aqui neste horário, mas trabalha para o patriarca e muitas vezes tem dificuldade para se afastar.

Houve um ruído sussurrante nas escadas que tinham acabado de descer e uma figura saiu da escuridão em direção a eles, vestindo um manto marrom e o capuz triangular característico dos armênios. O capuz foi colocado para trás para revelar uma jovem, com a pele cor de oliva e cabelos encaracolados. Ela segurava uma vela em uma mão e um grande aro preto com uma única chave na outra. Dirigiu-se diretamente para a porta fechada, fazendo um gesto de cabeça para Helena. - Estes são seus amigos? - perguntou em voz baixa, num inglês com forte sotaque.

- São aqueles de quem lhe falei. Jack Howard e Costas Kazantzakis.

- Tive que contar ao patriarca que estava vindo para cá. - A mulher falou de novo em voz baixa.

- Durante o toque de recolher? - perguntou Jack.

- Temos nossos próprios corredores privados.

- Yereva é a curadora não oficial da capela - disse Helena. - Por ser uma freira modesta, não lhe permitem ficar com as chaves. Ela deve pedi-las a cada vez para o patriarca.

- Oficialmente, eu vim apenas para acender as velas e rezar uma prece - disse a mulher. - Mas vou retornar imediatamente, para o caso de haver alguma suspeita. Se eu voltar logo para o patriarca, ninguém terá motivo para vir me procurar. Vocês devem ficar sossegados até o final do toque de recolher, o que deve durar pelo menos um par de horas.

- Você não disse mais nada para ele? - perguntou Helena.

- Nada mais. Nada diferente de nossa rotina habitual.

- Vocês duas se encontraram antes aqui? - perguntou Jack.

- Helena lhe dirá - disse a mulher. - Adoraria entrar aí dentro com um arqueólogo tão famoso, mas espero que possamos nos encontrar de novo. - Ela virou a chave na fechadura, e a porta se abriu. - Deus esteja convosco.

- Que Deus também esteja com você, Yereva - murmurou Helena. - E seja cuidadosa. - Helena parecia ter perdido seu sangue-frio, e pela primeira vez pareceu ansiosa. Acenou com a cabeça para a outra mulher, que recolocou o capuz e saiu apressadamente, andando com passos miúdos e rápidos pelo chão de pedra e subindo as escadas. Helena se voltou para Jack e Costas. - Venham. Podemos não ter muito tempo. - Ela os conduziu por uma passagem escura, acendendo as velas na parede com a sua própria vela à medida que passava. Jack podia ver as paredes desbastadas grosseiramente do leito de rocha ao redor deles, as marcas de picaretas da antiga pedreira. A superfície parecia velha, muito mais velha que a pedra na Capela de Santa Helena, e estava esburacada como metal velho. Debaixo de uma grade havia um buraco escuro, o fundo era invisível. Helena os conduziu para uma câmara à direita e, acima de uma seção da antiga parede, três camadas de tijolos acima, os blocos estavam densamente cobertos com argamassa, um retoque que parecia ter sido feito recentemente. Helena acendeu mais velas, e eles puderam ver outra parede, em estilo diferente, com a face acidentada de rochas cortadas ao redor deles. Ajoelhou-se ao lado da parede e colocou sua vela na frente. Os blocos mais distantes à esquerda, na metade do espaço, estavam cobertos com uma manta pendurada, e Helena a levantou e enrolou-a, prendendo-a em cima. Abaixo se encontrava uma moldura com uma janela de vidro cobrindo o bloco, e atrás dela Jack conseguiu distinguir a superfície de uma rocha. Sabia para o que eles estavam olhando mesmo antes de ela erguer a manta. Era uma inscrição, feita de maneira irregular sobre a rocha, de uma embarcação na Capela de São Vartan, o achado mais extraordinário feito quando a pedreira foi escavada. Ele se ajoelhou, Costas a seu lado. Podia ver claramente agora as linhas do desenho, grosseiro, mas arrojado, os traçados confiantes de alguém que sabia o que estava descrevendo, que inscreveu os detalhes corretos mesmo neste local tão distante do mar. Um homem do mar experiente, um peregrino, um viajante cristão, um dos primeiros. Os olhos de Jack se desviaram do desenho da embarcação para as palavras escritas embaixo. Então ele se lembrou. Tinha esquecido completamente que o grafito tinha uma inscrição. Subitamente seu coração começou a acelerar. Leu vagarosamente:


DOMINE IVIMVS
- É claro - ele sussurrou.

- O que é? - perguntou Costas.

- Você se lembra? Esta é a mesma inscrição que encontramos na Califórnia, na pintura de Everett. - Olhou excitado para Helena. - Foi isto que você reconheceu na fotografia.

- Foi quando eu soube - ela disse.

- Everett deve ter estado aqui quando explorou o Santo Sepulcro, e encontrou esta câmara. Foi daqui que ele copiou a inscrição. - Jack apontou para as palavras grosseiramente pintadas. - Domine Ivimus. Isto certamente encerra o assunto. Everett esteve aqui, bem aqui onde estamos agora. Era isto o que ele estava tentando nos dizer, o indício. De alguma maneira, esta pedra é a chave para a coisa toda.

- Qual é a sua opinião sobre esse navio, Jack? - perguntou Helena.

- Ele é romano, com certeza - murmurou Jack tentando controlar sua excitação, estreitando os olhos. - A alta curva da proa, a amurada reforçada, uma proa característica. É um barco a vela, não uma galera. O mastro foi arriado, o que era feito em grandes barcos nos ancoradouros. Dois outros aspectos sugerem que era uma embarcação grande. Ela tinha remos duplos de direção, e o que se parece com um artemon, um mastro inclinado na proa. Meu palpite é que estamos olhando para o tipo de navio visto no ancoradouro da Cesaréia Marítima na costa da Judéia, um dos navios com carregamentos de grãos que paravam ali no seu caminho para o norte de Alexandria, no Egito, antes de se dirigir para o oeste, para Roma. O tipo de navio que um peregrino do oeste poderia tomar para retornar de sua viagem.

- Você pode datá-lo?

- São apenas conjeturas, mas parece ser mais do início do que do final do período romano. Se eu tivesse visto isto em algum outro lugar, teria dito século I d.C.

- A inscrição foi sem dúvida feita na mesma época, a mesma largura e estilo de traçado - disse Helena. - Mas você é o especialista.

- Bem, ela está em latim, o que naquela área significa não antes que o primeiro século d.C., quando os romanos chegaram à Judéia. Além disso, é difícil dizer. O formato das letras certamente parece antigo, e não medieval.

- A inscrição pode ser traduzida como "Senhor nós iremos", ou "Vamos à casa do Senhor" - disse Helena. - Ela tem sido associada com o primeiro verso do Salmo 122, um dos Cânticos das Subidas (também chamados de Cânticos da Ascensão ou Cânticos dos peregrinos) que é cantado pelos peregrinos que se aproximavam de Jerusalém. "Alegrei-me quando me disseram, vamos à casa do Senhor".

- Isto realmente não nos ajuda a estabelecer as datas - murmurou Jack. - Os Salmos eram originalmente hebraicos, e foram provavelmente cantados pelos primeiros cristãos, aqui na tumba e em outros lugares onde se reuniam nos primeiros anos depois da crucificação.

- Verifiquei isso, e estas duas palavras juntas não aparecem, de fato, no latim da Vulgata, a Bíblia romana do início do período medieval - disse Helena. - Se elas são uma tradução do Salmo 122, podiam ser do período inicial, antes que a tradução latina fosse formalizada. Elas podiam ser uma tradução feita por um dos primeiros peregrinos cristãos, talvez de Roma.

- As embarcações vêm e vão, não é? - perguntou Costas. - Quero dizer, isto não significa necessariamente um peregrino vindo para cá. Podia ser alguém indo embora, deixando Jerusalém. Aquela primeira tradução, "Senhor nós iremos". Talvez seja de um dos apóstolos, praticando um pouco de latim antes de se dirigir para o mundo amplo e enorme.

Helena permaneceu silenciosa, mas sua expressão estava transbordando de excitação. Jack olhou com atenção para ela. - O que você não está nos contando? - ele perguntou.

Helena procurou algo no interior de seu manto e retirou um pequeno plástico que abrigava uma moeda. Ela entregou-a para Jack. - Eu e Yereva encontramos isto alguns dias atrás. Nós praticamos um bocado de arqueologia não oficial. Havia um gesso caído debaixo do grafito. A moeda estava enterrada na base daquela pedra, em uma cavidade feita para ela. É como aquelas moedas das quais você me falou, que os romanos colocam na base dos mastros das embarcações, para se precaver contra o infortúnio. Uma moeda de boa sorte, um apotropaico.

- Nunca antes ouvi falar disso em uma construção - murmurou Jack. - Você se importa? - Ele abriu a embalagem e tirou a moeda. Segurou-a pela borda, e a luz da vela refletiu o bronze gasto. Ele viu a imagem de uma cabeça de homem, não refinada, com o pescoço grosso, com uma única palavra embaixo. - Bom Deus - ele exclamou.

- Você percebe o que quero dizer? - replicou Helena.

- Herodes Agripa - murmurou Costas. - O amigo de Cláudio?

- O rei da Judéia, de 40 a 43 d.C. - disse Helena, assentindo.

Jack tocou a parede. - Então esta alvenaria não foi construída pelo imperador Adriano, afinal de contas, como as pessoas pensavam. Ela tem quase um século a mais.

- Quando a parede foi revelada durante as escavações, não havia nada para fixar a data. Ela era nitidamente anterior à parede de embasamento datada do século IV da igreja de Constantino, que vocês podem ver ali adiante - disse Helena apontando para sua esquerda. - O único registro de qualquer construção neste local antes disso vem do livro de Eusébio de Cesaréia, A vida de Constantino. Eusébio era um contemporâneo do imperador, então provavelmente ele é confiável no que diz respeito ao que se passava aqui no início do século IV, quando o bispo Macróbio de Jerusalém identificou a câmara desbastada na rocha debaixo do Edícula como a tumba de Cristo, e Helena, a mãe de Constantino, fez construir a primeira igreja aqui. Eusébio era inflexível ao afirmar que o local tinha sido construído duzentos anos antes, quando o imperador Adriano fundou Jerusalém de novo com o nome de Colônia Aélia Capitolina.

- Ela era, aparentemente, um templo de Afrodite - disse Costas, olhando à luz de vela um velho guia de viagem que Jack lhe havia dado.

- Isto é o que Eusébio diz - replicou Helena. - Mas não podemos ter certeza. Ele tinha a visão de um revisionista cristão, que dizia que Adriano a construiu deliberadamente no local da tumba para destruí-la, para insultá-la. Afrodite, a Vênus romana, a deusa do amor, era considerada como uma particular abominação pelos padres da Igreja em seus dias, de modo que podia simplesmente ser alguma coisa que Eusébio ou seus informantes imaginaram para o seu público leitor cristão.

- Um bando de desmancha-prazeres - murmurou Costas. - Qual era o problema deles com as mulheres? Achei que Jesus era completamente a favor do amor.

Helena encolheu os ombros de maneira esquisita. - No entanto, provavel¬mente Eusébio tinha razão acerca da data da construção. Há outras seções aqui que são claramente da época de Adriano. Mas ele não era um historiador de arquitetura e nos seus dias pode não ter havido registro ou memória de qualquer estrutura anterior, de alguma que pudesse ter sido datada antes da destruição de Jerusalém pelos romanos logo depois da Revolta Judaica em 70 d.C.

Jack estava olhando fixamente para a parede, com a mente em tumulto. - Herodes Agripa - ele murmurou. - Isto começa a fazer sentido.

- O que é? - perguntou Costas.

- Trata-se de uma das maiores questões não respondidas neste local, no Santo Sepulcro. De um ponto de vista arqueológico, quero dizer. Nunca entendi por que razão ninguém a tratou apropriadamente. Talvez seja por causa da Ressurreição, medo de se aproximar muito de um evento tão sacrossanto, ou de revelar algo que ninguém queria que fosse revelado.

- Isto está começando a me soar familiar - murmurou Costas. - Continue.

- Helena tem razão. Além dos Evangelhos, não há evidência escrita confiável sobre este local antes de Eusébio. Mas ocorreu um evento logo depois da crucificação e do sepultamento que nos proporciona uma possibilidade arqueológica. O rei Herodes Agripa tinha planos grandiosos para a Judéia, para sua capital Jerusalém. Ele se imaginou como imperador do Leste, uma espécie de co-regente com seu amigo Cláudio. Esta foi a destruição de Agripa. Antes de sua morte em 43 d.C., provavelmente envenenado, um plano que ele completou foi o grande aumento do tamanho de Jerusalém, ao construir um circuito inteiramente novo de paredes em direção ao noroeste. Ele abarcou a colina do Gólgota e o lugar da antiga pedreira, onde nos encontramos agora.

- O antigo cemitério, a necrópole - murmurou Helena.

- Precisamente. Quando os muros da cidade eram aumentadas dessa maneira, freqüentemente as velhas tumbas era esvaziadas, limpadas, e até mesmo usadas novamente como habitações. Na tradição romana, nenhum cemitério podia existir dentro da linha sagrada do pomerium, dos muros da cidade. Herodes Agripa foi criado em Roma, e pode ter fantasiado consigo mesmo ser bastante romano para observar este costume.

- De qual data estamos falando? - perguntou Costas.

- De 41 a 43 d.C., provavelmente logo depois que Cláudio se tornou imperador.

- E Jesus morreu em 30 d.C., talvez em 33 - disse Helena.

- Então, cerca de uma década depois da crucificação, as tumbas devem ter sido limpadas - murmurou Costas. - Será que Herodes Agripa tinha conhecido Jesus, sabia da crucificação?

Jack respirou profundamente, e estendeu a mão para tocar a parede. - Helena, provavelmente, está um passo a minha frente neste assunto, mas realmente acredito que Herodes Agripa tenha tido conhecimento de Jesus. Houve um tempo anterior na vida de Herodes quando o contato foi possível. E, desde o momento da crucificação em diante, não tenho dúvidas de que o lugar de sua morte teria sido venerado pela família de Jesus e por seus seguidores, que ele tenha se tornado um lugar de peregrinação. E quando Herodes construiu seus muros, as autoridades religiosas em Jerusalém, e ele próprio no papel formal romano de pontifex maximus, principal sacerdote, teria ordenado que todas as tumbas dentro dos muros fossem esvaziadas. Mas, ao mesmo tempo, ele ordenou a construção de uma estrutura de alvenaria neste local. Por quê? Será que ele estava insultando Cristo, tentando erradicar a tumba?

- Ou tentando protegê-la - murmurou Helena.

- Eu não entendo - disse Costas. - Protegê-lo? Herodes Agripa?

- Pode ter havido todo tipo de fatores em jogo - disse Jack. - Um pressentimento, um encontro casual, alguma experiência anterior. Ou mesmo por uma razão política. Podia ter estado profundamente em desacordo com as autoridades judias, e ter mandado construir apesar deles. Talvez não saibamos nunca. Permanece o fato de que temos uma estrutura construída no provável lugar da tumba de Cristo apenas alguns anos depois da crucificação, em uma época em que esta colina já era o solo sagrado para os primeiros cristãos.

- Então, há uma outra coisa que eu não entendo - disse Costas. - A tumba de Cristo, o Santo Sepulcro, fica na rotunda atrás de nós, pelo menos a oitenta metros na direção oeste daqui, segundo meus cálculos. Se esta parede a nossa frente, esta que vocês acham que foi construída por Herodes, pertence a uma estrutura que de alguma maneira recobre a tumba, então o grafito da embarcação se encontra do lado de dentro. Dentro da estrutura que circunda a tumba, em um local escondido. Isto simplesmente não faz sentido para mim. Olhando para o lugar e considerando o desgaste da alvenaria, eu diria que é mais provável que se encontre do lado de fora de uma estrutura.

Jack agachou-se de novo. - Meu trabalho de adivinhação terminou. A bola está com você agora, Helena - ele disse, devolvendo-lhe a moeda.

- Fique com ela - murmurou Helena. - Há outras pessoas que podem suspeitar que eu detenho alguma coisa, e é mais seguro que ela fique com você até que tudo isto termine. - Ela apontou para a mochila caqui, e Jack assentiu, recolocando a moeda em seu invólucro e enfiando a moeda bem no fundo da mochila. Ela o observou, depois pegou de cada lado da peça de vidro que cobria o grafito, erguendo-a e retirando-a. Colocou cuidadosamente o vidro no chão, depois se ajoelhou e começou a remexer com os dedos dentro do pedaço de argamassa colocado debaixo do bloco. - Há algo que eu ainda não lhes mostrei - ela disse, retraindo-se quando a rocha arranhou sua mão. - Quero que vocês considerem isto primeiro independentemente, para obter uma avaliação objetiva.

- Acerca do grafito da embarcação? - perguntou Jack.

Helena retraiu-se novamente, e depois agarrou dois pontos debaixo da argamassa, e houve um ligeiro movimento. - Consegui - ela disse. Retirou um pedaço da argamassa e colocou-o ao lado do vidro. Metade da base do bloco estava revelada agora, com uma fenda escura debaixo. Ela se ajoelhou e soprou na face inferior do bloco, afastando-se rapidamente para evitar a pequena nuvem de poeira. - Ali - ela disse.

Jack e Costas se ajoelharam onde ela estivera. Havia mais marcações, inscrições. Viram um símbolo Qui-Rô, grosseiramente talhado na rocha. Ao lado havia outra inscrição, uma palavra pintada, claramente parte do mesmo grafito como o da embarcação e da inscrição em latim, o mesmo formato de letras e o mesmo movimento do pincel. Costas estava mais perto, e olhou atentamente tentando obter um ângulo melhor. Afastou-se novamente. Ambos se olharam com olhos arregalados.

- Jack, estou sentindo a estranha sensação de déjà vu novamente.

Jack quase se sentiu desmaiar. Ele se deu conta de onde tinha visto aquele estilo de letra antes. A forma do V, o elemento quadrado na composição do S. O antigo navio naufragado.

O navio naufragado de são Paulo.

- Meu Deus - ele sussurrou. - Paulus. - Engoliu com dificuldade, e sentou-se. - São Paulo, o apóstolo, esteve aqui. São Paulo, cujo nome vimos uma semana atrás, trezentos metros debaixo do mar, rabiscado em uma ânfora que estava em um navio naufragado. Não podia haver dúvida a respeito daquilo. Este grafito havia sido entalhado por são Paulo. Este é o seu navio. Domine Ivimvs. Senhor, nós iremos. Costas, você estava certo. O homem que traçou isto estava indo, não vindo. Ele veio para cá contar para seu Senhor que ele estava prestes a partir em sua grande missão, para espalhar a palavra fora da Judéia. Paulo esteve aqui, sentado na ladeira no mesmo lugar em que estamos agora, ao lado da parede construída por Herodes Agripa apenas poucos anos antes.

- No local da peregrinação - disse Helena. - Na tumba de Cristo.

- Na tumba de Cristo - repetiu Jack. Ele viu que Helena estava apontando para a fenda debaixo do bloco. - Jack, dê uma olhada lá dentro. Não foi colocada argamassa ali. Lembra que eu lhe contei que sabia da existência de alguns blocos com espaços atrás deles? A argamassa que você pode ver ao redor do bloco é moderna, depois há uma outra camada lacrada que também é relativamente recente, feita dentro dos últimos cem anos mais ou menos.

- 1918? - perguntou Jack.

- Estou convencida disso.

- Everett - murmurou Costas. - Você está dizendo que ele encontrou isto e removeu o bloco. Nós também podemos removê-lo?

- É por isso que eu precisava de vocês dois aqui - disse Helena. - Quando eu e Yereva encontramos pela primeira vez a inscrição de Paulo, percebemos que havia um espaço atrás. Vocês podem vê-lo através da fenda. Pode ser apenas um espaço não utilizado atrás da parede, ou uma outra cisterna de água. Há pelo menos onze cisternas debaixo do Santo Sepulcro para coletar água de chuva, muitas delas fora de uso ou lacradas. Ou pode ser alguma outra coisa. Não houve maneira de conseguirmos deslocar este bloco, e, se fôssemos encontradas tentando fazê-lo, haveria mais um par de crucificações neste local.

- Você contou para mais alguém sobre a inscrição de Paulo? - perguntou Jack

- Vocês são os primeiros. Mas outras pessoas sabem, e mantiveram o segredo. A argamassa em cima da inscrição é recente, do período da escavação nos anos 1970. Eles a encontraram, depois a esconderam.

- Não compreendo - disse Costas. - Certamente uma descoberta como esta daria para os armênios uma vantagem, realmente aumentaria sua importância, não é?

- Trata-se sobretudo da manutenção do status quo neste local - murmurou Helena. - Eles podem ter receado que a inveja das outras congregações rompesse o sistema de controle mútuo entre elas, reduzisse os direitos e privilégios que eles deram duro para manter no decorrer dos séculos. É melhor deixar uma descoberta como esta como seu segredo, fortalecer seu senso de superioridade, uma munição que poderia ser necessária para o futuro.

- E pode ter havido outros fatores em jogo - murmurou Jack.

- O concilium? - perguntou Costas.

- O medo de atrair forças sombrias sobre si, forças que fariam de tudo para erradicá-los simplesmente por causa do que eles sabiam, exatamente como quase aconteceu com os etíopes - murmurou Jack.

- Vamos - disse Helena. - Vamos continuar. - Ela começou a retirar mais pedaços de argamassa ao redor do bloco com seus dedos. Eles saíam de maneira surpreendentemente fácil, em pedaços grossos que pareciam ter sido removidos anteriormente e depois lacrados de novo. Depois de alguns minutos, o bloco inteiro tinha saído, formando uma fenda ao redor das extremidades de alguns centímetros de largura, o suficiente para fazer entrar pela abertura uma mão aberta. Jack remexeu em sua mochila e retirou uma headlamp de alpinista, acendendo-a e empurrando-a através da fenda até o ponto mais largo. - Percebo o que você quer dizer - ele murmurou, com o rosto próximo da fenda. - Com a retirada do bloco, nós estaríamos olhando para um espaço de cerca de um metro de comprimento por meio metro de largura, grande o suficiente para uma passagem estreita e baixa.

- Você acha que pode fazê-lo? - perguntou Helena. - Quero dizer mover o bloco?

- Só há uma maneira de descobrir. - Jack passou a lâmpada para ela, depois fez um gesto para Costas. Cada um deles colocou as mãos debaixo de um canto do bloco. - Temos que tentar balançá-lo para retirá-lo - ele disse. - Vamos fazer isto suavemente. Em direção a você primeiro. - Eles o ergueram e o bloco se moveu. Costas gritou de dor. - Você está bem? - perguntou Jack. Costas retirou uma mão, balançando-a e soprando sobre ela, e assentiu. Enfiou-a de novo debaixo da pedra, que agora estava alguns centímetros fora da parede. - De novo. - Eles a empurraram para frente e para trás mais meia dúzia de vezes, a cada vez puxando-a mais para fora. Ela saía de maneira inesperadamente fácil. Mudaram de posição de modo que ficaram de frente um para o outro, com ambas as mãos debaixo da pedra. - Erga - disse Jack. Cada um deles com uma das mãos por debaixo da extremidade exterior da pedra, movimentava a outra mão de volta cada vez que a pedra vinha para frente, mantendo as mãos perto da parede. Eles se aproximavam da possibilidade de erguer a pedra inteira cada vez que a puxavam um pouco para fora. Helena ergueu um par de pranchas de madeira que havia encontrado ao lado da grade exterior da capela, posicionando-as debaixo da pedra. - Muito bem. É isso - disse Jack. - Vamos tentar retirar a pedra por um metro. Cuidado com as costas. - Ambos se endireitaram o mais que puderam, olharam um para o outro, e se puseram de acordo com um gesto de cabeça. Com um movimento rápido, retiraram o bloco da parede, o arrastaram para fora e o colocaram nos lugares predeterminados. Os dois homens retiraram as mãos, balançando-as e respirando com força. - Muito bem - disse Jack, ofegante. - O que conseguimos?

Helena já estava olhando atentamente dentro do espaço, segurando a headlamp de Jack tão distante quanto podia. - O espaço adentra por cerca de cinco metros, depois há uma outra parede, uma parede desbastada na rocha, pela sua aparência - ela disse. - Depois a parede parece baixar para algum lugar. - Helena se ajoelhou voltando para trás, e passou a lâmpada para Jack. - Se é uma cisterna, ela podia ser submersa - ela disse. - Estamos no lugar mais profundo debaixo do Santo Sepulcro, e tem chovido muito durante os últimos dias. E agora?

Jack olhou para Costas, que lhe devolveu o olhar, seu rosto estava inexpressivo.

- Jack, nós temos um trato - disse Costas. - Nada de irmos a lugares subterrâneos.

- Você está fora da situação difícil desta vez. O lugar é muito estreito.

- Você concorda com isso? Quer dizer, em ir sozinho?

Jack olhou dentro do espaço. - Não acho que vou fugir deste aqui.

- Não, você não vai.

Jack ajeitou sua lâmpada sobre a cabeça, depois pegou a mochila caqui e empurrou-a para frente dentro do buraco, tanto quanto podia.

- Sua mochila da sorte - disse Costas para Helena. - Ele nunca vai a nenhum lugar sem ela.

Helena olhou nervosamente para a entrada da capela. - Seja rápido - ela disse. - Precisamos sair logo daqui. - Ela voltou o olhar para Jack, depois tocou em seu braço. - Domine Ivimus - ela murmurou. - Boa sorte.


Momentos mais tarde, Jack se encontrava dentro do espaço onde estivera o bloco de pedra, movendo-se lentamente à frente sobre seu estômago, todo esticado e achatado empurrando a mochila para frente. A entrada pela parede se encontrava apenas poucos metros atrás, mas ele já se sentia completamente isolado, separado da capela atrás dele, fazendo parte de um outro espaço que podia ver na frente de si dentro do feixe de luz de sua headlamp. Lembrou-se de Herculano, o extraordinário sentimento de retroceder no tempo quando entraram na biblioteca perdida. Ele sentia a mesma coisa aqui, como se fazendo parte do mesmo continuam, como se tivesse se introduzido despercebidamente mais além naquela descoberta e se encontrasse agora um passo mais recuado na história, tão distante quanto sentia que podia retroceder. Por uma vez, sua claustrofobia não o atacara, e ele se sentia estranhamente confortado pela antiga pedra, protegido por ela. As últimas palavras de Helena continuavam a girar em sua cabeça, as duas palavras em latim, e ele se surpreendeu murmurando-as, um canto profundo que parecia vir por instinto, que o mantinha concentrado. Ele se empurrou para frente até não haver mais nenhuma luz vindo da entrada atrás de seus pés. A rocha à direita era uma continuação da parede com o grafito, formando ângulos retos com ela. A sua esquerda e acima dele era um leito de rocha, entalhado e cortado de acordo com as marcações da pedreira, tão velhas que elas quase pareciam fazer parte da ordem natural das coisas, como se a antiga marca do homem tivesse perdido seu significado e se tornado apenas um outro processo de erosão e de transformação que havia dado forma a este lugar.

Adiante dele, o túnel terminava abruptamente no lugar onde Helena percebera a parede, mas ele podia ver onde ela se juntava a um outro espaço à direita. Empurrou a mochila para o canto esquerdo e posicionou o corpo ao redor, comprimindo-se dentro da abertura. Ela quase não era suficientemente larga, e as beiradas cortantes o arranhavam, rasgavam sua camisa e esfolavam-no. Avançou pela abertura, retraindo-se onde a rocha o prendia. Encontrava-se num espaço mais largo agora, o suficiente para rastejar sobre as mãos e os pés. A sua direita, formando um ângulo de noventa graus com o túnel, havia uma parede de alvenaria, com pelo menos cinco camadas de largos blocos talhados. Seu rosto encontrava-se a poucos centímetros dela, e ele viu que ela era formada pela mesma pedra que a da parede exterior com o grafito do navio, só que aqui a superfície da pedra não era gasta, não era estragada. Percebeu que o espaço que rastejara o levara ao longo da lateral de uma estrutura retilínea construída contra a face da pedreira, e que agora ele se encontrava atrás dela, dentro de uma cavidade e que a estrutura tinha sido construída para escondê-la. Virou a cabeça para a direita, em direção à face da pedreira. O resto da pedra era natural, um leito de pedra. Acima dele havia grandes talhos retilíneos, a extremidade de uma pedreira antiga. Abaixo dos talhos, viu uma estreita abertura que se abria para uma câmara desbastada na rocha, seu teto e as laterais superiores de alguns metros eram visíveis. Abaixo disso, a câmara estava cheia de água, uma piscina preta que brilhava quando a headlamp incidia sobre ela. Rastejou até a beirada e olhou-a atentamente. Pôde perceber que ela era profunda, pelo menos tão profunda como as cisternas de água que ele tinha visto no caminho dentro da Capela de São Vartan.

Havia pouco espaço para manobra, e ele se debateu sobre as costas, abriu o zíper e tirou as botas, retirou todas as suas roupas. Rastejou de volta para a beirada da piscina, ainda com sua headlamp e deslizou para dentro dela. A água estava fria, refrescante, instantaneamente purificadora. Por um momento, ele flutuou tranqüilo na superfície, o rosto para baixo, os olhos fechados. Depois, olhou para baixo. Sem uma máscara, a imagem ficava indistinta, pobremente definida, e seus olhos sofriam com o frio. Mas a água era clara e cristalina, e ele podia ver a dança do feixe de luz na rocha, nas paredes talhadas, nos cantos. Era formada por um corte profundo, de pelo menos cinco metros até o fundo, retilíneo. Girou a cabeça para um lado para obter mais ar, depois imergiu o rosto novamente, com os olhos abertos. Quando o feixe de luz passou embaixo, ele viu que havia uma ampla abertura na lateral da câmara, arqueada em cima, plana embaixo, uma saliência em forma de prateleira bastante larga para dois ficarem deitados lado a lado. Abaixou a cabeça e olhou, mas se deparou com um brilho de luz ofuscante, que refletia uma superfície polida. Ficou ali olhando para o resplendor cheio de partículas, sem registrar nada, com a mente paralisada de assombro. Aquela não era água de cisterna.

Subiu em busca de ar, depois rapidamente olhou de novo para baixo. Saindo do nada, ele teve uma imagem de Elizabeth, depois de Helena, e, por uma fração de segundo, talvez por um truque da luz, percebeu uma forma humana, um reflexo do seu próprio corpo flutuando na beirada da prateleira polida. Arremessou a cabeça para cima, respirando com dificuldade, em busca de ar, e sua headlamp escorregou para fora da cabeça, indo em espiral para baixo através da água e para fora de seu alcance. Piscou fortemente, depois olhou de novo. A prateleira não era mais visível no escuro, e tudo o que ele conseguiu ver foi o final da câmara, uma imagem borrada de sombras e de luz, do feixe de luz onde a lâmpada havia caído refletindo apenas cantos da rocha. Encheu os pulmões de ar, arqueou as costas e mergulhou, empurrando-se para baixo com fortes braçadas, sentindo a alegria da liberdade novamente, de estar debaixo d’água, de estar no lugar ao qual ele pertencia.

Então ele o viu.

Um cilindro de pedra pousado no fundo, branco, exatamente igual aos que vira antes, metade de uma vida atrás, em uma antiga biblioteca debaixo de um vulcão, uma biblioteca que era de propriedade de um imperador romano que tinha vindo aqui para a Terra Santa, procurar a salvação nas palavras daquele que morava ao lado do mar da Galiléia.

Então ele se deu conta.

Everett havia encontrado a tumba.

Ele atingiu o fundo.




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