O último Evangelho David Gibbins



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CAPÍTULO 20
Três horas mais tarde, Jack estava parado nos limites de um pequeno vale fora de Santa Paula, nas colinas da Califórnia, cerca de vinte milhas a nordeste da Vila Getty. Era uma tarde brilhante, o céu era de um azul profundo e uma brisa refrescante soprava sobre o vale vinda da costa do Pacífico ao oeste, fazendo as folhas sussurrarem. Estava parado em um bosque de nogueiras com nozes maduras e escuras, o bosque era interpenetrado por ocasionais árvores de choupo-do-canadá e carvalhos cujo desenvolvimento ainda estava retardado. As árvores tinham sido plantadas, deliberadamente, não em fileiras uniformes, mas habilmente dispostas ao longo de terraços que desciam pelos declives, dando para cada árvore o espaço para crescer até a maturidade e em conformidade com os aspectos naturais da paisagem. A casca das nogueiras era grossa, apresentando estrias profundas, e cada tronco bifurcado próximo ao solo dava a impressão de duas árvores que cresceram juntas, os troncos divergiam para criar espaços vazios que formavam abrigos de folhagens e que tentavam Jack a entrar mais profundamente no bosque. Era um lugar mágico e reservado, completamente separado do mundo exterior, e, no entanto, revelava toda a luz e a cor que a Califórnia tinha para oferecer.

Maclean, seguido por Costas e Jeremy, aproximou-se vindo do lugar onde deixara o carro. - A cabana de Everett era onde você está parado, e seu túmulo se encontra em algum lugar por perto - disse Maclean. - Os dois estão desaparecidos agora, mas, de certa maneira, ele está em todo lugar aqui. Ele plantou todas estas árvores, planejou toda a paisagem. Mas espere até ver o que há ali perto. - Continuou ao longo do caminho e depois mudou de direção ao longo da linha de um terraço, descendo por um corredor sussurrante de folhas de nogueiras. Jack deixou-se ficar mais um momento, depois os seguiu, rapidamente alcançando Costas e Jeremy. Passaram por um curso de água borbulhante e chegaram à entrada de um edifício, uma estrutura comprida e baixa que corria ao longo do declive por um lado e descia em direção ao vale por outro. As paredes tinham uma base formada por pedras cortadas irregularmente, e acima delas eram construídas com tijolos compridos e grossos. Uma camada de tijolos escuros tinha sido colocada no centro da parede, pondo em relevo a aparência da fachada. O telhado era inclinado e coberto com telhas largas e planas amarradas por outras sobrepostas de forma semicircular, ao estilo mediterrâneo. Jack parou mais atrás e apreciou a estrutura, quebrando a cabeça. Tudo parecia estranhamente familiar.

- Bem-vindos ao Convento de Santa Maria Madalena - disse Maclean.

- Você já esteve aqui antes? - perguntou Costas.

- Só me permitiram o acesso durante o último ano. Ainda é uma grande revelação para mim. Originalmente, este local era um retiro jesuíta, uma espécie de típica missão espanhola, toda feita de lodo seco e gesso caiado - disse Maclean. - Depois, foi completamente reconstruído no início do século XX. O que vocês vêem aqui é uma das jóias arquitetônicas da Califórnia. - Olhou para Jack. - Você provavelmente já adivinhou.

- Posso ver que Getty não foi o único a recriar a antiga Roma - murmurou Jack.

- Quando Everett veio para cá em 1912, a construção da antiga missão estava desmoronando, era quase não habitável - disse Maclean. - Além da guerra, esta foi a sua principal ocupação durante a década seguinte. Construiu isso tudo virtualmente sem auxílio, até que sua saúde o fez interromper o trabalho.

- Então, afinal de contas, ele não desistiu da arquitetura - comentou Costas.

- Longe disso - disse Maclean. - Aqui ele foi realmente capaz de abandonar-se a sua paixão, capaz de fazer algo que nunca conseguiria realizar na Inglaterra durante o período eduardiano. Nos anos 1890, quando ele era um estudante de arquitetura, as pessoas estavam apenas começando a perceber como eram bonitas as vilas na região rural da Grã-Bretanha romana, lugares que estavam sendo escavados adequadamente, pela primeira vez, naquela época.

- Demorou um pouco, mas eu reconheci a construção - disse Jack. - É um dos meus lugares favoritos. A vila romana de Chedworth em Gloucestershire. Até o ambiente é semelhante, um pouco mais úmido na Inglaterra, talvez.

- Você acertou - disse Maclean. - E a ambientação era crucial para ele. As grandes casas da Itália romana eram locais circundados, introspectivos, completamente separados do mundo natural. Pense na Vila Getty, na Vila dos Papiros. Há uma vista magnífica para ser apreciada do lado de fora, mas o pátio rodeado por colunas a exclui, encerra-a dentro de sua própria organização. E, em lugar de janelas para o mundo exterior, você tem todas aquelas paredes pintadas que mostram cenas de jardins e paisagens, deliberadamente irreais, artificiais, míticas. O lugar inteiro representa um controle completo sobre a natureza.

- Ou falta de controle - disse Jack.

- Ou negação - disse Costas. - É mais fácil pintar o Vesúvio na parede de sua vila como uma espécie de sonho dionisíaco do que olhar pela janela e ver uma realidade que nunca poderá ter a esperança de controlar.

- Na Grã-Bretanha romana, algo diferente estava acontecendo - disse Jack. - Vocês lembram de Boudica, dos druidas? Eles eram pessoas que faziam cultos religiosos em clareiras na floresta, que não tinham templos. Estavam muito mais em sintonia com a natureza, viam a si mesmos como parte dela. A natureza não era algo para eles controlarem. Então, quando a elite celta queria ter vilas ao estilo romano, eles as construíam como parte da paisagem, não excluídas dela. Foi isso que Everett fez aqui. Em lugar de um pátio rodeado por colunas, há uma única estrutura de área comprida que se estende ao longo do topo do vale para o sul, os dormitórios das freiras, exatamente como o espaço do lado oeste em Chedworth. A estrutura se ajusta admiravelmente dentro dos contornos e das cores da paisagem, se torna parte dela. Esta era a visão de Everett.

- Então, ela é realmente diferente da Vila Getty - disse Costas.

- Everett deve ter apreciado o desafio - disse Maclean. - Deve ter sido como a história da lebre e da tartaruga. Getty tinha milhões incontáveis, Everett tinha apenas caridade. Getty podia chamar arquitetos e construtores de todas as partes do mundo, Everett tinha apenas a si mesmo. E, ainda assim, Everett terminou este lugar primeiro, décadas antes que a Vila Getty fosse inaugurada. E a Vila Getty era um espetáculo público, uma extravagância de um bilionário, mas tam¬bém uma obra beneficente para o mundo, ao passo que este lugar é quase tão secreto quanto possível. O estatuto da ordem das freiras proíbe os estranhos de entrarem além do vestíbulo, ou de ter qualquer contato direto com as freiras. É um grande privilégio para nós a permissão de estar aqui.

- Podemos olhar dentro do vestíbulo? - Perguntou Jack.

- Foi para isso que eu os trouxe aqui.

Maclean os conduziu através de um pátio de pedras irregulares e em direção a uma porta simples e despretensiosa, rodeada por placas verticais e coberta por um lintel feito com pedras locais que Jack tinha visto no terraço. A porta era feita de pranchas esculpidas de madeira dura que parecia ser de nogueira, e estava ligeiramente entreaberta. Maclean empurrou-a um pouco mais, e depois deu um passo atrás e apontou para o chão. - Primeiro olhem para a soleira da porta.

Abaixaram o olhar. Na frente deles havia um mosaico em preto e branco, feito de ladrilhos cortados grosseiramente, polidos e lustrosos. Media cerca de um metro de lado a lado e ocupava exatamente cada lado da entrada, metade dentro e metade fora. Jack tinha visto uma soleira como aquela antes, um mosaico em preto e branco em uma soleira em Pompéia ostentando as palavras latinas CAVE CANEM, "Atenção ao cachorro". Mas esta era diferente. As letras tinham sido dispostas em um retângulo, e a mensagem não tinha um significado óbvio. Cada linha formada por uma palavra:


ROTAS

OPERA


TENET

AREPO


SATOR
Jack olhou atentamente por um momento, e então ficou claro. - Está escrito em latim. "Arepo, o semeador, segura as rodas cuidadosamente."

- É alguma espécie de código? - perguntou Costas.

- Não exatamente. - Jeremy pegou de seu bolso um caderno de apontamentos e um lápis e rapidamente rabiscou algumas palavras, depois arrancou a folha e entregou-a para Costas. - Isto é uma palavra-quadrado (que pode ser lida tanto na horizontal como na vertical), é um caso especial do acróstico, um quebra-cabeça. Rearranje as letras e isto é o que se consegue. - Costas segurou o papel de modo que Jack também pudesse ver:
A
P

A

T

E

R

A PATER NOSTERO

O

S

T

E

R
O
Costas assobiou. - Inteligente.

- Inteligente, mas isto não foi uma criação de Everett - disse Jack. - Isto é romano antigo, e foi encontrado rabiscado em um fragmento de ânfora na Grã-Bretanha.

- Isto me soa familiar - disse Costas. - desde que encontramos o navio naufragado, eu estou começando a olhar para modestos potes antigos de uma forma inteiramente nova. - Deu um passo à frente e olhou com atenção para o vestíbulo. - E, falando nisso, isto aqui também me parece familiar. Penso ter visto um símbolo Qui-Rô.

- Dois deles, de fato - disse Maclean. - Um no chão e outro na parede. Entraram no vestíbulo. A sala era simples, austera, em conformidade com o exterior da vila. As paredes eram cobertas de gesso pintado em vermelho com acabamento fosco, no estilo romano. Não havia janelas, mas uma série de aberturas, logo abaixo do teto, ao redor de toda a sala; tinham sido habilmente projetadas para deixar feixes de luz cair no meio do chão e sobre a parede do lado oposto à entrada, sobre os objetos centrais que constituíam as duas decorações da sala. Um deles era um outro mosaico no chão, mas desta vez em várias cores, que cobria toda a largura da sala, talvez com três metros de um lado a outro. Os ladrilhos, o mosaico tesserae, tinham cerca 1,25 cm quadrado, e a gama de cores se limitava, talvez, a meia dúzia. O mosaico estava executado em estilo linear, arrojado, com imagens delineadas de maneira rígida e com pouca sutileza na graduação de cor. Das beiradas da sala, uma série de círculos concêntricos avançavam para o interior, formando padrões abstratos de gavinhas, linhas entrelaçadas e arabescos separados por faixas brancas. No centro, havia a imagem que Costas tinha visto, um monograma Qui-Rô, dentro de um medalhão com cerca de sessenta centímetros de lado a lado, elevando-se acima da cabeça e o torso de uma figura humana, colocada na frente como se o símbolo Qui-Rô fosse um halo.

- Extraordinário - murmurou Jack. - O mosaico de Hinton St. Mary, no condado de Dorset. É uma cópia exata do famoso mosaico de Cristo.

- Uma outra vila da Grã-Bretanha? - perguntou Costas.

Jack fez que sim de uma maneira ausente, depois se agachou, absorvido nos detalhes. - Ele até usou os mesmos materiais - murmurou. - Tijolo para o vermelho, pedra calcária para o branco, arenito para o amarelo, xisto para o cinza. Ele tinha acesso a uma grande quantidade de outras cores aqui, quartzos, verdes, azuis, as cores que vimos nos mosaicos da Vila Getty, mas ficou preso a uma gama de cores usada na Grã-Bretanha.

- Posso supor que esta seja uma representação de Cristo? - perguntou Costas.

- Esta é uma boa questão - respondeu Maclean.

Jack ficou de novo em pé. - Não achei que houvesse alguma dúvida. Esta é uma representação bastante padrão no século IV. Bem barbeado, o rosto quadrado, cabelos compridos, vestindo uma espécie de toga. Pura fantasia, é claro. Isto poderia facilmente ser uma imagem grosseira do primeiro imperador cristão, Constantino, o Grande, ou de seus sucessores, que podem não ter impedido a confusão de suas imagens com a de Cristo.

- Este é o problema - disse Maclean.

- Qual é?

- Bem, por tudo que sabemos, os primeiros cristãos na Grã-Bretanha parecem ter se distanciado da Igreja Romana, ter acreditado que faziam parte de uma tradição mais pura, alguma coisa relacionada com a sua própria ascendência pagã. A última coisa que o proprietário daquela vila em Hinton St. Mary poderia ter desejado era uma imagem de Jesus quase idêntica à imagem do imperador, na moeda que tinha em sua bolsa. E a elite cultivada da Grã-Bretanha perto do fim do período romano era bastante sofisticada. As pessoas sabiam perfeitamente bem qual era a aparência dos que vinham do levante, da Judéia. Provavelmente, havia até uma pequena quantidade de sangue oriental nas pessoas da Grã-Bretanha por causa do seu contato com os fenícios séculos antes. A idéia de que Jesus devia ser apresentado bem barbeado, com um aspecto quase angélico, é nitidamente irracional. Era um pescador do mar da Galiléia queimado pelo sol. Mas olhem novamente. Os cabelos longos, os olhos amendoados, este manto que podia ser uma toga, podia ser uma beca. Esta figura pode não ser Jesus. Pode nem ser a imagem de um homem.

- Ela é uma mulher! - exclamou Costas.

- Era nisto que Everett acreditava. E para Everett, para os adeptos de Pelágio, era conferido para Maria, a companheira de Jesus, um significado diferente do que o dado pela Igreja Romana, um significado muito maior. Para eles, as imagens andróginas de Cristo, imagens quase femininas, são vistas em algumas das obras de arte romanas tardias, de Cristo personificando tanto homem como mulher, Cristo deificado. Para os seguidores de Pelágio, Jesus era o homem, e Maria a mulher. Eles consideravam a iconografia de Cristo na tradição romana como um pouco popularesca, como se a imagem de Jesus tivesse sido transformado em algo diferente, não em uma imagem elevada e deificada, mas reduzida a um mero motivo decorativo, um pasticho dentro de uma conspiração de poder que pouco tinha a ver com ele ou com seus ensinamentos. Segundo eles, era vendo Jesus como o homem que ele era que conseguiam conhecer melhor sua palavra. Era assim que eles se conectavam com a palavra Deus, por meio do homem, e não do Cristo ascendido. E lembrem-se de onde estamos. Esta é uma imagem apropriada. Este é o convento de Santa Maria Madalena.

- Fascinante - murmurou Jack.

- E vocês irão reconhecer a pintura na parede.

Seguiram a linha do P no mosaico Qui-Rô até que alcançaram um outro símbolo Qui-Rô; este último fazia parte do segundo desenho decorativo na sala, pintado de preto sobre um fundo azul-claro com as letras gregas alfa e ômega de cada lado. O símbolo era rodeado por uma grinalda pintada em azul-escuro com hastes pintadas, e Jack conseguiu distinguir letras gregas menores no meio de gavinhas de videira, enroladas de maneira decorativa ao redor das flores e folhas da grinalda. Na parte inferior havia uma pequena cruz com remates adornados; tratava-se nitidamente de uma cruz armênia, com as palavras Domine Ivimus.

- "Senhor, nós viemos" - traduziu Jack. - Fora isso, esta é uma cópia do mosaico de Lullingstone em Kent - disse ele em tom decidido. - Este é outro símbolo famoso do início do cristianismo na Grã-Bretanha. Ele realmente tem uma atração por vilas romanas na Grã-Bretanha, não é?

- Este é o ponto importante - disse Maclean. - Olhe ao seu redor. Não é só para estas imagens que devemos olhar, é para a ambientação. Este é o brilhantismo deste lugar, e também o da Vila Getty. Everett queria que nós víssemos a arte no seu conjunto, como fez Getty. E enquanto Getty se inspirou em Herculano, Everett encontrou estímulo nas descobertas do século XIX na Inglaterra, uma redescoberta do mundo romano na Grã-Bretanha e sua adoção do cristianismo que realmente incentivou o movimento dos adeptos de Pelágio, mais ou menos na época em que Everett era um jovem. Perceberam que as práticas cristãs iniciais na Grã-Bretanha tinham sido realizadas em casas particulares, em salas dentro de vilas, provavelmente do mesmo modo como tinha sido feito em lugares como Pompéia e Herculano antes que a Igreja se firmasse. Everett chamava esta sala de scholarium, o lugar de aprendizagem. Nem uma igreja, nem uma capela, nem um lugar de culto religioso, nem mesmo um lugar de encontro, mas um lugar de aprendizagem. Um local onde as pessoas podiam se reunir e ler os Evangelhos, ou ler para aqueles que não podiam ler. Um lugar que não tinha espaço para púlpitos, ou pregadores, nem para padres.

- Um lugar onde ele podia ter vislumbrado revelar o último texto - comentou Costas.

Jeremy tinha estado pensativo, mas agora falou em voz baixa. - A ironia é que ele tinha se convertido ao catolicismo para se esconder, para evadir-se dentro do cerne da instituição que mais gostaria de ter conseguido o seu segredo. No entanto, aqui, neste convento católico nas colinas da Califórnia, ele encontrou um lugar onde podia expressar sua verdadeira convicção com total liberdade, criar um lugar onde podia aproximar-se de Jesus e de seus ensinamentos mais do que fizera em qualquer outro lugar anteriormente.

Jack olhou ao redor, e por um momento pareceu estar se olhando como se estivesse fora de si mesmo, avaliando seus sentimentos. Com o passar dos anos, ele aprendeu a aceitar seus instintos sobre arte, a conhecer e a apreciar sua própria sensibilidade e a não se forçar para achar beleza só por obrigação. A Vila Getty era magnífica, mas este lugar, de certa forma, lhe parecia mais familiar, tocava o seu próprio passado. Sua relação com a natureza, as cores, o uso da luz e da sombra, refletia um ajustamento particular com o mundo que parecia se amoldar ao próprio mundo de Jack, com o conjunto de componentes naturais de sua própria ascendência ilustre. Mas havia mais que isto. Durante os últimos dias, ele tinha começado a sentir que estava procurando duas versões diferentes de beleza, de verdade. Olhou para o rosto no mosaico, e pensou sobre o que Maclean acabara de dizer sobre os seguidores de Pelágio, sobre encontrar o homem Jesus. Muito da tradição cristã havia sido encoberta por arte de alta qualidade, criando imagens que eram impressionantes, remotas, inatingíveis. No entanto, havia outra verdade, uma mais grosseiramente moldada, talvez, mas não menos bela, com um poder elaborado através de sua intimidade com os próprios homens e mulheres, não com formas idealizadas. Estar ali neste dia, ver a Vila Getty e depois este lugar, havia ajudado Jack a cristalizar esses sentimentos, a avançar nesse mistério que parecia tornar-se mais complexo e fascinante à medida que eles o investigavam.

Jack saiu de seu devaneio, respirou profundamente, e olhou para o mosaico e a pintura novamente. - Venham - ele murmurou.

- O que é? - perguntou Costas.

- Deve estar aqui - disse Jack. - Se Everett deixou qualquer tipo de indício para nós, ele deve estar incrustado nestas imagens. Tenho certeza disso.

Jeremy caminhou para a parede pintada, e olhou para a imagem da grinalda que circundava o símbolo Qui-Rô. - Esta é uma cópia exata? - perguntou.

- Ele fez algumas mudanças - disse Maclean. - Aqueles folíolos são de nogueiras, as flores são orquídeas, de que ele gostava. Também acrescentou as letras gregas. Eu as comparei, depois que vim aqui pela primeira vez, com cada acróstico possível, mas não consegui nada. São puramente decorativas.

- Isso não parece ser algo que Everett faria - disse Jeremy

- Não, não parece, mas tentei de tudo.

Jeremy deu um passo atrás, e pareceu pensativo. - Qual é a cronologia deste lugar? - ele disse. - Quero dizer, você sabe quando ele fez esta decoração?

Maclean encolheu os ombros. - Pude conversar uma vez com a madre superiora, através de um intermediário. Ela era uma jovem iniciada quando Everett estava morrendo, cuidou dele em sua cabana durante seus meses finais. Aparentemente, ele já tinha completado esta parte do convento antes da Primeira Guerra Mundial, dois anos depois de chegar à América. Voltar para cá parece que lhe proporcionou um fervor adicional, redobrou sua convicção, como se ele tivesse que justificar a decisão que havia tomado de deixar sua família e sacrificar toda a sua vida anterior.

- Então ele fez a decoração mais tarde, depois da guerra?

- Já havia terminado os mosaicos, inclusive a palavra-quadrado na entrada. Mas a parede pintada ele a fez quando retornou da guerra. Quando a madre superiora era jovem, algumas das freiras mais velhas que estavam aqui desde jovens lembravam disso. Everett tinha voltado transformado, retraído e perturbado, com os pulmões permanentemente prejudicados. Ele virtualmente trancou-se nesta sala, durante meses a fio. Elas não faziam idéia do que ele tinha visto, o que havia experimentado. O sul da Califórnia ficava muito distante do inferno de Flandres. Para mim, a sua versão do Qui-Rô de Lullingstone é rígida, com uma superfície desigual e preta como carvão, como se o símbolo tivesse sido estragado pelo fogo. Ele me faz lembrar daquelas fotografias de cidades em preto e branco ao longo da frente de batalha ocidental, Ypres, Loos, Passchendaele, onde ele foi ferido; eram locais de total desolação, com apenas alguns fragmentos ainda em pé espalhados, como as imagens mais negras possíveis da colina do Gólgota, com as cruzes das crucificações vazias retorcidas e empenadas pelo fogo.

Jeremy foi novamente até a parede pintada, e passou o dedo pela grinalda.

- Contei cinqüenta e três letras no total, todas gregas - ele murmurou. - Sem ordem, sem racionalidade. Elas não parecem formar palavras, nem para frente nem de trás para diante.

- Eu lhe disse que já tentei esta forma - disse Maclean. - Não cheguei a coisa alguma. O único pedaço legível é formado por aquelas palavras Domine Ivimus no final, com a cruz em estilo armênio acima delas. Isto também não nos leva a lugar algum. Parece que é puramente decorativo.

- Era um matemático brilhante - murmurou Jeremy, parecendo absorto. -Ele também gostava de quebra-cabeças de palavras, de jogos de quebra-cabeça, como muitas pessoas com aquele tipo de mente. Você pode perceber isto naquela palavra-quadrado na porta. Depois ele vai para a guerra, retorna e faz esta pintura, acrescentando letras na sua versão da pintura romana original. O que lhe aconteceu? - Jeremy olhou atentamente para a parede, pressionando-a com uma mão e batendo de leve seus dedos, depois se voltou subitamente e olhou para Maclean. - Recorde-me. Em 1917. Ele volta para cá, para o convento, onde estamos agora?

Maclean assentiu, dando a impressão de que era impossível explicar. - Depois que a América entrou na guerra, depois que ele foi envolvido na decifração do telegrama de Zimmerman, ele e seu companheiro criptógrafo, William Montgomery vieram para a Califórnia, para este lugar.

- Como decifradores de códigos - disse Costas simplesmente.

- É isto mesmo. Eu entendi. - Jeremy correu até a mochila que tinha deixado perto da porta, e retirou um velho notebook. - Lembra-se disso, Jack? Estava lendo durante o vôo. Eu tinha um pressentimento de que poderia ser útil.

- Rapidamente fez o notebook funcionar, percorreu um arquivo e parou numa dada página. - Isto contém o código completo de Zimmerman - ele disse muito excitado. - Ouçam. Isto foi o que aconteceu para ele durante a guerra. O que Costas disse. Ele ficara com neurose de guerra, ferido, mas também se tornou um decifrador de códigos. Esta é a chave. Volta da guerra, e quer deixar um indício, assim como Cláudio fizera dois mil anos antes. Ele está imerso em códigos, ainda tinha o código de Zimmerman girando em sua cabeça. Talvez ele e Montgomery tenham planejado o indício nesta mesma sala quando a visitaram em 1917. Talvez o texto estivesse aqui, escondido em algum lugar da sala, e o levaram com eles quando voltaram para o estrangeiro. - Fez uma pausa, e olhou com atenção para a pintura. - Não acho que aquelas letras sejam simplesmente decorativas, ou um jogo de palavras. Acho que elas são um código.

- Continue falando - disse Jack.

- O código de Zimmerman era numérico, certo? - Jeremy buscou outra página no notebook. - Grupos de números que parecem palavras, dispostas no telegrama como sentenças. Isto era bastante óbvio. O problema era designar valores para os números. A descoberta importante estava naquele livro de códigos, comprado do agente do Oriente Médio.

- Você pode dar às letras gregas que estão aqui um equivalente numérico? -perguntou Costas.

- Isto seria um começo. - Jeremy revistou o bolso atrás de um lápis, procurou uma página nova no seu caderno de apontamentos e começou a copiar as letras da pintura à medida que elas apareciam no sentido do movimento dos ponteiros de um relógio, a partir de um intervalo no topo da grinalda, depois rascunhou embaixo os números de 1 a 22 ao longo deles. - Muito bem, eu consegui. - Os outros ficaram apinhados ao redor dele e ele segurou o notebook sob um feixe de luz. Puderam ver as letras gregas com sua transcrição numérica embaixo:


OP∑TYOXΩ0HZA0IKΩANAOIIBTY0ZHΩP∑TRBN

12 3 4 5 21 14 15 14 2 3 7 5 6 12 13 15 20 21 4 5 7 6 3 2 1 4 5 6 23 34 21 45 6 45 12 2


- Certo. Estamos em atividade! - Jeremy correu de novo até a mochila, e tirou um computador do tamanho de uma palma e ligou-o, agachando-se sobre um joelho enquanto os outros se aglomeravam em volta. - Quando eu me interessei pela primeira vez pelo código Zimmerman, ainda criança, eu resolvi pesquisar como a tecnologia moderna poderia ter ajudado a decifração - disse.

- Eu gosto cada vez mais de você, sabe, Jeremy - murmurou Costas.

- Everett teria amado isso. Mas ele teria visto que nenhum resultado mágico do computador pode substituir o cérebro humano. A decifração do código de Zimmereman depende de uma compreensão muito íntima do alemão que o criou, de sua percepção de mundo, de seu vocabulário.

Ele digitou um comando e apareceu uma página com seqüências numéricas, com palavras e sílabas ao lado delas. - O conceito é muito simples. Cada agrupamento de números é uma palavra, ou uma frase ou uma letra. O livro de código é usado quase como um índice. O problema é que os alemães não previram algumas das palavras de que iriam necessitar, de maneira que algumas palavras devem ser formadas a partir de componentes menores. Aqui vocês podem ver a palavra Arizona, formada com quatro diferentes agrupamentos de números, para AR, IZ, ON e A. Isto se refere à parte da carta em que os alemães iriam ajudar os mexicanos a reconquistar os estados do Sul, acreditem ou não. Eu acho que foi aqui que Everett entrou. Estava mais familiarizado do que qualquer outra pessoa na Sala 40 com a América, por ter vivido aqui durante vários anos antes da guerra. Ele pode ter sido quem sugeriu que deveriam procurar os nomes geográficos, nomes de lugares que poderiam não estar no livro de códigos. - Jeremy fez uma pausa, digitou de novo no teclado e sentou-se. - Muito bem. Vou fazer funcionar estes números. Isto pode levar um ou dois minutos.

- Ele estava se divertindo, não estava? - perguntou Costas.

- A que você se refere?

- Bem, todo este assunto era terrivelmente sério para ele, é claro, salvar o evangelho e deixar um indício, mas também estava se divertindo.

- Ele gostava de quebra-cabeças, jogos - replicou Jeremy. - Como você disse. Era um decifrador de códigos.

- Um pouco como Cláudio.

- As melhores caças ao tesouro são como um jogo de xadrez jogado com alguém no passado - disse Jack. - Eles estão do seu lado e também colocam pequenos sinais ou buracos contra você, para encorajá-lo a continuar, deixando indícios, mas também apreciando uma competição.

- Eu achava que você era um arqueólogo, não um caçador de tesouro, Jack - disse Costas, com um brilho no olhar. - Estou ficando preocupado com você.

- Bingo - disse Jeremy muito excitado. Seis palavras apareceram juntas na tela. - Funcionou. Seu velho patife. Fantástico.

- Bem eu vou ser condenado ao inferno - murmurou Jack.

- Está em alemão, é claro. -Ah.

- Jack, como está o seu alemão? - perguntou Jeremy, rabiscando as palavras no caderno de apontamentos.

- Enferrujado. - Jack fez uma pausa. - Ausgangwier. Acho que é igreja, embora o significado possa ser mais específico. Mas nós conhecemos um homem que pode ajudar. - Tirou o celular do bolso, abriu-o e digitou o número da linha de segurança da IMU. - Sandy, aqui é Jack. Por favor encontre Maurice Hiebermeyer e diga-lhe para me telefonar tão logo quanto possível. Obrigado. - Ficou segurando o telefone cheio de expectativa, e um momento depois ele soou. - Maurice! - Jack pegou a folha do caderno de apontamentos de Jeremy, e saiu para o exterior. Alguns momentos depois, ele voltou, ainda segurando o telefone aberto. - Li as palavras, e ele vai ponderar um pouco sobre elas e me chamar em seguida.

- Como está meu amigo? - perguntou Maclean.

- Ele está em uma pizzaria em Nápoles - replicou Jack. - Parece que houve uma mudança de opinião por lá. Ele realmente gosta daquele lugar. Quer dizer que quando de fato se deseja enganar a burocracia, é muito fácil. Tudo o que se deve fazer é aparecer na superintendência de manhã e atirar uma outra chave de fendas nas obras, depois é possível ir embora e relaxar pelo resto do dia. Só é necessário perder horas em salas de espera se quiser que as coisas sejam feitas. Ele disse que precisava de férias, e está em seu segundo circuito de pizzarias diante do ancoradouro. Maurice disse até que se for permitido entrar de novo no vestíbulo em Herculano, ele não vai mais se adaptar.

- Uma sugestão seria retornar para a sua última descoberta no deserto egípcio, aquela que ele ficou tentando nos contar durante muito tempo - disse Costas. - Espaços enormes e abertos, nada de corredores estreitos, mais espaço de manobra. Você se importaria de juntar-se a ele? Finalmente?

- Não. Ele nem sequer mencionou isto. Sua boca estava cheia. - O telefone soou, e Jack correu para fora novamente. Voltou um momento mais tarde, guardando o celular no bolso, olhando para o caderno de apontamentos. - Aqui está. - Pigarreou, e leu lentamente: - "A palavra de Jesus encontra-se na Sala Sagrada."

A palavra de Jesus encontra-se na Sala Sagrada. Fez-se silêncio durante um momento, e todos eles olharam para a pintura sobre a parede.

- A palavra de Jesus - disse Costas. - Certamente isso significa o evangelho, aquilo que estamos buscando.

- Pode ser - murmurou Jack.

- E a sala sagrada. Deve ser esta sala. Está nos dizendo que o evangelho está em algum lugar nesta sala!

- Ou ele está nos dizendo que esta é uma sala sagrada. Nada mais.

- Não há ninguém como você para ser pessimista, Jack.

- Isto não acrescenta nada. - Jack olhou ao redor para o interior austero, e de volta para a pintura. - Podia tê-lo escondido aqui. Mas isso é demasiado óbvio. Devia saber que qualquer um que ficasse parado aqui, qualquer um que conseguisse decifrar aquelas letras gregas, deveria conhecer sua vida, seus antecedentes. Há algo mais aqui, alguma coisa que nós não encontramos. Está faltando uma parte grande.

- 1917 - Jeremy murmurou. - Este é o ano chave.

- Eu não posso ver qual outra informação podemos tirar daqui - disse Jack.

- Everett permaneceu aqui depois que Montgomery foi embora? - perguntou Costas.

Maclean ergueu o olhar distraído. - Hein?

- 1917. Everett e Montgomery vieram para cá. A guerra ainda continuava. Então Everett permaneceu nos Estados Unidos?

- Ah, sim. Eu esqueci de dizer. - Maclean pigarreou. - Depois daquela conferência em Londres, onde encontrei Maurice, passei alguns dias nos Arquivos de Documentos Nacionais em Kew. Para meu espanto, encontrei um arquivo de sua correspondência pessoal, especialmente relativa aos seus ferimentos, relatórios médicos, informações de avaliações médicas, um material que o serviço secreto não conseguia classificar porque eram documentos oficiais de rotina, não relacionados com as atividades do serviço de inteligência. O que eles esqueceram é que os relatórios médicos avaliavam a aptidão para o cargo e especificavam para onde um soldado está sendo transferido. Confirmou-se que ele já tinha sido designado para a sua próxima transferência antes da viagem para a América. O exército britânico percebeu que eles precisavam de peritos em decifração para permanecer em terra; idealmente seriam oficiais com experiência de campo que pudessem operar no corpo do exército ou na divisão de pessoal. Everett se tornou um oficial criptógrafo nas forças britânicas do Oriente Médio, na outra linha de frente britânica da Primeira Guerra Mundial, no combate contra o Império Otomano. Acompanhou o general Allenby na libertação de Jerusalém.

Jack subitamente ficou silencioso. Deixou o lápis cair, e ergueu o olhar para Maclean. - Repita isso.

- Everett esteve em Jerusalém. Nós só temos o retrato esmaecido dele como um homem idoso, mas acredito que você possa distingui-lo naquela famosa fotografia de Allenby e sua equipe desarmada, caminhando através do Portão de Jaffa em 11 de dezembro de 1917. Ele é um dos oficiais atrás de T. E. Lawrence, Lawrence da Arábia. Sabemos que eles andaram pela Cidade Velha, para a Igreja do Santo Sepulcro, onde rezaram na praça. Os documentos mostram que Everett permaneceu em Jerusalém como oficial do serviço de inteligência com as forças britânicas de ocupação até o fim da guerra. Eles tinham muito tempo livre depois da derrota turca, e isso explica como ele esboçou um tratado sobre a arquitetura do Santo Sepulcro, aquele manuscrito sobre o qual lhe falei que encontrei em seus documentos no arquivo da Vila Getty e sobre o qual tenho trabalhado. De¬pois da desmobilização, ele voltou para a América e passou o resto de sua vida aqui neste convento. Seus pulmões ficaram tão danificados no ataque com gás em 1915 que no final da vida ele se tornou um inválido.

Jack ainda estava de costas para eles, e olhava para a pintura. - Bem eu serei condenado ao inferno - ele sussurrou.

- Esta frase comumente significa alguma coisa - disse Costas.

- Eu sei exatamente onde Everett enterrou seu tesouro. - Ele se ergueu rapidamente e se virou com um amplo sorriso no rosto. - Não em uma sala sagrada. Maurice nos deu uma tradução literal. Não havia motivo para ele fazer de outra maneira. Mas o meu alemão não está tão enferrujado. Eu sabia que aquela palavra era familiar, por causa da última vez que estive em Jerusalém. Ela é a palavra alemã para Santo Sepulcro.

Ouviu-se um suspiro coletivo. Jack sentiu uma enorme descarga de adrenalina, como se todos os becos sem saída parecessem juntar-se novamente e apontar em uma única direção. Pegou o celular de novo e digitou o número da linha direta da IMU. - Sandy? É Jack de novo. Quanto tempo leva para você nos conseguir, o mais rapidamente possível, três passagens aéreas para Tel Aviv?

Maclean gesticulou e apontou para si.

- Consiga quatro passagens - disse Jack, depois ficou escutando por um momento, respondeu rapidamente e desligou o telefone. - Podemos começar a nos dirigir para o aeroporto agora. - Ele se voltou para a parede, colocou sua mão sobre ela e sacudiu a cabeça. - A história simplesmente nunca para, não é? Nós temos seguido uma pista deixada para nós dois mil anos atrás, e agora estamos em outra pista. E esse sujeito era tão inteligente quanto o velho Cláudio.




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