O último Evangelho David Gibbins



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CAPÍTULO 19
Jack estava se esforçando para recuperar a consciência e percebeu a vibração do avião, onde estava encostado contra o vidro da janela. Imagens tinham circulado por sua mente, sensações e lembranças de suas extraordinárias descobertas dos últimos dias. O símbolo Qui-Rô no antigo navio naufragado, o nome rabiscado de são Paulo. A cabeça escura de Anúbis olhando de soslaio para o túnel como um demônio, convidando-os a entrar na câmara que se encontrava atrás dele. Outros lugares escuros, a gruta da Sibila, o labirinto subterrâneo em Roma, a cabeça escurecida da rainha britânica morta havia muito tempo, olhando para ele de sua tumba. Imagens ao mesmo tempo vívidas e opacas, desarticuladas, mas de algum modo mantidas juntas, imagens que retornavam repetidas vezes, como se ele estivesse preso em um movimento circular contínuo. Sentiu-se como Enéias no mundo subterrâneo, embora sem a Sibila para guiá-lo de volta, apenas com alguma força maligna que o empurrava para baixo enquanto ele lutava para encontrar a luz, prendendo-o em uma armadilha dentro de um labirinto escuro de seu próprio imaginário. Ele se sentiu perturbado, confuso, e foi um alívio abrir os olhos e ver a figura confortadora de Costas inclinada no assento oposto. Percebeu que a sensação de opressão em sua cabeça tinha sido aumentada pela pressão do ar durante a descida, e expirou pelo nariz para equalizá-la. O ruído que o avião da Embraer fazia com seus dois motores a jato varreu as imagens de sua mente. Jack inclinou-se para frente e olhou pela janela.

- Algum sonho ruim? - Jeremy estava na mesma ala, sentado ao seu lado, e fechou o velho notebook onde estivera estudando.

Jack resmungou. - É como se os ingredientes estivessem aqui, mas não estamos obtendo um resultado. Esta viagem é tudo ou nada. Se não chegarmos a nada hoje, eu fico sem opções. - Respirou profundamente, acalmou-se, depois olhou com curiosidade para o livro de Jeremy. - É sobre criptografia?

- Esta é uma das minhas paixões do tempo de criança. Eu examinava todos os códigos quebrados pelos aliados durante a Primeira Guerra Mundial. Estava apenas tentando recuperar minha rapidez. Estava olhando para alguns acrósticos cristãos iniciais que eram criptografias. Percebi que é difícil ser muito hábil neste jogo.

- Parece - disse Jack coçando a barba curta - que você tem as qualidades essenciais de um arqueólogo. Maria tinha razão. Talvez eu deva desistir agora e deixar tudo isto em suas mãos.

- Talvez dentro de vinte anos - replicou Jeremy pensativo, depois sorriu para Jack. - Isto me daria tempo de passar na seleção para as forças especiais, para aprender tudo que é necessário saber para mergulhar, sobre armas e helicópteros, saber o nome de alguns, vencer todo medo e, mais importante ainda, descobrir como lidar com o seu estimado colega sentado na nossa frente.

Costas gemeu e roncou em seu sono, e Jack riu. - Ninguém lida com ele. Ele é o chefão por aqui.

- O problema é que, num período de vinte anos, todos os mistérios do mundo estarão resolvidos.

- Nisso você está errado - disse Jack com fervor. - Se há alguma coisa que eu aprendi, é que o passado é como era o Novo Mundo para os colonizadores. Você acha que já encontrou tudo, depois vira uma esquina e um novo El Dorado aparece no horizonte. E olhe onde estamos hoje. Os maiores mistérios podem sempre estar aí, chamando-nos com um gesto, e nunca conseguirmos resolvê-los.

- Todas as coisas deixadas incompletas se reúnem, a virtude é recompensada - murmurou Jeremy. - Ninguém quer um final convencional.

- E você não encontrará um final comigo - sorriu Jack. - Outra coisa que eu aprendi é que o tesouro encontrado raramente é aquele que se estava procurando.

- Aqui está. - A aeronave inclinou-se e fez uma curva fechada a bombordo, e Jeremy apontou para o contorno da costa cerca de dez mil pés abaixo. - Pedi para o piloto nos conduzir para entrarmos em Los Angeles pelo norte, para termos uma visão de Malibu. É uma vista bastante espetacular.

- Praias - murmurou Costas. - Dá para surfar bem? - Ele dormira a viagem inteira desde o aeroporto John E Kennedy em Nova York, e antes disso, durante a maior parte da viagem transatlântica de Londres. Parecia ter acabado de sair de um estado de hibernação, e inclinou a testa contra o vidro da janela enquanto olhava com olhos lacrimejantes para baixo.

- Nada mal - replicou Jeremy. - Não que eu conheça as praias, é claro. Quando estive aqui, fiquei trabalhando em minha tese.

- Certo. - Costas ainda soava como se estivesse com o nariz obstruído, mas o pior de seu resfriado parecia ter passado. - Estou olhando para frente a fim de descobrir o que estamos fazendo aqui, Jeremy, mas não estou reclamando.

- Contei toda a história a Jack enquanto você estava morto para o mundo. Encontrei John Everett no registro de mortos do estado da Califórnia. Mesma data e local de nascimento, não há dúvida sobre a identidade. Ele vivia ao norte daqui, em Santa Paula, onde chegou aqui depois de deixar a Inglaterra. Por causa de um pressentimento, telefonei para um amigo em Vila Getty E acontece que ele pode nos contar mais, muito mais. Para começar, Everett era católico romano, um convertido.

- Hein? - Costas esfregou os olhos. - Pensei que tudo isto fosse sobre a Igreja da Grã-Bretanha, sobre algo tão distante de Roma quanto possível.

- É isto que espero que esta viagem esclareça para nós.

- Então, não estamos indo surfar?

- A pista está aquecida novamente, Costas - disse Jack.

- Vocês podem vê-la agora - disse Jeremy. - A Vila Getty. Ela está situada na fenda, lá nas colinas, contemplando o mar das alturas.

Jack examinou com cuidado o agrupamento de construções visíveis exatamente em frente à rodovia costeira. Subitamente, foi como se tivesse voltado para Herculano, olhando para o plano da Vila dos Papiros feito por Karl Weber mais de dois séculos antes. Podia ver o grande pátio rodeado por colunas, estendendo-se em direção ao mar, com a parte principal da estrutura da vila aninhada ao fundo, na parte de trás do vale.

- A única coisa que é bastante diferente é o alinhamento - disse Jeremy. - A vila em Herculano fica paralela à linha da costa, com o pátio e as construções muito próximas à frente do mar. Tirando isso, a Vila Getty segue fielmente o plano de Weber. É uma criação fantástica, o tipo de coisa que só se torna possível com a filantropia americana, com visão livre e uma riqueza ilimitada. Ele é também um dos museus de melhor qualidade em todo o mundo no que diz respeito a antiguidades, e é o local onde consegui escrever o melhor de meus trabalhos. O que quer que seja que nos aguarda lá embaixo, vocês estão aqui como convidados.
Três horas mais tarde, estavam parados ao lado de uma piscina retangular pouco luminosa no pátio principal da Vila Getty. Tinham entrado, sem serem parados, por uma porta pequena na extremidade oeste, e agora estavam parados imóveis como as estátuas que enfeitavam o jardim, transpirando muito sob a luz solar e a luminosidade da cena. Era como se tivessem entrado em um cenário para filmar um épico romano, além do mais com uma familiaridade e detalhes raramente vistos nos amplos panoramas da história. A piscina media aproximadamente cem metros de comprimento, estendendo-se do pórtico frontal da vila para o lado que dava para o mar onde eles tinham caminhado vindos da rodovia costeira. Em cada extremidade da piscina havia reproduções de antigos bronzes encontrados na vila em Herculano, um Sileno embriagado e um fauno adormecido, e oposto a eles havia um Hermes sentado, tão semelhante à realidade que parecia prestes a entrar na piscina a qualquer momento. Entre a piscina e as colunas do pórtico que rodeavam o pátio havia árvores e canteiros de plantas que faziam com que o mármore parecesse ser saliências naturais do leito rochoso, rodeado e protegido pela vegetação. O jardim inteiro era uma extensão ordenada do mundo exterior, isolado e protegido pelo engenho humano. A piscina refletia as colunas e as árvores, criando uma cena ilusória como as pinturas nas paredes que eles quase podiam distinguir no interior do pórtico, como se estivessem sendo puxados além do jardim para outras criações fantasiosas da mente humana, e não para a realidade desordenada do exterior. Jack se lembrou da parede pintada do Vesúvio que havia mostrado para Costas quando voaram em direção ao vulcão, uma imagem que resumia todos os sonhos idílicos da antiga Roma, um resplendor débil por cima da realidade que fez voar pelos ares e destruiu completamente o caminho naquele dia fatal quase dois mil anos antes.

- Tudo é autêntico - disse Jeremy. - O plano da vila está baseado no documento original de Weber da vila que ele viu nos túneis no século XVIII, e as estátuas são reproduções exatas dos originais que foram encontrados naquela época. Até a vegetação é autêntica, há romãzeiras, loureiros, palmeiras em forma de leque trazidas do Mediterrâneo.

Jack fechou os olhos, depois os abriu novamente. As colinas da Califórnia tinham o mesmo aspecto, uma beleza queimada pelo sol que ele amava no Mediterrâneo, e o aroma das ervas e do mar que chegavam até ele. A vila não era uma interpretação do passado, mas uma perfeita representação daquele passado, repleta de luz e sombra, animada por pessoas gesticulando e respirando. Poucas outras reconstruções históricas fizeram isso por ele, e aqui ele se sentia bem. Quando olhava para a vila, colorida e precisa, em sua mente ele via as construções escavadas de Herculano movendo-se repetidamente em segundo plano como um negativo fotográfico. Surpreendeu-se lembrando-se dos tempos em que tinha testemunhado a morte, o momento de transição quando o corpo subitamente se torna uma casca, quando a cor se torna cinza. Depois da visão daquela transição, Herculano ficou muito opressiva para confortá-lo, mais difícil de observar do que outros lugares que tinham deteriorado e se tornado encobertos pelo tempo como velhos esqueletos. Era o cadáver destruído de uma cidade, ainda cheirando desagradavelmente e cheia de lodo, como uma vítima queimada depois de um terrível acidente. No entanto, aqui na Vila Getty parecia que alguém havia injetado uma grande quantidade de adrenalina dentro do cadáver, como se o antigo lugar tivesse se recuperado milagrosamente, estivesse pulsando novamente e sobressaindo-se com uma clareza deslumbrante.

- Somente na América pode existir algo assim - disse Costas. - Acho que pelo fato de Hollywood estar distante apenas poucas milhas da costa, isto é o que se deve esperar.

- Quando a vila foi inaugurada em 1974, a reação foi de assombro - disse Jeremy. - Muitos a criticaram acerbamente. Os romanos algumas vezes recebem comentários muito ruins da imprensa por aqui. Na vila há influência da Bíblia e Hollywood, do universo de Pôncio Pilatos, imperadores devassos, que atiravam os cristãos aos leões. Quando a vila foi aberta, foi uma revelação. A cor, o brilho, o gosto. Alguns eruditos se recusaram a acreditar no que viam.

- Este lugar se refere totalmente à arte no seu conjunto - disse Jack. - Colocar a arte de volta onde ela deve estar para ser vista é com freqüência um choque para a sensibilidade moderna. Os aristocratas europeus que pilharam a Grécia e Roma achavam que estavam fazendo isso, conseguindo estátuas para pôr em pedestais em suas casas de campo de estilo neoclássico, mas a idéia que tinham de contexto clássico estava mais baseada nas ruínas embranquecidas da Grécia que na realidade de Pompéia e Herculano. Aqui se trata da coisa real, com obras como estes bronzes vistas como componentes de um todo mais amplo. Com a vila sendo em si mesma uma obra de arte. Os estudiosos clássicos durante muito tempo veneravam estas coisas como obras de arte no sentido moderno. O que os críticos não apreciaram é que a vila fazia com que eles parecessem frívolos, a coisa toda era mais excêntrica e divertida que aquilo que esperavam. Mas é com isto que ela realmente se parecia.

- E é isto que gosto nela. - Costas agachou-se com uma moeda presa na curvatura do dedo e avaliou o comprimento da piscina. - Se os romanos podiam se divertir, eu também posso. - Jack lhe lançou um olhar de advertência quando um homem apareceu pela entrada do pórtico e caminhou animadamente ao lado da piscina em direção a eles. Era de altura média, e usava uma barba curta. Ergueu a mão para cumprimentar Jeremy, que fez um gesto em direção a Jack e Costas.

- Permitam-me apresentar-lhes George Maclean - disse Jeremy. - É um velho amigo, meu mentor quando eu estive aqui. Está trabalhando temporariamente na Brigham Young University. Permanentemente, parece.

Costas e Jack trocaram apertos de mão com ele. - Obrigado por nos receber tão rapidamente - disse Jack calorosamente. - Sua permanência aqui tem algo a ver com o projeto dos papiros de Herculano desenvolvido pela universidade?

- Foi por isso que vim para cá - disse Maclean. - Sou um especialista em Filodemo, e a espectrometria de infravermelho nos antigos manuscritos estava me submergindo com o novo material. Preciso de um espaço para respirar, algum lugar onde possa colocar tudo em perspectiva.

- E nada melhor do que a própria Vila dos Papiros. - Jack sorriu e fez um gesto mostrando ao redor. - Sinto inveja. - qualquer momento em que desejar passar um ano sabático aqui, faça-me saber - Maclean sorriu. - A sua reputação o precede.

Jack sorriu. - Fico agradecido. - Olhou para Jeremy. - Talvez dentro de mais ou menos vinte anos.

- Eu sei que vocês também se beneficiam de uma fundação particular na IMU - disse Maclean.

- Você conhece Efram Jacobovich, nosso benfeitor?

- Ele também é membro do nosso conselho de curadores.

- Sei que ele se ofereceu para financiar inteiramente a escavação da Vila dos Papiros - disse Jack.

- Ele não é o único. Há uma fila de filantropos batendo à porta.

- Batendo suas cabeças contra uma parede de tijolos, você quer dizer - comentou Costas.

- Com um pouco de sorte - disse Jack para Maclean -, você pode nos ajudar a derrubar aquela parede.

Maclean olhou com atenção para Jack, os olhos se estreitando, depois assentiu com um gesto de cabeça. - Entendi, pelo que disse Jeremy, que vocês estão com um horário apertado. Sigam-me.

Ele os conduziu ao longo de uma lateral do pátio rodeado por colunas, em seguida em direção ao pórtico oeste da vila, passando pelas portas de bronze abertas que serviam de entrada para o museu. Subiram um lance de escadas de mármore para o andar superior, e chegaram a um segundo pátio interior, outro lugar perfumado e colorido, verdejante e ressoando com os esguichos e a espuma efervescente das fontes. Debaixo do telhado coberto com telhas, fileiras de colunas desciam para rodear um jardim distribuído proporcionalmente da maneira romana, com estátuas de bronze de cinco donzelas no centro parecendo extrair água de uma poça. Novamente Jack sentiu a proximidade extraordinária do passado. O que quer que ele ainda obtivesse neste dia, esta vila romana na Califórnia tinha sido um revelação inesperada, uma nova imagem vívida do mundo antigo.

Costas parou perto da balaustrada, e abaixou a cabeça. - A menos que eu esteja enganado, era para cá que o velho Anúbis deveria vir.

Maclean olhou para baixo. - Jeremy contou-me sobre isso. É um achado incrível. Talvez acrescente um aspecto ligeiramente mais negro a este local, embora ele possa simplesmente ter sido uma curiosidade recuperada por Calpúrnio Piso de um negociante na Grécia ou em Alexandria. Pessoalmente, o meu voto é para Sais, no delta do Nilo, onde Heródoto descreve a existência de uma galeria inteira com este tipo de coisas. Se vocês algum dia retornarem para a vila e puderem fazer um escaneamento a laser, isto seria uma magnífica retribuição. Fazemos questão de autenticidade aqui.

- Vou conseguir que o nosso colega Maurice Hiebermeyer venha para cá.

- Ah! Bom velho Maurice.

- Você o conhece? - Perguntou Jack

- Eu o encontrei cerca de três meses atrás, em uma conferência. Estava todo excitado com uma descoberta ao lado do mar Vermelho, mas não queria falar muito no assunto. Estava indo contar-lhe acerca disso. Você estava em Istambul, eu acho.

Jack lançou para Costas um olhar culpado. - Este é o nosso próximo projeto. Depois do papiro sobre a Atlântida, qualquer coisa que Maurice descubra, estamos dentro. Enquanto isso, ele está afundado até o pescoço dentro da burocracia italiana.

- Esse é outro dos prazeres de estar aqui - disse Maclean. - Você obtém todas as glórias do passado, mas nenhum dos impedimentos que a moderna arqueologia encontra.

- Espero intensamente que isto continue assim - disse Jack, olhando para o pátio. Estreitou os olhos, e falou de memória. - "Jardins encantadores e fileiras de colunas requintadas e tanques de lírios rodeando-as, espalhando-se tão distantes quanto os olhos em êxtase podiam alcançar" - ele murmurou. - A palavra de Herodes Agripa, rei da Judéia, em uma carta para sua esposa Cipros. Sempre vou me lembrar daquela descrição, pois eu a traduzi pela primeira vez das histórias de Tácito quando era estudante. Sempre se pensou que Herodes era um anticristão, o homem que ordenou a execução de Jesus, mas para mim aquelas palavras poderiam estar descrevendo uma antiga imagem do céu.

- Herodes Agripa, o amigo de Cláudio? - perguntou Costas.

- É ele mesmo.

Costas examinou o pátio cuidadosamente. - Então, se esta é a vila onde Cláudio terminou os seus dias, ele não abandonou completamente uma vida de prazeres - ele disse.

- Ele tinha esta vila para olhar, é claro, mas acho que Cláudio se importava muito pouco com ela - replicou Jack. - Contanto que tivesse seus livros e as estátuas de seus amados pai e irmão, provavelmente ficaria contente em levar uma vida miserável em uma caverna com cheiro forte e desagradável no monte Vesúvio.

- Cláudio? - perguntou Maclean, confuso. - Qual Cláudio?

- O imperador romano Cláudio.

- Jeremy não mencionou nenhum imperador. - Maclean fez uma pausa, e depois olhou para Jack de modo gozador. - Acho que vocês têm algumas explicações a dar.

- Nós temos - Jack sorriu. - Conduza-nos.

Maclean os dirigiu alguns passos adiante para uma sala nos fundos do pórtico. Abriu a porta, introduziu-os e fez um gesto em direção à mesa de mármore no centro. - Pedi café e mais algumas coisas. Estão com fome?

- Pode apostar. - Costas se lançou sobre um prato de croissants e Maclean verteu o café. Depois de alguns momentos, fez um gesto para três lugares ao redor da mesa, caminhou ao redor dela até o outro lado com a sua xícara de café e sentou-se.

- Muito bem. - Jack sentou-se na cadeira do meio, e inclinou-se adiante. -Você sabe por que estamos aqui.

- Como eu disse, Jeremy me pôs a par. Ou, pelo menos, acho que ele o fez. - Maclean girou em sua cadeira a fim de olhar para Jack, depois tomou um gole de café e colocou a xícara sobre a mesa. - Quando Jeremy conseguiu sua bolsa de estudos aqui, nós trabalhamos intimamente ligados, e quando me telefonou ontem, ele descobriu que tenho interesse em John Everett. Eu sempre mantive isto reservado, mas é claro que lhe contei quando ele perguntou. É incrível. Pensei que eu fosse o único, mas houve uma outra inquirição esta manhã.

Jack pareceu alarmado. - Quem?

- Um endereço anônimo de correio eletrônico.

- Você respondeu?
- Depois de minha conversa com Jeremy, achei mais prudente alegar ignorância. Mas percebi que era alguém que não queria ir embora. Verifiquei as re-servas de entradas para o museu feitas on-line, e alguém, com o mesmo endereço anônimo, reservou uma entrada para amanhã.

- Poderia ser uma coincidência - murmurou Jeremy. - Não posso imaginar como eles ficaram sabendo.

- Quem ficou sabendo? Com quem você conversou sobre isto? - perguntou Maclean.

Jeremy ficou silencioso por um momento, olhou para Jack e depois de novo para o outro lado da mesa. - Eu não lhe contei tudo. Disse que nós achamos que Everett tinha algo extraordinário para esconder, um manuscrito cristão dos primeiros tempos. Esta é a peça-chave. Vamos ouvir o que você tem a dizer, e depois direi o resto.

Maclean parecia perplexo. - Eu não tenho motivos para ser discreto. Meu conhecimento, as coisas aqui estão disponíveis para todos. Este é o caráter fundador distintivo do museu.

- Infelizmente, isto seguiu um caminho que ultrapassa a erudição - disse Jack. - Há muito mais coisas em jogo aqui. Vamos ouvir tudo o que você sabe, depois o poremos a par rapidamente antes de deixarmos esta sala.

Maclean pegou uma caixa de documentos. - Concordo. Não tenho certeza para que lugar vocês estão se dirigindo com isto, mas posso lhes dar uma biografia romanceada.

- Diga-nos.

- O motivo pelo qual sei acerca de Everett é que ele se correspondia com J. Paul Getty, o fundador do museu. As freiras que cuidavam de Everett no final de sua doença encontraram o papel timbrado de Getty entre seus pertences, e alguns desenhos de arquitetura. Elas pensaram que isso poderia nos interessar. Eu os encontrei por acaso quando estava pesquisando o início da história da Vila Getty, e achei que eles poderiam ter alguma relação com o interesse da família de Getty por antiguidades. - Abriu a caixa de documentos e espalhou um punhado de papéis, páginas amarelecidas cobertas com palavras e figuras feitas por uma mão cuidadosa e precisa, e uma página com um plano descartado de uma estrutura absidal. - Everett estava fascinado com os problemas matemáticos, o jogo de xadrez, as palavras cruzadas. Há uma grande quantidade deste tipo de material, muito dele em um estilo que desconheço. Mas, antes que viesse para a América, ele tinha sido arquiteto, e há um manuscrito inacabado no qual tenho estado colocando notas explicativas para publicá-lo. Estava interessado na arquitetura das primeiras igrejas, nas primeiras evidências arqueológicas para lugares de culto cristão.

- Fascinante - murmurou Jack. - Mas por que entrar em contato com Getty?

- Os dois homens tinham uma quantidade surpreendente de coisas em comum - disse Maclean. - Getty tinha estudado em Oxford, Everett em Cambridge. Getty era um anglofilo apaixonado, e ficara contente em descobrir um espírito afim na Califórnia. E os dois homens haviam desistido de suas carreiras profissionais, Getty para ser um playboy milionário em Los Angeles, Everett para ser um católico asceta. Parece que entre eles existe um mundo de diferenças, mas sua correspondência mostra que ambos se liberaram mais ou menos da mesma maneira. E há um motivo mais particular.

- Continue.

- Getty estivera em Pompéia e Herculano antes da Primeira Guerra Mundial, havia visitado o sítio da Vila dos Papiros, e ficara fascinado por ela. Então, no final dos anos 1930, Everett ouviu falar sobre uma nova descoberta extraordinária em Herculano, e quis a opinião de Getty sobre ela. Everett ficou realmente intrigado por ela, a ponto de ficar obcecado.

- A Casa do Bicentenário? - perguntou Jack.

- Você adivinhou.

Jack se voltou para Costas. - Eu a mostrei para você na nossa rápida viagem para Herculano, quando chegamos ao local na semana passada.

- Um outro buraco negro, receio - disse Costas pesaroso. - Acho que eu ainda estava adormecido.

- Bicentenário refere-se ao aniversário de duzentos anos da descoberta de Herculano, em 1738 - disse Maclean. - A escavação foi uma das poucas que ocorreram, em qualquer escala, desde o século XVIII. O ditador italiano Mussolini estava por trás disso, fazia parte da sua busca por todas as coisas romanas. No entanto, parece ter havido resistência da Igreja aos seus planos de escavação mais grandiosos e o projeto de Herculano foi quase natimorto.

- Por que isto não me surpreende? - murmurou Costas.

- Eles descobriram uma sala que chamaram de capela cristã - continuou Maclean. - Deram-lhe esse nome porque encontraram a inserção da forma de uma cruz no gesso acima de um gabinete de madeira, como um recinto de prece. Em uma casa próxima eles encontraram o nome David rabiscado em uma parede. Nomes hebraicos não são incomuns em Pompéia e Herculano, mas em geral eles são latinizados. Pensava-se que Jesus era descendente do rei David dos judeus, e alguns acham que esta era uma maneira secreta de se referir a ele, antes que se começasse a usar a palavra grega para designar o messias, Christos. - Maclean fez uma pausa e pareceu pensativo. - Esses achados eram muito controver¬sos, e um número bastante grande de estudiosos ainda não aceita a interpretação, mas esta pode ser a evidência arqueológica mais antiga, em qualquer lugar, de um local para o culto cristão.

- Apenas poucas centenas de metros afastado da Vila dos Papiros - murmurou Jack. - Eu me pergunto se Everett teve algum pressentimento, se ele sabia quão próximo se encontrava da fonte daquilo que possuía?

- Do que vocês estão falando? - perguntou Maclean.

- Primeiro, vamos terminar a história de Everett - disse Jack. - Você sabe algo mais sobre ele?

Maclean empurrou uma folha que estava sobre a mesa. - O interesse de Everett pode ter sido um fator de apoio para a contínua fascinação de Getty com Herculano e pode até ter ajudado a estimular a criação desta vila. Mas, depois de sua breve correspondência, Everett deslizou de volta para a obscuridade. Esta é a única imagem que temos dele, uma antiga fotocópia de uma fotografia tirada por sua filha. Ela conseguiu descobrir o seu paradeiro e o visitou em 1955, um ano antes de sua morte. Eu a encontrei, e consegui esta fotocópia.

Jack olhou atentamente para a imagem granulada em preto e branco, quase esmaecida. No centro havia um homem idoso, bem-vestido, apoiado em ben¬galas, mas parado em pé com dignidade, seu rosto virtualmente indiscernível. Atrás dele havia uma cabana de metal ondulado, enfeitada com grinaldas de hera e rodeada por uma vegetação luxuriante.

- Esta foto foi tirada do lado de fora do convento de freiras, ao lado da cabana onde ele morava havia mais de trinta anos - continuou Maclean. - As freiras preocupavam-se com ele, cuidaram dele quando ele ficou muito doente para subsistir sozinho. Como retribuição ele cuidava de seus jardins, fazia trabalhos ocasionais. Tinha sido professor de coral em sua juventude, e cantava música gregoriana para elas. Ele abrigava mendigos, pessoas fisicamente debilitadas, alimentava-as e as vestia, sustentava-as em sua cabana, toda essa coisa de caridade cristã.

- Isto soa um pouco messiânico para mim - murmurou Jack.

- Não acho que ele tinha qualquer ilusão acerca disso - replicou Maclean. -Mas a Califórnia, em seus dias, era o mundo de Steinbeck, de Cannery Row e Tortilla Fiat, havia toda uma subcultura à margem da sociedade. E eram aqueles com os quais ele se sentia mais à vontade, exilados, andarilhos, pessoas que tinham abandonado seus próprios antecedentes e sua educação, como ele próprio. - Fez uma pau¬sa, e depois falou em voz baixa. - O que vocês sabem sobre os adeptos de Pelágio?

- Sabemos que de alguma forma Everett estava envolvido com eles.

- Ótimo. Isto me poupa um bocado de explicações - replicou Maclean, relaxando visivelmente. - Há uma estranha conexão entre o pelagianismo e o catolicismo romano. Dois opostos exatos. Em uma de suas cartas, ele revela suas crenças em Pelágio, algo sobre o que ele claramente desejava falar, e isto explica bastante acerca de onde estamos indo nesta tarde. Era como se ele estivesse vivendo uma vida dupla, um católico asceta e devoto por um lado, e, por outro, quase o maior herético radical que vocês possam imaginar, do ponto de vista da Santa Sé.

- Quando aquela carta foi escrita? - perguntou Jack.

- Por volta da Segunda Guerra Mundial. Já estava bastante doente nessa época, divagando um pouco, e não houve mais correspondência.

- Isso explica a coisa - murmurou Jack. - Não acho que ele teria arriscado revelar isso antes dessa época. - Respirou profundamente. - Muito bem. O que você sabe sobre as suas origens?

- É uma história surpreendente. Ele nasceu em Londres, em Lawrence Lane, onde a família viveu durante gerações. Eles eram huguenotes, e o seu pai era um arquiteto proeminente. Ele cursou o Pembroke College, Cambridge, onde se graduou como wrangler, a mais alta distinção em matemática oferecida por Cambridge. Um dos seus tutores foi o filósofo Bertrand Russel. Ofereceram-lhe um cargo como membro da universidade, mas ele declinou, tendo prometido para seu pai que faria sociedade com ele. Viveu dez anos prósperos como arquiteto, irrepreensíveis, casou-se, teve três filhos, depois seu pai morreu e subitamente ele abandonou tudo, família, profissão e desapareceu na América.

- Ele deu alguma explicação? - perguntou Costas.

- Everett se converteu ao catolicismo romano e tornou-se um religioso devotado. O pai de sua mulher era violentamente anti-católico. O pai lhe deu um ultimato, depois livrou-se dele. Foi simples assim. A educação das crianças foi paga por seu avô, com a condição de que nunca mais tivessem contato com seu pai. Uma história triste, porém não única, dada a antipatia que existia entre protestantes e católicos mesmo na era vitoriana.

- Mas nós sabemos qual foi a razão pela qual ele abandonou tudo - murmurou Jeremy. - A morte de seu pai, o testamento, sua súbita responsabilidade pelo valioso objeto que era uma herança tradicional da família. A questão é por que ele veio para cá, e o que ele fez com aquele objeto.

- Eu não entendo a conexão católica - disse Costas. - Se ele tinha aquilo que estamos procurando, então certamente a grande atração pela América teria sido todos os movimentos não conformistas, pessoas que teriam escutado avidamente algo como aquilo que estava com ele, algo que parecia vir diretamente do Cristo.

- Foi precisamente por causa disso que ele se converteu - disse Jeremy. - Não haveria lugar melhor para desaparecer de que dentro dos meandros da Igreja Católica, o lugar menos provável. Precisava ser cuidadoso, escolher o lugar e o momento para revelar o que tinha, encontrar alguma maneira de passar adiante o segredo. E ele já era anglicano, anglo-católico, de modo que não tinha muito mais práticas religiosas para levar em conta. Aqui, no seu vale remoto perto de Santa Paula, ele estava bastante distante do papa e do Vaticano para ignorar tudo isso durante bastante tempo.

- Ele chegou primeiro a Nova York em 1912, assumiu a cidadania americana, depois foi para o oeste - disse Maclean. - De acordo com o que me contou Jeremy, eu agora acredito que o que ele fez precisou de enorme força de vontade, uma decisão de preservar um tesouro extraordinário, não para o seu próprio benefício, mas para o benefício da humanidade, para o futuro. Uma vez assegurado da educação de seus filhos, ele fez o maior sacrifício que um pai poderia fazer, e foi embora aceitando nunca os ver de novo.

- Só espero que tenha valido a pena - disse Costas.

- É para descobrir isto que estamos aqui - disse Jack, voltando-se para Maclean. - Você sabe mais alguma coisa sobre a sua vida, qualquer coisa que possa nos fornecer indícios?

Maclean fez uma pausa. - Agosto de 1914. Os países da Europa se separam, a Grã-Bretanha se mobiliza. A Primeira Guerra Mundial inicia.

- Ele vai lutar? - pergunta Costas.

Maclean faz que sim com a cabeça. - Dentro da loucura e do horror da Primeira Guerra Mundial, as pessoas com freqüência esquecem que existiam muitos, no início, que acreditavam que a guerra era justa, uma guerra contra a desgraça iminente. Em algum lugar na Alemanha, o imperialismo lança as sementes do nazismo. Everett se sentiu moralmente compelido a juntar-se aos combatentes. Winston Churchill escreveu sobre homens como ele. - Maclean inclinou-se para trás de modo a poder ler a inscrição debaixo de um retrato emoldurado em sua parede, mostrando um jovem em uniforme. - "Vindo por sua própria e livre vontade, sem uma convocação nacional ou obrigação, um estranho do outro lado do oceano vem para lutar e morrer em nossas fileiras, ele resolveu pagar um tributo de excepcional valor para a nossa causa. Compreendeu que não meramente causas nacionais, mas causas internacionais da mais alta importância estavam envolvidas e precisavam agora ser decididas pelas armas."

- Um parente seu? - perguntou Costas.

Maclean sacudiu a cabeça. - Um amigo de Churchill, o tenente Harvey Butters, da Real Artilharia de Campo (REA), um americano morto na ofensiva do Somme em 1916. Getty era um grande admirador desses homens.

- Juntar-se aos combatentes teria sido consistente com o senso de responsabilidade que levou Everett a sacrificar sua carreira e sua vida familiar por aquilo que ele estava escondendo - murmurou Jack.

- Ele foi para o norte, para o Canadá e se alistou. Em 1916, ele era oficial no regimento dos fuzileiros reais de Dublin, na linha de frente ocidental. Em junho daquele ano, foi atacado com gás tóxico e ferido na terrível batalha de Hulluch, perto de Loos, na França. Durante sua recuperação, suas habilidades matemáticas foram descobertas, e foi transferido para a inteligência militar britânica, o original MI-1. Ele trabalhou no Escritório de Guerra em Londres, e depois foi auxiliar a inteligência naval do Almirantado, viajando para o sul, indo trabalhar num complexo altamente secreto conhecido como Sala 40, e tornou-se decifrador de códigos.

- Aha! - Jeremy inclinou-se adiante, - Criptografia.

- Eles estavam desesperados para conseguir homens como ele - continuou Maclean. - E foi bem a tempo. O que aconteceu em seguida pode bem ter ajudado a ganhar a guerra.

- Continue.

- Vocês já ouviram falar do telegrama de Zimmerman?

- Sim - disse Jeremy imediatamente. - Fez a América participar da Primeira Guerra Mundial.

- Um telegrama em código enviado em janeiro de 1917 por Arthur Zimmerman, o secretário alemão de Assuntos Estrangeiros, para o embaixador alemão no México. Ele revelava a intenção alemã de iniciar uma guerra submarina irrestrita, e a ajudar o México a retomar os estados do Sul dos Estados Unidos. O plano parece ridículo agora, mas era mortalmente sério na época. Os britânicos interceptaram e decifraram o telegrama, depois o passaram para o embaixador dos Estados Unidos na Grã-Bretanha. O sentimento nos Estados Unidos já era bastante contra os alemães por causa dos submarinos U-boat que tinham matado muitos americanos. Pouco mais de um mês mais tarde, o presidente Woodrow Wilson pedia ao Congresso para declarar guerra contra a Alemanha.

- Deixe-me adivinhar - disse Costas. - O telegrama foi decifrado na Sala 40.

- Correto. Os decifradores de códigos na Sala 40 tinham um livro de códigos para uma versão anterior do criptograma, roubado de um agente alemão no Oriente Médio, mas, mesmo assim, a decifração executada pela equipe de Lon¬dres foi um trabalho de gênio.

- E o nosso homem estava envolvido.

- O seu nome nunca foi liberado. Depois da guerra, os britânicos se esforçaram extraordinariamente para manter as atividades de seus decifradores de códigos secretas, e só revelaram o suficiente para contar a história essencial. Alguns dos decifradores da Sala 40 foram trabalhar em Bletchley Park durante a Segunda Guerra Mundial, e os seus nomes nunca chegaram a ser conhecidos.

Costas assobiou. - Então, Everett de fato teve um lugar na história. Trazendo quase sozinho a América para a Primeira Guerra Mundial.

- Se você acha que ele ocupa um lugar na história, espere pelo que vou contar em seguida.

- Continue - disse Jack.

- Uma grande parte do material ainda permanece secreto. Mas eu sei que ele trabalhou ao lado de dois homens cujos nomes foram revelados e celebrados, o reverendo William Montgomery e Nigel de Grey. Desses dois, Montgomery é o mais intrigante. Ele era pastor presbiteriano, um civil recrutado pela inteligência militar britânica. Era uma autoridade reconhecida sobre santo Agostinho, e um tradutor talentoso do alemão de obras teológicas. Era mais conhecido por sua tradução da obra A busca do Jesus histórico, de Albert Schweitzer.

Jack repentinamente sentiu os cabelos se eriçarem na nuca. - Repita o que disse.

- Albert Schweitzer, A busca do Jesus histórico.

O Jesus histórico. Jack sentiu que ficava tenso com a excitação, e depois falou calmamente. - Então, tivemos dois homens, ambos brilhantes decifradores de códigos, Montgomery e Everett, ambos apaixonados pela vida de Cristo. Um deles é guardião de um extraordinário documento antigo, algo que está escondendo em outro lugar. Talvez o horror daquela guerra, sua experiência de quase morte, sua convicção de que não iria sobreviver, provocasse nele uma necessidade esmagadora de partilhar seu segredo, de assegurar que a tocha fosse mantida acesa em algum lugar. Ele conta tudo para Montgomery e inventam um código.

- Isto é pura especulação, mas, se isso de fato aconteceu, provavelmente foi aqui - disse Maclean.

Jack pareceu espantado. - Você quer dizer aqui? Na Califórnia?

- Em Santa Paula. Onde Everett passou o resto de sua vida. Um pequeno convento de freiras nas colinas, situado a pouca distância do mar, onde Everett encontrou o que estava procurando quando chegou à América antes de guerra. Paz, reclusão, uma comunidade em cuja congregação de fiéis ele podia entrar sem esforço, anonimamente, na qual podia permanecer pelo restante de seus dias, buscando o momento e o local adequado para passar adiante seu segredo.

- Do mesmo modo que o imperador Cláudio, dois mil anos antes - murmurou Jeremy. - E, exatamente como Cláudio, o curso da história parece ter tragado os seus planos, a Primeira Guerra Mundial estourou com ímpeto, assim como a erupção do Vesúvio no último dia.

- Não compreendo como ele voltou para a Califórnia, como ele e Montgomery estavam aqui durante a guerra - disse Costas.

- Isto foi em maio de 1917. A publicação do telegrama de Zimmerman havia acabado de fazer com que a América entrasse na guerra. Montgomery e Everett foram convidados a vir para cá para ajudar a estabelecer uma nova unidade de decifração de códigos nos Estados Unidos. Isso era altamente secreto. Mas havia bastante tempo para uma rápida visita à Califórnia.

- Será que o convento de freiras ainda existe? - perguntou Jack. Maclean empurrou a cadeira para trás, levantou e andou até a janela, a voz subitamente cheia de emoção. - Quase durante toda a minha vida profissional eu morei e vivi neste lugar. Eu estava aqui quando o museu foi inaugurado, e realizei o meu melhor trabalho nesta sala. Há uma atmosfera aqui, uma atmosfera do passado que tem inspirado o meu trabalho. Uma antiga vila romana nas colinas da Califórnia. Mas ela também me assombra. Esta sala, onde agora nos encontramos, é desconhecida, obscura. O museu está baseado no plano do século XVIII que Weber fez para a Vila dos Papiros como vemos nos túneis; no entanto, toda esta seção da vila é conjetural, corresponde a uma parte que nunca foi escavada. Com as novas descobertas de vocês na vila, é como se o passado estivesse finalmente vindo à tona, como se a verdade que criamos aqui estivesse prestes a ser desmascarada pelo que ela é, como se estivéssemos prestes a perder toda a solidez e certeza que havíamos criado. Isto é assustador, mas também excitante. - Ele voltou à mesa, e pegou um molho de chaves, depois voltou a sentar de maneira decidida. - Terminei. Mas, antes de irmos, acho que vocês me devem o resto da sua história. Quero ouvir o que têm a dizer sobre Cláudio.




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