O último Evangelho David Gibbins



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CAPÍTULO 17

A mulher tropeçou quando eles a arrastaram para fora do carro e a empurraram sobre a superfície rochosa irregular. Ela estava com os olhos vendados, mas sabia onde se encontravam. O cheiro a tinha atingido assim que eles abriram a porta do carro, a rajada acre do enxofre que fazia queimar a ponta de sua língua. Ela podia sentir a abertura do espaço à frente, a quente corrente ascendente da fornalha nas profundezas da terra. Ela conhecia o motivo. Eles ou fariam aqui ou a levariam para baixo. Ela estivera neste lugar muitas vezes antes, quando criança, quando eles haviam tentado fortalecê-la, fazendo com que descobrisse o terror, a súplica, a incontinência, algumas vezes a serena compostura, a aceitação das velhas maneiras como elas sempre tinham sido, a futilidade da resistência.

Uma mão guiou-a para a esquerda, e continuou a empurrá-la, para descer um caminho rochoso. Então seria embaixo. Eles não estavam se arriscando. Com um puxão fizeram-na parar, e brutalmente desataram sua venda. Ela pestanejou com força, e olhou dentro da escuridão. Sentia a magnitude do Vesúvio sobre a baía atrás dela, mas sabia que, se se voltasse para um último olhar ela seria espancada e a venda posta de novo. Sabia que a tinham removido somente para facilitar a descida deles pelo caminho rochoso até o chão da cratera, mas esperava que a deixassem sem a venda até o final. Este era o seu único medo, o de que fosse experimentar o momento final na escuridão, incapaz de distinguir entre cegueira e morte.

Ela mantinha os olhos à frente, só olhando para baixo quando tropeçava, suas mãos amarradas atrás. Alcançaram a parte mais baixa. Restava um lance de degraus atrás, como defesa. Esta era a maneira usual de fazer as coisas. Outrora isto tinha sido dela, quando eles haviam tentado assimilá-la mais profundamente dentro da família, antes que tivessem encontrado uma outra forma de fazê-la servi-los. Ela se lembrava da entrevista, do obscuro homem de Roma, o homem que ela nunca mais viu e com quem nunca mais falou novamente. Depois disso, houve algumas chamadas telefônicas ocasionais, solicitações, instruções, ameaças que ela sabia serem reais e depois a exigência para que aceitasse o trabalho em Nápoles. Nada ocorreu durante vários anos e em seguida veio o terremoto, logo depois os pesadelos retornaram, os telefonemas no meio da noite, solicitações urgentes, mais ameaças, o seu mundo de conhecimento desabando. Ela pensou nos primeiros tempos, quando parecia estar livre disto. Pensou em Jack. Depois os dois degraus que restavam ressoaram na cratera, empurraram-na para frente. As mãos a fizeram parar de novo, e a venda foi recolocada sobre seus olhos. - Não - ela disse furio¬samente em italiano. - Isto não. Você se lembra do quanto isto me aterrorizava quando éramos crianças? Quando eu tomava conta de você. Meu irmãozinho.

Não houve resposta. As mãos se detiveram, depois afrouxaram. A venda se prendera no cordão da carteira de identidade da superintendência ao redor do seu pescoço, e foi violentamente arrancada. Parecia que seu pescoço tinha sido chicoteado. Ela manteve resolutamente os olhos à frente, mas percebeu o gesso que cobria o pulso dele. - O que lhe aconteceu, mia caro'? - ela perguntou. - Deixe-me cuidar de seu braço. - Não houve resposta, e ela foi empurrada à frente, desta vez violentamente, pelo coque de seus cabelos. Ela cambaleou para diante. Cinqüenta passos para frente. Uma mão agarrou seus cabelos de novo, e um pé a chutou atrás de seu joelho direito. Ela desabou no chão da cratera, os joelhos batendo com estrondo na lava. Manteve a compostura, permaneceu ereta. Suas pernas foram separadas com chutes. Alguma coisa fria foi fortemente empurrada contra sua nuca, enviando um formigamento ao longo de sua coluna. - Espere - ela disse, com voz forte, sem vacilar. - Solte as minhas mãos. Devo me reconciliar com Deus. In nomine patri, filii et spiritu sancti.

Durante alguns momentos, nada aconteceu. A boca da arma de fogo ainda estava pressionada contra seu pescoço. Ela se perguntou se era assim, se já havia acontecido, se isto era a morte, se a morte significava ficar gelada no momento da passagem. Depois a boca da arma foi retirada, ela ouviu bater no chão uma caneca de metal espalhando líquido e mãos apalpavam seus pulsos. Seu coração estava começando a bater mais rápido agora, parecia estar dando pancadas, e seus joelhos fraquejaram. Ela fechou os olhos e respirou profundamente, saboreando o ato, até mesmo o odor nauseabundo daquele local. Não queria cair. Ela não queria deixar a família cair. Queria manter a honra. Abriu os olhos, e olhou diante dela. A fenda estava ali, preta como carvão, com lava solidificada ao redor das beiradas. Ela sabia o que ia acontecer. O som curto e agudo da Beretta com silenciador, o jato de sangue misturado com miolos, estranhamente independente das coisas externas, como uma mangueira, vibrando com as últimas batidas do coração. O corpo empurrado para dentro da fenda, o combustível da caneca esvaziado sobre ele, o cigarro arremessado. Ela desejava que a própria fenda a levasse, se tornasse viva como havia ficado quando o vulcão tinha batido como um coração vivo debaixo deste lugar, o cerne ardente do mundo subterrâneo. Ela queria ser abraçada por ele. Queria que ele queimasse.

Houve um som de dilaceramento quando a fita adesiva que amarrava suas mãos foi arrancada, um último choque de dor. Deixou a mão esquerda cair livre-mente, sacudiu-a, sentindo a circulação retornar. Lentamente ergueu a mão direita diante de seu peito e fez o sinal da cruz e tocou sua testa. Sua mão estava firme, sem tremor. Ela ficou contente. Deixou-a cair. Seus olhos estavam bem abertos, olhando fixamente para a fenda. Juntou as mãos, sentiu o anel que ele lhe havia dado. A boca da arma pressionou sua nuca de novo, Ela inclinou a cabeça leve-mente. O ângulo seria melhor. Mais rápido. Ouviu o toque de um celular, e depois a voz atrás dela, uma voz que trouxe de volta a ternura da infância, que tinha gostado de escutar cada manhã quando ela afagava sua testa, vendo-o acordar.

- Eminência? Va bene. Está feito.

Depois nada.
Costas espirrou de novo, e abriu espaço para Jeremy, que tinha chegado à catedral alguns minutos antes, mas descobrira um oficial e fora direto falar com ele. Jeremy se aproximou vindo pela nave de novo, carregando um guarda-chuva gotejante e uma pasta de papéis e vestindo uma jaqueta vermelha Goretex. Costas e Jack tinham acabado de retornar ao seu lugar na Catedral de São Paulo alguns momentos antes, depois de terem ido rapidamente até a farmácia que havia do lado de fora na Strand, e Costas estava ruidosamente inalando um descongestionante e examinando a etiqueta de um frasco. Pegou um punhado de comprimidos, um trago de água e inclinou-se para trás para deixar Jeremy passar, deixando espaço no assento entre ele e Jack. Jeremy retirou a jaqueta, sentou-se, aspirou o ar pelo nariz de maneira audível, tirou os óculos para enxugar a água da chuva, depois aspirou o ar de novo. Inclinou-se para Costas, depois recuou ligeiramente. - Tem alguma coisa cheirando mal por aqui.

- Bom dia para você, também - disse Costas, falando com voz nasalada.

- É uma espécie de cheiro de doença - disse Jeremy. - Verdadeiramente repugnante.

- Ah - disse Jack. - Secreção do corpo. De alguma maneira, ela sempre permanece com você.

- Ah - replicou Jeremy forçosamente. - Esqueci-me do lugar onde vocês estiveram. Corpos mortos. É por isso que prefiro as bibliotecas.

- Não diga esta palavra. Preferir - disse Costas, parecendo infeliz.

- Venham. Por aqui - disse Jeremy, juntando suas coisas e levantando-se, mantendo distância de Costas ostensivamente. - Consegui uma sala privada.

- De onde você conhece todas estas pessoas? - perguntou Costas.

- Eu sou um perito em manuscritos medievais, você se lembra? - replicou Jeremy. - Uma grande quantidade dos melhores documentos ainda são mantidos pela igreja. Este é um mundo pequeno. - Jack rapidamente fechou o seu laptop, e seguiu Jeremy, caminhando pela nave em direção a uma capela lateral. Jeremy fez um gesto de cabeça para um homem vestindo sotaina que esperava discretamente próximo, segurando um aro com chaves pesadas, e ele se aproximou e destrancou uma porta de aço com grades para eles. Jack deslizou para dentro sem fazer barulho, depois dos outros dois. Eles estavam na Capela de Todas as Almas, dominada por um retrato de Lord Kitchener e o monumento para os britânicos mortos da Primeira Guerra Mundial, mas que continha também uma pietà, uma escultura da Virgem Maria segurando o corpo de Cristo. Jeremy os conduziu para detrás do memorial de guerra, fora do alcance de voz da ala exterior e agachou-se encostando as costas na estátua. Retirou um notebook de sua mochila e olhou para Jack, seu rosto ruborizado pela excitação. - Muito bem. Você me contou pelo telefone suas descobertas, sobre a tumba de Boudica. Isso é inacreditável. Agora é a minha vez.

- Fale logo.

- Passei a maior parte do dia de ontem em Oxford. Eu estava seguindo aquele indício de que lhe falei. Aqui vai. O arquivista do Balliot College é meu amigo. Nós procuramos em todos os documentos não publicados relativos à Igreja de St. Lawrence Jewry, e encontramos um livro de relatos da reconstrução de 1670. Ninguém se interessou muito por ele, e parecia que ele repetia, em sua maior parte, os livros de relatos de Wren que já haviam sido publicados. Mas algo chamou minha atenção, e o examinamos mais detalhadamente. Era um adendo, de 1685. Uma velha câmara mortuária debaixo da igreja tinha sido desobstruída, e a equipe de Wren voltou para lacrá-la e verificar as fundações. Eles encontraram uma cripta trancada. Conseguiram quebrar o ferrolho e abrir a porta, e um deles entrou lá dentro.

Jack assobiou. - Bingo. Esta é a nossa cripta, Costas. Você sabe quem entrou?

- Todos os mestres artífices estavam presentes na câmara mortuária. Isto ocorreu cinco anos depois de a igreja ter sido completada, e a visita de 1685 foi uma visita de inspeção. Edward Pierce, pedreiro, escultor e entalhador decorativo. Thomas Newman, pedreiro. John Longland, carpinteiro. Thomas Mead, modelador de gesso. O próprio Christopher Wren se encontrava entre eles, descansando do seu trabalho na Igreja de São Paulo, onde estamos agora. E havia um outro homem, um nome desconhecido para mim, Johannes Deverette.

- Francês? - perguntou Jack.

- Flamengo. Meu amigo bibliotecário já tinha visto o nome antes, e encontramos bastante coisa sobre ele para esboçar uma curta história. Era um refugiado huguenote, um protestante calvinista que escapara dos Países Baixos um pouco antes naquele ano. 1685 foi o ano em que o rei francês revogou o Édito de Nantes, que tinha dado proteção aos protestantes.

- Nada extraordinário que um huguenote se encontrasse no comércio de construção em Londres naquela época - murmurou Jack. - Alguns dos melhores e mais conhecidos carpinteiros ou marceneiros de Wren eram huguenotes, o escultor Grinling Gibbons por exemplo. O trabalho dele pode ser encontrado em toda parte ao redor de nós, aqui na Igreja de São Paulo.

- O que era incomum era a ocupação de Deverette. No caminho fui até a Biblioteca Bodleian e fiz a mesma pesquisa. Ele descreve a si mesmo como um Music Meister, um mestre de música. Aparentemente, Wren o empregou por recomendação de Grinling Gibbons para confortar o seu filho mais novo, Billy, que tinha deficiência mental. Deverette cantava cantos gregorianos.

- Música gregoriana - Costas espirrou. - É aquela música tradicional da liturgia católica romana?

- É ela mesma, e ela se relaciona estreitamente com o lugar para onde nós estamos nos dirigindo com isso - disse Jeremy. - Como os anglicanos, os huguenotes rejeitaram a Igreja Romana, mas havia muitos que se apegaram às antigas tradições apenas por razões estéticas. Descobri que Deverette vinha de uma longa linhagem de músicos gregorianos que clamava ser descendente do próprio são Gregório, o papa que formalizou o repertório dos cantos religiosos sem acompanhamento de instrumentos no século VI. A coisa realmente intrigante é que Sir Christopher Wren partilhava daquela estética. Simplesmente olhem para este lugar. - Jeremy fez um gesto que abrangia as paredes da catedral. - Dificilmente podemos dizer que é um lugar austero de encontro de protestantes, não é? Ela é uma construção que quase se parece exatamente com a grandeza de São Pedro no Vaticano, alguns diriam que é até superior. - Arrancou uma folha de um caderno de anotações. - Esta citação é quase tudo o que sabemos sobre os pontos de vista religiosos de Wren, mas ela é reveladora. Quando jovem, ele era muito apegado a uma casa de campo de um amigo. Dizia que era um lugar "onde a piedade e a devoção de uma outra época, afugentada por nossa impiedade e nossos crimes, havia encontrado um santuário, no qual todas as virtudes não são apenas observadas, mas também nutridas". Nunca ninguém desconfiou que Wren fosse um católico escondido, mas ele certamente lamentava os aspectos desmancha-prazeres da Reforma.

- O canto religioso sem acompanhamento de instrumentos não se origina muito antes dessa época, no ritual judaico? - perguntou Jack.

- O canto sem acompanhamento pode muito bem remontar a um período anterior ao da fundação da Igreja Romana, aos primeiros cristãos, à época dos apóstolos - disse Jeremy. - Ele era, provavelmente, um canto responsorial, versos cantados por um solista alternando com respostas de um coro. Esse tipo de canto pode ter sido, na verdade, um dos primeiros rituais de congregação, cantados nos lugares secretos onde os primeiros seguidores de Jesus se reuniam, até mesmo antes de se chamarem cristãos. Ele até é mencionado nos Evangelhos. - Olhou para o seu caderno de anotações. - Mateus, 26,30. Depois que cantaram o hino, eles saíram do monte das Oliveiras.

- Então, esse Deverette esteve aqui em Londres durante a reconstrução da Catedral de São Paulo feita por Wren - disse Costas.

- Desde 1685, quando chegou à Inglaterra. Os homens que trabalhavam com Wren tinham terminado a nova estrutura da Igreja de St. Lawrence Jewry alguns anos antes, mas 1685 foi o ano em que eles abriram caminho dentro da abóbada subterrânea, a antiga cripta. É aqui que as coisas se tornam realmente fascinantes. Deverette tinha uma outra paixão. Era um antiquário perspicaz, um colecionador de relíquias romanas e cristãs do primeiro período. Wren descobriu isso, e deu-lhe um novo serviço. Wren também estava interessado em todo o antigo material que encontrava. Deverette estava ali para resgatar quaisquer artefatos. Uma espécie de vigilante arqueológico, em suma.

- Eis o nosso homem - disse Jack muito excitado. - Alguém entrou dentro daquela tumba e encontrou aquele cilindro. Deve ter sido ele.

- Ele manteve algum registro? - perguntou Costas, tossindo.

- Verifiquei em toda parte. Examinei de novo todos os livros publicados sobre Wren, tudo que pude encontrar sobre as igrejas, todos os seus papéis particulares. Nada. Então, eu tive um monte de idéias. Fui até os Arquivos Nacionais em Kew, cheguei ali a tempo, ontem à tarde. Fiz uma busca em todos os registros do Tribunal de Prerrogativas de Canterbury.

- Você encontrou o seu testamento - exclamou Jack.

- Muitos dos testamentos eclesiásticos estão on-line, mas o dele estava em uma pilha recentemente descoberta que havia sido arquivada de maneira errada e estava começando a ser catalogada. Tive uma sorte incrível.

- Vamos ver o que conseguiu.

Jeremy retirou uma imagem escaneada de sua pilha de papéis. Era a cópia de uma página amarelada, com cerca de vinte linhas de uma escrita à mão nítida. Debaixo da escrita à mão havia um selo vermelho e uma assinatura, com mais assinaturas e uma anotação, de legitimação de um testamento, feita com letra ilegível na parte inferior da página. Jeremy começou a ler:


Em nome de Deus, Amém. Eu, Johannes Deverette, Mestre de Música de Sir Christopher Wren, Cavaleiro, Inspetor Geral de suas Obras Grandiosas, do sexo masculino e adulto, ordeno e faço desta a minha última Vontade e Testamento como se segue. Desejo que meu corpo possa ser decentemente sepultado sem pompa de acordo com o critério do dito Sir Christopher Wren, neste documento nomeado único Executor e Curador.
- Meu Deus - murmurou Jack. - Wren foi o seu executor. Deve ter tido conhecimento de quaisquer antiguidades que Deverette possuía, de qualquer coisa que ele descobrira em Londres e mantivera para passar adiante.

- Deverette morreu apenas alguns meses depois de fazer seu testamento, quando seu filho e herdeiro ainda era menor de idade, de modo que Wren deve ter tido a salvaguarda de qualquer legado em herança - replicou Jeremy. - Mas esperem para ver. Há o palavreado usual sobre bens móveis e propriedades rurais, mas as sentenças finais são as essenciais. - Continuou a ler:


Todos os meus livros, músicas e instrumentos musicais, eu dou e lego em herança para meu filho John Everett. Para o meu dito filho também lego em herança todas as minhas raridades antigas, meu Gabinete de Curiosidades e Relíquias das diversas escavações feitas em Londres pelo dito Sir Christopher Wren, inclusive o Godspelle que peguei das mãos da Antiga sacerdotisa. Este último mencionado para ser mantido em Segurança, em Custódia mais sagrada, e legado em herança por meu dito filho para o seu próprio filho e herdeiro, em perpetuidade, em Nome de Cristo, Jesus Domine. Assinado e Lacrado pelo acima mencionado Johannes Deverette como e em nome de sua última Vontade e Testamento na nossa presença, nós que subscrevemos nossos nomes como escritos em sua presença, neste sexto dia de agosto de 1711. Cris, Wren, Grinling Gibbons.
- Godspelle - disse Costas. - Que diabo é isso?

O coração de Jack tinha estado acelerado desde que Jeremy leu a palavra. Sua voz estava rouca. - Jeremy o disse alguns momentos antes. Trata-se de inglês arcaico e quer dizer "boa palavra". Ela significa Evangelho. Deverette encontrou o manuscrito naquele cilindro, e deve tê-lo lido.

- De acordo com o que posso perceber, esta é a única razão pela qual ele o chamou de Godspelle - disse Jeremy. - Caso contrário, por que não chamá-lo de manuscrito, ou de uma escrita antiga?

- Esta é uma nova descoberta fantástica - murmurou Jack. - Ela é a primeira indicação que nós tivemos do que aquele documento pode ter contido. - Olhou para Jeremy. - Mal ouso perguntar. Você foi mais além disso?

- Foi muito fácil seguir a pista de sua descendência - replicou Jeremy. - Os huguenotes mantêm registros familiares bastante bons. O próprio Deverette anglicizou seu nome, fez seu filho se chamar Everett. A tradição musical pode ter continuado, mas eles chegaram a ganhar para sua subsistência como construtores e arquitetos. Durante várias gerações eles foram membros respeitáveis da Carpenter’s Company, uma das corporações mais proeminentes de Londres. Eles estavam estabelecidos em Lawrence Lane, de onde se podia ver a igreja, apenas a alguns metros da cripta onde Deverette fizera sua descoberta.

- Guardiões da tumba - murmurou Costas.

- Isto está começando a fazer sentido - disse Jack baixinho. - A cripta secreta, os sepultamentos daquelas mulheres que descobrimos, a sucessão desde a época dos romanos até o Grande Incêndio. Acho que faziam parte de uma seita secreta que sabia sobre a tumba da rainha guerreira, foram os guardiões originais. Mas, depois, o Grande Incêndio de 1666 interrompeu a sucessão, queimou a igreja e soterrou a entrada para a cripta e a tumba.

- Talvez isto tenha sido como a erupção do Vesúvio para as sibilas - disse Costas. - Fogo e cinza previsto de antemão, tudo aquilo. O fim de sua época.

- E depois, por pura sorte, a tumba foi novamente encontrada, seu tesouro sagrado foi removido, mantido secreto, e o ciclo de proteção foi renovado - murmurou Jack.

- A forte tradição da família huguenote conta em nosso favor - disse Jeremy. - Não há outra referência às relíquias em nenhum dos testamentos, mas o poder daquele legado no Testamento de Deverette teria mantido sua influência através das gerações. E há algo mais, uma verdadeira prova contundente. No início do século XIX, Samuel, o bisneto de Deverette, era um subscritor do Movimento de Oxford, a renovação dos anglo-católicos. Seu filho John Everett era membro de uma sociedade vitoriana chamada os Novos Adeptos de Pelágio, que clamavam seguir o ensinamento de Pelágio, o monge britânico rebelde. Eles acreditavam ser os herdeiros da tradição cristã inicial na Grã-Bretanha, não aquela que foi trazida por Agostinho no século VI, mas da tradição dos primeiros tempos, daqueles que trouxeram a palavra de Jesus para este lugar no primeiro século d.C. Falávamos sobre isto ontem.

- Cláudio? - murmurou Jack - Será que podemos remontar tudo isto até ele?

- Até aquele que ele encontrou na Judéia - murmurou Costas.

- Os Everett continuaram a ser proeminentes na City de Londres no século XIX, sempre próximos à St. Lawrence Jewry e ao Ghildhall. John Everett, o adepto de Pelágio, era um membro do Conselho da Corporação de Londres, e um ex-escravo da City. Seu filho era Mestre da Carpenters Company. Mas então algo estranho aconteceu. Seu filho mais velho, Lawrence Everett, era arquiteto como seu pai. Mas, quase imediatamente após a morte do pai em 1912, ele fechou seu negócio, abandonou sua família e desapareceu. Foi quase um outro ciclo prognosticado, como Costas disse, como se o cataclismo das guerras mundiais que aconteceriam mais tarde fosse uma outra erupção de fogo e de enxofre. Foi como se o último dos guardiões interrompesse a sucessão e levasse o tesouro embora antes que o inferno desencadeasse a fúria da guerra durante a Blitz.

- Você tem alguma idéia de para onde ele foi? - perguntou Jack.

- É preciso verificar os registros de imigração, as declarações dos passageiros. Há uma grande quantidade de material a ser pesquisado. Tive um indício promissor.

- Você sempre consegue - disse Jack. - Você está se tornando indispensável, sabe?

- Posso precisar ter que retornar aos Arquivos Nacionais. Isso me tomaria mais um dia.

- Vamos, então, continuar com isso.


Cinco minutos mais tarde, eles se encontravam sob a entrada da Catedral de São Paulo, olhando para fora através de extensas cortinas de chuva, procurando uma brecha em meio ao dilúvio. Jack sentiu como se estivesse em uma ilha, como se a solidez da catedral e a velada sensação de mal-estar do lado de fora refletissem exatamente, como um espelho, o seu estado de espírito. As revelações assombrosas das últimas horas tinham dado um enorme impulso à sua busca, e fez com que ela parecesse tão real como a imensa estrutura acima deles; no entanto, a sua meta ainda se parecia com um farol despercebido em algum lugar do outro lado da chuva, na parte baixa de alguma aldeia escura que eles podiam nunca encontrar. Jack novamente teve uma súbita lembrança da biblioteca perdida de Herculano, porém a visão em sua mente parecia agora ondular passando por uma sucessão de câmaras, as portas abertas até onde sua vista podia alcançar, mas a meta longe da vista na distância. Sabia que sua única esperança agora dependia de Jeremy, que alguma revelação encontrada nos arquivos pudesse levá-los em direção àquela última porta, ao lugar que Cláudio queria que eles encontrassem.

- Não me diga que estamos indo para o túnel, Jack - disse Costas em voz baixa e áspera. - Eu não vou entrar no subterrâneo de novo.

- Por coincidência, eu sempre quis ver o Grande Canal - replicou Jack, piscando para Jeremy. - Um canal subterrâneo construído no século XIII para trazer água fresca da correnteza do Tyburn, cerca de três quilômetros a oeste daqui. As cisternas de pedra parecem impressionar, mas os aquedutos construídos pelos engenheiros romanos teriam sido assustadores. Eles vazavam, e a circulação por gravidade estava toda errada. Um grande exemplo da marcha do progresso para trás. Isto bem vale uma visita.

- Não - disse Costas com voz monótona. - De maneira alguma. Você vai. De agora em diante eu só ando de táxi.

Jack sorriu, depois percebeu uma folga na chuva e deu um passo para fora da entrada da catedral. Naquele momento, um homem vestido com um terno separou-se de um grupo de pessoas que se abrigavam debaixo da entrada e caminhou parando diante de Jack, bloqueando seu caminho. - Doutor Howard? - ele disse decididamente. Jack olhou para o rosto do homem e não o reconheceu, deu um passo atrás alarmado. O homem lhe entregou uma folha de papel. - Amanhã, às 11 da manhã. A vida de vocês pode depender disso. - Afastou-se e rapidamente desceu as escadas, desaparecendo dentro da multidão matinal que chegava para trabalhar na City. Rapidamente, Jack deu um passo atrás voltando a ficar na entrada da catedral e leu a nota, depois a passou para Jeremy. - Você o reconheceu? - Perguntou Jack.

- Não tenho certeza. - Jeremy dava a impressão de estar preocupado, e ansiosamente examinou as demais pessoas que se encontravam nas escadas. - Não é uma coisa boa você ter sido rastreado até aqui, Jack.

- Eu sei.

Jeremy olhou para o pedaço de papel, e franziu os lábios. - Puxa! Bem no centro das coisas. - Devolveu o papel para Jack. - Você vai?

- Não acho que tenhamos qualquer escolha.

- Eu iria, mas tenho que ficar e descobrir o que puder sobre Everett.

- Concordo - disse Jack em voz baixa.

- Leve Costas com você. Talvez precise de um guarda-costas.

Jack olhou para a forma de ombros caídos, em condição miserável, encostado na coluna de pedra atrás deles, gotejando e espirrando. Foi até onde Costas estava, pegou-o pelos ombros e dirigiu-o para as escadas. A chuva tinha começado a cair com força novamente, e Costas dava a impressão de que ia se dissolver.

- Venha - disse Jack, olhando para cima e deixando a água da chuva escorrer pelo rosto, apreciando isso. - Acho que podemos fazer alguma coisa acerca desse seu resfriado.





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