O último Evangelho David Gibbins



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CAPÍTULO 14

Vinte e quatro horas mais tarde, Jack levou Costas para perto da imponência da Catedral de São Paulo no centro de Londres, passando por um labirinto de ruas e ruelas que formavam o coração da velha cidade. Tinham passado a noite anterior a bordo do Seaquest no Mediterrâneo e voado para o aeroporto de Londres naquela manhã bem cedo. A primeira tarefa de Jack foi uma reunião com o chefe da segurança da IMU. Depois de sua experiência em Roma, o que havia começado como uma pesquisa arqueológica secreta tinha tomado uma dimensão extremamente nova. Enquanto eles ainda estivessem pesquisando, enquanto aqueles que os estavam seguindo pensassem que Roma tinha proporcionado apenas mais uma outra pista, não o objeto de sua busca, Jack sentia que eles estavam razoavelmente seguros. O destino do homem que tinha apontado uma pistola para a sua cabeça debaixo do monte Palatino era desconhecido, embora Massimo lhes tivesse assegurado que as chances de sobrevivência de um corpo que penetrou na Cloaca Máxima sem equipamento de respiração eram fracas. Parecia inconcebível que eles tivessem sido seguidos até Londres, mas Jack não queria correr riscos. Tentariam o máximo possível não chamar a atenção sobre si, e Ben e mais dois outros membros da equipe estariam espreitando em segundo plano, observando, esperando, prontos para agarrar a presa se houvesse qualquer repetição de seu encontro na antiga caverna debaixo de Roma.

- Bem-vindo à Londres ensolarada. - Costas deu um passo atrás muito atrasado quando uma série de táxis pretos passou fazendo barulho, espirrando água em seus tornozelos. Ambos vestiam jaquetas azuis Goretex, à prova d’água, com os capuzes levantados, e Costas estava procurando de maneira desajeitada lidar com um guarda-chuva. O que se iniciara como um dia fortemente coberto por nuvens, havia se estabilizado com uma constante garoa, entremeada com ocasionais aguaceiros bastante fortes. Costas inalou sonoramente, depois espirrou. - Então foi para cá que Cláudio trouxe seu precioso tesouro secreto. Parece que é uma caminhada bastante longa desde a Judéia.

- Você ficará surpreso - disse Jack, erguendo a voz acima do tráfego. - Os primeiros cristãos na Grã-Bretanha romana achavam que eles tinham uma relação direta com a Terra Santa, ainda não corrompida por Roma. Causou-lhes um sem-fim de complicações quando a Igreja Romana tentou afirmar-se aqui.

- Então nós nos encontramos na localização da Londres romana agora.

- Acabamos de entrar nela. A City de Londres hoje, o distrito financeiro, é a velha cidade medieval, e esta foi construída sobre as ruínas de Londinium. Você ainda pode perceber a linha das paredes romanas no desenho das ruas.

- Deve ter sido água estagnada - disse Costas, patinhando na água atrás de Jack. - Quem teria vontade de vir para cá?

- Olhe ao seu redor agora, para os rostos - disse Jack, enquanto passavam pelas calçadas em meio a pessoas apressadas. - Londres era quase tão cosmopolita como agora no período romano. Ela foi fundada para comerciar, era um ímã a comerciantes de todos os cantos do império. - Ele virou para a esquerda esquivou-se pelo movimento de pessoas que tinha se tornado tão grande que provocava paralisação, depois conduziu Costas por uma passagem estreita do lado oposto. - Não havia nenhuma água estagnada aqui, embora a tradição celta tenha dado para a Grã-Bretanha um caráter particular, algo que a faz parecer muito distante de alguns tipos romanos, um pouco ameaçadora.

- Então foi Cláudio que invadiu este lugar. - Costas pestanejou por causa da garoa que estava começando a envolvê-los, e depois puxou o capuz de sua jaqueta mais para frente. - Deixar a Itália por isto...

Jack enxugou a água que escorria por seu rosto, e depois foi pulando até uma outra rua. Eles estavam na Lawrence Lane, dirigindo-se em direção a Guildhall. - Cláudio estava numa missão. Quase cem anos antes, um tio-tataravô, Júlio César, tinha vindo para cá com suas legiões na parte final da conquista da Gália. Era mais uma exibição de força do que uma invasão, um pouco da antiga diplomacia de demonstração de força, para manter os bretões do seu lado do Canal.

Costas olhou tristemente para Jack por debaixo de seu capuz. - Você quer dizer que César deu uma olhada neste lugar, pensou melhor e foi embora.

- Ele tinha outras coisas em mente. Mas abriu o caminho para os comerciantes. Mesmo antes de Cláudio invadir o local, havia um assentamento de romanos na capital tribal em Camulodunum, cerca de cinqüenta milhas a nordeste da moderna Colchester. Eles traziam carregamentos de vinho dentro de ânforas por navio, exatamente do mesmo tipo daquelas que descobrimos no navio naufragado e vimos em Herculano. Perceberam que os britânicos amavam o álcool.

- Estou contente em ver que eles não mudaram. - A voz amortecida de Costas veio de vários passos atrás, e Jack se virou para ver sua figura encapuzada parada diante de um pub. Costas empurrou o capuz e apontou sugestivamente. Jack sacudiu a cabeça e o chamou com um gesto. - Estamos quase chegando. Depois haverá tempo para isto.

- É o que você sempre diz - resmungou Costas, patinhando atrás de Jack. - De volta para a Londres romana, então. Havia um bando de estrangeiros aqui, portanto um bando de idéias estrangeiras também.

- Exatamente. - Chegaram à esquina da Gresham Street, e Jack apontou para a igreja do lado oposto. - É por causa dela que viemos para cá. Não é tão grande quanto a Igreja de São Paulo, mas é do mesmo período, do mesmo arquiteto. Uma das igrejas da City de Londres reconstruída por Sir Christopher Wren em seguida ao Grande Incêndio de Londres em 1666.

- St. Lawrence Jewry. - Costas olhou para um mapa turístico encharcado que tinha retirado do bolso.

- O nome diz tudo. - Jack esperou um barulhento táxi passar. - Este era o bairro judeu de Londres até os judeus serem expulsos no século XIII. St. Lawence Jewry é da Igreja da Inglaterra, anglicana, mas no caminho há igrejas católicas, capelas protestantes, sinagogas, mesquitas, você pode escolher. E quem sabe que coisas mais as pessoas estão cultuando neste mesmo momento ao nosso redor, em lugares ocultos, atrás de telas de computadores. É o que penso. Teria sido a mesma coisa na Londres romana. Hoje as pessoas adoram, sobretudo, versões do mesmo Deus, mas de algum modo isto não se distancia muito do antiquado politeísmo que romanos como Cláudio teriam conhecido, com muitos templos diferentes e variadas formas de rituais.

- Não existia também um culto do imperador?

Jack assentiu, parando apoiado a uma parede por um instante, fora da garoa do caminho. - Os romanos construíram um templo para Cláudio em Colchester, talvez um aqui em Londres também. Particularmente, não acho que Cláudio tenha pago por isso, se ele realmente sobreviveu para se ver sendo adorado. Isto teria atingido excessivamente seu perturbado sobrinho Calígula, e seu sucessor Nero. Mas, aqui nas províncias, o culto imperial era um assunto prático, uma maneira de conseguir que os nativos pagassem tributos a Roma ao mesmo tempo em que se idolatrava a figura individual do imperador.

- Os romanos não tentavam esmagar as religiões rivais?

- Não habitualmente. Esta é a beleza do politeísmo, politicamente falando. Se você já tem mais de um deus, então é bastante fácil absorver mais alguns, é menos incômodo do que tentar erradicá-los. E a absorção de deuses estrangeiros confirma a autoridade dos seus deuses sobre os dos estrangeiros. Foi isso que aconteceu na Grã-Bretanha romana. O deus celta da guerra foi absorvido no culto de Marte, o deus romano da guerra, que tinha anteriormente absorvido o deus grego da guerra, Ares. Os deuses associados a Boudica, Andraste, eram ligados a Diana e Ártemis. Mesmo o cristianismo adaptou rituais pagãos para os seus cultos religiosos, a idéia do templo, sacerdotes. Quase tudo que você vê sobre aquela igreja lá adiante deve ter sido desconhecido para os primeiros cristãos, até mesmo a idéia de uma religião com atos de adoração. Para alguns deles, isso leria sido anátema.

- Talvez até para o próprio messias.

- Pensamento provocativo, Costas.

- Lembre que eu fui educado na Igreja Ortodoxa. Posso dizer estas coisas. Em Jerusalém, na Igreja do Santo Sepulcro, os gregos acham que eles são os mais próximos de Cristo, os zeladores da tumba. Mas todas as outras congregações religiosas que lá se encontram pensam o mesmo: os armênios, os católicos romanos, e as outras que você quiser, todas comprimidas e em oposição, competindo. É um pouco ridículo, de rato. Estão tão envolvidas com os detalhes que perderam de vista o todo.

Jack conduziu Costas animadamente pelo caminho, passando pela igreja e entrando em Guildhall Yard. Poucos metros atrás deles ficava a parede ocidental da igreja, e diante deles, colocado sobre placas de calçamento no pátio, encontrava-se um grande arco de pedra preta, como uma parte de um enorme relógio de sol que se estendia sob as construções circundantes. O celular de Jack tocou e ele respondeu rapidamente, e depois começou a andar em direção à entrada da Guildhall Art Gallery ao longo do arco. - Jeremy já chegou - ele disse. - E lembre-se deste alinhamento. Ele esclarece o que estamos prestes a ver.
Dez minutos depois, pararam quase exatamente no mesmo ponto em que estavam antes, mas oito metros abaixo do chão. Eles estavam num amplo espaço subterrâneo, iluminado por detrás ao redor das bordas em ruínas, de tijolo e alvenaria, diante deles. Tinham tirado os casacos, e Costas estava lendo uma placa descritiva. - O anfiteatro romano - murmurou. - Eu não tinha idéia.

- Nem ninguém mais tinha, até poucos anos atrás - disse Jack. - Muito da cidade acima da Londres romana foi destruída pelo bombardeio alemão durante a Segunda Guerra Mundial, e a desobstrução e a reconstrução permitiram que se fizessem muitas escavações arqueológicas. Mas a ocasião para uma grande escavação em Guildhall Yard só se concretizou no final dos anos 1980. Este foi o achado mais surpreendente.

- Aquele arco elíptico no calçamento acima de nós - murmurou Costas. - Agora entendi.

- Aquele é o contorno da arena, o espaço central do anfiteatro - disse Jack.

- Qual a data disto?

- Você se lembra da revolta de Boudica? Isso foi no ano 60 d.C., mais ou menos na mesma época do naufrágio do navio de São Paulo. A Londres romana tinha sido fundada quinze anos antes disso, logo em seguida à invasão de Cláudio em 43. Boudicca destruiu o local, mas ele logo foi reconstruído e houve grandes projetos de construção em andamento dentro de poucos anos. O anfiteatro foi feito de madeira, mas tinha a parede de pedra e tijolo que você vê ao redor da arena, e que provavelmente começou em algum período dos anos 70.

- Na época da segunda visita de Cláudio, aquela em que esteve incógnito. Jack pegou sua tradução do enigma extraordinário que tinham descoberto na tabuleta de cera em Roma. - Entre duas colinas - ele disse em voz baixa. - Era como Londres se mostrava, com o rio Walbrook correndo entre elas. Em seguida o juramento dos gladiadores. Para ser queimado pelo fogo, para ser aprisionado com correntes para ser açoitado, para morrer pela espada. Esta deve ser a localização.

- Onde jaz o corpo da rainha Andraste - murmurou Costas.

- Durante séculos, as pessoas procuraram pela tumba de Boudica - replicou Jack baixinho. - No entanto, ninguém suspeitou que ela estava bem debaixo dos narizes dos romanos, no coração de sua capital.

- Mas exatamente onde?

- Há um lugar aqui que não foi escavado, entre o anfiteatro e a Igreja de St. Lawrence Jewry - disse Jack. - Logo atrás da parede lá adiante. - Naquele instante, ouviu passos se aproximando atrás deles, e girou alarmado, depois relaxou. - Eis aqui alguém que pode ser capaz de nos contar mais a respeito. - Um jovem alto e magro, com desgrenhados cabelos loiros e usando óculos aproximou-se com longas passadas, sorrindo e acenando com a mão como cumprimento. Com sua jaqueta Barbour encharcada e calças de veludo, ele parecia a quinta-essência do cavalheiro inglês do campo, mas o seu sotaque era americano. - Olá, rapazes. Acabei de sair do trem que vinha de Oxford. Sorte que o seu chamado me pegou no instituto ontem, Jack. Eu estava saindo para passar uma semana em Hereford e estudar a biblioteca perdida na catedral. Maria me deu responsabilidade completa para isto, você sabe. Vir para cá é uma mudança muito repentina para mim, e eu estava um pouco preocupado por cancelar o meu compromisso anterior. Não consegui falar com ela pelo celular.

- Ela ainda deve estar em Nápoles - disse Jack. - Ela e Hiebermeyer estão lidando com as regras oficiais que impedem que as coisas sejam feitas rápida e facilmente. Não se preocupe, eu lhe enviarei uma mensagem.

- Tive tempo para passar um par de horas no Balliol College ontem no fim da tarde - disse Jeremy. - Descobri que eles foram proprietários da Igreja de St. Lawrence Jewry do século XIII ao século XIX, e ainda possuem o arquivo. Dei uma olhada no que você queria. Acho que encontrei o suficiente para você continuar, mas preciso voltar para lá depois de visitarmos a igreja. Há uma pista verdadeiramente intrigante que eu quero seguir.

- A propósito, é ótimo encontrá-lo, Jeremy - disse Costas. - Não esperava vê-lo tão cedo.

- A coisa toda ainda parece um sonho - disse Jeremy. - A caçada ao tesouro perdido dos judeus, Harald Hardrada e os vikings, as cavernas subterrâneas do Yucatán. Eu acho que poderia escrever sobre isso tudo, mas ninguém me acreditaria.

- Escreva uma história de ficção - disse Costas. - Apenas nos deixe fora dela. No momento, estamos tentando permanecer anônimos. Tivemos um encontro ligeiramente desagradável em Roma. Num subterrâneo.

- Jack me contou a respeito - disse Jeremy. - Vocês parecem fazer do risco um hábito. Acho que reconheci, na galeria acima, alguém do Seaquest.

- Ótimo - disse Jack. - Eles estão aqui.

- Temos meia hora antes de podermos entrar na cripta.

- Cripta? - perguntou Costas.

- Não tema - disse Jeremy. - Ela está vazia. A primeira pelo menos está.

Costas lhe lançou um olhar dúbio, depois se sentou em uma cadeira e recostou-se, esticando as pernas. - Ótimo. Então conseguimos um pouco de tempo. Tenho algumas questões. Atualizem-me. Vocês podem me contar sobre este lugar antes dos romanos. Sobre Boudica - ele disse.

Jack olhou para Costas, entusiástico. - A Londres pré-histórica era um lugar estranho. Não era um assentamento, até onde sei, mas um lugar onde algo estava acontecendo. Meu melhor palpite é de que era um lugar sagrado. O problema é que não sabemos grande coisa sobre a religião na Idade do Ferro, porque eles não construíram templos nem fizeram representações de seus deuses que sobreviveram. Quase tudo o que temos para nos basear são os historiadores romanos, muitos deles tendenciosos, e passam informações de segunda mão.

- Druidas - disse Jeremy, sentando-se na beirada da parede do anfiteatro, olhando de modo penetrante para Jack. - Druidas e sacrifício humano.

Jack fez um gesto de assentimento. - Quando o general romano Suetônio Paulino ouviu falar da revolta de Boudica, ele estava atacando a remota ilha de Mona, a moderna Anglesey ao norte do País de Gales. Essa era a última fortificação do povo britânico que havia se recusado a aceitar o domínio romano, e o baluarte sagrado dos druidas.

- Os sujeitos com mantos brancos - murmurou Costas.

- Esta é a imagem vitoriana, um tipo de figura como Gandalf de O Senhor dos Anéis, um Merlin, que juntava visco e viajava desarmado em meio a reinos que guerreavam entre si. A idéia de sacerdotes mediadores provavelmente seja exata, mas o resto é pura fantasia.

- Tácito descreve uma figura bastante assustadora - disse Jeremy.

Jack assentiu novamente, tirou um livro de sua mochila caqui e abriu-o. - Agrícola, o sogro de Tácito, tinha sido governador da Grã-Bretanha, de maneira que sabia sobre o que estava falando. Os romanos em Mona eram confrontados por um grupo relativamente grande de inimigos ao longo da costa. Entre eles se encontravam os druidas, que, como ele diz, estavam erguendo as mãos ao céu e gritando maldições mortais. Depois que os romanos se saíram vitoriosos, destruíram os bosques sagrados dos druidas, lugares onde estes encharcavam seus altares com o sangue de prisioneiros e consultavam seus deuses usando entranhas humanas.

- Isto soa como os feitos de alguns padres que conheci - disse Costas. - Poder por meio do terror.

- Existem muitos paralelos históricos, como você diz.

- A Igreja na Idade Média, por exemplo - murmurou Jeremy. - Submissão, obediência, confissão, vingança, retribuição.

- Todas as coisas que os primeiros cristãos teriam abominado - disse Jack.

- E não eram apenas os druidas machos que havia em Anglesey - disse Jeremy.

Jack abriu o livro novamente. - O que realmente aterrorizou os romanos, o que lhes causou pavor a ponto de paralisá-los foram as mulheres.

- Isto está ficando ainda melhor - murmurou Costas.

- Hordas de mulheres fanáticas, mulheres vestidas de preto com cabelos desgrenhados como Fúrias, brandindo tochas. - Jack deixou o livro de lado. - Esse foi o pior pesadelo dos romanos. A imagem da Amazona, a rainha guerreira, era a que realmente mantinha o romano macho acordado à noite. Tácito deve ter exagerado esse aspecto da Grã-Bretanha para brincar com as fantasias romanas a respeito do mundo bárbaro, um mundo além de controle, um mundo sem racionalidade ou método aparente. Mas toda a evidência sugere que ele era verdade, que os romanos realmente caminharam dentro de sua própria visão de inferno, um mundo de rainhas amazonas e de espíritos que gritam alto e são ouvidos quando alguém vai morrer.

- Boudica - Costas disse baixinho. - Vocês estão dizendo que ela era uma espécie de druida?

- Nós sabemos de uma outra rainha britânica, Cartimandua, rainha dos Bogantes - replicou Jack. - Mas talvez tenham existido outras, talvez as mulheres com freqüência ocupassem o poder. E uma rainha habitualmente significa uma sacerdotisa importante. Lembre-se que o imperador romano era pontifex maximus, os faraós egípcios eram reis-sacerdotes, as rainhas e as pessoas da mesma espécie da Inglaterra são defensoras da fé.

- Uma rainha ruiva guerreira arquidruida - disse Costas debilmente. - Deus ajude seus inimigos.

- E como Londres se ajusta nisso tudo? - perguntou Jeremy.

- Eis aqui o lugar onde podemos de fato devotar-nos seriamente à arqueologia. - Jack desenrolou um mapa no chão, e Jeremy ajoelhou-se e segurou os cantos. - Ou, antes, onde ele não está. Este mapa mostra a área de Londres durante a Idade do Ferro. Como vocês podem ver, não há uma indicação clara de um assentamento na localização de Londinium, onde estamos agora. Alguns poucos achados de cerâmica, algumas das moedas de prata que as tribos começaram a produzir nas décadas antes da conquista romana. Não muito mais que isso.

- O que é isso? - Costas apontava para um objeto marcado no rio Tâmisa a oeste da cidade romana. - Uma couraça?

- O Battersea Shield, um escudo de bronze. Uma das mais finas peças de trabalho em metal da Antiguidade já encontradas, que rivalizava com as melhores que os romanos produziram. Você pode encontrá-la no Museu Britânico. Provavelmente data do século anterior à chegada dos romanos, e pode realmente sugerir o que acontecia neste lugar.

- Continue.

Jack permaneceu agachado. Quase todas as outras maiores cidades da Grã-Bretanha romana foram construídas sobre as localizações das capitais tribais da Idade do Ferro, quase sempre muito próximas das antigas fortificações. Camulodunum, onde os romanos construíram o seu templo para Cláudio, era uma colônia para veteranos romanos instalada no topo da capital tribal dos Trinovantes, uma tribo celta. Verulamium ficava ao lado da capital da tribo dos Catuvellauni. Era um sistema engenhoso, projetado para incutir a autoridade romana no coração do velho mundo tribal, e também para manter o poder básico dos velhos líderes tribais que se tornaram novos magistrados. O poder era delegado, mantendo a ambição da autoridade nativa, exatamente como os britânicos fizeram na índia.

- Mas Londres era a exceção - disse Jeremy.

Jack concordou. - Depois de começar como um porto de rio, Londres se tornou a capital provinciana quando foi reconstruída em seguida à revolta de Boudica. Mas algo estava acontecendo aqui antes que os romanos chegassem, algo realmente fascinante. O Battersea Shield era quase com toda certeza uma manifestação ritual, um objeto valioso deliberadamente lançado no rio como uma oferenda em cumprimento de um voto. Há outros achados como este encontrados no rio Tâmisa e seus afluentes, em rios e piscinas, espadas, escudos, lanças. Esta é uma tradição que remonta pelo menos à Idade do Bronze, e dura até o período medieval.

- Excalibur e a Dama do Lago - murmurou Jeremy.

- Oferendas parecem ter sido feitas nas fronteiras tribais - continuou Jack. - Talvez para armar o deus de sua tribo, era uma maneira de afirmar reivindicações territoriais, um pouco como o ritual medieval de bater tambor, nos limites da paróquia no dia de prece pública. E Londres era o maior local com fronteiras entre todos os que existiam, com pelo menos cinco áreas tribais convergindo para o Tâmisa. Anglesey pode ter representado a extremidade do mundo britânico na Idade do Ferro, mas Londres pode ter sido o seu ápice ritual.

- Ainda assim não foram encontrados templos - disse Costas.

- Você se lembra do relato de Tácito, os bosques sagrados em Anglesey? Londres estava densamente reflorestada na época da invasão romana, logo acima da borda da água. Dentro da floresta, ao longo da margem do rio e seus afluentes, havia clareiras, bosques, lugares agora perdidos debaixo das ruas de Londres.

Costas olhou atentamente para o mapa. - E que tal isto? Em 60 d.C., quando Boudica se revoltou, o único lugar que realmente não puderam submeter foi Londres, o novo assentamento romano construído em seu local sagrado. Eles evitaram o pior para ela.

Jack concordou de maneira entusiástica. - Tácito revela sua importância sem compreendê-la. Depois que os rebeldes devastaram Camulodunum e compeliram os sobreviventes romanos para dentro do templo de Cláudio localizado ali, os guerreiros celtas ouviram um presságio. Na embocadura do Tâmisa, um assentamento fantasma tinha sido visto em ruínas. Um mar estava vermelho, cor de sangue, e formas como cadáveres humanos eram vistos na maré vazante. Para Boudica, isto era um sinal para onde ir em seguida.

- O que aconteceu quando Boudica atingiu Londres?

- Não havia sobreviventes. O que Tácito diz é que o general Suetonis e seu exército alcançaram Londres vindos de Anglesey, antes que Boudica chegasse, mas ele decidiu que sua força era muito fraca para defender o local. Havia lamentos e apelos, e os habitantes tiveram permissão de deixar o local com ele. Aqueles que ficaram, os velhos, as mulheres, crianças, foram todos massacrados pelos bretões.

- O historiador Cássio Dio relata mais fatos. - Jeremy pegou um outro livro que Jack tirara de sua mochila. - Segundo me lembro, ele é a única outra fonte sobre Boudica, e escreveu mais de cem anos após o evento, mas talvez baseado em relatos perdidos de primeira mão. - Ele encontrou a página. - Eis o que os bretões fizeram para os seus prisioneiros":
A pior e mais bestial atrocidade cometida por seus captores foi a seguinte. Penduraram nuas as mulheres mais nobres e mais eminentes, cortaram fora seus seios e os costuraram em suas bocas, de maneira que dava a impressão de que elas os estavam comendo; em seguida empolaram as mulheres em espetos afiados que atravessavam todo o comprimento de seus corpos. Tudo isso eles fizeram com o acompanhamento de sacrifícios, festas e comportamentos usuais. Isto eles fizeram em seus lugares sagrados, especialmente no bosque de Andraste, o nome que davam para a deusa da Vitória.
- Isto se parece com uma cena de Apocalyse Now - murmurou Costas.

- Pode não estar muito longe - disse Jack baixinho. - O nome Boudica significa Vitória, e pode ser que seu bosque sagrado fosse uma espécie de charco à altura do rio, o seu Santo dos Santos.

- O seu próprio inferno particular, você quer dizer - disse Costas.

- Geoffrey de Monmouth achava que houve decapitação em massa - disse Jeremy baixinho. - Ele estava escrevendo no século XII, quando crânios humanos começaram a ser descobertos ao longo de Walbrook. Eles têm sido encontrados desde então, quando o rio está sendo escavado de fora para dentro. Crânios, centenas deles, arrastados de algum lugar e enterrados no cascalho do rio, bem debaixo do coração da cidade de Londres, onde o Walbrook flui para o Tâmisa. Geoffrey de Monmouth foi o primeiro a ligar os crânios com Boudica.

- Eu não entendi. - Costas pegara o livro de Tácito de Jack e estava folheando as páginas, parando e lendo. - Aqui vamos nós de novo. Sacrifícios, orgias de carnificina, cidades inteiras completamente destruídas, todos assassinados. Homens, mulheres, crianças. Corrijam-me se estiver errado, mas não parecem ser atos de alguém que simpatiza com o cristianismo. Eu não entendo por que Cláudio teria trazido seu documento precioso para Boudica, para sua tumba.

- Nós não sabemos o que estava acontecendo - disse Jack. - Jesus pode ter sido visto como um camarada rebelde contra o governo romano, um iconoclasta. E se Tácito e Cássio Dio estão certos, Boudica agiu por vingança, por desforra realizada à maneira dos bárbaros, que ela devia saber que causaria grande temor nos corações dos romanos.

- Ela também devia saber que era um ato suicida e que ela entrara num caminho sem volta - murmurou Costas. - Talvez isto a enlouquecesse. Lembrem-se de Apocalyse Now, o coronel Kurtz. Uma causa nobre, métodos insanos. Talvez Boudica tenha sido consumida por seu próprio coração de trevas.

- Falando nisso, está na hora. - Jeremy ergueu-se. - O diretor está abrindo a cripta especialmente para nós durante o concerto do meio-dia na igreja. Venham.


Alguns minutos mais tarde, encontravam-se dentro do pórtico da Guildhall Art Gallery, olhando para o pátio com a linha elíptica do anfiteatro romano marcada ao longo dele. A direita deles ficava a fachada do próprio Guildhall, e à esquerda a forma funcional e sólida de St. Lawrence Jewry, reconstruída depois da Segunda Guerra Mundial para se parecer o mais possível com o desenho ori¬ginal de Sir Christopher Wren como era antes do Grande Incêndio de Londres em 1666.

- Este local parece imaculado agora, mas ele passou por três círculos do inferno - disse Jack baixinho, olhando para a garoa. - A revolta de Boudica em 60 d.C., o massacre, possivelmente sacrifícios humanos. Depois o Grande Incêndio de 1666. Dos edifícios por aqui apenas o Guildhall não foi completamente destruído, por causa dos velhos carvalhos que não queriam queimar. Alguém que estava aqui disse que ele parecia um pedaço de carvão claro e brilhante, como se fosse um Palácio de Ouro ou um grande edifício de latão queimado. Então, três séculos mais tarde, o inferno o visitou novamente. Dessa vez de cima.

- Em 29 de dezembro de 1940 - disse Jeremy. - A Blitz.

- Uma noite entre muitas - replicou Jack. - Mas, naquela noite, a Luftwaffe atacou uma milha quadrada da cidade, a City de Londres. Minha avó estava aqui, trabalhava como mensageira no Ministério da Aeronáutica. Ela contou que o som das bombas incendiárias que caíam era odiosamente gentil, como uma pancada de chuva, mas que as bombas altamente explosivas tinham sido aprontadas com tubos de modo que elas gritavam em lugar de assobiar. Centenas de pessoas foram mortas e mutiladas, homens, mulheres, crianças. Aquele quadro famo¬so da Catedral de São Paulo envolta em chamas, mas milagrosamente intacta, representa aquela noite. St. Lawrence Jewry não teve tanta sorte. Ela se queimou como uma vela romana, as chamas se lançando acima da cidade. Um dos homens parados perto de minha avó no telhado do Ministério da Aeronáutica, observando as igrejas queimarem, era o vice-marechal da Aeronáutica Arthur Harris, "Bombardeiro" Harris. Ele viu a guerra total naquela noite. Ele foi o arquiteto da ofensiva britânica de bombardeio contra a Alemanha.

- Um outro círculo do inferno - murmurou Jeremy.

- Tudo isto ainda está aqui, debaixo de nossos pés - disse Jack. - A camada de destruição provocada por Boudica, terra carbonizada e cerâmica quebrada, ossos humanos. Depois grande quantidade de entulho da antiga igreja medieval destruída em 1666, limpada e enterrada para dar lugar às novas estruturas de Sir Christopher Wren. Depois uma outra camada de detritos resultantes de destruição provocada pela Blitz, com o trabalho de reconstrução ainda sendo feito.

- Alguma artilharia inexplorada? - perguntou Costas, esperançoso. - Lembre-se que você me deve a informação. Por causa daquele material que não queria me deixar tocar na Sicília.

Jack lançou um olhar a Costas, e depois passeou animadamente ao longo do pátio de Guildhall Yard. - Lembre-se de onde estamos, a camada do anfiteatro - ele disse enquanto pisava na linha curva no pavimento. Apontou para a parede ocidental de St. Lawrence Jewry, distante cerca de oito metros. - E a proximidade da igreja. - Eles alcançaram a entrada da igreja e rapidamente entraram nela. O concerto do meio-dia estava prestes a começar, e Jeremy os conduziu apressadamente pela nave lotada de pessoas sentadas, em direção a uma pequena porta de madeira na ala ocidental. Ele a abriu, entrou e os chamou com um gesto de mão.

Costas o seguiu, depois Jack. Quando Jack fechou a porta, a música começou. O concerto incluía uma seleção dos concertos para violino de Bach recuperados, e Jack reconheceu o Concerto em dó menor para solo de violino, cordas e baixo profundo. A música era audaciosa, confiante, alegre, o som do barroco agudo dava ordem para a confusão, estrutura para o caos. Jack demorou-se, e por um momento pensou em voltar e se sentar anonimamente na audiência. Sempre amara os concertos recuperados, o resultado de uma espécie de arqueologia musical que parecia espelhar seus próprios processos de descoberta, pequenos fragmentos de certeza reunidos por erudição, por um trabalho de suposição e intuição, que subitamente se fundiam com uma explosão de clareza, de euforia. Naquele instante, sentia que precisava de confiança, sem saber se as peças que tinham encontrado se juntariam e se a pista que estavam seguindo iria levar a uma conclusão que fosse maior do que a soma das partes.

- Venha, Jack - disse Costas. Jack fechou a porta e o seguiu descendo a escada, entrando em uma abóbada subterrânea abaixo do nível da nave. A vibração da música ainda estava ali, mas agora apenas como pano de fundo. Ele viu outra porta aberta e seguiu-os entrando em uma outra câmara, menor e mais escura. A câmara era antiga, muito mais antiga que a estrutura de alvenaria da igreja de Wren, e parecia que fora limpa recentemente. Apenas uma lâmpada elétrica pendia da abóbada feita de tijolo. Jeremy fechou e trancou a porta que dava para as escadas, e passou a mão ao longo da alvenaria perto dele. - Esta é uma câmara de sepultamento medieval, basicamente é uma cripta particular. Foi encontrada durante o recente trabalho de escavação. Este é o ponto mais distante que alguém conseguiu alcançar em direção à extremidade do anfiteatro.

- Deve ser esta, então - disse Jack. - O que acha, Jeremy?

- Concordo plenamente.

Costas olhou para eles. - Muito bem, Jack. Eu quero uma explicação para lá de boa sobre o que estamos fazendo aqui.

Jack assentiu, agachou-se e apoiou-se contra uma parede, sua mochila caqui pendurada em seu ombro esquerdo. Ele estava excitado, e respirou profundamente. - Muito bem. Quando trabalhávamos em Roma tentando decifrar o enigma, a localização me apareceu de repente e imediatamente pensei em Sir Christopher Wren e esta igreja. Quando freqüentei a escola em Londres, eu costumava vir bastante aqui, visitar os locais atingidos pelas bombas e ajudar na escavação. Isto ocorreu quando minha avó me contou o que ela tinha vivido aqui naquela noite durante a guerra. Tendo visto por mim mesmo o que o bombardeio e a limpeza haviam revelado no centro de Roma, fiquei fascinado pelo inferno anterior, por aquilo que Wren podia ter encontrado depois do Grande Incêndio de 1666. Isto foi antes do início da arqueologia, quando muitos achados quase nunca eram reconhecidos, quanto mais registrados.

- Com poucas exceções - murmurou Jeremy.

Jack concordou. - O próprio Wren tinha um interesse por coisas antigas, e mencionou materiais encontrados sob a Igreja de São Paulo. Foi isto que realmente me estimulou. Depois, descobri que St. Lawrence Jewry era propriedade do Balliol College, de Oxford. Um dos meus tios era membro do conselho do colégio, e me conseguiu uma visita ao arquivo para ver se havia qualquer registro de achados feitos aqui depois de 1666. Isto ocorreu anos atrás, e eu não tomei notas detalhadas. Por isto pedi a Jeremy para verificar.

- E você se saiu melhor do que o esperado - disse Costas.

- Jack disse que o que encontrara era apenas um fragmento, parte do diário do mestre pedreiro, mas eu o encontrei - replicou Jeremy, tirando um caderno de apontamentos do bolso de seu casaco. - Isto é fantástico. Ocorreu quando eles estavam retirando o entulho e queimando a madeira da construção no fogo, tentando encontrar buracos subterrâneos para enterrar o material, buracos não usados, fossas, galerias subterrâneas. Um dos operários descobriu uma cripta que deve ser esta câmara. Ele descreveu que estava andando por uma outra cripta quando viu uma fileira de grandes pipas com alças, de cerâmica e em pé, apoiadas contra uma parede feita de barro, de um lado da cripta. Pensou que elas poderiam ser pipas de drenagem, provavelmente o revestimento de um poço, portanto as deixou intactas. Encheram de detritos, o mais que puderam, o espaço de um dos lados e revestiram com tijolos. Depois saíram e fecharam com tijolos também a entrada da primeira cripta. - Jeremy fez um gesto em direção à parede desmoronada no lado mais distante da câmara, situada em oposição às escadas. - Lá adiante. Deve ser aquela parede. O revestimento de tijolo parece ter sido feito apressadamente, e definitivamente é pós-medieval. Parece que a parede não foi mexida desde então.

Costas parecia perplexo. - Pipas de drenagem. Então para onde isso vai nos levar?

Jack tirou uma foto de sua mochila e entregou-a a Costas. - Isso nos leva - ele disse - de volta para a Idade do Ferro.

- Ah - disse Costas. - Entendi. Não são pipas de drenagem. São ânforas.

- Mais do que apenas ânforas - disse Jack muito excitado. - É muito mais. Ânforas intactas por si só seria um achado fantástico, mas é o contexto que conta.

- O anfiteatro? - perguntou Costas. - Um bar, uma taverna como aquela que vimos em Herculano?

- Bom chute - disse Jack. - Mas esta foto é de um lugar chamado Sheepen. Foi exatamente como os arqueólogos as encontraram. Ânforas de vinho intactas, cinco delas enfileiradas, taças para beber, outros artigos. Elas são de uma sepultura.

- Então nós conseguimos uma sepultura romana? - perguntou Costas.

- Não é romana. Você se lembra do que eu disse sobre a apreciação celta por vinho? Vinho importado tinha o poder de despertar respeito, era um sinal de riqueza e de status. Não, a sepultura é de um guerreiro celta. - Jack subitamente se sentiu exuberante. - Eu sabia. Todos aqueles anos atrás, quando era garoto, eu sabia que estava na pista de algo realmente grande. Seja onde for que esta trilha nos leve, esta pode ser a realização de um outro sonho que tenho.

Costas olhou para a foto, depois para a parede de tijolos na frente deles. Começou a falar, mas de repente se deteve, paralisado. Olhou novamente para a foto, depois para Jack. - Putz grila - ele disse debilmente.

Jack olhou para ele, e fez um gesto de cabeça. - Sim.

- Não apenas um guerreiro. Uma rainha guerreira - sussurrou Costas. Jack assentiu, sem dizer nada.

- O que nós sabemos? - perguntou Jeremy.

Jack olhou para seu relógio. - Se tudo estiver dentro dos planos, o furgão com o equipamento estará lá fora dentro de uma hora. Até lá o concerto terá terminado e poderemos introduzir todo o equipamento discretamente, se o pessoal da igreja concordar.

- Eu só tenho que falar com mais um sujeito, mas é bom irmos andando - disse Jeremy, olhando para Costas, que levantou o polegar.

- Não estamos assumindo nenhum risco - disse Jack. - Pedimos equipamento completo. Pode ser que tenhamos que descer abaixo do nível do lençol de água, e quem sabe o que mais pode haver lá embaixo. Eu nem mesmo vou mexer naquela parede até estarmos prontos. Entrementes, posso simplesmente subir e ir ouvir música.

- Não, você não pode - disse Costas. - Eu ainda preciso esclarecer certas coisas. Algumas poucas coisas grandes. Como, por exemplo, o cristianismo se insere em todo este assunto da rainha guerreira.

- De acordo - disse Jeremy, empurrando seus óculos para cima e olhando para Costas. - Quando se trata do início do cristianismo na Grã-Bretanha, esta pode ser minha área. Desembuche logo, Costas.

- Antes de encontrar com você esta manhã, fomos à Biblioteca Britânica - disse Costas. - Jack precisava verificar algumas informações materiais sobre a igreja, e enquanto ele estava ocupado eu visitei a exposição de antigos manuscritos. Eu vi uma das bíblias trazidas por santo Agostinho para a Grã-Bretanha em 597 d.C. O que ocorreu quase duzentos anos depois que os romanos foram embora. É nisto que reside a minha confusão. Eu achava que foi Agostinho quem trouxe o cristianismo para a Grã-Bretanha. E pensei, como pode haver cristãos na Grã-Bretanha romana?

Jeremy, que estava sentado encostado na parede, inclinou-se para frente. - Esta é uma concepção errônea muito comum. E é isto que os historiadores da Igreja anglo-saxônica gostariam que as pessoas acreditassem, mesmo grandes nomes como Beda.

- Eu não entendi.

- A Igreja da Inglaterra, a ecclesia Anglicana, era realmente a Igreja dos anglo-saxões. Ela estava intimamente ligada com a realeza e com Roma. Suas origens estão associadas à missão de Agostinho, que supostamente trouxe o cristianismo para uma população pagã. Mas mesmo os anglo-saxões sabiam que havia existido uma Igreja anterior, quando os romanos tinham governado.

- A Igreja dos bretões - murmurou Jack. - A Ecclesia Britannorum. A Igreja dos celtas.

- Para entender mais sobre isto, devemos nos reportar a Gildas - disse Jeremy. - Um monge inglês que viveu no início do século VI, cerca de uma centena de anos antes de os romanos saírem, um par de gerações antes da chegada de Agostinho. Gildas é praticamente o único bretão que sabemos que pode ter estado vivo na época do rei Arthur. Se Arthur existiu de verdade, ele era um rei guerreiro britânico que lutava contra os invasores anglo-saxões naquela época.

- Como Frei Tuck - disse Costas.

- O livro de Gildas se chama De Excidio Brittonum, a "Ruína da Grã-Bretanha". Ele foi escrito em latim, mas consegui uma tradução. - Jack procurou dentro de sua mochila e retirou um livro cinza e azul bastante usado com um símbolo Qui-Rô na capa. Trata-se de um discurso bombástico de como os reis que governaram a Grã-Bretanha depois que os romanos foram embora falharam com seu dever cristão. Eu me interessei por ele porque Gildas menciona Boudica.

- A leoa enganosa - disse Jeremy, sorrindo.

- Isto é tudo o que ele diz, mas sugere que a lembrança dela persistia, mesmo num padre que não sabia nada de história romana, e pouco da história cristã quanto àquele assunto.

- Você não pode responsabilizar o pobre velho Gildas - disse Jeremy. - Ele realmente viveu em épocas negras.

- Ele era um clássico reclamão britânico - disse Jack. - Nada nunca estava certo para ele, no entanto, tinha uma espécie de visão romântica, não muito precisa, da Grã-Bretanha. Ela era uma ponte para o céu, suspensa na divina balança que sustenta o mundo inteiro, mas repleta de pessoas mal-agradecidas que se recusavam a temer a Deus, a curvar-se diante de uma autoridade. Hoje em dia, Gildas teria dirigido incessantemente cartas ao editor, reclamando. Ele teria amado a Internet. Ouçam isto. O objeto de minha reclamação é a destruição geral de tudo o que é bom, e o crescimento geral da maldade através do país.

- Que esclarecedor - disse Costas.

- Mas ele nós dá o primeiro relato feito por alguém da descoberta da Igreja Britânica, a Igreja Celta - disse Jeremy.

Jack concordou com um gesto, e virou a página. - Aqui está. - Ele leu em voz alta:


Entretanto, para uma ilha entorpecida com um frio gelado e muito afastada, como num recanto remoto do mundo, do sol visível, Cristo deu um presente feito de seus raios, quer dizer, de seus preceitos, Cristo, o verdadeiro sol, que mostra seu brilho deslumbrante para a terra inteira, não do firmamento meramente temporal, mas da mais alta cidadela do céu, que se estende além de todo o tempo. Isto aconteceu pela primeira vez, como sabemos, nos últimos anos do imperador Tibério, numa época em que a religião de Cristo estava começando a ser propagada sem impedimento: porque, contra os desejos do Senado, o imperador ameaçou com pena de morte os informantes contra os soldados de Deus.
- Pelo menos ele descreveu bem o tempo que fazia na ilha - resmungou Costas. - Então, o que ele fez? O imperador Tibério?

- Ele era o imperador romano na época da crucificação - disse Jeremy. Jack fechou o livro. - O tio de Cláudio governou de 14 a 37 d.C. Gildas parece pensar que o próprio Tibério era cristão, em desacordo com um Senado pagão. Isto está bastante adulterado. Muitos eruditos acham que é um anacronismo, no que se refere aos problemas que os imperadores cristãos tinham com o Senado pagão no século IV d.C., depois que Constantino, o Grande, fez do cristianismo a religião do Estado. Em nenhum outro lugar existe a indicação de que Tibério era cristão. Mas o que encontramos nos últimos dias, em Herculano, em Roma, em Londres, me fez pensar.

- Não Tibério, mas um outro imperador - murmurou Jeremy.

- A Igreja Britânica, a Igreja Celta, não deixou registros escritos. Se houve alguns, eles teriam sido destruídos pelos anglo-saxões. Mas será que Gildas estava contando uma verdade distante, uma memória do povo talvez, ou até mesmo um segredo passado de boca em boca entre os seguidores da Igreja Britânica durante mais de cinco séculos? Será que ele estava contando que houve, de fato, um imperador cristão, ou um imperador bem disposto em relação a Jesus, não Tibério, mas um outro imperador que vivia na época de Cristo?

- Cláudio - exclamou Costas.

- Isto é apenas possível. - Jack estava vermelho por causa da excitação, e gesticulava enquanto falava. - Na época de Gildas, a verdadeira identidade do imperador pode ter sido confundida. Cláudio teria sido lembrado como o invasor da Grã-Bretanha, como o imperador deificado que era adorado no templo em Colchester. Um cristão bastante improvável. Mas Gildas teria ficado sabendo de Tibério pelos Evangelhos como o imperador que tinha presidido a morte de Jesus. Para Gildas, poderia parecer o triunfo máximo do cristianismo sugerir que o próprio Tibério era um convertido. Isto teria sido uma ficção extravagante, mas Gildas vivia numa época em que muitos acréscimos fantasiosos estavam sendo feitos à história dos eventos que envolveram a vida de Cristo.

- Eu ainda não entendi a conexão com a Grã-Bretanha - disse Costas.

- Gildas estava querendo sugerir que o cristianismo chegou à Grã-Bretanha mais ou menos naquela época, durante o primeiro século d.C. - replicou Jeremy. - Ele estava mesmo sugerindo que o próprio imperador o trouxe, em pessoa. A sua obra De Excidio Brittonum era um livro exclusivamente sobre a Grã-Breta¬nha, não sobre uma história mais ampla.

- Qual é outra evidência da existência do cristianismo aqui no primeiro século? - perguntou Costas. - Da arqueologia, eu quero dizer.

- Não há evidência definitiva até o século II, mas é apenas no século IV que se começam a ver igrejas, sepultamentos, símbolos visíveis do cristianismo depois que ele se torna a religião do Estado - disse Jack. - Mas o cristianismo primitivo era uma religião de palavras, não de ídolos e templos. Ele era reservado, freqüentemente perseguido. Se não fossem os Evangelhos e algumas poucas fontes romanas, não saberíamos absolutamente nada sobre o cristianismo do primeiro século d.C. Você se lembra do nosso navio naufragado? Aquele símbolo Qui-Rô rabiscado era a única evidência visível que percebemos ali de cristianismo, no entanto era o navio de são Paulo, um dos episódios importantes na história do cristianismo primitivo.

- Lembre-se também quem estava falando sobre isto no primeiro período na Grã-Bretanha - acrescentou Jeremy pensativo. - Ali viviam os imigrantes, comerciantes e soldados que podiam muito bem ter trazido a idéia de cristianismo com eles, e chegaram a venerar Cristo como outros adoravam Mitra ou Isis. Mas a grande maioria da população era constituída de nativos. Romanizados até certo ponto, mas conservando muito da forma de viver celta e seus costumes. Do que Jack me contou, sua religião quase não deixou nenhum traço arqueológico. Essas pessoas não tinham tendência para construir templos e altares ou para esculpir estátuas de seus deuses. A arqueologia nunca nos diria muita coisa sobre eles.

- Muito bem - Costas estava parecendo desassossegado. - Aceitamos que existia cristianismo no início da Grã-Bretanha romana. Mas, se era assim, por que a Igreja anglo-saxônica deseja negar o fato? Quero dizer, isto não seria algo a ser celebrado, que sua religião já existia no local havia centenas de anos antes?

- Mas esta não era a religião deles - disse Jeremy calmamente.

- Hein?


- A época de Gildas, a época do rei Arthur, não foi apenas um período formativo na história política da Grã-Bretanha - disse Jeremy. - Foi também uma época em que um conflito dentro das comunidades cristãs da Grã-Bretanha começou a aparecer pela primeira vez de forma ampla, um conflito que iria configurar a história britânica. Todos conhecem a história do rei Henrique VIII, sua ruptura com a Igreja Romana. Mas poucos sabem que as raízes da Reforma Inglesa no século XVI remontam a esse período, ao tempo em que a Igreja Britânica se rebelou contra Roma e proclamou sua conexão direta com a Terra Santa, com Jesus o homem.

- A heresia de Pelágio - murmurou Jack.

- Pelágio era um outro monge inglês, anterior a Gildas, possivelmente irlandês, nascido por volta de 360 d.C., quando os romanos ainda controlavam a Grã-Bretanha. Na época de Pelágio, o Império Romano tinha sido oficialmente cristão durante várias décadas, desde a conversão de Constantino, o Grande, e esforços tinham sido feitos para estabelecer a Igreja Romana na Grã-Bretanha. O próprio Pelágio havia ido estudar em Roma, mas ficou muito perturbado com o que viu por lá. Ele entrou em conflito direto com um dos poderosos da Igreja Romana.

- Santo Agostinho de Hipona - disse Jack.

- Correto. Autor das Confissões e A Cidade de Deus. O outro Agostinho, não aquele que trouxe a Igreja Romana para a Grã-Bretanha, mas aquele cuja Bíblia você viu na Biblioteca Britânica, Costas. Vou falar dele dentro de um minuto. O segundo, Agostinho de Hipona, chegou a acreditar no conceito de predestinação, que o cristianismo era completamente dependente da Graça divina, do favor de Deus. Do ponto de vista dele, o Reino dos Céus só podia ser procurado através da Igreja, não por livre-arbítrio. Isto era uma doutrina teológica, mas que proporcionava imensos benefícios práticos para a Igreja Romana, para o recente Estado cristão.

- Dominação, controle - murmurou Jack.

- Isto tornava os crentes subservientes à Igreja, que era o canal da graça divina. Tornava o Estado mais forte, mais capaz de controlar as massas. Igreja e Estado se fundiam como um poder inexpugnável, e o palco estava montado para o mundo medieval europeu.

- Mas Pelágio não estava gostando nada disso - disse Jack.

- Pelágio provavelmente se via como um membro da comunidade cristã ori¬ginal que existira na Grã-Bretanha antes que a Igreja Romana oficial chegasse, que remontava aos primeiros seguidores de Jesus no primeiro século - disse Jeremy. - A Igreja Celta provavelmente era formada por muitos bretões romanizados cujos ancestrais eram celtas. O pouco que sabemos sobre Pelágio é virtualmente a única evidência direta que temos de suas crenças. Parece provável que eles consideravam o conceito de céu na terra como verdade, a idéia de que o céu poderia ser encontrado ao redor deles, no decorrer de suas vidas terrestres. Para eles, a mensagem pode ter sido interpretada como encontrar e glorificar a beleza na natureza, como amor e compaixão graças a ela. Teria sido um conceito moralmente fortalecedor, completamente em desacordo com a lassidão que Pelágio encontrou em Roma. Quando esteve aqui, ele se pôs contra Agostinho de Hipona, negou a doutrina de predestinação e de pecado original, defendeu a bondade humana inata e o livre-arbítrio. Era uma batalha sem esperança, mas ele era um guia para a resistência e seu nome ecoou através dos séculos, em lugares ocultos e reuniões secretas, numa época em que qualquer indício dessas reuniões poderia significar prisão, tortura, e até mesmo algo pior.

- O que aconteceu a ele? - perguntou Costas.

- É uma história horrível, e montou o palco para muitas coisas que aconteceram depois. A doutrina de Pelágio foi condenada como herética pelo Sínodo de Cartago em 418 d.C. O próprio Pelágio foi excomungado e banido de Roma. Não fica claro se alguma vez ele voltou para a Grã-Bretanha. Alguns acreditam que ele foi para a Judéia, para Jerusalém, para o lugar da tumba de Cristo, e foi assassinado ali.

- Já havia forças sombrias dentro da Igreja, que não tinham escrúpulos em executar o que consideravam a justiça divina - disse Jeremy. - Mas elas não puderam controlar o que estava acontecendo na Grã-Bretanha. Depois da retirada dos romanos em 410 d.C., depois que as cidades se desagregaram e se deterioraram, a Igreja Romana, que tinha sido trazida pelos bispos de Constantino, parece ter virtualmente desaparecido. Era isto que Gildas lamentava. Provavelmente ele próprio era um dos últimos monges na Grã-Bretanha da Igreja Romana do século IV, embora ela fosse bastante confusa. Com o edifício do Estado removido, a Igreja Romana não detinha mais controle sobre as pessoas que não eram atraídas pela doutrina de Agostinho. Então, os anglo-saxões invadiram a Grã-Bretanha. Eles eram pagãos. E é assim que chegamos ao segundo Agostinho, Costas. Santo Agostinho de Canterbury. Ele foi enviado pelo papa Gregório em 597 d.C. com quarenta monges para converter o rei Aethelbert de Kent, e depois disso a Igreja Romana permaneceu na Grã-Bretanha.

- Mas o cristianismo celta continuou - disse Costas.

- Ele sobreviveu ao primeiro Agostinho, e sobreviveu ao segundo - disse Jeremy. - Havia algo em sua filosofia que atraía a linhagem celta descendente dos bretões, algo que eles acreditavam que estava em conformidade com os ensinamentos originais de Jesus, que também transmitia uma verdade universal sobre a necessidade de liberdade e de aspiração individual. Algo que havia sido ensinado a eles pelo primeiro seguidor de Jesus a alcançar estas praias, talvez pelo imperador vagamente lembrado por Gildas. Uma sabedoria que eles mantiveram e apreciavam, uma memória sagrada.

- As pessoas deviam ter controle e responsabilidade por suas próprias ações, seu próprio destino - disse Jack.

- Este é o cerne da doutrina de Pelágio. Suas objeções remontavam ao próprio início da Igreja, como se pode ver em seu Comentário sobre a Epístola de São Paulo. Quando Pelágio chegou a Roma, ele viu frouxidão moral, decadência, e considerou responsável por isso a idéia de graça divina. Se tudo está predestinado e dentro do capricho de Deus, por que se preocupar com boas ações ou tentar fazer do mundo um lugar melhor? Ele objetava a noção de subserviência de Agostinho, do "dê-me o que você ordena e ordene sua vontade", que transformava as pessoas em autômatos. Ele odiava toda a noção de pecado e de culpa. Segundo o seu ponto de vista, as pessoas podem evitar pecar, o pecado não é algo que já existe em todos nós, e podemos livremente escolher obedecer a Deus, viver uma vida santa. A doutrina de Pelágio dizia respeito ao individual, ao livre-arbítrio, à força moral. De acordo com ele, o exemplo de Jesus não era originalmente o de sacrifício, mas sim de instrução. Jesus mostrou como viver uma boa vida, e os cristãos podem escolher segui-lo. E o que é realmente fascinante é como essas idéias podem representar uma continuidade do paganismo celta, que parece ter defendido a habilidade do indivíduo de triunfar como pessoa, até mesmo sobre o sobrenatural.

- O que não entendo é como a Igreja Celta sobreviveu à Idade das Trevas - disse Costas. - Quero dizer, primeiro os anglo-saxões invadiram, depois os vikings, em seguida os normandos. Essa história de linhagem celta deve ter sido bastante enriquecida na época.

- Ela sobreviveu, mas não apenas naqueles com linhagem céltica - disse Jeremy. - Este fato tem a ver com o tipo de pessoa que escolheu vir para a Grã-Bretanha, e persistiu em ficar. Não foram apenas as pessoas que vieram com as famosas invasões, mas imigrantes tardios também, os judeus sefardis, os huguenotes. Eles tinham algum traço comum, os traços necessários para serem bem-sucedidos aqui. Independência, obstinação, teimosia, resistência diante da autoridade, força diante da privação. Tudo perto deste lugar onde estamos agora. O espírito da Blitz.

- Eu mesmo acho que é algo que tem a ver com o estado atmosférico - resmungou Costas. - É preciso ter alguma coisa a mais para sobreviver neste lugar.

- Ele fez uma pausa. - Então, vocês acham que esta igreja, St. Lawrence Jewry, contém toda esta história nela?

- Não há nada que prove que houve uma igreja aqui antes do século XI, quando os normandos chegaram - disse Jack. - Mas ninguém conhece a localização das igrejas perto do final da Londres romana. Antes disso, as reuniões dos cristãos eram fechadas, e, mesmo depois que o cristianismo se tornou a religião oficial, o culto religioso das congregações nunca se firmou na Grã-Bretanha romana. Mas este é um local muito provável. Bem perto do anfiteatro, um lugar que teria sido associado com o martírio de cristãos. E as igrejas com freqüência eram construídas em locais de rituais pagãos. Isto pode ter acontecido um grande número de vezes aqui, algo verdadeiramente sagrado. Este lugar pode ter ocultado um segredo extraordinário.

- O coração das trevas - murmurou Costas, olhando para a parede de tijolos no final da câmara.

Jack seguiu seu olhar, com pensamentos e emoções passando excitados por ele. Olhou para o relógio. A música tinha terminado no andar superior, e ouviram uma batida na porta. Ele se ergueu, respirou profundamente e pendurou a mochila no ombro. - Acho que estamos a ponto de descobrir.




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